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sábado, 9 de janeiro de 2021

Desde 2020 que a América não via nada assim

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, 8 de janeiro de 2021

Desde 2020 que a América não via nada assim

Lá e cá, os tumultos animados pelos apoiantes da dona Hillary foram tratados com pinças e compreensão. Já os apoiantes de Trump, além do próprio, são considerados abaixo de animais. A crônica semanal de Alberto Gonçalves, publicada pelo Observador:

Conforme nos lembraram incontáveis especialistas, nunca, nunca, nunca se tinha visto um episódio como o de quarta-feira, em Washington, quando manifestantes favoráveis a Trump e incitados por este invadiram o Capitólio. Nunca, ou pelo menos desde 2016, quando uma quantidade imensamente superior de manifestantes invadiu as ruas de diversas cidades americanas com protestos pacíficos que envolveram tiroteios, pancadaria, fogo posto e destruição de propriedade alheia. Dado que a amnésia parece galopante, talvez valha a pena um desvio pelos tortuosos caminhos da memória.

“Milhares de pessoas estão a manifestar-se nas ruas de dezenas de cidades nos Estados Unidos.” (10 de Novembro de 2016)

“Os protestos centram-se em cidades-bastião do Partido Democrata. Em cada cidade, os manifestantes, na sua maioria jovens, foram convocados por grupos sociais e políticos de Esquerda, em choque com a escolha de Donald Trump como novo Presidente, para rejeitar a eleição.” (10 de Novembro de 2016)

“A manifestação de Portland, uma das maiores do país, adquiriu tons violentos quando pessoas encapuzadas causaram danos a veículos e lojas.” (11 de Novembro)

“A vitória de Donald Trump, na noite de terça-feira contra a candidata democrata, Hillary Clinton, tem levado desde então milhares de manifestantes a saírem à rua em protesto em várias cidades norte-americanas. Apesar de a maioria dos protestos ser descrita como pacífica, as autoridades disseram que alguns tornaram-se violentos, tendo resultado em danos de propriedade.” (13 de Novembro de 2016)

“O presidente dos EUA, Donald Trump, tomou posse nesta sexta-feira no meio de violentos protestos em Washington.” (20 de Janeiro de 2017)

“Em Washington, mais de 200 pessoas foram detidas após horas de incidentes.” (20 de Janeiro de 2017)

Etc., etc., etc., e nem menciono os pandemónios chegados ao auge em 2020. De um lado, temos uma grotesca tentativa de assalto ao Capitólio que se resolveu em poucas horas, infelizmente com vítimas, felizmente sem grandes danos materiais. Do outro, tivemos um processo de contestação organizada, furiosa, subvencionada e demolidora que durou anos, com vastos danos físicos e sobretudo materiais. Imaginem qual dos eventos mereceu a tolerância e até a simpatia dos “media”, para não referir o entusiasmo quase sexual do enviado da SIC aos EUA. Não é um exercício complicado. Terá sido porque, ao contrário do irresponsável Trump, a dona Hillary jamais apelou à baderna? Vejamos: “‘Lutem pela América’, pediu a ex-candidata democrata à presidência” (17 de Novembro de 2016). Pois, se calhar não é isso.

Se calhar, cá e lá e em toda a parte, é apenas porque o jornalismo abdicou de informar e passou a difundir os estados de alma dos seus praticantes. Não é a questão das “fake-news” (estrangeiro para “notícias falsas”): é a necessidade de enfeitar as notícias com doses fortíssimas de sentimento, para cúmulo um sentimento comum, monolítico, impositivo, alucinado e falsamente “progressista”, a que ninguém deve fugir sob pena de excomunhão. Lá e cá, os tumultos animados pelos apoiantes da dona Hillary foram tratados com pinças e compreensão. Os apoiantes de Trump, além do próprio, são considerados abaixo de animais. Não cabe aqui discutir a influência desta discriminação na dita radicalização da sociedade americana, em que metade dos cidadãos despreza sinceramente a metade restante, e em que só uma das metades determina o “espírito da época”. A radicalização não é inédita e a América, país de que gosto muito, saberá, espero, lidar com ela.

Não estou tão optimista sobre o futuro do jornalismo, actividade de que gostei bastante. Em determinada altura, cuja data não sei precisar, o jornalismo decidiu que a sua função consistia em mudar o mundo para melhor. Para já, conseguiu mudar o jornalismo para pior, bastante pior. Quanto ao mundo, é duvidoso que uma “agenda” anti-capitalista, embalada por “ideais” caducos, por fundamentos opressores e por um culto da “sensibilidade”, do primarismo mental, da ofensa fácil e da divisão social conduza ao paraíso prometido. Desgraçadamente, por má-fé ou pura idiotia, é nesta miséria que a informação se transformou: um instrumento de doutrina ao serviço do atraso de vida. Claro que há excepções, e a circunstância de me permitirem escrever isto prova-o. O problema é a regra.

