quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Jornalista reconstitui fatos inéditos do período militar

Matheus Leitão em lançamento do livro "Em nome dos pais", 
em Brasília. (Sérgio Lima/Poder360).

Em nome dos pais, Autor: Matheus Leitão, Editora: Intrínseca,
Ano: 2017, Páginas: 448.

Publicado originalmente no site Poder360, em 04 de junho de 2017.

Livro narra jornada do autor em busca de responsáveis pela tortura dos pais

Jornalista reconstitui fatos inéditos do período militar
Obra conta a história de Míriam Leitão e de Marcelo Netto

Por Rodrigo Zuquim.

Em 3 de dezembro de 1972, na capital do Espírito Santo, os jornalistas Míriam Leitão e Marcelo Netto foram abordados por homens armados. O país vivia uma ditadura. À época estudantes universitários –ela cursava filosofia; ele, medicina–, os jovens seguiam rumo à praia, numa manhã de domingo. Os homens desembarcaram de uma Veraneio militar, disfarçada de veículo civil. Levaram o casal. Míriam tinha 19 anos. Marcelo, 22. No lugar do mandado de prisão, mostraram uma metralhadora. Em vez da praia, o destino foi o 38º Batalhão de Infantaria, onde Míriam e Marcelo seriam torturados.

“Em nome dos pais” é o resultado da busca obsessiva de 1 filho, Matheus Leitão Netto, para recuperar a história dos pais, esclarecer pontos obscuros e, ao contar o que aconteceu, fazer-lhes alguma justiça. Não a das leis, mas a das luzes. Iluminar fatos então submetidos à sombra dos porões. Conferir-lhes existência, a fim de que se possa, enfim, superá-los.

Também a obsessão jornalística (Matheus seguiu a profissão dos pais) num empenho de investigação que o levaria a reconstituir fatos decisivos para a desarticulação do Partido Comunista do Brasil durante o regime militar.

A maneira pela qual o jornalista conta a história explora bem as possibilidades do livro-reportagem. Ora trama detetivesca e registro histórico, ora relato pessoal e biográfico, a narração perambula pelo passado e pelo presente e intercala a voz dramática da memória com a letra fria dos documentos.

O objetivo inicial que move o autor é a busca pelo delator de seus pais. Ao encontrá-lo, rearranja seu alvo. Dá-se conta de que o mal não está no traidor que sucumbiu ao medo da tortura e decidiu entregar os parceiros. Havia um responsável pelo que acontecia no 38º Batalhão, conhecido por Guilherme. Capitão Guilherme. Era no ato deliberado, na escolha voluntária daquele comando, que residia o mal. Encontrar o capitão passa a ser a nova meta.

Há alguns trechos que poderiam talvez ter sido abreviados em nome da fluidez geral do texto. Por exemplo, os diálogos mantidos com seus documentaristas no transcurso das viagens que fazem para as entrevistas ou as divagações de teor religioso. Essas passagens têm relevância menor para a história principal. Entretanto, não diminuem a força da obra.

Em dado momento, suspende-se a narração dos fatos (tão duros e ásperos) e cede-se espaço à voz ficcional, que introduz uma aventura imaginada. Um breve interlúdio ao leitor. Matheus transcreve algumas páginas de 1 romance inacabado, encontradas por acaso nas estantes do pai. Dois amigos planejam explodir as pontes que ligam Vitória ao continente, com o plano de ocupar a capital do Espírito Santo e dar início a uma revolução. Apesar da premissa extrema, lê-se naquelas páginas apenas o sonho febril, em parte ingênuo, de uma aventura idealista. Uma história de amigos.

“Em nome dos pais” trata, por fim, do gesto de 1 filho a correr em socorro dos pais, depois de tudo, para dizer à jovem Míriam e ao jovem Marcelo que tudo ficaria bem.

Texto e imagem reproduzidos do site: poder360.com.br

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