terça-feira, 21 de abril de 2026

Jornalismo sem credibilidade




Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19  de abril de 2026

Jornalismo sem credibilidade

Metade dos brasileiros desconfia de notícias publicadas na imprensa. Edilson Salgueiro para a Oeste:

Às 7h12, o celular que descansa na mesa de cabeceira vibra pela terceira vez. No grupo de WhatsApp da família, alguém encaminha um vídeo curto: um youtuber fala com convicção, sem legenda, sem fonte, sem contexto. Em poucos segundos, surgem respostas — um emoji, uma frase curta, um encaminhamento — e o vídeo segue adiante, rumo a diferentes destinatários. Em outro celular, em outra casa, uma pessoa abre um portal de notícias, lê as manchetes, desliza a página, compara títulos e fecha a aba. Esses dois comportamentos coexistem e ajudam a explicar o cenário descrito no estudo Integridade da Informação 2025, elaborado pelo Painel TIC: no Brasil, a maneira de se consumir notícias mudou.

Cerca de metade (48%) dos usuários de internet diz desconfiar de reportagens publicadas por veículos jornalísticos. Ao mesmo tempo, a desconfiança é menor quando a informação é enviada por amigos ou familiares em redes sociais (39%) ou em aplicativos de mensagens (42%). A informação não desapareceu da mídia tradicional, mas passou a circular com força nas redes sociais.

O estudo, realizado com 5.250 homens e mulheres com 16 anos ou mais entre agosto e setembro de 2025, mostra que os brasileiros acompanham o noticiário de diversas formas. Ao todo, 60% dizem se informar diariamente por aplicativos de mensagens; 53% recorrem a feeds de vídeos curtos; metade utiliza plataformas de vídeo; e 46% acessam notícias por redes sociais. A televisão aparece depois, com 45%; portais de notícias e podcasts, 37%; canais 24 horas, 34%; rádio, 28%; jornais, 26%; e revistas, 22%.

Ao longo do dia, o mesmo usuário pode receber um vídeo no WhatsApp, assistir a um short no TikTok e, mais tarde, abrir um site de notícias para confirmar uma informação. Esse percurso fragmentado alterou o ritmo da atenção humana. Os formatos que mais crescem, como mensagens de WhatsApp e vídeos curtos, são aqueles que exigem menos tempo contínuo e se encaixam na lógica das notificações. Em comparação, o telejornal pede horário, o portal exige permanência e o jornal impresso demanda leitura prolongada.

Essa mudança se reflete na forma como os brasileiros leem notícias. Apenas 36% dos usuários dizem checar sempre a veracidade das informações que recebem; 28% afirmam fazê-lo na maioria das vezes; e 14% admitem checar poucas vezes ou nunca. Entre os que não verificam, os motivos são curiosos: esquecem (36%), não têm tempo (33%) ou não têm interesse (33%). Outros partem de uma certeza prévia: 31% acreditam que a informação já é verdadeira; e 25%, que já é falsa.

Especialistas consultados por Oeste afirmam que a confiança no interlocutor se tornou fundamental no consumo de informações. Em ambientes como grupos de mensagem, a notícia chega filtrada por relações de proximidade, o que reduz a resistência inicial e acelera a circulação.

“Vivemos um momento em que as pessoas estão menos dispostas a serem conduzidas por narrativas únicas”, observa a especialista em gestão de crises Fernanda Turco, sócia-diretora da empresa de comunicação estratégica Infomuts. “Há uma busca crescente na autonomia de pensamento. Cada indivíduo quer se sentir respeitado em suas escolhas, valores e visões de mundo. Nesse contexto, qualquer sinal de direcionamento, viés ou tentativa de influência explícita gera uma resistência imediata.”

Fernanda acredita que a desconfiança do público em relação ao jornalismo tradicional decorre da perda de credibilidade e da falta de imparcialidade. “Não basta produzir conteúdo correto, é preciso reconstruir relações de confiança”, resume a especialista, ao defender mais transparência nas linhas editoriais e a ampliação da pluralidade de vozes.

Pesquisas sobre o perfil ideológico dos jornalistas brasileiros trazem luz ao problema. Um estudo da Universidade Federal de Santa Catarina, por exemplo, mostra que mais de 50% dos profissionais se declaram de esquerda e cerca de 30% de centro-esquerda, enquanto aproximadamente 5% se posicionam à direita ou à centro-direita. O restante (15%) se divide entre centristas e apolíticos.

A nova era da informação

Apesar da mudança nos hábitos, a informação segue presente na vida dos brasileiros: 65% dizem acompanhar notícias diariamente, embora esse número varie conforme a idade. Entre jovens de 16 a 24 anos, a taxa cai para 46%; entre pessoas de 45 a 59 anos, sobe para 79%. Esse consumo, no entanto, não se traduz necessariamente em engajamento com o conteúdo. Parte dos entrevistados, por exemplo, demonstra pouca disposição para verificar informações. Ao todo, 34% afirmam que não vale a pena checar se os conteúdos são verdadeiros, e 30% dizem que a polarização torna esse esforço inútil. O levantamento associa esse comportamento ao cansaço diante do excesso de conteúdo — dinâmica que, na literatura, se aproxima do chamado news avoidance (evitar consumir notícias).

