segunda-feira, 21 de maio de 2018

As Forças Armadas erram em não admitir a verdade

Foto: Felipe Varanda

Publicado originalmente no site da revista ISTOÉ, Edição 18/05/2018 - nº 2526

HILDEGARD ANGEL, JORNALISTA
As Forças Armadas erram em não admitir a verdade

Por Eliane Lobato

Durante muito tempo, a jornalista Hildegard Angel, 68 anos, lutou para que a morte de sua mãe não fosse considerada acidente e, sim, um assassinato. Na madrugada de 14 de abril de 1976, a estilista Zuleika Angel Jones, a Zuzu, então com 54 anos, dirigia seu Karmann Ghia perto do túnel Dois Irmãos, que liga a zona Sul do Rio de Janeiro ao bairro de São Conrado, quando o carro capotou. Ela morreu. Não foi a única vítima da ditadura na família de Hilde, como é conhecida. Em 1971, foram assassinados o irmão, Stuart, e a cunhada, Sonia, ambos militantes do MR-8 (Movimento Revolucionário de 8 de outubro). Seu pai, o americano Norman Angel Jones, também foi torturado e perdeu os dentes devido à brutalidade. Agora, com a revelação recente de documentos da agência de inteligência americana, a CIA, nos quais o ex-presidente Ernesto Geisel (1974/1979) autoriza execuções de pessoas que se opunham ao regime militar, ela diz ter a comprovação de que partiu dele a ordem de matar sua mãe. “O reconhecimento público é uma forma de justiça”, disse nesta entrevista à ISTOÉ. O túnel Dois Irmãos foi rebatizado de Zuzu Angel.

Quem matou Zuzu Angel?

Geisel assassinou a minha mãe. Agora eu posso dizer, há documentos da CIA que provam. O Cláudio Guerra (ex-delegado do Dops) escreveu um livro (“Memórias de Uma Guerra Suja”, 2012) contando sobre vários assassinatos, inclusive o da minha mãe. Ele relata como foi engendrada a emboscada pelo coronel Freddie Perdigão (ex-chefe do SNI), que se reportava diretamente ao gabinete do Geisel. Agora, são os relatórios da CIA que comprovam isso. Ele (Freddie), inclusive, foi fotografado no local do crime por um repórter do jornal O Globo, que chegou imediatamente após o carro dela capotar. Quando eu soube dessa foto, procurei amigos que tiveram um parente casado com uma filha dele e fui atrás do álbum de casamento para encontrar o rosto dele. E aí, eu soube que ele tinha mandado destruir todas as fotos em que aparecia. Nada ficou. Exceto, a foto do Globo, esses documentos da CIA, e eu, que sobrevivi.

Por quê?

Porque eu era uma boa menina. Eu era dócil, meiga, não era perigosa, era uma colunista social no mundo encantado cor-de-rosa. Eu era uma besta quadrada.

Era sua opção?

Era um bloqueio. Tão grande, tão grande, um medo que me congelava. Eu não conseguia sequer assistir a um filme que tivesse a tortura como tema. Me lembro que estava passando um longa no cinema do meu bairro — acho que era “Pra Frente, Brasil” (1982) — e eu do outro lado da rua tentando ter coragem para atravessar e assistir, mas não consegui. (Chora)

Mas a senhora frequentou um grupo de teatro de resistência, não?

Contraditoriamente, sim. Aos 19 anos, mamãe ainda era viva e o Stuart estava foragido. Fui com um grupo para Porto Alegre para fazer uma revolução cultural, mas a censura proibiu todas as nossas peças. Um dia, meu pai apareceu de Kombi para me buscar. No meio da viagem, disse que me deixaria na rodoviária de São Paulo, onde eu deveria pegar um ônibus para o Rio. Muitos anos depois, eu encontrei um meio irmão, que me revelou: “Nosso pai viu que vocês estavam sendo seguidos, por isso ele deixou você na rodoviária. Mas não conseguiu escapar.” Assim, eu soube que pegaram o papai e levaram para um sítio onde ele foi torturado barbaramente. E eu nunca soube disso! Lembro que quando vi o meu pai novamente, após essa viagem, ele não tinha mais dente algum na boca. Quis saber o motivo e ele deu uma resposta qualquer. Era resultado da tortura. Triste. (Chora). Ele foi a Porto Alegre me buscar porque tinha ouvido falar que o Stuart estava indo para o Sul e ficou com medo de agentes da repressão irem atrás de mim, supondo que o Stuart me procuraria lá. Nunca me contou nada disso.

Geisel assassinou a minha mãe (no centro da foto, com os filhos). Agora eu posso dizer, 
há documentos da CIA que provam

Continuou fazendo teatro como forma de luta?

Fiz um espetáculo realmente político do Teatro Oficina, numa época em que o teatro foi importante politicamente. Era “Gracias Señor” (1971), uma peça muito dura, de resistência mesmo, com o Zé Celso à frente. Mas quando mataram a mamãe — e já tinham matado meu irmão —, eu senti que, ou eu sobrevivia ou continuava a fazer teatro. Decidi ficar só no jornalismo. Um dia, me disseram para me esconder porque iriam me pegar. Eu falei: “Não vou me esconder, vou continuar entrando e saindo todo dia no meu horário. A minha proteção é eu estar no Globo.” Recentemente, o Fernando Morais (jornalista e escritor) me ligou dizendo que o Paulo Coelho, de quem ele estava fazendo a biografia, tinha dito que era fichado no Dops. O Fernando foi atrás dessas fichas e me disse, rindo: “Hilde, quem era seguida pelo Dops era você. Mas como o Paulo era muito seu amigo e vocês viviam juntos, o nome dele entrou nas fichas.” Eu era seguida? Não sabia.

O que muda na imagem após os relatórios da CIA?

Acho que muda muito. Me parece que vários setores, entre os quais a imprensa, ficaram impregnados de uma verdade difundida pelo (jornalista) Elio Gaspari em sua coleção de livros sobre a ditadura, em que o Geisel aparece como uma espécie de ‘ditador bom’. Essa versão agora caiu por terra. Está lá nos documentos da CIA, Geisel era um torturador e um assassino.

O candidato Jair Bolsonaro (PSC/RJ) homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar brasileiro a ser reconhecido como torturador pela Justiça. O que diria para ele?

O Brasil é muita areia para o seu caminhão, Bolsonaro. Ele é um desqualificado, se tivesse uma ditadura, com ele voltaríamos ao terror. Mas não estamos. Olhe, não sou contra a direita. Acho que tem de existir a direita e a esquerda. Assim o Brasil vai chegando a um ponto melhor, debatendo as razões de cada lado. Mas este candidato não representa a direita. E também acho que estamos com dois pesos e duas medidas, e isso precisa ser explicado. O Paulo Preto (Paulo Vieira de Souza, tido como operador do PSDB), com U$ 200 milhões em conta na Suíça, fica preso só uns dias; o João Vaccari (ex-tesoureiro do PT), não tem dinheiro em banco estrangeiro e está preso preventivamente desde 2015. E considero que os governos de centro-esquerda e de esquerda foram pusilânimes, não quiseram enfrentar a verdadeira história para não ferir suscetibilidades.

Enfrentar como?

