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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

A (destrutiva) geração de 68


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 17 de dezembro de 2025

A (destrutiva) geração de 68

A geração de 68 visava desconstruir. Um eufemismo, repare-se, para destruir. Destruir o quê? O que havia. E destruiu. Só que não construiu nada de novo para substituir o que resolveu estragar. Nuno Lebreiro para o Observador:

Frank Zappa, com pertinência, lembrava, ao bom estilo “criativo”, “não-conformado” dos anos 70, que sem nos desviarmos da norma o progresso não é possível. De facto, é uma evidência. Um sistema rígido, estático, altamente burocrático, não permite a criatividade e a inovação. Aliás, tanto assim é que é essa a primeira razão pela qual o planeamento central, o socialismo e o estatismo, seja em que variante for, inevitavelmente falha: cristalizado na norma, não consegue adaptar-se a um mundo que necessariamente vive em constante mudança. Ora, como sabemos já desde Darwin, aquilo que não se adapta, morre.

A este propósito, não deixa de ser curioso o paradoxo cultural que ocorreu no Ocidente no espaço de uma geração, em particular a dos jovens de 68. Então, à esquerda, louvava-se o não-conformismo, a irreverência, a rebeldia, lutando contra o sistema que se imaginava “opressor”, ou seja, a tal norma da qual era urgente desviarmo-nos para se permitir o “progresso” e, com ele, a solução política futurística que, cumprindo o sonho Kantiano, haveria de trazer abundância, harmonia, paz e segurança, para sempre.

No entanto, e desde logo revelando a enorme contradição intelectual em que essa geração sempre se enrodilhou, no que concerne a economia, a sociedade, a política, essa mesmíssima esquerda sempre apoiou a estrita norma, pior ainda, a edificação constante de colossos administrativos que, em nome do tal progresso que prometiam às massas, por trás, aniquilavam o menor vislumbre de inovação, afundando todo e qualquer desvio num oceano de carimbos, clips, agrafos e dossiers.

O grande segredo que toda a gente sabe e ninguém fala é que, hoje, essa esquerda triunfou. Triunfou de uma forma brutal, total, hegemónica. E, precisamente porque se tornou culturalmente impositiva, nem lhes ocorre que a norma contra a qual constantemente vociferam é aquela criada por ela própria. Ou seja, a verdade escondida com o rabo de fora, aquela verdade que se vai revelando agora — motivo pelo qual a constatação “anti-sistémica” passou para a “extrema-direita” e os blocos da vida se afundam em irrelevância eleitoral —é que a antiga esquerda libertária, revolucionária, idealista, é agora, em boa-verdade, o famigerado “sistema”, o sistema resultante da tal vitória cultural, social, hoje totalitária, dessa geração rebelde de 68.

Apenas que ao contrário do imaginário infantil pseudo-rebelde, essa vitória retumbante não apareceu com armas, nem concertos, nem sequer manifestações ou qualquer espécie de “activismo” como aquele que sobeja hoje por aí, a soldo, de iPhone nas mãos e All Stars nos pés — aliás, até que resultou, mas apenas indirectamente. Na prática, triunfou pela mesma razão que qualquer mudança é sempre inevitável: no mundo, como Heraclito lembrava, a vida é como um rio na medida em que nunca se entra na mesma água duas vezes — uma metáfora que procura relembrar que, no caso dos homens, os pais morrem e depois vêm os filhos. Assim, a seu tempo, os jovens revolucionários e idealistas, ainda para mais desfrutando de um mundo pleno de abundância, facilidades e “estudos” como nunca havia sido visto antes, tornaram-se eles próprios pais, e agora avós.

A geração mais rica de sempre foi aquela em que eles, em 68, de cabelos compridos e desregrados, de sandálias e barba por fazer, e elas, depois do triunfo da mini-saia, experimentaram pela primeira vez a liberdade sexual a cavalo da pílula contraceptiva. Hoje, quer uns quer outros, carecas e grisalhos, mas bem aburguesados, vão saindo de cena, ufanos, cheios de botox, rumo a uma reforma plena de direitos garantidos por décadas de “luta contra o sistema”. Ou seja, décadas de construção do sistema que deixam agora para quem vier a seguir os continuar a sustentar.

