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terça-feira, 1 de setembro de 2026

O Brasil que trabalha e dá certo

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 31 de agosto de 2026

O Brasil que trabalha e dá certo

O Brasil real é a nação de milhões de pessoas que acordam cedo, enfrentam dificuldades, criam empregos, inovam e sustentam suas famílias. Carlos Alberto Di Franco para a Gazeta do Povo:

O negativismo sistemático é uma forma sutil de falsear a realidade. A vida, como uma grande pintura, é feita de luzes e sombras. O jornalismo responsável não pode esconder os problemas, silenciar diante da corrupção nem abandonar sua função fiscalizadora. Mas também não deve apresentar a realidade como um imenso corredor sem portas e sem janelas.

A velha máxima segundo a qual notícia ruim é notícia boa contaminou parte da imprensa. O resultado está diante de nós: manchetes carregadas, análises sombrias e uma sucessão de conteúdos que parecem destinados a castigar diariamente o fígado do leitor. A denúncia, indispensável à democracia, transformou-se, em alguns ambientes, numa espécie de denuncismo profissional.

O problema não está na crítica. Está na obsessão seletiva pelo fracasso. Está na incapacidade de perceber tudo o que nasce, cresce e prospera longe dos gabinetes oficiais e dos corredores do poder. O Brasil real não é apenas o país das crises políticas, das decisões judiciais controversas e dos escândalos administrativos. É também a nação de milhões de pessoas que acordam cedo, enfrentam dificuldades, criam empregos, inovam e sustentam suas famílias. É preciso olhar para elas.

O empreendedorismo brasileiro não é uma construção teórica. É uma realidade concreta, frequentemente nascida da necessidade. Muitos dos nossos empresários começaram com pouco dinheiro, escasso apoio e enormes obstáculos. Não herdaram estruturas prontas. Construíram seu caminho degrau por degrau, acumulando experiência, enfrentando erros e transformando dificuldades em oportunidades.

Empreender exige coragem. Mas coragem não é ausência de medo. É a decisão de seguir adiante apesar dele. O verdadeiro empreendedor não ignora os riscos: procura conhecê-los, administrá-los e vencê-los. Cai, aprende e recomeça. Sabe que nenhum crescimento consistente acontece sem trabalho, disciplina, formação e perseverança.

Um bom exemplo desse Brasil inovador é a Akiyama, empresa nacional fundada em 2005 e especializada em identificação biométrica. Com tecnologia desenvolvida no país, tornou-se referência em um setor estratégico, oferecendo suporte técnico e manutenção em mais de 5 mil municípios, incluindo todas as capitais brasileiras.

A dimensão de sua atuação impressiona. Mais de 140 milhões de brasileiros foram cadastrados por meio de equipamentos e programas fornecidos pela empresa. Em um país continental, garantir identificação segura, confiabilidade dos dados e atendimento técnico em milhares de localidades é uma tarefa de enorme complexidade.

A trajetória da Akiyama revela uma verdade importante: empresas que olham para o futuro não podem viver prisioneiras do retrovisor. Precisam preservar os valores que as fizeram crescer, mas devem estar abertas à renovação. Tradição e inovação não são adversárias. Quando bem combinadas, tornam-se poderosas ferramentas de desenvolvimento.

Outro exemplo inspirador vem de Rondônia. Tony Cozendey nasceu numa família humilde em Alta Floresta do Oeste. Aos 15 anos, mudou-se para Buritis e começou a trabalhar como office boy em uma ótica. Fazia cobranças de bicicleta, percorrendo os bairros da cidade. Depois, aprendeu a ajustar e montar óculos. Aos poucos, passou a atender os clientes e tornou-se vendedor.

Cada tarefa foi uma escola. Tony não desprezou os trabalhos simples nem ficou esperando a oportunidade ideal. Transformou o serviço cotidiano em aprendizado. Observou o funcionamento do negócio, conheceu as necessidades dos consumidores e descobriu um mercado que poderia ser mais bem atendido.

Anos depois, passou a comandar sua própria rede, presente em 14 estados, com mais de 34 unidades e faturamento anual em torno de R$ 20 milhões. O Instituto Visão Solidária, conhecido como IVS, cresceu oferecendo óculos a preços acessíveis, especialmente em cidades das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

A história de Tony mostra que o crescimento profissional raramente ocorre por meio de saltos espetaculares. Ele é construído com pequenas conquistas: aprender uma tarefa, atender bem um cliente, conquistar confiança, assumir novos desafios e não se acomodar. Antes de dirigir uma empresa, é necessário aprender a dirigir a própria vida.

O Brasil precisa valorizar essa cultura do esforço. Precisamos formar jovens que não tenham medo do trabalho, da responsabilidade e do risco. Jovens que compreendam que direitos e deveres caminham juntos e que a realização profissional não nasce apenas do desejo, mas da competência, da constância e do caráter.

A imprensa tem importante papel nessa tarefa. Deve denunciar os abusos, mas também revelar os bons exemplos. Deve fiscalizar o poder, sem ignorar a vida que pulsa fora dele. Deve mostrar o empresário que investe, o trabalhador que se aperfeiçoa, o professor que transforma uma escola, o jovem que abre um negócio e a comunidade que encontra soluções para seus problemas.

As sombras existem e precisam ser mostradas. Mas elas não conseguem apagar as luzes que brilham todos os dias na vida de milhões de brasileiros. Há um Brasil que trabalha, empreende, aprende e cresce. Um país que não aparece sempre nas manchetes, mas que merece ser conhecido.

Como sugeriu Guimarães Rosa, quando parece que nada acontece, pode haver um milagre que não estamos percebendo. Cabe ao bom jornalista abrir os olhos, sair às ruas e contar também os milagres cotidianos do trabalho, da perseverança e da esperança.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Como os democratas reagem


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Artigo compartilhado da revista [insightinteligencia], de São Paulo, maio de 2025.

Edição 110

Como os democratas reagem

Oscar Vilhena, Jurista

Armínio Fraga, Economista

No lançamento de um livro organizado em parceria com Oscar Vilhena e Rubens Glezer, o editor da revista descobriu, já em clima de descontração após o evento, que Oscar e Armínio Fraga eram amigos – amizade reforçada pela participação comum na articulação do ato de 11 de agosto de 2022, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Estamos falando do que talvez tenha sido o mais expressivo gesto da sociedade civil em defesa da democracia E contra o golpismo de Jair Bolsonaro. O editor que vos escreve convenceu-os, não sem esforço para vencer a modéstia de ambos, a oferecer este depoimento sobre os bastidores daquele episódio.

O resultado é um relato raro e precioso, que ultrapassa o registro histórico ao mostrar como, nos momentos de maior perigo, a sociedade pode se mobilizar para preservar a democracia – lição que jamais deve ser esquecida. Pois, como lembravam os antigos, o preço da liberdade é a eterna vigilância.

Christian Lynch

QUANDO A DEMOCRACIA TREME

A recente trajetória de avanços contra o estado democrático encontrou no Brasil um palco singular. Se, de um lado, víamos um empoderamento inédito de grupos sociais historicamente silenciados, de outro, passamos a acompanhar a reação virulenta de forças que se sentiram deslocadas de um espaço de hegemonia. É nesse ambiente de tensão que a retórica libertária se encontra com a retórica reacionária da extrema direita, fortemente militarista, se convertendo em ameaça concreta. As instituições civis passaram a ser colocadas à prova. Dadas as suas falhas e fragilidades, a disposição da sociedade em defender essas instituições também não se mostrou muito grande. As ambiguidades da democracia brasileira, sempre marcada pela oscilação entre inclusão e exclusão, atingiram um ponto crítico quando a retórica incendiária passou a se traduzir em ensaios de ruptura institucional. O que antes parecia apenas um jogo de palavras transformou-se em risco palpável. A democracia, até então testada no campo das ideias, passou a ser desafiada nas ruas.

DA SEMÂNTICA ÀS RUAS

A corrosão do pacto democrático, que vinha sendo alimentada por discursos distorcidos e por ataques sistemáticos às instituições, encontrou em Jair Bolsonaro o seu principal catalisador. O presidente transformou a retórica da liberdade em arma política. Gradativamente, sua retórica foi deixando de ser meramente simbólica para se tornar uma ameaça explícita e real. As linhas tênues entre palavra e ação começaram a se esgarçar perigosamente.

O 7 de setembro de 2021 é um marco dessa transição. Naquele momento, Bolsonaro disparou uma metralhadora giratória contra vários ministros do Supremo, inclusive passando um recado ao ministro Luiz Fux, então presidente da Corte, de que, se ele não enquadrasse os demais ministros do STF, algo precisaria ser feito. Ou seja: a crítica passou a ser ameaça. Ameaça oriunda de um presidente de matiz autoritária que a todo tempo incitava os militares contra os poderes civis. Nesse sentido, uma ameaça crível. Poucos dias antes, membros da Comissão Arns haviam conversado com a cúpula da segurança pública de São Paulo, para sentir a temperatura entre as forças policiais às vésperas do 7 de setembro, quando foi relatado que haviam determinado a prisão de um grupo de oficiais da PM e aquartelamento de tropas mais radicalizadas para eliminar qualquer risco de insurgência no 7 de setembro. Esse fato dá a dimensão das ameaças à estabilidade política naquele momento.