Dos governos de direita a gente não podia esperar nada mesmo. Mas do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), de Lula (Luis Inácio Lula da Silva / PT) e de Dilma (Rousseff/PT) esperávamos mais ações. FHC criou a Comissão dos Desaparecidos, e isso foi importante; a Dilma fez a Comissão da Verdade, igualmente importante. Mas tudo ficou pelo meio do caminho. Eles não foram até o fim. As Forças Armadas erram em não admitir a verdade. Os documentos da CIA deixam a instituição mal. Todos os países da América Latina reconheceram as suas ditaduras, as torturas, os assassinatos, os desaparecimentos. Só o Brasil insiste nessa Lei da Anistia (1979), que foi uma chantagem, um “dá ou desce”. Os exilados queriam voltar, estavam desesperados; os que ficaram aqui, precisavam voltar a trabalhar. E todos tiveram que aceitar essa lei que garantiu a impunidade de quem cometeu crimes lesa-humanidade, como a tortura. Quando estes documentos chegarem no Brasil e forem oficializados, os movimentos organizados têm que agir para retirar o nome de Ernesto Geisel de homenagens públicas pelo País afora, e também corrigir os livros de história.

A senhora vê similaridade entre as execuções de sua mãe e a de Marielle Franco (vereadora do PSOL, há dois meses). Quais?

As forças do poder são diferentes, mas estão aí. No caso da Marielle, está parecendo ser milicianos, ou seja, gente ligada ao poder oficial já que muitos são ex-policiais, ou mesmo da ativa. No caso da Zuzu, foi por ordem direta do presidente da República. Ambas foram emboscadas. Ambas eram mulheres frágeis mas combativas, legítimas, e incomodavam com um discurso articulado, vigoroso. A Zuzu foi calada em nome da perversidade, do poder tirânico. A Marielle, para que não se desenvolvesse na política, porque o horizonte dela era muito amplo. Na terça-feira 15, houve uma homenagem para marcar o aniversário de morte de Stuart, e a mãe da Marielle, a Marinete, foi lá. Ela sabe que estamos falando da mesma coisa nestes casos. Estavam lá antigos companheiros que militaram com meu irmão no MR-8 e eu soube que o Stuart estava escondido na casa de um gráfico do “Jornal do Brasil”, o Sebastião Brás, de onde pegou um ônibus, foi emboscado e começou sua via crucis.

FHC criou a Comissão dos Desaparecidos, e isso foi importante; a Dilma fez a Comissão da Verdade, igualmente importante. Mas tudo ficou pelo meio do caminho

Acha que a sociedade apoia essas vítimas?

Em minha aula de hidroginástica, outro dia, vi uma pacata senhora bradar, enfurecida, contra os direitos humanos defendidos por Marielle. E, de repente, me vi não mais em uma piscina azul mas em uma imensa poça de sangue. O sangue que o pensamento fascista já verteu no Brasil e poderá fazer jorrar mais, como fez este ano com a Marielle. O sangue da minha mãe, do meu irmão, Stuart, da minha cunhada, Sônia, e de tantos outros. Não é toda a sociedade, mas ainda tem quem aprove esses métodos fascistas.

Como é a sua vida já que essa página não vira nunca?

O que sempre me salvou foi o trabalho. Estou viva graças ao meu trabalho. Não fui assassinada pelo golpe de 1964 por causa da minha dedicação ao meu trabalho, ele me botou dentro de um mundo que não era meu e eu soube atuar profissionalmente e, assim, conseguir uma couraça para me proteger. Eu trabalhei no dia que a minha mãe morreu e em todos os outros da minha vida. Hoje, além da coluna no Jornal do Brasil, trabalho no Instituto Zuzu Angel de Moda e na Casa Zuzu Angel, com acervo dela, da Carmen Mayrink Veiga etc.

Se considera uma militante?

Não, me considero uma implicante.

A revelação da CIA trouxe alívio?

De certa forma, o reconhecimento público é uma maneira de ter justiça. Eu sabia que eram forças de estado que tinham mandado matar minha mãe, mas não sabia que tinha vindo diretamente da sala do presidente da República. Agora eu sei, todos sabem.

Texto e imagens reproduzidos do site: istoe.com.br

A inflexão conservadora

Foto reproduzida do site: anos60.wordpress.com e postada pelo blog 'Ideias & Lideranças',
para simplesmente ilustrar o presente artigo.

Texto reproduzido do site Infonet/Blog/Marcos Cardoso, em 14/05/2018 

A inflexão conservadora
Por Marcos Cardoso *

O mundo desfrutou de extraordinária revolução dos costumes ...

O mundo desfrutou de extraordinária revolução dos costumes a partir do pós-guerra. Agora experimenta a inflexão da reação conservadora. O radicalismo cristão ocidental e islâmico afro-oriental quer ir à forra.

Pretextos para combatê-los são diversos, mas os inimigos no fundo ainda são os mesmos: os valores duramente construídos, e em constante evolução, como a democracia, a liberdade e a igualdade.

Assim como os combatentes muçulmanos odeiam a libertinagem cultural ocidental, os conservadores cristãos — pentecostais, neopentecostais e carismáticos à frente — julgam que há liberalidade demais.

Não se toleram as diferenças, seja nos modos das mulheres se expressarem intelectualmente ou ao se vestirem, seja na ascensão dos negros e pobres, para muitos ainda considerados sub-raças ou párias da sociedade.

A Europa e os Estados Unidos vivenciam essa inflexão na marcha do neofascismo, da xenofobia e do racismo. Mas nos países onde a construção da democracia é recente, como o Brasil, ao mesmo tempo que os avanços sociais são ansiados e até implantados, a reação conservadora se manifesta mais duramente.

É claro que a chegada ao poder de um presidente de viés socialista, sucedido por uma mulher ideologicamente alinhada, mexeu com os brios dos conservadores. Uma crise econômica alimentada por eles veio como um sopro de esperança na fogueira já morna dos que julgavam jamais estar apartados do poder.

O conservadorismo, como corrente de pensamento político, surgiu na Inglaterra para se contrapor à Revolução Francesa. No Brasil, aqueles que resistem a mudanças e são mais apegados às tradições também passaram a reagir a qualquer inovação comportamental, moral, social, política e até religiosa, muitas vezes confundidas como obras do governo.

Revolução, mesmo que de costumes, é tudo o que o conservador não quer. O conservador se julga ordeiro e o que foge ao seu controle é a desordem.

Mas o conservador não é necessariamente um déspota, porque, como disse Napoleão, muitas vezes o povo é mais conservador do que o político. E num momento de inflexão como este, “naturalmente” cresce o número de adeptos e o apoio das massas ao conservadorismo.

Complexidades e contradições da sociedade. Porque há e deve haver sempre espaço para os que buscam a justiça social e para os que trabalham pelas liberdades individuais. Para os que propugnam pela maior presença do Estado na vida do cidadão e para os que propõem o domínio da iniciativa privada na maioria das atividades. Para os que lutam pelo progresso e para os que desconfiam dele. Pelo menos teoricamente.

Por isso personalidades para muitos consideradas atrasadas, como Michel Temer, Jair Bolsonaro, Marcelo Crivella, Eduardo Cunha e João Alves Filho, encontram faixa própria onde trafegar na política. É da democracia. A velha e boa democracia um dia combatida por alguns deles mesmos.
Agora classificados pela imprensa como de centro, embora sejam mesmo de direita, os tucanos de maneira geral seriam mais liberais, embora engrossem a fila da mesma reação conservadora.

