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domingo, 4 de fevereiro de 2024

Por que o anarcocapitalismo é incompatível com o conceito de dignidade...

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI 24 de janeiro de 2024

Por que o anarcocapitalismo é incompatível com o conceito de dignidade humana

O maior problema é o anarcocapitalismo, que traz profundas confusões quanto à composição da sociedade. Por isso, digamos que não, atos livres não se definem por contrato, e que um Estado legítimo e soberano deve ter o poder para decretar a nulidade de contratos infames e degradantes. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:

Digamos que um homem convide uma mulher para saírem sozinhos à noite, a dois. Ele tem segundas intenções consigo, e ela tem grandes chances de já ter notado isso. Entre um copo e outro (pois o álcool, na medida certa, é um elemento pró-social), e depois de uns beijos, ele a convida para a própria casa. Ela aceita e, lá chegando, os dois fazem sexo. Nenhum dos dois bebeu demais; ele pôde desempenhar o que queria e ela estava muito desperta. Creio que nenhuma pessoa sensata diria tratar-se de estupro, nem de algo não consentido, nem de algo que não foi fruto de livre escolha.

Infelizmente, porém, o bom-senso não é uma coisa tão bem partilhada quanto Descartes imaginava, e as feministas inventaram o tal do affirmative consent, ou consentimento afirmativo, que consistiria em exigir que a mulher dissesse algo como: “SIM, eu consinto em copular com o senhor”. Na mesma toada, os masculinistas, red pill, anarcocapitalistas etc., agora já falam em contratos como uma maneira de lidar com os crescentes abusos judiciais feministas. No fundo, os dois grupos pregam a mesmíssima coisa, já que a única maneira imparcial de saber que houve o tal do “consentimento afirmativo” é por meio de um documento, um contrato.

Voltemos a fita. A mulher está sozinha com o homem na casa dele aos beijos. Ele, então, saca um contrato cheio de letras miúdas: a descontração acaba, ela vai-se embora. Esse seria o desenrolar normal do acontecimento. Mas rebobinemos ainda mais a fita: ambos estão juntos num local público e ainda não trocaram beijos. Ora, se você do nada beijar a boca de uma mulher desconhecida na rua, é caso de polícia – mesmo antes de as leis feministas deturparem o conceito de estupro. Se no tempo da minha avó um homem desconhecido fizesse isso, apanhava na rua e a polícia só ia aparecer depois de “resolvida” a questão. Hoje também, a depender do grau de policiamento da localidade. Seria o caso, então, de criar um contrato permitindo beijos antes de o homem esboçar qualquer investida?

No tempo da vovó, não havia revolução sexual nem pílula. As vovós normalmente não faziam sexo antes do casamento, mas sem dúvida davam mais liberdades ao namorado ou noivo do que a desconhecidos. Não era qualquer um que podia pegar na mão, nem era qualquer um que poderia dar beijo. No entanto, obviamente essas permissões não estavam sujeitas a contrato: nesse tipo de interação humana, o consentimento é tácito e negociado constantemente, desde que o mundo é mundo.

***

Imaginemos agora uma situação bem diferente: Anastácia é uma bela ucraniana de 17 anos que não tem muita coisa além do próprio corpo, o qual ela e suas parentas estão tendo dificuldades para alimentar em meio à guerra. Suas parentas mais velhas estavam acostumadas a ganhar dinheiro com o próprio corpo por meio do aluguel de barriga: casais ocidentais que não podiam ou não estavam a fim de conceber pagavam-lhes por isso porque o país tem um aparato legal favorável à prática. Com a guerra, porém, o negócio esfriou.

Ao atingir os 18 anos, Anastácia fica aliviada, porque agora ela pode consentir e, assim, ganhar dinheiro. Fazendo uso de sua liberdade, ela se inscreve num site de venda de noivas ucranianas para arrumar um marido. Moça direita, ela não quer virar prostituta; quer casar. Lá na Inglaterra, Joe, um esquisitão que tem dificuldade em lidar com mulheres, consulta um catálogo de noivas ucranianas online e resolve comprar a jovem Anastácia.

Mal sabia ela que, ao se inscrever no site, ela se comprometia a satisfazer todos os caprichos sexuais do seu marido/cliente. Por precaução (do site), ela assina também documentos físicos especificando tudo o que ela aceitava fazer com o marido. Como ela está aliviada por sair da Ucrânia e animada com a perspectiva de enviar dinheiro para os familiares, ela nem se dá ao trabalho de olhar no dicionário o que significa “coprofagia” – deve ser algum tipo de massagem.

Chegando à Inglaterra, ela encontra um esquisitão repulsivo com nula habilidade com mulheres, e que não tem o menor interesse em agradá-la, porque ele pagou e ela assinou o contrato. Se Anastácia quiser sair dessa, porém, teria de cobrir o prejuízo do ex-futuro-marido e da agência, segundo o previsto no contrato. Não teve opção senão ficar.

Na Inglaterra, as autoridades estão acostumadas a fazer vista grossa para os casamentos forçados de cidadãs inglesas com seus primos paquistaneses, por que se preocupariam com uma imigrante recém-chegada que assinou um contrato sem ler direito? Ora, o respeito aos contratos e a liberdade de vender qualquer coisa (inclusive a si próprio) caracterizam a “civilização judaico-cristã ocidental”. Logo, só um comunista, um estatista, um marxista cultural quereria que abstrações como a “dignidade humana” estivessem acima da verdadeira Liberdade, que consiste em assinar contratos.

Mas, para não dizer que Anastácia teve muito azar, seu marido lhe forneceu de graça lubrificantes e entorpecentes, de modo que ela não precisaria estar acordada enquanto ele usasse tudo (ou quase tudo) o que estava previsto no contrato. Não que ele estivesse preocupado com ela; era para não despertar a atenção dos vizinhos.

Pessoas sensatas dirão que toda essa situação é criminosa, pois inclui escravidão por dívidas e estupro. Mas os anarcocapitalistas e seus incontáveis simpatizantes não estão no conjunto de pessoas sensatas.

***

Quais são as chances de uma história como a de Anastácia acontecer? Não sei. Sei que as agências de venda de noivas já existem; sei que o business cresceu na guerra; sei que a imigração para a Europa é mais fácil do que nos Estados Unidos. Segundo lemos em matéria do jornal britânico Huffington Post, “encomenda de noivas” é “uma indústria crescente”, e “a invasão da Ucrânia capturou a atenções de milhões – e homens solteiros com esperanças de comprar amor não são exceção. O interesse sexual por ucranianas explodiu, incluindo desde britânicos se oferecendo de maneira urgente para abrigar refugiadas ucranianas até tendências preocupantes na internet. Pesquisas que combinam termos como ‘acompanhante’, ‘pornografia’ e ‘estupro’ com a palavra ‘ucraniana’, bem como ‘pornografia refugiada ucraniana’, subiram de um jeito alarmante, segundo a Organization for Security and Co-operation in Europe (OCSE).”

