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sábado, 18 de julho de 2026

'A Copa do Mundo e as eleições', por Marcos Cardoso

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 9 de julho de 2026

A Copa do Mundo e as eleições
Por Marcos Cardoso*

As paixões afloram e contaminam o ambiente propício às divergências políticas e futebolísticas. É ano de eleição e de Copa do Mundo. E neste exato momento a polarização, essa coisa criada pela extrema-direita bolsonarista e alimentada pela imprensa aferidora de uma suposta simetria entre fulano e sicrano, a polarização aparece com novas roupagens.

Mas será que a copa das seleções influencia no resultado das eleições? Pelo que a história registra, a resposta é não. Vejamos o primeiro título, em 1958. A conquista da na Suécia coincidiu com o auge do governo do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961). O sucesso da Seleção ajudou a consolidar um momento de grande otimismo enquanto JK implementava o Plano de Metas com o lema “Cinquenta anos em cinco” e construía Brasília. Mas quem  foi eleito em 1960 foi Jânio Quadros do PTN. JK era PSD.

Na Copa do Mundo de 1962, o presidente João Goulart (PTB) teve papel ativo no apoio à Seleção Brasileira. Ele intercedeu diplomaticamente junto à FIFA para liberar Garrincha para a final contra a Tchecoslováquia e, após a conquista do bicampeonato no Chile, tornou-se o primeiro presidente a receber uma seleção campeã em Brasília. Mas não terminou o mandato, sofreu um golpe em 1964 e o resto é história.

Em 1970, no auge do futebol brasileiro, o governo não teve influência decisiva no tricampeonato conquistado por Pelé e companhia no México, mas a conquista foi utilizada como propaganda do regime militar. O que, felizmente, não manchou aquela taça. Que foi roubada depois e provavelmente derretida, mas aí é assunto da editoria policial.

Pulemos para 1994, governo de Itamar Franco (sem partido). A partir daqui, Copa e eleição passam a coincidir no mesmo ano. O tetracampeonato do Brasil nos Estados Unidos não deu contribuição decisiva para a eleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). O Plano Real, lançado em 1994 quando era ministro da Fazenda, foi o principal pilar para sua eleição à presidência. Após a conquista da Seleção Brasileira nos Estados Unidos, o presidente Itamar Franco recebeu a delegação no Palácio do Planalto em Brasília e condecorou os jogadores. Mas a volta da delegação brasileira com o “voo da muamba” resultou em mais desgaste político do que benefício eleitoral.

Em 1998, o Brasil perdeu a final contra a França, que jogou em casa, e a tristeza da perda da Copa não atrapalhou em nada a reeleição de FHC, que ganhou no primeiro turno.

Para confirmar que Copa não influencia resultado de eleição, no Japão e Coreia do Sul em 2002, quando o Brasil conquistou o pentacampeonato de forma brilhante, com Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho, e Vampeta dando cambalhota na rampa do Palácio, o candidato palaciano José Serra (PSDB) perdeu para Lula da Silva (PT). O primeiro mandato presidencial que o líder trabalhista conquistou depois de três eleições frustradas.

A Copa de 2006 coincide com a reeleição de Lula. A Seleção Brasileira chegou ao torneio na Alemanha com grande favoritismo, mas foi eliminada pela França nas quartas de final. O início da série de fracassos do Brasil na Copa não impediu o presidente de se reeleger com relativa facilidade, derrotando Geraldo Alckmin (PSDB) no segundo turno com mais de 60% dos votos.

Em 2010, novo fracasso na Copa, na África do Sul, não atrapalhou o projeto de Lula de fazer sua sucessora, Dilma Rousseff (PT), que se elegeu para o primeiro mandato derrotando José Serra no segundo turno. Seleção Brasileira derrotada mais uma vez nas quartas de final, dessa vez pela Holanda.

A tragédia de 2014, quando o Brasil realizou a Copa do Mundo em casa e levou uma surra colossal da Alemanha na semifinal, o sofrível 7 a 1, não impediu a reeleição de Dilma, dessa vez derrotando Aécio Neves (PSDB) por pequena margem de votos no segundo turno. Desde o ano anterior, após os protestos de junho de 2013, a princípio contra os serviços públicos ofertados e que também teve como bandeira a oposição à realização da Copa, a presidenta passou a sofrer uma campanha pesada contra a sua gestão, mas não o suficiente para barrar a chegada ao novo mandato.

