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sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Mauro Cid e Delgatti Neto criam a tempestade perfeita para Bolsonaro

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de agosto de 2023

Mauro Cid e Delgatti Neto criam a tempestade perfeita para Bolsonaro

As duas situações caminham em paralelo e em ritmo acelerado de agravamento. Guilherme Macalossi para a Gazeta do Povo:

Não faz uma semana, a Polícia Federal batia à porta do general Mauro Cesar Lourena Cid, do advogado Frederico Wassef e de outros supostos partícipes no esquema de desvio de joias que teria como finalidade enriquecer ilicitamente Jair Bolsonaro. Os fatos novos se avolumaram rapidamente. Em sua última edição, a revista Veja trás a informação de que Mauro Cid pretende confessar seus crimes, apontando o ex-presidente como mandante e beneficiário último.

Vem uma delação premiada pela frente? É uma pergunta perfeitamente cabível. Cid, é sabido, tornou-se personagem de uma penca de escândalos para além desse em que relógios das marcas Rolex e Patek Philippe eram literalmente “passados no cobre”, para ficar com a expressão popular. Ele foi em cana por outra razão: acusado de fraudar o sistema de registro de vacinação do Ministério da Saúde. De lá veio a apreensão de seu celular e o restante é história.

Quando o renomado jurista Cezar Roberto Bitencourt assumiu sua defesa, ficou claro que a estratégia de Cid mudaria radicalmente. O próprio advogado deu a letra quando, em entrevista para a jornalista Camila Bomfim, afirmou que “Na verdade, ele é um militar, mas ele é um assessor. Assessor cumpre ordens do chefe. Assessor militar com muito mais razão. O civil pode até se desviar, mas o militar tem por formação essa obediência hierárquica. Então, alguém mandou, alguém determinou. Ele é só o assessor. Assessor faz o quê? Assessora, cumpre ordens”. As palavras fazem sentido.

Quem era o chefe de Cid? A quem ele assessorava? Quem lhe dava ordens? As perguntas de Bitencourt são, por óbvio, meramente retóricas, e é muito fácil deduzir qual é a resposta comum a todas elas. “O dinheiro era do Bolsonaro”, disse o advogado para a Veja, em referência aos valores obtidos com a venda dos objetos.

Concomitantemente ao agravamento do caso das joias, as coisas também se complicaram para Bolsonaro na CPMI do 8 de janeiro. Curiosamente, uma investigação que ele e seus apoiadores desejavam e defenderam ardorosamente. Imaginavam que, no seu curso, se daria o fim do governo Lula.

Na sessão de quinta-feira (17), o hacker Walter Delgatti Neto envolveu diretamente o ex-presidente numa suposta trama golpista. Dentre suas acusações está a de que lhe foi pedido para que criasse um código-fonte fake de maneira a mostrar que era possível trocar votos na urna eletrônica. Também afirmou que o ex-presidente lhe prometeu indulto, e que mandaria prender o juiz que o prendesse. Segundo o Delgatti Neto “eles haviam conseguido um grampo, que era tão esperado à época, do ministro Alexandre de Moraes”, e que “ele (Bolsonaro) precisava que eu assumisse a autoria desse grampo”.

Ainda que gravíssimas, as falas do hacker ainda carecem de robusta comprovação. Antes de comparecer à CPMI, ele prestou depoimento na Polícia Federal, e esta sexta-feira (18) deverá retornar para uma nova oitiva. O que se sabe até aqui, e isso nem Bolsonaro nega, é que Delgatti Neto e ele efetivamente se encontraram.

Os aliados de Bolsonaro, especialmente o senador Sergio Moro, se esforçaram em destacar o currículo de processos criminais que o hacker enfrenta. É evidente que não se trata de um sujeito probo e de reputação ilibada, e exatamente por isso sua relevância como testemunha. A estratégia de desmoraliza-lo, entretanto, apenas escancarou que tipo de gente era recebida para tratar com o presidente da República.