A matéria ouviu também Marcia Zug, autora de um livro sobre comércio de noivas, e perguntou-lhe por que os homens compram esposas se o normal é ter de graça. A resposta é que “costumam ser homens que não têm grande valor matrimonial em seu próprio país, seja por não serem convencionalmente atraentes, ou por terem dificuldades para falar com mulher etc. Ao buscarem noivas sob encomenda, seu ‘valor de mercado’ matrimonial sobe, porque têm alguma coisa para oferecer que eles não teriam com as mulheres do seu país, como o poder do seu passaporte ou da sua moeda.” Por um lado, as ucranianas “são fáceis porque são pobres”, como notou um ex-deputado estadual de São Paulo. Por outro, os esquisitões de países mais ricos e estáveis têm acesso a mulheres valendo-se do status do seu país.

Não à toa, a matéria ouve também uma russa cuja mãe fugiu da União Soviética para o México vendendo-se como esposa, mas teve uma vida muito difícil por cair na mão de um esquisitão antissocial.

Dos detalhes contratuais, não sei. Na certa varia de empresa para empresa, bem como de país para país. Os Estados Unidos inspecionam casamento antes de dar green card e isso deve dificultar o cárcere privado de esposas compradas; por outro lado, a liberdade contratual existente naquele país permite abusos trabalhistas impensáveis no Brasil (como vimos aqui), fora que a lei varia de estado para estado. Se houver uma dada empresa que se vale de uma brecha legal de um estado dos EUA para barbarizar noivas de encomenda, só iremos descobrir quando estourar. Mas, quanto à jurisprudência inglesa, já vimos aqui que a mera possibilidade de consentir com estrangulamento está sendo usada para atenuar o assassinato de mulheres por desconhecidos.

Um elemento importante nessa equação é a do homem esquisitão sem habilidade com mulheres. Ao mesmo tempo em que o Ocidente vai introduzindo o contratualismo liberal nos âmbitos mais íntimos da vida humana, os esquisitões viciados em pornografia vão se tornando mais comum. Afinal, o mero fato de ser um esquisitão já é bem visto hoje. O melhor exemplo disso é a expansão do conceito de autismo que andou de mãos dadas com a gourmetização da doença. A personagem ficcional do Dr. Sheldon Cooper, à época com “Asperger” (que depois virou “TEA” ou “autismo leve”), virou uma espécie de garoto propaganda identitário dos esquisitões, fazendo crer que ser infantil e gostar de ficar no computador é meio caminho andado para ser um gênio da física. Se antes era feio um homem não ter jeito com mulher, hoje é socialmente aceito e até glorificado na dita “cultura nerd”.

O nosso caldo cultural está muito ruim, e o “marxismo cultural” não é o maior dos nossos problemas. Nosso maior problema é o anarcocapitalismo, que traz profundas confusões quanto à composição da sociedade. Por isso, digamos que não, atos livres não se definem por contrato, e que um Estado legítimo e soberano deve ter o poder para decretar a nulidade de contratos infames e degradantes.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

A esquerda tem partidos, a direita tem uma turba de coaches e influencers.

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI 31 de janeiro de 2024

A esquerda tem partidos, a direita tem uma turba de coaches e influencers.

O bolsonarismo, em suma, é um galinheiro. Todo o mundo quer fazer live e lacrar na internet, mas ninguém quer trabalhar duro. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:

Com a aparente iminência da prisão política de Bolsonaro, muita gente, entre detratores e apoiadores do ex-presidente, tem pensado que a sua tendência é repetir Lula: ir à cadeia e, após reviravoltas jurídicas, voltar à presidência nos braços do povo. Deixando de lado o aspecto criminal, a questão da suposta “ABIN paralela” desencadearia uma espécie de Lava Jato contra Bolsonaro; ou seja, a grande mídia atuaria em conjunto com o Judiciário, o MP e a PF para pôr na cadeia um líder popular com chances reais de ganhar a eleição presidencial.

Eu concordo em parte. De fato, parece-me que a PF está à procura de pelo em ovo para botar Bolsonaro na cadeia; e, se não encontrar nem um cabelinhozinho, a grande mídia terá quem apareça com um de manhã, nem que seja para desmentir de noite (vide Daniela Lima com a história do computador da ABIN na mão de Carlos Bolsonaro). Tenho minhas dúvidas, porém, se se trata de uma investida dirigida somente à família Bolsonaro; creio tratar-se de uma investida contra a ABIN. Assim como a Lava Jato culminou não só na derrota (temporária) do petismo, mas na ascensão do STF ao topo do poder nacional (impedindo Dilma de nomear ministro, por exemplo), a celeuma da suposta “ABIN paralela” pode culminar na anulação dessa agência tradicionalmente ligada a militares e na sua substituição pela PF, que é very democratic.

Lula até voltou, mas o STF ficou. Há quem prefira enfatizar a volta de Lula; eu, não. O poder de Lula 1 e de Lula 2 é incomparavelmente maior do que o poder de Lula 3; não porque Lula mudou, mas porque a chefia do Poder Executivo diminuiu, independentemente de quem seja o chefe. É provável que o próximo chefe do Executivo (quem quer que seja ele ou ela) tenha de lidar com um Supremo Todo-Poderoso dando ordens a uma PF tão sinistra quanto o FBI, cheia dos programas de espionagem importados.

Mas Lula voltou, e é sobre isso que a maioria das pessoas joga os holofotes – inclusive os apoiadores de Bolsonaro, que se enchem de esperanças de o seu político predileto fazer o mesmo. E é dessa parte que discordo. Lula e Bolsonaro são políticos bem diferentes de um ponto de vista institucional.

Para começo de conversa, Lula tem um partido. Ele participou da criação do PT, que existe formalmente desde 1982, e nunca mudou de partido. O PT nunca foi um partido sem dissidência interna, e há uma porção de partidos que surgiram (e existem até hoje) de dissidências internas do PT após romperem com o petismo. O PT sempre se uniu em torno da figura de Lula; os incomodados se mudaram. Hoje, é verdade, o PT tem um problema para renovar os quadros. Haddad se parece mais com um tucano do que com um petista e seu charme uspiano só encanta a Faria Lima. Não comove as combalidas bases do PT, nem chega aos pés de Lula numa eleição federal majoritária.

Bolsonaro não tem partido, e não tem partido porque não quer. Com certeza, ao longo de sua carreira parlamentar, teria sido difícil criar um partido. No entanto, ao se consolidar como um líder de massas popular (mais popular que Lula, diga-se), seria-lhe-ia a coisa mais fácil do mundo coletar assinaturas para criar um partido. Em 2019, tentou-se fazer o óbvio e criar o partido Aliança Pelo Brasil. Eu achei que Bolsonaro tinha alguma proposta muito boa dos seus aliados para dispensar a criação de um partido. Qual não foi, então, a minha decepção ao ler a matéria “Elogios do presidente do PL a Lula reacendem discussão sobre novo partido de direita”, desta Gazeta, onde aprendemos simplesmente que os bolsonaristas não tiveram competência para coletar 492 mil assinaturas, quando tanto se gabavam da audiência de lives: “Em 2019, os responsáveis por recolher as assinaturas foram lentos em coordenar a distribuição das fichas. Com o início da pandemia da Covid-19, a demora em obter as assinaturas se agravou [...]. O processo de coleta de assinaturas [...] foi marcado por conflitos e desgaste entre os principais responsáveis, além da própria desordem interna – o que inclui, por exemplo, falta de pessoal, quantidade insuficiente de fichas impressas e a ausência de uma conta bancária com recursos financeiros centralizados para a criação do partido.” O bolsonarismo, em suma, é um galinheiro. Todo o mundo quer fazer live e lacrar na internet, mas ninguém quer trabalhar duro.

