quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Por que a desigualdade ainda persiste no Brasil


Publicado originalmente do site Nexo Jornal, em  25 Dez 2017 

Por que a desigualdade ainda persiste no Brasil, segundo este pesquisador Luiza Bandeira

Rafael Osorio, especialista em pobreza e desigualdade, afirma que dificuldade de ascensão social mostra que Brasil não é meritocrático

O IBGE divulgou, no dia 15 de dezembro, a “Síntese dos Indicadores Sociais”, pesquisa que analisa as condições de vida dos brasileiros. O levantamento mostra que, em 2016, o Brasil tinha 13,4 milhões de pessoas (ou 6,4% da população) vivendo em condição de extrema pobreza – com menos de US$ 1,90 (cerca de R$ 6) por dia, critério de análise adotado pelo Banco Mundial. 

A pesquisa mostrou também que a desigualdade social no Brasil persiste. De acordo com os dados, os brasileiros mais ricos, que se encontram no topo da pirâmide social, têm 14 vezes mais chances de continuar nessa posição do que pessoas mais pobres têm de ascender socialmente. A mobilidade social no Brasil, segundo a pesquisa, é de “curta distância”, ou seja, metade da população consegue melhorar de vida em relação aos pais, mas essa mobilidade está concentrada nos estratos mais baixos da população. São, por exemplo, filhos de agricultores que se tornam pedreiros ou empregadas domésticas.

“A pesquisa confirma uma coisa que a gente já sabe há muito tempo: o Brasil é uma sociedade muito pouco meritocrática”, afirmou em entrevista ao Nexo Rafael Osorio, coordenador sênior de pesquisa do Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG, na sigla em inglês) e pesquisador do Ipea. Leia abaixo trechos da entrevista, concedida por telefone.

A pesquisa mostra que mais de13 milhões de pessoas vivem em extrema pobreza no Brasil. Como interpretar esse dado, considerando os programas de proteção social? 

RAFAEL OSORIO O número é para a linha de pobreza de US$ 1,90 / dia, que é mais elevada do que o atual corte de elegibilidade para a extrema pobreza do programa Bolsa Família (PBF), o principal programa para a extrema pobreza no Brasil. O corte do PBF é de R$ 85 [por mês, por pessoa]; nesse corte, seriam por volta de 8,6 milhões os extremamente pobres. O ponto é que o PBF não é, nem nunca foi, suficiente para fazer as famílias saírem da pobreza apenas com o benefício. As famílias têm de contar com o trabalho de seus membros adultos. Esse trabalho costuma ser informal e precário, e a renda que dele advém é incerta e variável. O que o Bolsa Família faz é reduzir a incerteza, acrescentando uma fonte de renda estável para a família. Parte das famílias extremamente pobres continuava nessa situação, mesmo somando o benefício às rendas do próprio trabalho.

Embora o PBF de fato alivie a pobreza de muitas famílias e ajude outras a superá-la, o fato é que as linhas de ingresso do programa vêm se depreciando, assim como os valores dos benefícios. O PBF continua a ser uma fonte, mas não é possível mais consumir o tanto que se consumia antes. A boa notícia é que a maior parte dos extremamente pobres e pobres está no Cadastro Único.

 A coisa mais difícil para implementar um programa de pobreza é identificar os pobres, não errar muito e começar a fazer transferências para eles. O Brasil já tem tudo isso montado. Se o próximo governo decidir que, em vez de fazer Refis e perdoar dívida de ruralista, nós vamos fazer uma reforma da Previdência para acabar com aposentadoria de juiz acima do teto, e de funcionário público, e vamos usar o dinheiro para dobrar o Bolsa Família, em tamanho e benefícios, dá para fazer isso de um mês para o outro. A parte mais difícil da operação, que é montar isso, já está pronta. Temos uma desigualdade muito grande. A gente tem como tirar mais do andar de cima para dar para o andar de baixo. O que falta é vontade política para realmente enfrentar a pobreza, em vez de ficar tomando medidas que simplesmente reproduzam privilégios. 

A pesquisa do IBGE mostrou persistência na desigualdade de renda. Como a desigualdade de renda e a pobreza se relacionam no Brasil? 

RAFAEL OSORIO Uma anda junto com a outra. Estudos já mencionaram várias vezes que o Brasil não é propriamente um país pobre, mas é um país muito desigual. Há basicamente dois caminhos pra você resolver o problema da pobreza. Um é: a sociedade cresce. Você aumenta a renda, a renda de todo mundo aumenta, e pessoas saem da pobreza porque a renda está aumentando. Esse é o caminho do crescimento. E o outro caminho é o da redução da desigualdade. Como o Brasil é um país muito desigual, existe espaço para fazer transferências dos mais ricos para os mais pobres, mesmo sem não crescer muito. 

Nos últimos tempos, a redução da pobreza no Brasil ocorreu principalmente por conta do crescimento econômico, embora na última década tenha estado associada também com pequena queda da desigualdade. Daí a situação que a gente vive hoje: estamos enfrentando uma crise econômica, a pobreza está subindo. No Brasil, a pobreza tem respondido pouco às políticas, no geral, e respondido mais à dinâmica do crescimento econômico como um todo. 

E como isso se relaciona com a ascensão social?

RAFAEL OSORIO A pesquisa do IBGE confirma uma coisa que a gente já sabe há muito tempo: que o Brasil é uma sociedade muito pouco meritocrática, onde a mobilidade é essencialmente de curta distância. As pessoas não estão longe do seu status de origem, e os grandes estratos da base da pirâmide se diferenciam apenas entre o rural e o urbano. A ascensão está ligada ao processo de urbanização, industrialização e modernização. É a mobilidade estrutural, que ocorre porque a estrutura mudou. Quando se olha para empregadas domésticas e pedreiros, você percebe que muitos são filhos de trabalhadores rurais. Eles aparecem na pesquisa como exemplos de ascensão social. Mas isso não é porque a sociedade está mais aberta às trocas entre classes. Eles melhoraram de vida em alguma medida. Mas, do ponto de vista relativo, da pirâmide social, elas estão em posição que não é muito diferente da de seus pais, no passado. A sociedade foi muito aberta para que filhos de trabalhadores rurais se tornassem empregadas domésticas e pedreiros, mas não para que os filhos dessas famílias se tornassem médicos, advogados e engenheiros. Essa mobilidade não representa uma maior abertura da sociedade para trocas entre classes, que é o que você espera numa sociedade meritocrática. 

Isso é muito ruim, porque a grande promessa do liberalismo é que você teria uma desigualdade que seria justa, que funcionaria como um sistema de incentivo para que as pessoas se esforcem. Os médicos, por exemplo, ganham bem, mas têm de estudar muito. Eles merecem uma recompensa. O problema é que, no Brasil, a recompensa está muito além. Ela não está recompensando simplesmente esforço, mas ela está remunerando privilégios. 

