quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A luta por direitos humanos é de esquerda ou de direita?

Em 10 de dezembro de 2018 é celebrado os 70 anos da 
Declaração Universal dos Direitos Humanos. (ROMEOCANE1 VIA GETTY IMAGES)

Texto e imagem reproduzidos do site HuffPost Brasil

A luta por direitos humanos é de esquerda ou de direita?

A violação dos direitos fundamentais em qualquer canto do planeta corrói os princípios que nos protegem a todos do abuso e da tirania.

Por Maria Laura Canineu e César Muñoz Acebes*

Hoje celebramos o aniversário de 70 anos de um documento vivo. Vivo não porque esteja em constante evolução, se adaptando a novos tempos por meio de emendas, como é o caso da nossa Constituição federal. Vivo porque os valores que o documento solidifica e a promessa que ele carrega são tão relevantes hoje quanto quando foi adotado pela Assembléia Geral da ONU sobre as cinzas da Segunda Guerra Mundial.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos tornou-se um avanço histórico porque consagrou uma ideia muito simples, mas poderosa: todos os seres humanos gozam dos mesmos direitos e liberdades fundamentais, independentemente de raça, sexo, credo ou qualquer outra distinção.

Esse é o "universal" no nome da declaração. Significa que esses direitos e liberdades se aplicam a pessoas de qualquer país, seja uma ditadura ou uma democracia, se o governo é de direita ou de esquerda.

O artigo 1º da Declaração Universal determina que "todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos". Essas 12 palavras anunciaram uma mudança sistêmica em um mundo no qual algumas pessoas - a realeza, os ricos, os europeus, os homens, os brancos - sempre desfrutaram de mais direitos e privilégios que outros.

E esses valores continuam absolutamente pertinentes hoje no Brasil.

Quando o artigo 3º da Declaração diz que todos têm direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal, isso envolve a elite privilegiada e também os moradores da periferia.

Quando o artigo 5º diz que ninguém será submetido a tortura ou maus tratos, não abriu uma exceção para pessoas suspeitas de pertencerem a grupos de esquerda durante o regime militar do passado, ou para jovens negros da periferia que alguns policiais acham que podem espancar, agredir ou matar de forma impune. Aqueles que torturaram, no passado, ou torturam no presente, nunca deveriam ser lembrados como heróis, mas sim responsabilizados e punidos.

Significa que esses direitos e liberdades se aplicam a pessoas de qualquer país, seja uma ditadura ou uma democracia, se o governo é de direita ou de esquerda.

Quando o artigo 19º diz que todos os seres humanos têm direito à liberdade de opinião e expressão, isso não exclui os policiais militares, que no Brasil podem sofrer punições desproporcionais se defenderem publicamente uma reforma policial ou tecerem críticas a um superior ou uma decisão do governo.

E quando o artigo 23º diz que todos os seres humanos têm direito a igual remuneração por igual trabalho, isso inclui as mulheres, que no Brasil continuam a ganhar muito menos do que os homens, com o mesmo nível de educação.

O Brasil progrediu na defesa de alguns dos direitos contidos na Declaração. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), por exemplo, está tentando concretizar o direito a uma audiência "justa e pública" ao estabelecer que toda pessoa presa tem de ser conduzida à presença de um juiz dentro de 24 horas da sua prisão. No entanto, apesar da determinação do CNJ, mais da metade dos presos no Brasil definham em celas superlotadas, por até meses antes de ver um juiz, segundo o próprio CNJ.

Outros direitos humanos de caráter universal enfrentam novas ameaças no País. O artigo 14º reconhece o direito de qualquer pessoa de buscar asilo em outros países, mas alguns políticos defendem o fechamento das nossas fronteiras para os venezuelanos que fogem de um país em colapso, mesmo quando escapam de perseguição.

O artigo 26º estabelece que a educação "deve ser orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos do ser humano e pelas liberdades fundamentais". O projeto de lei "Escola sem Partido", atualmente em discussão no Congresso Nacional, ao dispor sobre a proibição não apenas da discussão, mas até mesmo do uso de termos como "gênero" e "orientação sexual" nas salas de aula, é contraditório a esta previsão.

A Declaração Universal em si não tem caráter vinculante, mas hoje os princípios nela contidos refletem amplamente o direito internacional consuetudinário a que todas as nações devem aderir, e foram posteriormente incluídos em vários tratados que o Brasil tem obrigação legal de cumprir.

A violação dos direitos fundamentais em qualquer canto do planeta corrói os princípios que nos protegem a todos do abuso e da tirania.

Dez anos após a adoção da Declaração, a ex-primeira-dama dos Estados Unidos Eleanor Roosevelt, que presidiu a comissão que a elaborou, perguntou em um discurso onde começam os direitos humanos universais. "Em pequenos lugares", ela respondeu, "perto de casa - tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em nenhum mapa do mundo". Isso era, é claro, antes do Google Maps.

Mas seu ponto de vista faz total sentido. A Declaração Universal é diferente de qualquer acordo internacional anterior, que lidou com fronteiras, comércio ou outras relações entre países. A Declaração é sobre cada ser humano.

A violação dos direitos fundamentais em qualquer canto do planeta corrói os princípios que nos protegem a todos do abuso e da tirania. É por isso que devemos valorizar e defender a Declaração que nos coloca, as pessoas, no centro das relações internacionais.

*Maria Laura Canineu é diretora do escritório da Human Rights Watch no Brasil e César Muñoz Acebes é pesquisador sênior.

Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

Texto e imagens reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

A origem e o significado da Declaração Universal dos Direitos Humanos

Eleanor Roosevelt, primeira-dama dos Estados Unidos de 1933 a 1945,
segura a declaração em 1948. (FPG VIA GETTY IMAGES).

Publicado originalmente no site Huffpost Brasil, em 10 de dezembro de 2018

A origem e o significado da Declaração Universal dos Direitos Humanos

Proclamado em Paris, documento norteador de constituições no mundo completa 70 anos nesta segunda.

By Leda Antunes

Direito à vida, à liberdade e à igualdade. Essas são as bases da Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada em 10 de dezembro de 1948 na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) em Paris. O documento consolidou a proteção universal dos direitos humanos como uma norma comum a ser alcançada por todos os povos e nações após os horrores vividos na Europa durante as guerras mundiais da primeira metade do século 20.

Mas, 70 anos depois, o texto ainda é desconhecido por parte da população mundial. A cada 10 pessoas no mundo, 4 afirmam conhecer pouco ou nada sobre os direitos humanos, segundo a pesquisa "Human Rights in 2018 - Global Advisor" feita pela Ipsos em 28 países e divulgada em maio deste ano.

"A Declaração Universal de Direitos Humanos é um documento internacional que estabelece um padrão de comportamento moral e ético mínimo comum para a relação dos Estados com os seus cidadãos", explica ao HuffPost Brasil o doutor em direito e relações internacionais Renato Zerbini Leão.

O fundamento da declaração é que toda vida tem exatamente o mesmo valor
Néri de Barros Almeida, coordenadora do Observatório dos Direitos Humanos da Unicamp

Assembleia Geral da ONU que culminou com Declaração Universal dos Direitos Humanos
 foi realizada no Palais de Chaillot, em Paris, em 1948.
 STF VIA GETTY IMAGES

Quando o documento começou a ser pensado, o mundo ainda sentia os efeitos da Segunda Guerra Mundial, encerrada em 1945. "A descoberta do horror que o homem é capaz é o elemento que está na base dos movimentos sociais que reivindicaram a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos", afirma a historiadora Néri de Barros Almeida, coordenadora do Observatório de Direitos Humanos da Unicamp.

Ela explica que a declaração coloca no contexto internacional algo que já estava presente nas convicções morais de muitas nações: a defesa da dignidade humana. "Essa ideia existe em diferentes culturas, e as culturas traduzem de maneira diferente o que ela significa. Mas, no fundamento, sempre está a negação que uma vida humana pode ser negociada em favorecimento da vida do outro. Toda vida tem exatamente o mesmo valor", diz Almeida.

A ONU define o documento como a base da luta universal contra a opressão e a discriminação, defende a igualdade e a dignidade das pessoas e reconhece que os direitos humanos e as liberdades fundamentais devem ser aplicados a cada cidadão do planeta.

