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quarta-feira, 23 de agosto de 2023

A tirania da mediocridade

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de agosto de 2023

A tirania da mediocridade

Para superar essa situação, em que a mediocridade prevalece – inclusive pelo despreparo, pelo nepotismo, apadrinhamento, formas disfarçadas de corrupção, nas nomeações para o serviço público e para as filiações partidárias –, o Brasil teria de dar força à meritocracia, para buscar a eficiência e resultado nas políticas em todas as áreas. Artigo de Rubens Barbosa, publicado pelo Estadão:

Poucos pensam e discutem o Brasil acima de preocupações político-partidárias e de interesses pessoais. Não se trata de criticar a ação do governo de turno e de outros que o precederam. Hoje, na prática, o País está sem projeto de nação, que defina os rumos da economia; sem estratégia nacional de segurança, que defina o lugar do Brasil no mundo em rápida e profunda transformação; sem uma clara definição de objetivos modernos para a educação que dê base para a inovação e o desenvolvimento tecnológico; e sem saber como equacionar seus problemas sociais e ambientais no médio e no longo prazos.

Com forte influência populista, o País está dividido ideologicamente e politicamente. Ao não ousar, vê seu crescimento reduzido, as desigualdades aumentando, a violência crescendo, a base industrial se deteriorando e as vulnerabilidades econômicas, comerciais, sociais, militares e de defesa aumentarem. A segurança jurídica está abalada por decisões contraditórias e a competitividade da economia, paralisada pela ineficiência da burocracia e do tamanho do Estado.

A mediocridade da discussão e das ações burocráticas em grande parte explica esta situação de falta de perspectiva do País. A polarização política e a intolerância deixam a burocracia semiparalisada, com receio de assumir decisões que possam ser vistas como partidárias e que poderiam gerar consequência políticas ou mesmo jurídicas contrárias. A sociedade civil está sem liderança para propor a revisão de políticas institucionais de desenvolvimento e reforma política de interesse do País, e sem força para propor uma nova relação entre civis e militares, desgastados pelos envolvimentos recentes, para virar a página da histórica interferência militar na política. Os empresários, sobretudo no setor industrial, estão sem projetos e se acomodam aos governos de turno para defender seus interesses setoriais. O sistema político-partidário é disfuncional pelo número de partidos, sem uma clara ideologia, atuando na defesa de seus próprios interesses econômicos, comerciais e patrimoniais. O Congresso Nacional tem avançado o exame e a aprovação de algumas reformas, mas a percepção é de que, sem programas claros na defesa dos interesses maiores do País, fica enredado na discussão menor de privilégios e muitos de seus representantes aparecem envolvidos com corrupção. O Judiciário sofre desgaste com a judicialização de questões que o Legislativo e o Executivo não conseguem resolver. Em muitos casos, decisões são tomadas com forte viés político, alterando substancialmente decisões anteriores, ensejando a visão de que a política menor, e não a Constituição, prevalece em suas decisões.

Num mundo em que o conhecimento está na base das grandes mudanças, com os desafios da aplicação da Inteligência Artificial, o País não consegue superar as deficiências do sistema educacional. As escolas e universidades, com honrosas exceções, não respondem às necessidades dos novos tempos. Os recursos públicos são mal administrados e o Brasil está muito baixo nos índices internacionais.

As ONGs e os think tanks, com uma visão setorial em suas atuações, examinam e atuam com competência nas matérias que discutem, mas em raros casos têm força e poder para influir na definição de políticas públicas que possam ser avaliadas e tenham um sentido e uma visão de médio e longo prazos.

Nessa breve análise, que não pretende esgotar o assunto, mas chamar a atenção para as armadilhas de que a sociedade foi vítima, em todas as áreas mencionadas, o que se destaca, lamentavelmente, é o triunfo da mediocridade.

A mediocridade da classe dirigente historicamente refletida na incapacidade de aproveitar as potencialidades do Brasil para deixar de ser um país do futuro e transformá-lo numa força global, como ocorreu em Cingapura e na China.

Para superar essa situação, em que a mediocridade prevalece – inclusive pelo despreparo, pelo nepotismo, apadrinhamento, formas disfarçadas de corrupção, nas nomeações para o serviço público e para as filiações partidárias –, o Brasil teria de dar força à meritocracia, para buscar a eficiência e resultado nas políticas em todas as áreas. O termo meritocracia é um neologismo inventado nos anos 1950 pelo sociólogo britânico Michael Young. No romance The Rise of the Meritocracy (O surgimento da meritocracia), Young descreve uma sociedade em que os melhores e mais aptos detêm o poder. Ao morrer, em 2002, Young estava decepcionado com a vida pública estratificada na Inglaterra, mas tinha esperança na terceira via de Tony Blair.

O valor do mérito é atacado hoje no Brasil todos os dias e em todos os lugares: vejam como se desenvolve a carreira na classe política e o nivelamento por baixo, por muitos anos, nos principais setores do serviço público. Para muitos dos que o desprezam, o mérito seria uma vitrine enganosa, que dissimula mal a sobrevivência das elites. Os que atacam a meritocracia, com hipocrisia e cinismo, são os principais responsáveis pelos seus desvios.