Avanços na legislação em direitos civis e temas como aborto, casamento gay e legalização das drogas ainda são vistas como bandeiras da esquerda, com a direita, mais conservadora, assumindo a defesa da família tradicional.

Mas há uma tendência de inflexão de setores médios da sociedade para o pensamento conservador. Algo amplamente, e até grosseiramente, manifestado nas redes sociais, que encontra explicação em intelectuais e formadores de opinião, como Luiz Felipe Pondé, Marco Antônio Villa, Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Rachel Sheherazade, Danilo Gentili e até Lobão — arautos da direita brasileira responsáveis, faça-se justiça a eles, pela popularização de um ideário conservador que ganhou espaço com o desgaste do PT.

Eles viraram estrelas, têm milhares de seguidores, vendem livros e, sem nenhum pudor, muito pelo contrário, entoam um discurso com críticas agressivas a petistas, feministas e "gayzistas", entre outros.

Fazem doutrinação contra Paulo Freire e Simone de Beauvoir, vejam só. Denunciam os “crimes cometidos pelos militantes de esquerda” durante o regime militar. E destilam ataques ao bolivarianismo, a Cuba e tudo que possa lembrar Marx, a esquerda ou o comunismo.

É claro que esse discurso reverbera nos salões que representam o todo da sociedade. Não por acaso o Congresso Nacional é o mais conservador do período pós-64. A conclusão sobre o retrocesso é do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar).

Apesar das manifestações populares exigindo renovação política e avanço nos direitos sociais, a eleição de 2014 ampliou o número de parlamentares militares, religiosos, ruralistas e outros segmentos mais identificados com o conservadorismo. Do lado oposto, reduziu-se drasticamente a bancada dos deputados ligados a causas sociais e ao sindicalismo.

O crescimento da bancada BBB (boi, bala e Bíblia) fortaleceu figuras carimbadas como um Marco Feliciano, pastor e ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara (?), que combatem ferozmente o debate sobre gênero e identidade.

E permitiu dar superpoderes a um bandido como Eduardo Cunha, que foi presidente da Casa e autor do projeto de lei que complica a atenção à vítima de violência sexual, dificultando o acesso legal ao aborto em caso de estupro. A lei é de agosto de 2013 e foi sancionado pela presidente Dilma Rousseff.

Entre um corte e outro nas políticas sociais, governistas tentam pôr fim ao Estatuto do Desarmamento — que já sofreu mudanças, supressões e incorporações em pelo menos 20 artigos, parágrafos e incisos, a maioria, facilitando o acesso ao porte de armas — e liberar o comércio irrestritamente, retirando até impedimentos para que pessoas que respondam a inquérito policial ou a processo criminal possam comprar ou portar arma de fogo.

Liberar armas para todos, indistintamente, atenderá apenas ao desejo incivilizado dos que desejam vingança e querem fazer justiça com as próprias mãos. E os conservadores implantarão a política do salve-se quem puder.

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* jornalista, autor de "Sempre aos Domingos: Antologia de textos jornalísticos".

Texto reproduzidos do site: infonet.com.br/blogs/marcoscardoso

domingo, 20 de maio de 2018

Exclusiva do Alô: a entrevista desta semana é com o jornalista Ivan valença...

Foto: (Prefeitura de Aracaju)

Publicado originalmente no site do Portal Alô News, em 19/05/2018

Exclusiva do Alô: a entrevista desta semana é com o jornalista Ivan valença, novo colunista do Portal Alô News

Nesta entrevista, além de falar sobre sua trajetória profissional, Ivan Valença aborda as expectativas para a política as eleições deste ano

Considerado um dos principais representantes do jornalismo político sergipano, Ivan Valença tem se destacado há mais de 50 anos no estado pelas suas análises políticas contundentes e pelo estilo original de escrita e observação dos bastidores políticos.

Movido por um inesgotável sentimento de paixão pela política, Ivan Valença começou praticamente criança a trabalhar com jornalismo e a acompanhar de perto o cenário político local. Tendo vivido inúmeras fases da vida política brasileira, desde ao estabelecimento da ditadura ao último impeachment de um presidente da república, em 2016, Ivan tem muita história para contar e experiência de sobra para interpretar as movimentações do universo político.

A partir da próxima segunda-feira (21), ele estreará uma coluna no Portal Alô News, onde abordará tanto assuntos ligados à política sergipana como à nacional. Para falar um pouco sobre essa nova etapa na carreira, sua história no jornalismo e as perspectivas eleitorais para este ano Ivan Valença concedeu ao nosso site uma entrevista exclusiva. Confira ela a seguir:

Alô News (A.N): Ivan Valença, seu nome é o mais lembrado em Sergipe quando queremos tratar de opinião política na jornalismo local. Nos conte como despertou o seu interesse pela área e iniciou sua trajetória profissional.

Ivan Valença (I.V): Comecei a trabalhar no jornalismo em 1958, aos 14 anos de idade entrei na gazeta socialista que depois virou gazeta de Sergipe, foi minha primeira experiência, quando comecei a assistir com frequência as sessões da assembleia legislativa, localizada á época em outro prédio.

Depois de quatro anos, fui destacado para outras áreas e passei a fazer cobertura policial. Mas achei aquilo muito deprimente e pedi para voltar à área política. Nesse período passei a escrever na coluna Informe GS, uma das mais lidas da Gazeta.

Em 1970, saí da Gazeta e fundei o Jornal da Cidade, que no início tinha apenas oito páginas, mas já era impresso em offset, tecnologia inédita para o mercado sergipano.

Já na década de 80 montei uma empresa que criava jornais para vários municípios do interior e mesmo para a capital. Sempre estive na ativa, desenvolvendo novos projetos e fazendo aquilo que mais gosto, que é acompanhar a política.

Até que nos anos 90, recebi o convite de um amigo para produzir o noticiário de um site, posteriormente, ele me concedeu o espaço de um blog no site, onde tornei a tratar de questões políticas.

(A.N): Nos conte então como foi a sua adaptação ao mundo virtual, com a popularização da internet. Se dá bem com as tecnologias?

(I.V): Tenho que admitir que me sinto um corpo estranho na internet, eu prefiro fazer jornalismo de modo tradicional mesmo, no jornal. Eu mesmo quem digito meus textos, comigo não tem esse negócio de passar pra outras pessoas. Não sei o que elas podem escrever.

(A.N): O senhor está chegando nesta próxima segunda ao Alô News, pode adiantar algo a respeito do estilo que adotará nas abordagens políticas que serão feitas no nosso site?

(I.V): Eu não quero fazer algo igual ao que já escrevo em outro espaço, mas digo que vai ter algo semelhante sim, que identifique meu estilo. Vai ser um comentário diário sobre os acontecimentos da política sergipana e nacional.            

(A.N): Como colunista político, o senhor deve incomodar muitas pessoas, e consequentemente receber críticas. Como lida com isso? Já chegaram a te processar, por exemplo?