Havia a necessidade de se contrapor àquelas ameaças à democracia, cada vez mais evidentes. Em uma conversa com Neca Setúbal surgiu a ideia de reunir um grupo de pessoas comprometidas com a democracia, mas que viessem de distintos pontos e tivessem distintas trajetórias. Pessoas que tivessem interlocução com os mais diversos setores da sociedade e que pudessem contribuir para a melhor compreensão daquele momento, assim como com alguma capacidade de mobilizar esses distintos setores para reagirem aos riscos institucionais cada vez mais iminentes. Prontamente, figuras como José Eduardo Cardozo, Miguel Reale Jr., Raul Jungmann, Maria Hermínia Tavares de Almeida, Sueli Carneiro e Patrícia Campos Melo aceitaram participar desse diálogo.

A primeira preocupação colocada por Neca Setúbal era a constituição de um grupo plural. Era preciso reconstruir as pontes de diálogo rompidas a partir de 2013. Os primeiros a serem chamados foram Miguel Reale Jr e José Eduardo Cardozo. Se aceitassem participar, teríamos um bom símbolo. Afinal foram os advogados que participaram, em lados opostos, do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ver esses dois ex-ministros da Justiça unidos em torno de uma mesma causa, mobilizados contra uma ameaça maior, a de ruptura institucional, nos pareceu muito importante. Ambos toparam na hora, com muito entusiasmo. A partir de então, por volta de março de 2022, montamos uma rotina de reuniões remotas, quase sempre às sextas-feiras, para que pudéssemos compartilhar visões sobre a conjuntura política e institucional, assim como receber convidados que pudessem ampliar nossa compreensão sobre os eventos. O mais importante é que conseguimos formar um grupo heterogêneo do ponto de vista do perímetro de atuação e das valências de cada um. Alguns tinham bom trânsito junto a militares; outros, ao Supremo. Tínhamos também representantes do empresariado, da área financeira, assim como da academia e da área de comunicação.

O que se via a partir de um determinado momento era uma clara escalada dos ataques de Jair Bolsonaro à democracia. Em abril de 2020, ele faz aquela manifestação contundente em cima de um caminhão em frente ao Forte Apache. No ano seguinte, em março de 2021, outro fato marcante é a substituição simultânea dos três comandantes militares. No 7 de setembro de 2021, vieram os ataques e ameaças diretos ao Supremo e seus ministros. Em 2022, os ataques ficam ainda mais incisivos, notadamente a partir da reunião com embaixadores no Palácio do Planalto, em que Bolsonaro desfere uma série de inverdades contra o processo eleitoral e as urnas eletrônicas. Pouco depois, inclusive, tivemos um almoço com Josep Borrell, então alto representante da União Europeia para os Negócios Exteriores e vice-presidente para assuntos de Política Externa. Ele veio ao Brasil para uma série de conversas centradas nas ameaças à democracia. Isso dá a medida do impacto que a reunião de Bolsonaro com os embaixadores teve para a comunidade internacional, a ponto do vice-presidente da União Europeia vir ao Brasil para conversar com grupos da sociedade civil a fim de entender o que estava acontecendo. Certamente conversou com o governo e com outros setores da sociedade e da economia brasileira. Ainda no movimento de escalada de Bolsonaro, veio a abrupta substituição do representante militar na comissão criada pelo TSE para atestar a confiabilidade das urnas. Inicialmente, Luis Roberto Barroso havia convidado um almirante. Mas o Ministério da Defesa indicou um nome da sua confiança (o general de divisão Heber Garcia Portella). Some-se a isso o permanente processo de instrumentalização dos militares. Um general com quem conversamos nesses momentos de tensão cunha uma definição muito interessante: “Bolsonaro é um assediador dos comandos”. Esse mesmo general nos dizia que os altos-comandos das Forças Armadas estavam resistindo, mas não havia garantia de que seria possível segurar as patentes mais baixas em caso de alguma conflagração.

A VOZ FORTE DAS ELITES

Esse sentimento dentro das próprias Forças Armadas apenas reforçou entre nós o quanto seria importante um posicionamento da sociedade civil contra qualquer gesto de ruptura da ordem democrática. Foi nesse instante, em meados de 2022, que decidimos conversar com o presidente da Fiesp, Josué Gomes da Silva. Diríamos que esse foi um turning point para o grupo. Josué nos recebeu de braços abertos. Houve não apenas um imediato alinhamento de perspectivas, mas também de senso de urgência. Inclusive, Josué chegou a revelar que já estava pensando em liderar alguma iniciativa de demonstração de defesa dos tribunais. Essa posição, inclusive, custou muito a ele. A firmeza de Josué foi determinante para que a Fiesp assumisse, naquele momento, um papel de protagonismo em um momento delicado da vida nacional. Ele não se curvou a pressões que vinham de determinados grupos. O mesmo se diga sobre a Febraban. O presidente da entidade, Isaac Sidney, também se uniu prontamente ao movimento, em caráter pessoal inicialmente. O engajamento da elite empresarial e do setor financeiro, ao nosso sentir, era fundamental pelo seu potencial de dissuadir setores que eventualmente flertavam com a ideia de ruptura constitucional. Em 1964, além da ideologia e da bandeira do anticomunismo, os militares tiveram um respaldo de setores importantes da sociedade, como o empresariado. Portanto, o Exército era a representação de força dessa unidade nacional. Então, em 2022, era importante mandar para os militares a mensagem de que o empresariado e outros importante setores da sociedade não eram favoráveis a qualquer medida de exceção.

FARDAS

Os militares tinham uma antipatia muito grande por Fernando Henrique Cardoso, pelas reformas que o seu governo fez e por alguns benefícios perdidos naquele período. Mas com o tempo eles vão transferindo essa antipatia para a magistratura, ou para o “judicialismo”. Aquele tweet do então comandante do Exército, general Villas Bôas, na véspera do julgamento do Lula no STF, manda um sinal claro à sociedade brasileira de que o Exército não estava disposto a abrir mão para o Supremo de sua pretensa função moderadora da política brasileira. Aos militares caberia o papel de tutelar a democracia brasileira.

Em 2022 estava claro que havia muita pressão dentro do meio militar, inclusive da reserva e entre os mais jovens. Uma sinalização de Bolsonaro naquele momento e muitos desses militares poderiam ter ido na direção de um golpe. Nós mantivemos conversas com uma certa sistematicidade com secretários de segurança e policiais militares em alguns estados. As forças policiais, em São Paulo, pareciam razoavelmente contidas, apesar da enorme simpatia pelo então presidente. Mas havia uma preocupação com outros estados, como a Bahia. As polícias estavam “bolsonarizadas”, indicavam especialistas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, assim como policiais com quem conversamos. Qualquer levante em uma grande cidade criaria um clima de instabilidade e poderia chegar à decretação de uma operação de garantia da lei e ordem, levando o Exército a entrar em cena.

VS. TOGAS

Havia a percepção de que caminhoneiros poderiam ser o estopim e que as polícias não estariam dispostas a contê-los. Nós tínhamos realmente muito receio em relação às polícias estaduais e seu efeito gatilho sobre as Forças Armadas. Havia um ponto para o qual um colega acadêmico, com longa experiência em questões militares, nos alertava. O problema dos golpes é que eles não decorrem necessariamente de um longo e meticuloso planejamento ou mesmo de um apoio unânime dentro das Forças Armadas. Muitas vezes é um grupo, inclusive minoritário, que faz a insurgência e cria um dilema para o comando: combater quem faz a insurgência ou somar-se a ela para buscar controlar a rebelião, eventualmente mitigando as consequências do golpe. Ou seja: para que um golpe seja bem-sucedido não é necessário haver unanimidade. A questão central é um grupo ter a ousadia de começar um curto-circuito, como ocorreu em 1964. E, em 2022, esse curto-circuito poderia vir das ruas, dos caminhoneiros ou das próprias polícias estaduais, com o objetivo de provocar uma intervenção militar. É bom lembrar que começavam a surgir acampamentos de bolsonaristas em frente aos quartéis em todo o Brasil, exigindo uma intervenção militar. O 8 de Janeiro, inclusive, veio posteriormente a corroborar nosso temor: insurgência civil, com omissão das forças de segurança, criando uma situação de caos. Nossas conversas com pessoas próximas ou de dentro do meio militar mostravam que os altos-comandos não tinham a intenção de apoiar qualquer ruptura. Mas era um quadro frágil, em que só bastava uma guimba de cigarro perto do barril de pólvora…

O MANIFESTO

Nossa primeira ideia era elaborar uma carta em defesa do estado democrático de direito a ser assinada por organizações empresariais e da sociedade civil. Ao mesmo tempo, o professor Celso Campilongo, diretor da Faculdade de Direito da USP, é procurado por um grupo de ex-alunos com o objetivo de promover a leitura de uma nova carta aos brasileiros em 11 de agosto de 2022. Entendemos que seria interessante convergir as duas iniciativas. Poucos dias depois, em um almoço na Fiesp, a convite de Josué, chegamos à proposta final, convencidos de que o mais marcante seria a realização de dois grandes atos em defesa do Estado de direito no mesmo dia 11 de agosto. Um organizado em torno de entidades e outro dos cidadãos. Nós nos dedicamos ao ato das entidades. A partir de então, teve início um intenso trabalho para que o ato contasse com o mais amplo arco de representação da sociedade civil. Josué teve um papel extremamente relevante ao atrair outras entidades patronais para o manifesto. Paulo Vannucchi, da Comissão Arns, foi essencial para estabelecer um diálogo com o Fórum das Centrais Sindicais, coordenado por Clemente Lucio Ganz. Clemente contribuiu para trazer todas as grandes representações do sindicalismo. Paralelamente, houve uma articulação com organizações de defesa de direitos e um amplo espectro de movimentos sociais. Foi um daqueles momentos cívicos únicos, em que todos esses setores transcenderam os seus próprios interesses e conflitos e se uniram em defesa da democracia e do Estado de direito. Toda essa costura se deu sem qualquer confronto, sem qualquer imposição ou condicionante, por menor que fosse. Foi um momento muito significativo para a democracia.

