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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

“Não teremos um mandato, e sim uma mandata!” (Linda Barasil)


Publicado originalmente no site do JORNAL DA CIDADE, em 23/11/2020

Linda Brasil: “Não teremos um mandato, e sim uma mandata!”

Atuando em movimentos sociais, principalmente nas causas LGBTQIA+, a mestre em educação assegura que o mandato – ou melhor, a “mandata!” -, será uma construção coletiva e participativa com questões que envolvem os direitos humanos e educação inclusiva

Linda Brasil foi eleita vereadora de Aracaju para a próxima legislatura, de 2021 a 2024, com 5.773 votos – a mais votada da eleição municipal deste ano – e será a primeira trans assumir uma cadeira na casa. Ela, junto com mais três eleitas, irá compor a bancada feminina da câmara, onde á promete pregar a sororidade no legislativo. Atuando em movimentos sociais, principalmente nas causas LGBTQIA+, a mestre em educação assegura que o mandato – ou melhor, a “mandata!” – Será construído de forma coletiva e participativa com questões que envolvem os direitos humanos e educação inclusiva. Confira a entrevista completa que foi feita para o Jornal da Cidade:

JORNAL DA CIDADE - Conte um pouco da sua história de militância e o seu currículo.

LB – Linda Brasil Azevedo Santos, 47 anos de idade, natural de Santa Rosa de Lima-SE. Sou Mestra em Educação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), graduada em Letras Português–Francês também pela UFS, cabeleireira e maquiadora profissional e técnica em Contabilidade. Minha militância na causa LGBTQIA+ e, consequentemente, político- -partidária, começou quando do meu reingresso à UFS, em 2013, para poder continuar meu curso de Letras Português-Francês. No meu primeiro dia de aula, tive problema com um professor por causa do meu nome social e iniciei um processo administrativo, que acabou gerando uma portaria que regulamentou o uso do nome social dentro da instituição. A partir deste momento passei a ter visibilidade e, por isso, entrei no movimento estudantil organizado, comecei a participar de coletivos, inclusive, junto com algumas amigas e alguns amigos. Fundei o coletivo Queer (Dês) Monstadxs para discutir questões de gênero e sexualidade dentro da UFS e em todo o Estado. Fui a primeira mulher trans a entrar em um coletivo de mulheres organizadas na capital sergipana. Em 2014, fundei com amigas a Associação e Movimento Sergipano de Transexuais e Travestis (Amosertrans), entidade que ajudou muito para que a sociedade aracajuana pudesse compreender mais sobre as questões de identidade de gênero e orientação sexual, e as pautas que envolvem discussões de gênero e diversidade sexual. Em 2015, acabei conhecendo mais a fundo o Psol, as ideias, e por ter me identificado muito com a filosofia do partido e de vários parlamentares a nível nacional, acabei me filiando. Em 2017, fundei a CasAmor, que é uma casa de acolhimento para a população LGBTQIA+.

JC – Diante dessa experiência, como será pautada a sua atuação na Câmara? O que os aracajuanos poderão esperar da Linda Brasil como vereadora?

LB – Vou aproveitar toda a visibilidade que possuo e levar para as pessoas informação, pois percebo que vários comportamentos hostis em relação a nossa comunidade são por falta de um debate mais aprofundado sobre o tema. Esse movimento de informação foi feito também durante a campanha, porque ela não foi realizada apenas com o intuito de obter votos, mas de fazer com que as pessoas voltassem a acreditar na política e saber que os políticos não são iguais, como está convencionado por muita gente, que nem todo mundo exerce a prática criminosa da compra de voto da população. Desde o ano de 2016 que as minhas campanhas vêm sendo realizadas dentro da perspectiva da leveza, de levar amor, alegria, de oferecer conhecimento para as pessoas fazendo um contraponto a tudo que estamos vivendo neste momento, com tanto ódio, com discursos montados em cima de mentiras, de fake news. Nossa proposta, desde o início, foi diferenciada.

JC – A senhora já vem fazendo história antes mesmo de ser empossada... Então, o que pretende deixar registrado nos anais do Poder Legislativo?

LB – Projetos que sejam transformados em políticas públicas que possam melhorar, verdadeira e efetivamente, a vida dos aracajuanos e das aracajuanas. Quero deixar registrada uma história construída com muita verdade, transparência, e que possa servir como estímulo a outras pessoas para que ocupem os espaços na política, um trabalho que faça com que as pessoas voltem a valorizar o voto e a acreditar na política partidária.

JC – Já há planejamento de projetos para serem propostos na Câmara? Quais são?