Quando a gente vai ver em outros lugares do mundo, os países que têm menor desigualdade, como Holanda, Suécia, Dinamarca, Finlândia, são os países que têm menor desigualdade de oportunidades. Nenhum país do mundo é meritocrático de verdade, a origem social influencia todos eles, mas em alguns influencia menos. E quais são esses países? Os países onde em geral você encontra um sistema de ensino, principalmente para primeira infância, em que as pessoas sequer pensam em matricular os filhos em escolas privadas. Como as crianças passam por estímulos razoavelmente uniformes, determinados por uma política educacional, o Estado consegue contrapor de alguma forma a desvantagem que as crianças trazem de casa. Quando os indivíduos estão formados, você pode até adotar medidas compensatórias, mas é muito difícil você fazer com que isso seja redistributivo e não apenas compensatório.

 A pobreza no interior do Nordeste, por exemplo, é muito elevada. O Censo de 2010 mostra que, em áreas rurais de Alagoas, quase 40% da população com mais de 15 anos é analfabeta. Algumas pessoas dizem: vamos fazer inclusão produtiva, qualificação profissional. Mas como você faz isso com pessoas analfabetas ou analfabetas funcionais? Qual o material de curso, você vai dar alguma coisa para ela ler? E vamos dizer que fosse possível educar grande parte dos analfabetos adultos de Alagoas. Tem emprego no município onde eles moram? As soluções não são fáceis e imediatas. 

Em relação a políticas públicas, quais são as perspectivas em relação à pobreza no futuro?

RAFAEL OSORIO  As políticas sociais vão continuar sendo fundamentais por muito tempo. A gente pode ter momentos melhores, em que o Bolsa Família vai diminuir de tamanho, mas é uma despesa que a gente vai ter de continuar tendo. Essas famílias das quais a gente está falando têm uma capacidade limitada de se empregar, e quando estão ocupadas a ocupação é incerta, instável. O Brasil tem ido bem nos últimos anos, mas a gente tem de entender que vamos ter de fazer assistência social e transferência de renda ainda por muito tempo, porque é a solução que a gente tem para essas pessoas, porque não investimos nelas no passado. Algumas vão ter meios para superar essa condição, mas não todas. 

E educação é muito importante. É clichê, mas tem de investir em educação. Isso entra na esfera de uniformizar os estímulos. O período mais importante para definir o futuro das pessoas é o que acontece antes do seis anos de idade, onde a influência da família é muito grande. Quando eu falo com meu filho, passo para ele um vocabulário que ele vai encontrar, quando chegar à escola. O filho da família de baixa renda não necessariamente vai ter isso. Ele vai chegar numa escola cuja linguagem não é a que ele fala. Ele vai ter mais dificuldade de dominar essa linguagem, ele vai ter um percurso a mais que o outro já teve. 

Depois você tem de cuidar da trajetória. No Brasil a gente teve uma expansão do ensino superior, mas ainda é muito difícil que jovens de baixa renda completem o fundamental, façam a transição para o médio, da educação básica, obrigatória e gratuita.

Pense em uma pessoa que nasceu na fronteira do Piauí com o Maranhão. Se fosse um menino ou menina que tinha potencial para inventar a cura da Aids, nós o perdemos, porque essa pessoa não terminou o segundo grau, não terminou ensino médio, não vai para a faculdade. Nós estamos desperdiçando esse talento quando a gente permite que as estruturas que garantem os privilégios dos filhos do ricos se mantenham, e isso é ruim pra todo mundo, inclusive para os ricos.

Texto e imagem reproduzidos do site: nexojornal.com.br 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

'A vida aqui é ruim de noite. Queria ter uma casa, um lugar pra ficar..."



 Ginaldo dos Santos, morador em situação de rua em Aracaju (SE)
Foto: Anderson Barbosa/G1 Sergipe.

 O barraco de dona Maria José fica em uma praça na Zona Sul da capital sergipana
Foto: Anderson Barbosa/G1 SE.

 Depois que a casa desabou, dona Maria José foi morar nas ruas de Aracaju (SE) 
Foto: Anderson Barbosa.



Os profissionais do "Consultório na Rua" atendem a população 
levando vários serviços, como serviços de médicos e psicológos.
 Foto: Consultório na Rua

Publicado originalmente no site G1/SE., em 20/12/2017 

'A vida aqui é ruim de noite. Queria ter uma casa, um lugar pra ficar, era melhor', diz morador de rua

Cerca de 200 pessoas vivem nas ruas de Aracaju (SE), segundo a prefeitura.

'A vida aqui é ruim de noite. Queria ter uma casa, um lugar pra ficar, era melhor', diz morador de rua 'A vida aqui é ruim de noite. Queria ter uma casa, um lugar pra ficar, era melhor', diz morador de rua

Por Anderson Barbosa, G1 SE, Aracaju

A poucas horas da abertura do Centro Comercial de Aracaju, o dia amanhece lentamente e revela uma cidade que muita gente nem imagina. Nas calçadas das lojas, sob as marquises, dezenas de pessoas despertam para mais um dia de luta. Segundo a prefeitura, cerca de 200 pessoas vivem em situação de rua na capital, longe das famílias, muitas desempregadas e com pouco estudo.

"A vida aqui é ruim de noite, porque pra dormir, tem muitos atentados, a pessoa dorme e não dorme, não vive. Eu queria ter uma casa, um lugar pra ficar, era melhor. Vim para Aracaju a procura de emprego, mas acabei ficando nas ruas", conta Ginaldo dos Santos, 49 anos, sergipano que há 10 anos saiu do município de Ilha das Flores, Região do Baixo São Francisco, a procura de trabalho, depois de perder o emprego em uma fazenda de arroz.

Longe do barulho do trânsito e do vai e vem das pessoas focadas nas compras, o senhor de olhar triste revela um desejo nas primeiras horas da manhã. "Bom é tomar um banho, né? Primeiro. Às vezes eu tomo banho outras vezes não. Hoje mesmo não tomei. É difícil", conta deixando escorrer lágrimas no rosto, enquanto permanece sentado na cama improvisada feita de papelão.

A conversa é interrompida por uma buzina. Uma senhora entrega uma quentinha, que é a primeira refeição do dia. “O povo aqui é muito solidário. Essa mulher vem todos os dias”, conta.

Quanto mais se entra nas ruas do comércio, mais pessoas são encontradas dormindo sobre o papelão, algumas usam plásticos para os dias de chuva, outras um lençol para as noites frias. Quem está acostumada a essa situação, nem mesmo os raios intensos do sol do Nordeste interrompem o sono de quem nem sempre tem uma noite e madrugada tranquilas.

