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quinta-feira, 18 de setembro de 2025

A crise brasileira está desmoralizando seus principais atores

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 17 de setembro de 2025

A crise brasileira está desmoralizando seus principais atoresill

PEC da Blindagem, ou da Bandidagem, é mais um retrato nítido de como o corporativismo de agentes públicos opera principalmente para conquistar ou defender o que é ‘seu’. William Waack:

Olhando para a PEC da Blindagem na Câmara pode-se argumentar se é a esculhambação na política que leva a uma perda de juízo generalizada, ou se é o contrário. O resultado permanece o mesmo.

É o agravamento de uma situação em si bastante perigosa, que vem se disseminando há bastante tempo e se solidificando em vastos estratos sociais, ignorando divisões ideológicas. É a ideia de que o “sistema” está quebrado.

Por “sistema” entende-se “tudo”, ou seja, partidos, Poderes, leis, instituições, normas, regulamentos. Esse conjunto é percebido como incapaz de responder às questões mais desafiadoras (como crescimento da economia, por exemplo) ou é visto como viciado para favorecer determinada corrente grupo política e perseguir outra.

A crise brasileira mais abrangente pode ser descrita como a incapacidade de enfrentar os principais problemas “estruturais” (os grandes responsáveis por desigualdade, miséria e injustiça), tais como a janela demográfica, a estagnação da produtividade e os péssimos resultados em educação. A expressão mais imediata dessa grande crise é o clima de cada um por si.

A reforma tributária (na qual quem podia garantiu o seu) e as renúncias fiscais (a exceção vira direito adquirido) são exemplos fortes desse arraigado estado de espírito. No sentido ainda mais imediato a PEC da Blindagem (ou da bandidagem, como se quiser) é mais um retrato nítido de como o corporativismo de agentes públicos opera principalmente para conquistar ou defender o que é “seu”.

A erosão da legitimidade e a desmoralização dos Poderes tem sido, nesse sentido, uma obra coletiva de longa duração. O sistema de governo colabora para desmoralizar a figura do chefe do Executivo (que nada faz sem o Legislativo). O sistema proporcional de voto colabora para tornar principalmente a Câmara uma casa de baixíssima representatividade, fracionada e dissociada de interesses nacionais abrangentes (fora todo o resto).

Integrantes do STF tem dificuldades em reconhecer como a própria instituição está sendo desmoralizada na luta política da qual passou a fazer parte como ator. A realidade política que a Corte enfrenta é a do crescente descrédito junto a uma enorme parcela da sociedade que não pode ser designada como “adversários liberticidas bolsonaristas”.

Os avanços incrementais que alguns operadores políticos detectam (como melhoria na legislação eleitoral, por exemplo) contrastam com um ambiente geral no qual prevalecem hoje imprevisibilidade, insegurança jurídica e a falta de lideranças abrangentes dentro ou fora da política. Cabe tudo, porém, na palavra do momento: ansiedade.

Teexto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Diversos fatores estão se combinando para formar uma só grande crise...

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de janeiro de 2025

Diversos fatores estão se combinando para formar uma só grande crise para o governo Lula

Inflação está subindo, popularidade descendo, a economia está esfriando, as dificuldades políticas aumentando e a capacidade de tocar uma agenda política diminuindo. William Waack:

É até com certa fleuma que Lula parece caminhar para um cenário dominado por componentes preocupantes. Ou então é a calma dos que ignoram o que pode acontecer, pois até aqui nada é galopante.

A tendência da inflação – o pior inimigo da popularidade de qualquer governo – é de subida. Os gráficos apontando para cima já vêm desde a metade do ano passado. Não causaram pânico, mas seu efeito corrosivo é palpável.

O mesmo ocorre com as taxas de crescimento de um PIB muito dependente do expansionismo fiscal e, portanto, do consumo das famílias. As previsões de que a economia vai esfriar são unânimes, o que parece se confirmar diante do sufoco causado por juros elevadíssimos.

Antecipa-se que seus efeitos serão igualmente corrosivos, embora seja muito difícil afirmar em que prazo. Não se acredita em danos de grande monta ainda no mercado de trabalho .

São constantes e repetitivas as derrotas do Lula 3 nos embates em redes sociais. Elas acompanham as enormes dificuldades políticas no confronto com o Legislativo, que deixaram somente o Judiciário como grande aliado do Planalto. O governo cambaleia, mas é iminente um nocaute.