LB – A gente em um leque de projetos e propostas que foi construído de forma coletiva, participativa. Criamos um formulário chamado “O que você pensa para Aracaju?” para que as pessoas pudessem contribuir com os nossos projetos. Estou comprometida com a agenda de Marielle Franco, que são as práticas políticas que ela sempre apresentou. Projetos que ela desenvolveu ligados à questão dos direitos humanos, da população e juventude negra da periferia, das mulheres, da população LGBTQIA+, mas também todas as pautas focadas numa educação inclusiva e ligadas à população mais carente de políticas públicas, como moradia, transporte e a arte-cultura.

JC – Então, qual será a sua prioridade no mandato?

LB – Eu não terei uma prioridade, mas, sim, prioridades. Afinal de contas, sou uma pessoa que adentrei pela minha história de vida, na luta em defesa de algumas frentes, como a dos direitos humanos e educação. A maioria das minhas lutas está ligada a grupos minoritários, socialmente falando, como o LGBTQIA+, em defesa de todas as mulheres. Não teremos um mandato, e sim uma mandata! É este o nome que estamos dando porque o meu grupo de trabalho será composto, preferencialmente, por mulheres, por LGBTs e por pessoas que construíram junto comigo toda esta caminhada de sucesso com um olhar das mulheres, das LGBTQIA+’s. Porém, deixo claro que serão pessoas para trabalhar realmente, para contribuir, para que esta seja uma mandata histórica não apenas pelo número de votos que recebemos, mas porque fará um trabalho inovador, revolucionário.

JC – Para a próxima legislatura, serão apenas quatro mulheres atuando na Casa. Como a senhora analisa isso? Apesar dos partidos distintos, é possível ter a sororidade?

LB – Temos um longo trabalho pela frente para que as mulheres ocupem mais espaços de poder e liderança. Este número ainda é pequeno tendo em vista nosso percentual na população e a nossa participação na vida cotidiana. Espero fazer uma mandata que inspire mais mulheres, LGBTQIA+’s, a população negra e jovens a estarem ocupando estes espaços. Atuo sempre tendo em vista a perspectiva da sororidade. Tenho consciência da responsabilidade que será lutarmos por políticas públicas que combatam a violência contra as mulheres e que garanta às mulheres periféricas direitos básicos, como colocar os filhos em creches.

Texto e imagem reproduzidos do site: jornaldacidade.net

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Linda Brasil e o sopro de esperança de 2020

Linda Brasil: representatividade, diálogo e revolução

Publicado originalmente no site JLPOLÍTICA, em 18 de novembro de 2020

Linda Brasil e o sopro de esperança de 2020

Por Tanuza Oliveira (Coluna Política & Mulher)

A eleição, com o maior número de votos, da vereadora Linda Brasil, PSOL, por si só, já seria surpreendente. Considerando que ela é uma mulher trans, surpreende mais ainda. Isso porque vai de encontro ao que a política vem elegendo desde sempre como prioridade: homens brancos, de direita e/ou de famílias tradicionais – o que talvez resuma os dois primeiros itens.

Nem a própria Linda esperava conseguir a façanha de ser a mais votada entre os vereadores. “Eu sentia que poderia ser eleita, até pelo histórico de 2016 e 2018. Estava confiante, mas ser a mais votada eu não cogitei, nem de longe”, diz Linda. Para ela, isso tornou a emoção de ser eleita ainda maior. “A vitória é mais simbólica”, admite.

E essa simbologia, claro, passa pelo fato de ser ela uma mulher trans. “É um sopro de esperança na política, principalmente a sergipana, sempre dominada pelas mesmas oligarquias, que não dão voz às pessoas de movimentos que represento, como o feminismo, o LGBTQI+ etc”, avalia Linda.

Segundo ela, todos esses “poréns” podem ser um estímulo para outras pessoas também ingressarem na política. “Dá uma inspiração, motiva outras pessoas a entrarem na política e também aos outros candidatos, que mesmo sendo de direita, podem ter ideias mais progressistas e não necessariamente reproduzam essa estrutura política que domina”, argumenta.

Linda reforça que a eleição dela não é pessoal, é coletiva. Foi construída de forma participativa desde o início, com discussões com a sociedade e com os movimentos. E isso se refletirá em seu mandato. “Criaremos políticas públicas que de fato favoreçam; que sejam comprometidas com as práticas políticas de Marielle, com o povo da periferia, com os direitos humanos, a população negra”, garante.