E a regra suscita uma pergunta sem resposta: o “jornalismo” que em geral hoje se pratica procura infantilizar ou, para efeitos de sobrevivência, adaptou-se a um público infantilizado? A primeira hipótese é velhaca, a segunda é triste. Ambas conduzem uma profissão outrora indispensável pelos caminhos da irrelevância. Se o objectivo é estimular paixão e irracionalidade, as “redes” já o fazem com empenho. É evidente que a actuação de Trump foi vergonhosa. Mas vergonha maior, caso a tivessem, é a dos que alertaram para a gravidade do recente esboço de golpe, depois de justificarem sem escrúpulos os esforços golpistas dos democratas em 2016 – e, de facto, em 2017, 2018, 2019 e 2020. Em democracia, a legitimidade de semelhantes palhaçadas é sempre, sempre, sempre nula, nula como o “jornalismo” que não o admite.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Incêndio na saída: Trump facilita as coisas para quem quer vê-lo longe.

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI. Em 7 de janeiro de 2021

Incêndio na saída: Trump facilita as coisas para quem quer vê-lo longe.

O chocante e criminoso assalto ao Congresso transformou o presidente no pária que estava lutando para não ser depois da derrota nas urnas. Vilma Gryzinski:

Sem Twitter, Facebook e Instagram, Donald Trump é um homem derrotado. Não pelas urnas, onde perdeu, mas teve honrosos 74 milhões de votos, mas por seus próprios atos.

Derrotado, sem Twitter, Facebook e Instagram, abandonado por vários dos que ainda lhe eram fieis, arrastado metaforicamente na lama, um pária de quem poucos querem chegar perto.

“Estamos nessa situação por causa do orgulho ferido de um homem orgulhoso e da fúria de apoiadores que desinformamos deliberadamente nos últimos dois meses e incitamos à ação”, resumiu Mitt Romney, o mais antitrumpista dos senadores republicanos.

“O que aconteceu aqui hoje foi uma insurreição incitada pelo presidente dos Estados Unidos”.

 As palavras do senador, o mais detestado pelos trumpistas de raiz resumem o tamanho do impacto dos acontecimentos de ontem.

Para manter o senso de proporção, vamos lembrar: não foi a Marcha sobre Versalhes (1789) nem a Tomada do Palácio de Inverno (1917), nem se viram os atos de violência concatenada ocorridos em atos comandados pelo Black Lives Matter.

Mas os trumpistas envolvidos no assalto ao Congresso conseguiram transformar a instituição numa espécie de Casa Rosada durante o atribulado velório de Maradona: entraram lá no susto, por causa de um esquema policial inacreditavelmente furado, jamais visto por quem conhece a segurança vigente mesmo em dias normais na capital americana.

Uma vez lá dentro, foram improvisando.

Sem líderes nem um plano maligno para sabotar as instituições democratas, agiram como turba.

Um sujeito que entrou no gabinete de Nancy Pelosi, reeleita presidente da Câmara, pôs os pés sobre a mesa e começou a falar no celular. “Você precisa largar tudo e vir aqui imediatamente”, propôs a um interlocutor.

Outro pegou uma foto de “lembrança” num gabinete não identificado; mais um foi fotografado carregando o pódio onde congressistas dão entrevistas mais formais.

No saguão das estátuas, posaram ao lado de presidentes conservadores como Ronald Reagan e George Bush pai.

Quando forças policiais começaram a retomar o controle, interno e externo, os manifestantes pareciam desolados.

“Somos nós que sempre ficamos do lado da polícia”, diziam, sem compreender a diferença entre um protesto pacífico e a invasão de uma instituição que encarna a democracia.

Outras frases: “Nós apoiamos a polícia”, “Vocês estão nos traindo”, “Queremos que vocês continuem a ter verba”.

São referências aos recentes protestos identificados com o Black Lives Matter.

Pensando em estar do lado do bem e defender um presidente que consideram injustiçado, fizeram o oposto. Ajudaram a jogar Donald Trump no fundo do buraco e empurrar congressistas que votariam numa contestação – inútil – ao resultado da eleição presidencial.

Mitt Romney, que se transformou numa voz da razão, alertou no domingo que o “notório plano” para contestar os votos de determinados estados no Colégio Eleitoral, apoiado pelos congressistas mais trumpistas, “pode projetar as ambições políticas de alguns, mas ameaça perigosamente nossa república democrática”.

A democracia americana, evidentemente, é mais forte do que algumas centenas de celerados que invadiram o Capitólio sem entender a diferença entre protestos justos e abusos criminosos.

E certamente mais forte do que um aventureiro que conseguiu capturar a Casa Branca em 2016 com os votos de eleitores frustrados com uma grande lista de reclamações e, a menos de duas semanas do fim do mandato, levou ao extremo a arte da autodestruição.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com