O problema é a combinação de inflação subindo, popularidade descendo, economia esfriando, dificuldades políticas aumentando e capacidade de tocar uma agenda política diminuindo. Evitar que essa mescla se converta em “massa crítica” implica de diagnóstico preciso da situação.

O único que Lula 3 forneceu até aqui é o de “problema de comunicação”. O Planalto não vê a sinuca de bico fiscal, considera que o PIB sempre será melhor do que se previa, que a relação entre os poderes pode ser controlada pela concessão de ministérios e que desconfiança é mero resultado de fake news criadas pela oposição.

Parte dos fatores negativos estão fora do controle, como o delicado cenário internacional. Mas o que está encolhendo são as ferramentas para dar conta de deterioração política e econômica doméstica, até aqui razoavelmente ao alcance do Planalto.

Do lado econômico, as escolhas por uma política fiscal expansionista ajudaram a acelerar a inflação e reduziram espaço de manobra se as coisas continuam como estão – ou seja, pisar no acelerador significa impulsionar a crise de desconfiança.

Do lado político, o pecado original na montagem da coligação governista e a incapacidade do PT de realmente dividir o poder restringiu a margem de manobra e foi totalmente incapaz de impedir que o Legislativo deixasse de avançar sobre as prerrogativas do Executivo. Em outras palavras, Lula manda menos hoje do que há dois anos.

A ficha ainda não caiu.

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sexta-feira, 25 de outubro de 2024

O visível desgaste de Lula e Bolsonaro

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 24 de outubro de 2024

O visível desgaste de Lula e Bolsonaro

A paisagem política está mudando com rapidez para ambos. Para o PT, o problema é falta de perspectiva; para o bolsonarismo, é o fracionamento do grande espectro da “direita. William Waack:

Mais cedo do que se supunha, Lula e Jair Bolsonaro ficaram obrigados a pensar em herdeiros para seus votos. O desgaste dos dois nomes tornou-se visível nas eleições municipais. E, para ambos, é ainda mais complicado o caminho até 2026.

No caso de Lula, o tempo pesa de dupla maneira. Aos 78 de idade, Lula não esconde seu cansaço. Aos 45 de existência, o PT não esconde que perdeu eleitorado e, principalmente, ideias. O partido que se julgava “intérprete” das camadas desfavorecidas desaprendeu a falar para os pobres.

Em 2010, Lula transferiu facilmente seu potencial de votos para Dilma Rousseff, a figura que ele escolheu. Desta vez, não só está em aberto quem ele indicaria caso não se candidate (o que também está em aberto), mas também o tamanho do “legado” eleitoral que teria a transferir.

Desde a primeira vitória de Dilma (quase o tempo de uma geração), o País foi sacudido por acontecimentos que trouxeram entre as consequências uma sólida resistência a Lula e ao petismo — e um forte sentimento antissistema cujo “desenvolvimentismo” do atual governo (leia-se expansão de gastos públicos) não foi capaz de reverter.

Para Bolsonaro, o problema pessoal central é escapar da cadeia. No momento, o cenário mais provável para o ex-presidente é o da apresentação de pelo menos uma denúncia contra ele pelo procurador-geral da República.

Não se sabe quão robusta seria a denúncia por tentativa de golpe de Estado, mas, dada a atual situação no STF, assume-se que a Corte o condenaria por 5 a 0 (o ex-presidente vai ser julgado na Primeira Turma). Já está inelegível, condição da qual parece ter pouquíssimas chances de escapar.

Para o PT, o problema central é falta de perspectivas, pois o partido não soube entender as transformações sociais no eleitorado de baixa renda. Para a “direita”, é o forte fracionamento do seu enorme e crescente potencial eleitoral. Bolsonaro é um dos fatores que agravam os evidentes rachas.

Os poucos estrategistas que sobraram no PT nutrem a esperança de que a consolidação de sua base, ainda que menor do que já foi, seria suficiente para prevalecer nas próximas eleições. Mas, se o que ocorre nas eleições municipais de São Paulo serve de alerta, num segundo turno o “voto de direita” se consolida no antipetismo, não importam as dificuldades de se concentrar em um só grande nome no primeiro turno.