Há três quilômetros dali, na rotatória do Posto Sinhazinha, na Zona Sul, caixas de papelão protegem tudo o que dona Maria Silva possui. A área cercada no meio da praça é sala, quarto, cozinha, tudo junto. Doações se espalham nos chão, são roupas, cadernos, livros. Tudo o que a flanelinha recebe fica por ali.

O barraco improvisado não tem teto. “Ontem, estava chuviscando. Aí joguei o papelão e botei por cima deles”, apontando para dois netos e a filha que passaram a noite anterior com a avó. E segue: “Eu morava no Parque dos Faróis, tinha uma casa, aí a casa caiu. Cheguei a ter auxílio moradia, mas perdi depois que fui morar na Bahia”, conta.

O trabalho da dona Maria começa quando o trânsito fica mais intenso. Com água, sabão e uma espécie de rodo, dona Maria Silva limpa os vidros dos carros, ganha sorrisos, moedas e proibições para não limpar o veículo, tudo em alguns minutos enquanto o sinal permanece fechado.

"Estou suja porque limpo vidro de carro, mas tem gente que discrimina, que pensa que a gente é ladrão. Não são todos que são ladrões, não é todo mundo que quer estar nessa vida. Eu queria ter uma vida digna para dar a meu neto uma casa, um teto, uma comida, um trabalho", desabafa.

Consultório das Ruas

Há pouco mais de dois anos, uma equipe do projeto Consultório nas Ruas, da Secretaria da Saúde de Aracaju, iniciou um trabalho com essas pessoas. Música e conversa se intercalam nos atendimentos das equipes que contam com vários profissionais, como assistente social, médico e psicólogo.

O médio Edney Vasconcelos explica que sair do consultório convencional e fazer o atendimento nas ruas é viver uma experiência desafiadora e ao mesmo tempo de aprendizado para o profissional, independentemente do tempo de atuação.

"A gente pensa que vai ser um ambiente violento, um ambiente perigoso. Pelo contrário, a gente é muito bem recebido. Afinal, quem é que não gosta de cuidado? Nas abordagens à noite, a gente já foi até protegido por alguns deles. Eles querem ser cuidados, ainda mais eles que estão em uma trajetória de invisibilidade. Eles querem ser visíveis", observa.

Edney conta que se depara com problemas de saúde que exigem atendimento rápido. “A gente vê muitos casos de infecções de pele, por exposição ao sol e a chuva. Inclusive temos casos de tuberculose. Estamos acompanhando mais de perto sete casos. O fato é que essa população tem 10 vezes mais chances de adquirir a doença e infecções respiratórias por conta da vulnerabilidade", justifica.

A psicóloga e coordenadora do Consultório nas Ruas, Kamila Fialho, destaca os motivos que levam a situação de rua . "É bem comum a gente encontrar pessoas que tiveram problema conjugal. Outro motivo são os transtornos mentais, os andarilhos que se perdem da família e acabam ficando na condição de rua”, explica.

Uso de drogas

O G1 Sergipe conversou com um homem de pouco mais de 30 anos, que trabalha como flanelinha na Região Cental de Aracaju, e há um mês está nas ruas. Ele conta que os entorpecentes foram os responsáveis por afastrar-se da família, que já ofereceu tratamento em casas de apoio, mas optou por unir-se a outros usários na ruas.

“Não sou o primeiro e nem vou ser o último, mas o crack tem complicado muito a vida, não só a minha, como a de muitos amigos que se encontram na mesma situação. E poucas pessoas entendem o nosso lado. Não sabem que isso é uma doença crônica, né?", diz, enquanto faz o café da manhã com doações de um grupo religioso.

O homem também revela que o maior desejo é livrar-se do vício. “Ainda hoje vivo nas drogas, tentando me segurar para não usar o crack. Maconha fumo todo dia, que é para tentar esquecer o outro lado, mas só que isso também é ilusão, né? Uma grande ilusão e eu não consigo largar o vício de jeito nenhum", justifica.

A psicóloga Kamila Fialho explica que eles transformam a droga em solução, acreditando que se não fizerem uso não vão resistir. “Um dos efeitos colaterais da droga é a resistência, é a coragem, é a agressividade. A gente tem um número altíssimo de pessoas nas ruas que fazem uso de alguma droga, lícita ou ilícita. Este é o nosso desafio na articulação com a saúde mental para ver como a gente pode reduzir o dano desse uso abusivo", relata.

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com/se

Já comi várias coisas do lixo', revela jovem que vive nas ruas de Aracaju

 Robson Santos Melo  vive há 7 anos nas ruas de Aracaju (SE) 
Foto: Anderson Barbosa/G1 SE.

Jovem coleta material reciclado nas lixeiras.
Foto: Anderson Barbosa/G1 SE.

Publicado originalmente no site G1/SE., em 22/12/2017 

'Já comi várias coisas do lixo', revela jovem que vive nas ruas de Aracaju

No dia do aniversário, Robson Santos conta que queria ter um lugar para descansar depois de passar um dia inteiro catando material reciclado.

Por Anderson Barbosa, G1 SE, Aracaju

Sexta-feira (22) de dezembro de 2017. Há 24 anos nascia o sergipano Robson Santos, um jovem que a equipe do G1 Sergipe encontrou circulando com um carrinho cheio de material reciclado, recolhido nas lixeiras de Aracaju (SE).

"Rapaz, se eu botar mesmo pega até 400 quilos. Aí tenho que esvaziar. Quando eu coloco esses quilos eu procuro um ferro velho para esvaziar”, conta Robson Santos Melo.

De corpo esguio, o rapaz passou o dia do aniversário em meio a uma maratona, que se repete há sete anos, desde que resolveu abandonar a família em São Cristóvão (SE) para morar nas ruas da capital.

Ainda meio assustado, ele revela que saiu de casa depois que o irmão foi assassinado. E a violência parece perseguir o rapaz. “Esses dias tocaram fogo em meu barraco e perdi tudo, inclusive meus documentos. Tenho que tirar tudo novamente”, lamenta.

Enquanto conversava, Robson não parava de remexer a lixeira à procura de latas de alumínio, papelão e garrafas pet. De tanto frequentar esses ambientes, o cheiro forte parecia não incomodar o rapaz, que trabalhava com pressa para adiantar a visita a outros locais na cidade.

Quando a fome aperta, se falta dinheiro para comprar alguma coisa, as sobras de comida encontradas nas latas de lixo também alimentam. “No lixeiro da padaria eu cato bolo, pão. Quando eu vejo que está bom, que não tem rato, pego a comida. Já comi várias coisas do lixo”, revela.