A busca da eficiência e de resultados com visão de futuro, com uma nova liderança política e uma burocracia mais competente, é do que o Brasil precisa. O setor privado fará sua parte.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Conselhos para vencer uma eleição

Rubens Barbaosa

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 27 de setembro de 2022

Conselhos para vencer uma eleição

O roteiro pragmático de Quintus Tullius está sendo bem aproveitado pelos candidatos que hoje disputam cargos eletivos em todos os níveis no Brasil. 

Artigo do diplomata Rubens Barbosa para o Estadão:

“São três os elementos que podem garantir votos numa eleição: favores, esperança e relações pessoais.

O candidato deve trabalhar para dar esses incentivos às pessoas certas. Para ganhar os eleitores indecisos, deve fazer pequenos favores. Com relação àqueles em quem você desperta a esperança – um grupo zeloso e devotado –, deve fazê-los acreditar que estará sempre pronto para ajudar-lhes. Deixe que saibam que você está agradecido pela lealdade deles e sensibilizado pelo que cada um está fazendo por você. Em relação aos que já o conhecem, deve encorajá-los, adaptando a sua mensagem à circunstância de cada um e demonstrando enorme gratidão pelo apoio desses seguidores. Para cada um dos três grupos de apoiadores, decida como poderão ajudá-lo na campanha eleitoral e de que modo você pode pedir a eles ajuda. Não deixe de dar atenção a cada um individualmente, de acordo com a dedicação deles à campanha.

O mais importante numa campanha é incentivar a esperança no povo e criar nele um sentimento de boa vontade em relação a você. Por outro lado, você não deve fazer promessas específicas, quer para o Congresso, quer para o povo. Fique em vagas generalidades: diga ao Senado que você vai manter os privilégios e poderes que tradicionalmente tiver, deixe a comunidade de negócios e os mais ricos saberem que você é favorável à estabilidade e à paz; assegure ao povo que você sempre esteve ao seu lado, tanto no discurso como na defesa dos interesses dele.

Onde quer que você ande, haverá de encontrar arrogância, teimosia, malevolência, orgulho e ódio. Não se deixe desencorajar pela conversa de corrupção. Mesmo nas eleições mais corruptas há muitos eleitores que apoiam os candidatos em quem eles acreditam, sem receber em troca nenhum pagamento. É possível que seus oponentes tentem usar o suborno para ganhar o apoio dos que estão com você. Deixe que eles saibam que você está observando atentamente as suas ações e os ameace com processo nos tribunais. Eles ficarão com medo de sua influência no meio empresarial. Não será necessário levá-los aos tribunais com acusações de corrupção; o importante é que eles saibam que você está disposto a isso. O medo ensina melhor do que uma ação judicial. O que interessa não é o resultado da ação dos tribunais, mas sim a ameaça, por ser importante como instrumento de produção do medo e da moderação dos adversários.

O candidato deve ser um camaleão, adaptando-se a cada indivíduo que encontra, e deve mudar sua expressão e seu discurso quando necessário.

Mantenha perto os seus amigos. E mais perto ainda seus inimigos. Depois de identificar quais os amigos com quem poderá contar, dê muita atenção a seus inimigos. Há três tipos de pessoas que poderão se opor aos seus interesses: aquelas a quem você contrariou, as que não gostam de você e as que são amigas próximas de seus oponentes.

Para impressionar os eleitores, dê atenção a cada um deles, sendo pessoal e generoso. Nada impressiona mais um eleitor do que o candidato mostrar não se ter dele esquecido. Por isso, faça um esforço para se lembrar de seus nomes e rostos.

Faça promessas de todo tipo. As pessoas preferem uma mentira de conveniência a uma recusa direta. Prometa qualquer coisa, a qualquer um, a menos que uma clara obrigação ética o impeça de fazê-lo.

A campanha deve ser competente, digna, mas cheia de vida e de espetáculo, que tanto atrai as massas. Também não fará mal se você as lembrar do quão desqualificados são seus oponentes, acusando-os de crimes, escândalos sexuais e corrupção em que poderão estar envolvidos.”

Não me considere, eventual leitor, como um cínico conselheiro de algum candidato, mas apenas o responsável pela transcrição de parte de um muito antigo e, até hoje, preservado documento. O autor de todos os conselhos mencionados anteriormente foi Quintus Tullius, general e político romano. Em 64 a.C., Cícero, notável orador e político de Roma, embora não pertencesse à aristocracia, de onde saíam os que iriam dirigir os destinos do Império, apresentou-se como candidato ao posto de cônsul, o cargo mais importante na cena política romana. Seu irmão, Quintus Tullius, produziu o que hoje seria chamado de memorando e que denominou Pequeno Manual sobre Eleições, com o objetivo de ajudar o candidato na campanha que se aproximava e que, como tudo parecia indicar, não seria nada fácil de vencer. Hoje, se vivo fosse, estaria ganhando um bom dinheiro como consultor político.

As recomendações contidas no manual, algumas das quais transcritas anteriormente, podem surpreender pelo cinismo e pelo pragmatismo, mas mostram que, em mais de 2 mil anos, quando se trata de política, nada ou quase nada parece ter mudado.

Esse roteiro pragmático de campanha está sendo bem aproveitado pelos candidatos que hoje disputam cargos eletivos em todos os níveis no Brasil. Muitos candidatos, como estamos constatando, já estão há tempos praticando, ampliando e aperfeiçoando esses antigos métodos.

A propósito, como a História conta, Cícero, com os conselhos do irmão marqueteiro, saiu-se vitorioso.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com