quarta-feira, 29 de julho de 2026

Por que temas de política externa ganharam importância na América Latina

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de julho de 2026

Por que temas de política externa ganharam importância na América Latina

No Brasil, o assunto mal registrava, mas agora presidentes como Lula e Menem investem pesado e existe também uma batalha geopolítica travada por Trump. Vilma Gryzinski: 

Quem usasse até recentemente a palavra “geopolítica” corria o risco de entediar seus leitores. A realidade e líderes de estilo inflamado como Donald Trump, Lula da Silva e Javier Milei estão provocando um interesse que não existia antes.

O público tem razão em se sentir mobilizado. Quando Donald Trump aumenta as tarifas sobre as exportações brasileiras, até quem dá risada de expressões como imperialismo ianque, ou talvez sequer a tenha ouvido antes, percebe que produtores brasileiros saem prejudicados. O presidente Lula da Silva e seus marqueteiros foram rápidos em captar o potencial propagandístico – e portanto eleitoral – de conceitos normalmente distantes das preocupações diárias dos cidadãos comuns, como soberania.

A ideia de “dar uma lição nos gringos” e defender a autonomia nacional é muito forte. Também é forte rejeitar que um presidente estrangeiro como Javier Milei venha criticar políticos locais. Ninguém nunca erra, pelo menos no curto prazo, apostando em sentimentos nacionalistas.

Milei, com seu estilo de tocar fogo no circo, também quer faturar os seus pontinhos. Entende igualmente muito bem que tem interesse em se tornar o principal interlocutor da direita de Donald Trump na América Latina. Trump já salvou seu governo uma vez (condicionando a ajuda a bons resultados eleitorais, o que de fato aconteceu) e não é impossível que venha a fazer isso de novo.

DORMINDO NO PONTO

O jogo é tão alto que até o normalmente sóbrio Xi Jinping mandou soltar uma nota de apoio ao governo brasileiro. A China e seus investimentos abundantes (mas não gratuitos) são um argumento de enorme peso para cooptar governos latino-americanos para o lado que prefere se afastar dos Estados Unidos.

Donald Trump e, mais especificamente, o Departamento de Estado, enxergam isso muito bem, depois dos vários anos que os Estados Unidos dormiram no ponto e relevaram a crescente influência chinesa na região que haviam se acostumado a ver como seu quintal.

Trump já armou uma frente de direita entre os negligenciados latino-americanos e tem um punhado de países do seu lado. Chama-se, informalmente, Escudo das Américas. Formalmente, é a Coalizão Anticartéis das Américas, destinada teoricamente ao combate ao tráfico de drogas, o flagelo do nosso continente, mas com um escopo mais abrangente – daí a recusa do governo brasileiro até mesmo em aceitar a qualificação dos cartéis como organizações terroristas.

Fazem parte dela Argentina, Bolívia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, República Dominicana, Trinidad e Tobago e, claro, Estados Unidos. Sob nova administração, a Colômbia deve aderir, talvez o Peru também. É uma frente forte, embora diversificada.

Escrevendo no La Nación, o comentarista argentino Carlo Pagni disse que “o filme é muito mais amplo”.

DOUTRINA DONROE

“A princípio, há um jogo de Milei na região que nasce da cabeça do Mago do Kremlin, Santiago Caputo: converter o presidente em um agente de uma política favorável a Trump dentro da América Latina. Esta postura foi adotada pela Chancelaria e tem por objetivo formar uma liga pró-Trump na qual deveria estar uma dezena de países” – exatamente os integrantes do Escudo das Américas. “Estas nações serviriam de apoio ao presidente dos Estados Unidos em sua doutrina Donroe, réplica da doutrina Monroe que consistia no seguinte axioma: ‘A América para os americanos’. Milei serve a esta ideia em seu intuito de formatar a liga, em clara contradição com a China”.

“O resultado eleitoral de outubro no Brasil é crucial nesse jogo. Se Donald Trump quer ter uma plataforma de apoio em sua política contra a China, nação que mostrou grandes avanços na América Latina, tem que conseguir que mude a orientação política no governo brasileiro. Em função desta estratégia, o presidente recebeu Flávio Bolsonaro no Salão Oval. Falta ver se os insultos de Milei a Lula o prejudicam num país muito zeloso de sua autonomia ou o beneficiam. Mark Carney no Canadá, por exemplo, ganhou depois de estar perdendo nas pesquisas graças aos ataques de Donald Trump”.

Lula e marqueteiros obviamente apostam nisso e o presidente demonstra continuamente que quer comprar uma briga que vê como favorável. Hoje sai mais um documento forte do governo americano. O público captou os sinais no ar, trazendo Trump e Milei para um debate eleitoral no qual dificilmente apareceriam. O jogo ficou muito mais interessante do que um bate boca eventual que deixou o relacionamento entre Brasil e Argentina, fundamental para os dois países, no ponto mais baixo desde que o regime militar argentino pagou à seleção do Paru para perder por 6-0 de forma a qualificar os jogadores da casa na Copa de 1978.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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