segunda-feira, 20 de julho de 2026

Não acho que a espécie humana faria qualquer falta ao planeta

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 20 de julho de 2026

Não acho que a espécie humana faria qualquer falta ao planeta

O sapiens parece se revelar suicida nessa recusa de ter filhos e a modernidade fez dos filhos um ônus. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

"A vida é tão terrível que teria sido melhor não ter nascido. Quem tem tanta sorte? Ninguém numa centena de milhares."

Ditado judeu citado pelo filósofo sul-africano David Benatar no seu livro "Better Never to Have Been, The Harm of Coming Into Existence", numa tradução selvagem, "melhor nunca ter existido, o mal de vir à existência" —não conheço tradução em português.

Benatar foi entrevistado nesta Folha segunda-feira passada, dia 13 de julho, sobre o tema do antinatalismo, atitude que ele defende, antes de tudo, por razões ontológicas e éticas, e não políticas, a priori —como é o caso hoje em dia. Aliás, sua posição é próxima do filósofo romeno, radicado na França, Emil Cioran, que considerava ter nascido um "inconveniente", e do filósofo norueguês Peter W. Zapffe, que via a consciência como um mal maior dentro do mal que já era a vida.

Não pretendo discutir a entrevista. Interessa-me a questão em si da proposta de recusa da reprodução humana e a queda da natalidade sustentada já há tempos em regiões mais afluentes da Terra. Nos últimos tempos tem sido comum relacionar a defesa da reprodução humana —tenham filhos!— a figuras políticas do panteão conservador, como faz, aliás, a entrevista citada acima.

De fato, muitos nomes desse panteão como J. D. Vance, Giorgia Meloni, Marine Le Pen, entre outros, defendem a reprodução humana. J. D. Vance chegou mesmo a dizer que os Estados Unidos eram governados por mulheres solitárias que criam gatos ou algo semelhante.

O tema da recusa de reproduzir a espécie humana é, de fato, um gatilho existencial. Primeiro porque, normalmente, o problema é colocado diretamente às mulheres, quando, na verdade, importa tanto a mulheres quanto a homens. Biologicamente falando, ambos são necessários para a reprodução, no mínimo, no nível dos gametas.

De um ponto de vista moderno, o tema dialoga diretamente com a emancipação feminina, o sexo como lazer, o mercado de trabalho e a possibilidade de formação e carreiras de sucesso para as mulheres. Isto é fato inegável: filhos podem atrapalhar a carreira das mulheres. Para o homem, também. A recusa da reprodução por parte de homens jovens se refere muitas vezes ao imperativo existencial "filhos hoje, contencioso amanhã". Este terreno jurídico impacta evidentemente as mulheres também. Nem precisamos lembrar que quem arca com o ônus fisiológico e psicológico da gestação é a mulher.

Muitas mulheres se sentem agredidas pessoalmente quando a recusa de ter filhos é posta em questão, mesmo que sem nenhuma condenação moral a priori. Acompanho esse tema há muito tempo, quando comparava a fertilidade entre mulheres de adesão religiosa estrita e mulheres seculares, sendo as primeiras muito mais férteis.

Devo dizer que filosoficamente não acho que a espécie humana faria qualquer falta ao planeta, portanto, não vejo condenação moral para quem se recusa a ter filhos. A espécie pode muito bem acabar e pronto, o que não significa que esta hipótese não seja em si terrivelmente trágica para a própria espécie. Ao longo do tempo histórico, seria uma catástrofe para quem vivesse esse processo.

Os ditos progressistas não alcançam a questão ontológica em jogo, só querem combater conservadores. Falta aos militantes uma percepção ontológica profunda das coisas, muitas vezes.

Filósofos e afins contra a reprodução humana o são normalmente por razões que extrapolam em muito a polarização política. Encabeça a lista o problema do sofrimento intrínseco à condição de ser vivo, como bem aponta Benatar. A vida se alimenta da própria vida, o que, em si, implica um ciclo infernal de violência. O problema não seria só reproduzir gente, seria reproduzir a vida enquanto tal. A reprodução em si seria um ato imoral.

Outro tema é o envelhecimento como destino maldito —independentemente das tentativas risíveis do mercado motivacional de negar este fato— e tudo que daí decorre como perdas, dores, abandono e adoecimento. A injustiça dominante na história, a violência da política neste "imenso mundo de tristeza", como cantou Freddie Mercury.

A suspeita de que a existência enquanto tal seria um drama imoral habita mesmo algumas formas antigas de espiritualidade, como o gnosticismo cristão dos primeiros séculos da era comum.

O antinatalismo é uma das formas mais radicais de pessimismo, por isso não vai bem com pautas progressistas, mais dadas ao otimismo ligeiro com relação à natureza humana. O sapiens parece se revelar suicida nessa recusa de ter filhos e a modernidade fez dos filhos um ônus.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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