É importante assinalar que Lula e Bolsonaro permanecem sendo figuras históricas de grande relevância. Mas estão percorrendo de forma acelerada o caminho que vai tirá-los do lugar no qual bem pouco tempo atrás pareciam inabaláveis: o de definir os limites do embate político brasileiro.

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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

25 de fevereiro: Bolsonaro aposta na impopularidade do STF

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 15 de fevereiro de 2024

25 de fevereiro: Bolsonaro aposta na impopularidade do STF.

Talvez o que Bolsonaro espere do chamado às ruas seja dar ao Congresso um tipo de “impulso popular” para seguir adiante na tramitação de medidas voltadas para “cercar” a atividade do STF. William Waack:

Foi sempre difícil estabelecer o que era estratégia ou fantasia na cabeça do personagem político Jair Bolsonaro. Sempre pareceu mais “sentir” do que “pensar” em como agir.

Juntou delírios (como o negacionismo da ciência) a uma por vezes precisa avaliação da realidade política e social, como foi a descrição que fez, no já famoso vídeo da reunião ministerial de julho de 2022, da própria vitória em 2018. “Foi uma cagada”, disse.

De fato, é uma boa definição da excepcionalidade da conjunção de fatores que o permitiu derrotar as engrenagens políticas, o “sistema”, as previsões. De lá para cá, Bolsonaro parece ter acreditado que a excepcionalidade sempre se repetiria a seu favor.

Na leitura que faz hoje da realidade política, há um componente de cálculo a partir de fatos, e menos esperanças de que eventuais “milhões” na Paulista no dia 25 o livrem da cadeia. O ex-presidente conta com uma considerável corrente dentro do Congresso disposta a peitar o STF.

Por sua vez, os parlamentares ecoam em parte uma disseminada visão crítica do Judiciário em geral e do STF em particular em amplos setores da sociedade. Que se alastra por confissões religiosas (discussão sobre aborto), categorias profissionais, segmentos da economia (especialmente o agro) e talvez configure o principal elo de “conexão” das narrativas radicais bolsonaristas com espectros mais amplos da opinião pública.

Talvez o que Bolsonaro espere do chamado às ruas seja dar ao Congresso um tipo de “impulso popular” para seguir adiante na tramitação de medidas voltadas para “cercar” a atividade do STF. Além, claro, de solidificar sua imagem de “vítima”, algo que seu principal adversário soube tão bem explorar a vida política inteira.

Figuras influentes dentro do Supremo perceberam há tempos o tipo de armadilha política na qual a Corte acabou caindo. E têm reiterado a necessidade de retorno à “normalidade” jurídica (qual? quando?) e de evitar a qualquer custo a ideia de “fazer história” e conduzir a sociedade para onde ela mesma não sabe que deveria ir.

O problema é que fazer o gênio voltar para a garrafa não depende mais da postura individual de um ministro como Alexandre de Moraes e seus inquéritos e investigações. O dinamismo político disso tudo é próprio e dificilmente se controla.

O alvo é o bolsonarismo, sua principal figura política e o que tentaram armar. Bolsonaro insiste na linha de defesa de afirmar que tudo não passa de uma grande armação política, com o STF aliado ao atual governo de esquerda. O problema é que milhões pensam e sentem como ele.

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

O governo Lula não entende a natureza do conflito na Ucrânia

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de fevereiro de 2023

O governo Lula não entende a natureza do conflito na Ucrânia

A velha ordem internacional acabou, colocando o Brasil diante de complexas escolhas. William Waack:

Até aqui o governo Lula não parece ter entendido a natureza do conflito na Ucrânia. Ou pretende não entender.

Não se trata de ação armada fruto de “um equívoco”, como o presidente descreve a invasão deflagrada por Putin. Na sua essência, é parte relevante da contestação da ordem que vigorou desde a 2.ª Guerra Mundial.

A ascensão veloz da China ao papel de desafiadora do “hegemon” (EUA), por si só, já seria o grande fator de contestação. É o que faz clássicos do hiper-realismo duvidarem que NÃO venha a ocorrer grave conflito militar entre as superpotências.

Mas tanto China como Rússia “aceleraram” o processo. Ambas enxergam o Ocidente como uma grandeza em declínio. Especialmente Putin juntou o velho imperialismo russo de mais de dois séculos com seu entendimento da “decadência moral” dos países ocidentais.