Em 2018, no impopular governo de Michel Temer (MDB), o selecionado brasileiro amargou novo vexame, na Copa da Rússia, voltando a se despedir nas quartas de final, dessa vez perdendo para a Bélgica. Mas nada disso impediu a eleição do candidato palaciano Jair Bolsonaro (PSL), derrotando Fernando Haddad (PT) com relativa facilidade no segundo turno.

Já em 2022, pela primeira vez desde que o Brasil se redemocratizou, o presidente da República foi derrotado ao tentar a reeleição. Na Copa do Catar, a primeira realizada no Oriente Médio, o Brasil perdeu uma inacreditável disputa de pênaltis para a Croácia novamente nas quartas de final e o presidente Bolsonaro (agora PL) perdeu uma eleição apertada para o arquirrival Luiz Inácio Lula da Silva. O derrotado tentou de tudo para não largar o poder, inclusive um golpe de estado, acabou condenado e preso.

Será que o último vexame da Seleção Brasileira na Copa da América do Norte vai influenciar no resultado da próxima eleição para presidente da República? A história registra que o futebol jogado na Copa pouco influencia na política, embora a política agora interfira mais do que nunca no futebol.

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Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail com

Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias com br

terça-feira, 31 de março de 2026

João fez a ponte e perdeu a eleição

 Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 29 de março de 2026

João fez a ponte e perdeu a eleição
Por Marcos Cardoso*

Faz 20 anos agora em setembro que o então governador João Alves Filho (PFL) inaugurou a ponte Aracaju-Barra dos Coqueiros. A grandiosidade da obra, que mudou definitivamente o perfil da ilha de Santa Luzia, não se reverteu em vitória para o experiente chefe do executivo estadual que buscava a reeleição e o quarto mandato à frente de Sergipe. Foi derrotado pelo “menino” Marcelo Déda (PT), então prefeito de Aracaju, e o episódio guarda lições importantes para a política local e até nacional.

Considerada a maior ponte urbana do Nordeste, cercada de muita polêmica com o governo federal e com a justiça eleitoral, a obra foi inaugurada no dia 24 de setembro de 2006, a poucos dias da eleição de 1º de outubro. Acusando perseguição do presidente Lula, o governador conseguiu com muito esforço a liberação de empréstimo de R$ 85 milhões do BNDES para a conclusão da ponte.

João se queixava de discriminação com um governador do PFL, mas a equipe econômica de Lula era contrária à destinação de dinheiro porque Sergipe não cumpria a Lei de Responsabilidade Fiscal. O Tesouro Nacional informava que o Estado comprometia 5% do Orçamento com a Assembleia Legislativa, quando, pela LRF, só poderia gastar 3%.

Inicialmente orçada em R$ 100 milhões, a ponte concluída custou R$ 150 milhões, inclusive muito dinheiro do Estado. Atualizado, o dinheiro teria poder de compra equivalente a R$ 460 milhões hoje. Em comparação, a nova ponte Aracaju-Barra, já licitada pelo governo Fábio Mitidieri, tem um custo inicial de R$ 838 milhões. Note-se que a ponte de João Alves possui 1.850 metros de comprimento, enquanto a nova ponte terá 1.260 metros. Mas cada ponte é uma ponte, com suas dificuldades e idiossincrasias.

Por exigência do TRE, a ponte foi inaugurada sem a presença e de João e Maria do Carmo Alves (PFL), então candidata à reeleição de senadora, tendo como principal adversário José Eduardo Dutra (PT). Coube ao filho deles, João Alves Neto, representá-los. Também ficou determinado que nenhuma imagem da ponte fosse utilizada nas propagandas eleitorais do candidato à reeleição de governador.

Mas o apelo eleitoral da ponte já estava consolidado na cabeça do povo sergipano, para o bem e para o mal. Se por um lado o governo do Estado a apresentava como uma obra redentora, capaz de mudar destinos em Sergipe, por outro lado a oposição associava os vários problemas que o Estado enfrentava na época à canalização dos recursos para uma única obra.

João fez novos investimentos na Orla de Aracaju, obra dele em governo passado, mas a saúde e a educação enfrentavam dificuldades, principalmente no interior. Até mesmo o Hospital João Alves Filho, construído pelo próprio em gestão anterior, atravessava um momento difícil, com superlotação e carência de material e equipamentos. A relação com os servidores também não era nada boa e a campanha de Marcelo Déda soube explorar as fragilidades pontuais de um gestor possuidor de capital político robusto.