À medida que se aproximava o 11 de agosto, havia uma tensão com relação à segurança do evento. Existia, sim, receio de que houvesse algum gesto de violência e ataque. Não era um ato aberto. Era preciso criar mecanismos de controle na entrada. Celso Campilongo e Ana Bechara conduziram todos os preparativos de forma exemplar junto à Secretaria de Segurança. Não foram tratativas simples. Em determinado momento, as autoridades disseram que não tinham como garantir a segurança dos presentes. As centrais sindicais chegaram a se prontificar a cuidar do esquema de segurança. No fim, a Secretaria de Segurança coordenou o trabalho de policiamento. Quem teve uma postura elogiável nesse episódio foi o então Procurador Geral de Justiça do Estado de São Paulo e hoje secretário Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, Mario Sarrubbo. Ao saber de nossos temores, Sarrubbo notificou a Secretaria de Segurança de que participaria da cerimônia, o que, de certa forma, impôs àquele órgão uma enorme responsabilidade de garantir o policiamento. Mesmo com toda a tensão que naturalmente cercava aquele momento, tudo transcorreu dentro da liturgia que aquele evento exigia, o que, por si só, já pode ser interpretado como um sinal de força da nossa democracia. Tivemos dentro do Salão Nobre a leitura do “Manifesto em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito Sempre”, feita pelo ex-ministro José Carlos Dias. Existia um acordo entre todas as lideranças que discursaram de que não haveria nenhuma fala partidária. Acordo que foi integralmente cumprido. No pátio, a leitura da “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito” foi realizada pelo ex-ministro do Superior Tribunal Militar, Flavio Bierrenbach, e pelas professoras da Faculdade de Direito da USP Eunice de Jesus Prudente, Maria Paula Dallari e Ana Elisa Bechara. E assim se deu, em 11 de agosto de 2022, em meio a toda ordem de ataques à democracia e ao Estado de direito um ato voltado a sinalizar nosso compromisso com a democracia e repúdio à tentativa de ruptura institucional que se encontrava em marcha.

As democracias liberais estão sob ataque. No Brasil e no mundo. A perda do soft power americano e a ascensão do poderio de países como China e Rússia são fenômenos preocupantes. Aqueles que têm compromisso com a democracia sempre olharam para os Estados Unidos ou para a Europa como dois modelos de democracia sólida, uma mais liberal, outra mais social, sólidas: os americanos, mais céticos sobre o papel do Estado; os europeus mais entusiastas, uns com uma rede de proteção social menor; outros, maior, mas ambos regimes democráticos de natureza constitucional, baseados no império da lei, no mercado e na primazia dos direitos fundamentais. Essas democracias foram capazes de melhorar a vida de suas populações, além de contribuir para a criação de uma ordem internacional pautada no multilateralismo e num conjunto de regras. O sistema de direitos humanos, os acordos de comércio internacional, os mecanismos de solução de conflitos e as inúmeras instituições multilaterais criadas a partir do final da Segunda Guerra certamente têm as suas deficiências, mas favoreceram a coordenação multilateral de inúmeros desafios.

Neste momento, todos esses regimes de coordenação se veem ameaçados. Vivemos um período de transição para algum modelo que ainda não sabemos como funcionará. É natural que haja, nesta circunstância, muita ansiedade e insegurança nas relações internacionais, no campo econômico, mas também muita insegurança sobre o destino dos regimes democráticos, que é o objeto central dessa conversa.

Muitas são as hipóteses que buscam explicar porque as democracias entraram em crise, que vão da ampliação das desigualdades (apesar do crescimento econômico), passando pela fragilização dos partidos políticos, dos sindicatos, da mídia tradicional, das organizações da sociedade civil e mesmo das universidades, como mecanismos de agregação de interesses e organização do debate público, e chegando ao crescimento das redes sociais, que têm contribuído para uma mudança profunda no modo como as pessoas passam a pensar a política. Com acesso mais amplo e direto a informações e possibilidade de veicular suas opiniões e encontrar outras pessoas que partilham de suas visões de mundo, sem a necessidade de instituições intermediárias, mudou o padrão de engajamento das pessoas. Esse processo tem levado a uma profunda desconfiança no sistema político, nas instituições públicas e nos agentes coletivos que desempenham um papel central na vida democrática. Na medida em que esse sistema político não atende a contento às expectativas das pessoas, vão crescendo a frustração e a desconfiança.

Ao mesmo tempo, muitas das mudanças de natureza social e cultural geram ressentimento por parte daqueles que se sentem derrotados. Não importa que de maneira geral a vida das pessoas possa ter melhorado nas últimas décadas. Os eventuais ganhos serão sempre mensurados em função daqueles que ganharam muito. Essas transformações geram um terreno fértil onde florescem lideranças populistas, movimentos reacionários e ideais antidemocráticos. Os populistas são aqueles que dizem: “Olha, eu vou ser o intérprete da sua vontade. Vamos abandonar os partidos, o Congresso, o Estado de direito, os meios de comunicação, porque esses são os entraves ao que você quer”.

UMA TORRENTE ANTILIBERAL

De toda forma, isso não significa necessariamente que estamos vivendo um momento puramente antidemocrático. As pessoas não querem abdicar do direito de decidir seus próprios destinos, ainda que possam estar tomando decisões que prejudiquem sua autonomia e bem-estar. Talvez estejamos, sim, vivendo um momento antiliberal, liberal no sentido mais puro do termo, em que a caixa de ferramenta do constitucionalismo, da separação de poderes, da democracia representativa, dos direitos humanos, do cosmopolitismo ético, esteja sendo abandonada, em favor de um certo majoritarismo nacionalista, excludente e antipluralista. Nesse sentido, muitos dos líderes da extrema direita reivindicam estarem lutando em defesa da democracia. Mas certamente estão falando de outro tipo de democracia, que não é a democracia constitucional. Vê-se uma apropriação seletiva do discurso democrático, em que as regras do jogo só valem quando favorecem o próprio campo; que a gramática dos direitos está sendo mobilizada apenas para defender alguns grupos e visões de mundo; e que o que se chama de liberdade, muitas vezes, é apenas o direito de impor a própria visão sem aceitar limites estabelecidos pelos direitos dos demais e mesmo pelos freios e contrapesos que asseguram o bom funcionamento de democracias constitucionais.

SÍSTOLES E DIÁSTOLES

Não seria incorreto afirmar que há uma demanda por maior participação nas últimas décadas, com o empowerment de diferentes grupos da sociedade, que antes ficavam à margem do processo político. Saímos de um modelo muito elitista, onde muito poucos detinham os instrumentos para dominar a política e tomar decisões, e estamos migrando para um espaço onde há maior acesso às informações. Mas isso não significa que essas informações tenham qualidade ou que contribuam para qualificar o debate público. As redes sociais têm um forte papel nessa transformação, goste-se delas ou não. Esse empoderamento abriu espaço para que comunidades historicamente marginalizadas se tornassem em atores políticos de fato, não apenas objetos de políticas públicas. Povos indígenas, movimentos negros, coletivos feministas, associações de trabalhadores informais, todos passaram a reivindicar não só direitos básicos, mas também participação efetiva nas decisões. A questão é que toda a ação provoca reação em força igual e contrária.

Assim, esse processo também tem gerado um enorme ressentimento por parte daqueles que perderam uma posição de hegemonia política, econômica, cultural e mesmo dentro do contexto familiar. Essas mudanças variam muito de país para país. Mas o fato é que muitas sociedades imergiram num processo de profunda transformação. A resposta a essa crise não veio necessariamente sob a forma de pedidos de fim da democracia, mas da tentativa de retomada da “posse” da democracia a favor dos grupos que historicamente ela sempre representou. Critica-se direitos universais, reivindicando um retorno aos “verdadeiros direitos”, aqueles “naturais”, ligados à nacionalidade, à propriedade e à liberdade. É por isso que nos surpreendemos que muitos líderes que reconhecemos como autoritários se apresentem como defensores da democracia; assim como grupos que por décadas desdenharam a gramática dos direitos humanos se apresentem agora como os defensores dos únicos e verdadeiros direitos.

OS PÊNDULOS DO JOGO DEMOCRÁTICO

No Brasil, muito embora o fenômeno desse novo populismo tenha levado Bolsonaro à Presidência e ampliado a participação de seus apoiadores em todas as esferas do Poder, isso não provocou uma adesão completa de outros setores conservadores, como eventualmente ocorreu nos Estados Unidos, onde o partido Republicano sucumbiu ao movimento MAGA. Aqui nosso Centrão clássico flertou, mas não sucumbiu à ideia de ruptura institucional. Sempre foi, no máximo, uma adesão instrumental. Para os setores mais pragmáticos de nossa elite política há uma percepção clara de que o ganho vem da continuidade do jogo e não da sua interrupção. Aliás, o que é a democracia senão uma adesão à regra do jogo? Esses atores não têm necessariamente um compromisso substantivo com a regras do jogo democrático, mas um compromisso instrumental. Isso levou a que o Congresso não tenha facilitado a vida de Bolsonaro; tanto que o ex-presidente foi obrigado a empregar um número enorme de medidas administrativas para conseguir governar. É importante destacar que a própria lei de defesa da democracia, agora aplicada a Bolsonaro e seus apoiadores, foi aprovada em 2021, por um Congresso Nacional bastante conservador, mas cioso de suas prerrogativas e interesses. Nossa direita pragmática viu na fragilidade de Bolsonaro uma oportunidade para extrair inúmeros privilégios e benefícios, na forma de emendas orçamentárias, por exemplo.