(I.V): De vez em quando cismam e “esculhambam comigo, mas eu não ligo pra isso. Se eu faço meu comentário, e acredito que estou certo, e geralmente estou mesmo, eu pouco estou ligando pra o que dizem sobre mim. Não me omito. Eu já até respondi a processos algumas vezes. Lembro que durante a época do golpe militar, eu só não fui preso por que segundo um tenente coronel era o único que fazia o jornal, então me deixaram solto com a ressalva de não falar nada, de não criticar ninguém.

E aí fui levando, passei aquele período autoritário da melhor maneira possível.

(A.N): Em Sergipe, o senhor é um dos poucos colunistas que aborda também questões da política nacional. Como está avaliando o cenário de disputa para presidente do país?

(I.V): Veja bem, não torço por Bolsonaro, ele é muito reacionário pro meu gosto. Infelizmente Lula trilhou caminhos errados, e hoje está na cadeia. Aliás não acredito em uma possível candidatura dele, pois está preso e é ficha suja, e a lei não contempla candidaturas dessas pessoas.

Só para junho ou julho é que nós poderemos ter uma ideia de quem pode sentar na cadeira do Palácio do Planalto.

(A.N): E quanto a candidatos mais tradicionais, como Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e Marina Silva. Eles tem alguma chance de ganhar?

(I.V): Veja bem, o Ciro Gomes é muito grosseiro pra o meu gosto, e Geraldo muito fraco. Não sei ainda como isso vai se resolver, mas a melhor coisa que existe é o voto na urna, então quando o povo for chamado para depositar seu voto, no dia 07 de outubro vai sair o nome que vai dirigir o país.

(A.N): Como o senhor observa essa descrença manifestada corriqueiramente pela população brasileira com os políticos?

(I.V): Eu não diria que é um fato natural. Mas, eu vejo o povão voltando a participar com mais intensidade, como já participou aliás na década de 60. O povo sempre participou de modo sério e incisivo.

É uma pena que quem esteja a frente dessa campanha seja o Jair Bolsonaro, não acredito nele em hipótese nenhuma. Existem candidatos melhores, que ainda não foram descobertos como Álvaro Dias e o próprio Ciro Gomes, apesar de seu jeito grosseiro.

(A.N): Analisando agora Sergipe, como o senhor acha que vai se desenhar o cenário eleitoral aqui?

(I.V): Tudo leva a crer que teremos três candidatos fortes ao governo. Belivaldo Chagas pela situação e Eduardo Amorim e Valadares Filho na oposição. Desses três, quem tem mais chances é Belivaldo, não por ser do governo, mas porque as campanhas do grupo dele são bem melhores. Não acredito na eleição de Eduardo Amorim, que é o candidato de um discurso só, o do Hospital do Câncer, algo pelo qual sou contra, pois ele não sabe o custo disso. Era melhor que fosse criada uma clínica especializada em oncologia; não que os sergipanos não mereçam, mas o custo é altíssimo. Já Valadares Filho ainda é muito inexperiente.

(A.N): É possível que a eleição em Sergipe seja decidida ainda no primeiro turno?

(I.V): Talvez sim, com a vitória de Belivaldo. Mas não creio muito nisso, até acho melhor irmos ao segundo turno, já que tudo fica mais às claras.    

(A.N): Acredita que a renovação dos parlamentares estaduais na Assembleia Legislativa e na Câmara dos deputados vai ser grande?

(I.V): Acredito sim, aqui mesmo na Assembleia a renovação imagino que ao menos 14 deputados não voltem para a casa. A mesma coisa para os federais; ao menos quatro não se reelegem.
  
(A.N):  Tem algum fato específico que induza a essa ampla renovação?

(I.V): Não. Isso é um fato natural; em toda eleição ocorre isso. Tem deputado aqui que não sabe nem mais como pedir voto.

(A.N):  A eleição para o senado aqui em Sergipe também promete ser muito agitada com grandes nomes na disputa. De acordo com as movimentações atuais, quais candidatos tem mais chances de se eleger?

(I.V): Verdade, como são duas cadeiras acho que um já está praticamente eleito; me refiro a André Moura.

Tem também o nome de Jackson Barreto que saiu muito castigado do Governo e isso pode acabar pesando contra ele; e não podemos jamais esquecer de Valadares, que caso se candidate tem boas chances de ganhar, pois o povo sergipano gosta muito dele

Texto e imagem reproduzidos do site: alonews.com.br/exclusiva

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Continuamos escravos

SEM DIREITOS Francisco Rodrigues dos Santos, trabalhador rural de Roraima: condições degradantes em regime análogo à escravidão (Crédito: Mario Tama)

Publicado originalmente no site da revista ISTOÉ, em 11/05/18

Continuamos escravos

130 anos após a abolição da escravatura, população negra permanece sofrendo com a desigualdade, a violência e o abandono social

Vicente Vilardaga e Giorgia Cavicchioli

Passados exatos 130 anos da sanção da Lei Áurea pela princesa Isabel, em 13 de maio de 1888, os brasileiros ainda convivem com a escravidão ou com uma condição análoga a ela rotineiramente e a desigualdade entre negros e brancos continua escandalosa. A lei imperial 3.353 solucionou o grande problema da liberdade dos escravos, mas manteve os indivíduos das duas raças profundamente desiguais e sem condições de competir, com permanente desvantagem para os negros — empurrados para o ponto mais baixo da pirâmide social. O Brasil foi o último país americano a abolir a escravidão — o penúltimo foi Cuba, em 1885. E também foi o lugar que mais recebeu escravos africanos ao longo de sua história. Calcula-se que entre 1550 e 1860 cerca de 4,8 milhões de pessoas tenham sido trazidas contra a vontade da África para o Brasil. As relações de poder do velho sistema se entranharam na cultura nacional e deixaram um passivo gigantesco de injustiça e preconceito, encoberto pelo mito da democracia racial, que até hoje não foi superado.

SOFRIMENTO Trabalho desumano em minas de carvão em Rondon do Pará:
 maioria de negros (Crédito:Mario Tama)

“A Lei Áurea foi uma lei muito breve, muito conservadora, não veio acompanhada de nenhum projeto de inclusão social e nem foi capaz de redimir desigualdades assentadas ou apagar hierarquias naturalizadas”, diz a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, organizadora, junto com Flávio dos Santos Gomes, do “Dicionário da Escravidão e Liberdade” (Companhia das Letras), lançado a propósito da efeméride abolicionista. “E o racismo estrutural que experimentamos hoje no Brasil não é só herança — novas formas de racismo estão sendo construídas e se expressam na educação, na saúde ou nos números da violência contra os jovens.” Em muitos aspectos, a Lei Áurea condenou uma grande parte da população a permanecer nas margens da sociedade. A condição de trabalho do liberto continuou extremamente precária e para o negro não houve nenhum tipo de proteção legal, trabalhista e social.