Os dois líderes sempre estiveram em lados opostos e travaram um embate duro na eleição estadual anterior, em 2002, quando João Alves derrotou Eduardo Dutra na campanha para governador. Com 46 anos em 2006 — João tinha 65 —, Déda já era experimentado na política desde os tempos de estudante e já havia participado de nove eleições, saindo vitorioso em cinco delas, com votações expressivas para deputado estadual, para deputado federal e para prefeito.

A gestão de Déda na Prefeitura de Aracaju era bem avaliada, era reconhecido seu trabalho na área da saúde, por isso João buscou explorar principalmente os desgastes da gestão de Lula na presidência, onde respondia pelo Mensalão, escândalo de corrupção política descoberto em 2005. Tratou-se de um esquema ilegal de repasse mensal de dinheiro a parlamentares da base aliada em troca de votos favoráveis a projetos de interesse do Governo Federal no Congresso.

João também se tornou a principal voz contrária ao projeto de transposição do rio São Francisco, para grande contrariedade de Lula. O governador repetia à exaustão que o povo sergipano ficaria sem água se o projeto fosse adiante. Nos assuntos paroquiais, explorou a “micareta picareta”, uma denúncia da revista Veja contra a Prefeitura de Aracaju, que teria gastado milhões com shows e festas.

Mas nada disso evitou sua derrota no primeiro turno da eleição estadual. Apoiado na boa gestão, na eloquência vocabular e num arco de alianças que contava com o deputado federal Jackson Barreto (então PTB), com o ex-governador Antonio Carlos Valadares (PSB) e com o sertanejo deputado federal Heleno Silva (PL), Déda obteve mais de 52% dos votos já no dia 1º de outubro.

A ponte certamente pesou para a derrocada de João Alves Filho. Fica a lição.

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*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

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terça-feira, 17 de março de 2026

'Brasil vai repetir o erro?', por Marcos Cardoso

Pandemia - Morte de 700 mil pessoas...

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 16 de março de 2026

Brasil vai repetir o erro?
Por Marcos Cardoso*

Essa tal de polarização deixou pessoas tão embotadas e confusas a ponto de preferirem se molestar e rejeitar o que foi realizado em seu próprio benefício. Algumas delas preferem continuar adorando aqueles machos que sempre desprezaram as mulheres, mas insistem em não apoiar quem lançou um pacto para prevenir todas as formas de discriminação, misoginia e violência de gênero contra mulheres e meninas.

Um perfil nas redes sociais confessa: é extremamente broxante ver que existe grande parte da população brasileira considerando “devolver” o Brasil para a família que contribuiu diretamente para a morte de 700 mil pessoas na pandemia; que recolocou o Brasil no mapa da fome; que atacou a cultura e a ciência; que tentou acabar com a democracia com um golpe de estado; que minou o sistema da justiça e a Polícia Federal para acabar com investigações; e que sempre atacou os direitos das minorias.

Outro nota que metade do país quer a volta da fila do osso só para tirar do poder quem reduziu a desigualdade e levou o Brasil ao menor índice de desemprego da história; que prefere tirar do poder quem quer acabar com a escala 6×1 para trazer de volta quem tirou os seus direitos trabalhistas; que está insatisfeita com quem zerou o imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil e trazer de volta um governo que reclamava de empregada doméstica na Disney.

Se é politicamente correto defender o feminismo, muitas mulheres preferem ficar do lado de quem considera que ter uma filha mulher foi “uma fraquejada” e desdenha do movimento feminista dizendo que não está preocupado com mulher de braço cabeludo.

Se é politicamente correto defender os índios e garantir o que lhe são de direito, porque são os donos originais das terras, porque foram chacinados e a maioria dizimada pelos colonizadores, pelos latifundiários, pelos madeireiros, pelos mineradores e pelo próprio Estado, há quem prefira quem defende que índio não merece um centímetro de terra e que merece é comer capim, “para manter as suas origens”.