Para Linda, a eleição dela é mais um exemplo de que a esquerda vem buscando – e conseguindo – uma retomada de espaços de poder. “É o início de uma nova forma de fazer política, pela qual não se chegue lá fazendo conchavos. Eu mesma recebi convites de outros partidos, depois de 2026 e de 2018, prometendo facilidades. Mas eu não quis, porque eu queria ser eleita com meus ideais. Eu tenho a ideia de fazer uma revolução, provocar transformação”, afirma. Já provocou, Linda. Já provocou.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Linda Brasil sonha em ser a primeira mulher trans na CMA


Publicado originalmente no site FAN F1, em 9 de novembro de 2019

Linda Brasil sonha em ser a primeira mulher trans na Câmara Municipal de Aracaju

Por Diego Rios

Formada em Letras e atualmente cursando Mestrado em Educação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Linda Brasil sentiu na pele desde cedo o processo de exclusão social por ser mulher trans. Apesar disso, ela não se deu por vencida e decidiu dar a volta por cima, lutando não apenas uma luta em defesa própria, mas por diversas pessoas oprimidas e excluídas socialmente. Candidata a vereadora por Aracaju, em 2016, Linda obteve 2.308 votos, mas, devido à legenda, não pôde assumir o mandato. Já em 2018, a educadora concorreu ao cargo de deputada estadual e conseguiu 10.107 votos, destes, 6.555 na capital. Conheça um pouco de quem é e o que pensa Linda Brasil.

FAN F1 – Como se deu a sua chegada na política? Quais os cargos que já se candidatou e quais os resultados?

LINDA BRASIL – Minha chegada na política se deu de forma mais organizada, quando ingressei na UFS, em 2013. No primeiro dia de aula tive problema por causa do uso do meu nome na instituição. Acabei dando entrada num processo administrativo que criou a portaria que regulamenta o uso do nome social das pessoas trans. A partir daí conheci mais profundamente o movimento estudantil, LGBTQI+, feminista e sindical, motivando-me a participar de protestos em defesa dos nossos direitos. Nesses movimentos conheci várias pessoas que eram filiadas a partidos de esquerda, principalmente ao PSOL, partido que já era uma referência para mim por causa das bandeiras que levanta e por alguns parlamentares e pessoas exemplares na defesa dos direitos humanos, como o ex-deputado federal Jean Wyllys. Assim, em 2015 acabei me filiando ao PSOL e no ano seguinte, pela primeira vez, fui candidata a vereadora, obtendo apoio de várias pessoas, mulheres, negras/os, estudantes e LGBTQI+. Nesta primeira candidatura obtive um número expressivo de votos, totalizando 2.308. Em 2018, minha candidatura foi à deputada estadual. Para minha surpresa tive 10.107 votos, um número muito expressivo, sendo votada em todos os municípios sergipanos e com um total de 6.555 votos somente no município de Aracaju.

FAN F1 – O que te fez escolher o PSOL? Existe a possibilidade de mudança de partido?

LB – Atualmente, o PSOL é o único partido pelo qual me sinto representada. Não só pela sigla, mas sim pelas atuações de suas/seus militantes e parlamentares em outros estados e no Congresso Nacional, bem como pelas bandeiras que ele levanta, enfrenta e denuncia, principalmente na atual conjuntura com esse atual governo que ataca os direitos da classe trabalhadora e dos movimentos sociais. Foram as/os militantes e suas/seus parlamentares que me fizeram pensar nessa possibilidade de entrar na política. A grande maioria, comprometida com as/os que mais necessitam de direitos e oportunidades. Os movimentos sociais têm uma importância muito grande nas diretrizes do partido. As decisões, projetos e iniciativas não vêm de cima, de um ‘dono’ de partido que estabelece o que deve ser feito ou votado. Antes de ingressar na UFS, eu tinha uma grande aversão à política partidária, pois o que eu conhecia eram políticos envolvidos com a velha política eleitoreira, aliados aos empresários e a seus próprios negócios. Assim, não têm autonomia para votar e apresentar projetos em que realmente acreditam. Por isso e vários outros motivos, como o não recebimento de doação para campanha eleitoral de grandes empresários que hoje o PSOL, para mim, é a única opção.

FAN F1 – Enfrentar uma eleição como a de deputado e obter mais de 10 mil votos, sendo lembrada em todos os municípios sergipanos, a credibiliza para chegar com tranquilidade ao pleito de 2020?

LB – Com esse resultado me senti vitoriosa, independentemente de ter sido eleita ou não. Foi emocionante e motivador, senti o apoio de várias pessoas, não somente da população LGBTQI+, da qual eu faço parte, mas também das mulheres, da juventude, da população negra e tantos outras pessoas que se sentem representadas na minha luta. A minha bandeira é a luta de todas as pessoas que não se sentem representadas com essa atual composição parlamentar, sem uma representação efetiva. Hoje, só como exemplo, das 24 cadeiras da Câmara Municipal de Aracaju, somente uma é ocupada por mulher.