Porém, a percepção sobre a declaração é deturpada. Segundo a pesquisa da Ipsos, 6 em cada 10 entrevistados brasileiros concordam com a afirmação de que os únicos beneficiados pelos direitos humanos são aqueles que "não merecem", como "criminosos e terroristas". Para a pesquisadora da Unicamp, esses dados refletem desconhecimento. "Se as pessoas soubessem quais são os direitos humanos, elas jamais permitiram que esse discurso se disseminasse, porque a maioria das pessoas precisa dessa proteção", afirma.

Foi ao fim desta 3ª assembleia da ONU que a declaração foi proclamada.
STF VIA GETTY IMAGES

Os ideais universais dos direitos humanos

Mas afinal o que diz a declaração? Os ideais universais contidos nos 30 artigos do texto vão desde os mais fundamentais, como o direito à vida, aos que garantem uma vida digna, como os direitos à alimentação, educação, trabalho, saúde, segurança, Justiça e liberdade. Enfatizando a dignidade inerente de cada ser humano, o preâmbulo do texto afirma que os direitos humanos são "a base da liberdade, da justiça e da paz no mundo".

70 anos após a sua proclamação, muitos artigos da declaração seguem sendo violados ou estão sob ameaça em diversos lugares do mundo. Para a ONU, racismo, discriminação e intolerância permanecem entre os maiores desafios do nosso tempo. "Embora a gente tenha uma práxis imperfeita do respeito a essa declaração, ela é instrumento que permite que grupos sociais e indivíduos possam reivindicar direitos", ressalta a historiadora.

Aqui explicamos os dois artigos do texto que, segundo os especialistas, nos ajudam a entender o que significa a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH).

Artigo 1

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade."

Em artigo publicado em comemoração aos 70 anos da DUDH, a ONU conta que o ex-chefe de direitos humanos Zeid Ra'ad Al Hussein definiu a palavras iniciais do texto como "as mais ressonantes e bonitas de todos os acordos internacionais". Elas destacam que "direitos humanos não são uma recompensa para bom comportamento", mas o direito de todas as pessoas, em todos os momentos, em todos os lugares.

"O artigo primeiro da declaração reproduz os ideais da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade. A liberdade é condição para igualdade (...) A fraternidade significa trabalhar coletivamente para o bem coletivo. Ou seja, nós somos indivíduos que vivem em comunidade e precisamos ter essa visão", explica Néri de Barros Almeida, da Unicamp.

A palavra dignidade aparece 5 vezes ao longo da declaração e, segundo a ONU, é a base de todos os direitos humanos. A organização explica que a dignidade humana é reconhecida como direito em mais de 160 constituições do mundo, incluindo a brasileira, de 1988. Em 1945, apenas 5 países usavam o termo na sua carta magna.

As primeiras palavras do artigo 1º ecoam a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento francês adotado pouco após a Revolução Francesa, em 1789. Graças à redatora indiana Hansa Mehta, a frase francesa "todos os homens nascem livres e iguais" se tornou "todos os seres humanos nascem livres e iguais".

O primeiro artigo da declaração estabelece as bases para todos os outros.

Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos em 2018.
AFP VIA GETTY IMAGES

Artigo 3

"Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal."

Com as memórias dos campos de concentração nazistas e dos assassinatos de milhões promovidos durante a Segunda Guerra, o artigo 3º — relacionado intimamente com os artigos 5 e 9, contra tortura e prisão arbitrária — marcaram a renúncia à crença de Hitler na supremacia do Estado para controlar as vidas de indivíduos.

Mas o direito à vida não se restringe a isso e abarca o que é necessário para que a dignidade humana também seja respeitada. "O direito à vida inclui tudo aquilo que é fundamental a existência. Vida, liberdade e segurança significam que a pessoa não pode ser torturada, presa injustamente, não pode viver à margem da sociedade sem acesso a moradia, a emprego, a saúde, educação", afirma a historiadora.

Nos artigos seguintes, a declaração afirma que nenhum ser humano pode ser mantido em escravidão, que todos têm direito a proteção contra qualquer discriminação. O texto garante ainda o direito ao acesso à Justiça e igual proteção da lei e diz que todo humano acusado de delito é considerado inocente até que se prove o contrário. Também é garantido o direito à nacionalidade e à busca de asilo em outro país, à liberdade de opinião e expressão, ao trabalho, à saúde e à educação.

Todos esses direitos decorrem do direito à vida, explica Almeida.

Texto e imagens reproduzidos do site huffpostbrasil.com

Expansão da religiosidade

Foto: reprodução da internet

Publicado originalmente no site do CINFORM, em 10 de dezembro de 2018

Expansão da religiosidade

Por Thayná Ferreira 

Ao contrário do que muitos sociólogos e filósofos imaginaram há cerca de 50 anos, cresce em todo o mundo a busca do homem pelo espiritual

Esta semana, movido pelo movimento da sociedade em busca de valores espirituais, o CINFORM empreendeu esta reportagem acerca da expansão dos movimentos religiosos pelo Brasil afora.

Nos dias atuais, as emissoras de televisão e rádio, os jornais impressos, as revistas voltadas para qualquer segmento trazem em suas programações, quase que obrigatoriamente, inserções que têm pautado os movimentos religiosos no seu mais amplo leque. Isso sem falar dos veículos exclusivos das diversas religiões e suas diversificações doutrinárias e comportamentais.

COMO FICA A SOCIOLOGIA?

Nos anos de 1970, sociólogos com perfis semelhantes ao do americano Peter Berger vaticinaram que as religiões, porque não responderiam aos verdadeiros anseios do homem, estariam fadadas ao extermínio.

Ao contrário do que pensaram muitos desses profissionais, as religiões proliferaram pelo mundo afora, mesmo que, segundo estudos do filósofo e sociólogo francês Pierre Bourdieu, façam parte de um largo mercado da fé, como explicou no seu escrito de instigante tema “A economia das trocas simbólicas”.

Outro sociólogo famoso, o romeno Mircea Eliade, que popularizou o tema “O sagrado e profano” em livro homônimo de sua lavra, traçou, com rara eficiência o perfil do homem religioso como sendo um ser especial, que consegue estar na terra sem pertencer a ela. Eliade demonstra uma potente remagicalização do mundo quando, pela fé, e por explicitação, o religioso consegue promover uma ruptura na natureza e abrir um portal para ligar um espaço sagrado (um templo) ao céu, através de um dossel sagrado.

Nesse quadro, o CINFORM procurou ouvir lideranças de diversos cultos para que o leitor, ou leitora, forme sua concepção de mundo sob o prisma da velha, e sempre nova religiosidade humana.

CANDOMBLÉ

Yalorixá Edvania José dos Santos.
 Foto: arquivo pessoal

Eu acredito que o aumento das religiões nos dias atuais, independente do que se acredita, tem sido e como sempre foi, uma porta de escape para esse mundo que tem se tornado tão cruel, violento e sem compaixão. As pessoas estão necessitando de amor. Esse mundo frenético tem deixado as pessoas carentes, e nós acreditamos que buscar uma fé nos traz a esperança de volta, pois sentimos na pele o amor que procuramos quando temos no que acreditar e pessoas que também acreditem e sigam conosco na caminhada da vida.

Digo isso por experiência própria, de pessoas que recebo em minha casa, em um desses ensejos recebi um casal no Ilê Axé qual presido, e ao nos despedirmos, como é de meu costume, desejei axé dando um abraço. Nesse momento, a senhora que me visitava se emocionou e chorando me relatou que precisava muito daquele abraço. E é isso que as pessoas necessitam, dessa energia de afeto, corpo no corpo, de união, se sentirem acolhidas e também de se reconhecerem, se entenderem no mundo e serem amadas pelo que são. É o olho no olho, o aperto de mão, o fazer o bem. No nosso exercício de fé deixamos a alma se elevar, sentimos na pele a energia acolhedora dos nossos Protetores.