Olavo de Carvalho costumava alertar para a necessidade de operar uma espécie de contrarrevolução cultural antimarxista e de “ocupar espaços” nas instituições. Como seria essa contrarrevolução? Por meio da arte? Ora, o único artista sério olavete que conheço é o cineasta Josias Teófilo, que não pode fazer um tuíte ou texto em defesa da liberalíssima Lei Rouanet sem que apareça uma turba virtual acusando-o de querer mamar nas tetas do Estado ou de não ter "espírito empreendedor" (leia-se: por não viver mendigando pix). A turba não está disposta a ouvir nenhuma explicação sobre os custos de uma orquestra; e, no que depender deles, a batalha cultural será ganha por meio ou de um milionário que banque todo o mundo como mecenas, ou de artistas de baixo orçamento como o finado MC Reaça. Olavo disse que “por trás de todo liberal há um ** aberto implorando por uma **** comunista”; no entanto, para a maioria daqueles que reconhecem a sua autoridade intelectual, precisa liberalizar mais ainda, porque até a Rouanet é Estado demais.

O que sobra, no âmbito da cultura? Não vemos projetos olavetes ou direitistas de longo prazo voltados a criar, digamos, violoncelistas ou pintores. Tudo o que vemos no âmbito artístico da chamada “alta cultura” é… venda de "curso" e mendicância de pix.

Fora do âmbito artístico está a única coisa de longo ou médio prazo que vingou: as editoras voltadas para as humanidades. Creio, porém, que ninguém se atreverá a atribuir a existência do petismo a editoras de esquerda. Ainda assim, mesmo que se aponte para a importância delas, a própria comparação entre as antigas editoras de esquerda e as novas editoras de direita mostrará que as de direita publicam, comparativamente, muita tradução e pouca obra de quadros locais. Quando publicam, é livrinho de influencer, como aquele selo "O Mínimo", e não de alguém com sólidas atividades intelectuais.

O próprio Olavo, que é “o” autor da nova direita brasileira, é um crítico cultural, sem propostas concretas para um modelo social a ser implementado. Olavo sabia apontar muito bem o que deveria ser destruído na sociedade, mas não o que deve ser construído no espaço público. Por isso, não é de admirar que uma grande parcela daqueles que reconhecem Olavo como autoridade intelectual se limitem a xingar muito nas redes sociais, às vezes (quando Xandão deixa) conseguindo viver de monetização de Youtube.

Qual seria o outro veículo para influenciar a cultura? Prestar concursos e entrar, de preferência, numa universidade? Não, porque o que vemos é uma demonização do servidor público e do Estado, quando não da formação universitária em si mesma (um monte de gente me xinga em rede social por eu ter um doutorado). Se não se pode ser servidor público (e há dúvidas de que essa gente tão afobada consiga sentar e estudar para passar num concurso), o jeito legítimo de ir para o Estado, ao que parece, é ser político. Assim, já que o trajeto mais comum do neodireitista brasileiro é virar influencer para vender curso, o caminho pensado por mais de uma corrente da nova direita foi juntar as coisas e oferecer curso para aspirantes a deputags (i. e., o deputado que se elege pelas redes sociais e fica só levantando hashtag durante o mandato).

A live de Bolsonaro em Angra dos Reis com os filhos teve por finalidade não anunciar um plano político, não discutir os rumos do PL, mas sim o curso dado por Carlos e Eduardo Bolsonaro que pretende ensinar a “ser eleito em 2024, mesmo sem recursos financeiros”; “atingir sucesso nas redes socais e impactar pessoas”; “trabalhar nos bastidores”; “ser uma liderança local e influenciar pessoas”; “aprender a desfazer as mentiras da esquerda”; “abrir os olhos das pessoas a sua volta”, tudo isso por quase 300 mangos divididos em até doze vezes sem juros. Os curiosos podem clicar em https://acaoconservadora.com.br/ e ver com os próprios olhos.

Isto foi no começo desta semana. No final da semana passada, em sua coluna aqui na Gazeta, o deputado Nikolas Ferreira tinha acabado de anunciar um curso grátis, a ser lançado neste dia 31, intitulado “Operação Limpeza”, no qual ensinará outros direitistas a se elegerem usando as redes sociais. Uma coisa que me chamou a atenção no texto foi a argumentação que visava a explicar que a sua iniciativa era abnegada: “Se tenho a capacidade de repassar aquilo que sei para os outros, mesmo que isso ajude a impulsionar alguém que futuramente venha a ocupar a minha cadeira, que assim seja. Não sou daqueles que querem ver os outros crescerem só até chegar ao limite em que não me ultrapassem em algum quesito. Quanto mais pessoas boas, comprometidas e alcançando altos patamares, melhor. Não deve haver espaço para ego inflado, ainda mais em tempos onde a perseguição avança a passos cada vez mais largos.” Concordo com o conteúdo da fala, mas ela é muito estranha para um político por causa da lógica concorrencial. Formar quadros não significa dar aos aliados a mesma capacidade individual de se eleger que você; formar quadros inclui ter uma estrutura partidária organizada que irá definir quem se candidata a quê e onde. Por que não recrutar jovens para o partido e dar a eles as tais aulas?

A coisa mais parecida com um partido que emergiu da nova direita é o MBL, que agora, no décimo ano de sua existência, finalmente se organiza para criar um partido. Eles também têm, desde 2021, uma plataforma que vende cursos e promete ensinar a virar político, a Academia MBL. Em seu primeiro ano, a inscrição custava mais de mil reais; assim, é de se perguntar se o propósito do grupo é formar quadros ou ganhar dinheiro. Por aí entendemos também por que é que o MBL tem tanta racha: os jovens entram acreditando que vão virar assessores bem-remunerados, não conseguem ganhos financeiros (com a Academia MBL, começam no prejuízo) e depois saem jogando os podres do grupo no ventilador (como o da suposta armação para o Pe. Júlio Lancellotti).

À época da criação do curso, o MBL já tinha traído o bolsonarismo e enfrentava uma crise de popularidade. Para se ter uma ideia, em 2018, Kim Kataguiri se elegeu deputado federal com 465 mil votos, e em 2022 foi reeleito com a votação de 295 mil. Perdeu mais de um terço do seu eleitorado.

Talvez seja o caso de supormos que algo amiúde dito dos coachs (a saber: depois de fracassarem na vida, vão dar aulas ensinando a dar certo na vida) se aplique também aos políticos. Porque petista se elege e não vende curso ensinando.

