sábado, 3 de abril de 2021

'A ditadura era violenta e uma bagunça', por Paulo Roberto D. Brandão

Foto reproduzida da Wikimedia e postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente no Perfil do Facebook de Paulo Roberto Dantas Brandão, em 3 de abril de 2021

A ditadura era violenta e uma bagunça

Estou estarrecido com amigos que nas redes sociais pedem a volta da ditadura e comemoraram efusivamente o 31 de março.  Eu só comemoro a data porque por coincidência do destino é a data de aniversário do meu pai.  Para esses amigos, vou só relembrar a história de Vladimir Herzog.  Quem quiser uma boa leitura, indico “A Casa da Vovó” do jornalista Mauricio Godoy, um pujante relato dos porões do Doi-Codi de São Paulo.

O alvo nem era o Herzog, mas sim o governador de São Paulo, Paulo Egidio Martins, e por tabela o presidente Ernesto Geisel.  Em 1997, Paulo Egídio tinha se transformado em uma pedra no sapato dos torturadores de São Paulo.  Sempre que tinha conhecimento que alguém tinha sido intimado pelo Doi, alertava seus contados em Brasília, com isso evitou que muita gente fosse torturada.  E, Paulo Egídio não era nenhum esquerdista, ao contrário, havia sido nomeado pela chamada revolução.

Os celerados do DOI resolveram então ir atrás dos “comunistas” infiltrados no governo do Estado de São Paulo, como uma forma de atingir o governador. Valdimir Herzog era editor da TV Cultura, televisão educativa do governo do Estado, nem era importante na estrutura governamental.  Numa tarde agentes do DOI foram à TV para prender o jornalista.  Ele retrucou que tinha que terminar o fechamento do jornal.  Os agentes telefonaram para um superior, que autorizou a que Herzog se apresentasse no dia seguinte.  Tudo acertado.

Herzog era um jornalista pacato.  Era membro do PCB, mas nunca tinha participado da luta armada, jamais tinha praticado ações violentas, não levava vida clandestina, nem portava armas.  No dia seguinte, apresentou-se à sede do DOI, como havia combinado.  Estavam lá mais alguns jornalistas já detidos.  Assim que se apresentou, foi levado à tortura, e pediam informações genéricas que ele não dispunha.  Mataram-no.  Assassinaram-no.

A morte de Vladimir Herzog foi uma forma de afrontar ordens do Presidente Ernesto Geisel, que tinha proibido prisões e torturas sem ordens do SNI; em Brasília, e principalmente uma forma de peitar Paulo Egídio Martins, que teve a petulância de se intrometer nas barbáries dos porões da ditadura.

O resultado foi que o General Ednardo Dávila Melo, comandante do 2º Exercito em São Paulo acabou demitido pelo presidente, por desobediência.  E o resto todo mundo sabe.

Em tempo: o torturador é o ser mais abjeto e covarde que pode existir.  Igualmente, são aqueles que apoiam tortura e torturadores, existências inerentes às ditaduras.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

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