O resultado é uma profunda transformação na qual o que parecia garantido – um regime internacional baseado em respeito a regras e integração cada vez maior de comércio e cadeias produtivas, a tal globalização – está recuando na própria substância.

Nesse novo contexto, multilateralismo e “governança” global passaram a ser figuras de retórica, às quais o governo brasileiro parece abraçado. Assim, é difícil imaginar um eixo sul-sul, em oposição a um “norte”, quando se percebe que pelo menos dois integrantes dos Brics estão de um lado no conflito, e não apenas na Ucrânia.

A guerra na Ucrânia não é um episódio isolado, diante do qual vamos é ficar quietinhos, aproveitar as oportunidades, tratar de não ofender ninguém e posar de bom moço repetindo platitudes inúteis sobre “paz” e oferecendo-se para negociar entre beligerantes – o caminho trilhado por Lula até aqui.

São forças históricas de imensa amplitude em ação, e que conduzem países como o Brasil (potência média de influência regional) não propriamente a escolher um “lado”. Mas, sim, a optar por um “mundo”.

A guerra em curso até aqui desmentiu os cálculos estratégicos de China e Rússia, que presumiam sobretudo incapacidade de ação conjunta e coesão por parte do adversário. O campo de batalha da Ucrânia demonstrou não só a atual superioridade tecnológica ocidental, que a autocracia chinesa é capaz de superar. A lição fundamental é a de que sociedades abertas no fundo mudam mais rápido, adaptam-se melhor (a Alemanha abandonou o pacifismo) e têm melhor desempenho na relação entre poder civil e operações militares.

O que se explica pelos valores em torno dos quais essas sociedades se desenvolveram e prosperaram. O Brasil é parte do mundo ocidental.

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sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Lula e os militares: sobra fígado e falta cérebro

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de janeiro de 2023

Lula e os militares: sobra fígado e falta cérebro.

A pacificação é condição necessária, porém não suficiente para tirar a relação presidente-militares do atual estágio, que é o da falta de respeito mútuo. William Waack:

O princípio da autoridade depende do respeito entre quem manda e quem obedece. Inversamente, desconfiança mútua corrói a capacidade de dar ordens e dificulta que sejam cumpridas.

É o ponto em que está no momento a relação entre Lula e os militares.

Os resultados que isto produz estão em Command, mais uma obra monumental de Sir Lawrence Freedman (do clássico Strategy), do King’s College de Londres, que acaba de ser publicada. O foco é entender como a relação entre autoridades civis e militares condiciona decisões de todo tipo, sobretudo em guerras.

“Os que dão as ordens deveriam ter a autoridade que traz o respeito de subordinados”, escreve Freedman. “Autoridade é algo a ser conquistado, não para ser dada como certa – e isso vale para os civis e para os generais.”

A autoridade de um chefão de sindicato pode ser exercida com um murro na mesa. Mas Lula tem experiência suficiente como presidente para saber que a autoridade constitucional de comandante em chefe das Forças Armadas é mais ampla e sofisticada, pois envolve duas formidáveis instituições de Estado.

“Pôr os militares no seu lugar” ou “devolver os generais aos quartéis” são frases de efeito que comovem a militância. E produzem o resultado contrário do que se pretende, isto é, estabelecer o “engajamento mútuo” entre poder civil e militar num período político crítico.

Da mesma maneira, generais sabem que, uma vez desrespeitados hierarquia e códigos internos, as cadeias de comando são fortemente abaladas. É o que aconteceu no episódio no qual o general Pazuello não foi punido por ter participado de manifestação política com Bolsonaro.

De lá para cá a “contaminação” bolsonarista nas Forças só piorou. Trata-se essencialmente do estado interno das cadeias de comando e sua relação com a autoridade civil. O fenômeno é amplo e preocupante pelo fato de integrantes de alta hierarquia militar aceitarem pro forma a figura institucional do atual presidente, mas duvidando da lisura da eleição e questionando o papel de tribunais superiores.

Do outro lado, o entorno de Lula reforça nele cacoetes que, por exemplo, o fazem se referir ao Comando Militar do Sudeste ainda como “2.º Exército” (uma das sedes do DOI-Codi na ditadura). Com consequências severas: o entorno de Lula não quer mais militares ao seu redor, de patente alguma (são considerados até risco à segurança física do presidente), reiterando profunda desconfiança na instituição, e não só em indivíduos.