Em agosto de 2018, esta coluna fez os seguintes questionamentos:

Você votaria num candidato a presidente da República que nega a história do país que pretende dirigir? Que nega que tenha havido ditadura militar e que, ao mesmo tempo, tem como herói um oficial militar que é símbolo da tortura aos presos políticos da ditadura? Você votaria num candidato que nega a maior ferida da história brasileira, a escravidão, raiz das desigualdades e razão vital da nossa cruel sociedade do atraso?

E questionava:

Você votaria num candidato que desdenha da colega dizendo que só não a estupra porque a acha feia? Que acha normal as mulheres ganharem menos do que os homens? Votaria num candidato que em 28 anos de mandato como deputado federal conseguiu aprovar apenas dois projetos de lei de pouca relevância e que nesse longo período não aprendeu o básico, como procurar entender o funcionamento da economia do Brasil real? E que não fez nada para tentar melhorar a segurança do seu estado, o Rio de Janeiro?

Por fim:

Você votaria num candidato que prega honestidade, mas que em quatro anos multiplicou o próprio patrimônio por mais de 150%, segundo declaração no TSE, sem conseguir explicar como realizou esse extraordinário milagre?

A maioria votou nesse candidato e deu no que deu. O Brasil não vai repetir o erro. Ou vai?

(Citando @brasilforadacaverna e @livrespensadores)

Foto: Agência Senado

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sábado, 21 de fevereiro de 2026

'O fim dos tiranos', por Marcos Cardoso

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 20 de fevereiro de 2026

O fim dos tiranos
Por Marcos Cardoso *

O tirano é um animal que viceja na estupidez humana, cresce como um ser superior, julga-se imortal quando no poder, vive atormentado por fantasmas, sofre tresloucado quando invariavelmente fracassa e morre tragicamente. A história é implacável e está fartamente ilustrada com figuras dessa estampa.

Tome-se como exemplo dois tipos cujos malditos legados o mundo ainda insiste em não sepultar de uma vez: Adolf Hitler e Benito Mussolini. O italiano inspirador do fascismo foi executado por partigianos numa tarde de 28 de abril de 1945, abraçado com sua amante, Claretta Petacci, após mais de 20 anos à frente de uma ditadura que levou o seu povo à miséria. Duas tardes depois, o sócio alemão pai no nazismo suicidou-se, ao lado da mulher Eva Braun, depois de 11 anos liderando um nacionalismo e um militarismo ferozes, que resultaram no mais odioso e brutal genocídio já levado a efeito por toda a humanidade.

Um dia, o castelo perpétuo do tirano vai ruir. O delírio de poder eterno dos dois começou a virar loucura quando alemães e italianos foram derrotados pelos britânicos no norte da África. “A roda da fortuna deu a volta no dia 29 de junho de 1942”, escreveu o próprio Mussolini, citado por Joel Silveira no livro “Segunda Guerra Mundial: todos erraram, inclusive a FEB” (Espaço e Tempo, 1989).

“Ao saber das más-novas, Mussolini foi inesperadamente acometido de insuportáveis dores no estômago, que o prostaram”, narra o jornalista sergipano, o mais destacado correspondente daquela guerra. “O homem parece mais humilhado que doente, está triste e incapaz de reagir ao peso da idade (Mussolini tinha, então, 59 anos)”, teria dito um hierarca do fascismo.

Silveira vai contando: em fins de 1942, Benito Mussolini é um homem profundamente marcado, física e moralmente é a caricatura do que foi. A entrada da Itália na guerra só lhe trouxe derrotas, decepções e humilhações. O Duce via-se relegado cada vez mais a um segundo plano – e logo não seria mais que um títere do Führer alemão.

A vida do ditador ficaria pior em julho de 1943, quando os primeiros soldados aliados desembarcariam na Sicília, dando início à tomada da Itália. Registre-se que a conquista da ilha contou com o apoio da Máfia, em acordo com os americanos. Esse gesto histórico prova que é preciso se aliar aos inimigos para derrotar um inimigo maior e mais belicoso.

“Tudo isso havia minado profundamente o físico e o moral de Mussolini. Sua antiga úlcera voltara a lhe queimar as entranhas e eram mais constantes os seus acessos de vômitos. Encovam-se visivelmente suas faces, os pomposos uniformes (a maioria deles por ele próprio desenhada) começam a lhe dançar no corpo que emagrecia”. Seus subordinados começam a resmungar contra ele.