FAN F1 – Quanto custou a sua campanha e de onde vieram os recursos?

LB – Em 2016, para vereadora, o total de despesas pagas foi de R$ 3.611,60, recursos vindos de doações de pessoas que acreditam em minha luta. O restante da receita apresentada foi de doações de serviço por parte de pessoas que construíram a campanha, pois o partido não teve direito a fundo partidário. Em 2018, para deputada estadual, o total das despesas pagas foi de R$ 10.915,65. Dessa vez, a maior parte do valor foi proveniente do fundo partidário: R$ 5.761,05. O restante foi de doações através de depósito na conta eleitoral e por financiamento coletivo. Outros valores apresentados na prestação de contas foram também doações de serviços feitas por apoiadores da candidatura.

FAN F1 – A defesa da classe LGTBQI+ não pode te vincular como uma política de uma única bandeira?

LB – Se as pessoas tiverem coração para acolher as questões desta minoria, elas já estão consequentemente apoiando políticas públicas de inclusão, contribuindo para um cotidiano melhor. Se observarmos bem, não se trata da bandeira LGBTQI+, mas sim do direito humano à vida, à dignidade, à identidade.  Trata-se do respeito e da fraternidade que devemos ter para com todos. É uma forma de educar, sentir e ver a vida de uma perspectiva humana. Mas, como já disse anteriormente, minha luta não é limitada somente às pautas LGBTQI+. Faço um trabalho de luta e resistência muito forte em todos os movimentos que envolvem direitos humanos. Como educadora e pesquisadora faço um trabalho de conscientização e respeito em escolas, faculdades, empresas e várias instituições, através de palestras, roda de conversas e oficinas. Além disso, e dos projetos que desenvolvo no movimento LGBTQI+ e transfeminista, estou muito ligada às discussões em relação ao direito à cidade, como a luta por moradia digna, transporte de qualidade, agroecologia, cultura, arte, lazer, esporte e todas as atividades que contribuem para que possamos viver numa cidade com mais acesso aos espaços públicos, oportunidades e menos violência, principalmente da população que vive em situação de vulnerabilidade social.

FAN F1 – Existe algum arrependimento no pleito de 2016 por não ter disputado por um partido com uma condição real de te fazer vereadora de Aracaju, já que você obteve mais votos do que quatro dos eleitos?

LB – Jamais. O que me fez entrar na política foi o meu ideal, a minha vontade de lutar pela dignidade das pessoas que sempre foram marginalizadas, por menos desigualdade e injustiça social. O meu ingresso na política partidária não foi necessariamente para ter um cargo político, mas sim resistir contra tanta exploração e opressão que tantas pessoas, assim como eu, passam no Brasil. A minha candidatura foi consequência dessa luta, das manifestações, plenárias e reuniões que participei com várias outras pessoas que estavam há anos lutando com o mesmo ideal e que me ensinam muito. Assim, tive o convite inicialmente para me filiar ao PSOL e depois para me candidatar. Só aceitei porque acredito e confio na luta dessas pessoas. As duas candidaturas das quais participei sempre foram construídas de forma coletiva, com participação de pessoas que acreditam e confiam em mim e com seus conhecimentos e experiências me ajudam a tomar as melhores decisões. O mesmo acontecerá com uma possível eleição. Quando isso acontecer, o mandato será realizado também de forma coletiva, juntamente com pessoas que representam todas as lutas que construo. Em 2020, a possibilidade de entrar será bem maior, pois além do partido estar bem mais fortalecido no Brasil e em Sergipe, também teremos outras candidaturas fortes. Também por causa da última reforma eleitoral que acabou com as coligações partidárias para as candidaturas proporcionais. Por isso, não tenho nenhum arrependimento, pois não irei para um partido somente pensando em eleição. Nunca irei me vender para que isso aconteça. Se tiver de ser eleita, será pela minha luta e por aquilo que acredito. Tudo tem o seu momento e estou muito confiante e tranquila.

FAN F1 – Por último, qual o maior motivo para fazer Linda Brasil entrar na política?

LB – Precisamos de mudança urgente em representação política e eu sou uma pessoa que representa essa transformação. Vivo no cotidiano as dificuldades que grande parte das pessoas do país vivem. Precisamos de pessoas autênticas, que queiram iniciar um longo trabalho de mudanças profundas no parlamento e na sociedade. Será muito significativo e de muita importância, nesse momento de crise política que estamos atravessando, a eleição de uma mulher trans que até pouco tempo atrás estava condenada a viver somente à margem da sociedade. Minha vivência já é um ato político, minha eleição será um ato revolucionário para a política sergipana.