As duas situações caminham em paralelo e em ritmo acelerado de agravamento. No caso das joias, com uma possível delação de Mauro Cid no horizonte de curto prazo. Já na CPMI, todo um conjunto de acusações novas a partir do depoimento do hacker, o que pode levar também a novas linhas investigativas. Os últimos dias foram ruidosos e tonitruantes para Bolsonaro e seu entorno, que vão vendo as margens se estreitando por todos os lados numa tempestade perfeita. Ao fundo, o que se ouve não são os trovões, mas o badalar incessante de um pêndulo exclamando tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 22 de julho de 2023

Ataque de Jean Wyllys a Eduardo Leite expressa o autoritarismo identitarista

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 21 de julho de 2023

Ataque de Jean Wyllys a Eduardo Leite expressa o autoritarismo identitarista

Wyllys não é um promotor da tolerância, ele é apenas um arruaceiro intelectual. Um radical de esquerda que não passa de cabo eleitoral. Guilherme Macalossi para a Gazeta do Povo:

Jean Wyllys sempre foi um ego em busca de relevância. De volta ao Brasil depois de ficar os últimos anos morando na Espanha alegando ter se autoexilado por conta de ameaças que vinha sofrendo, ele parece buscar se reposicionar na cena política após abandonar o mandato de deputado federal em 2019. Foi recepcionado por Lula e Janja no Palácio do Planalto. Em um vídeo publicado em suas redes sociais, a primeira-dama chegou a escrever em tom efusivo: "Dia de dar um abraço apertado no nosso Jean Wyllys e dizer, pessoalmente, como é bom tê-lo de volta. O Brasil é seu!”. As imagens vieram acompanhadas da especulação de que seria nomeado para um cargo na Secretaria de Comunicação Social (Secom). Isso, pelo menos, até ofender gratuitamente Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul.

Na semana passada, o governo federal decidiu encerrar o programa das escolas cívico-militares. Muitos governadores, por outro lado, se manifestaram pela continuidade dessa política em seus respectivos estados. Leite foi um deles. E isso bastou para que Wyllys disparasse contra ele suas boçalidades. Usou o Twitter para postar uma mensagem vil, asquerosa e escandalosamente homofóbica. “Que governadores héteros de direita e extrema-direita fizessem isso já era esperado. Mas de um gay... ? Se bem que gays com homofobia internalizada em geral desenvolvem libido e fetiches em relação ao autoritarismo e aos uniformes; se for branco e rico então... Tá feio, bee!”.

Leite respondeu de imediato, e depois anunciou que processaria o ex-deputado no âmbito criminal. “Quando Jean Wyllys dispara ataques a uma decisão que tomei como governador, que ele pode não concordar, pode ter outra visão, mas tentar associar essa decisão à minha orientação sexual e até a preferências sexuais, devo entrar com uma representação. Fiz essa representação para que seja apurada essa conduta, essa manifestação e tenha todos os desdobramentos. (…) Não interessa se é da direita ou da esquerda, o que importa é que homofobia, preconceito e discriminação não podem ser tolerados”.

Wyllys é um radical de esquerda. Tem uma visão de mundo sectária, típica da cultura progressista woke que tomou de assalto o debate público ocidental. Para ele, é impossível que um gay tenha outro tipo de concepção que não seja exatamente a mesma de seus próprios prismas. No caldo do extremismo identitarista, não há espaço para pensamento individual. As ditas minorias, as quais ele e outros dizem representar, são tomadas como categorias essencialmente políticas. Verdadeiros feudos dogmáticos.

A partir de concepções pré-moldadas pelo academicismo de esquerda, identitaristas como Wyllys estabelecem padrões de conduta e passam então a policiar o comportamento e o pensamento daqueles que são descritos como pertencentes a esses grupos. Tolhem o senso crítico e intimidam aqueles que, eventualmente, se insurgem. Os divergentes são tratados como inimigos, representantes domesticados da sociedade patriarcal e consumista identificada como responsável por um infinito número de opressões. É um modus operandi autoritário e intolerante e, este sim, opressivo.

Em O progressista de ontem e do amanhã, o cientista político e historiador social Mark Lilla descreve como a militância identitarista, nascida a partir do governo de Ronald Reagan, corroeu o tecido social americano e apartou a esquerda do cidadão comum. Logo no início da obra, Lilla, numa autocrítica corajosa, afirma que o progressismo passou a ser visto como “uma doutrina professada basicamente pelas elites urbanas instruídas, sem contato com o resto do país, que veem os problemas atuais sobretudo pelas lentes da identidade... que dissipam em vez de concentrar as energias do que resta da esquerda”. Segundo Lilla, o efeito disso foi a resposta, pela direita, na forma do populismo conservador.

Em boa medida, Wyllys é a expressão desse fenômeno político aqui no Brasil. Ele e outros que atuam nos mesmos parâmetros também empurraram parte do eleitorado não esquerdista para o extremo do espectro ideológico. O contexto de sua volta ao Brasil prova que ele continua a gerar esse tipo de movimento. Poucas pessoas, aliás, deram tantos votos a Jair Bolsonaro quanto ele. Por via inversa, é claro.