PRECARIEDADE Cortadores de cana em caminhões na Bahia:
 desamparo e insegurança (Crédito:Brazil Photos)

A situação atual do mercado de trabalho é exemplar da desigualdade entre brancos e negros e escancara um preconceito racial na ocupação das vagas de emprego, na distribuição dos cargos e na remuneração. Segundo os últimos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), os salários dos trabalhadores brancos são, em média, 80% superiores ao dos negros. Considerando todas as ocupações, enquanto um branco tem um ganho real de R$ 2 660, a renda do negro é de R$ 1 461 e a dos pardos, R$ 1 480. Mais grave: a escolaridade não basta para equiparar renda de brancos e negros. Conforme ela aumenta, maior a diferença salarial, de acordo com pesquisa da Fundação Seade/Dieese. Entre os trabalhadores com ensino médio completo, na região metropolitana de São Paulo, por exemplo, os negros receberam 85% do valor ganho pelos brancos, em 2016. Segundo o relatório “A distância que nos une”, realizado pela Oxfam, ONG dedicada ao combate da pobreza e da desigualdade no mundo, em 2017, 67% dos negros brasileiros receberam até 1,5 salário mínimo, enquanto menos de 45% dos brancos estão nessa faixa salarial. Mantido o ritmo de inclusão observado no período, a equiparação da renda média de brancos e negros acontecerá somente em 2089, duzentos anos depois da abolição.

Violência

“Além de acentuar desigualdades, o racismo também traz consequências violentas”, diz Tauá Pires, coordenadora de programas da Oxfam. Homens jovens e negros são as maiores vítimas de homicídios no país, segundo o Atlas da Violência 2017 produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública: de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. O feminicídio, o assassinato de mulheres por razões de gênero, atinge principalmente mulheres negras.

“Me sinto como todos os negros do mundo: injustiçado. Não vejo a hora de esse pesadelo acabar” Luiz Henrique da Silva, empresário (Crédito:Gabriel Reis)

Negros e negras também são vítimas frequentes de ofensas e injúrias raciais. É o caso do empresário Luiz Henrique da Silva, 33 anos, que, em abril de 2017, foi com a família fazer compras em um mercado de Pirituba e foi violentamente ofendido. Ele vestia um agasalho da torcida Gaviões da Fiel e precisava comprar ingredientes para fazer cachorro quente na casa de amigos. Porém, os planos dele mudaram quando, na fila do caixa, ele foi xingado por uma mulher branca que estava na frente dele por ter supostamente batido o carrinho na perna dela. Ele pediu desculpas, mas isso não impediu que a mulher se virasse para a caixa do mercado e falasse: “Além de corintiano, é preto.” Depois de digitar a senha, ela teria, então, dito para ele: “Preto, macaco, filho da p…, ladrão.” A polícia foi chamada e Luiz registrou um boletim de ocorrência contra a mulher por injúria racial. Mais de um ano depois, o empresário afirma que o caso ainda o abala: “Me sinto como todos os negros do mundo: injustiçado. Não vejo a hora desse pesadelo acabar”, afirma.

CULTURA ENRAIZADA Cenas da escravidão reforçam a ideia de inferioridade (Crédito:Divulgação)

Estima-se que 160 mil pessoas no Brasil sofram, atualmente, com condições de trabalho análogas à escravidão. Negros e pardos, de acordo com dados do Ministério Público do Trabalho, representam mais de 64% das cerca de 43 mil pessoas que foram resgatadas dessa situação degradante entre 2003 e 2017. Segundo a procuradora da República Ana Carolina Roman, é possível identificar o trabalho escravo contemporâneo quando o trabalhador tem jornadas de trabalho exaustivas, servidão por dívidas, retenção de documentos, confusão do local de moradia com o de trabalho, ameaças e muitas outras situações que tiram a dignidade do ser humano.

“Ainda há segmentos da sociedade que não consideram a população negra como humana. É por isso que a submete a condições de trabalho análogas à escravidão”, afirma Juarez Xavier, professor da Universidade Estadual Paulista. (Unesp), que vê no País uma situação de “apartheid social”. Essa visão é compartilhada por Leci Brandão (PC do B), segunda mulher negra na história a se eleger deputada estadual em São Paulo. “A princesa assinou a lei no dia 13 e no dia 14 os negros estavam com uma mão na frente e a outra atrás. Vai fazer o que sem condição nenhuma de política pública para que estivesse realmente liberta?”

Divulgação

A abolição da escravidão trouxe liberdade, mas ignorou a igualdade: a Lei Áurea não veio acompanhada de nenhum projeto de inclusão social

A implantação do sistema de cotas foi um ponto importante na luta pelos direitos da comunidade negra. A Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, formou apenas sete mulheres negras em mais de 120 anos de existência. Larissa Mendes, que estuda na faculdade, faz parte da Poli Negra, grupo que trouxe a discussão sobre cotas para a instituição e mostrou por meio de um plebiscito que 70% dos alunos as apoiavam em 2017. Por conta da iniciativa, no mesmo ano, o Conselho Universitário da USP aprovou cotas sociais e raciais. Segundo Larissa, a luta por cotas é uma forma de reparação histórica. “São medidas importantes para a gente conseguir se preservar com aquela chama de esperança que pelo menos através do conhecimento a gente pode chegar a alguma coisa”, afirma. Para a estudante, essa é uma solução temporária. “[As cotas] não têm como objetivo ser para sempre, mas é para durar enquanto a gente tiver uma diferença entre negros e brancos nas universidades e em todos os outros espaços da sociedade”, diz.

Texto e imagens reproduzidos do site: istoe.com.br

sábado, 12 de maio de 2018

Política e religião: é necessário separar uma da outra?


Publicado originalmente no site JLPolítica

Política e religião: é necessário separar uma da outra?

Por Tanuza Oliveira

Mistura nem sempre é fácil de ser administrada: “A política tem como princípio o diálogo, o debate; e a religião atua numa outra direção”, pondera o cientista social Marcelo Ennes

Dizem que política, religião e futebol não se discute. Juntar dois desses três temas "tabus", então, nem pensar. Mas, diante de tudo que vem acontecendo no cenário político-religioso do país, o JLPolítica decidiu não seguir essa máxima e trazer, sim, esse debate à tona. Afinal, apesar de não parecer, uma tem muito a ver com a outra.

Há milhares de anos, por exemplo, quando Pôncio Pilatos "lavou as mãos" e deixou que Jesus Cristo fosse crucificado, a ligação entre religião e política já existia. Quando Jesus entrou no templo e pediu que dessem "a Cézar o que era de Cézar e a Deus o que era de Deus, também.

De lá para cá, pode-se dizer que essa relação só se estreitou - embora haja a “lenda urbana” do Estado Laico. Prova disso é que, em 2016, nas últimas eleições, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral - TSE -, houve aumento no número de religiosos que pleiteavam um mandato.

Dados do TSE mostram aumento de 25% de pastores nas eleições de 2016

MAIS CANDIDATOS

Foram 25% a mais no número de candidatos que se identificavam como pastores, se comparado ao último pleito municipal, em 2012. Os dados mostraram que, entre candidatos a prefeito e a vereador, 2.579 dos concorrentes utilizaram o título “pastor” no nome da campanha.

Ainda de acordo com as informações do TSE, foram 557 as candidatas que se identificam como “pastora” e 15 que usam variações com diminutivo ou aumentativo - “pastorzinho” ou “pastorzão". Houve também aqueles que usaram o título como uma referência, como por exemplo, “Raquel do pastor João” - esses somaram 39.

Houve, ainda, 2.186 candidatos que registraram seus nomes de campanha como “irmão” e 841 que usaram “irmã” na apresentação. Entre os católicos, foram 150 candidatos que se apresentam como “padre” e 44 políticos que utilizam algum padre como referência no nome da urna.