Texto e imagem reproduzidos do site: fanf1.com.br

domingo, 16 de dezembro de 2018

Discussão sobre gênero e sexualidade e como isto afeta sua vida

Foto: Pixabay

Publicado originalmente no site Alô News, em 14/12/2018

A importância da discussão sobre gênero e sexualidade e como isto afeta sua vida

Por Linda Brasil
Consciência e (R)Existência Diversidade e Direitos Humanos.

Por que falar de gênero e sexualidade é uma ameaça à “família tradicional” brasileira? Começo esse texto com essa indagação porque, ultimamente, estamos vivenciando uma onda de perseguição às discussões de gênero e sexualidade seja nas escolas, seja em ambientes sociais por parte de algumas pessoas com ideias reacionárias. Entre as alegações a mais recorrente é a de que esses assuntos podem induzir a homossexualidade, a bissexualidade ou a uma identidade de gênero não correspondente àquela designada pelo órgão genital no nascimento. Como se na história da humanidade não houvessem pessoas LGBT’s. Além de ignorar o que a ciência vem falando sobre o assunto ao longo do tempo. A ignorância e a má vontade se misturam a uma distorção da realidade e de informações. São ataques incabíveis e preconceituosos provocados, principalmente, por alguns fundamentalistas religiosos ou não, que dizem haver uma tal “ideologia de gênero” que acabam com os princípios da “família” formada por homem e mulher. Utilizando-se desse argumento, rotulam falas na imprensa ou em qualquer lugar a favor da discussão como uma estratégia de convencimento, assim, manipulam a sociedade e pressionam o Estado para que sejam retiradas essas discussões nas grades curriculares das escolas.

O Brasil é o país que mais mata LGBT’s no mundo, segundo estatísticas da ONU. No caso de mulheres trans e travestis, essa situação é ainda mais grave: no nosso país acontecem quase 50% de todos assassinatos. Além disso, 90% das mulheres trans e travestis estão compulsoriamente na prostituição, devido a várias formas de exclusão social. A primeira delas é a familiar, seguida pelas escolar e, em depois, pela exclusão no âmbito da profissionalização formal. Em virtude de tantas violências, a expectativa de vida dessas pessoas trans é de 35 anos.  Uma situação equiparada a que enfrentavam as mulheres cis em séculos passados, quando eram propriedade dos pais e quando não queriam ser tratadas assim, só restava a elas a vida religiosa ou a prostituição.

Quem ignora, maltrata ou persegue uma pessoa LGBT, demonstra que está ligada a uma forma de ver a vida que remete a pessoas de séculos passados. Pessoas que achavam normal escravizar e humilhar outros povos e naturalizavam subjugar mulheres, crianças, negros, estrangeiros. São pessoas que valorizam o ser humano não pelo coração, pelo caráter e pela sua personalidade mas por valores de poder ligados à dinheiro ou ao sexo. A base das relações é de poder e dominação, sendo usados para oprimir e ditar regras.  Isso fica claro quando olhamos para como as mulheres ainda são tratadas no país. No caso de violência contra as mulheres, o Brasil é o terceiro país que mais agride mulheres. A cada onze segundos, uma mulher é violentada, e a cada minuto, uma mulher é vítima de estupro.  A maior parte dos casos de violência com morte de mulher ocorre no lar, muitas das vezes na frente de crianças e adolescentes.

 Discutir gênero e sexualidade nas escolas e na sociedade em geral é fundamental e muito importante para que possamos despertar uma maior conscientização dos/as alunos/as, professores/as e gestores das instituições de ensino, bem como toda a população sobre fatores que levam ao comportamento discriminatório e violento em nossa sociedade. Conhecimento e reflexão sobre a heterocisnormatividade compulsória e sobre essas “caixinhas” de gênero que controlam nossas existências e nossos corpos podem contribuir para diminuir o sofrimento e a violência de gênero em nossa sociedade. Nesta cultura em que pessoas designadas no gênero masculino, brancas e heterossexuais estariam numa lógica de superioridade e as mulheres ainda são vistas como inferiores e menos capazes que os homens. Eles podem quase tudo, elas quase nada. Eles não podem chorar, porque isso é uma “atitude de menina”. Elas nasceram para tomar conta da casa e dos filhos. Isso tudo é fruto de uma sociedade que foi construída numa lógica de poder patriarcal, que sempre dominou e oprimiu as ditas “minorias”. A falta de informação a respeito de uma temática tão importante gera comportamentos preconceituosos e violentos a esses grupos historicamente perseguidos e marginalizados.