A Lava Jato pegou um ambicioso esquema do PT para capturar o poder e jamais entregá-lo. Bolsonaro jamais teve um plano assim. Para ele, ficar só pedindo pix e gastando com harmonização facial está bom.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 16 de setembro de 2023

8 de janeiro: proporcionalidade da pena não existe com Judiciário woke.


Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 16 de setembro de 2023

8 de janeiro: proporcionalidade da pena não existe com Judiciário woke.

Parece fascismo, só que de cabeça pra baixo: em vez de o Estado mandar nas empresas privadas e doutrinar os cidadãos, as empresas privadas mandam no Estado enquanto tentam doutrinar os “consumidores” e “colaboradores” por meio de propaganda e RH, respectivamente. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:

Proporcionalidade da pena é um direito humano, mas ninguém liga há muito tempo. Esta semana o assunto voltou à tona com a sentença de 17 anos de prisão para um baderneiro que participou da invasão aos prédios dos três poderes – aquele evento nebuloso e muito mal explicado, que nenhuma organização da segurança pública impediu. Por meio de memes e textos, a internet já fez mil comparativos que provam a desproporcionalidade da pena: é possível matar e esquartejar o cônjuge, que a pena é menor.

Os maus costumes vêm de longe. Desde a redemocratização, estudante universitário e “movimento social” podem tudo – do contrário, era ditadura. Ainda na época da ditadura, Brizola lançou tendência entre os demagogos de ser contra a polícia, porque a polícia, embora estadual, era da ditadura. Hoje a polícia só pode ser “da democracia”. Nos anos 70, auge da Repressão, Abdias do Nascimento falava em genocídio negro como algo simbólico e que não envolvia mortes. Veio a democracia, e está tudo uma beleza para os demagogos: temos sangue aos montes nas favelas, e a polícia deve ser excluída da área porque agora ela é racista – como tudo neste país de “racismo sistêmico”. Só quem pode matar negro é o traficante, pois traficante, por alguma razão, não é racista. E ele tem que aprontar muito para pegar uma pena grande como a do baderneiro, já que é uma vítima da sociedade. Coitado!

Outra coisa que veio com a democracia de 88 é o ambientalismo pseudocientífico e anti-humano. Foi na década de 90 que as crianças brasileiras começaram a aprender que o mundo ia acabar porque o homem é uma espécie de câncer na natureza. A ECO-92, no governo Collor, aconteceu nesse embalo.

A eleição seguinte à de Collor, foi a de Fernando Henrique Cardoso, o príncipe dos sociólogos, chamado por Millôr Fernandes de FhC: superlativo de PhD. Hoje, olhando em retrospecto, quando vemos alguém falando em nome da Ciência, devemos botar a mão no bolso. Outra coisa que faria disparar o alarme é que FHC foi, durante décadas, financiado por um think tank da Fundação Ford, o CEBRAP. A Fundação Ford é tipo a Open Society, só que bem mais velha e sem um rosto público. Enquanto a Open Society exibe a face de um banqueiro judeu e acusa os críticos de antissemitismo, a Fundação Ford não exibe face alguma desde seu fundador, o notório antissemita Henry Ford. A Fundação Ford está no Brasil desde 1969; a Open Society só veio a ser fundada em 1993. Ambas têm sede em Nova Iorque. Como a Fundação Ford é reconhecida pelo governo dos EUA como “filantrópica”, os gigantes corporativos podem doar o dinheiro dos impostos federais para ela, em vez dos cofres públicos federais. É o que Bill Gates faz: em vez de pagar imposto, doa para a Fundação Bill & Melinda Gates, também reconhecida como filantrópica pelo governo dos EUA.

Vejam o que FHC dizia em 1997 das ONGs: “são organizações neogovernamentais. Não são não-governamentais, mas neogovernamentais. [...] Bom, é verdade, elas têm que ser neogovernamentais não no sentido de cooptação, mas no sentido de que você tem novas formas de gestão da coisa pública. E isso implica muitas mudanças.”

Lá nos antigamentes, o pessoal do CEBRAP era considerado “direita neoliberal” pela esquerda. Hoje, é considerado “Nova Esquerda” pela direita. Como nomes são arbitrários, é possível que ambas – a esquerda de antigamente e a direita de hoje – estejam corretas em sua avaliação ao mesmo tempo. Porque o que as fundações promovem é conhecido como wokismo e, na sua frente ideológica, é fácil de reconhecer: neorracismo, misandria, sopa de letras e neomalthusiano (“ambientalismo”). À direita, chama-se tudo isso, erroneamente, de comumismo. Não é. Comunismo é um termo preciso, e essa ideologia das grandes corporações não defende o fim da propriedade privada – pelo contrário. À esquerda, chama-se isso de neoliberalismo. Esse é um termo ambíguo e defensável. De fato, é um estado de coisas que se segue à implementação do liberalismo clássico (merecendo portanto o prefixo “neo”), mas que contraria premissas importantes do liberalismo clássico (portanto é duvidoso se merece o nome de “liberalismo”). Parece fascismo, só que de cabeça pra baixo: em vez de o Estado mandar nas empresas privadas e doutrinar os cidadãos, as empresas privadas mandam no Estado enquanto tentam doutrinar os “consumidores” e “colaboradores” por meio de propaganda e RH, respectivamente.

Mas há uma outra diferença em relação ao fascismo: o internacionalismo. Se os Estados fascistas conquistavam por meio da guerra, as corporações se valem do sistema judiciário, de preferência supranacional. Numa bobeada, políticos transitórios assinam tratados internacionais que comprometem os seus países com metas internacionais da maior importância para gerações futuras. Quando eu tinha 2 anos, os líderes brasileiros da ECO-92, muito dos quais já mortos, decidiram as limitações que governariam a minha vida hoje, bem como a dos que nem tinham nascido. Isso não é democrático – mas assim é a natureza dos tratados internacionais.

A conquista se alastra pelos Estados nacionais por meio de uma juristocracia internacional, portanto. Mas ela se vale de juristocracias nacionais, também. E o paralelismo entre o 6/1 nos EUA e o 8/1 no Brasil chama a atenção até dos observadores mais desatentos: ambas foram invasões às sedes do poder por manifestantes meio abilolados que não confiavam na apuração das eleições, a mídia hegemônica alegou que ambas as invasões (perpetradas por abilolados) eram uma ameaça concreta à democracia; ambas as invasões contaram com uma inacreditável falta de resistência; agora, ambas as manifestações têm réus condenados com penas desproporcionais. Estamos seguindo passos iguais aos dos EUA; ainda assim, a nova direita (também ela abilolada) teima em falar de Venezuela ou de Cuba como exemplos tenebrosos que estamos seguindo. Ora, Venezuela e Cuba têm Executivo forte e foram há muito tempo canceladas por um milhão de trambolhos internacionais de direitos humanos.

Aliás, a única coisa do Brasil que ficou igual à Venezuela com a terceira eleição de Lula foi a oposição. A oposição venezuelana vive fazendo cartinha e mobilizando ONG para denunciar o próprio país para tribunais internacionais por causa de crimes contra os Direitos Humanos. Então temos, no Brasil, supostos antiglobalistas recorrendo a instâncias globalistas para salvá-los do globalismo (?). Como eu disse, são abilolados.