A presença religiosa é ampla e não é restrita a cristãos. Além dos seis candidatos “freis” e 62 “bispos” – que podem ser católicos ou evangélicos neopentecostais –, houve 63 “pais” e 37 “mães” concorrendo nas eleições daquele ano, indicativos de ligação com religiões afro-brasileiras.

Marcelo Ennes não vê como possível essa interação (foto arquivo pessoal)

POLÍTICA X RELIGIÃO

Para o mestre em Ciências Sociais e Sociologia Marcelo Ennes, professor da Universidade Federal de Sergipe – UFS –, de fato essa relação não é nova. “Tivemos um longo período da história em que Estado e Igreja eram a mesma coisa. Onde a religião do rei ou da rainha deveria ser a de todos os súditos. Quem muda isso, simbolicamente, é a Revolução Francesa, e a instalação da República”, explica Marcelo.

De acordo com ele, é a República, regime sob o qual o Brasil é gerido atualmente, que separa o poder da Igreja do poder do Estado. “Esse é um dos princípios dela, porque a religião se dá numa esfera mais privada. Portanto, não é algo que o Estado possa impor ou estabelecer. Dentro do modelo republicano, há a coisa pública, que é a dimensão da vida política, e a coisa privada, dimensão na qual o Estado não interfere”, esclarece.

Até a proclamação da República – em 15 de novembro de 1889 –, portanto, não havia essa separação. O Brasil não era laico. E, embora o seja hoje, ao menos na teoria, o sociólogo acredita que essa laicidade está em risco em virtude desse movimento religioso-político que cresce cada vez mais. 

ESTADO LAICO?

“Acredito que estão colocando o Estado Laico sob ataque, porque esses religiosos organizados por meio de suas igrejas estão agindo de maneira a interferir no papel do Estado no sentido de sua atuação no espaço público. E fazem isso, por exemplo, quando tentam criar leis ou estabelecer normas”, justifica Marcelo Ennes.

Sejam essas normas do ponto de vista geral, ou específicas, como na educação, na cultura ou numa manifestação artística, preocupam. “Muitas vezes, essa manifestação é vista como pecaminosa. E a Igreja tem o direito de criticar, mas essa não pode se tornar uma ação do Estado, que tem que garantir a pluralidade, inclusive das manifestações contrárias às religiões. Mas é isso que vem acontecendo”, afirma.

Para Ennes, a existência de um Estado Laico protege aqueles que não são da religião predominante. E a quem interessa destruí-lo? “A quem quer impor sua crença de qualquer maneira”, diz. Um dos aspectos que levam a essa espécie de simbiose entre política e religião e colocam em xeque o Estado Laico é que tanto religião quanto política têm em seu núcleo o mesmo composto: o poder.

PODER E INTERESSE

É o poder o princípio de ambas. Mas, na opinião de Ennes, há de haver um limite entre elas. “As Igrejas podem existir, os líderes podem ter sua liberdade de expressão, mas isso não pode se tornar algo que seja específico da esfera do Estado, como vem acontecendo com as chamadas bancadas. Elas acabam tratando de interesses corporativos, específicos e, muitas vezes, não republicanos”, alerta.

Segundo ele, no caso das Igrejas, os interesses são o de aumentar seu poder de influência, seu poder econômico, e seu poder de condução da sociedade. E aqui é importante frisar: há distinção entre Igreja e religião.

“A religião é algo importante, que deve ser respeitado, considerado positivamente. Ninguém pode querer desmerecer qualquer tipo de religião. Já as igrejas são instituições e, como tal, elas se organizam com base em estruturas de poder e têm como objetivo agir para normatizar a sociedade”, define o sociólogo.

Dom João José Costa defende orientação, mas não candidatura

CATÓLICOS

Dom João José Costa, arcebispo Metropolitano de Aracaju, segue o ensinamento do Papa Paulo VI, que via a política como uma das melhores formas de fazer o bem, a caridade. Por isso, defende que cada vez mais cristãos participem do processo eleitoral, mas não de forma direta.

“Não sou a favor de que clérigos, sacerdotes, bispos ou diáconos se envolvam na política partidária, porque já temos nossa missão”, afirma Dom João. Segundo ele, a presença de cristão nesse meio é necessária em virtude dos rumos que a política vem tomando. “Precisamos ter cristãos envolvidos nela, porque a realidade nos deixa preocupados. Muitos políticos não têm ética”, justifica.

Para o arcebispo, boa parte dos políticos, em vez de estarem a serviço do povo, querem se aproveitar do serviço público. “Para mudar este quadro, precisamos de pessoas que não sejam cristãs só no nome, e sim na vivência. Pessoas que deem testemunho, porque a realidade é mesmo escandalosa, de muita corrupção”, reforça.

SEM RESTRIÇÃO

O arcebispo Dom João José Costa garante que a Igreja Católica não faz restrições à participação de religiosos na política que a opinião dele é pessoal, mas admite que para se candidatar os padres precisam se afastar das atividades ministeriais – ou seja, do Ministério Sacerdotal.

“Nós podemos fazer política sem estar em mandatos. Aliás, a simples decisão de querer ou não se envolver com política por si só já é um ato político. O ser humano é político em sua natureza”, opina.

Para ele, a junção entre política e religião pode permitir o engajamento de pessoas que de fato se preocupem com políticas públicas e sociais que amenizem o sofrimento, a dor e a exclusão de tantas pessoas no Brasil e no mundo.

POLÍTICA INDIRETA

Por isso, o trabalho de orientação também é fundamental. “A gente pede que as pessoas tenham responsabilidade diante das escolhas que vão fazer, porque você pode ser uma pessoa ética, mas se escolhe um político corrupto, está sendo conivente", ressalta.

E continua: "na política não tem como ser neutro, ou você contribuiu ou não contribui. Para contribuir, tem que escolher pessoas boas", sugere Dom João. Questionado sobre a diferença entre os números de pastores e padres na política, ele diz que a denominação pouco importa.

"Não me preocupo se é evangélico ou católico, mas sim cristão. Que ponha em prática o evangelho e não aja tirando direitos adquiridos, ou a própria vida, por exemplo. O essencial é não legislar como se Deus não existisse", analisa.

Moritos Matos: política é lugar de fazer o bem (foto Irlan Paccioli)

DA IGREJA PARA A URNA

Moritos Matos, deputado estadual pelo Rede Sustentabilidade, é cristão, católico e participa da encenação da Paixão de Cristo há muitos anos como o próprio Cristo. Na vida real, divide seu tempo entre as ações do mandato e as da igreja.

Para Moritos, assim como na vida dele, política e religião sempre andaram juntas. E, na visão do parlamentar, isso é bom. “Não tem como defender certos valores, como dignidade e caridade, propagados pelo evangelho, se você mão se envolver com a política. Porque quem formula as leis é o poder público”, justifica o deputado

Por isso, segundo ele, é importante que a igreja oriente os leigos em como participar da vida pública. Foi o que aconteceu com ele. “Tenho envolvimento na comunidade 18 do Forte, onde comecei a participar de movimentos da igreja, em especial da Legião de Maria”, revela Matos.