Em cima, fica ainda um legado que, curiosamente, poucos se têm dado ao trabalho de analisar. Socialmente, desde logo para começar, um desastre. A Europa é hoje um aglomerado de famílias desintegradas, caracterizada por taxas de natalidade tão baixas que nem sequer garantem a capacidade de manutenção da população — em português simples, a consequência é a extinção.

A sociedade, fragmentada, atomizada, diluída num individualismo materialista, hedonista, profundamente alienado, não oferece sentido ou significado para a vida humana, bem como se revela incapaz de criar adultos fortes, conscientes de verdades tão simples como a de que um direito esconde sempre um dever e que é na responsabilidade individual que se conquista a liberdade. A desconstrução de 68 prometia, relembre-se, direitos a rodos e a “libertação” dos deveres como a noção — estúpida, infantil e mimada — de liberdade. O resultado, claro, está aí na tradução da libertação por simples alienação.

Na base de toda essa ilusão, o “outsourcing” moral e sentimental, em muitos casos por necessidade, noutros, nomeadamente nas eleites, por simples conveniência. Depois, consequência da desestruturação da hierarquia anterior, sobeja a ausência emocional dos pais face aos filhos, quanto mais não seja anteriormente consubstanciada na estrutura social e familiar. Hoje, sobram verdadeiros estranhos, uns face aos outros, agarrados à ideia, ridícula, de que a escola, logo o Estado, seria capaz de suprir as obrigações familiares na educação das novas gerações.

Como deveria ser óbvio, não foi. A estandardização, a massificação, a anonimização copiada do ambiente fabril, em série, para a escola apenas gerou espaços onde os filhos foram programados para o “mercado de trabalho”, produzindo, ao invés de cidadãos, uma crescente maioria de gente estandardizada, massificada, anónima, distante e, porque desligada, profundamente infeliz — todos diferentes, mas todos iguais.

A geração de 68 visava desconstruir. Um eufemismo, repare-se, para destruir. Destruir o quê? O que havia. E destruiu. Só que não construiu nada de novo para substituir o que resolveu estragar. Quebrou, por exemplo, os laços com o passado. O orgulho dos “egrégios avós”, hoje vilipendiados como esclavagistas, colonialistas, opressores, misóginos, racistas e homofóbicos. Cortados da História, arrancados do nosso rochedo civilizacional, entregues ao relativismo absoluto, a única referência valorativa que nos resta passou a ser a própria virtude dos operários da revolução — o bem, a moral, a partir daí material, vota-se, decide-se, cria-se. Num mundo onde as fontes morais foram repudiadas, esquecidas, pisadas, sobra então a húbris de quem se imaginou como o porta-estandarte de “um tempo novo” — o tempo do novo-bem, da nova-moral, do novo-homem, o admirável mundo novo.

Ele hoje aí está. Um vazio absoluto, superficial, material, que tudo olha com indiferença e leviandade. Os valores, os famosos valores, encaixotados pela geração de 68 como hipócritas, datados, logo coisas do passado, portanto inúteis, foram substituídos por lemas, slogans, palavras de guerra — liberdade, igualdade, fraternidade — que tanto significam uma coisa como seu contrário. Já os afectos, isso sim, é o que conta. Depois o amor-livre, bem como a busca da liberdade plena, aquela certificada, naturalmente, pelo Estado, eis os novos ideais de gratificação imediata que, crescentemente, junto com a maior revolução tecnológica da História da Humanidade, geraram um efeito de bola de neve onde, à medida que o desafio colocado pela tecnologia se tornava cada vez maior, a capacidade da sociedade, progressivamente enfraquecida, atomizada, ausente, se tornava ela também cada vez mais vulnerável para lidar com a mudança abrupta.