Questionado sobre o presente de aniversário que gostaria de receber nesta sexta-feira, ele diz que gostaria de sair das ruas e ter algum local para descansar quando chegasse do trabalho. “Um lugar sem ninguém para incomodar. Outra coisa, eu não sei negar nada a ninguém. Se eu tiver comendo e a pessoa chegar com fome eu pego e divido meu pão com a outra pessoa. Porque Deus disse: dai água a quem tem fome e dá comida a quem tem sede. E eu nunca neguei nada para ninguém", diz.

À noite nas ruas

Quando chega à noite, as dificuldades parecem aumentar para essa comunidade que tenta resistir às armadilhas da cidade. Solidão, desespero, medo e a incerteza do amanhã são conflitos que precisam encarar a cada dia.

"No dia-a-dia dessas pessoas em situação de rua, a psicologia favorece nesse processo de entendimento do ser no mundo, nos processos de vinculação, de retomada de vida, de reconstrução, de entendimento mesmo, de como as pessoas se enxergam, de como essas pessoas querem se ver. Aí a gente vai também para os transtornos específicos, os sinais de sintomas que dificultam o processo de tratamento, de relacionamento, que pode gerar uma agressividade excessiva", explica a psicóloga do programa municipal Consultório na Rua, Kamila Fialho.

Solidariedade

No processo de reconstrução, o socorro aos moradores em situação de rua chega em doações de grupos de apoio que levam alimentos, uma boa conversa e até mesmo música para aliviar o sofrimento.

Um desses é o Projeto Manaim, que usa o evangelho para retirar das ruas uma população mergulhada no mundo das drogas. "Nós trabalhamos com base na Palavra de Deus. Não é algo simplesmente religioso, mas as orientações que Cristo dá que é a cura de caráter", explica o pastor Manuel Ferreira Neto.

O trabalho do grupo é feito por voluntários que um dia também passaram pelas ruas e depois de conhecerem o projeto decidiram mudar de vida. Há sete anos, o missionário André Santos Silva mendigava nas ruas de Itabuna (BA).

"Dá uma emoção muito grande quando eu lembro que dormia na rua, 
que bebia, fumava, roubava e me prostituía. 
Já fiz muita coisa errada e o que não quero mais pra mim,
 não quero pra mais ninguém" - Roberta Bruna.

“A Bíblia diz que a fé move montanhas. E é essa fé que nos traz a esses locais pra que outras pessoas recebam a oportunidade de mudança. Eu tive a oportunidade dada pelo projeto Manaim e para glória de Deus hoje estou transformado", justifica.

Roberta Bruna é outra ex-moradora de rua de Aracaju. Há menos de dois meses também aceitou o chamado e toda semana retorna ao lugar que viveu por anos. O reencontro com os amigos é sempre difícil.

“Dói ver meus amigos ainda nessa vida, porque eu saí daqui. Então, dá uma emoção muito grande quando eu lembro que dormia na rua, que bebia, fumava, roubava e me prostituía. Já fiz muita coisa errada e o que não quero mais para mim, não quero para mais ninguém", desabafa Roberta.

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com/se

domingo, 24 de dezembro de 2017

Os maiores exemplos de desigualdade social no Brasil

Os maiores exemplos de desigualdade social no Brasil

A desigualdade social no Brasil, marcada pela distribuição desigual de renda, é evidente. Basta uma simples observação sobre a sociedade em que vivemos:

1. Favelização

Foto de favela e moradias de luxo

O cenário habitacional é um forte indício da condição de desigualdade. O aglomerado de casas, em grande parte construídas nos morros, contrasta com as mansões e as casas em condomínios fechados.

Muitas vezes localizam-se muito próximas umas às outras, o que torna o contraste ainda mais chocante.

As favelas não passam por qualquer tipo de planejamento e as casas tendem a aumentar à medida que as famílias crescem.

Por outro lado, isso não acontece com as casas nobres, as quais são cuidadosamente projetadas.

2. Desigualdade alimentar

Menino mexendo uma panela de feijão no chão

Há pessoas que não têm condições para comer o mínimo necessário. Muitos passam fome, decorrendo daí quadros de desnutrição e muitos casos de mortalidade infantil.

Acresce que a prioridade na hora de comprar os alimentos é dada aqueles que sustentam mais, embora nem sempre sejam os mais saudáveis.

Por outro lado, existe uma fatia da sociedade cuja quantidade e, especialmente, a qualidade dos alimentos, é garantida diariamente.

Saiba mais em Fome no Brasil, Desnutrição e Mortalidade Infantil.

3. Falta de saneamento básico

Crianças no meio do lixo utilizando água suja

A realidade da falta de esgoto sanitário, do tratamento de distribuição de água, entre outros, infelizmente ainda faz parte do cotidiano de milhares de brasileiros.

Sujeitas a uma série de doenças, a falta de saneamento básico pode levar pessoas à morte. Esse é um problema presente nas periferias e mais evidente na região norte do Brasil, mas que passa ao lado da classe alta brasileira, em cujos locais habitados e frequentados estão garantidos o tratamento dos esgotos e a coleta do lixo.

4. Ensino de baixa qualidade

Charge de professora lecionando

O acesso às escolas públicas é usufruído pelos que têm menos possibilidades. Isso porque quem pode dispensa o ensino oferecido pelo Estado, cuja condições são muitas vezes precárias, e investe nas escolas pagas.

A diferença é marcada pelos salários dos professores, muito superior na rede particular, o que se traduz no incentivo para dar aula. Além disso, a infraestrutura e os materiais disponibilizados nas escolas privadas reforçam as diferenças entre ambas as situações.

5. Menos formação

Rapaz usando capela com cifrão pendurado

Além da diferença na qualidade do ensino, quem tem mais poder aquisitivo pode completar a educação acadêmica aderindo a cursos, muitas vezes de valor elevado.

Os cursos de aperfeiçoamento, bem como as experiências no exterior, são práticas comuns entre os mais favorecidos socialmente. Dos intercâmbios, eles também levam a oportunidade aprender uma segunda língua.

Melhor preparados, os mais favorecidos ultrapassam o nível dos que têm menos oportunidades, o que é mais uma prova de desigualdade social.

6. Desemprego

Carteira de trabalho e caneta em cima de Classificados

Depois de usufruir de um ensino melhor, os candidatos mais qualificados também podem aproveitar um leque de oportunidades de trabalho mais abrangente.

Apesar de não ser garantia para conseguir uma vaga no mercado de trabalho, quando não há muitas vagas, o diferencial é o fator de desempate.

Além das possibilidades aumentarem, é possível que o valor das remunerações para os mais qualificados também seja superior.