“Quando a sorte da Sicília lhes pareceu definitivamente selada, o rei e muitos dos líderes fascistas chegaram à óbvia conclusão de que era tempo de se livrarem de Mussolini”. Nota: a Itália ainda era uma monarquia, que tinha como bobo da corte o débil rei Emmanuel III.

O Grande Conselho Fascista foi reunido, Mussolini foi preso, percorreu algumas prisões, até ser resgatado de um Albergo no cume do Gran Sasso por uma espetacular ação de paraquedistas alemães. A melodramática libertação causou uma grande excitação no país e no exterior, segundo palavras de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda nazista.

Mas Mussolini virou definitivamente uma marionete nas mãos de Hitler quando instalado como chefe de uma fantasiosa república nas proximidades de Milão. Ameaçado pela resistência italiana, fugiu com a amante escoltado por uma coluna alemã, mas foi alcançado pelos partigianos antes de chegar à Suíça.

Joel Silveira conclui: “No dia seguinte, 29 de abril de 1945, um domingo, às 9 horas e 30 minutos da manhã, o corpo de Mussolini (juntamente com o de Claretta Petacci, de Pavolini, de Starace, de Bombacci e de Gelormini) era levado para Milão e jogado no chão duro do Piazzale Loreto. Em seguida, atendendo os reclamos da multidão compacta, foram dependurados de cabeça para baixo, para que todos pudessem vê-los, num travessão de um posto de gasolina”.

Laura Fermi, a mais credenciada biógrafa de Mussolini, também citada por Silveira, escreveu: “Assim terminou a longa ditadura do homem que penhorou a liberdade, sufocou o pensamento independente e conduziu seu país a uma guerra desastrosa. Deixou atrás de si pouco pesar, pois aquele amor por si, que julgava tão arraigado em seu povo, estava destilado. Poucos o choraram; muito mais rejubilaram-se com a liberdade reconquistada e com a nova esperança que surgia da sua morte”.

Hitler drogado

Hitler vivia sob efeito de drogas. Abusava das injeções, chegando a tomar doze delas por dia, e de Pervitin (metanfetamina), a droga secreta que estimulava os soldados nazistas, além de morfina, soporíferos e até afrodisíacos. “Hoje se sabe que ele estava sob os efeitos daquele poderoso estimulante quando de todas as decisões que, a partir de 1942, tomou no terreno militar, e que resultaram em tão terríveis desastres”, escreveu o jornalista sergipano em outro capítulo do livro citado.

Assim drogado, e de forma tão maciça, com doses que Morell (o médico apontado como charlatão) ia aumentando de dia para dia, Hitler é um farrapo humano, afirma Joel Silveira: “Seu braço direito e sua perna esquerda tremem, atacados de Paralisis agitans; os olhos se mostram exageradamente dilatados; a pele é de um pálido esverdeado e doentio. Já não pode expor-se ao sol, de forma que toda a sua atividade é desenvolvida à noite, nos insólitos horários por ele estabelecidos que faziam o desespero dos seus colaboradores, particularmente dos seus generais”.

Vegetariano, mas glutão, o pai do nazismo ingeria enormes quantidades de bolos, tortas, doces de toda espécie e chocolate. “Sofrendo terrivelmente de prisão de ventre, era presa fácil de flatulência e, para corrigi-la, engolia uma atrás da outra certas pílulas antigases que Morell lhe receitava, e em cuja composição entrava a estricnina”.

Em 16 de abril de 1945, quando Eva Braun reencontra no bunker da Chancelaria o homem que de fato amava, apesar de Hitler tentar de toda maneira dissuadir a amante do seu propósito de encontrá-lo, a situação de Berlim já estava selada. Além da investida dos aviões ingleses e americanos, a cidade que agoniza também sofre com os bombardeios soviéticos, que despejam impiedosamente seus obuses certeiros sobre o que resta da outrora capital do III Reich.

Não é apenas Berlim que está em ruínas, mas também Hitler, constata Joel Silveira. O ministro “Albert Speer, que o visitou pela última vez quando do seu 56º aniversário, no dia 20, espantou-se com o aspecto físico do Führer: ‘…eu tinha diante de mim um decrépito ancião. Tremiam-lhe as mãos, andava curvado e arrastando os pés. Até a voz era insegura e perdera o antigo vigor, sendo a forma de falar titubeante e monótona. (…) O uniforme, antes impecável, estava naqueles últimos tempos frequentemente desalinhado e manchado pelo alimento que levava à boca com a mão trêmula’”.

