Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de abril de 2026
Jornalismo sem credibilidade
Metade dos brasileiros desconfia de notícias publicadas na imprensa. Edilson Salgueiro para a Oeste:
Às 7h12, o celular que descansa na mesa de cabeceira vibra pela terceira vez. No grupo de WhatsApp da família, alguém encaminha um vídeo curto: um youtuber fala com convicção, sem legenda, sem fonte, sem contexto. Em poucos segundos, surgem respostas — um emoji, uma frase curta, um encaminhamento — e o vídeo segue adiante, rumo a diferentes destinatários. Em outro celular, em outra casa, uma pessoa abre um portal de notícias, lê as manchetes, desliza a página, compara títulos e fecha a aba. Esses dois comportamentos coexistem e ajudam a explicar o cenário descrito no estudo Integridade da Informação 2025, elaborado pelo Painel TIC: no Brasil, a maneira de se consumir notícias mudou.
Cerca de metade (48%) dos usuários de internet diz desconfiar de reportagens publicadas por veículos jornalísticos. Ao mesmo tempo, a desconfiança é menor quando a informação é enviada por amigos ou familiares em redes sociais (39%) ou em aplicativos de mensagens (42%). A informação não desapareceu da mídia tradicional, mas passou a circular com força nas redes sociais.
O estudo, realizado com 5.250 homens e mulheres com 16 anos ou mais entre agosto e setembro de 2025, mostra que os brasileiros acompanham o noticiário de diversas formas. Ao todo, 60% dizem se informar diariamente por aplicativos de mensagens; 53% recorrem a feeds de vídeos curtos; metade utiliza plataformas de vídeo; e 46% acessam notícias por redes sociais. A televisão aparece depois, com 45%; portais de notícias e podcasts, 37%; canais 24 horas, 34%; rádio, 28%; jornais, 26%; e revistas, 22%.
Ao longo do dia, o mesmo usuário pode receber um vídeo no WhatsApp, assistir a um short no TikTok e, mais tarde, abrir um site de notícias para confirmar uma informação. Esse percurso fragmentado alterou o ritmo da atenção humana. Os formatos que mais crescem, como mensagens de WhatsApp e vídeos curtos, são aqueles que exigem menos tempo contínuo e se encaixam na lógica das notificações. Em comparação, o telejornal pede horário, o portal exige permanência e o jornal impresso demanda leitura prolongada.
Essa mudança se reflete na forma como os brasileiros leem notícias. Apenas 36% dos usuários dizem checar sempre a veracidade das informações que recebem; 28% afirmam fazê-lo na maioria das vezes; e 14% admitem checar poucas vezes ou nunca. Entre os que não verificam, os motivos são curiosos: esquecem (36%), não têm tempo (33%) ou não têm interesse (33%). Outros partem de uma certeza prévia: 31% acreditam que a informação já é verdadeira; e 25%, que já é falsa.
Especialistas consultados por Oeste afirmam que a confiança no interlocutor se tornou fundamental no consumo de informações. Em ambientes como grupos de mensagem, a notícia chega filtrada por relações de proximidade, o que reduz a resistência inicial e acelera a circulação.
“Vivemos um momento em que as pessoas estão menos dispostas a serem conduzidas por narrativas únicas”, observa a especialista em gestão de crises Fernanda Turco, sócia-diretora da empresa de comunicação estratégica Infomuts. “Há uma busca crescente na autonomia de pensamento. Cada indivíduo quer se sentir respeitado em suas escolhas, valores e visões de mundo. Nesse contexto, qualquer sinal de direcionamento, viés ou tentativa de influência explícita gera uma resistência imediata.”
Fernanda acredita que a desconfiança do público em relação ao jornalismo tradicional decorre da perda de credibilidade e da falta de imparcialidade. “Não basta produzir conteúdo correto, é preciso reconstruir relações de confiança”, resume a especialista, ao defender mais transparência nas linhas editoriais e a ampliação da pluralidade de vozes.
Pesquisas sobre o perfil ideológico dos jornalistas brasileiros trazem luz ao problema. Um estudo da Universidade Federal de Santa Catarina, por exemplo, mostra que mais de 50% dos profissionais se declaram de esquerda e cerca de 30% de centro-esquerda, enquanto aproximadamente 5% se posicionam à direita ou à centro-direita. O restante (15%) se divide entre centristas e apolíticos.
A nova era da informação
Apesar da mudança nos hábitos, a informação segue presente na vida dos brasileiros: 65% dizem acompanhar notícias diariamente, embora esse número varie conforme a idade. Entre jovens de 16 a 24 anos, a taxa cai para 46%; entre pessoas de 45 a 59 anos, sobe para 79%. Esse consumo, no entanto, não se traduz necessariamente em engajamento com o conteúdo. Parte dos entrevistados, por exemplo, demonstra pouca disposição para verificar informações. Ao todo, 34% afirmam que não vale a pena checar se os conteúdos são verdadeiros, e 30% dizem que a polarização torna esse esforço inútil. O levantamento associa esse comportamento ao cansaço diante do excesso de conteúdo — dinâmica que, na literatura, se aproxima do chamado news avoidance (evitar consumir notícias).