Enquanto isso, os menos qualificados fazem “bicos” para conseguir arcar com as despesas diárias.

7. Precariedade na saúde pública

Vários leitos em corredor de hospital

Os mais pobres recorrem aos hospitais públicos, deparando com a falta de profissionais e outros.

A carência financeira pode ser tão grande que a falta de materiais e de medicamentos se torna uma realidade para as pessoas atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Enquanto isso, os mais ricos recorrem aos hospitais privados ou clínicas. Neles a gestão de recursos geralmente é mais eficaz e há tecnologia para assistir a necessidade dos seus pacientes.

8. Precariedade no transporte público

Pessoas tentando entrar no autocarro

Os meios de transporte também fazem a diferença na vida das pessoas com mais ou menos renda.

A alternativa dos mais carenciados é a utilização de transporte coletivo, muitas vezes, superlotado. Na maior parte do Brasil esse é um serviço ineficiente, principalmente porque não garante acesso a toda a população.

Os mais favorecidos recorrem ao seu próprio meio de transporte. Apesar do estresse do trânsito, eles podem planejar de forma mais independente os seus horários e percursos.

Garantem também o benefício de poder transportar suas coisas e ir sempre sentado, entre outros.

9. Falta de acesso à cultura

Charge cultura

A população mais favorecida tem mais oportunidade para usufruir de uma variedade alargada de atividades. São exemplos viagens, concertos e visitas a museus e exposições.

Esses acessos, infelizmente, são restringidos a uma grande parte da população brasileira. Isso porque certas atividades têm um grande peso no orçamento de uma família e, assim, entram na lista das prioridades menores, que acabam não sendo usufruídas.

Acontece que essas atividades aumentam a qualidade de vida das pessoas, além de que alarga o seu nível cultural.

Texto e imagens reproduzidos do site: todamateria.com.br

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Barroso diz que ele e Gilmar têm ‘diferentes visões da vida e do país’


Publicado originalmente no site da Folha de S.Paulo, em 19 de dezembro 2017

Barroso diz que ele e Gilmar têm ‘diferentes visões da vida e do país’

O ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), rebateu nesta terça-feira (19) as críticas do colega Gilmar Mendes sobre a condução das investigações da Lava Jato pela PGR (Procuradoria-Geral da República) e disse que eles têm “diferentes visões da vida e do país”.

Reprodução

Não acho que há uma investigação irresponsável. Há um país que se perdeu pelo caminho e naturalizou as coisas erradas”, afirmou.

Na última sessão do STF em 2017, os ministros julgam recursos dos investigados nas ações que envolvem o presidente Michel Temer. Os alvos da PGR pedem para que as investigações sejam sobrestadas, assim como as duas denúncias apresentadas contra o presidente da República, que foram barradas pelos deputados federais.

Gilmar interrompeu o voto do colega Dias Toffoli para criticar a condução do ex-procurador-geral Rodrigo Janot na Lava Jato. Ele e Janot protagonizaram diversos embates públicos ao longo dos últimos dois anos.

Gilmar disse que o STF se depara agora com “o que é o peso de um trabalho mal feito”, o qual classificou de “precipitado”, “sem análise” e que “causa esse tipo de constrangimento” para o tribunal. Com o voto de Gilmar, a segunda turma do STF livrou nesta segunda-feira (18) quatro políticos denunciados por Janot na Lava Jato e seus desdobramentos de virarem réus no Supremo.

“Ontem decidimos vários casos que com base em delação não poderia se oferecer a denúncia. O que é importante é que o relato era totalmente falso”, disse Gilmar.

Segundo ele, há um sentimento “Janotista”.

“Esse era o trabalho que se fazia. Trabalho mal feito. Acabamos de ver a policia federal. o delegado da Polícia Federal dizer trabalho mal feito”, afirmou, em referência aos relatórios da PF que não sugerem indiciamento de políticos por não encontrarem indícios de autoria e materialidade dos crimes.

Durante as críticas, o ministro usou as expressões “grande patifaria”, “grande erro” e “populismo criminal judicial” e “serviço malfeito, corta e cola”.

“Erros graves que temos cometido. A história não vai nos poupar.”

“Há diferentes formas de ver a vida e todas merecem consideração e respeito. Eu gostaria de dizer que eu ouvi o áudio ‘Tem que manter isso aí, viu’. Eu quero dizer que eu vi a fita, eu vi a mala de dinheiro, vi a corridinha na televisão”, afirmou, em referência ao momento em que um vídeo feito pela PF mostra o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures pega uma mala de dinheiro entregue pela JBS e sai correndo em frente a uma pizzaria em São Paulo.

Ele acrescentou que leu os depoimentos de delatores da Lava Jato, como os do doleiro Alberto Youssef e do corretor de valores Lúcio Funaro, que incriminaram dezenas de políticos.

“Vivemos uma tragédia brasileira, a tragédia da corrupção que se espalhou de alto a baixo sem cerimônia. Um país em que o modo de fazer política e negócios funciona assim: o agente político relevante escolhe o diretor da estatal ou ministro com cotas de arrecadação. E o diretor da estatal contrata em licitação fraudada a empresa que vai superfaturar a obra ou o contrato público para depois distribuir dinheiros.

Aí não faz diferença se foi para o bolso ou se foi para a campanha, porque o problema não é para onde vai [o dinheiro], mas de onde vem”, afirmou.

Barroso disse ainda que “a cultura de desonestidade que se cria de alto a baixo com maus exemplos em que todo mundo quer levar vantagem, todo mundo quer passar os outros para trás, todo mundo quer conseguir o seu, sem mencionar as propinas para financiamento, tudo documentado”.

E então defendeu a condução de Janot na Lava Jato.

“São diferentes visões da vida e do país. Não acho que há uma investigação irresponsável. Há um país que se perdeu pelo caminho, naturalizou as coisas erradas, e temos o dever de enfrentar isso e de fazer um novo país, de ensinar as novas gerações de que vale a pena fazer honesto, sem punitivismo, sem vingadores mascarados, mas também sem achar que ricos criminosos têm imunidade. Porque não têm. Tem que tratar o menino pego com cem gramas de maconha da mesma forma que se trata quem desvia milhões de reais.”

Fonte: Folhapress

Texto e imagens reproduzidos do site: oestadoce.com.br

domingo, 17 de dezembro de 2017

A população em situação de rua é um reflexo da exclusão social


 A população em situação de rua é um reflexo da exclusão social

Por Wagner de Cerqueria e Francisco

A questão da moradia é um dos reflexos da exclusão social, em que parte da população não possui renda suficiente para pagar o aluguel de uma residência e, muito menos, comprar uma casa. Nesse sentido, tem-se intensificado a ocupação de espaços considerados inadequados para a moradia como, por exemplo, fundos de vale, áreas de elevada declividade, áreas destinadas à construção de equipamentos públicos, além de espaços urbanos como: praças, viadutos, prédios abandonados, etc. As pessoas que utilizam as ruas da cidade para fins de moradia são conhecidas como população em situação de rua.