DESIGUALDADE, A ANTIDEMOCRACIA NA ESSÊNCIA

A questão de fundo no Brasil, no entanto, permanece sendo mais estrutural, tendo a desigualdade no seu centro. Como costuma dizer o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o Brasil não é um país pobre, mas um país injusto. Essa profunda e persistente desigualdade, que estrutura as relações sociais no Brasil, gera enorme instabilidade. A desigualdade e a baixa mobilidade social geram um constante mal-estar, agravando a tensão social e mesmo a violência. Fica uma porta sempre aberta para o conflito e a insurgência. Seja a insurgência de um populismo com pretensões includentes ou de um populismo de natureza excludente. Em 2013, por exemplo, tivemos uma crise causada por um sentimento de falta de legitimidade e de representatividade, pela frustração de que as principais promessas da democracia não foram cumpridas, para usar a expressão de Norberto Bobbio. De outro lado, havia um enorme ressentimento pelo que foi feito, pela conquista de direitos identitários e mesmo de direitos sociais. Acrescente-se a isso as questões da corrupção política, expostas pelo Mensalão e pela Lava Jato, e da falta de segurança, que torna bruto o cotidiano de largas parcelas da população. O sistema constitucional e suas instituições ficaram ensanduichados entre a frustração da esquerda e o ressentimento de direita. Isso gerou um enorme curto-circuito. Os dois segmentos da sociedade ficaram insatisfeitos com o sistema político por razões absolutamente opostas.

Há duas décadas, o referendo sobre o desarmamento já mostrava uma certa mudança no equilíbrio de forças presentes na política brasileira. Naquele momento, a direita experimentou pela primeira vez depois da redemocratização a possibilidade de ganhar uma eleição plebiscitária, com um discurso sobre liberdade. Ali foi construída uma narrativa da defesa da liberdade de portar armas, semelhante ao discurso empreendido pela direita norte-americana. Eles perceberam que podiam ganhar espaço na política brasileira adotando um tom “libertário”. A questão específica dos armamentos fortaleceu grupos que passavam abaixo do radar e futuramente iriam construir uma aliança com outros setores da direita. Esse fortalecimento não se deu com um discurso necessariamente antidemocrático, mas, sim, libertário. Foi o brado “armar o povo para defender a democracia”. Anos depois esses setores também incorporaram ao seu reportório discursivo a defesa de um modelo absoluto de liberdade de expressão, em linha com o discurso em defesa da Primeira Emenda da Constituição norte-americana.

O emprego do discurso libertário para, gradativamente, minar os direitos de natureza social e posteriormente as próprias liberdades constitutivas do Estado democrático de direito tem crescido não apenas no Brasil. Há uma crescente e perigosa ideia, difundida pela extrema direita, de que a democracia liberal é um regime de esquerda. Universidades, meios de comunicação ou organizações da sociedade civil, associadas ao discurso liberal, social, assim como identitários, transformam-se em alvos do discurso mais radical. Bolsonaro, assim como Trump e outros populistas, trabalha o tempo todo com o conceito de que o sistema está implantando uma ditadura. Consequentemente, é preciso ter um governo de salvação pública e de exceção para livrar o país dessa “ditadura” da esquerda. Afinal, todas as instituições estão querendo cercear a liberdade de expressão, assim como o verdadeiro pluralismo. No bojo desse discurso está a ideia de que o aparelho de Justiça ou, no caso brasileiro, o Supremo é um opressor da liberdade. A lição é cristalina: não há “neutralidade” possível diante de um projeto que usa a palavra liberdade, bem como as franquias asseguradas pela constituição, para implodir a própria democracia. Quem confunde tutela autoritária com salvação pública prepara o terreno para o estado de exceção permanente. Se as instituições vacilam, cabe à sociedade ocupar a linha de frente – com voz, voto, organização e vigilância cotidiana. A defesa da democracia é uma tarefa cotidiana. Em tempos que correm, ou a defendemos de pé ou assistiremos, de joelhos, a sua erosão.

Depoimento a Christian Lynch e Claudio Fernandez

Oscar Vilhena é diretor da FGV Direito São Paulo Oscar Vilhena@fgv.br

Armínio Fraga é sócio-fundador da Gávea Investimentos arminiof@uol com br

Texto e imagens reproduzidos do site: insightinteligencia com br/como-os-democratas-reagem

sexta-feira, 28 de março de 2025

"O que é Política?", por Juliana Bezerra

Artigo compartilhado do site TODA MATÉRIA

O que é Política?
Por Juliana Bezerra *

Política é a atividade desempenhada pelo cidadão quando exerce seus direitos em assuntos públicos através da sua opinião e do seu voto.

A palavra política tem sua origem da palavra grega “polis” que significa “cidade”. Neste sentido, determinava a ação empreendida pelas cidades-estados gregas para normalizar a convivência entre seus habitantes e com as cidades-estados vizinhas.

Definição

A política busca um consenso para a convivência pacífica em comunidade. Por isso, ela é necessária porque vivemos em sociedade e porque nem todos os seus membros pensam igual.

A política exercida dentro de um mesmo Estado chama-se política interna e entre Estados diferentes, se denomina política externa.

Um dos primeiros a explicar o conceito de política foi o filósofo Aristóteles. No seu livro "Política" ele define que esta é um meio para alcançar a felicidade dos cidadãos. Para isso, o governo deve ser justo e as leis, obedecidas.

Mas, para que um Estado seja bem organizado politicamente, não basta que tenha boas leis, se não cuidar da sua execução. A submissão às leis existentes é a primeira parte de uma boa ordem; a segunda é o valor intrínseco das leis a que se está submetido. Com efeito, pode-se obedecer a más leis, o que acontece de duas maneiras: ou porque as circunstâncias não permitem melhores, ou porque elas são simplesmente boas em si, sem convir às circunstâncias.

Já no século XIX, quando o mundo industrializado se consolidava, o sociólogo Max Weber definiu:

A política é a aspiração para chegar ao poder dentro do mesmo Estado entre distintos grupos de homens que o compõem.

Os membros de uma mesma sociedade podem fazer política quando desejam melhorias na sociedade civil. Atualmente, nas democracias ocidentais, os cidadãos podem participar da política através de associações, sindicatos, partidos, protestos e mesmo individualmente.

Vemos, então, que a política vai muito mais além do que um partido político, profissionais e instituições.

Políticas Públicas

As políticas públicas podem soar como uma redundância, pois o governo seria o principal responsável pela condução política da sociedade.

No entanto, o governo tem várias atribuições como garantir o funcionamento da economia e da justiça, assegurar a defesa do território, e finalmente, o bem-estar dos cidadãos.

Quando surge um problema específico e que necessita uma solução particular, aí teremos a chamada política pública.

Por isso, definimos política pública como ações do governo para resolver um problema público após análises e avaliações.

Igualmente, a política pública deve contar com a participação da cidadania para a solução de problemas que atingem a sociedade civil.

Política

Hoje a política deve ser construída com a participação de todos

Política Social

A política social pretende ser uma reestruturação da sociedade a fim de distribuir riquezas de maneira mais igualitária.

A política social tem como objetivo garantir condições mínimas de cidadania como habitação, saúde, educação e consciência ecológica.

Política Fiscal

A política fiscal será o conjunto de medidas que o governo fará para garantir o equilíbrio das contas de um Estado.

Se um Estado gasta mais do que arrecada em impostos, o governo tomará ações para que isto diminua, pois sua dívida crescerá. Desta maneira, pode privatizar empresas públicas ou até diminuir o salário de funcionários.

Política Monetária

A política monetária consiste no controle da inflação, da taxa de juros e da quantidade de dinheiro que circula num país.

Os responsáveis pela condução da política monetária são os Bancos Centrais e os Ministérios de Economia de um Estado que ditam as regras econômicas de um país.

Governo

A política também é a arte ou doutrina relativa à organização dos Estados e o responsável por esta missão é o governo.

Ao longo do tempo, seu conceito foi se modificando e as formas de governo foram se adaptando às novas demandas sociais e econômicas.

Assim, temos vários regimes políticos como:

Monarquia

Ditadura

Teocracia

Oligarquia

Tirania

República

Demagogia

Aristocracia

Liberalismo

Socialismo

..........

Partido Político

Na democracia, o voto é essencial para participar da política

Com a Revolução Industrial, as sociedades ficaram mais complexas. Antes, a maior parte da população estava dispersa no campo e a política era decidida por um pequeno grupo de pessoas que pertenciam à mesma classe social: a aristocracia.

Após a industrialização houve o êxodo rural fazendo com que as cidades ganhassem cada vez mais importância. Surgem em cena, dois novos personagens: o burguês e o operário.

Com as duras condições de trabalho nas fábricas, os operários passam a se organizar em sindicatos e associações a fim de reivindicar melhores condições de vida. Por sua vez, os burgueses também passam a exigir dos governos garantias e facilidades para seus negócios.

Com as ideias socialistas, anarquistas e liberais surgidas nos séculos XVIII e XIX, os cidadãos passaram a ter um amplo leque de opiniões a respeito da melhor maneira de governar um Estado.

Desta forma, a política passou a se organizar em partidos, com seus defensores e críticos de cada uma dessas bandeiras.

No geral, as ideias políticas do ocidente se dividem em direita, centro e esquerda.