Gostaria de deixar claro que não posso falar pelo Candomblé por ser Yalorixá, existem muitas outras sacerdotisas e sacerdotes de nossa religião que possuem seu caminho, sua espiritualidade, seu modo de agir, de viver e de educar os seus. Eu posso falar pela minha casa, pelas minhas experiências e pelo modo como percebo o mundo através do Candomblé. Acredito que somos um povo escolhido e cuidado pelos nossos ancestrais e Orixás que atravessaram Continentes para nos proteger e cuidar, e que como força de resistência chegou até os dias atuais e que me ensinam a pensar o mundo e minhas relações pessoais. Sendo assim, se esse florescimento religioso for pautado no amor e no respeito, independente do credo, aquece o meu coração pensar que exista um crescimento da fé e do bem.

SOBRE SINCRESTISMO NEOPENTECOSTAIS – Acredito que as bases ideológicas e o exercício da fé das duas religiões comparadas, são um tanto antagônicas e por isso não existe uma mistura entre o culto neopentecostal e as práticas de religiões afro. Embora possa parecer em alguns aspectos para quem não conhece bem ambas religiões, na prática é bastante distante para os que são adeptos destes segmentos.

FUTURO DAS RELIGIÕES – Existem dois caminhos que se difundem quando paro para pensar sobre o futuro das religiões no mundo. É certo que enquanto existirmos enquanto humanidade acreditaremos em algo maior, consequentemente se as religiões forem meios de disseminar amor, paz, esperança, amor ao próximo e fazer o bem, temos tudo para que a humanidade cresça, cada um dentro de sua fé pautada no respeito com a finalidade de evolução no intuito de gerar nas pessoas o sentimento de mais amor, respeito ao próximo, aceitação de si e do outro. Só temos a crescer se a humanidade sepultar as diferenças e cultivar o respeito, deixando as críticas de lado, preservando o espaço do outro.

No entanto, a fé e a espiritualidade em alguns casos confundem as pessoas e as tornam propensas a gerar determinados conflitos que segregam ao invés de unir. Não devemos deixar que isso imponha limites, e se for dessa forma, é nocivo, não deve acontecer. Tenho esperança no futuro das religiões enquanto porto seguro das pessoas. Prezamos que as religiões promovam amor, carinho, cuidado com a natureza pois fazemos parte dela. A palavra-chave é RESPEITO.

DA ESSÊNCIA DAS RELIGIÕES AFRO – As comunidades tradicionais de matriz africana não acreditam numa necessidade de salvação. As bases de nossa religiãoproveniente de África, não possuem em sua crença e no seu modo de pensar o mundo, algo que se assemelhe com uma necessidade de salvação. Acreditamos que nossa vida aqui na Terra é uma passagem e enquanto estamos nela devemos evoluir enquanto seres humanos, alcançando tanto uma elevação pessoal quanto coletiva, se ajudando enquanto família.

Dessa forma, nós nos deixamos salvar das intempéries dessa vida com o amor, e pensamos que fazer o bem nos faz crescer e evoluir enquanto parte da humanidade desse modo estaremos contribuindo para algo maior. E devemos fazer isso enquanto estamos vivos. É por isso que em nossas conversas no terreiro, em família, falamos muito sobre nossa evolução enquanto pessoas inseridas na sociedade.

ATOS COMO O COPO D’ÁGUA – De antemão posso dizer que essas práticas não têm a ver com a nossa religião. As coisas que mais possam se aproximar enquanto nomenclatura e efeito já que estamos falando de limpezas espirituais, se distanciam na prática, uma vez que, nós candomblecistas temos uma liturgia completamente diferente e uma forma distinta de exercer nossa espiritualidade dentro dos nossos ritos de purificação.

Temos em nossos ritos de limpeza algo ancestral e que possui uma energia, o tão conhecido AXÉ, que é emanado da nossa Natureza, através da cura proveniente das Águas, das Ervas, dos nossos cantos e rezas. O que é feito nas igrejas é liturgicamente diferente e nesse sentido não tenho nada a dizer com relação a isso e nem queremos suscitar esse tipo de conflito dentro de nossos limites de respeito. Dessa forma, uma vez que não convém com o nosso Sagrado, não consigo enxergar um elo entre as práticas.

EVANGÉLICOS

Pr. Zoar Assuero

Estas são religiões milenares, que sempre tiveram adesão num índice muito elevado em toda história, agora contam com ferramentas poderosas de divulgação e agregação, nos meios de comunicação, principalmente a internet. O Cristianismo continua sendo a maior religião do mundo, e que mais cresce. Mas um estudo do Pew Research Center, uma organização que conduz pesquisas independentes sobre diferentes temas e em escala global, procurou traçar um panorama sobre as religiões no mundo. Até 2050 o islamismo, segundo essa pesquisa de projeção, estará com o número de seguidores bem próximo do número de cristãos. Em particular a migração de povos árabes para países europeus e América, tem acelerado esse crescimento. A globalização aproximou mais as pessoas e suas etnias. Religiões fortes para uma cultura, um povo e etnia, acabaram se aproximando do mundo através da globalização.

SINCRETISMO NEOPENTECOSTAL – Não acho que exista sincretismo dentro do culto neopentecostal. Nem que haja mistura no culto neopentecostal, com práticas de religiões afro. Penso que pode haver semelhanças. São vertentes religiosas completamente distintas. Assim como, no culto protestante, há também semelhança com práticas judaicas. Que continue sendo assim, cada viés religioso com suas tradições, crenças e práticas.

No estudo que citei acima, afirma que, todas as estimativas são baseadas em tendências atuais e levam em conta indivíduos que se designam especificamente de uma religião para outra, de povo para outro. Uma coisa é certa, as pessoas cada vez mais procurarão a religião como recurso de abrigo, alento, socorro, fuga. Esse mesmo estudo diz que nos próximos 50 anos, o número de pessoas sem religião vai percentualmente reduzir. As pessoas estão em busca de respostas, e vão continuar buscando nas religiões essa fonte de respostas. Nós, cristão, acreditamos que Jesus Cristo é essa fonte.

SESSÃO DE DESCARREGO – Penso que há um equívoco no pensamento. Se o que se chama de “sessão de descarrego”, seja a ação ou método de enfrentamento de forças sobrenaturais, espíritos malignos, demônios. Há registros históricos nos evangelhos bíblicos, mostrando Jesus Cristo, seus apóstolos e discípulos, em momento de expulsão de espíritos malignos. Se isso é o que quer chamar de “sessão de descarrego”, não seria então uma prerrogativa ou prática de doutrinas da umbanda/candomblé. Históricas igrejas pentecostais presentes no Brasil no início do século 20, tinham em normalidade, momentos não programados dos seus cultos, situações de enfrentamento de forças sobrenaturais e espíritos malignos.

ESPÍRITAS

João Batista Medeiros

Vice-presidente da Federação Espírita do Estado de Sergipe – FEES.

Na verdade, essa ideia de que as religiões estariam fadadas à extinção vem desde o final do século XVIII, aprofundou-se no final do século XIX, tendo Nietzsche, na sua obra Gaia Ciência, colocado na boca do personagem homem louco que a civilização ocidental se afastou de Deus. Entretanto é necessário observar a imagem antropomórfica que os homens têm de Deus, o que leva à compreensão da sábia frase de Voltaire: “Eu não acredito no Deus que os homens criaram; eu acredito no Deus que fez os homens”. Esse Deus não entendido à imagem da imperfeição do homem está mais vivo do que nunca e é Aquele apresentado por Jesus: Pai comum de toda a humanidade, que ama de forma igual todos os seus filhos (faz chover sobre bons e maus e faz nascer o sol sobre injustos e justos) e que a resposta à questão primeira de O Livro dos Espíritos define como “Inteligência Suprema e Causa Primeira de todas as coisas”.

É preciso separar o amor a Deus da questão da religião. E é preciso diferenciar as acepções conceituais de religião. As religiões que estão perecendo ou que perecerão serão as dogmáticas, aquelas que se preocupam com exterioridades muito mais do que com a vivência dos valores espirituais e morais que proponham a evolução moral do homem, no sentido de amar ao próximo como a si mesmo.