Por isso, quem é a favor da família que ama, da família dos verdadeiros valores cristãos, de fraternidade de serviço ao próximo sabe e é a favor de que essas discussões sejam mais comuns, não só no meio familiar, bem como nas instituições de ensino e na mídia em geral, para que mulheres, LGBT’s e também os homens não sejam vítimas desse sistema heterocisnormativo patriarcal e misógino que aprisiona, segrega e violenta pessoas por não se adequarem a algumas normas castradoras que excluem e provocam sofrimento a todos nós. Discutir e refletir sobre esses temas vai fazer com que você acorde e veja se sua família é a da fraternidade ou está tão só na disputa de poder e vampirizar uns aos outros. Pensar e falar sobre essas coisas é libertar-se de prisões e preconceitos! É vir para o século XXI. Em que século sua família vive?

Texto e imagem reproduzidos do site: alonews.com.br

Consciência e (R)Existência: uma nova etapa na vida de Linda Brasil


Publicado originalmente no site Alô News, em 15/12/2018

Consciência e (R)Existência: uma nova etapa na vida de Linda Brasil

A ativista transfeminista fala ao Alô News, sobre a atuação como colunista do site

Alô News

Desde a última semana, o Portal Alô News está contando com um novo espaço opinativo, que se diferencia por muitos elementos de qualquer produção jornalística tradicional. Com o objetivo de promover e difundir a reflexão a respeito de temas relacionados à vida e à luta de grupos feministas e LGBTs e de impulsionar o espaço de fala dos mesmos, o Alô convidou a ativista transfeminista Linda Brasil para escrever semanalmente em uma coluna no site.

Muito entusiasmada, Linda aceitou na mesma hora a ideia, e assim criou a Consciência e (R)Existência, um espaço, onde ela vai poder se apropriar de sua experiência de luta e de sua formação acadêmica para abordar temas referentes às dificuldades de populações que ainda sofrem muito com o preconceito, os estereótipos, a falta de oportunidades e a violência.

E justamente, para falar sobre essa nova empreitada em sua vida, Linda, nos concedeu uma entrevista onde vai explicar como trabalhará estes assuntos, cada vez mais discutidos na sociedade, em sua coluna.

Confira a conversa que tivemos com ela, a partir de agora:

Portal Alô News - (A.N.): Na sua opinião, qual a importância da criação dessa coluna para a imprensa opinativa em Sergipe?

Linda Brasil - (L.B.): É um espaço inovador porque a gente tem uma carência aqui em Sergipe, de meios como esses em que militantes LGBT e principalmente uma trans, que sempre estiveram fora desses espaços de comunicação possam falar sobre um tema que ultimamente está sendo perseguido e estereotipado como é a discussão de gênero e de diversidade sexual para que possamos assim, combater várias formas de violência derivadas de falta de consciência e respeito às diversidades.

(A.N.): De quem foi a ideia de nomeá-la como Consciência e (R)Existência?

(L.B.): A princípio eu tinha sugerido um nome na minha rede social porque eu sempre gosto de compartilhas as minhas iniciativas nas redes sociais com meus seguidores. Eu tinha colocado o nome ‘Consciência e Resistência’, aí um dos meus amigos sugeriu que ao invés de ‘Resistência’ eu adotasse o ‘(R) Existência’, pois tem a ver com as existências trans, LGBTS, feministas, e sempre estamos buscando formas de existir resistindo. Então, esse ‘R’ na frente é para fazer um paradoxo e dar essa ideia de uma existência no resistir. Eu achei muito interessante essa sugestão, não me lembro bem quem foi, mas está lá nos comentários da publicação que fiz no perfil do Facebook.

(A.N.): Qual o impacto inicial que a divulgação dessa nova coluna gerou nos meios de discussão dos assuntos da comunidade LGBT e feminista?

(L.B.): Na minha rede social, teve uma repercussão muito positiva. Várias pessoas parabenizando, e de uma certa forma apoiando essa coluna, pois se sabe da importância para a luta LGBT e feminista de uma coluna na qual uma pessoa que vivencia essas formas de opressão e há anos milita a favor dos direitos humanos possa falar sobre assuntos tão necessários para a sociedade sergipana.

(A.N.): Amigos ativistas já te sugeriram temas para abordagem na coluna?

(L.B.): Algumas pessoas já me deram sugestões, mas como coloquei no texto inicial irei falar sobre várias questões, principalmente ligadas às temáticas de gênero, sexualidade e direitos humanos, que são esclarecedoras para as pessoas, especialmente nesse momento em que vemos uma descontextualização do termo ‘gênero’. E é preciso que a sociedade a importância das discussões de gênero, entendendo que são papeis sociais que são atribuídos a homens e mulheres, e eles acabam provocando diferenças, desigualdades, opressões, violência e mortes. E, portanto, é sim importante se falar sobre esses assuntos nas escolas, por exemplo, para que tenhamos pessoas mais esclarecidas a respeito do tema da diversidade. Abordaremos, inclusive, no próximo texto da coluna a questão da violência contra a comunidade LGBT.