A dimensão e repercussão dos ataques feitos Wyllys a Leite obrigaram o governo a negar que ele seria indicado para a Secom. Na última quinta-feira (20), em entrevista ao portal G1, o ministro Paulo Pimenta afirmou que “nunca houve promessa” de Lula a Wyllys de que ele teria um cargo e que “não há nada no horizonte” em relação a isso.

É claro que o episódio evidenciou a completa incompatibilidade do sujeito com uma função institucional. O governo contrataria um problema permanente, um causador de crises e constrangimentos políticos. Wyllys não é um promotor da tolerância, ele é apenas um arruaceiro intelectual. Um radical de esquerda que não passa de cabo eleitoral involuntário do extremismo político de direita.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

A missão patriótica das Forças Armadas é voltar para a caserna

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de janeiro de 2023

A missão patriótica das Forças Armadas é voltar para a caserna

A ideia de Forças Armadas atuantes como poder moderador é apenas uma perversão autoritária que ganhou corpo difundida durante o governo de Jair Bolsonaro. Guilherme Macalossi para a Gazeta do Povo:

É de Samuel P. Hungtinton a melhor teoria política sobre o papel das Forças Armadas nas democracias ocidentais. Segundo o filósofo conservador americano, militares não contam votos, não participam da vida político-partidária, não opinam sobre os rumos do país, muito menos tutelam a vida nacional como uma sombra a pairar sobre tanques. Protegem as fronteiras, guardam a integridade do território e da população, defendem os poderes constituídos e obedecem a Constituição. Hungtinton estabeleceu essa linha de corte para advogar em favor da maximização do controle civil.

A ideia de Forças Armadas atuantes como poder moderador é apenas uma perversão autoritária que ganhou escopo difundida durante o governo de Jair Bolsonaro. O ex-presidente contribuiu para criar tal percepção dando a quadros da corporação cargos e posições políticas dentro da estrutura de Estado. Mas não apenas isso. Em mais de uma ocasião ele mesmo as tratou como detentoras de uma atribuição que jamais tiveram, incluindo o crivo sobre a segurança do processo eleitoral.

Muitos oficiais estrelados passaram achar que lhes cabia, se não a palavra final sobre a legitimidade do resultado da eleição e posse de um novo governo, ao menos uma autoridade paralela de maneira a emparedar quem tomasse posse. E foi assim que chegamos à troca do comando do Exército ocorrida no final de semana.

A demissão do general Júlio César de Arruda é resultante de uma crescente desconfiança do novo presidente em relação à atuação da corporação antes, durante e, principalmente, depois dos atos antidemocráticos que culminaram na depredação da sede dos Três Poderes.

Arruda parecia criar empecilhos para que o acampamento na frente do quartel-general do Exército em Brasília fosse desmanchado. Foi pouco prestativo na punição de militares envolvidos nos ataques. Também se envolveu em uma dura discussão com Flávio Dino, ministro da Justiça, sobre a prisão dos militantes envolvidos nos atos do dia 8. A gota final foi sua recusa em cumprir a ordem de Lula para que o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de Bolsonaro, fosse designado para uma unidade das Operações Especiais. Com isso, o clima que já era difícil se tornou insustentável.

Lula atuou para restabelecer a hierarquia e conter a insubordinação. No lugar de Arruda colocou o general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, que estava à frente do Comando Militar do Sudeste. Essa semana, o novo responsável pelo Exército viralizou com um discurso no Quartel-General Integrado, em São Paulo. Falando para a tropa, conclamou seus subordinados a respeitarem o resultado das urnas e lembrar que sua instituição é do Estado.

É bem provável o general Paiva tenha lido Hungtinton, ou ao menos não o despreze. Mas isso é o de menos. O que importa é que sua manifestação altiva em favor dos marcos da democracia representa a oxigenação na conduta dos altos oficiais das Forças Armadas. Que ele sinalize positivamente em favor de suas reais funções, atue para depurar quadros transgressores, e, principalmente, conscientize seus comandados que, no momento, a grande missão patriótica dos militares é voltar para a caserna.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Enquanto Bolsonaro come fast food, ex-aliados disputam seu espólio...

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 4 de janeiro de 2023

Enquanto Bolsonaro come fast food, ex-aliados disputam seu espólio e Lula brinda o retorno ao poder.

