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sábado, 10 de outubro de 2020

O estranho caso do Dr. Frakassio


Publicado originalmente no BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 8 de outubro de 2020

O estranho caso do Dr. Frakassio

O episódio de Kassio Nunes Marques demonstra um velho vício brasileiro: apegar-se aos sinais exteriores de prestígio e desprezar o verdadeiro conhecimento. Paulo Birguet, via Brasil Sem Medo:

No primeiro capítulo de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, Lima Barreto descreve os hábitos de seu protagonista, que era subsecretário do Arsenal de Guerra e todos os dias chegava em casa às quatro e quinze da tarde ― sendo de tal forma pontual que os vizinhos acertavam o relógio pela sua chegada. No aspecto de pontualidade e dos hábitos rígidos, Quaresma pode ser comparado ao filósofo alemão Immanuel Kant. Mas há outra semelhança entre eles: Quaresma também era dedicado à leitura. Possuía uma biblioteca, o que lhe valeu a antipatia do Dr. Segadas, um clínico afamado da vizinhança: “Se não é formado, para que livros? Pedantismo!”

Logo no começo de seu mais famoso romance, Lima Barreto capta, portanto, uma característica do espírito nacional: o apego excessivo aos símbolos exteriores de prestígio intelectual, acompanhado de um profundo desprezo pelo verdadeiro conhecimento. O fenômeno já foi apontado brilhantemente por Olavo de Carvalho em vários artigos, entre os quais destaco “A volta do dr. Segadas”. O próprio Olavo é alvo constante do mesmo tipo de ataque: de que adianta ter publicado uma vintena de livros fundamentais (entre os quais dois best-sellers e uma obra-prima chamada “O Jardim das Aflições”), tornar-se o pensador mais influente do país, ser elogiado por mestres do pensamento e da literatura, formar uma geração inteira de intelectuais e escrever como os gigantes do idioma ― se o homem não tem diploma na parede?

O diplomaparedismo ― para roubar o termo usado por minha amiga Ludmila Lins Grilo ― continua arraigado no espírito brasileiro, e não há quem consiga arrancá-lo de lá. O que me leva à conclusão de que Olavo se enganou no título do seu artigo de 2007: não se pode falar propriamente na “volta” do Dr. Segadas, uma vez que ele jamais foi embora. Só a persistência desse apego patético ao canudo, ao título e, por que não, aos dividendos funcionais e políticos advindos da titulação acadêmica explica as recentes trapalhadas curriculares de Carlos Decotelli, o Doutor Honoris Quase, e Kassio Nunes Marques, este jurista súbito que parece, lamentavelmente, seguir o mesmo caminho.

O que, senão a síndrome do Dr. Segadas, explicaria a incrível, surpreendente, milagrosa coincidência de um magistrado obter o título de doutor apenas 11 dias antes de ser indicado à Corte Suprema, bem como o aparecimento concomitante de dois pós-doutorados súbitos? Quem, senão o famoso rival do Major Quaresma, justificaria a metamorfose da participação como ouvinte em um simpósio de quatro dias em um curso de pós-graduação destacado no currículo?

De minha parte, interesso-me muito menos pelos títulos do Dr. Kassio do que pelo conteúdo de seus escritos, sejam eles acadêmicos ou judiciais. E quem leu os seus trabalhos ― como a deputada Janaína Paschoal e o nosso repórter-escritor Fábio Gonçalves ― não gostou nem um pouquinho do que encontrou por lá. A defesa do ativismo judicial (simplesmente a maior ameaça à democracia brasileira), a adesão ao garantismo penal (alegria da bandidagem) e as loas a Ronald Dworkin (ícone do progressismo de toga, do qual Moro também é fã) são muito mais graves do que as patacoadas no currículo (embora, naturalmente, erros maiores não apaguem os menores). De tudo que se depreende agora, temos que Kassio Nunes Marques seria, na melhor das hipóteses, um Barroso menos pavão. Um notável frakassio, se me permitem o trocadilho.

Mostra-me tua obra e eu te direi quem és. O diploma? Pode pendurar na parede, como fazia o Dr. Segadas.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.