Primeiro audio-visual, depois digital, enfim cibernética, ora móvel e social, “em rede”, o espaço-tempo divide-se agora em dois: por um lado, o plano do real, empobrecido, escondido, onde, como numa gruta, nos viramos para dentro da solidão, como no cliché da outrora espampanante miúda, hoje na menopausa, sozinha, de comando na mão, agarrada ao gato, ao copo de vinho e à lembrança das oportunidades que em nome da carreira, da liberdade, do “YOLO”, desperdiçou a expensas de criar família. Já pelo outro lado, lá fora, no ciberespaço, vive o avatar em rede, como que a nova máscara que, a expensas de fotografias de viagens, de refeições ou de qualquer coisa digna de ser mostrada no Instagram, como capa, esconde a gruta real inundada da proverbial insatisfação humana — como se sabe, a relva do vizinho, bem como as suas fotografias, é sempre mais verdejante, viçosa e, em todas métricas possíveis, muito melhor.

Ainda assim, a estandardização e a viragem do enfoque para a satisfação materialista consubstanciada na “carreira”, na “promoção” e na abundância não gerou uma sociedade rica. Paradoxalmente, na sociedade hiper-materialista, a capacidade para gerar riqueza vai-se esfumando a cada ano que passa. Porventura, porque a riqueza material é consequência de uma sociedade próspera, e nunca da decadência e destruição, o legado de 68 é agora igual ao de todos aqueles filhos pródigos que, desbaratando a herança, não criando riqueza, se recusam a baixar o seu nível de vida. Eis, então, a progressão súbita da dívida pública que, suprindo o déficit produtivo, mantém as aparências.

Em 30 anos, para cobrir a diferença entre o que se consome e aquilo que não se produz, os heróis das virtudes, da igualdade, da fraternidade democrática, do progresso, conseguiram hipotecar o futuro dos filhos, dos netos e dos bisnetos. É obra! E agora, o corolário: críticos de todos os deveres, mas fiéis defensores de todos os direitos, sai agora a geração de 68 para uma reforma que lhes garante o conforto material até aos últimos dos seus dias — ainda que todos saibam que mais ninguém a seguir terá tamanho privilégio.

Pior. Para justificar os direitos que garantiu para si própria, a geração que sai agora do poder anuncia como milagrosa solução para a continuação a famosa “imigração”. Ou seja, para suprir o déficit gerado pelos filhos que não teve, mas ainda assim garantir a dimensão do estado-social do qual não abdica, abriram-se as portas ao terceiro-mundo sob a bandeira, como sempre, da igualdade e da fraternidade, uma bandeira que apenas esconde a triste hipocrisia dos arautos da virtude democrática.

Eis-nos, pois, aqui. De portas abertas, com as cidades desbaratadas, filhos de uma globalização falhada, de contas falidas, finalmente desconstruídos, em escombros, esmifrados por um sistema estatal imenso, centralizado, já pós-soberano e pós-democrático na medida em que organizado de forma anónima, burocrática, a partir de Bruxelas. Eis, aí, a última e suprema constatação: a geração de 68, em nome do progresso, da riqueza, da abundância que sempre prometeu, desbaratou e nunca cumpriu, até a soberania e a democracia despachou — a preço de saldo, por conveniência política.

E ai de quem criticar! Pois bem se sabe que quem não acompanhar os virtuosos desígnios democráticos, inclusivos, fraternos, veiculados pelo sistema, não merece nele participar. Daí, junto com a soberania a democracia, a geração que agora sai de cena, em nome da suprema salvação, trata ainda de despachar a inconveniente liberdade de expressão, garantia última da liberdade individual.

Já os seus herdeiros, frutos da estupidificação generalizada que acompanhou a estandardização industrial da educação e o “outsourcing” moral e emocional familiar, esses parecem em larga medida não compreender a gravidade do que se perdeu. Crentes na revolução, praticantes do culto do progresso, ansiosos por calçar os sapatos dos seus antepassados, acabam, por conveniência ou ignorância, gabando o fausto manto do rei que, nu, gordo, de peles caídas, se passeia impante como Napoleão, Bismarck ou Carlos Magno. Acaba tudo, pois, no ridículo.