Quando decidiu embarcar para os Estados Unidos, Bolsonaro precipitou o fim de seu mandato e abriu mão do protagonismo até então inconteste sobre o que se convencionou chamar de direita brasileira. Guilherme Macalossi para a Gazeta do Povo:

Só um parvo pode imaginar que o fim do governo de Jair Bolsonaro representa o fim do bolsonarismo em si. Com ou sem ele, é um movimento que veio para ficar. Seu espólio político agora já está sendo disputado pelas diferentes alas que compunham sua base ideológica de apoio. E isso fica evidente com o pronunciamento de Hamilton Mourão, que foi presidente em exercício por apenas um dia, mas em tempo suficiente para usar a estrutura pública como forma de atacar seu colega de chapa quando este estava em voo aos Estados Unidos.

A manifestação pública de Mourão foi menos por amor à democracia e às instituições e mais por oportunismo puro e simples. Desde já quer se cacifar para 2026 como líder da oposição ao presidente Lula, e para isso precisa se projetar no campo antipetista. Ainda que sem citar nomes, sua fala em rede nacional de rádio e TV serviu para fustigar Bolsonaro acusando-o de omissão deliberada e de fomentar a ruptura institucional: “Lideranças que deveriam tranquilizar e unir a nação em torno de um projeto de país deixaram com que o silêncio ou o protagonismo inoportuno e deletério criasse um clima de caos e de desagregação social e de forma irresponsável deixaram que as Forças Armadas de todos os brasileiros pagassem a conta, para alguns por inação e para outros por fomentar um pretenso golpe”, disse.

A reação de Carlos e Eduardo Bolsonaro, inclusive de forma ofensiva, demonstra que a disputa pelo controle do campo bolsonarista tende a ser fratricida. Ao longo dos próximos quatro anos, outros atores certamente buscarão espaço. É o caso de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, e de Romeu Zema, reeleito no 1° turno em Minas Gerais.

Bolsonaro negou o resultado da eleição e boicotou o rito de passagem da faixa presidencial na esperança de que isso ensejasse um movimento de contestação que impedisse a posse. Deu errado. Quando decidiu embarcar para os Estados Unidos, precipitou o fim de seu mandato, abriu mão do protagonismo até então inconteste sobre o que se convencionou chamar de direita brasileira, além de conceder ao seu adversário a possibilidade de moldar a posse presidencial de acordo com os pressupostos ideológicos do lulopetismo.

Ao contrário do que diziam os grupelhos extremistas, Lula acabou subindo a rampa do Palácio do Planalto. E o fez com todo o simbolismo político possível. Juntou estratificações sociais diversas e produziu uma imagem poderosa que viralizou pelo mundo. Lula apareceu ao lado de um índio, de uma mulher com deficiência física, de um menino negro e de outros representantes das camadas populares escolhidos a dedo.

Ainda que se possa questionar a demagogia do ato de Lula – e ele foi criado exatamente para reproduzir uma narrativa política – ninguém poderá contestar o fato de ele só foi possível porque Bolsonaro renunciou às suas obrigações institucionais. Cumprisse seu papel de entregar a faixa, disputaria atenção dos holofotes com seu sucessor. Essa falta de percepção óbvia, além do fato de ter abandonado seus militantes na frente dos quartéis, ressalta a inaptidão para a liderança e o fragiliza como figura central da oposição de direita. Enquanto Bolsonaro come fast food nos EUA, seus ex-aliados se refestelam com seu espólio político deixado no Brasil e Lula brinda o retorno ao poder.

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sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Com Lula, os bolsonaristas furadores de teto agora viram fiscalistas ortodoxos

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 9 de novembro de 2022

Com Lula, os bolsonaristas furadores de teto agora viram fiscalistas ortodoxos.

Isso, entretanto, será tarefa de gente realmente preocupada com o equilíbrio das contas públicas, e não de bolsonaristas que fizeram duplo twist carpado retórico para agora posarem de ortodoxos empedernidos. Guilherme Macalossi para a Gazeta do Povo:

Os fiscalistas estão de volta. Ficaram sumidos por quatro anos, período em que o governo de Jair Bolsonaro furou reiteradamente o teto de gastos, inclusive pela imposição de necessidades eleitorais. Entre uma palestra e outra, Paulo Guedes subverteu a regra original que foi criada por Henrique Meirelles. Ao invés da despesa caber no teto, o teto é que foi sendo aumentado para caber na despesa. E não uma vez, mas diversas. Na última, com a famigerada PEC Kamikaze, foi inventado até um estado de emergência, de maneira a desviar a Lei Eleitoral e se conceder benefícios na véspera do pleito.