“Pacificação”, como reitera o atual ministro da Defesa, é condição necessária, porém não suficiente para tirar a relação presidente-militares do atual estágio, que é o da falta de respeito mútuo. Está sobrando fígado e faltando cérebro.

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sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Lula emparedado

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10 de novembro de 2022

Lula emparedado

O êxito ou o fracasso de seu governo dependerá em boa medida da capacidade de superar essas barreiras. William Waack:

Lula ainda não assumiu, mas já é possível constatar o quanto está emparedado. O êxito ou o fracasso de seu governo dependerá em boa medida da capacidade de superar essas barreiras.

O vai e vem em torno da fórmula para financiar o Bolsa Família pagando R$ 600 por mês demonstrou como é estreita a margem de ação legal, embora exista uma quase unanimidade política pela manutenção do benefício social nessas dimensões. Demonstrou também como é estreita a margem de atuação fiscal.

Esse é um problema gritantemente óbvio e uma das principais heranças não só de Bolsonaro. Até aqui Lula vem tentando escapar dessa parede – a necessidade de uma âncora fiscal, ou seja, de um limitador de gastos –, criando uma falsa dicotomia entre “responsabilidade fiscal” e “responsabilidade social”, quando são a mesma coisa.

Agentes econômicos que se preocupam com juros e inflação não compram essa frase de palanque. Nem concedem ao presidente eleito o benefício da dúvida quando constatam que os nomes que integram a equipe de transição são água e óleo em termos de doutrinas econômicas.

Particularmente nas questões que envolvem princípios ou “escolas de pensamento” (economia e política externa, por exemplo) Lula, por enquanto, está emparedado pela velha-guarda do partido. Ela já funciona como freio no protagonismo de Geraldo Alckmin e o teste da solidez dessa parede virá o mais tardar quando o presidente eleito nomear as prioridades.

Lula enfrenta outra questão de emparedamento – a dos poderes ampliados do Legislativo – que não é meramente circunstancial e que pudesse ser eliminada via compromissos políticos acrescentando siglas partidárias à “base”. O Brasil vive de fato uma situação de semipresidencialismo com dois primeiros-ministros, da qual o orçamento secreto é apenas sua expressão mais visível.

A pior situação de emparedamento, contudo, é a profunda divisão política do País. O novo governo provavelmente terá poucas dificuldades em lidar com os protestos bolsonaristas, que persistem, mas têm limitado alcance, e de apelo golpista sem perspectivas de êxito. Bolsonaro se mostrou incompetente na articulação de uma “virada” institucional (eufemismo para golpe) e seu receio de ser preso tem fundamento.

O verdadeiro emparedamento é o mais difícil de todos. Surge da enorme desconfiança em relação ao PT (um pouco menos em relação a Lula) nutrida por vastos setores sociais (incluindo religiosos), políticos e econômicos, com destaque para segmentos como a agroindústria. É grave erro político igualar essa oposição ao alarido da extrema direita bolsonarista.

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UM COMENTÁRIO:

Maquiavel Messias disse...

Aos fatos, como escreve Claudio Dantas: "Na prática, Lula exerce o mandato de forma antecipada, diante da absoluta omissão de Bolsonaro, que parece ter abandonado a cadeira presidencial, assim como o Ministério da Defesa abandonou os ‘bolsonaristas de rua’ que sonhavam, ao relento, com um relatório bombástico cheio de provas sobre fraudes nas urnas. Ontem, conversei com vários de seus ainda ministros e todos se sentem de alguma forma abandonados pelo presidente, que vai deixando passar a chance histórica de articular uma oposição consistente ao PT, considerando as amplas bancadas eleitas no Congresso. Era visível o constrangimento de Lira ontem ao posar com Lula na saída da residência oficial da Câmara. Como revelei semanas atrás, o deputado imaginava a formação de um bloco (ou até uma federação) de partidos de centro-direita capazes de pautar a agenda de reformas e inviabilizar o projeto de poder lulista. Sem apoio, cuida agora de garantir sua sobrevivência política."

quinta-feira, novembro 10, 2022 

Artigo, imagem e comentário reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Não haverá 'concertación' no país das bolhas herméticas

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 27 de outubro de 2022

Não haverá 'concertación' no país das bolhas herméticas

A divisão do país em bolhas herméticas não permite consenso sequer para o que são fatos. William Waack:

É difícil imaginar a quatro dias da decisão de domingo que o resultado das urnas “resolva” a disputa política. Ao contrário: a vitória de um lado vai apenas confirmar os piores temores e “certezas” do outro.

