Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 1 de outubro de 2026
Vivo e ativo, a melhor vingança: o que aconteceu com Salman Rushdie
Escritor indiano que levou quinze facadas por causa de livro está divulgando documentário sobre o ato bárbaro - e tocando a vida. Vilma Gryzinski:
“Eu sempre me recusei a fazer o papel de vítima”, diz Salman Rushdie numa das várias entrevistas que está dando para divulgar o documentário sobre o atentado que sofreu em 2022, depois de quase quarenta anos da fatwa, ou sentença religiosa, que o transformou em homem marcado para morrer por escrever um livro em que um personagem similar ao profeta Maomé passa por episódios nada canônicos. Num deles, acha que mensagens sibiladas pelo Maligno fazem parte das ordenações divinas que recebe do anjo Gabriel – daí o título do livro condenado, Os Versos Satânicos.
É difícil não vê-lo como vítima, apesar do louvável esforço. Como ele estava dando uma palestra, no interior do Estado de Nova York, o atentado foi filmado, em cenas fortes reproduzidas no documentário. As quinze facadas dadas por Hadi Matar, um jovem xiita libanês que nem era nascido quando a fatwa foi proclamada pelo aiatolá Khomeini, atingiram o escritor indiano (e britânico e americano, suas cidadanias adotadas) na mão direita, no quadril, no abdômen, no peito, no pescoço e no olho direito, que perdeu.
Os óculos com uma lente escura lembram constantemente os interlocutores que Rushdie foi vítima, sim, mas uma vítima que quer ter a última palavra. Qual sua mensagem para A. , como chama o agressor, cujo nome escolheu não pronunciar (a inicial se refere ao apodo Asinino, o adjetivo referente a asno que ele dá a Matar).
A pena de 25 anos a que o agressor foi condenado é justa? “Eu não acredito na pena de morte, mas acho que ele tem que sair de cena por muito tempo. Hoje, ele tem só 28 anos, poderá estar livre aos 50”, disse ele à revista Spectator.
QUINZE MINUTOS DE FAMA
Rushdie virou personagem de si mesmo, escrevendo sobre o período em que passou sob proteção em grau máximo da segurança britânica (Joseph Anton, o pseudônimo que escolheu, tirado de Joseph Conrad e Anton Tchekhov). A convivência com os seguranças foi complicada – o escritor é um homem voluntarioso, arrogante, com temperamento forte. Era de esquerda na época da fatwa e teve que aceitar a proteção imediatamente oferecida por Margaret Thatcher.
Quando se mudou para os Estados Unidos, achou que havia voltado a ter uma vida normal – escrever livros, fazer lançamentos e noites de autógrafos, dar palestras. E, como era seu hábito, namorar e se casar com mulheres lindas – a atual é a poeta negra americana Rachel Eliza Griffiths, que filmou a dolorosa recuperação do marido, em cenas usadas no documentário.
O que ele diria a seu quase assassino? “Acho que a melhor vingança é a indiferença. Eu não o perdoo, nem deixo de perdoá-lo. Ele é simplesmente irrelevante. Posso dizer: ok, você teve seus quinze minutos warholianos de fama e agora pode passar o resto da vida na cadeia. Muito obrigado”.
Atribui o atentado à “loucura de um jovem ignorante envenenado pela religião que dá justificativas morais a atos imorais”.
Aos 79 anos, leva uma vida de “felicidade cautelosa”. Fez o documentário para mostrar a luta entre “tudo o que desprezo – fanatismo, preconceito” e “tudo o que amo – arte, amor, imaginação, beleza”.
O embate ainda não terminou.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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