O decrépito e quase derrotado Hitler já tinha decidido suicidar-se e Eva Braun morreria com ele. “Não lutarei. Há o perigo de que eu seja apenas ferido e caia vivo nas mãos dos russos. Nem quero que os meus inimigos mutilem meu corpo. Dei instruções para que seja incinerado. Fraulein Braun quer morrer comigo”, disse a Speer, que posteriormente declararia que teve “a impressão de já estar falando a um morto”.

Ministro da Produção e do Armamento, Albert Speer foi um dos 21 dirigentes do III Reich levado a julgamento no Tribunal de Nuremberg, em 1946. Diferentemente dos 11 carrascos que foram condenados à forca, ele pegou 20 anos de detenção.

O golpe mortal que atingiu Hitler foi a notícia da morte de Mussolini, de sua amante Claretta Petacci, e da maioria dos líderes fascistas. Ele decide que se matará assim que se casar com Eva Braun, o que acontece na madrugada do dia 29, numa cerimônia realizada no próprio bunker. Logo depois, Hitler dita seu testamento para a secretária. Uma sorridente Eva Braun despede-se de todos, faz recomendações e doa seu casaco de pele para a própria secretária.

É Joel Silveira quem descreve o ato derradeiro da vida do tirano. “Três horas da tarde do dia 30 de abril de 1945. Há já algum tempo Hitler e Eva estão encerrados em seus aposentos privados. À porta da antecâmara que conduz às dependências do Führer, o coronel Otto Gunsche monta guarda. E é ele quem conta: ‘De repente ouvi um tiro. Bormann (secretário pessoal de Hitler) foi o primeiro a entrar. Eu segui logo atrás de Lunge, o camareiro de Hitler. O Führer estava sentado numa cadeira: havia dado um tiro na boca. Eva estava estendida num divã. Tirara os sapatos, arrumando-os junto ao sofá. O rosto de Hitler estava coberto de sangue. Eva pusera um vestido azul com gola e punhos brancos e tinha os olhos completamente abertos. Na sala havia um odor penetrante de cianureto, o veneno que ela havia ingerido’”.

Os dois corpos, enrolados em lençóis, foram levados até o jardim da Chancelaria, que continuava a ser intensamente martelada pela artilharia soviética. O motorista de Hitler encharcou com 200 litros de gasolina os dois corpos e ateou fogo. Os despojos incinerados do Führer e de sua agora mulher foram enterrados ali mesmo, saudados pelos canhões inimigos. “No fim da vida, Hitler matou pessoalmente talvez a única pessoa que realmente o amou e que, por causa disso, tenha amado”, encerra Joel Silveira.

É o fim dos tiranos. Assim foi com o ditador Augusto Pinochet, que governou o Chile com mão de ferro de 1973 a 1990, e terminou a existência respondendo a processos e sofrendo prisão. Assim foi com o ditador argentino Jorge Videla (1976 a 1981), que terminou seus dias numa cadeia nos subúrbios de Buenos Aires. Não foi diferente com Getúlio Vargas, o tirano que se suicidou quando já não era ditador e exercia um governo democrático. E não deixa de ser emblemático o desfecho da ditadura militar no Brasil, quando o general João Baptista Figueiredo se despediu melancolicamente do poder, deixando o Palácio do Planalto pela porta dos fundos.

Assim está na história: o tirano um dia paga pela sua tirania.

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* Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias

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sábado, 31 de janeiro de 2026

Bosco Rolemberg penou mais tempo no cárcere

Legenda da foto: Ana Côrtes, Bosco, Wellington e Laurinha 
Crédito da foto: Cleverton Ribeiro

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 30 de janeiro de 2026

Bosco Rolemberg penou mais tempo no cárcere
Por Marcos Cardoso*

Foi bonita a festa da reparação histórica. Foi concorrida e emocionante a entrega dos títulos de doutores honoris causa ao casal Ana Maria Santos Rolemberg Côrtes e João Bosco Rolemberg Côrtes pela Universidade Federal de Sergipe na tarde da segunda-feira, 26. Foi o reconhecimento da academia aos militantes históricos de 1968 que dedicaram a vida à democracia brasileira, sofrendo na ditadura as agruras da luta pela liberdade.