Sem desvio da norma, é certo, não há progresso. A geração de 68 comprovou isso por todos os lados. Tal como comprovou uma outra importante característica do mundo que completa a frase de Zappa, mas que nunca é referida: é que sem norma, não há nada do qual nos possamos desviar. E se antes, nos tempos antigos de abundância e prosperidade reais, se equilibravam esses dois valores — norma e liberdade, tradição e inovação —, o verdadeiro legado de 68 é que nos quedamos por estes dias sem nenhum dos dois. Enfim o vazio.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Os Inimigos da democracia

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10 de outubro de 2024

Os Inimigos da democracia

Quando a liberdade de expressão se vê regulada, limitada, mesmo que em nome do povo, conclui-se que o poder político foi de forma ilegítima usurpado por quem lhe regula aquilo que pode ou não dizer. Nuno Lebreiro para o Observador:

John Stuart Mill, no seu célebre ensaio sobre a liberdade de 1859, lembra que Sócrates, a figura mais venerada da filosofia e do pensamento Ocidental, inspiração máxima de Platão e Aristóteles, o homem tido como o mais virtuoso do seu tempo, foi acusado, entre outras coisas, de perverter a cultura e os espíritos dos jovens. Tal crime condenou-o à morte. Mais tarde, continua Mill, Jesus, também ele tido como o mais sábio dos homens, senão mesmo, como para os Cristãos, a encarnação humana de Deus, foi igualmente condenado à morte por blasfémia. Em comum nestas duas sentenças? Serem as palavras e ensinamentos dos acusados que, contrários ou incómodos para os poderes dos seus tempos, lhes custaram a vida.

Com o tempo, estes dois julgamentos hoje vistos como bárbaros, cruéis e injustos compuseram os alicerces da base moral Ocidental onde a culpa e o arrependimento explicam muito como construímos todo um aparelho moral, político e legal que, mais que impor verdades e doutrinas, se preocupa acima de tudo em proteger as pessoas dos abusos do poder. Assim é da perspectiva moral quando organizámos os nossos valores em função da absoluta defesa da dignidade e protecção da pessoa humana, assim é quando baseámos as nossas instituições políticas em direitos individuais, assim é quando oferecemos todas as garantias legais a toda as pessoas, desde a forma como putativos criminosos são tratados até ao facto de o ónus da prova residir sempre na acusação, e nunca no acusado.

A democracia, em particular a sua variante “liberal” ou “Ocidental”, nasce precisamente destas particulares e preciosas circunstâncias: não seria possível construir um sistema assente na vontade popular, ou seja, onde o poder emana de baixo, das pessoas, para cima, para a oligarquia dirigente, sem que a legitimidade moral estivesse também ela acoplada nas pessoas, neste caso na figura abstracta do “indivíduo”. É, pois, no indivíduo e na protecção deste através dos seus direitos, liberdades e garantias que se baseia a democracia tal como a conhecemos, precisamente para que todos nós — cada um, enquanto pessoa — estejamos a salvo de semelhantes destinos àqueles que Sócrates e Jesus, injustamente, enfrentaram nas suas respectivas sociedades.

Voltemos aos dois julgamentos. Em boa verdade, foram motivados por palavras proferidas. Nenhum dos acusados foi um perigoso terrorista, não roubaram, não mataram, nem sequer incitaram a que se aterrorizasse, roubasse ou matasse. No final, tanto num caso como no outro, independentemente dos preceitos legais invocados pelas acusações, quando bem analisados os casos, ambos foram condenados por delito de opinião. Eis em todo o seu esplendor a origem do poder mítico da palavra e do discurso que torna ainda hoje no Ocidente a questão da “liberdade de expressão” fundamental, se não mesmo fundacional. Mais, se a legitimidade política advém do povo, das pessoas, e é de baixo para cima que se constrói o sistema democrático, então como não garantir que essas mesmas pessoas, esses mesmos indivíduos que compõem a comunidade, são livres de pensar, dizer e falar o que lhes aprouver?