Quanto a essa assertiva, a questão 842 de O Livro dos Espíritos é muito elucidativa ao pontuar as condições para que se possa dizer que esta ou aquela religião é boa. Como todas as doutrinas têm a pretensão de ser única expressão de verdade, por que sinais podemos reconhecer a que tem o direito de se apresentar como tal?

“Essa será a que produza mais homens de bem e menos hipócritas, quer dizer, que pratiquem a lei de amor e caridade na sua maior pureza e na sua aplicação mais ampla. Por esse sinal reconhecereis que uma doutrina é boa, pois toda doutrina que tiver por consequência semear a desunião e estabelecer divisões entre os filhos de Deus só pode ser falsa e perniciosa. ”

Portanto, o Espiritismo ao se referir a religiosidade assim o faz concebendo-a desvestida de dogmatismo e cultos exteriores, mas sim como aproximação com Deus e vivência dos ensinamentos de Jesus, Modelo e Guia da Humanidade, defendendo, assim, a frase dita por Kardec: “fora da caridade não há salvação”.

SOBRE RELIGIÕES MILENARES – Inicialmente se deve pontuar que as religiões aqui citadas: xamanismo, budismo, islamismo, não são de hoje, embora o mundo ocidental ultimamente esteja se familiarizando mais com elas e outras. Quanto ao Xamanismo, evidências arqueológicas e antropológicas indicam que essa prática já existe há mais de 20.000 anos e nela vemos lições do amor incomensurável de Deus por todos os Seus filhos. Quanto ao Budismo, data aproximadamente do século VI a. C., e embora não seja considerada uma religião teísta, há de se pontuar que ela nega mesmo Deus antropomórfico, conforme se vê nesta resposta do Lama:

O mundo vai mudando e Deus não fala de novo. Mas agora nós podemos olhar com o olho de Deus e falar. É extraordinário, Deus ficou vivo de novo. Então esse Deus o budismo pensaria que seria possível. Na visão budista, não dá muito para personificar esse aspecto primordial. Ele não é um ser que está em algum lugar. Mas eu acredito que, com algumas exceções, os teólogos também não estão pensando em Deus como um ser antropomórfico em algum lugar. (In: http://www.cebb.org.br/budismo-e-deus/)

E quanto ao islamismo, fundada pelo Profeta Maomé no ano 622, suas principais características são: a crença em Deus; os livros sagrados, profetas (inclusive consideram Moisés e Jesus Profetas), anjos e fatalismo.

Conforme se pode observar a concepção de Deus não antropomórfico é a que felizmente começa a imperar, tal como a questão 13 de O Livro dos Espíritos se refere: Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom.

Em primeiro ligar torna-se interessante esclarecer o que J. Herculano Pires*, referindo-se ao Centro Espírita, dizia: “Podemos figurá-lo como um espelho côncavo em que todas as atividades doutrinárias se refletem e se unem, projetando-se conjugadas no plano social geral, espírita e não espírita”.  Não se aceita, pois, nos dias atuais um Centro Espírita estanque, fechado em suas quatro paredes, a que Leopoldo Machado chamava Espiritismo de “mortos”, quando propugnou fizéssemos o Espiritismo de “vivos”.

*Nascido em Avaré, estado de São Paulo (1914-1979), jornalista, destacou-se como um dos mais ativos divulgadores do espiritismo no país. Traduziu os escritos de Allan Kardec e escreveu tanto estudos filosóficos, quanto obras literárias inspiradas na Doutrina Espírita.

SOBRE OS TEMPLOS – E, neste diapasão, O Reformador, Revista Semanal de Divulgação Espírita, janeiro de 1951, afirmou que o Centro Espírita deve revestir as características de Templo, Lar, Hospital, Oficina e Escola. Assevera Emma¬nuel: “Quando se abrem as portas de um templo espírita-cristão ou de um santuário doméstico, dedicado ao culto do Evangelho, uma luz divina acende-se nas trevas da ignorância humana e através dos raios benfazejos desse astro da fraternidade e conhecimento, que brilha para o bem da comunidade, os homens que dele se avizinham, ainda que não desejem, caminham, sem perceber, para a vida melhor”.

Seguindo essa mesma linha de pensamento o que o espiritismo espera é que nessas práticas que cominam com abertura de novos templos religiosos, que os objetivos perseguidos sejam no sentido de divulgar os ensinamentos do mestre Jesus, num ambiente de fraternidade, oração e trabalho com a vivência dos valores espirituais e morais que proponham ainda a evolução moral do homem, no sentido de amar ao próximo como a si mesmo, evitando o toar simples das promessas mesquinha de riqueza e prosperidade. Perdendo o testemunho, o templo religioso como um todo perde também a autoridade para falar. Aquele que abre novo Templo deve se preocupar com o que as pessoas sob o seu comando passam nele a enxergar. Não deverá esse novo líder ser considerado um aproveitador da boa índole do povo.

Soren Kierkgaard (1813-1855), teólogo dinamarquês, brindou-nos com uma parábola que ilustra bem esse conceito. Conta-nos que um grande circo acampou nas cercanias de uma cidade. Na tarde que antecedeu a estreia, quando saltimbancos, mágicos e trapezistas, se preparavam para o espetáculo, começou um incêndio no circo. O palhaço, já trajado e pintado, correu para a cidade em busca de socorro. Desesperado, ele gritava em praça pública, clamando por auxílio. Porém, quanto mais elevava sua voz e corria de um lado para o outro, mais as pessoas se divertiam. Pensavam que ele usava de um ardil excelente para lotar o circo. Exausto e em desespero, caiu de joelhos: “Por Deus, por Deus! Ajudem-nos! O circo está em chamas. ” Os meninos gargalhavam. Os mais velhos se maravilhavam dizendo: “Quão extraordinário ator se mostra o figurante do circo, que sabe chorar para fazer graça”. E o circo foi destruído pelas chamas.

ACERCA DE SINCRETISMO – Na acepção do termo, Sincretismo é a fusão de diferentes doutrinas para a formação de uma nova, seja de caráter filosófico, cultural ou religioso. O sincretismo mantém características típicas de todas as suas doutrinas-base, sejam rituais, superstições, processos, ideologias e etc. É a fusão de diferentes doutrinas para a formação de uma nova, seja de caráter filosófico, cultural ou religioso.

Por essa ótica o que se pode afirmar é que os neopentecostais formam um grupo coexistente com os pentecostais, mas com uma identidade distinta. Possuem uma forma muito sobrenaturalista de ter sua fé, com ênfase na busca de revelações diretas da parte de Deus, de curas milagrosas para doenças e a batalha espiritual entre forças espirituais do bem e do mal, que afirmam ter consequências diretas em sua vida cotidiana.

Entendo que a partir do momento quando os religiosos estiverem convencidos de que só existe um Deus no Universo e que, em definitivo, Ele é o mesmo que o adorado por eles sob o nome de Jeová, Oxalá, Tupã, Alá, Arquiteto do Universo, Olodum ou Deus, e que quando se puserem de acordo com os atributos essenciais da Divindade, compreenderão que, sendo único esse Ser, única tem de ser a vontade suprema, estender-se-ão as mãos uns aos outros, como os servidores de um mesmo Mestre e os filhos de um mesmo Pai.

Assim, quando todos os homens, estiverem convencidos de que Deus é o mesmo para todos, de que esse Deus, soberanamente justo e bom, nada de injusto pode querer; e que o mal vem não Dele, mas dos homens, todos se considerarão filhos do mesmo Pai e estenderão as mãos uns aos outros. E, neste aspecto Allan Kardec afirma que é esta a Fé que o Espiritismo dá, acreditando que no futuro esse será o eixo em torno do qual irá girar o gênero humano, quaisquer que sejam os cultos e as crenças particulares.

Pouco conheço acerca dessas práticas utilizadas pelas igrejas neopentecostais.