Direita – manutenção das classes sociais com privilégios para os ricos, livre-concorrência, negociação direta com o empregador, etc.

Centro – defesa da liberdade de comércio com os direitos básicos dos trabalhadores assegurados, etc.

Esquerda – defende a abolição das classes sociais, a repartição igualitária das riquezas, garantia dos direitos dos trabalhadores, etc.

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* Bacharelada e Licenciada em História, pela PUC-RJ. Especialista em Relações Internacionais, pelo Unilasalle-RJ. Mestre em História da América Latina e União Europeia pela Universidade de Alcalá, Espanha.

Texto e imagem reproduzidos do site: www todamateria com br

sexta-feira, 14 de março de 2025

A direita está organizada, enraizada e pronta para o combate contra o PT

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 12 de março de 2025

Muito além de Bolsonaro: A direita está organizada, enraizada e pronta para o combate contra o PT.

O movimento vai além da liderança de Bolsonaro e tem mais a ver com valores de uma população majoritariamente a favor da redução da maioridade penal, contrária ao aborto e que rejeita a “ideologia de gênero". Fabiano Lana para o Estadão:

O presidente Lula imagina que um eventual sucesso na área econômica, somado com uma estratégia massiva de comunicação, incluindo bilhões em propaganda, seja suficiente para reverter a erosão constada em sua popularidade e abrir caminho para a reeleição. A questão é muito mais profunda e essa tese é uma ilusão. Há uma disputa moral em jogo e o que os integrantes do governo têm a apresentar neste momento são princípios que fogem à maioria da população. E, pior, a nova tábua de valores da sociedade, em sua maioria, acaba por confrontar pontos dogmáticos da esquerda.

O Brasil tem mudado de maneira vertiginosa. Tome-se um exemplo a princípio isolado, mas que pode ser um microcosmo do todo que se apresenta: qualquer estudante de “humanas” das últimas décadas, sobretudo dos anos 80 e 90, se deparou em algum momento com a coleção “Primeiros Passos”, em que autores dissertavam sobre temáticas como socialismo, racismo, história, entre outros, em livros curtos e didáticos. O tema “ideologia”, por exemplo, foi escrito pela filósofa Marilena Chauí, aquela que odeia a classe média. Era época em que ninguém se assumia “de direita”, não só na área cultural ou acadêmica, mas também na política. Um cara ser de “direita” era sinônimo de ser visto como um tremendo esquisitão a afugentar as meninas.

Se a gente faz um corte e pula vinte anos na história, ser de esquerda ainda tem lá o seu, digamos, charme – cada vez menor. Mas não mais o monopólio das atrações. A direita se estruturou e se organizou de maneira admirável, de maneira a preencher todos os vácuos de décadas em que permaneceu submersa na opinião pública e, principalmente, publicada, da sociedade brasileira.

Para começar, percebam, nas maiores livrarias do Brasil, que não é tão fácil encontrar algum exemplar dos “Primeiros Passos”. Mas é possível comprar exemplares da coleção “O Mínimo sobre”, também de bolso, com temas como racismo, conservadorismo, doutrinação, arte, “Olavo de Carvalho” e Ideologia de gênero, entre outros, no catálogo.

Sim, é como se a “Primeiros Passos” tivesse se virado à direita. Vejam um trecho do livro sobre feminismo da coleção, escrito pela historiadora e agora deputada estadual pelo PL-SC, Ana Campagnolo. “Diferentemente do que fazem crer as feministas, as mulheres foram inseridas no mercado de trabalho por uma transformação social sem premeditação e não por uma luta organizada de um movimento das mulheres”, afirma a obra, na totalidade dedicada a confrontar o que se chama de feminismo.

Mas a coleção “O mínimo sobre” é apenas uma margem de um movimento muito maior de domínio. Por exemplo: se aparece alguma notícia desfavorável à direita ou aos seus líderes em algum órgão, há uma miríade de influencers, youtubers, twitteiros a busca desmentir, a tentar passar uma versão mais favorável. Logo, esses contra-ataques, imediatos, circularão nos grupos de WhatsApp da escola, das famílias, do trabalho. Muitas vezes com moralismo, indignação, deboche ou humor. As redes sociais são a ferramenta de combate e há a indicação clara do que é preciso seguir para se informar. É algo que não se vê paralelo na esquerda neste momento.

A produtora Brasil Paralelo também faz parte desse mecanismo de doutrinação, com produções próprias, indicações de filmes, na busca de direcionar como se deve pensar sobre cada assunto. Os valores em geral são claros em todo esse ecossistema: família, pátria, religião, hierarquia, obediência, mérito individual por qualquer conquista econômica obtida, loas à livre iniciativa, trabalho, e, transversalmente, o anti-esquerdismo. Ultimamente, com a ascensão de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, até mesmo o liberalismo mundial tornou-se um inimigo a combater (nesse caso especial, por razões diferentes, estão juntos com a esquerda numa comprovação prática da chamada da teoria da ferradura, na qual os polos opostos tendem a convergir seus pensamentos).

Padres, pastores, também possuem seu papel nessa reorganização da direita. O Frei Gilson, que atrai milhões de pessoas nas suas missas pela madrugada com uma mensagem conservadora (ou quiçá reacionária) de submissão da mulher ao homem, é apenas mais um personagem desse sistema que tem sabido falar rápida e diretamente com uma parcela gigantesca da população. Quando publicações e influencers da esquerda criticaram sua postura e seus pensamentos, na semana passada, foi imediatamente defendido por milhares. Até mesmo o papa Francisco, com seus valores “progressistas”, foi substituído por outros religiosos com concepções diferentes de mundo.

Esse movimento vai muito além da liderança de gente como Jair Bolsonaro (seu papel político foi tirar muita gente do armário reacionário). Tem estrelas como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), Pablo Marçal ou o cantor Gusttavo Lima. Mas é algo que tem a ver mais com a exacerbação de valores de uma população que é majoritariamente a favor a redução maioridade penal; contra a legalização do aborto (mas não favoráveis à prisão da mulher); contra a descriminalização das drogas; querem punição rigorosa para qualquer tipo de delito, a partir do roubo de celular, que penaliza bastante as pessoas mais pobres, não só a classe-média alta do bairro Pinheiros, de São Paulo; que não sabe muito bem o que é, mas rejeita a tal “ideologia de gênero” e por aí vai.

A paralisia da esquerda nessa guerra cultural é notável atualmente. O confronto político tornou-se desigual. Talvez, de fato, a inflexão da luta de classes para as chamadas pautas identitárias não tenha conquistado mentes e corações. Quando um trabalhador pardo da periferia é tido como opressor apenas por ser homem, é razoável que ele procure votar numa força política que se oponha a isso, não é mesmo? Enquanto a esquerda colocava todo mundo contra todo mundo, a direita, de maneira pulverizada, desordenada, mas com mensagem coesa, se preparou com afinco para colocar todo mundo contra a esquerda. O ano de 2026, nas eleições presidenciais, será o tira-teima desta disputa, que é mundial, em palco brasileiro.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 2 de novembro de 2024

Direita e esquerda

Legenda da imagem: Pintura mostrando a Tomada da Bastilha, um marco da Revolução Francesa, contexto de surgimento dos termos direita e esquerda. (Foi durante a Revolução Francesa, que se espalhou com a Tomada da Bastilha, que os termos direita e esquerda surgiram).

Publicação compartilhada do site MUNDO EDUCAÇÃO UOL

Direita e esquerda

Direita e esquerda são termos usados para classificar o pensamento político de uma pessoa, de um grupo de pessoas ou de instituições.

Direita e esquerda são termos utilizados para classificar a posição política e ideológica de pessoas, partidos e outras instituições. Além da direita e da esquerda, também existe o espectro político de centro, em que a pessoa ou instituição defende de forma equilibrada propostas de esquerda e de direita. Ademais, podemos classificar ainda a forma de pensar das pessoas e instituições como de centro-esquerda ou centro-direita.

A esquerda defende que a sociedade seja mais igualitária, com menos desigualdade social. Para atingir tal objetivo, a esquerda propõe que o Estado seja forte, realizando investimentos e controlando a economia. Também defende impostos altos, principalmente dos mais ricos, para que o governo garanta o bem-estar das pessoas.

Já a direita defende a liberdade individual, a livre iniciativa e que os impostos sejam pequenos ou mesmo que eles não existam. Acredita-se ainda que o Estado não deve interferir na economia e que esta se regula através da livre concorrência entre as empresas privadas.

Resumo sobre direita e esquerda

Direita e esquerda são termos usados para classificar o pensamento político de uma pessoa, de um grupo de pessoas ou de instituições.

Os termos esquerda e direita surgiram durante a Revolução Francesa, quando dois grupos políticos opostos se formaram na Assembleia francesa.

A esquerda defende a diminuição da desigualdade social por meio de maior intervenção do Estado na economia, com maiores impostos para garantir o bem-estar das pessoas. Possui caráter liberal.

A direita defende a liberdade individual, a livre iniciativa e a não interferência do Estado da economia, que se regula através da livre concorrência entre as empresas privadas. Possui caráter conservador.

Atualmente existe grande divisão no Brasil e no mundo causada por atritos entre pessoas e partidos de esquerda e direita.

No Brasil, Lula é considerado um influente político de esquerda e Jair Bolsonaro é considerado um influente político de direita.

O que é direita e esquerda na política?

Esquerda e direita são termos usados para classificar as posições políticas de uma pessoa, de um grupo de pessoas ou de instituições. Atualmente, no mundo tudo, as diferenças entre esquerda e direita ocorrem em diversos campos, como economia, costumes, política migratória, política de segurança, direitos humanos, direitos trabalhistas, religião, entre muitos outros.