No conjunto da obra bolsonarista, mais de R$ 236 bilhões foram escamoteados da regra fiscal, que foi sendo desmoralizada ao mesmo tempo em que os governistas juravam preservá-la. Basta somar o custo da PEC das Cessões Onerosas, da PEC Emergencial, da PEC dos Precatórios e da já mencionada PEC Kamikaze. Depois de tudo isso, o que sobrou foi um arcabouço mutilado e pronto para ser modificado mediante qualquer necessidade momentânea.

Eis que Lula, eleito presidente, move sua força política para repetir o antecessor. A discussão é apenas se por Emenda Constitucional ou Medida Provisória. O que se sabe é que o furo, agora chamado de waiver, virá, e dessa vez no montante de outros R$ 200 bilhões a serem gastos no início do próximo mandato. A diferença é que a artimanha, outrora aplaudida durante o governo Bolsonaro, agora sofre a contestação de quem ajudou a fazer da lei letra morta.

Em suas redes sociais, Hamilton Mourão postou que “o futuro governo do Lula está negociando com o Congresso um rombo de 200 bilhões no orçamento de 2023, ou seja, zero compromisso com o equilíbrio fiscal”. Segundo o vice-presidente senador eleito pelo Rio Grande do Sul “o resultado será aumento da dívida, inflação e desvalorização do Real”. A argumentação poderia ser legítima não tivesse sido ele um entusiasta dos furos anteriores.

Quando da apresentação da PEC Kamikaze, Mourão a descreveu como uma forma de “mitigar aí a situação das pessoas mais necessitadas”, e de “diminuir o preço dos fretes e o impacto do preço do que você compra no mercado”. E agora? Por que seria diferente? Afinal, o governo eleito alega que os gastos sociais, inclusive para despesas criadas por Bolsonaro, ficaram de fora do orçamento de 2023, e que os recursos pretendidos seriam exatamente para esse fim. As condições sociais mudaram em tão pouco tempo para justificar para tal mudança de posição do vice-presidente?

Nessa semana, o site Poder 360 publicou informação de que, numa versão mais extrema da PEC da Transição, haveria a proposta de, além da revogação do restante da lei do teto de gastos, também se acabar com a regra de ouro e o resultado primário. Com o anúncio de nomes como Pérsio Arida e André Lara Resende na equipe de transição, tal hipótese fica mais distante. Ainda assim, a fiscalização em cima do petismo terá de ser permanente de modo a evitar que repita o estrago econômico que fez no país a partir de 2008. Isso, entretanto, será tarefa de gente realmente preocupada com o equilíbrio das contas públicas, e não de bolsonaristas que fizeram duplo twist carpado retórico para agora posarem de ortodoxos empedernidos.

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TRÊS COMENTÁRIOS: 

Maquiavel Messias disse...

Perfeito! Esta é a essência do Bolsopetismo. Aliás, a expressão "bolsopetismo" apoia-se na percepção de que bolsonarismo e petismo têm mais em comum do que seus militantes gostariam de admitir. Os dois movimentos políticos seriam, como no reflexo de um espelho, idênticos, mas com imagens invertidas. Ambos acreditam cegamente na narrativa política de seus líderes de traços messiânicos. Ambos aderiram à política do toma lá dá cá (fisiologismo) na relação com o Congresso Nacional. Ambos são movimentos populistas que nasceram da visão redentora de um líder carismático, sem papas na língua, que se diz amparado pelo povo na luta, seja contra as "elites" seja contra o establishment político. E o populista transforma a política num negócio e, então, para ele, passa a ser natural negociar tudo, mesmo as coisas mais infames e sujas. Vide Mensalão, Petrolão, Bolsolão, Orçamento Secreto, ops, digo Emendas do Relator. Como disse o meu xará, política, ética e religião nem sempre se combinam!

quarta-feira, novembro 09, 2022 

Anônimo disse...

Grande Paulo Guedes! Este cidadão deveria ser canonizado pelo papa-pajé Bergoglio, por ter produzido um novo milagre: encolheu a renda da população brasileira. Em reais, renda do brasileiro volta a 2012; Em dólares, ficou abaixo do nível de 2008!

quarta-feira, novembro 09, 2022 

Anônimo disse...

João Gustavo diz:

Onde Paulo Guedes encolheu a renda?? Melhor ministro da Economia desde Roberto Campos

quarta-feira, novembro 09, 2022 

Artigo, imagem e comentários reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com