Se confirmado o favoritismo de Lula nas pesquisas, triunfa a interpretação da realidade de “trapaça” urdida por tribunais superiores focados em destruir Bolsonaro. E confirma-se a existência de uma “ditadura judicial” tal como percebida por 42% do eleitorado, segundo pesquisa da Atlas Intel.

Para substancial parcela do eleitorado, o combate às fake news com poderes ampliados do TSE não passa de imposição de censura. E seria apenas mais uma ferramenta no arsenal técnico-jurídico com que tribunais superiores atuam em favor de uma candidatura – a de Lula.

A gravidade da situação em que estamos se traduz no fato de que não importa mais atestar ou não a veracidade do que possa comprovar ou desmentir a “parcialidade” dos tribunais superiores. A noção da interferência política de STF e TSE está solidificada em parcela relevante da população, especialmente nas elites econômicas.

Trata-se de perversa consequência do fenômeno de transformação de tribunais superiores em instâncias que interferem na vida política e econômica tomando decisões políticas. “Ainda bem que foi assim, pois o STF nos salvou do pior na pandemia”, ponderam vozes de respeito no mundo do Direito.

Seja como for, a “deslegitimização” do Judiciário não é somente resultado de ação política de grupos antidemocráticos associados ao bolsonarismo raiz. É processo de longo curso, que a atual disputa provavelmente colocou no patamar do irreversível – talvez ainda pior se Bolsonaro conseguir a reeleição.

Pois também na interpretação da realidade de Lula a Justiça serviu sobretudo para submetê-lo a injusto massacre no período da Lava Jato. Exorbitâncias foram toleradas contanto que servissem para tirar o PT do poder. Como são toleradas hoje – a aplicação temporária de censura prévia, por exemplo –, se essa “excepcionalidade” ajuda a demolir a máquina de propaganda do adversário.

A questão da atuação dos tribunais superiores é apenas um dos aspectos que evidenciam como visões de mundo moldaram e solidificaram “bolhas” herméticas ao contraditório. Há vários outros que não cabem neste texto. Provavelmente vale para o Brasil o que a sociologia americana constatou nas eleições por lá: a adesão a uma “bolha” explicava tempos atrás menos de 30% do voto, hoje explica mais de 70%.

Estão desaparecendo premissas para uma possível “concertación” pós-pleito. Não há acordo sequer sobre o que são fatos.

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quinta-feira, 14 de julho de 2022

'É a miséria, estúpido', por William Waack

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 14 de julho de 2022

É a miséria, estúpido.

Em termos sociais, o “estado de emergência” com a qual se justificam as bondades eleitoreiras é o de um país que voltou ao mapa da fome, enquanto se gaba de ser campeão mundial de produção de alimentos. William Waack:

A armadilha política da aprovação da PEC Kamikaze fechou-se como se previa: o conjunto das forças políticas suporta a compra de votos disfarçada de medida de emergência. Esse agrado oportunista ao eleitor é a essência da atividade de partidos de baixa representatividade, sem lideranças de expressão genuína, voltados para a defesa de interesses privados, regionais, corporativistas ou segmentados.

“Armadilha”, pois votar contra em nome de princípios significava ficar mal com o eleitor. Votar a favor era prestar ajuda a Bolsonaro, ainda que os dividendos eleitorais da PEC sejam duvidosos. Entre princípios e caridade, mesmo a oposição séria e genuína a Bolsonaro se agarrou a uma frase: “É a miséria, estúpido”.

É uma constatação indiscutível, e profundamente perturbadora. Durante a vigência do auxílio emergencial o Brasil teve significativa mudança de patamar de renda. De lá para cá a situação só piorou. “Eu discutia como votaria no caso da PEC, mas aí parei num sinal de trânsito, dei R$ 20 para uma família ali acampada e ouvi deles como esses R$ 20 eram tão decisivos para as crianças deles, aí votei a favor”, disse um senador da velha-guarda política, e ferrenho opositor do governo.

