terça-feira, 7 de julho de 2026

Para Freud, falta maturidade ao religioso; para Nietzsche, coragem

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 6 de julho de 2026

Para Freud, falta maturidade ao religioso; para Nietzsche, coragem

A conclusão é que, em sendo as religiões sistemas abertos de interpretação —não há limite para a interpretação religiosa dos fatos porque a religião implica teorias absolutamente dissociadas de qualquer teste racional ou empírico—, suas explicações podem devorar os eventos da vida, atribuindo sentido espiritual a tudo. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

As críticas às religiões são largamente conhecidas, inclusive suas matrizes. Segundo Freud, um religioso é infantil e regressivo porque não consegue lidar com o desamparo estrutural da condição humana. Adere a seres imaginários, derivados da expectativa infantil de proteção dos pais, a fim de ser cuidado por esses seres.

Segundo Nietzsche, a crítica se refere à covardia diante da indiferença cósmica e o decorrente ressentimento moral e religioso. Se, para Freud, falta maturidade à pessoa religiosa, para Nietzsche, falta coragem. O abandono cósmico é insuportável, como dizia o escritor grego Nikos Kazantzakis, um leitor aguerrido de Nietzsche.

Segundo Feuerbach, o religioso é um alienado das próprias potências que ele aloca imaginariamente nos deuses —em Cristo, no caso do cristianismo, especificamente. Para o autor, toda teologia é antropologia filosófica.

Segundo Marx, não muito longe do Feuerbach, o religioso é um alienado que outorga ao clero e sua instituição os poderes sobre si mesmo, sua sociedade e sobre o mundo. Mas, para nosso profeta do fim do capitalismo, essa alienação é material, visto que pagamos por ela. Compramos das religiões o ópio que nos deixará incapazes de enfrentar a vida com nossos próprios recursos. Toda religião é um delírio que nos custa dinheiro, em algum momento.

Segundo Epicuro, o mote da adesão aos deuses é o medo deles. Tememos o poder deles sobre nossas vidas, sejam vidas terrenas e históricas, sejam vidas depois da morte. Ao afirmar seu atomismo materialista, Epicuro nos livrava do terror dos deuses para com a vida após a morte, já que a alma seria puro ar que saia pela boca no último suspiro, portanto, mortal.

Quem sabe, se perdêssemos o medo dos deuses, perceberíamos que nada de ruim nos aconteceria —de ruim digo, algo diferente do que sempre nos acomete. O medo seria o afeto religioso por excelência.

Com Spinoza, aprendemos a suspeitar do caráter político das religiões —que o Marx, "doutor em Epicuro", herdou como parte de sua crítica às religiões. Se para Freud era o desamparo, para o Nietzsche a indiferença cósmica, para o Feuerbach e Marx era alienação, para Spinoza, era uma forma de política do medo.

Segundo alguns darwinistas, as religiões são traços evolucionários que se caracterizam por delírios imaginários organizados objetivamente e que foram adaptativos desde sempre. Seja para temermos os deuses maus, seja para pedirmos ajuda para os bons, as religiões nada mais seriam do que um polegar opositor metafísico.

Segundo o antropólogo Clifford Geertz, as religiões são "apenas" sistemas culturais de sentido como quaisquer outros. Humano, demasiado humano.

Entretanto, tais críticas em nada arranharam, até hoje, a fé e a adesão da maior parte dos seres humanos a sistemas religiosos dos mais variados tipos.

Apesar da reconhecida validade de todas essas análises, pessoalmente, sinto que a crítica freudiana é a mais letal e aponta para um elemento complicador, principalmente nos tipos de adesão mais radical a sistemas religiosos. Esse complicador é o vínculo entre a vida psicológica enquanto tal e a dita vida espiritual.

Onde ficaria a fronteira entre eventos estritamente psicológicos ou psicopatológicos e eventos de ordem espiritual-religiosa? Se você tem uma adesão dura a alguma religião que explicaria transtornos de comportamento a partir de uma semântica espiritual-religiosa, a fronteira, seguramente, poderia ficar borrada.

Se a adesão a sistemas religiosos significa, como pensava Freud, algum tipo de regressão psíquica a estágios mais "primitivos" —no sentido psicanalítico, ou seja, mais próximos da infância psíquica—, na lida com o desamparo e suas consequências, tais como medo, insegurança, sentimento de abandono, estresse material grave, doenças, ou mesmo algum tipo de dependência absoluta tardia, a tendência seria que esta adesão religiosa se caracterizasse por ser inatingível aos esforços da razão.

A conclusão é que, em sendo as religiões sistemas abertos de interpretação —não há limite para a interpretação religiosa dos fatos porque a religião implica teorias absolutamente dissociadas de qualquer teste racional ou empírico—, suas explicações podem devorar os eventos da vida, atribuindo sentido espiritual a tudo.

A crítica de Marx tem aqui também seu lugar. Qualquer serviço espiritual, principalmente se envolve atos de magia, custa dinheiro, muito dinheiro. Quando as religiões assumem as explicações para os sofrimentos psíquicos, as religiões vendem sua falsa cura para nós, os infelizes.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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