terça-feira, 11 de agosto de 2026

"O Brasil não está só", por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 11 de agosto de 2026

O Brasil não está só 
Por Fernando Gabeira (In Blog)

Um autor argentino que nos visitou recentemente mandou mensagens para os amigos, lamentando os ataques de Milei a autoridades brasileiras. Segundo ele, essas patacoadas não representam grande parte do país.

Não há dúvida de que nem todos na Argentina aprovam a forma como Milei expressa suas posições. Assim como não deve haver dúvida de que os Estados Unidos não apoiam, em sua maioria, as escaramuças diplomáticas que o governo Trump usa contra o Brasil.

Para começar, as próprias tarifas aplicadas ao Brasil e a outros países sofrem grande resistência interna. Vinte e cinco estados americanos entraram na Justiça condenando a decisão de Trump de taxar sob o argumento de que os países não combateram adequadamente o trabalho forçado. Os estados governados por democratas consideram a taxação contrária à lei.

Nas escaramuças diplomáticas, o Brasil não está só. A revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti é apenas uma decisão arbitrária entre muitas que os Estados Unidos vêm tomando.

A França sofre o mesmo tipo de pressão. O embaixador Aurélien Lechevallier não consegue receber o agrément de Trump. A razão: a delegação francesa criticou um voto americano na ONU, contrário à renovação do mandato do alto comissário de Direitos Humanos, Volker Türk. Os Estados Unidos votaram com Rússia, Coreia do Norte e Nicarágua, e os franceses fizeram aquele clássico comentário: quem te viu, quem te vê.

O caso mais grave aconteceu com o embaixador da África do Sul nos Estados Unidos. Ebrahim Rasool fez postagens no X criticando o movimento de supremacia branca. Associou as críticas de Trump à África do Sul, por suposta perseguição aos brancos, à tentativa de enfraquecer um país que luta contra o supremacismo.

Aqui no Brasil, o país examina o agrément para o embaixador de Trump, Daniel Perez. O Brasil se apoia na Convenção de Genebra, e Trump há muito deu um pontapé em todas as regras internacionais. Ele mesmo declarou que se orienta pela própria cabeça, e não por convenções internacionais.

Estamos falando uma língua diferente de Trump. Mas não estamos sós. Neste momento, toda a querela com o governo americano fortalece a campanha de Lula. É razoável que seja usada como trunfo eleitoral.

Mas eleições passam. E Trump continua por lá, possivelmente tentando eleger Vance ou Marco Rubio. É preciso pensar nesse longo prazo e nas inúmeras dimensões preparatórias que ele pede. Soberania transcende a palanques e discursos inflamados.

Neste momento, já é necessário compreender que não estamos sós, ampliar relações comerciais, alianças políticas e contar com mudanças nos Estados Unidos. Por meio de uma simples alteração na correlação de forças nas eleições de novembro, Trump pode perder uma das Casas do Parlamento. E não mais será o mesmo. Não terá paz para isso.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

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