Combate à desigualdade é frase de uso político desvinculada de um consenso nas elites dirigentes sobre a necessidade de se diminuir miséria, doença e ignorância. Não se trata de uma “maldade” pensada pelas “classes dominantes”, como pretende o submarxismo que domina boa parte do ensino superior. Trata-se de uma “sociedade invertebrada” que não percebe quanto é refém da miséria que se mostra incapaz de eliminar.

É bastante óbvio que a “sensibilidade social” de dirigentes políticos se torna mais aguda na época de pedir votos, o que não é uma peculiaridade brasileira. No fundo, a aprovação da PEC traduz um cenário abrangente muito mais preocupante do que a indisciplina fiscal, o desrespeito claro à institucionalidade (muda-se a Constituição ao sabor do momento político imediato) e a burla às normas eleitorais.

Em termos sociais, o “estado de emergência” com a qual se justificam as bondades eleitoreiras é o de um país que voltou ao mapa da fome, enquanto se gaba de ser campeão mundial de produção de alimentos. Não importa a denominação política do governante de plantão, discutem-se, no fundo, as mesmas mazelas de sempre. Pode-se dizer que não há sistema político que funcione quando, na base, o que persiste é doença, miséria e ignorância.

Nesse sentido, “emergência” é nosso estado permanente.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

domingo, 2 de janeiro de 2022

O pior governo da história recente criou involuntariamente alguma esperança

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 30 de dezembro de 2021 


O pior governo da história recente criou involuntariamente alguma esperança 

 
Em sua coluna no Estadão, William Waack aborda "os legados de Bolsonaro": 

Em 2021 consolidaram-se importantes legados de Jair Bolsonaro para 2022. Nenhum o favorece – e alguns serão dor de cabeça para quem lhe suceder. 

  

Setores privados da economia empreenderam ações políticas e conseguiram defender em parte as visões de modernização do País em linha com grandes transformações internacionais. É assim que obtiveram as demissões, no começo do ano, dos ministros das Relações Exteriores e do Meio Ambiente. Eles eram péssimos para os negócios, para dizer o mínimo. 

 

Ganhou corpo nesse processo uma inédita coligação de instituições financeiras internacionais e nacionais, da agroindústria e da própria indústria. Criaram-se várias instâncias de articulação (formais e informais) que terão peso nas escolhas dos próximos governantes. Bolsonaro conseguiu a “proeza” de rachar internamente vários desses segmentos que o apoiaram em 2018. Não tem mais como colar os cacos dos cristais quebrados. 

 

Outro legado de peso foi o enfraquecimento da figura institucional do presidente da República. Sob Bolsonaro, o Legislativo capturou prerrogativas inéditas no uso de ferramentas do poder via Orçamento público. O presidente que sairá das urnas em 22 será mais fraco do que o vencedor de 2018. Precisará de articulação bem mais abrangente do que formar maiorias sólidas num Parlamento que permanecerá fracionado. 

 

A “cerca elétrica” erguida pelo STF em torno de Bolsonaro funcionou. Por tudo o que se possa criticar no STF, em seus integrantes, na sua peculiar interpretação da Constituição e sua presença na política, os freios institucionais atuaram. A trágica gestão da pandemia catapultou o STF a uma posição de legislar e governar da qual dificilmente abdicará. 

 

Outro legado significativo de Bolsonaro para 2022 é ter ajudado decisivamente a recuperar as chances eleitorais do lulopetismo. Como Lula vai trabalhar esse ganho é outra história, mas é ele o favorito que todos terão de derrotar. O problema de Bolsonaro é ser cada vez menos visto como alternativa a Lula. 

  

Por último, ganha corpo uma noção ainda vaga, em boa parte criada pelo fracasso bolsonarista. É a ideia de que mesmo forças políticas antagônicas têm condições de pensar um país para além do destino de indivíduos como Bolsonaro e Lula. Há um eixo de debate democrático capaz de unir e pacificar contrários, centrado em como nos fazer sair da pobreza, da desigualdade, da injustiça e da ignorância. 


O colunista confessa que esse último parágrafo é uma esperança. De um 2022 melhor para todos nós. Feliz ano-novo. 


Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com 

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

O que falta para uma terceira via?

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, 14 de outubro de 2021 


O que falta para uma terceira via? 