Texto e imagem reproduzidos do site: otambosi.blogspot.com

domingo, 13 de setembro de 2020

A conversão de um ateu


 Texto compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 11 de setembro de 2020

A conversão de um ateu

Naquele dia, diante da igreja queimada, eu fiz a minha primeira oração em muitos anos. Paulo Briguet, via Brasil Sem Medo:

Durante muitos anos fui ateu. Chesterton tinha razão: quem não acredita em Deus acaba acreditando em qualquer coisa. Ao perder a fé católica da infância, passei a crer no materialismo mais tosco. Lembro-me claramente do dia em que uma amiga perguntou: “Paulo, qual é o sentido da vida para você?” Respondi sem vacilar: “A busca do prazer!” Tinha 19 anos.

Com o tempo, o hedonismo se transformou em paixão política. A leitura compulsiva de autores esquerdistas — estes que ainda gozam de grande reputação nas universidades e na mídia — fez de mim um curioso tipo de militante revolucionário (ou, pelo menos, era o que eu imaginava). Participei do movimento estudantil, fiz discurso em assembleias, frequentei inúmeras e intermináveis reuniões políticas, defendi greves e invasões, escrevi artigos incendiários, fui dirigente sindical. Acreditava que a maior tarefa do jornalista era “transformar a sociedade”. Minha pauta era fazer a revolução, e eu a estudei profundamente.

O ideal socialista começou a fazer água quando passei a ler autores críticos à mentalidade revolucionária. Em minha opinião, era um dever moral do estudioso militante conhecer o pensamento liberal e conservador para melhor criticá-lo. Li autores "de direita" — como diziam meus companheiros, cheios de nojo. Li também obras religiosas que fariam um Trotsky ou um Gramsci subir nas paredes.

O resultado é que os críticos acabaram por me convencer. Livrei-me do autoengano. Hoje sei que todas as experiências revolucionárias socialistas, sem exceção, resultaram em catástrofes, mortandades e genocídios. Se, para Marx, a economia é o motor da história, o ódio — aquele que transforma o revolucionário numa "fria máquina de matar", nas palavras de Che Guevara — é o motor da revolução. Percebi que o problema não estava na má aplicação das ideias revolucionárias, mas nelas próprias. Em toda a história desses movimentos, a começar pela Revolução Francesa, não há um só exemplo decente a ser apresentado.

Pouco antes de fazer 30 anos, ao contemplar uma igreja incendiada na cidade histórica de Mariana, em Minas Gerais, descobri que todas as esperanças políticas da minha juventude não passavam de um substituto demoníaco para a fé religiosa perdida na infância. Embora minha mudança tenha sido gradual, posso dizer que naquele momento eu abandonava o grande engano da revolução. A igreja queimada era a imagem da minha alma — algo que eu precisava recompor minuciosamente, se não quisesse perder-me para sempre.

Ali mesmo, em Mariana, fiz a minha primeira oração em muitos anos.

Mas devo confessar que não ficara totalmente afastado de Deus durante meu período de ateísmo. Costumava viajar sempre no Expresso Birigui, linha Londrina-Araçatuba. Os ônibus da companhia —hoje extinta — eram velhos e mal conservados. Certo passageiro ateu morria de medo de morrer em um desastre rodoviário. Silenciosamente, no começo das viagens, fechava os olhos e pensava: “Se Você existe, proteja-me!”

No Evangelho de Marcos, o reino dos céus é comparado por Jesus a um grão de mostarda: “(...) é a menor de todas as sementes que há na terra; mas, tendo sido semeado, cresce; e faz-se a maior de todas as hortaliças, e cria grandes ramos, de tal maneira que as aves do céu podem aninhar-se debaixo da sua sombra”. Aquela pequena oração que eu fazia a contragosto no Expresso Birigui era o grão de mostarda, a semente da minha fé futura. A fé com que escrevo estas palavras agora.

Sim, o interlocutor das orações no Expresso Birigüi não apenas existe como também se empenhou durante vários anos em livrar-me do mal, mesmo diante da minha mais categórica recusa: “Em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e há de passar; e nada vos será impossível”.

Comecei com Chesterton, encerro com ele: “Se Deus não existisse, não haveria ateus”.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.

Texto e imagem reproduzidos do blog otambosi.blogspot.com