Para o professor de jornalismo Jorge Tarquini, mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo, esse fenômeno está ligado ao chamado viés de confirmação. “A gente educa o algoritmo a entregar aquilo que confirma o nosso pensamento”, explica. “Se os usuários acompanham conteúdo de esquerda, recebem mais disso. Se consomem material de direita, acontece a mesma coisa.”
Tarquini avalia que a solução não passa por adaptar o jornalismo à lógica das redes sociais ou ao padrão de consumo moldado pelos algoritmos. Na visão do professor, alinhar a produção jornalística ao viés do público significaria comprometer sua função original — a de confrontar, contextualizar e oferecer diferentes perspectivas. “O jornalismo precisa voltar a fazer o que sempre fez: manter o contraditório e reforçar a diferença entre notícia e opinião”, afirma.
Nesse ambiente saturado, novos tipos de conteúdo circulam com frequência. Ao todo, 41% dos usuários relatam contato diário com deepfakes (imagens ou vídeos manipulados por inteligência artificial). Nem tudo é imediatamente verificável, e nem sempre há tempo ou disposição para investigar. Para lidar com esse cenário, muitos usuários adotam estratégias próprias de filtragem: 76% dizem já ter bloqueado ou silenciado perfis, e 69% afirmam sinalizar que não têm interesse em determinados assuntos.
Quando a pesquisa testa a capacidade prática de identificar informações falsas, o resultado revela outro tipo de descompasso: apenas 17% dos entrevistados alcançaram o nível mais alto de acerto. Há, contudo, diferenças entre grupos — pessoas mais velhas, com maior escolaridade e renda tendem a ter melhor desempenho, assim como aquelas que acessam a internet por mais de um aparelho eletrônico. No entanto, o dado mais significativo é outro: 11% se dizem muito confiantes para identificar informações falsas, e outros 29% afirmam estar confiantes.
Essa disparidade aparece também no entendimento de como a informação circula. Ao todo, 45% acreditam que todos recebem os mesmos resultados ao fazer uma busca na internet, embora as plataformas personalizem o que cada usuário vê; já 56% consideram que publicações circulam mais porque chamam atenção, independentemente de serem verdadeiras ou não. A lógica dos algoritmos, baseada em personalização, histórico de uso e engajamento, nem sempre é percebida. O ambiente parece igual, mas opera de forma diferenciada para cada internauta.
Nesse cenário, as plataformas seguem ocupando espaço central no cotidiano. O WhatsApp é usado diariamente por 91% dos entrevistados, e 54% dizem estar nele praticamente o tempo todo. Já o Instagram e o YouTube aparecem com 73% de uso diário, seguidos pelo Facebook (57%) e pelo TikTok (50%). Na era digital, a comunicação, o entretenimento e a informação convivem nos mesmos espaços. Um vídeo pode informar e divertir ao mesmo tempo; uma mensagem pode misturar opinião e dado; e uma notícia pode aparecer ao lado de um conteúdo pessoal.
O leitor é protagonista
A inteligência artificial (IA), considerada a menina dos olhos das big techs, acrescenta uma nova camada a esse universo. Ao todo, 47% dos brasileiros dizem já ter utilizado o ChatGPT; a IA do WhatsApp aparece com 42%, seguida pelo Gemini (30%) e pelo Copilot (14%). Além de distribuir informação, a IA participa da produção, da organização e da interpretação das notícias.
Entretanto, o uso das diversas ferramentas digitais não ocorre de forma homogênea. De acordo com o estudo, as diferenças sociais continuam influenciando o acesso e a diversidade de fontes. Entre cidadãos das classes A e B, 58% acessam diariamente portais de notícias; na classe C, são 33%; nas classes D e E, 27%. Quanto maior o acesso a fontes, maior a chance de comparar e checar informações.
No conjunto, o estudo descreve um ambiente em transformação contínua. A informação chega mais rápido, por diversos canais e em diferentes formatos, o que amplia o acesso e a circulação. Ao mesmo tempo, exige mais do usuário: selecionar, interpretar e decidir em meio a um fluxo constante.
No grupo de WhatsApp da família, o vídeo continua circulando. Em algum momento, alguém pergunta se é verdadeiro. Outro responde com uma experiência pessoal. Um terceiro envia um link de notícia. Um quarto muda de assunto. Tudo acontece ao mesmo tempo. Nesse fluxo contínuo, a informação chega por caminhos diferentes, em velocidades distintas e com graus diferenciados de confiabilidade. Cabe ao usuário escolher em que acreditar.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com



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