Origem dos termos direita e esquerda

A origem dos termos direita e esquerda está ligada à Revolução Francesa. No século XVIII, a França foi governada por três reis absolutistas, Luís XIV, Luís XV e Luís XVI. Luís XVI herdou uma França com grande desigualdade social, com nobres vivendo em palácios enquanto milhões de membros do chamado Terceiro Estado viviam na miséria nas ruas de Paris e outras cidades francesas.

Para piorar a situação, os membros da nobreza e da Igreja não pagavam impostos enquanto os membros do Terceiro Estado pagavam pesados impostos. Faziam parte do Terceiro Estado diversos grupos sociais, como camponeses, trabalhadores urbanos, pequenos comerciantes, sans culotes e profissionais liberais. Também faziam parte do Terceiro Estados os burgueses, grupo formado por ricos comerciantes, banqueiros e empresários de diversos ramos.

Em 1789, após o agravamento da crise política, uma revolução se iniciou em Paris, a qual ficou conhecida como Revolução Francesa, com o povo invadindo a Bastilha, a prisão onde alguns inimigos de Luís XVI estavam presos. Além de libertarem os presos, os revolucionários conseguiram armas, munição e pólvora na prisão.

O rei acabou sendo guilhotinado pelos revolucionários, acusado de traição ao povo francês. Sua esposa, Maria Josefina, também foi guilhotinada. Para governar a França, uma assembleia foi formada por deputados eleitos por aqueles que podiam votar.

As pessoas eleitas para a Assembleia formaram diversos grupos, criando partidos, cada um deles com uma visão diferente sobre como a França deveria ser governada durante o processo revolucionário. Na assembleia, do lado direito da mesa diretora se sentaram membros de um grupo político que ficou conhecido posteriormente como “girondino”. Já do lado esquerdo, sentaram-se membros de um grupo político que ficou conhecido posteriormente como “jacobino”.

Os girondinos eram considerados conservadores, não desejando mudanças tão radicais na França, aceitando inclusive uma monarquia constitucional, tipo de monarquia em que o rei tem pouco poder. Já os chamados jacobinos defendiam mais mudanças na França, como a proclamação de uma república, o fim da escravidão nas colônias francesas e o direito ao voto para todos os homens franceses. Foi nesse contexto de conflito entre jacobinos e girondinos que os termos direita e esquerda surgiram.

Após a Segunda Guerra Mundial, com a Guerra Fria, as disputas entre esquerda e direita se aprofundaram, levando a guerras, guerras civis, revoluções e massacres por todo o globo.

O que a esquerda e a direita defendem e quais são suas diferenças?

Primeiro temos que entender que existem diferentes grupos de esquerda e diferentes grupos de direita, com grupos mais moderados e grupos mais radicais dos dois lados. Cientes disso, podemos estabelecer algumas diferenças gerais entre o que a esquerda e a direita defendem de maneira ampla. Como veremos, as principais diferenças entre esquerda e direita são econômicas, políticas e culturais:

Economia: a direita defende o liberalismo econômico – pensado por Adam Smith, economista e filósofo –, em que o Estado tem pouca participação na economia e deve ser pequeno, ou seja, ter poucas empresas e funcionários públicos. Por sua vez, a esquerda defende forte participação do Estado na economia, tendo ele uma função social, sendo que o Estado deve garantir direitos como saúde, educação, emprego e moradia para a população.

Ainda na economia, a esquerda defende que os trabalhadores tenham assegurados seus direitos trabalhistas, como salário-mínimo, férias, décimo terceiro salário, jornada de trabalho diária de oito horas, entre outros. A esquerda argumenta que trabalhadores bem pagos ampliam o mercado consumidor, aumentando a produção e melhorando a economia. Já pessoas e instituições de direita argumentam que os direitos trabalhistas aumentam o custo da mão de obra, fazendo com que os empresários invistam menos, causando prejuízos à economia.

“Pauta de costumes”: as pessoas de esquerda são geralmente favoráveis à legalização de algumas drogas, do casamento homoafetivo, da legalização do aborto e são contra a posse e porte de armas por pessoas que não são das forças de segurança. Já a direita é contrária a essas propostas da esquerda. Vale lembrar que é uma análise geral e que muitas pessoas e instituições podem ser, por exemplo, consideradas de direita e defender o aborto ou a legalização das drogas, ou ainda uma pessoa ou instituição de esquerda ser contrária à descriminalização ou legalização das drogas.

Movimentos sociais: são de esquerda diversos movimentos sociais e grupos identitários, como o movimento negro, movimento feminista, ambientalista, LGBT, indígena, movimentos que lutam pela reforma agrária, entre outros. Existem também movimentos sociais ligados à direita, como movimento armamentista, anti-imigração e em defesa da família tradicional.

Pena de morte: a maioria das pessoas de esquerda é contra a pena de morte e defende que as pessoas que cometem crimes devem ser reeducadas e reintegradas à sociedade. Já a maioria das pessoas de direita defende a pena de morte, a prisão perpétua e trabalhos forçados para os prisioneiros.

Problema das drogas: geralmente a esquerda considera o problema das drogas como um caso de saúde pública, sendo que os viciados devem ser tratados e reintegrados à sociedade. A direita encara as drogas como uma questão de segurança pública, sendo que a principal estratégia para reduzir o problema é o combate, pelas forças de segurança, ao tráfico e ao uso de drogas. 

Esquerda e direita no mundo

A China é o maior exemplo de um país de esquerda na atualidade. Desde a Revolução Chinesa, ocorrida em 1949, o país vive em uma ditadura socialista controlada pelos membros do Partido Comunista Chinês. O país conseguiu muitos avanços econômicos nas últimas décadas, tornando-se a segunda maior economia do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos. Segundo dados do Banco Mundial, a China retirou da pobreza 760 milhões de pessoas nas últimas quatro décadas, correspondendo a 75% das pessoas que saíram da pobreza no mundo todo nesse período.|1| Mas, por outro lado, o país vive em uma ditadura unipartidária, não existe liberdade para greves e manifestações políticas contrárias ao governo, existe censura e o país é acusado inúmeras vezes de violar os direitos humanos.

Nos Estados Unidos, a esquerda e a direita são bem demarcadas nos partidos políticos. Embora nos Estados Unidos existam dezenas de partidos, apenas dois deles, de fato, concorrem às eleições presidenciais nos Estados Unidos: o Partido Republicano, de direita, e o Partido Democrata, de esquerda. Atualmente Donald Trump é o principal representante do Partido Republicano e da direita do país. As principais lideranças do Partido Democrata atualmente são Joe Biden, Kamala Harris e Barack Obama.

Na Inglaterra, a esquerda e a direita também são bem demarcadas nos partidos políticos. No país, o Partido Conservador é o principal partido de direita e o Partido Trabalhista é o principal de esquerda.

A esquerda usa os países nórdicos, como a Noruega, Suécia e Finlândia, como exemplo de sucesso da esquerda no mundo. Nesses países o Estado tem grande participação da economia. Para se ter uma ideia, na Finlândia 25% de todos os trabalhadores do país trabalham para o Estado. Na Dinamarca são 28%; na Suécia, 29%; e na Noruega, 31%.|2| Nos países nórdicos os impostos são extremamente altos, chegando a 56,5% dos rendimentos da pessoa, como no caso da Noruega.|3| Mas o Estado retribui com serviços públicos que estão entre os melhores do mundo, garantindo a qualidade de vida das pessoas e colocando os países nórdicos entre aqueles com IDH mais alto no mundo.

A direita usa o caso da Suíça, Nova Zelândia e Austrália para comprovar a eficácia das propostas da direita. A Suíça, por exemplo, possui um dos impostos mais baixos do mundo, variando entre 11,7% e 21,6% dos rendimentos da pessoa.|4| Pagando menos impostos, a maior parte da população pode pagar por bons serviços privados, graças à livre concorrência e a lei da oferta e da procura. Assim como os países nórdicos, a Suíça tem um dos melhores IDHs do mundo.

Esquerda e direita no Brasil

Atualmente no Brasil o principal líder da esquerda é Luís Inácio da Silva, conhecido popularmente como Lula. Outros políticos de esquerda famosos no Brasil são Sâmia Bonfim, Guilherme Boulos, Manuela d’Ávila, Maria do Rosário, Marcelo Freixo e Randolfe Rodrigues.

Por sua vez, o principal líder da direita no país atualmente é Jair Messias Bolsonaro. Também são políticos de direita Carla Zambelli, Sérgio Moro, Eduardo Bolsonaro, Romeu Zema, Tarcísio de Freitas, entre muitos outros.

Texto e imagem reproduzidos do site: mundoeducacao uol com br

domingo, 24 de março de 2024

Defender a Democracia Ontem, Hoje e Sempre

Publicação compartilhada do site ASSBRASILJORNALISTAS, de 16 de março de 2024 

Incitação ao 8/1 mostra que golpe de 64 ainda não foi superado, diz IVH

Por ABJ

Em meio ao debate no Brasil sobre como marcar os 60 anos do golpe militar, no final de março, o Instituto Vladimir Herzog defende que a “busca por memória, verdade e justiça é uma tarefa de todas e todos nós”. “Essa luta nunca teve o objetivo de apenas rever o passado. Ela foi e sempre será pela construção do presente”, diz.

Num editorial publicado com exclusividade nesta coluna, o Instituto ainda lembra que, “até ontem, agentes públicos e setores das Forças Armadas articulavam e incitavam uma parcela da sociedade com ideais golpistas que, certos da impunidade, avançaram até o dia 8 de janeiro”.