Para o professor de jornalismo Jorge Tarquini, mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo, esse fenômeno está ligado ao chamado viés de confirmação. “A gente educa o algoritmo a entregar aquilo que confirma o nosso pensamento”, explica. “Se os usuários acompanham conteúdo de esquerda, recebem mais disso. Se consomem material de direita, acontece a mesma coisa.”

Tarquini avalia que a solução não passa por adaptar o jornalismo à lógica das redes sociais ou ao padrão de consumo moldado pelos algoritmos. Na visão do professor, alinhar a produção jornalística ao viés do público significaria comprometer sua função original — a de confrontar, contextualizar e oferecer diferentes perspectivas. “O jornalismo precisa voltar a fazer o que sempre fez: manter o contraditório e reforçar a diferença entre notícia e opinião”, afirma.

Nesse ambiente saturado, novos tipos de conteúdo circulam com frequência. Ao todo, 41% dos usuários relatam contato diário com deepfakes (imagens ou vídeos manipulados por inteligência artificial). Nem tudo é imediatamente verificável, e nem sempre há tempo ou disposição para investigar. Para lidar com esse cenário, muitos usuários adotam estratégias próprias de filtragem: 76% dizem já ter bloqueado ou silenciado perfis, e 69% afirmam sinalizar que não têm interesse em determinados assuntos.

Quando a pesquisa testa a capacidade prática de identificar informações falsas, o resultado revela outro tipo de descompasso: apenas 17% dos entrevistados alcançaram o nível mais alto de acerto. Há, contudo, diferenças entre grupos — pessoas mais velhas, com maior escolaridade e renda tendem a ter melhor desempenho, assim como aquelas que acessam a internet por mais de um aparelho eletrônico. No entanto, o dado mais significativo é outro: 11% se dizem muito confiantes para identificar informações falsas, e outros 29% afirmam estar confiantes.

Essa disparidade aparece também no entendimento de como a informação circula. Ao todo, 45% acreditam que todos recebem os mesmos resultados ao fazer uma busca na internet, embora as plataformas personalizem o que cada usuário vê; já 56% consideram que publicações circulam mais porque chamam atenção, independentemente de serem verdadeiras ou não. A lógica dos algoritmos, baseada em personalização, histórico de uso e engajamento, nem sempre é percebida. O ambiente parece igual, mas opera de forma diferenciada para cada internauta.

Nesse cenário, as plataformas seguem ocupando espaço central no cotidiano. O WhatsApp é usado diariamente por 91% dos entrevistados, e 54% dizem estar nele praticamente o tempo todo. Já o Instagram e o YouTube aparecem com 73% de uso diário, seguidos pelo Facebook (57%) e pelo TikTok (50%). Na era digital, a comunicação, o entretenimento e a informação convivem nos mesmos espaços. Um vídeo pode informar e divertir ao mesmo tempo; uma mensagem pode misturar opinião e dado; e uma notícia pode aparecer ao lado de um conteúdo pessoal.

O leitor é protagonista

A inteligência artificial (IA), considerada a menina dos olhos das big techs, acrescenta uma nova camada a esse universo. Ao todo, 47% dos brasileiros dizem já ter utilizado o ChatGPT; a IA do WhatsApp aparece com 42%, seguida pelo Gemini (30%) e pelo Copilot (14%). Além de distribuir informação, a IA participa da produção, da organização e da interpretação das notícias.

Entretanto, o uso das diversas ferramentas digitais não ocorre de forma homogênea. De acordo com o estudo, as diferenças sociais continuam influenciando o acesso e a diversidade de fontes. Entre cidadãos das classes A e B, 58% acessam diariamente portais de notícias; na classe C, são 33%; nas classes D e E, 27%. Quanto maior o acesso a fontes, maior a chance de comparar e checar informações.

No conjunto, o estudo descreve um ambiente em transformação contínua. A informação chega mais rápido, por diversos canais e em diferentes formatos, o que amplia o acesso e a circulação. Ao mesmo tempo, exige mais do usuário: selecionar, interpretar e decidir em meio a um fluxo constante.

No grupo de WhatsApp da família, o vídeo continua circulando. Em algum momento, alguém pergunta se é verdadeiro. Outro responde com uma experiência pessoal. Um terceiro envia um link de notícia. Um quarto muda de assunto. Tudo acontece ao mesmo tempo. Nesse fluxo contínuo, a informação chega por caminhos diferentes, em velocidades distintas e com graus diferenciados de confiabilidade. Cabe ao usuário escolher em que acreditar.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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