Em 2005, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, através da Secretaria Nacional de Assistência Social, organizou o primeiro Encontro Nacional Sobre População em Situação de Rua. Durante esse evento, a população em situação de rua foi caracterizada como um grupo populacional heterogêneo, composto por pessoas com diferentes realidades, mas que tem em comum a condição de pobreza absoluta, vínculos interrompidos ou fragilizados e falta de habitação convencional regular, sendo compelido a utilizar a rua como espaço de moradia e sustento, por contingência temporária ou de forma permanente.

Além de aspectos econômicos, indivíduos utilizam as ruas como moradia por consequência de violência doméstica, ausência de vínculos familiares, perda da autoestima, uso de drogas, doença mental, etc. A população em situação de rua é subdividida em três grupos, nos quais ocorre a distinção conforme a permanência na rua.

- As pessoas que ficam na rua: grupo caracterizado por indivíduos que, por alguma circunstância, como a busca por emprego e fatores econômicos não suficientes para o abrigo em locais adequados, utilizam determinados espaços que possam proporcionar maior segurança como, por exemplo, albergues e rodoviárias para passarem a noite.

- Pessoas que estão na rua: esse grupo não interpreta a rua como um lugar para se temer, se relacionando com outros moradores de rua. Também realizam algumas atividades para obtenção de renda como vigiar carros, recolher materiais recicláveis, entre outras.

- Pessoas que são da rua: já utilizam esses lugares como moradia há um bom tempo e, de certo modo, se acomodaram com tal situação que, em consequência do uso de drogas e da má alimentação, degradam sua saúde. O álcool e as drogas são substâncias presentes nesses grupos, pois servem como alternativa para minimizar a fome e o frio.

As poucas políticas públicas visando o atendimento desse grupo fizeram com que historicamente tenha se destacado o trabalho das Organizações Não Governamentais (ONG’s) e das Instituições Religiosas. No geral, estas instituições atuam na distribuição de alimentos, cobertores e outros objetos. Entretanto, essas medidas assistencialistas não atacam o foco do problema, havendo, portanto, a necessidade do Estado aplicar projetos eficazes para proporcionar dignidade a esses indivíduos.

Texto e imagem reproduzidos do site: alunosonline.uol.com.br

A desigualdade social é um dos principais desafios do mundo atual


Desigualdade social

A desigualdade social é um dos principais desafios do mundo atual e sua concepção perpassa por várias esferas da composição das sociedades.

A desigualdade social diferencia as pessoas nas condições de acesso a novas oportunidades

Por Rodolfo F. Alves Pena

A Desigualdade social é o fenômeno em que ocorre a diferenciação entre pessoas no contexto de uma mesma sociedade, colocando alguns indivíduos em condições estruturalmente mais vantajosas do que outros. Ela manifesta-se em todos os aspectos: cultura, cotidiano, política, espaço geográfico e muitos outros, mas é no plano econômico a sua face mais conhecida, em que boa parte da população não dispõe de renda suficiente para gozar de mínimas condições de vida.

Inúmeros dados e estudos apontam que a desigualdade social e econômica cresce em todo o mundo. Dados do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) revelam que 1% dos mais ricos detêm 40% dos bens globais. Um relatório da ONG Oxfam demonstra também que as 85 pessoas mais ricas do mundo possuem uma renda equivalente às 3,5 bilhões de pessoas mais pobres.

Diante desse panorama, que gera inúmeros excluídos e miseráveis em todo o mundo, surge a questão: o que causa a desigualdade social?

A grande questão é que, desde as construções das civilizações durante o período neolítico, quando as sociedades passaram a viver dos excedentes que produziam, as diferenças sociais começaram a surgir. O problema, nesse caso, é a intensificação da pobreza e da falta de equidade nas condições oferecidas para que os diferentes indivíduos possam produzir suas próprias condições de sobrevivência.

O teórico Jean-Jacques Rosseau afirmava que a desigualdade é um fenômeno que tende a sempre se intensificar no contexto social. As famílias mais pobres possuem um menor acesso à instrução e às informações necessárias para alavancar um desenvolvimento próprio, enquanto os grupos mais ricos possuem um maior nível estrutural para investirem e multiplicarem sua renda e os largos benefícios advindos dela. Para Rosseau, o que causa a desigualdade é exatamente a divisão social do trabalho, com a criação da propriedade e dos bens particulares e não distribuíveis.

Outro pensador famoso por categorizar essa questão foi Karl Marx. Ele enxergava a sociedade a partir da luta de classes e via a desigualdade manifestada a partir dos desequilíbrios entre a burguesia e os trabalhadores, haja vista que a primeira era a detentora dos meios de produção, controlando e retendo a maior parte dos lucros sobre os bens produzidos a partir do trabalho coletivo. Essa lógica, perpetuada pela mais-valia, concentrava a renda e marginalizava os cidadãos, além de criar o exército de reserva de desempregados, que garantia uma concorrência entre os próprios trabalhadores, privando-os de sua emancipação.

Max Weber, por sua vez, observou essa questão a partir das estratificações sociais. As três grandes estratificações ocorrem no campo da economia, do status e do poder, proporcionando uma diferenciação no acesso à renda, ao prestígio e ao controle social. Essa acontece por meio da diferenciação entre habilidades, qualificações e interesses.

A desigualdade social, seja ela intelectual, econômica ou sob qualquer outra forma, materializa-se no espaço social, ou seja, torna-se visível na composição estrutural das sociedades, sejam elas rurais ou urbanas. As cidades e os lugares expressam a diferenciação econômica entre as pessoas, que é resultante, muitas vezes, de questões históricas que submetem cidadãos e até grupos étnicos a contextos de subalternidade. Um exemplo foi o processo de escravidão que até hoje deixa suas marcas no sentido de manter a maior parte da população negra com baixos níveis de renda e educação.

​O espaço social é revelador das desigualdades sociais

O espaço geográfico, por definição, expressa e é expressado por essas configurações. Muitas sociedades são conhecidas por serem a própria visão da desigualdade, com destaque para muitos países africanos e outros centros periféricos do mundo. Mas não é somente aí que reside a miséria e a pobreza do mundo, que também se apresentam nas periferias de grandes cidades, até mesmo em metrópoles mundiais, tais como Paris, Nova York, Tóquio e Londres. Portanto, lutar contra a desigualdade é uma forma de manter a sociedade mais humana e justa perante os seus cidadãos.