Não percebem que, com a transição do liberalismo para este novo estado de coisas – chamem de neoliberal, de fascista identitário, de woke, de neoesquerdista, de anarcocapitalista, de globalista – houve uma reformulação tácita da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Pelo texto de 1946, ninguém deve ser discriminado pela cor da pele. No entanto, o neorracismo patrocinado pela Fundação Ford fez com que tribunais raciais fossem instaurados nas universidades brasileiras para melhorar os Direitos Humanos. A famosa Declaração Universal de 46 não vale mais nada; a obscura Declaração de Durban (2001) é que é o novo norte da ONU para questões raciais. Quanto às questões de “gênero” – conceito inventado por John Money na década de 70 e portanto desconhecido em 46 --, vale a Convenção de Istambul, que o filósofo belga Drieu Godefridi comentou aqui.

A única surpresa no julgamento dos manifestantes foi a citação do Pequeno Príncipe de Maquiavel. O Ocidente não é mais livre ou democrático faz muito tempo, e as ações coordenadas já deixaram muito claro que uma revolução judiciária imposta de cima traz um código de conduta muito duro e específico.

Os Estado nacionais estão bichados; as corporações woke os comeram por dentro. Espero que os povos ocidentais não se deixem levar pela propaganda anti-Estado e cometam a estupidez de procurar a liberdade por meio das privatizações, vendendo tudo para os capangas de Bill Gates e Klaus Schwab.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Caso Pavinatto: por que as pessoas assistem a programas sobre política?

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 26 de agosto de 2023

Caso Pavinatto: por que as pessoas assistem a programas sobre política?

Está muito claro que uma grande parcela do público de comentários políticos audiovisuais não está realmente interessada em política; interessa-se, na verdade, nas próprias emoções, e usa a política como um veículo para se excitar. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:

A profissão do corretor de crédito consignado sofreu um baque este ano, com uma canetada que limitou os juros no setor. Ao que parece, o crédito consignado será um negócio de bancos grandes, que tratam direto com o cliente sem pagar um corretor. Como essa é uma área de muito trambique, os bancos repassavam aos corretores os riscos. Talvez a tecnologia de leitura facial tenha servido para diminuir os riscos, dispensando os corretores.

Convivendo com uma familiar que exerce essa atividade, sei que boa parte do tempo de trabalho consiste em atender aos telefonemas dos idosos e explicar que tal ou tal coisa é golpe. Mas o que tirava a minha familiar do sério eram dois youtubers com nomes iguais, um macho e uma fêmea. Comecemos pela fêmea: uma moça meiga, de maquiagem leve e roupas em tons pastéis, com voz mansa, fazia todo santo um dia um vídeo de pelo menos 10 minutos garantindo que os velhinhos ganhariam décimo quarto. Ato contínuo, os velhinhos telefonavam para a corretora a fim de discutir a margem de empréstimos do décimo quarto. Teimavam que ia ter sim, porque a Fulana de Tal falou. Em janeiro eles desistiram, então fui ao canal da Fulana ver o que ela estava falando: não houve desmentido algum; ela mostrava uma cartinha que ia levar à ONU para fazer o Brasil pagar o décimo quarto ao qual os aposentados têm direito.

Esse causo é da virada de 2021 para 2022. Antes de escrever este texto, dei um pulinho no canal. Ela está jurando que Lula vai pagar o décimo quarto salário para 2023. O canal, criado em 2019, tem 1,5 milhões de inscritos. Mais do que o humilde canal desta Gazeta.

Como todo o mundo já sabe graças às peripécias de Alexandre Moraes em prol da desmonetização, os youtubers profissionais ganham por visualização. Isso explica por que essa senhora fica enganando os velhinhos por anos. Mas não explica por que eles se deixam enganar.

Eu não consigo crer que burrice explique. Creio que o problema seja indisciplina. A pessoa não tem nada a perder com essa sensação agradável de que algo bom está prestes a acontecer, então se entrega a esse prazer grátis. Servirá até como desculpa para gastar mais do que devia: afinal, poderá alegar, em defesa própria, que estava contando com um dinheiro que tinha que sair, mas, por culpa dos políticos, não saiu. A questão foi remetida à ONU!

Isso lembra, é claro, os youtubers que ficavam prometendo que, em apenas 72 horas, tudo estaria resolvido. Conto então como me deparei com o espécime macho. Foi numa circunstância diferente: um familiar me explicou que assistia duas vezes por dia, todo santo dia, às análises muito inteligentes do Dr. Fulano da Silva Sauro. O Dr. Fulano, contou-me, era procurador em São Paulo, primeiro colocado no concurso, mas quis largar o emprego e agora se dedica a fazer análises no Youtube. Eu achei a história muito mal contada e procurei alguém que lida com burocracia paulista para saber se conhecia um Dr. Fulano da Silva Sauro. Era um desconhecido. Por outro lado, qual não foi a minha surpresa ao procurar o canal do Youtube: achei num segundo, porque tinha 1,4 milhões de inscritos! Também é maior que o humílimo canal deste jornal (dê uma forcinha aí).

Fiquei impressionada com um prodígio da análise política ser um anônimo para mim, que trabalho em jornal, mas logo descobri que o canal originalmente tratava de benefícios do INSS. Perguntei à familiar corretora de crédito se ela já tinha ouvido falar do Dr. Fulano da Silva Sauro e, de fato, o youtuber era um velho conhecido, na condição de praga. Como um cliente insistira muito, ela havia até assistido a um vídeo de 40 minutos no qual o doutor era capaz de falar muito sem dizer nada.

No fim das contas, o cidadão descobrira que poderia fazer a mesma coisa, só que mudando o assunto. As “análises” consistem em pegar qualquer evento do noticiário e dar a impressão de que algo muito ruim está para acontecer com Lula ou com os militares. Se o filho do presidente da Colômbia foi preso, é pretexto para afirmar que o “amigo de Lula” – o presidente da Colômbia – está para ser preso. Algo de grave pode acontecer, também, porque o avião do líder do Grupo Wagner era brasileiro, e o Brasil tem que prestar contas. Ou seja: ele investiu no público bolsonarista que ficou órfão dos youtubers que prometiam algo grande em 72 horas. E ressalto que a questão para agradar a esse público não é ser bolsonarista, é ficar cozinhando a esperança de que algo grande está prestes a acontecer. Kim Paim é muito bolsonarista, mas dá notícias ruins ao seu público. Ele tem menos inscritos ainda que esta pobre Gazeta.

Eu creio, então, que a maioria das pessoas assistem a programas sobre política por desejarem alguma emoção. E escrevo isto agora por causa do affair Pavinatto na Jovem Pan.