De facto assim é. Não pode haver liberdade individual onde as pessoas não possam dizer o que bem entenderem. Concomitantemente, sendo o indivíduo a fonte de legitimidade da democracia liberal, portanto toda a sua razão de existir, quando não sendo dele o poder de regular a sua própria expressão, tal coisa apenas pode significar que também já não é dele o real poder político. Assim, quando a liberdade de expressão, por decreto ou por que razão for, se vê regulada, limitada, cortada, mesmo que em nome do povo e da legitimidade popular, a única conclusão é que o poder político já não reside no povo, mas foi entretanto, de forma ilegítima e não-democrática, usurpado por quem lhe regula aquilo que pode ou não dizer.

Quem manda aí, então? Na verdade, não interessa. Poderá até ser uma maioria política imaginada como esclarecida e democrática porque majoritária, mas não deixará de ser uma maioria que não tem pejo em atropelar em nome das suas crenças e opiniões os direitos que, reservando para si, retira àqueles que não compõem essa maioria. De facto, é precisamente para acautelar tal situação que no Ocidente se evoca o carácter absoluto e universal dos nossos direitos fundamentais: para que ainda que a maioria censória e autoritária fosse a de todos na sociedade menos apenas um e aquela ainda assim seria injusta, pois é com a protecção desse “um” que a legitimidade política das nossas democracias assentes em direitos individuais se preocupa. Aliás, não foi precisamente a turba majoritária, às tantas já em coro, que confirmou a libertação de Barrabás e condenou Jesus à Cruz e à morte?

Stuart Mill, para quem o valor máximo da sociedade é a utilidade, ocupa-se também a explicar como da livre discussão aberta a todas as opiniões deriva um bem comunitário e social na medida em que a arena da franca e honesta discussão tratará de descartar naturalmente as más ideias enquanto fortalecendo aqueloutras que são boas por serem capazes de resistir ao teste da crítica e do escrutínio. Tinha, e tem, razão. No entanto, por trás da utilidade que a liberdade de expressão trouxe ao Ocidente, por baixo de todo o florescimento de conhecimento científico, filosófico e cultural que a livre troca de ideias permitiu, ainda assim, aquilo que mais justifica essa pedra basilar da democracia não pode deixar de ser aquilo que ela significa para a moralidade da própria liberdade: lá no fundo, consola-nos a bondade desse valor supremo da liberdade de expressão que, se instituído à altura, teria salvo Sócrates e Jesus, assim nos redimindo daqueles dois terríveis crimes cometidos pelos nossos antepassados.

Após a grande guerra civil Ocidental (1914-45) que arrastou o mundo inteiro para o caos, destruição e morte, por em oposição garantir paz, abastança e segurança, o estabelecimento da democracia liberal, e a correspondente apologia da liberdade de expressão, como padrão de virtude moral e política internacional foi inexorável, chegando inclusive a Portugal, ainda que com o habitual atraso, em 1974. Depois, com a queda da URSS e do Muro, nos últimos 40 anos, colocar em causa esta suprema conquista no Ocidente, mesmo em Portugal, sempre apareceu à generalidade dos comentadores, jornalistas e políticos como perigoso, talvez bizarro e, sem dúvida, merecedor dos epítetos “fascista” ou “autoritário” que tanto abundam na discussão pública — nesse caso com razão.

No entanto, o mundo mudou. Ofuscado pelos avanços da ciência, desde há muito que germina no pensamento Ocidental a ilusão de que a ciência traz consigo a solução para os problemas da Humanidade, incluindo os morais e políticos, imaginando-se hoje que aquilo que o “cientista”, o “perito” ou o “especialista” afirma é invariavelmente factual. “Um novo estudo revelou que” representa agora o supremo argumento de autoridade que, alegadamente, revela a verdade ao mundo. Substituindo a batina preta pela bata branca do cientista, o povo, sem se aperceber, substitui também o dogma e, onde antes reinava a religião, em particular, no nosso caso, a Cristã que afirmava não se querer meter nos assuntos políticos — “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mateus 22:21) —, passa agora a reinar o cientismo que, por oposição, faz questão de meter o bedelho em todos os assuntos.