O problema da terceira via não é a quantidade de eleitores, mas o que dizer a eles. William Waack para o Estadão: 

Não se sabe se a questão está suficientemente clara para os postulantes ao posto de candidato da terceira via, mas o problema é muito mais de conteúdo do que de espaço eleitoral. As pesquisas indicam claramente a existência de um grande “buraco” entre os blocos consolidados a favor, respectivamente, de Bolsonaro e de Lula. Contudo, esses números enganam. 


Na conta simples o “centro” abarca no mínimo um terço do eleitorado. Bastaria então ampliar esse “meio entre os extremos” para tirar Bolsonaro do segundo turno e formar uma “união nacional” para derrotar o hoje favorito Lula. Que o “centro” esteja fortemente dividido entre vários postulantes é normal neste momento da corrida eleitoral. A popularidade ou rejeição de cada um deles parece oscilar em função do “recall” de eleições recentes ou do fato de alguns serem relativamente desconhecidos. 


Mas bastante preocupante do ponto de vista de um país preso no momento à escolha entre Bolsonaro e Lula é o fato de as pesquisas qualitativas estarem detectando um inusitado grau de resignação, desinteresse e desilusão (reforçada pela atual polarização) em boa fatia de eleitores de “centro”. A mensagem “nem nem” até aqui não está chegando, o que ajuda a entender o nível de conforto manifestado por articuladores das campanhas de Bolsonaro e de Lula. 

 

A desilusão com os “rumos” do País é marcante nesses levantamentos. Porém, até aqui os postulantes à candidatura de terceira via demonstram incapacidade de formular uma postura política mais próxima ao “sonho” de futuro do que à negação dos pesadelos lulista e bolsonarista. Os especialistas já dizem aos marqueteiros que o “sonho” será essencial para uma candidatura competitiva frente a Bolsonaro e a Lula que, goste-se ou não deles, sabem falar para os respectivos públicos (ou até mais). 


Nessas conversas tem sido feito uso recorrente de dois exemplos de campanhas presidenciais brasileiras pós-redemocratização, um bem-sucedido e outro que bateu na trave: Fernando Collor (1989) e Marina Silva (2014). Ambos saíram de patamares baixos e se tornaram competitivos dentro da postulação genérica do “não sou como eles” – uma noção até bastante emotiva do “novo” e “promissor” contra o velho e estabelecido. Em certa medida, Bolsonaro de 2018 também cabia nessa categoria, mas as circunstâncias dessa última eleição são consideradas excepcionais e não há perspectivas de que se repitam no ano que vem. 


A desilusão de boa parte do eleitorado é consequência direta de um sistema político e de governo que garantiu a desproporção no voto proporcional e a crise de representatividade – o mesmo conjunto de distorções que, mantidas como estão, impedirá de governar efetivamente qualquer vencedor em 2022. Lula, aliás, já promete reverter a “tomada do poder” pelo Legislativo feita através das emendas do relator, que Bolsonaro entregou bisonhamente ao Centrão. 


A natureza da crise brasileira é política, se arrasta há muitas décadas e está desaguando num país capaz de nem sequer corrigir – quanto mais eliminar – as sequelas de sempre: miséria, injustiça social e desigualdade. Não há dúvidas de que a tão falada agenda de produtividade, que implica urgentes e gigantescos investimentos em educação, saúde e qualificação, é a chave para romper a armadilha da renda média na qual o Brasil vegeta há tantas décadas. 


Por sua vez, a “chave” da conquista dessa “chave” está no terreno da política, da capacidade de aglutinação através de efetiva formulação do “sonho”. Não é algo que marqueteiros consigam criar: eles são encarregados de executar, com as ferramentas de campanha política, a “visão” que um candidato seja capaz de elaborar. Até aqui o uso mais ou menos eficaz dos lemas “sou o melhor anti-Bolsonaro ou anti-Lula que existe” não está funcionando. Nem levará à agenda da produtividade sem uma ampla reforma política. 

 

Olhando para o calendário eleitoral formal, que só começa no ano que vem, talvez tudo isso pareça cedo demais para os planos dos candidatos à terceira via. Mas é bom lembrar que não há plano que resista ao primeiro contato com a realidade, e os fatos da política indicam que a terceira via capaz de derrotar Bolsonaro e Lula precisa do “sonho” já. 


Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com