“Assim, se constata que o golpe militar que assolou o país por mais de duas décadas ainda não foi superado. O que vivemos hoje é reflexo do passado”, apontou.

A entidade ainda defende que é “urgente a recriação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos que, contrariando leis federais, foi extinta no apagar das luzes do governo anterior”. O editorial ainda pede que o Estado brasileiro crie “mecanismos eficientes de monitoramento para a implementação das recomendações da Comissão Nacional da Verdade”. “Tal qual, o debate da reinterpretação da Lei de Anistia que se encontra no STF sem julgamento, segue dando guarida à impunidade de agentes públicos por crimes cometidos no passado e também no presente”, aponta.

Eis o editorial completo:

DEFENDER A DEMOCRACIA ONTEM, HOJE E SEMPRE

Desde a redemocratização do Brasil, em 1988, nosso país enfrenta sérias dificuldades para articular dispositivos que possam, de maneira efetiva, garantir a justiça e a reparação para todas as pessoas que perderam suas vidas lutando pela democracia e pela liberdade durante o regime militar (1964-1985).

A busca por memória, verdade e justiça é uma tarefa de todas e todos nós. Essa luta nunca teve o objetivo de apenas rever o passado. Ela foi e sempre será pela construção do presente. O Estado brasileiro deve conceber, implementar e aprimorar políticas públicas capazes de consolidar e ampliar nossa democracia; o que significa obrigatoriamente a superação da cultura de violência e impunidade ainda tão presentes em nosso cotidiano.

É urgente a recriação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos que, contrariando leis federais, foi extinta no apagar das luzes do governo anterior. O Estado brasileiro deve ainda criar mecanismos eficientes de monitoramento para a implementação das recomendações da Comissão Nacional da Verdade. Tal qual, o debate da reinterpretação da Lei de Anistia que se encontra no STF sem julgamento, segue dando guarida à impunidade de agentes públicos por crimes cometidos no passado e também no presente.

Recorrer à história para lembrarmos dos problemas estruturais do racismo, da violência de gênero, da desigualdade, da fome e do extermínio de populações indígenas é tão legítimo quanto a necessidade de refletirmos sobre como a falta de ações de reparação e responsabilização no passado contribuíram para os atentados do dia 8 de janeiro de 2023.

O Estado brasileiro, que já avançou com o cumprimento da garantia de direitos, tem agora adiado cumprir suas demais obrigações, pactos e compromissos firmados com esferas jurídicas internacionais, movimentos sociais e organizações da sociedade civil que batalham há décadas para uma efetiva superação de um passado de violência e impunidade que marca a história do Brasil.

Até ontem, agentes públicos e setores das Forças Armadas articulavam e incitavam uma parcela da sociedade com ideais golpistas que, certos da impunidade, avançaram até o dia 8 de janeiro. Assim, se constata que o golpe militar que assolou o país por mais de duas décadas ainda não foi superado. O que vivemos hoje é reflexo do passado.

O Instituto Vladimir Herzog, organização que atua há anos para o cumprimento da sentença do caso Herzog na Corte Interamericana de Direitos Humanos – que considerou o Estado brasileiro responsável pela ausência de investigação, julgamento e punição daqueles que torturaram e assassinaram Vlado – inspirado pela sua missão, seguirá cobrando o Brasil, hoje e sempre, para que avance no cumprimento integral da garantia de direitos e de todas as políticas públicas de memória, verdade e justiça.

Instituto Vladimir Herzog

Fonte: noticias uol com br/colunas/jamil-chade

Texto e imagem reproduzidos do site: www assbrasiljornalistas org

sexta-feira, 15 de março de 2024

Karl Marx e a diferença entre socialismo e comunismo

Artigo publicado originalmente no BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de junho de 2020

Karl Marx e a diferença entre socialismo e comunismo

A utópica teoria comunista é ainda mais bizarra que a socialista. David Gordon, em artigo publicado pelo Instituto Mises:

No dia 10 de setembro de 1990, o multimilionário escritor, economista e socialista Robert Heilbroner publicou um artigo na revista The New Yorker intitulado "Após o Comunismo". A URSS já estava em avançado processo de colapso.

Neste artigo, Heilbroner recontou a história de como Ludwig von Mises, ainda em 1920, havia provado que o socialismo não poderia funcionar como sistema econômico. Neste artigo, Heilbroner disse essas três palavras: "Mises estava certo".

Mas aí vem a dúvida: qual a diferença entre comunismo e socialismo? Mises havia concluído que o socialismo não poderia funcionar, mas o que realmente entrou em colapso foi um sistema rotulado comunismo. Há alguma diferença?

História

Quando Karl Marx e Friedrich Engels começaram a escrever conjuntamente, no ano de 1843, Marx era a figura dominante. Engels era um melhor escritor, e era ele quem sustentava Marx financeiramente.

Marx passou toda a sua carreira se opondo àquilo que ele chamou de "socialismo utópico". Ele nunca interagiu com nenhum grande economista ou teórico social. Você pode procurar, mas jamais encontrará qualquer refutação sistemática feita por Marx a Adam Smith, por exemplo. Marx gastou suas energias criticando verbalmente vários autores de esquerda, cujos escritos praticamente não tiveram nenhuma influência sobre a Europa em geral.

Dado que ele estava constantemente atacando autores socialistas, Marx criou uma teoria própria sobre o comunismo. Ele chamou essa sua teoria sobre o comunismo de "socialismo científico". Marx argumentou que, inerente ao desenvolvimento da história, há uma inevitável série de etapas. Isso significa que ele era um determinista econômico. Ele acreditava que o modo de produção é fundamental em uma sociedade e que o socialismo seria historicamente inevitável porque haveria uma inevitável transformação do modo de produção da sociedade.

Todos os aspectos culturais da sociedade, sua filosofia e sua literatura formariam, segundo Marx, a superestrutura da sociedade. Já a subestrutura — ou seja, seus fundamentos — seria o modo de produção.

Segundo Marx, sua análise econômica revelava uma inevitável linearidade dos vários modos de produção. O comunismo primitivo levou ao feudalismo. O feudalismo levou ao capitalismo. O capitalismo levará a uma bem-sucedida revolução do proletariado. O proletariado irá impor o socialismo. E, do socialismo, surgirá o comunismo.

Esse processo linear fecha o círculo. Tudo começou com o comunismo primitivo, e tudo levará ao comunismo supremo. Com o comunismo supremo, toda a evolução histórica estará completa. 

Só que Marx nunca explicou por que a evolução das etapas seria dessa maneira. Ele nunca explicou por que não haveria outra revolução após a chegada do comunismo supremo, a qual levaria a um modo de produção maior que o comunismo. Era mais conveniente apenas finalizar esse processo linear no comunismo.

A União Soviética jamais alegou ter chegado ao estágio comunista do modo de produção. Ela sempre se disse socialista. O nome do país era União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Os líderes supremos da União Soviética jamais alegaram que a URSS havia alcançado a etapa final do modo de produção. Stalin promoveu o conceito de socialismo em apenas um país. Ele diferia de Trotsky nesse quesito. Trotsky queria uma revolução do proletariado em nível global. Stalin era mais esperto. Ele queria o poder e, sendo assim, ele sabia que, antes de tudo, teria de consolidar o poder em um país. 

Logo, Trotsky teve de fugir do país, e Stalin enviou o agente Ramón Mercader, do Comissariado do Povo para Assuntos Internos, para matá-lo na Cidade do México. O agente matou Trotsky com um golpe de picareta em seu crânio. Foi um ato cheio de simbolismo. A picareta havia sido um dos ícones da história da Rússia.

O socialismo é a propriedade estatal dos meios de produção. Mas Marx profetizou que o estado desapareceria sob o comunismo. Pior: ele nunca explicou como ou por que isso iria acontecer. Sua teoria era bizarra. Ele dizia que, para abolir o estado, era necessário antes maximizá-lo. A ideia era que, quando tudo fosse do estado, não haveria mais um estado como entidade distinta da sociedade; se tudo se tornasse propriedade do estado, então não haveria mais um estado propriamente dito, pois sociedade e estado teriam virado a mesma coisa, uma só entidade — e, assim, todos estariam livres do estado.

O raciocínio é totalmente sem sentido. Por essa lógica, se o estado dominar completamente tudo o que pertence aos indivíduos, dominando inclusive seu corpo e seus pensamentos, então os indivíduos estarão completamente livres, pois não mais terão qualquer noção de liberdade — afinal, é exatamente a ausência de qualquer noção de liberdade que o fará se sentir livre.

Igualmente, Marx nunca mostrou como o sistema de produção poderia ser organizado nessa etapa suprema do comunismo, na qual não haveria nem um livre mercado e nem um planejamento centralizado pelo estado. Ele nunca forneceu qualquer detalhe sobre como seria uma sociedade comunista, exceto em uma breve passagem que foi publicada em um livro escrito conjuntamente com Engels e com o homem que os havia apresentado em 1843, Moses Hess. O livro foi intitulado A Ideologia Alemã (1845). Só foi publicado em 1932. Hess jamais ganhou créditos por sua co-autoria, mas parte do manuscrito aparece em sua coletânea de escritos.

Eis a descrição do comunismo:

Assim que a distribuição do trabalho passa a existir, cada homem tem um círculo de atividade determinado e exclusivo que lhe é imposto e do qual não pode sair; será caçador, pescador, pastor ou um crítico, e terá de continuar a sê-lo se não quiser perder os meios de subsistência.