(A.N.): O que a sua coluna irá trazer de diversificado para o debate da questão de gênero no estado de Sergipe?

(L.B.): Vai trazer uma perspectiva de uma pesquisadora de uma militante que além de fazer parte de movimentos sociais ligados à causa feminista e LGBT, estou pesquisando isso; e acredito que esta junção do lado ativista com o lado de pesquisadora vai ser muito importante para abordar temas relevantes tanto para a sociedade em geral como para o próprio campo da pesquisa científica que traz embasamento e fundamentação teórica sobre necessidade de discussão desses assuntos.

(A.N.): Espera que a criação desse espaço incentive a geração de novos canais de abordagem da questão pela luta de direitos das minorias em Sergipe?

(L.B.): Sim. Acredito muito, pois acho que o fato de ser pioneira, da gente ter um espaço como esse assim, principalmente por ser escrito por uma pessoa trans incentiva outas pessoas. Espero que isso possa estimular outros canais de comunicação possam disponibilizar esses espaços para outros representantes, levando a ampliar a discussão séria sobre o assunto que ajudem as pessoas a se conscientizarem, com o acesso de uma informação importante sobreas questões da diversidade. Como eu coloco em minha pesquisa, isso é fundamental não só para diminuir a violência, mas também para fazer com que as pessoas que sofrem busquem ajuda para superar as opressões físicas e psíquicas e não decidam por se excluir socialmente, e em caso mais graves por se suicidar.

(A.N.): O que a sua formação acadêmica pode lhe acrescentar na discussão desses assuntos ?

(L.B.): Ela vai ser muito importante, já que na academia a gente acaba tendo acesso a pesquisas científicas de autores que dedicam a sua vida inteira para discutir esses temas; e o fato de eu poder acessar essas informações e poder usá-las não só na militância do cotidiano em palestras e eventos, mas também agora nessa coluna, onde poderei relatar reflexões importantes a respeito de assuntos ligados à diversidade nesse contexto dessa onda reacionária que estamos vivenciando e que está inclusive, prejudicando os estudos de gênero, tão importantes para a sociedade.

(A.N.): Em geral, como é o relacionamento da imprensa sergipana as atividades e manifestações organizadas por grupos organizados e ligados a movimentos LGBT e feminista?

(L.B.): De um tempo pra cá, a gente percebe que está ocorrendo uma abertura muito grande, mas ainda notamos que existe uma dificuldade em abordar temas relacionados à população LGBT  e mesmo à mulher, culpabilizando esses grupos e oferecendo ainda um tratamento estereotipado,  sexualizando e desrespeitando as identidades de gênero, com o uso de pronomes, tentando passar informações que não são necessariamente importantes e que acabam expondo as vítimas, pois na maioria dos casos, já que na maioria das vezes quando se fala dessas questões é quando ocorre uma tragédia ou violência. E como eu digo, existem muitas vezes, duas mortes da pessoas trans: a morte física e a morte moral, que é a morte da sua identidade social, muito desrespeitada ainda. Mas, notamos sim, que está havendo uma abertura e uma reflexão, principalmente depois que algumas instituições começaram a fazer uma crítica na mídia acerca de comportamentos preconceituosos em relação à população LGBT e feminina, como por exemplo as peças publicitárias que costumavam sexualizar muito as mulheres.

(A.N.): Sempre que pleiteou espaço na imprensa local para divulgar eventos ou atos, você teve acesso tranquilo?

(L.B.): Não, a gente ainda percebe uma resistência muito grande quando vamos falar sobre eventos LGBT, mesmo que recentemente este relacionamento tenha ficado mais aberto nos últimos anos. Ainda temos uma dificuldade de falar sobre alguns temas, é um tabu. A imprensa escrita ainda oferece uma maior abertura para nós, mas a televisiva e a radiofônica nota uma resistência bem maior.

(A.N.): Por fim, deixe uma mensagem convidando a sociedade sergipana a acompanhar as suas exposições na coluna Consciência e (R) Existência

(L.B.): Convido a todas as pessoas não só a acompanhar, mas também a divulgar esse espaço tão importante de reflexão, de conhecimento, de transformação e de desconstrução, pois a gente é levado a pensar a partir de uma lógica heterocisnormativa, e esse espaço é feito justamente para colocarmos experiências e vivências não só minhas, mas da comunidade LGBT e feminista para que a gente possa modificar algumas posturas equivocadas com relação à diversidade. Então, desejo que todos os sergipanos possam acompanhar, divulgar e deixar sugestões, perguntas e questionamentos para que a gente possa desenvolver textos importantes para essa desconstrução; vamos assim com consciência e “(r) existência” vivenciar esta experiência de forma coletiva.