Vejamos o caso: há doze anos atrás, em Pindorama, São Paulo, um fazendeiro de 76 anos pagou por sexo com duas adolescentes, uma de 13 anos e outra de 14. Aos 14 anos, pode-se consentir com sexo (embora seja crime a exploração sexual de menores). Por causa da idade inferior à de consentimento, o fazendeiro foi acusado de estupro de uma menina de 13 anos. O processo rola há uma vida na justiça. O fazendeiro alega que não sabia a idade da menina, a acusação alega que sabia. Como fica no disse-me-disse e não há provas, é possível partir para o in dubio pro reo e considerar que o fazendeiro foi enganado. Na verdade, em tempos de arbítrio judicial, quanto mais in dubio pro reo, melhor. (Aparentemente, ninguém foi atrás do cafetão, que esse, sim, comete crime.)

Depois de dar mil voltas na Justiça, um desembargador alegou isso mesmo e inocentou o cara. Ao comentar o caso na Jovem Pan, Pavinatto, num dos seus pitis, chamou o desembargador de “vagabundo e tarado” por causa da decisão, recusou-se a pedir desculpas e, para a surpresa de ninguém, foi demitido. O público está xingando a Jovem Pan e Pavinatto criou um programa no Youtube. Qual é a diferença que xingar o desembargador faz na vida da adolescente abusada? Nenhuma. Qual é a diferença que xingar faz na vida dos membros do judiciário? Nas condições normais de temperatura e pressão, o desembargador deveria processar Pavinatto e pronto. No estado anômalo que vivemos – comparado pelos histéricos com a Alemanha Nazista --, a diferença que faz é que a Jovem Pan pode ter sua concessão negada por “discurso de ódio” ou coisa que o valha. O público de Pavinatto quer coisas que implicam facilmente o fechamento da Jovem Pan a troco de nada. São irresponsáveis, e nem sequer pesquisam a história dos envolvidos direito. Acham que Pavinatto é um perfeito conservador condenando um estupro evidente.

Está muito claro que uma grande parcela do público de comentários políticos audiovisuais não está realmente interessada em política; interessa-se, na verdade, nas próprias emoções, e usa a política como um veículo para se excitar. À medida que a Jovem Pan vai sendo forçada a substituir seus comentaristas, introduz figuras cada vez mais exaltadas, para uma audiência que (digamos assim) começou com o saudável estímulo do café (nos tempos de Fiuza), passou para a cocaína, agora está no crack e daqui a pouco vai para alguma droga mais nova.

Eu não aguentava ouvir Pavinatto. É possível que a Jovem Pan, para manter o público, contrate algum comentarista que vá além: se jogue no chão e esperneie enquanto xinga juízes aos berros. Para minorar os problemas com as autoridades, sugiro ainda que pare de chamar de comentário político e diga que é performance artística.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Por que o veganismo é bom para formar monopólio


Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI de 5 de janeiro de 2025 

Por que o veganismo é bom para formar monopólio

Não é de admirar que o veganismo seja tão promovido. Todo ele é antinatural. Sendo antinatural, é preciso de soluções artificiais. Soluções artificiais são caras e demandam concentração de capital. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:

Como vimos, manteiga, qualquer analfabeto com umas cabeças de gado pode fazer. Já margarina precisa de uma fábrica. Enquanto a primeira é descentralizada, a segunda concentra capital. Com muito capital, compram-se acadêmicos, jornalistas e burocratas. Assim, a “Ciência” — isto é, os jornalistas e os burocratas — passou anos mandando a população trocar manteiga por margarina, quando isso significava trocar a gordura saturada pela gordura trans. Uma vez que venha a público a descoberta de que a gordura trans é péssima para a saúde, não haverá uma campanha orquestrada em prol da manteiga.

A primeira vez em que comecei a pensar nisso foi quando um libertário me disse que é vegetariano por questões éticas e que comeria carne artificial. Observei que, dado o poder da turma de Peter Singer, a produção de carne artificial enfim abriria as portas para a criminalização do abate de animais. Assim, a velhinha pobre que cria galinha seria convertida numa assassina e escravizadora de galinhas. Tirando da velhinha o seu sustento, das duas, uma: ou bem se considerava aceitável que a velhinha passasse fome (o que não é de admirar, já que agora ela era uma assassina em massa, merecendo talvez pena de morte ou simplesmente eutanásia ao estilo canadense), ou bem se considera que é dever do Estado prover os cidadãos com sua quota de bifes artificiais. Neste último cenário, teríamos alguma empresa gigante vendendo tais bifes ao Estado. Seria como venda de vacinas, só que com uma demanda infinitamente mais alta. E como custaram a descobrir os males da gordura trans, só Deus sabe que tipo de outros males um bife artificial não traria, e quanto tempo não custaria para descobri-los, e quanto empenho não haveria na ocultação dessas descobertas.

É claro que esse grupo de interesse faria o possível e o impossível para inculcar a ideia de que “especismo” (termo inventado por Singer) é um crime tão abominável quanto o racismo, pois nenhuma vida humana vale mais que a de um porco.

Por isso, não é de admirar que o veganismo seja tão promovido. Todo ele é antinatural. Sendo antinatural, é preciso de soluções artificiais. Soluções artificiais são caras e demandam concentração de capital. Concentração de capital leva à concentração de poder, concentração de poder leva à fusão entre poder político e poder econômico.

Moral da história: aceite as ideias de Singer e, tão logo se crie uma produção de carne em larga escala, haverá uma pressão corporativo-governamental para controlar o seu prato e o seu quintal.

Barreiras éticas

É claro que tudo isso implica a instauração de uma nova moralidade. Por isso mesmo, Peter Singer é o catedrático de Ética em Princeton; é o papa da disciplina bioética, comum em cursos de ciências biológicas, medicina inclusa. A espinha dorsal da ética de Singer é a negação de que o homem deva ser mais respeitado do que os animais irracionais. O que importa na sua ética é ser “senciente”, não ser humano. Isto é: ter a capacidade de sentir prazer ou dor, coisa que coloca o homem em pé de igualdade com a galinha. É uma evidente negação do legado judaico herdado pelo cristianismo, segundo o qual Deus criou o mundo para Adão, que é feito à sua imagem e semelhança.

De um ponto de vista étnico, Peter Singer é judeu. Quanto à consciência, porém, é ateu.

Hoje são promovidas duas maneiras de encarar a religião. Uma é o ateísmo cientificista, segundo o qual a religião é uma coisa primitiva e pessoas ilustradas devem ser ateias. As origens desse pensamento têm profunda relação com a França e seu iluminismo anticlerical, mas é comum em países de formação protestante. A outra maneira é a submissão da religião ao progressismo. Creio que o maior exemplo disso seja a Igreja Anglicana, que reconhece a ideologia de gênero e admite até padre queer não-binário.

Isto só espanta quem romantiza as liberdades da Inglaterra e não presta atenção às origens da Igreja Anglicana. Ela surgiu quando Henrique VIII recusou a autoridade papal e chamou para si a chefia de assuntos religiosos, porque queria anular o casamento de mais de 20 anos com Catarina de Aragão e se casar outra vez para fazer um herdeiro homem. (Acabou tendo, ao todo, seis casamentos, e o trono acabou sendo de uma mulher, a filha de Ana Bolena, dama de companhia de Catarina de Aragão.) Assim, a Inglaterra se transformou no primeiro reino moderno a fundir Igreja e Estado. Enquanto no mundo católico os opositores dos chefes seculares podiam usar os mosteiros como refúgio, na Inglaterra não haveria mais poder religioso que contivesse o secular. Quase meio milênio após o rompante de Henrique VIII, a Igreja Anglicana segue a ideologia estatal oficial do país.