INTOLERÂNCIA E CARIDADE – Por outro lado, ouso afirmar que o professor Vagner Gonçalves da Silva, do Departamento de Antropologia da USP, desenvolve pesquisas na área das populações afro-brasileiras, enfocando temas como religiosidade (candomblé, umbanda, neopentecostalismo, intolerância religiosa), relações entre religião e cultura brasileira (festas populares, música, capoeira, literatura, cinema etc.), artes afro-brasileiras e representação etnográfica (trabalho de campo e etnografia em hipermídia). Ele também é coordenador do CERNE – Centro de Estudos de Religiosidades Contemporâneas e das Culturas Negras, grupo de pesquisa certificado pelo CNPq-USP, autor de várias obras acerca do assunto, se constituindo, portanto, na fonte basilar para quem tenha dúvidas e deseja saber com profundidade acerca do assunto.

Mas, para não fugir de um todo acerca da pergunta formulada devo acrescentar que o Espiritismo não se considera dono de toda a verdade. Por isso não diz: Fora da verdade não há salvação, máxima que dividiria em vez de unir, e perpetuaria o antagonismo e a incompatibilidade entre os segmentos religiosos.

Como espírita defendo a máxima de Kardec: “Fora da caridade não há salvação”, que significa a consagração do princípio da igualdade perante Deus e da liberdade de consciência.

Importante considerar que a palavra caridade é interpretada como amor em algumas traduções do Evangelho, mas o significado de “ação em benefício do próximo” permanece. A prática da caridade promove a evolução espiritual do ser, quando se considera os seguintes princípios: (a) a pessoa caridosa ou amorosa jamais desampara o próximo, independentemente da situação, gravidade ou tipo problema existentes; (b) a caridade é sempre manifestação de amor a Deus e ao próximo; (c) a caridade promove o desenvolvimento de outras virtudes, daí se revelar como o principal instrumento da salvação humana, por vivenciar a Lei de Amor.

Allan Kardec esclareceu que o amor e a caridade são o complemento da lei de justiça, pois amar o próximo é fazer-lhe todo o bem que nos seja possível e que desejaríamos que nos fosse feito. A caridade, segundo Jesus, não se restringe à esmola; abrange todas as relações com os nossos semelhantes, sejam eles nossos inferiores, nossos iguais ou nossos superiores. Ela nos prescreve a benevolência para com todos; a indulgência para com as imperfeições alheias, porque nós mesmos precisamos de indulgência que nos proíbe humilhar os desafortunados, ao contrário do que comumente fazemos e, finalmente, o perdão das ofensas, como está escrito no Livro dos Espíritos, questão 886.

Inúmeros foram os bons Espíritos que falaram acerca da caridade, valendo aqui mencionar o que afirmou o Apóstolo Paulo: “Meus filhos, na máxima: Fora da caridade não há salvação, estão contidos os destinos dos homens, na Terra e no céu; na Terra, porque à sombra desse estandarte eles viverão em paz; no céu, porque aqueles que a tiveram praticado encontrarão graça diante de Deus. Essa divisa é a chama celeste, a coluna luminosa que guia o homem no deserto da vida conduzindo-o à Terra Prometida. Ela brilha no céu, como uma auréola santa na fronte dos eleitos, e, na Terra, está gravada no coração daqueles a quem Jesus dirá: ide à direita, vós os abençoados de meu Pai. […]”.

Chico Xavier em dado momento afirmou: “Se Allan Kardec tivesse escrito que fora do Espiritismo não há salvação, eu teria ido por outro caminho. Graças a Deus ele escreveu: Fora da Caridade, ou seja, fora do Amor não há salvação”.

Concluindo, lembraria o breve diálogo entre o teólogo brasileiro Leonardo Boff e o Dalai Lama.

Leonardo Boff explica: No intervalo de uma mesa-redonda sobre religião e paz entre os povos, na qual ambos (eu e o Dalai Lama) participávamos, eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico, lhe perguntei em meu inglês capenga:

– “Santidade, qual é a melhor religião?”

(Your holiness, what`s the best religion?)

Esperava que ele dissesse:

“É o budismo tibetano” ou “São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo.”

O Dalai Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olho – o que me desconcertou um pouco, por que eu sabia da malícia contida na pergunta – e afirmou:

“A melhor religião é a que mais ti aproxima de Deus, do Infinito. É aquela que te faz melhor.”

Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta, voltei a perguntar:

– “O que me faz melhor?”

Respondeu ele:

-“Aquilo que te faz mais compassivo”.

(e aí senti a ressonância tibetana, budista, taoista de sua resposta), aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado, mais amoroso, mais humanitário, mais responsável…Mais ético… A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião…”

Calei, maravilhado, e até os dias de hoje estou ruminando sua resposta sábia e irrefutável…

Não me interessa amigo, a tua religião ou mesmo se tem ou não tem religião. O que realmente importa é a tua conduta perante o teu semelhante, tua família, teu trabalho, tua comunidade, perante o mundo…

Lembremos:

“O Universo é o eco de nossas ações e nossos pensamentos”.

A Lei da Ação e Reação não é exclusiva da Física.

Ela está também nas relações humanas.

Se eu ajo com o bem, receberei o bem.

Se eu ajo com o mal, receberei o mal.

Aquilo que nossos avós nos disseram é a mais pura verdade: “terás sempre em dobro aquilo que desejares aos outros”.

“Para muitos, ser feliz não é questão de destino… É de escolha. Pense nisso”…

Texto e imagens reproduzidos do site: cinform.com.br

sábado, 8 de dezembro de 2018

A mídia diante do público, por J.R. Guzzo


Publicado na edição impressa de VEJA e no Blog Fatos, em 08/12/2018

A mídia diante do público

Por J.R. Guzzo

É fácil saber o que aconteceria com uma empresa de ônibus que vende nos seus guichês da rodoviária de São Paulo uma passagem para Belo Horizonte, por exemplo, e leva o passageiro para Piracicaba. Vive fazendo isso, aliás, pois a sua grande dificuldade é anunciar no letreiro a cidade para onde o ônibus realmente está indo. O que aconteceria é o seguinte: os passageiros, um dia, não iriam mais viajar com essa companhia para lugar nenhum. Chega, diriam eles — assim não dá mais. Da mesma forma, se uma pessoa costuma lhe dizer coisas que nunca acontecem, ou simplesmente vive contando mentiras, o mais provável é que você deixe de prestar atenção no que ela diz. Num processo na Justiça, igualmente, uma alegação falsa feita por uma das partes pode lhe causar sérios problemas: todo o resto da sua versão passa a correr o risco de ficar sob suspeita. Para sorte de muita gente, porém, nem tudo funciona assim. A memória dos seus clientes é mais tolerante, ou mais fugaz — e, portanto, mais disposta a esquecer que lhes disseram uma coisa que não aconteceu, ou disseram uma coisa e aconteceu outra, ou, ainda, que aconteceu justamente o contrário do que lhes foi dito que iria acontecer. Faz parte dessa gente de sorte, hoje em dia, a mídia brasileira.

Mas será mesmo sorte — ou, ao contrário, é um problema cinco-estrelas que ninguém está vendo direito? Os leitores, ouvintes e telespectadores podem estar em relativo silêncio, mas há sinais de que a tolerância do público a pagar passagens para uma cidade e ser depositado em outra está deixando de ser uma proteção garantida para a imprensa. Ninguém reclama em praça pública — mas o consumidor de informação nunca reclama em praça pública. Um dia ele simplesmente vai embora, sem dizer até logo, e não volta mais. Quando os proprietários de órgãos de comunicação, e os jornalistas que trabalham neles, percebem o que aconteceu, já é tarde. A menos que tenham o suporte de uma fortaleza financeira em seu conjunto de negócios, podem encomendar o caixão — e os cemitérios brasileiros de jornais, revistas, rádios, televisões e, ultimamente, páginas eletrônicas que se imaginavam a última palavra em matéria de jornalismo moderno estão cada vez mais lotados. A diminuição do público interessado em acompanhar o que a mídia lhe diz não começou agora, é claro. Há dez ou quinze anos a migração passou a ganhar volume — e não parou mais, por motivos que já foram explicados em milhões de palavras, a maioria delas, aliás, lida por bem pouca gente. Mas, pelo menos no caso do Brasil, provavelmente não tinha havido até esta última campanha eleitoral uma oportunidade tão clara de medir o tamanho da distância, a cada dia maior, que separa hoje o que a imprensa imprime ou põe no ar daquilo que existe nos corações, mentes e sentimentos da audiência. É um abismo. A mídia diz uma coisa. O público acha o contrário. A mídia anuncia que vão acontecer os fatos A, B e C. Não acontece nenhum dos três. A mídia quer que as pessoas façam isso ou aquilo. As pessoas fazem exatamente o oposto.