Texto reproduzido do site: alunosonline.uol.com.br

Desigualdade social


Desigualdade social

Por Luiz Antonio Guerra
Mestre em Sociologia (UnB, 2014)
Graduado em Ciência Política (UnB, 2010)

Apesar de nós brasileiros sermos todos iguais perante a lei, há profundas desigualdades entre os membros da nossa sociedade. Mesmo com avanços importantes em termos de distribuição de renda nas últimas duas décadas, o Brasil continua tendo uma expressiva concentração de riqueza e segue sendo um dos países mais desiguais do mundo.

Vamos a alguns dados recentes apresentados pela organização Oxfam Brasil que demonstram a condição de extrema desigualdade social em que vivemos, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Em nível global, apenas oito pessoas detêm o mesmo patrimônio que a metade mais pobre da população mundial. No Brasil, a situação é ainda mais acentuada: apenas seis pessoas possuem a riqueza dos 100 milhões de brasileiros mais pobres. Aqui, os 5% mais ricos detêm a mesma fatia de renda que os demais 95%.

Desigualdades sociais: um fenômeno complexo

Os dados acima se referem à desigualdade econômica: de renda, riqueza, patrimônio. Existem, entretanto, várias outras formas de desigualdades sociais: de gênero, raça, geração, geográfica, acesso a serviços públicos, etc. Não se pode tratar apenas a desigualdade econômica, por exemplo, sem pensá-la relacionada a outras formas de desigualdade, pois as diferentes expressões das desigualdades não se apresentam sempre separadas, mas em muitos casos se reforçam. Portanto, é preferível falar não em desigualdade social, mas sim em desigualdades, no plural.

As desigualdades se dão em vários níveis. É grande a disparidade entre países ricos e pobres; e dentro dos países, entre suas regiões e estados. Em cada estado, existem grandes diferenças entre os municípios, nos quais podemos perceber desigualdades entre o meio urbano e rural. E dentro de cada cidade, temos as áreas nobres e as periferias. Existem ainda outras formas de desigualdade que geram um abismo social entre os mais diversos indivíduos, como a discriminação contra mulheres, negros e indígenas. As desigualdades não podem ser tratadas como um mero problema individual, mas sim como um complexo fenômeno social com profundas raízes históricas.

Estratificação social

Para descrever as desigualdades existentes entre indivíduos e grupos nas sociedades humanas, os cientistas sociais se utilizam do conceito de estratificação social, que se refere a como os membros de uma sociedade se encontram divididos em “camadas” (ou estratos). É a estratificação social que vai determinar o acesso a direitos e recursos, benefícios e recompensas, bem como o modo que se dá a mobilidade de um estrato para o outro. É importante destacar a característica social da estratificação, para que não confundamos as desigualdades sociais com as desigualdades naturais. Os seres humanos são muito diferentes entre si em relação às suas características físicas, tais como sexo, altura, peso, saúde, cor do cabelo, pele, olhos, etc. Entretanto, as diferenças naturais entre os indivíduos não são suficientes para explicar as desigualdades sociais, muito embora possam influenciá-las. Os mecanismos que reproduzem as desigualdades sociais foram criados pela ação humana e variam de sociedade para sociedade, de acordo com os valores culturalmente dominantes e critérios estabelecidos historicamente.

Concluímos, portanto, que a estratificação social de uma sociedade não é natural e as desigualdades institucionalizadas não são inevitáveis. São, antes de qualquer coisa, produtos de escolhas políticas que refletem a desigual distribuição de poder nas sociedades.

Bibliografia:

OXFAM BRASIL. A distância que nos une: um retrato das desigualdades brasileiras. Relatório publicado em 25 de setembro de 2017.

Texto reproduzido do site: infoescola.com/sociologia

Desigualdade Social no Brasil e no Mundo


Texto publicado originalmente no Portal sua Escola, em 27 de janeiro de 2017 

Desigualdade Social no Brasil e no Mundo

Como desigualdade social podemos entender a diferença de poder aquisitivo entre as classes econômicas de um determinado país. A consequência direta da desigualdade social, principalmente nos países menos desenvolvidos é a pobreza.

No entanto, podemos desmembrar a desigualdade social em diversos aspectos, envolvendo desde desigualdade de oportunidades no mercado de trabalho até a desigualdade de escolaridade. A desigualdade social, no conjunto, transforma-se quase sempre na desigualdade econômica, marcando a distribuição desigual de rendas.

Em nosso país, a desigualdade social é uma das características mais importantes, já que somos um dos piores países do mundo neste tipo de diferença entre as classes sociais. Embora tenhamos tido a oportunidade de, há alguns anos, sermos considerado a oitava potência econômica do mundo, também estávamos carregando a tocha de oitavo país com maior índice de desigualdade econômica.

DESIGUALDADE SOCIAL NO BRASIL EM 2016 – ARGUMENTOS

Para muitos estudiosos, a desigualdade social no Brasil remonta ao Brasil Colônia, antes do Império, quando tínhamos 3 pilares que estratificavam a população brasileira, apoiando a desigualdade econômica: a influência dos colonizadores, os padrões de títulos de posse de latifúndio e a escravidão.

Essas 3 variáveis foram de forte contribuição para que a desigualdade social se tornasse um grave problema brasileiro, persistindo através dos tempos e ganhando maior relevância principalmente em virtude do processo de modernização que ocorreu no Brasil a partir da Proclamação da República.

Com o desenvolvimento ocorrido no Brasil enquanto nação, cresceram também os índices de miséria, de diferenças entre as classes sociais, de dificuldade de acesso à educação e à saúde, criando uma grande concentração de renda, gerando desemprego, aumentando a fome e a miséria que atinge, até hoje, milhões de brasileiros, condições que não podem ser relegadas a segundo plano quando estamos vivendo no século XXI.

Com o tempo, a desigualdade social sempre tende a aumentar. Para os provenientes de famílias mais pobres, existem menos chance de obter níveis mais altos de educação. Possuindo níveis inferiores de escolaridade, essas pessoas têm menos probabilidade de conseguir uma posição melhor na sociedade, de ter uma profissão de prestígio e conseguir melhor remuneração.

Muito embora os últimos governos tenham criado ações para reduzir a desigualdade social, o caminho a percorrer ainda é longo, necessitando de constante atenção com relação às providências de fornecer escolaridade, segurança e saúde, uma situação que estamos vendo, durante a crise que estamos passando, criar um processo de regressão e não de avanço.