Na sociedade comunista, porém, onde cada indivíduo pode aperfeiçoar-se no campo que lhe aprouver, não tendo por isso uma esfera de atividade exclusiva, é a sociedade que regula a produção geral e me possibilita fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar da manhã, pescar à tarde, pastorear à noite, fazer crítica depois da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico.

Esta fixação da atividade social, esta petrificação do nosso próprio trabalho num poder objetivo que nos domina e escapa ao nosso controlo contrariando a nossa expectativa e destruindo os nossos cálculos, é um dos fatores principais no desenvolvimento histórico até aos nossos dias.

Não obstante o fato de que há aproximadamente 70 volumes das obras de Marx e Engels, essa é a passagem mais longa que descreve o funcionamento de uma sociedade comunista e de como seria a vida sob esse arranjo.

Conclusão

Socialismo foi o sistema que realmente foi colocado em prática. Comunismo pleno nunca existiu e não passa de uma utopia cujo funcionamento jamais foi explicitado em trechos maiores do que um parágrafo.

Sem uma economia monetária — ou seja, sem uma economia em que os cálculos de lucros e prejuízos são possibilitados pelo dinheiro — é impossível haver uma ampla divisão do trabalho. 

E sem um livre mercado para todos os bens, mais especificamente para bens de capital, é impossível haver um planejamento econômico racional.

A propriedade comunal dos meios de produção (por exemplo, das fábricas) impede a existência de mercados para bens de capital (por exemplo, máquinas). Se não há propriedade privada sobre os meios de produção, não há um genuíno mercado entre eles. Se não há um mercado entre eles, é impossível haver a formação de preços legítimos. Se não há preços, é impossível fazer qualquer cálculo de preços. E sem esse cálculo de preços, é impossível haver qualquer racionalidade econômica — o que significa que uma economia planejada é, paradoxalmente, impossível de ser planejada. 

Sem preços, não há cálculo de lucros e prejuízos, e consequentemente não há como direcionar o uso de bens da capital para atender às mais urgentes demandas dos consumidores da maneira menos dispendiosa possível. 

Em contraste, a propriedade privada sobre o capital em conjunto com a liberdade de trocas resulta na formação de preços (bem como salários e juros), os quais permitem que o capital seja direcionado para as aplicações mais urgentes. Ao mesmo tempo, o julgamento empreendedorial tem de lidar constantemente com as contínuas mudanças nos desejos dos consumidores. 

O arranjo socialista simplesmente impede que esse mecanismo ocorra. Foi por isso que Mises argumentou, ainda em 1920, que qualquer passo rumo ao socialismo é um passo rumo à irracionalidade econômica.

E foi a isso que Heilbroner se referiu quando ele disse que "Mises estava certo".

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1 comentário:

Adilson, 24 de junho de 2020 

O comunismo é a cenoura na frente do burro.O socialismo é o chicote no lombo do burro.O burro é o proletáriado.O chicote é...o capitalismo.Diante das impossibilidade acima do que é;só resta o fato de que em todos os paises que foi implantado essa ignomia monstruosa,todos,até o advento da china hibrida,levaram sua populacão ao nivel de consumo minimo para subsistência.Preservando mão de obra barata,qualificada,e recursos,que são explorados pelo...capitalismo,posteriormente!

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Texto, imagem e comentário reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 1 de março de 2024

Por que não sou comunista

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de fevereiro de 2024

Por que não sou comunista

Texto do filósofo britânico Bertrand Russel, extraído de The Basic Writings of Bertrand Russell (2009) e publicado pelo Instituto Mises:

Há duas perguntas que devem ser feitas em relação a qualquer doutrina política:

(1) Seus princípios teóricos são verdadeiros?

(2) Sua implementação prática é suscetível de aumentar a felicidade humana?

De minha parte, acredito que os princípios teóricos do comunismo são falsos e que suas máximas práticas são tais que produzem um aumento não quantificável da miséria humana.

As doutrinas teóricas do comunismo derivam, em sua maioria, de Marx. Minhas objeções a Marx são de dois tipos: primeiro, que ele possuía uma mente confusa; segundo, que seu pensamento foi quase inteiramente inspirado pelo ódio. A doutrina da mais-valia, que supostamente demonstra a exploração dos assalariados no capitalismo, é alcançada por (a) a aceitação sub-reptícia da doutrina da população de Malthus, que Marx e todos os seus discípulos explicitamente repudiam, e (b) a aplicação da teoria ricardiana do valor aos salários, mas não aos preços dos bens manufaturados. Marx está inteiramente satisfeito com o resultado, não porque o resultado concorde com os fatos ou seja logicamente coerente, mas porque é projetado para enfurecer os assalariados.

A doutrina marxista, segundo a qual todos os eventos históricos foram motivados por conflitos de classe, é uma extensão apressada e falsa na história mundial de certas características proeminentes na França e na Inglaterra há cem anos. Sua crença na existência de uma força cósmica chamada "Materialismo Dialético" e que ela governa a história humana independentemente da vontade humana é mera mitologia. Os erros teóricos de Marx, no entanto, não teriam importado tanto não fosse o fato de que, como Tertuliano e Carlyle, seu maior desejo era ver seus inimigos punidos, pouco se importando com o que aconteceu com seus amigos no processo.

A doutrina de Marx era ruim o suficiente, mas os desenvolvimentos que ela experimentou sob Lenin e Stalin a tornaram muito pior. Marx havia ensinado que, após a vitória do proletariado em uma guerra civil, haveria um período revolucionário de transição e que, durante esse período, o proletariado, como é a prática usual após uma guerra civil, privaria seus inimigos derrotados do poder político. Esse período seria o da ditadura do proletariado. Não se deve esquecer que, na visão profética de Marx, a vitória do proletariado teria que vir uma vez que ele tivesse crescido para se tornar a grande maioria da população.

A vitória do proletariado, portanto, como Marx a concebeu, não foi essencialmente antidemocrática. Na Rússia, em 1917, no entanto, o proletariado constituía uma pequena porcentagem da população; a grande maioria era camponesa. Foi decretado que o partido bolchevique era a seção consciente de classe do proletariado, e que o pequeno comitê de seus líderes era a seção consciente de classe do partido bolchevique. A ditadura do proletariado tornou-se, assim, a ditadura de um pequeno comitê e, em última análise, de um homem: Stalin. Como o único proletário com consciência de classe, Stalin condenou milhões de camponeses à morte por fome e milhões de outros ao trabalho forçado em campos de concentração. Ele chegou a decretar que as leis da hereditariedade deveriam doravante ser diferentes do que costumavam ser, e que o germoplasma deveria obedecer aos decretos soviéticos e não, por outro lado, àquele monge reacionário, Mendel.

Não consigo entender como é que algumas pessoas inteligentes e humanas puderam encontrar algo para admirar no vasto campo de escravatura produzido por Stalin. Sempre discordei de Marx. Minha primeira crítica hostil a ele foi publicada em 1896. Mas minhas objeções ao comunismo moderno são mais profundas do que minhas objeções a Marx. É o abandono da democracia que considero particularmente desastroso. Uma minoria que apoia seu poder nas ações de uma polícia secreta será necessariamente cruel, opressora e obscurantista. Os perigos do poder irresponsável foram geralmente reconhecidos durante os séculos XVIII e XIX, mas aqueles que se deslumbraram com as aparentes conquistas da União Soviética esqueceram tudo o que foi dolorosamente aprendido durante o tempo da monarquia absoluta, e, sob a influência da curiosa ilusão de que estavam na vanguarda do progresso, regrediram ao pior da Idade Média.

Há sinais de que, com o tempo, o regime soviético se tornará mais liberal. Mas, mesmo que isso seja possível, está longe de ser certo. Enquanto isso, todos aqueles que valorizam não apenas a arte e a ciência, mas sim suprimentos suficientes de pão e estarem livres do medo de que uma palavra descuidada proferida por seus filhos na frente do professor possa condená-los ao trabalho forçado no deserto da Sibéria, devem fazer o que estiver ao seu alcance para preservar em seus próprios países um modo de vida menos servil e mais próspero.

Há quem, oprimido pelos males do comunismo, seja levado à conclusão de que a única maneira eficaz de combater esses males é através de uma guerra mundial. Acho que isso é um erro. Tal política pode ter sido possível em algum momento; mas agora a guerra se tornou tão terrível e o comunismo se tornou tão poderoso que ninguém pode ter certeza do que restaria depois de uma guerra mundial; e, o que sobrar, provavelmente será pelo menos tão ruim quanto o comunismo de hoje. Esse prognóstico não depende de qual lado sairá é nominalmente vitorioso, se houver. Depende exclusivamente dos efeitos inevitáveis da destruição em massa por meio de bombas de hidrogênio e cobalto e, talvez, de pragas engenhosamente propagadas.

A forma de combater o comunismo não é a guerra. O que é necessário, para além de armamentos que dissuadam os comunistas de atacar o Ocidente, é uma diminuição da base de agitação nas partes menos prósperas do mundo não comunista. Na maioria dos países da Ásia há uma pobreza abjeta que o Ocidente deve aliviar o máximo que puder. Há também uma grande amargura causada por séculos de domínio europeu insolente na Ásia. Isso deve ser tratado através da combinação de tato paciente com declarações claras de renúncia a relíquias da dominação branca como as que subsistem na Ásia. O comunismo é uma doutrina que se alimenta da pobreza, do ódio e da contenda. A sua propagação só pode ser travada diminuindo a área onde a pobreza e o ódio existem.

*Este artigo foi originalmente publicado em Instituto von Mises Barcelona.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com