Para que ficar tentando esconder a realidade? O que acaba de acontecer na eleição, muito simplesmente, foi o maior fiasco que os meios de comunicação brasileiros já viveram em sua história recente. É melhor assinar logo o boletim de ocorrência, admitir que alguma coisa deu horrivelmente errado e pensar, talvez, se não seria o caso de averiguar quais falhas foram cometidas. Por que a mídia ignorou a lista de desejos, claríssima, que a maioria da população estava apresentando aos candidatos? Por que não tentou, em nenhum momento, entender por que um número cada vez maior de eleitores se inclinava a votar em Jair Bolsonaro? Durante meses seguidos, os comunicadores brasileiros tentaram provar no noticiário que coisas trágicas iriam acontecer para todos se Bolsonaro continuasse indo adiante — mas nunca pensaram na possibilidade de que milhões de brasileiros estivessem achando que essas coisas trágicas, justamente essas, eram as que consideravam as mais certas para o país. A mídia, na verdade, convenceu a si própria de que não estava numa cobertura jornalística, e sim numa luta do bem contra o mal. Em vez de reportar, passou a torcer e a trabalhar por um lado na campanha, convencida de ter consigo a “superioridade moral”. Resultado: disputou uma eleição contra Jair Bolsonaro e perdeu, por mais de 10 milhões de votos de diferença.

Não é função dos órgãos de comunicação disputar eleições, é claro, muito menos perder. É o pior dos mundos. Já que decidiram fazer a coisa errada, engajando o seu trabalho a favor de um lado e contra o outro, deveriam, pelo menos, evitar o papelão de acabar surrados pelo candidato que declararam “inimigo” e por seus quase 58 milhões de eleitores. Isso, para usar português claro, significa que você está falando, mas ninguém está ouvindo o que você diz — ou ouvindo tão pouco que não faz diferença nenhuma. É a tal “credibilidade” — a sua capacidade de ser acreditado entre os semelhantes, ou levado a sério por eles. No caso da eleição de Jair Bolsonaro, a credibilidade foi para o espaço. Como passar seis meses seguidos ou mais fazendo uma operação contínua contra o candidato menos equipado materialmente para disputar a campanha eleitoral e constatar, no dia da apuração, que todo esse esforço não resultou em nada? A conclusão é que o público está pouco ligando para o que a mídia lhe diz. A partir daí, ela se torna irrelevante na vida real. Fica como arquibancada em jogo de futebol: xinga o juiz de ladrão e o técnico de burro, mas não altera em nada o resultado do placar.

Os fatos estão aí, confirmando a futilidade de projetos para ganhar eleições livres, hoje em dia, sem combinar o resultado com as pessoas de carne e osso que vão votar. Inven­tou-se como estratégia, desde o começo, que o ex-presidente Lula era candidato à Presidência da República em 2018 — não apenas isso, a mídia garantia que ele era o favorito disparado para ganhar. Foi uma falsificação integral. Lula não podia ser candidato, porque estava e está na cadeia, condenado a mais de doze anos como ladrão em duas instâncias da Justiça brasileira. Mas os “institutos de pesquisa” asseguravam que Lula tinha “40% dos votos”, que havia “avançado mais X pontos”, que ganhava de todos os outros candidatos — e a imprensa, em peso, reproduzia essa fábula em suas manchetes. Só quando o próprio Lula, em pessoa, anunciou que não era candidato, as pesquisas retiraram o seu nome da lista. No meio-tempo, man­teve-se viva por vários dias a ficção de que “a ONU” iria obrigar o Brasil a aceitar a candidatura — chegaram a convocar o STF para julgar essa aberração. Sai Lula, entra Fernando Haddad. Sete dias antes da eleição, uma das “pesquisas”” deu Haddad com “22%”, numa “ascensão” que só poderia levá-lo, matematicamente, à vitória. Para não deixar dúvidas, todos os meios de comunicação repetiram até o dia da eleição que Bolsonaro perderia de “todos os outros candidatos” no segundo turno, em “todas as pesquisas”. Deu-­se o exato contrário.

Nos dias finais da campanha apareceu uma reportagem tentando mostrar que haviam sido feitas doações para que Bolsonaro pagasse uma campanha de notícias falsas contra os adversários — em cima disso, pediu-se a “anulação do primeiro turno”, inclusive com atrizes da Globo exigindo, num vídeo eleitoral especialmente irado, “uma atitude” do Supremo. Falsa, mesmo, só a reportagem — reproduzida maciçamente através da imprensa até morrer de inanição, por ausência de fatos, de pé e de cabeça. A brutal tentativa de homicídio que Bolsonaro sofreu em Juiz de Fora foi geralmente tratada como uma notícia menor, fruto natural do “ódio” trazido à campanha em grande parte por ele próprio. Até hoje, a maioria dos jornalistas se refere ao episódio como “a facada”; é jornalisticamente incorreto escrever que um criminoso quis assassinar Bolsonaro. Desde o início da campanha, os mais potentes cérebros da análise política do Brasil deram como fato científico que a candidatura de Bolsonaro iria “desaparecer” assim que começasse o horário eleitoral obrigatório na TV, no qual ele contava com poucos segundos. No mundo dos fatos, Bolsonaro ganhou a eleição — e o candidato que tinha o maior tempo de TV não conseguiu nem 5% dos votos.

Mais do que tudo, talvez, a mídia não chegou nem perto de entender uma realidade evidente: a maioria do público brasileiro, nos dias de hoje, pensa basicamente o contrário do que pensam os jornalistas e os donos dos veículos de comunicação. Tem valores opostos aos dos comunicadores. Aprova o que a mídia condena. Condena o que a mídia aprova. É a favor da polícia, que a imprensa considera inimiga dos pobres, e contra os bandidos, que os jornalistas consideram vítimas da injustiça social. Os heróis da imprensa, como a vereadora Marielle, não são os heróis da população. E nem o que a imprensa divulga maciçamente como sendo problemas essenciais para o Brasil é percebido da mesma maneira pela massa — homofobia, racismo, fascismo, machismo, “agrotóxicos”, terras indígenas, torturas cometidas quarenta anos atrás são vistos mais com indiferença do que com indignação. Em questões como a conveniência de eliminar as diferenças entre os gêneros masculino e feminino, deixando em segundo plano as leis da biologia, mídia e maioria estão simplesmente em posições opostas.

Naturalmente, há um preço a pagar por tudo isso. Ele aparece na dificuldade cada vez maior, por parte da mídia, de fazer avanços na única questão que realmente interessa: a batalha pelo público. Ninguém tem ouvido histórias de veículos que triplicaram seus leitores ou sua audiência nos últimos anos; é perfeitamente óbvio, assim, que o método que vem sendo utilizado pela mídia para fazer o seu trabalho está dando errado. Como poderia estar dando certo se os resultados são um desastre? O aviso das eleições está aí. A televisão, em seu conjunto, deixou de existir como um fator de importância numa eleição brasileira — é como se tivesse sido jogada uma bomba de hidrogênio em cima dela.

Até quatro anos atrás era no programa eleitoral obrigatório que tudo se decidia numa campanha; hoje ele não vale nada. Os “institutos de pesquisa” também podem publicar os números que bem entenderem na mídia. Não são capazes de mudar coisa alguma. Não quando dizem que Dilma Rousseff seria “a senadora mais votada do Brasil” — e ela acaba em quarto lugar. Os meios de comunicação, enfim, fizeram uma guerra sem descanso contra Bolsonaro — e sua influência foi absolutamente nula no resultado da eleição.