Há então duas vias que levam ao mesmo destino: a submissão dos ateus à deusa Ciência e a submissão dos fiéis a uma igreja que não é soberana.

Nova centralização da moral

No frigir dos ovos, o problema não é a ausência ou presença da religião, mas sim a presença ou ausência de pessoas e instituições com soberania moral. Com isto quero dizer pessoas e instituições que chamem para si a tarefa de pensar no certo e no errado, em vez de seguirem cegamente a autoridade. No caso das igrejas lacradoras, o fiel segue o padre ou pastor cegamente. No caso da deusa “Ciência”, os ateus seguem o que uma turminha de bem-pensantes diz que é ciência. Ambas as instituições que os guiam – igreja e universidade – estão compradas pelas corporações donas do Estado.

Olhem para a Inglaterra: quem é melhor para restaurar a soberania moral, Theodore Dalrymple ou o padre queer? Eu voto no primeiro, que é ateu, mas infunde ceticismo quanto às maravilhas da Ciência. Por outro lado, o que é melhor para restaurar a soberania moral: um único indivíduo soberano ou uma Igreja soberana? Eu fico com a segunda. Instituições têm mais capacidade de se opor aos monopólios do que indivíduos isolados. O mal do ateísmo é que ou ele é solitário (como Dalrymple) ou é ruim (como os devotos da igrejinha da siença). Um ateu solitário dá um bom homem de letras capaz de contribuir com o debate público, mas não faz dele a parte viva de uma comunidade moral.

Importância do aspecto econômico

Embora a moral seja muito importante, volto a insistir que não dá para perder de vista o aspecto econômico. A questão mais visível da nova moral é o aborto. (A mais visível, mas não a pior. Peter Singer defende infanticídio também, sob a seguinte premissa: Antes de o bebê já nascido ganhar um certo grau consciência, ele não pode ser considerado pessoa, então pode ser morto. Mas, para ele, macaco adulto é pessoa.) Em grande medida, opor-se ao progressismo vem sendo opor-se ao aborto. Essa oposição vem de duas frentes: na Europa, tem-se a Igreja católica; nas Américas, o barulho vem mais dos protestantes evangélicos. Outra vez há a questão da soberania: na Europa protestante, o clero expulso tinha uma terra para chamar de sua, que eram os estados papais. A autoridade secular protestante poderia tentar dizimar todo o clero, mas ele tinha sua liberdade resguardada em Roma. Nas Américas, bem ao contrário da Europa, a maior nação protestante foi fundada com uma neutralidade do Estado perante as igrejas. Assim, depois de a Planned Parenthood pintar e bordar por lá, parte dos cristãos daquela nação usaram a bandeira religiosa para se opor à indústria secular do aborto.

Mas consideremos o seguinte: a Planned Parenthood é uma empresa privada que monopoliza o aborto e que vende seus serviços ao Estado. Os seus serviços são o “aborto gratuito, seguro, de qualidade”. Para a Planned Parenthood, quanto mais mulheres quiserem abortar, melhor. Assim, ela pode investir parte da sua fortuna na mudança cultural e ética, de modo que as mulheres passem a reivindicar mais e mais os seus serviços, a serem custeados pelo Estado. As mulheres devem transar loucamente com homens aleatórios e usar o aborto como método contraceptivo.

Ora, a indução do aborto existe há milênios — tanto que é mencionada, e proibida, pelo juramento de Hipócrates. A Planned Parenthood não inventou o aborto. No entanto, a crermos nos progressistas, parece que as mulheres que querem abortar só têm duas opções: ir ao SUS receber uma pílula que dá "aborto seguro" ou enfiar um cabide e morrer. Se houvesse tanto empenho assim em garantir o aborto às mulheres, e não em vender remédio, os progressistas falariam muito mais em plantas baratas e de fácil acesso do que em distribuição de pílulas SUS. Fazer chás tem os seus perigos e o aborto de parceria público-privada também (vide a ativista argentina que engravidou logo após a legalização, foi fazer um aborto “seguro” e morreu). A diferença é que planta não tem fabricante, portanto não tem lobby, nem financiador de pesquisas.

O aborto existe há milênios e nunca foi uma questão de grande atenção pública. Só se tornou graças à propaganda em prol de sua naturalização — propaganda essa gerada pelo interesse de oferecer o serviço.

A artificialização das coisas naturais começou com o aborto, mas prossegue para a concepção (com seleção de genes e embriões), a gestação (com barriga de aluguel) e a morte (eutanásia). Nesse ínterim, vai tomando conta de outros aspectos das nossas vidas, que vai sendo cada vez mais medicalizada e, nisso, entrando na planilha dos fornecedores, que ganham mais dinheiro ainda para comprar o Estado.

Texto e imagem reproduzidos do blog:otambosi.blogspot.com

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Nem toda pobreza é falta de dinheiro

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 22 de dezembro de 2021 


Nem toda pobreza é falta de dinheiro 

 
Dalrymple costuma apontar que o significado de “pobreza” é alterado de modo a nunca se poder dizer que ela acabou. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo: 

Tecnocrata tem uma dificuldade terrível em entender coisas que não cabem em números. Ao meu ver, isso acaba implicando uma desestabilização das sociedades menos baseadas no dinheiro. Estas são automaticamente consideradas pobres, recebem uma injeção artificial de dinheiro e, muitas vezes, este vai encontrar seu destino numa nova área da economia que cresce vertiginosamente desde quando surgiu o Bolsa Família: o tráfico. Com a criação do Bolsa Família teve a substituição do jegue pela moto, que aumenta a capacidade de produção e é uma boa coisa, mas me parece que houve também a explosão do tráfico. Não pretendo dizer que não é pra ter auxílio estatal a gente carente; pretendo chamar a atenção a efeitos ruins que o tecnocrata não costuma enxergar. 

O que é pobreza? 

Dalrymple costuma apontar que o significado de “pobreza” é alterado de modo a nunca se poder dizer que ela acabou. Ele é um médico inglês aposentado que trabalhava no SUS de lá (o NHS) e em prisões, por isso conhece bem o segmento social que os ingleses chamam de “pobre”, mas que ele prefere chamar de underclass, subclasse. É gente que recebe uma espécie de Bolsa Família e se diz “paga”, mesmo que não trabalhe. Se o Bolsa Família é de inspiração liberal, porém, o Reino Unido tem uma forte tradição socialista no campo da assistência social. Conforme Dalrymple conta, o “pobre” inglês “é pago” pelo Estado e recebe ainda uma habitação estatal já mobiliada e equipada com eletrodomésticos para morar. Os burocratas inspecionam as famílias e dizem quem vai morar onde. Decidem tudo burocraticamente, na acepção pejorativa da palavra. Num dos seus livros (que são editados no Brasil pela É Realizações), ele conta o causo de uma mãe solteira que costumava se envolver com homens violentos. Ela pedia para mudar de apartamento para escapar de um deles, mas a assistência social dizia que não, porque ela já estava alocada no apartamento para o tamanho da família dela. O problema foi resolvido quando, para resolver a questão da alienação parental (criada pela própria burocracia), os burocratas decidiram que todos os pais teriam direito a ficar com os filhos por um período, mesmo que fossem pedófilos ou assassinos violentos. O pai da filha dela ficou com a criança e matou. Aí a burocracia finalmente a mudou de apartamento, já que agora era uma mulher sozinha. 