Publicado originalmente no site Alô News, em 07/12/2018 

Consciência & (R)existência

Confira o artigo de apresentação de Linda Brasil, nova colunista do Portal Alô News

Consciência e (R)Existência - Diversidade e Direitos Humanos

Por Linda Brasil.

A partir desta sexta-feira, o Portal Alô News ganha um reforço de peso. A ativista LGBT e transfeminista Linda Brasil passará a escrever semanalmente artigos na nova coluna do site, a Consciência e (R) Existência.

Neste espaço, Linda Brasil abordará temáticas que tem siso cada vez mais discutidas na sociedade, como respeito à diversidade e a luta das minorias por direitos civis Essa será uma oportunidade única para você entender mais a respeito destas questões a partir de uma ótica de quem vive e sabe da realidade das minorias em Sergipe.

Hoje, ela escreve seu artigo de apresentação no site; conta um pouco sobre sua vida, os desafios que enfrentou, a trajetória no campo ativista e as motivações que a fizeram aceitar o convite do portal Alô News, para ter uma coluna opinativa no site.

Vale muito a pena conferir!

Consciência & (R)existência

Olá! Eu sou Linda Brasil, nasci em Santa Rosa de Lima, tenho 45 anos, graduada no curso de Letras Português/Francês, primeira mulher trans a se formar e usar o nome social no sistema de cadastro da Universidade Federal de Sergipe.

Mestranda em Educação também pela UFS, sou militante LGBT, feminista e transfeminista. Fui integrante do Coletivo de Mulheres de Aracaju e do Coletivo Queer Transfeminista (Des)montadxs, faço parte e sou uma das fundadoras da AMOSERTRANS (Associação e Movimento Sergipano de Transexuais e Travestis), sou idealizadora e presidenta da CasAmor, uma casa de acolhimento às pessoas LGBTQI’s que vivem em estado de vulnerabilidade social. Sou uma cristã de visão saltoquantista, faço parte desde o ano 2000 do Instituto Salto Quântico, Escola Espiritual Cristã liderada pelo médium, escritor e apresentador Benjamin Teixeira de Aguiar. Sou beneficiária da instituição frequentando suas palestras, grupos de estudo e outras atividades; sou integrante de uma das reuniões de enfermagem espiritual e sou voluntária participante do Grupo de Teatro.

No âmbito partidário, sou filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), em 2016 fui candidata a uma vaga na Câmara Municipal de Aracaju, obtendo 2.308 votos. Nesse ano de 2018, fui candidata ao cargo de Deputada Estadual recebendo 10.107 votos, sendo votada em todos os municípios de Sergipe e obtendo a marca de 6.555 votos somente no município de Aracaju. Meu ingresso na política partidária, pleiteando as vagas de representações públicas, aconteceu depois que ingressei na UFS e percebia a necessidade de me engajar mais diretamente nos movimentos sociais. Com a vivência universitária e a participação no Salto Quântico, foi crescendo em mim a conscientização da necessidade de lutar pelos direitos das ditas ‘minorias’, mulheres, negras/os e LGBTQI’s que têm suas existências ameaçadas e direitos negados. 

Desde o meu ingresso na UFS em 2013 e a militância dentro do movimento feminista e LGBTQI+, quase semanalmente, sou convidada para participar de eventos e atividades em escolas, faculdades e instituições que trabalham com os direitos humanos, discutindo questões sobre gênero e diversidade sexual, contribuindo para uma maior conscientização das/os alunas/os, profissionais e, consequentemente, um maior respeito à diversidade. Por isso que meu projeto de dissertação de mestrado é pesquisar o impacto das discussões sobre gênero e diversidade sexual para o combate ao machismo e à LGBTfobia, visando diminuir as violências sofridas por esses grupos de pessoas.

Percebendo a necessidade de ampliar conquistas destes segmentos e contribuir para evitar que a onda reacionária que assola o Brasil destrua vidas e direitos já conquistados, estamos neste espaço como um canal de conscientização, resistência, reflexão e proposição. Afinal, conhecimento e respeito as diferenças é fundamental para que possamos viver numa sociedade com menos violência e mais amor e felicidade. Bem vinda(o) à coluna Consciência & (R)existência!

Texto e imagem reproduzidos do site: alonews.com.br