A internet, o Facebook, o Twitter e o restante do arsenal nuclear que a tecnologia eletrônica despeja a cada momento sobre o universo das comunicações mudaram a política no Brasil em 2018. Há muitos anos vêm transformando a imprensa num animal cada vez mais diferente de tudo o que possa ter sido — e não há sinais de que essa história venha a tomar um novo rumo. Em momentos como este, é uma tragédia que a imprensa brasileira venha demonstrando, no conjunto daquilo que publica em seus veículos, uma inteligência inferior à inteligência média dos seus leitores, ouvintes e espectadores. Desse jeito, torna-se cada vez mais inútil para eles. Da mesma maneira, é complicado manter-se em estado de hostilidade eterna perante o público. É como dizer a todos: “Não queremos mais você por aqui. Vá ler outra coisa. Pista”. Ninguém vai chegar a lugar nenhum por aí.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/J.R. Guzzo

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Extrema pobreza aumenta e chega a 15,2 milhões de pessoas em 2017

Foto: Cristiano Mariz - reproduzida da revistaVEJA e postada pelo blog 

Texto publicado originalmente no site Huffpost Brasil, em 05/12/2018

Extrema pobreza aumenta e chega a 15,2 milhões de pessoas em 2017

Dados do IBGE mostram que também aumentou a proporção de pessoas abaixo da linha da pobreza.

By Agência Brasil

Por Cristina Indio do Brasil, da Agência Brasil

O número de pessoas na faixa de extrema pobreza no Brasil aumentou de 6,6% da população em 2016 para 7,4% em 2017, ao passar de 13,5 milhões para 15,2 milhões. De acordo com definição do Banco Mundial, são pessoas com renda inferior a US$ 1,90 por dia ou R$ 140 por mês. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o crescimento do percentual nessa faixa subiu em todo o país, com exceção da Região Norte onde ficou estável.

Os dados fazem parte da Síntese dos Indicadores Sociais 2018, divulgada nesta quarta-feira (5) pelo IBGE, que entende o estudo como "um conjunto de informações sobre a realidade social do país". O trabalho elaborado por pesquisadores da instituição tem como principal fonte de dados para a construção dos indicadores a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de 2012 a 2017.

O estudo mostra ainda que também aumentou a proporção de pessoas abaixo da linha da pobreza. Em 2017, era de 26,5%, enquanto no ano anterior ficou em 25,7%. Os percentuais significam a variação de 52,8 milhões de pessoas para 54,8 milhões. De acordo com definição do Banco Mundial, são pessoas com rendimento até US$ 5,5 por dia ou R$ 406 por mês. A maior parte dessas pessoas, mais de 25 milhões, estava na Região Nordeste.

Houve elevação ainda na proporção de crianças e adolescentes (de 0 a 14 anos) que viviam com rendimentos até US$ 5,5 por dia. Saiu de 42,9% para 43,4%, no período.

Condições de vida

A pesquisa identificou que em 2017 cerca de 27 milhões de pessoas, ou seja, 13% da população, viviam em domicílios com ao menos uma das 4 inadequações analisadas: características físicas, condição de ocupação, acesso a serviços e presença de bens no domicílio. A inadequação domiciliar foi a que atingiu o maior número de pessoas: 12,2 milhões, ou 5,9% da população do país. Isso significa adensamento excessivo, quando há residência com mais de três moradores por dormitório.

No Amapá o nível atingiu 18,5%, enquanto em Santa Catarina ficou em 1,6%. No mesmo ano, 10% da população do país viviam em domicílios sem coleta direta ou indireta de lixo e 15,1% moravam em residências sem abastecimento de água por rede geral. O Maranhão foi o estado que registrou a maior falta de coleta de lixo: 32,7% da população não tinha acesso ao serviço.

Ainda na ausência de melhores condições, o estado do Acre é o que registrou maior percentual (18,3%) de pessoas residentes em domicílios sem banheiro de uso exclusivo. Já o Piauí, tinha a maior proporção da população sem acesso a esgotamento sanitário por rede coletora ou pluvial (91,7%).

Esses resultados mostram uma diferença grande para o estado de São Paulo, onde houve a maior cobertura para cada um dos serviços. A proporção da população sem coleta de lixo ficou em 1,2%, sem acesso a abastecimento de água por rede alcançou 3,6% e sem esgotamento sanitário por rede foi 7,0%.

Texto reproduzido do site: huffpostbrasil.com

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

A Globo, do Time-Life ao "viés comunistoide"


Publicado originalmente no site F5 News, em 01/12/2018 

A Globo, do Time-Life ao "viés comunistoide" 

Coluna de Luiz Eduardo Costa no f5news

A TV-GLOBO surgiu sob as bênçãos do regime autoritário instalado no país em abril de 1964. Tudo foi facilitado para que se concretizasse uma meta empresarial traçada pelo jornalista Roberto Marinho.

Ele antevia o fascinante espaço que se abria para um canal de TV batizado sob as águas lustrais esparzidas pelos sacerdotes da República fardada, que casavam o novo veículo com a ideia de ¨integração nacional¨. Essa ideia, um coronel engenheiro, Euclides Quandt de Oliveira, começara a por na prancheta. O que Rondon iniciara, o que os aviadores do Correio Aéreo Nacional, o trem de ferro, o caminhão, e a navegação de cabotagem tentavam fazer para cobrir as distancias brasileiras, Quandt faria, depois, como Ministro das Comunicações, espalhando torres de micro-ondas de 50 em 50 quilômetros.

O país iria integrar-se pela comunicação simultânea, e à Rede Globo foi atribuído esse papel. Em 1966 entrava em operação a TV-Globo. Foi beneficiada com favores generosos, entre eles a isenção das taxas de importação, e o acesso a um câmbio especial. As suas principais concorrentes capengavam, por incompetência empresarial, ou retaliações que sofriam por serem vistas com desconfiança pelos militares.

O império dos Diários Associados começava a naufragar. Eram 18 emissoras de televisão, 36 rádios, 34 jornais, o último deles o Diário de Aracaju. A chegada a Sergipe de um elo da cadeia Associada, trouxe alguma modernidade para a capengante imprensa local, que misturava idealismo, fervor político-partidário com ingênuo desconhecimento das ¨regras do mercado¨. 

E Assis Chateaubriand, o criador do império, ditava a sua regra sem escrúpulo ou hipocrisia: ¨Veículo de comunicação vende espaço publicitário pela tabela, e a opinião ou o silêncio a gente fixa o preço¨.

Roberto Marinho acrescentaria: ¨O silêncio é mais importante do que a opinião¨. Na ditadura essa era uma regra de ouro.

O paraibano Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, o Chatô, montara seu complexo de empresas, entre elas indústrias, fazendas, com ousadia, genialidade, e também cafajestice. Mas ele era um cafajeste generoso, desprendido, capaz de esvaziar o próprio bolso e chantagear tantos outros mais recheados do que os dele, para que contribuíssem, por exemplo, para tornar possível a ousada ideia do Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MASP.

Em 1950 ele inaugurou em São Paulo a TV-Tupy, a primeira do Brasil. Era um empreendimento caro, e inviável, segundo famosos economistas na época. Tudo foi importado, ou melhor, contrabandeado. Se fossem obedecidas as regras da burocracia brasileira, a coisa levaria dez anos.

Dois anos depois, o presidente Getúlio Vargas assistia o primeiro programa de mais uma Tv-Tupy, agora, no Rio de Janeiro. O aparelho de TV fora uma doação ao Palácio do Catete, feita, cinco anos antes, por Chateaubriand. O então ocupante do palácio, o presidente Eurico Dutra, sabia que a TV fizera parte de um lote contrabandeado, porque as leis brasileiras não permitiam tal tipo de importação.

Chateaubriand não conseguiu impedir que a TV-Globo fechasse um acordo operacional com o grupo americano Time-Life, e já ciente de que Marinho vencera a parada, antes de morrer, em maio de 1966, raivoso com o marechal Castello Branco que não o atendera, já repartira  o seu império entre os principais colaboradores, que se tornaram condôminos.

E os Associados morreram, pela rapinagem dos condôminos, e pela disposição revelada pelo governo em liquidá-lo, cobrando a montanha de impostos nunca antes recolhidos.

A TV-Excelsior, que se atreveu a ter alguma independência, e fez a proeza da primeira transmissão simultânea Rio-São Paulo, foi meticulosamente esmagada, junto com outras empresas do grupo, a Panair do Brasil, o Banco Noroeste, e a COMAL, maior exportadora de café do mundo. O dono do grupo, Mário Wallace Simonsen matou-se num Hotel luxuoso da Riviera francesa. A conspiração civil militar que o abateu, deu mais fôlego à TV-Globo, que ficaria dona quase exclusiva do mercado.