DESIGUALDADE SOCIAL: COMBATER É DEVER DE TODOS

A desigualdade social deixou de ser, não só no Brasil como no mundo todo, uma responsabilidade de cada governo, cabendo também às entidades de cunho universal atitudes que possam combater a fome e a miséria, num primeiro momento.

É preciso pensar em investir nas pessoas para que tenham condições de competir em igualdade de condições no mercado de trabalho e esse trabalho não pode ser feito em apenas uma geração.

Enquanto analisamos a situação brasileira, vemos que, dos 204 milhões de pessoas, apenas uma pequena quantidade, ou menos de 20%, possui hoje condições de educação e padrão de vida que podem ser comparados a países desenvolvidos. Os outros 80%, ou a maioria da população encontra-se em níveis mais modestos, podendo em alguns casos ser comparados aos padrões africanos.

Como consequência da desigualdade social, temos os grandes problemas que nos afetam diretamente, podendo ser vistos a toda hora e todo momento:

Aumento das favelas nas grandes cidades, com proliferação nas cidades do interior;

Crescimento de fome e de miséria em todos os centros urbanos;

Aumento da mortalidade infantil, do desemprego e da criminalidade;

Crescimento de classes sociais de menor poder aquisitivo;

Atraso no desenvolvimento econômico da nação;

Dificuldade de acesso a serviços básicos de saúde, transporte público, saneamento básico e educação.

Como sociedade, o Brasil deve entender que, sem um efetivo Estado democrático, não teremos condições de combater ou reduzir a desigualdade social entre nós. Cabe ao conjunto da sociedade criar meios para o desenvolvimento social e estabelecimento de um conjunto de regras que possam minimizar a desigualdade social.

Texto reproduzido do site: portalsuaescola.com.br

domingo, 26 de novembro de 2017

Os políticos estão nus, sem pudores


Publicado originalmente no site da revista ISTOÉ, em 24/11/17.

Os políticos estão nus, sem pudores.
Por Carlos José Marques.

Aputrefação da política brasileira parece ter atingido seu ápice, seu registro lapidar, na situação enfrentada hoje pelo Rio de Janeiro. Ali vive-se a falência absoluta da representatividade. Não bastassem os seguidos problemas de violência, caos social e pane dos serviços públicos a região tem que amargar mais essa triste e desmoralizante realidade. A folha corrida dos eleitos pelo povo é de estarrecer. Quase nenhuma autoridade, em mandato ou não, escapa. Do Legislativo ou do Executivo. Na semana passada, três ex-governadores e quatro ex-presidentes da assembleia legislativa local encontravam-se trancafiados atrás das grades. Além deles, dezenas de secretários, parlamentares e afins tinham o mesmo destino, por malversações de toda ordem. Um quadro pavoroso. Lamentável. Verdadeira aberração moral para uma sociedade que há quase duas décadas (desde 1998), pelo menos, é comandada ali por quadrilheiros e saqueadores sistemáticos de recursos do Estado. Como pontuaram, estarrecidos, vários cidadãos fluminenses, TODOS os governadores do Rio eleitos desde 98 e TODOS os presidentes da assembleia escolhidos desde 95 foram parar na cadeia. Nem dá para acreditar. Alguma coisa está muito errada nesse reino do fisiologismo e do voto de cabresto controlado por poderosos habituais. É espantoso o grau de periculosidade de suas excelências. No passado não muito longínquo, nos idos de 1949, o deputado Edmundo Barreto Pinto se tornou o primeiro político cassado por falta de decoro. Ele não havia feito nenhum assalto aos cofres públicos. Longe disso. O delito: ter posado de cuecas para uma foto. Bons tempos aqueles em que o máximo de transgressão parlamentar observada era essa, digamos, falta de compostura. Hoje a maioria dos votantes se pergunta se vale voltar às urnas para eleger um candidato que ao menos pareça honesto. Naturalmente, não há salvação fora da política. A questão é que tipo de política vem sendo praticada, como mudá-la e com quem mudá-la. Ou, ao menos, como rever as regras. Não é normal e denota um estágio de avançada gangrena moral a bagunça que se instaurou na plenária da Alerj há alguns dias. Ali os caciques imperam, atuam em corriola, se protegem e fecham os olhos a qualquer desvio dos colegas, aliados ou não, numa prática multipartidária, e sem hegemonia ideológica à esquerda ou à direita, para locupletar a patota. Não importa o crime, muito menos o tamanho do prejuízo provocado à população. As raposas controlam o galinheiro, enquanto cidadãos fazem das ruas palco de quebra-quebra em protesto exigindo faxina. Luta inglória! Tome-se o exemplo concreto dos três deputados – Jorge Picciani, atual presidente da Alerj, Paulo Melo, o antecessor, e Edson Albertassi, também da cúpula – que em poucos dias tiveram a prisão decretada, foram soltos e depois novamente recolhidos ao xilindró, num dos espetáculos mais bizarros de disputa entre poderes de que se tem notícia. O Tribunal Regional da 2º Região, em decisão unânime, mandou o trio às grades sob a acusação de recebimento de milionárias propinas. Como previsível, a prisão foi revogada pela Alerj, porque ali a tropa de choque de Picianni & Cia. manda e desmanda. Os danos causados pela interpretação propositalmente parcial sobre a imunidade parlamentar ficaram logo evidentes. A Alerj entendeu que ninguém mete a mão em quem é da casa e trouxe o grupo de volta. Estava assim sacramentada entre os áulicos da instituição a defesa de uma espécie de licença para delinquir, a ser distribuída entre os seus e agregados. O STF entrou no meio para acabar com a fuzarca. O ministro Fux definiu a decisão como lamentável. Seu colega na Alta Corte, Marco Aurélio Mello, se disse abismado. O Supremo restaurou a ordem de trancafiar o bando. Na prática, o Rio, apesar do desfecho pela justiça, segue como uma terra sem lei, também no plano político. Enquanto isso, Picciani e seus comparsas experimentam a hospedagem no presídio de tratamento especial, cujas celas mostram conforto acima da média e abrigam ainda outros detentos ilustres como Cabral, Garotinho e a mulher, Rosinha. Encarcerar o bando não é, decerto, garantia de solução definitiva. Até as pedras que margeiam o Rio sabem. Na contabilidade geral, não apenas na esfera fluminense como em todo o Brasil, existem perto de 55 mil autoridades – o número é esse mesmo! – com o chamado foro privilegiado, o que dá a essas figuras o direito à proteção incondicional em inúmeras circunstâncias. No STF a discussão sobre algumas restrições ao foro privilegiado finalmente entrou na pauta. A tendência é que prevaleça nos tribunais a tese de que esse direito ficará reservado para casos de desvios de conduta referentes exclusivamente ao cargo. Já seria um começo.

Texto e imagem reproduzidos do site: istoe.com.br