Assim chegámos a um ponto em que o debate público deixou de versar sobre diferentes opiniões, todas elas tidas como legítimas — as que assim não eram consideradas acabavam marginalmente reduzidas aos pequenos recantos escuros dos cafés —, para uma nova situação onde tudo o que se discute é “quem é que tem razão”, no caso a científica, ou seja, quem é que é o fiel intérprete da Verdade. Ora, como as verdades não se discutem, apregoam-se, e agora tornado todo o bicho careta político numa espécie de missionário guardião da “boa governança” científica, ignorando todos eles que a boa ciência é aquela que se discute e se contesta perpetuamente a si própria numa exercício de dúvida infindável — bastaria ter lido Karl Popper —, perante a agitação turbulenta das massas divididas entre múltiplas verdades cada qual assente no seu respectivo “estudo”, “cientista” ou “perito”, logo os poderes que são começaram a perceber que mau, mau, mau mesmo, é a liberdade de expressão e o povo ignorante que não aceita, ou que simplesmente coloca em causa, a versão oficial do “consenso científico” certificado pelo Estado e propagandeado pela imprensa.

Primeiro com o COVID para “salvar a avó”, depois com as “alterações climáticas” para “salvar o planeta”, mesmo que a narrativa única mediática e política, seja ela financiada, influenciada ou manietada por quem for, se tenha caracterizado pela constante e indecente falta de verdade, de competência ou simples coerência — o que é verdade num dia frequentemente deixa de o ser no outro —, nem mesmo assim, depois de incontáveis estragos e asneiras cometidas, os medíocres políticos Ocidentais largam um discurso que, com excepções paradoxalmente descartadas pelo mainstream como “fascistas”, “racistas” ou simplesmente “negacionistas” da verdade, afirma hipocritamente a “desinformação” e as redes sociais por onde ela alegadamente se propaga como os grandes perigos para a democracia. Em suma, domada a comunicação social que fala agora estridentemente em uníssono com o poder político, sobra domar quem ouse colocar em causa a “verdade” certificada a carimbo “pelas autoridades competentes” — e tudo “para o nosso bem” e das nossas democracias.

A moda pegou lá fora nos meios mais fanáticos do culto progressista e tecnocrata e, claro está, não poderia deixar de chegar, como de costume atrasada e a reboque, aos arrabaldes lusitanos. Assim se explica que esta semana, de dedo estendido, convicção firme e palavra forte, enquanto anunciava a subsidiação generalizada dos órgãos de comunicação social pelo Estado — que assim dele agora passará ainda a depender mais, efectivamente liquidando a liberdade e independência da imprensa —, o Primeiro-Ministro português, não satisfeito, ao arrepio de qualquer sensibilidade ou consciência democrática, resolveu imitar a chefe burocrata de Bruxelas e declarou: “as redes sociais são o inimigo da democracia”.

Que em Portugal se repita o que se faz lá fora, é um hábito. Que não haja grande pensamento, capacidade crítica ou coragem na classe política indígena para ir além dos ditames da bolha mediático-política ou, pior, que não exista uma identificação real e consciente com os valores democráticos e da liberdade, tudo isso é verdade. Agora que um Primeiro-Ministro, ainda para mais um que se identifica como sendo o líder do espaço não-socialista, tenha o topete de vir anunciar que a livre discussão do povo nas redes sociais é que é o inimigo da democracia, isso apenas revela que, de facto, a democracia e a liberdade estão mesmo em perigo. Não porque no mundo digital — tal como antes nos cafés, nos panfletos ou nos bancos de jardim — circule de tudo, desde boa informação e opinião até às mais insanas proposições políticas ou epistemológicas, mas porque, aparentemente, na cabeça do líder político do país, a censura, o fim da liberdade de expressão e o estabelecimento de uma forma política para regulamentar o que é permitido dizer ou não no espaço público — uma espécie de ministério da verdade que decide e define o que é “desinformação” — é algo que faz sentido e não há ninguém que lhe tenha de imediato explicado o óbvio: que neste momento o perigo para a democracia é ele.

Rexto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com