Assim, os “pobres” da Inglaterra levam uma vida que serviria para encher mil programas do Datena, embora vivam em meio à fartura material. Os “pobres” da Inglaterra são “pobres” somente por terem menos dinheiro que alguém. Caso transformemos a pobreza em algo relativo, em vez de absoluto, a pobreza só acabará quando todo mundo tiver a mesma riqueza. Se todo mundo menos Bill Gates fosse tão rico quanto Gisele Bündchen, Gisele Bündchen seria pobre até a aniquilação de Bill Gates. 


O mais razoável, para Dalrymple, seria considerar que não existe mais a pobreza entre os cidadãos do Reino Unido. E um tema recorrente em seus textos é como as modas intelectuais da elite têm um efeito devastador sobre o povo. No fim das contas, eles não abasteceriam um eventual Datena por causa de sua pobreza, mas sim por causa de sua degradação moral, possível também em meio à riqueza. 

Onde eu quero chegar com isso? Ora, na mentalidade tecnocrática segundo a qual todo problema tem origem na falta de dinheiro. Por que as pessoas roubam comida? Porque não têm dinheiro? Ok. Por que as pessoas contrabandeiam fuzis? Porque não têm dinheiro?! Por que as pessoas compram cocaína pura traficada da Colômbia? É porque não têm dinheiro?! E se o rico tem motivações de ordem espiritual para comprar cocaína pura, por que temos que reduzir à economia os motivos do drogado pobre? 

Eu tenho para mim que o cheirador rico e o cracudo pobre partilham dos mesmos valores, e que os valores explicam o estilo de vida de ambos. Já os tecnocratas e um monte de católicos acham que toda a degradação dos pobres advém da pobreza, isto é, da escassez de recursos materiais necessários à sobrevivência. 

Um cheirador é um cracudo com dinheiro; um cracudo é um cheirador sem dinheiro. 

Riqueza sem dinheiro 

Mas uma das coisas que mais me espantam na mentalidade do tecnocrata é a ignorância histórica. Tudo se passa como se Deus tivesse criado o Éden com Adão, Eva, um monte de bicho e cédulas de dólar. Durante a maior parte da história da humanidade, a riqueza vinha do solo, do trabalho rural. Gente sem um tostão furado, mas senhora de terras férteis e de servos, era rica. Impostos medievais como a terça e meação podiam ser pagos “em espécie”, expressão que significava, quando ainda não existiam cartão de crédito nem transferência bancária, pagos com uma fração da própria produção. Pagamento “em espécie” do plantador de beterrabas era pagamento com beterrabas. 


A própria moeda surgiu como resultado de um trabalho de extração de riquezas da terra. E o material da moeda poderia ser fundido e guardado em casa como poupança, seja sob a forma de joias, seja como utensílios de cozinha (“a prata da casa”). Tão tarde quanto no século XVIII, David Hume condenava a prática de importar porcelana do Oriente porque, uma vez partida, a riqueza se perdia – bem ao contrário da prata da casa. As joias de crioula usadas pelas sinhás pretas da Bahia no século XIX eram uma poupança ostensível. As pessoas não iam a lojas com dinheiro na mão escolher uma joia; elas amealhavam riqueza em metais preciosos e buscavam um ourives honesto para fundi-los em artefatos. Quando as vacas magras viessem, bastava derreter. 


Desde a Idade Média, portanto, a riqueza era sobretudo rural e com pouco dinheiro. Com o excedente da produção do campo e o aumento do comércio, começaram a surgir as cidades (ou burgos), com seus burgueses. A nobreza tinha riqueza em terras; a burguesia tinha riqueza em dinheiro. 


Ainda no século XIX, na Itália já industrial, a importância da riqueza em terras era reconhecida. Por isso a burguesia começou a se casar com nobres falidos e assim a se nobilitar. Uma representação famosa desse processo se encontra em Il Gattopardo, romance do príncipe de Lampedusa transformado em filme por Visconti. A famosa frase “é preciso mudar tudo para que nada mude” sintetiza a aliança da nobreza decadente com a burguesia ascendente para se manter por cima da carne seca. 


Uma economia diferente 

Se um grupo de liberais como Marcos Lisboa chegasse à Idade Média, seria feito um censo para medir em dinheiro as receitas de todo mundo. Ficariam de coração cortado ao descobrir que marqueses, condes, viscondes e duques têm pouco dinheiro; que os camponeses vivem com menos de um dólar por dia. Enviariam um relatório a entidades internacionais revelando a situação de extrema pobreza dos nobres medievais. Por outro lado, os judeus, párias privados do uso da terra, condenados à vida urbana, apareceriam como grandes ricaços e concentradores de renda. Um Bolsa Família levaria dinheiro aos campônios e nobres, às expensas dos burgueses. Mas que diabos o povo do campo faria com o dinheiro? 

Ao meu ver, é possível que seja mais ou menos isso o que acontece com as desigualdades regionais do Brasil. A economia da maioria da população nordestina (que não mora nas capitais) se assemelha à economia medieval. Os liberais puxam os cabelos lastimando o pouco dinheiro que o nordestino rural tem, mas não considera o baixíssimo custo de vida que um pequeno proprietário rural tem. Aí pega o dinheiro dos centros urbanos e despeja no sertão. Pra quê? 


Bom, as coisas que o campo arcaico não consegue comprar são os bens tecnológicos importantes para a produtividade – como moto, celular, internet, trator – e droga. Veja-se por exemplo esta notícia de um negócio ilegal flagrado pela Polícia Rodoviária Federal: no interior da Bahia, um inadvertido comprou com um porco gordo, pela internet, uma moto roubada. Isso é economia brasileira. No dia em que um tecnocrata entender que esse tipo de operação com pagamento em espécie é uma coisa normal na segunda maior região brasileira, talvez possamos pensar em programas melhores de transferência de dinheiro. 

A cocaína é produzida fora do Brasil e só entra à base de dinheiro. Se hoje há crack em qualquer rincão rural do país, isso só foi possível com a chegada do dinheiro a esses rincões. Isso aconteceu com os programas liberais de transferência de renda, que mexeram nessa economia arcaica. Repito que a chegada do dinheiro não implica que todo mundo vá comprar drogas -- há quem compre bens de tecnologia, que também só chegam com dinheiro. Mas precisamos abandonar essa mentalidade segundo a qual dinheiro é a melhor ou a única métrica de sucesso humano. 


Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com