ATUAÇÃO

Mas também participou das Pastorais da Criança e do Menor e foi representante da Arquidiocese no Conselho do Direito da Criança e do Adolescente. “Tudo isso foi me mostrando o sofrimento das pessoas, das necessidades delas, e num determinado momento, o padre resolveu reunir algumas lideranças e, para a minha surpresa, meu nome foi escolhido para ser candidato”, lembra.

A sugestão não foi aceita. “Levei mais de dois anos para decidir e perceber que essa era uma nova missão para minha vida”, diz Matos. Ele foi eleito vereador e, depois, ficou como suplente de deputado, assumindo o mandato dois anos depois. “Hoje, estou nessa nova missão”, ressalta.

“Diante disso, eu acredito que a participação de religiosos na política seja positiva, porque é a defesa dos preceitos de forma ativa. Temos que ser cristãos dentro e fora da igreja, e a política é a melhor forma de fazer caridade”, acredita. Apesar disso, Matos não esconde sua decepção.

“São muitas denúncias, envolvimento com corrupção, coisas erradas, e isso gera descrédito.  O momento é ruim, mas temos que ter esperança, pois há pessoas que buscam melhorar a política. E que pensam no povo. Há políticos que servem à população em vez de se servir da política”, opina.

ORIENTAÇÃO AOS FIEIS

O Pastor Marcos Andrade, da Igreja Presbiteriana Renovada de Aracaju, garante que política e religião são duas coisas totalmente distintas e que não devem se misturar. “Na democracia, o Estado deve ser laico”, justifica Marcos Andrade.

No entanto, admite que podem andar lado a lado quando ambas as partes trabalham em busca dos mesmos valores. “Essa é a única forma positiva de relação. Porque quando a política busca seus próprios interesses na religião, ou vice e versa, isso se torna um grande perigo para toda a sociedade”, analisa.

Ele também reconhece que a ligação entre elas sempre existiu. “Desde quando o povo de Deus teve homens nomeados para liderar o povo e pensar em suas necessidades humanas, sociais e outras”, diz. Com relação ao número cada vez maior de evangélicos na política, ele acredita ser reflexo do próprio movimento vivido pelas igrejas.

Pastor Marcos Andrade prefere política e religião bem separadas (foto arquivo pessoal)

EVANGÉLICOS NO PODER

“Alguns resultados de outras pesquisas podem explicar esse fato como o crescimento do número de evangélicos, a participação das igrejas evangélicas em trabalhos sociais nas comunidades, e por fim, a liberdade que o protestantismo oferece às igrejas em relação à sua administração”, avalia.

“Em muitas igrejas, a decisão de um pastor candidatar-se pode ser exclusivamente dele, enquanto que para um padre deve ser submetido à todo sistema de organização eclesiástica”, completa, deixando claro que não é filiado a nenhum partido e que não pretende ser candidato.

O trabalho que o pastor defende é o da orientação os fiéis, que, na opinião dele, deve sim passar pelas igrejas. “Isso não inclui indicação de candidatos ou partidos, mas como portadores da verdade, não podemos negligenciar debates e reflexões sobre corrupção e justiça, por exemplo”, argumenta.

Segundo o pastor Marcos Andrade, a igreja não se tornou um grupo de ativistas políticos, pois seria um crime intervir no direito privado do cidadão escolher seus representantes, mas precisa acompanhar todo o processo político. “E, como organismo social, sempre questionar sobre as decisões e influências no contexto no qual a igreja está inserida”, ressalta.

UM PASTOR NA ALESE

O pastor Antônio dos Santos está em seu terceiro mandato de deputado estadual, já teve um de vereador por Aracaju e está na igreja há 48 dos 62 anos de vida. Ou seja: é difícil separar o pastor do político e vice-versa.

Sua atuação é reconhecida em todo o Estado e seu discurso é pautado nos valores cristãos, de modo a dificultar ainda mais essa distinção entre um e outro. “A religião veio primeiro e por vontade minha, a política veio depois e aconteceu meio sem querer”, lembra Pastor Antônio.

Ele sempre teve uma atuação muito voltada para o lado social: cuidou de jovens, de idosos, de pobres. E, aí, começou a perceber uma certa distância entre a política verdadeira, que, na opinião dele, deve existir para atender principalmente às demandas dos mais pobres.

MUDANDO REALIDADES

“Fiz algumas viagens para fora do país e constatei que a realidade brasileira, para alcançar um estágio considerado bom, precisava passar por mudanças. Fui convidado a ser candidato e, num primeiro momento, resisti, mas depois me dispus, justamente por entender que a política possibilita essa ação”, afirma Pastor Antônio.

Desde então, vê na junção das duas atividades a forma para mudar diversas realidades. “Está dando certo porque, ao contrário de muitas pessoas, não permiti que a política se sobrepusesse à religião. Eu disse a mim mesmo que a política não poderia me afastar de Deus”, relembra.

E não afastou. “Fui eleito, continuei como pastor, como pregador, fazendo o trabalho que sempre fiz.

A política é importante, mas não é maior nem melhor que Deus, então eu compatibilizo, faço dela um instrumento de conquistas do bem para a comunidade”, comenta.

Pastor Antônio tem política como ferramenta para conquistas sociais (foto arquivo pessoal)

APRENDENDO COM AMBAS

O religioso diz que entre a política e a religião também há um certo intercâmbio. Da religião para a política, ele afirma que leva os valores da família, da ética, da moral. “Na defesa desses valores, me posiciono contra tudo que vier a agredi-los, como a liberação do aborto, por exemplo”, admite. E continua: “há uma série de bandeiras ou valores que trouxe para o meu mandato político, e isso tem sido muito valorizado”, comemora.

Tanto que o Pastor Antônio se tornou presidente da Associação dos Parlamentares Evangélicos do Brasil. Por conta disso, foi convidado para um café da manhã com o então presidente Barack Obama. “Dois meses depois, fui convidado para a Cúpula Mundial de Valores, em Washington. Tudo isso agregou à minha vida política”, considera.

Já da política para a religião, ele diz que levou uma coisa fundamental: a importância da legislação. “Vivemos sob a égide de todas as leis. E se no ambiente da legislação, não houver alguém que tenha conhecimento desses valores e habilidade para colocá-los diante das pessoas, elas podem ser formuladas de modo prejudicial”, avalia.

Ele garante que há uma relação harmoniosa com os demais deputados da Assembleia Legislativa – seja os da situação ou os da oposição. “Independentemente de que lado estejam, acabam votando minhas matérias”, assegura.

RELAÇÃO PERIGOSA

Ao falar na legalização do aborto, o Pastor Antônio toca num dos pontos mais polêmicos e mais criticados pelo sociólogo Marcelo Ennes, já que infere exatamente no que ele chama de espaço privado. “O papel do Estado é garantir a liberdade religiosa e não interferir na vida das pessoas a esse ponto. A religião, através da política, não pode definir o que é certo ou errado, legal ou ilegal”, critica Marcelo.

O delegado e pré-candidato a deputado federal pelo PSOL, Mário Leony, concorda. “A bancada evangélica levanta pautas extremamente conservadoras, que precisam ser questionadas. Porque o religiosismo alienante é um risco. Mas é importante ressaltar que não são todos os evangélicos que são lgbtfóbicos, por exemplo”, ressalta Mário.