A Rede Globo mereceu do general-presidente Médici, o maior dos elogios. Disse ele: ¨Toda noite quando assisto o Jornal Nacional, e vejo o que acontece pelo mundo, fico satisfeito porque o Brasil está em paz¨. Era o melhor prêmio para o silêncio, a regra de ouro de Roberto Marinho.

Só um dos presidentes militares fez cara feia para Roberto Marinho. Foi o general Figueiredo, de quem o dono da Globo ouviu: ¨Vou botar mais concorrentes na praça, a Globo está grande demais¨. Assim Sílvio Santos ganhou o SBT de presente.

Depois de ser satanizada por uma parte da esquerda, que a classificava como ¨instrumento do imperialismo americano¨, a Rede Globo agora desperta animosidades entre  amplos setores da sociedade que resolveram promover uma cruzada moralista em relação aos costumes, e enxergam na emissora um ¨um certo viés comunistóide¨, os efeitos deletérios da ¨doutrina de Gramisci¨, tudo convergindo para a dissolução moral das famílias brasileiras.

Tratam de desenterrar cadáveres, e ficam amedrontados com as suas caveiras.

O presidente Bolsonaro, quando candidato, chegou a dizer que cortaria as verbas publicitárias para a Rede Globo. Já existiriam negociações com a Televisa, mexicana, e se forem completadas, haveria a desnacionalização completa da nossa maior e mais influente rede de comunicação.

A rede Globo tem conceito internacional, acumula prêmios que deveriam nos orgulhar pela criatividade dos artistas, dos escritores, dos técnicos brasileiros. Emprega dezenas de milhares de pessoas e paga excelentes salários.

Parece que o sucesso nos incomoda, e nos desperta ódios irracionais.

Texto e imagem reproduzidos do site: f5news.com.br

Um novo caminho, por Fernando Henrique Cardoso

Vista do Congresso Nacional, em Brasília.

Publicado originalmente no site Brasil El País, em 2 de dezembro de 2018

Um novo caminho

Por Fernando Henrique Cardoso

Qualquer tentativa de reconstruir o que desabou no sistema político e de emergir algo novo passa pela autocrítica dos partidos, começando pelo PT, sem eximir o PMDB e tampouco o PSDB e os demais.

A última eleição foi um tsunami que varreu o sistema político brasileiro. Terminou o ciclo político-eleitoral iniciado depois da Constituição de 1988. Ruiu graças ao modo pelo qual se formaram os partidos, o sistema de voto e o financiamento das campanhas. A vitória da candidatura Bolsonaro funcionou como um braço cego da História: acabou de quebrar o que já estava em decomposição. Há muitos cacos espalhados e há a necessidade de reconstrução. Ela será feita pelo próximo governo? É cedo para dizer.

O sistema político-partidário não ruiu sozinho. As fraturas são maiores. Antes, o óbvio: a Lava Jato mostrou as bases apodrecidas que sustentavam o poder, sacudiu a consciência do eleitorado. Qualquer tentativa de reconstruir o que desabou e de emergir algo novo passa pela autocrítica dos partidos, começando pelo PT, sem eximir o PMDB e tampouco o PSDB e os demais. Na sua maioria, os “partidos” são sopas de letras e não agremiações baseadas em objetivos e valores. Atiraram-se na captura do erário, com maior ou menor gula.

Visto em retrospectiva é compreensível que um sistema partidário sem atuação na base da sociedade desmonte com aplausos populares. Os mais pobres encontram nas igrejas evangélicas – e em muito menor proporção na igreja católica e em outras religiões –  recursos para se sentirem coesos e integrados. O povo tem a sensação de que os parlamentos e os partidos não atendem aos seus interesses. O eleitorado, contudo, não desistiu do voto e imaginou que talvez algo “novo”, inespecífico, poderia regenerar a vida pública.

Não foi só isso que levou à vitória o novo presidente. Basta conhecer mais de perto a vida dos mais pobres nas favelas e nas periferias carentes de quase tudo para perceber que pedaços importantes do território vivem sob o domínio do crime organizado, violência que não se limita a essas populações, pois alcança partes significativas da população urbana e rural.

Inútil imaginar outros motivos para a vitória “da direita”. Não foi uma direita ideológica que recebeu os votos. Estes foram dados mais como repulsa a um estado de coisas em geral e ao PT em particular. O governo foi parar em mãos mais conservadoras e mesmo de segmentos abertamente reacionários não pelas propostas ideológicas que fizeram, e sim pelo que eles simbolizaram: a ordem e a luta contra a corrupção. Não venceu uma ideologia, venceu o sentimento de que é preciso por ordem nas coisas, para estancar a violência e a corrupção e tentar retornar a algum tipo de coesão social e nacional.

Enganam-se os que pensam que o “fascismo” venceu. Enganam-se tanto quanto os que vêm o “comunismo” por todos os lados. Essa polarização marcou a pugna política em outra época de antes da Segunda Grande Guerra, ao fim da qual foi substituída pela polarização entre capitalismo liberal e socialismo.

Os problemas básicos do país continuarão a atazanar o povo e o novo governo. Este não será julgado nas próximas eleições por sua ideologia “direitista”, mas por sua capacidade, ou não, para retomar o crescimento, diminuir o desemprego, dar segurança à vida das pessoas, melhorar as escolas e hospitais e assim por diante.

Com isso não quero justificar a “direita” dizendo que se for capaz de bem governar vale a pena apoiá-la, mas também não posso endossar a “esquerda”, quando ela deixa de reconhecer seus erros, conclama a votar contra tudo que o novo governo propuser, sem considerar o que realmente conta: quais os efeitos para o bem-estar das pessoas, para o fortalecimento dos valores democráticos e para a prosperidade do país.

As mudanças pelas quais passamos, aqui e no mundo, são inúmeras e profundas. Pode-se mesmo falar em uma nova “era”, a da conectividade. Se houve quem escrevesse “cogito, ergo sum” (penso, logo existo), como fez Descartes, se depois houve quem dissesse que o importante é saber que “sinto, logo existo”, em nossa época, sem que essas duas afirmativas desapareçam, é preciso adicionar: “estou conectado, logo existo”. Vivemos a era da informática, das comunicações e da inteligência artificial que sustentam o processo produtivo e formam redes entre as pessoas.

As novas tecnologias permitem formas inovadoras de enfrentar os desafios coletivos, assim como acarretam alguns inconvenientes, como a dificuldade de gerar empregos, a propagação instantânea das fakenews, a formação de ondas de opinião que mais repetem um sentimento ocasional do que expressam um compromisso com políticas a serem sustentadas em longo prazo. Elas dependem de instituições, partidos, parlamentos e burocracias para serem efetivas.

As questões centrais da vida política não se resumem no mundo atual à luta entre esquerda e direita. No passado, o espectro político correspondia a situações de classe, interpretadas por ideologias claras, assumidas por partidos. Na sociedade contemporânea, com a facilidade de relacionamento e comunicação entre as pessoas, os valores e a palavra voltaram a ter peso para mobilizar politicamente. Isso abre brechas para um novo populismo e uma exacerbação do personalismo. O desafio está em recriar a democracia. O que chamo de um Centro Radical começa por uma mensagem que envolva os interesses e sentimentos das pessoas. E esta mensagem para ser contemporânea não deve estancar num palavreado “de direita”, nem “de esquerda”. Deve, a despeito das divergências de classe que persistem, buscar o interesse comum capaz de cimentar a sociedade. O pais não se unirá com o ódio e a intransigência cultural existentes em alguns setores do futuro governo.

Há espaço para propostas que juntem a modernidade ao realismo e, sem extremismos, abra um caminho para o que é novo na era atual. Este percurso deve incorporar a liberdade, especialmente a das pessoas participarem da deliberação dos assuntos públicos, e a igualdade de oportunidades que reduza a pobreza. E há de ver na solidariedade um valor. Só juntos poderemos mais.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com