CRISTÃO E DIÁLOGO

O próprio delegado é cristão do Centro Espiritualista, frequenta o Instituto Salto Quântico, onde o evangelho é o de um cristo libertário, que sempre esteve ao lado das mulheres, das prostitutas, dos pobres.

“É lamentável quando usam o nome de Jesus para demonizar determinados segmentos da sociedade. A gente não quer se contrapor a Jesus. A gente quer combater a hipocrisia, o religiosismo que oprime mulheres e lbts”, argumenta.

E é justamente isso que, para Marcelo Ennes, inviabiliza a relação entre política e religião. “Se você discordar dos dogmas, já não é plausível que haja entendimento. A política tem como princípio o diálogo, o debate, e a religião, mesmo não sendo necessariamente contrária a ele, atua numa outra direção”, rebate.

Mário Leony: “bancada evangélica levanta pautas 
extremamente conservadoras"(foto arquivo pessoal)

Texto e imagens reproduzidos do site:  jlpolitica.com.br

terça-feira, 8 de maio de 2018

De partidos políticos a gangues partidárias...


Publicado originalmente no site JLPolítica, em 23 de Abril de 2018

OPINIÃO

De partidos políticos a gangues partidárias: o atual cenário político do Brasil
Por Eliano Sérgio Azevedo Lopes *

Que é muito grave a situação política que o Brasil atravessa, não se discute. É fato. Pode-se discutir a natureza da crise - se política, econômica, moral ou tudo junto e misturado. Jamais a sua existência e os seus desdobramentos na vida social brasileira.

Que isso tem reflexo imediato nas eleições de 2018, estão aí para provar o desencantamento da população com a política e com os partidos e políticos que lhe dão concretude.

Onze em dez consultados vociferam contra “tudo isso que está aí”, afirmam que votarão nulo ou que preferem pagar a multa à justiça eleitoral a sair de casa para votar nesses “ladrões e enganadores do povo”.

A corrupção em grau jamais visto, com as principais lideranças dos maiores partidos brasileiros (PT, PSDB, MDB) na cadeia ou na antessala dela - à espera de serem os próximos atores a “tocarem piano” e receber o kit-presídio - lençol, escova de dente, sabonete e uniforme cáqui - compõe o cenário cotidiano desse “Brasilzão de meu Deus”.

Em suma, razões não faltam aos que assim pensam e, infelizmente, o PT, ao embarcar nessa nau dos salteadores e piratas dos recursos públicos, parece ter colocado a pá de cal que faltava na “demonização da política e no nivelamento por baixo de todos os políticos” - o que não é nem saudável nem verdadeiro, convenhamos.

Quem viveu no período da ditadura sabe muito bem do que estou falando. Quem não viveu, pode se inteirar consultando sites e redes sociais os mais diversos, antes de cair no canto da sereia dos Bolsonaros da vida, sobre a brutalidade e o retrocesso que foram para o país essas duas décadas em que esteve sob a bota dos milicos e da rapinagem dos donos do poder.

Não bastassem os assassinatos cometidos contra os adversários do regime, as prisões de inocentes, o atraso na economia e a exacerbação das desigualdades sociais, também no campo político impediu-se a formação de novas lideranças - o que explica a presença ainda hoje de velhos e reacionários coronéis a controlar o aparelho estatal e o jogo político.

De modo que, qualquer democracia, por mais tênue e frágil que seja, é preferível a uma ditadura, não importa a roupagem que veste: se de esquerda ou de direita. Nada mais importante que a garantia das liberdades individuais, da livre manifestação do pensamento, do poder do ir e vir. Valores que ditadura abomina e as primeiras vítimas quando ela se instaura.

A extinção dos partidos políticos tradicionais - UDN, PSD, PTB, PSB -, a proibição e perseguição dos partidos comunistas, notadamente o PCB e o PC do B, e a adoção do bipartidarismo, representado pelo PMDB e pela Arena, o primeiro para fazer uma oposição consentida, e este para defender o governo ditatorial, manietaram a ação política, com consequências graves no que diz respeito à formação de novos quadros políticos e na renovação do próprio fazer político.    

Nem mesmo o retorno ao multipartidarismo conseguiu livrar o país da chaga do conservadorismo e da nefasta forma de pensar e exercer a política na sua dimensão mais nobre: atender as demandas e reivindicações da maioria da população, suas necessidades primárias e o seu desenvolvimento socioeconômico.

Educação de qualidade, saúde para todos, habitação digna, saneamento básico e segurança, entre outros, ainda estão por serem atendidas com eficácia e eficiência pelo poder público. Menos ainda constituem preocupação da expressiva maioria dos políticos que deveriam representar os interesses do povo, a quem ele delega representá-lo nas diversas instâncias do Parlamento - municipal, estadual e federal.

Com mais de três dezenas de partidos políticos - e uma penca enorme tentando conseguir o registro na Justiça Eleitoral -, o resultado só poderia ser esse, o de um presidencialismo de coalisão (ou não seria melhor chamar de cooptação?), dominado pelo fisiologismo e pela negociata entre o Executivo e o Congresso Nacional, respaldado por uma parcela do Judiciário, envolvidos em tenebrosas transações, como diria a canção do Chico Buarque.

O “é dando que se recebe” e as “divinas tetas” dos recursos do Fundo Partidário constituem o favo de mel para onde correm os oportunistas e sanguessugas, a criar partidos políticos sem nenhum cunho ideológico e programático e expressão zero de base social ou com respaldo de organizações sindicais, ou ainda, vinculados a confissões religiosas, por exemplo.

São os Partido Republicano Brasileiro - PRB - (da Igreja Universal do Bispo do Edir Macedo), Solidariedade, (do Paulinho da Força Sindical), Partido da República - PR - (do “mensaleiro” Valdemar Costa Neto) e o Partido Trabalhista Brasileiro - PTB - (do famigerado e também “mensaleiro” Roberto Jéferson), dentre as duas dezenas ou mais de agremiações partidárias de mesmo naipe.

Nada mais são que gangues partidárias, na feliz expressão do jornalista J.R. Guzzo, a disputar o butim dos roubos e assaltos aos cofres públicos, seja da administração direta seja das empresas estatais, a exemplo da Petrobras, Eletrobras, Correios e Telégrafos, entre tantas outras a serem ainda investigadas.

Partidos de aluguel que aproveitam os anos de eleições para mercantilizarem tempo de televisão em troca de grana e de cargos em eventual vitória daquele que lhe paga pela falta de caráter. É esse o cenário - incompleto, parcial e até mesmo superficial - que constitui o pano de fundo das próximas eleições de outubro desse ano.

Separar o joio do trigo e escolher os melhores candidatos em quem votar, tem sido cada vez mais difícil, desde a redemocratização do Brasil. Mesmo assim, melhor votar - ainda que tampando as narinas - do que não exercer o direito do voto e contribuir, mesmo que não perceba, para a manutenção do status quo. Em outros termos, ser conivente com as velhas e decrépitas figuras políticas - Temer, Renan, Collor, Aécio, Roberto Jeferson, Sarney et caterva -, que tanto mal têm feito para o país ao colocar como norte de sua ação política os seus interesses e de grupos que representam. Ao povo, uma banana bem dada! 

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* É doutor em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pelo CPDA/UFRRJ e professor aposentado na Universidade Federal de Sergipe - UFS.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br