Presentes ao auditório da UFS, aplaudindo, se emocionando e também se sentindo homenageados, estavam outros resistentes, como Jackson Barreto, Marcélio Bonfim, Benedito Figueiredo, João Augusto Gama, além de Wellington Mangueira e Laura Marques, o outro casal símbolo da sobrevivência ao que pode haver de mais sádico na crueldade humana, a tortura.

Bosco Rolemberg e Ana Côrtes participavam do movimento estudantil na Faculdade de Serviço Social, onde se conheceram. Então militantes da Ação Popular (AP), casaram-se em 1969 e logo entraram na clandestinidade, atuando no ABC paulista, entre 1969 e 1971, e na região canavieira de Pernambuco, de 1972 a 1974.

Foram presos próximo a Caruaru em junho de 1974, tendo sido torturados pelo Dops-PE e pelo Doi-Codi, em São Paulo, durante dois meses. Ana estava grávida de Eduardo, hoje procurador do Tribunal de Contas de Sergipe. Ela permaneceu encarcerada até outubro daquele ano.

Bosco foi transferido para uma cela provisória da Secretaria da Segurança Pública no Recife, onde permaneceu até ser enviado para a Penitenciária Barreto Campelo, na ilha de Itamaracá, em janeiro de 1975. Ficou encarcerado até 20 de março de 1979, quando o Brasil já se preparava para assinar a Lei da Anistia, em agosto.

Três sergipanos foram assassinados pela ditadura instaurada em 1964, segundo relatório da Comissão Nacional da Verdade. O sargento do Exército Manoel Alves de Oliveira, 30 anos incompletos, natural de Aquidabã. Pouco antes do golpe militar, ele foi candidato a presidente do Clube de Subtenentes e Sargentos do Exército, atividade política que certamente o condenou às torturas que sofreu no Regimento Andrade Neves – Escola de Cavalaria, localizado na Vila Militar do Rio de Janeiro, e consequente morte no Hospital Central do Exército, no dia 8 de maio de 1964.

O laranjeirense Lucindo Costa, servidor público em Santa Catarina, onde militava no PCB, desapareceu após fazer uma viagem a Curitiba em julho de 1967. Ele tinha 48 anos, era casado e pai de seis filhos. Já havia sido preso duas vezes como subversivo. Posteriormente, a esposa Elisabeth Baader recebeu a informação de que ele morreu atropelado e foi enterrado como indigente. Era mentira, claro. Foi provavelmente detido, torturado e morto.

Também considerada assassinada pelo Estado brasileiro foi a aracajuana Therezinha Viana de Assis, economista que concluiu o curso na escola que viria a ser parte da UFS, em 1965. Mudou-se para Belo Horizonte, onde foi funcionária da Caixa Econômica Federal. Militante da AP, Therezinha foi presa e torturada por agentes da repressão entre os anos de 1968 a 1972. No início de 1973, exilou-se no Chile, onde fez um curso de pós-graduação na Universidade de Santiago. Passou a militar no Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR). Após o golpe militar que depôs Salvador Allende, Therezinha buscou asilo político na Holanda, onde apareceu morta em Amsterdã.

Outro natural de Aquidabã que foi torturado, mas sobreviveu para contar a história, foi Agonalto Pacheco. Militante desde a adolescência do Partido Comunista Brasileiro, mudou-se para São Paulo após o golpe de 64, onde se alistou na Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella, principal dirigente da luta armada contra a ditadura. Foi preso em janeiro de 1969 quando organizava uma reunião nacional de proscritos. Torturado no Dops de São Paulo para delatar Marighella, que sabia onde estava escondido, resistiu estoicamente. Sobreviveu porque foi um dos 15 presos políticos libertados em troca do embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick.

Deputados estaduais foram cassados, estudantes da UFS foram perseguidos, alguns deles presos na Operação Cajueiro, ocorrida há 50 anos completos agora. Em fevereiro de 1976, 25 sergipanos foram presos arbitrariamente no quartel do 28º BC, alguns foram torturados e 18 foram processados. O então deputado estadual Jackson Barreto, MDB e ligado ao PCB, sofreu a segunda prisão e respondeu a Inquérito Policial Militar.

O petroleiro Milton Coelho de Carvalho foi uma das vítimas mais conhecidas das torturas sofridas na Operação Cajueiro. Ele tinha 34 anos quando foi vítima da violência que o deixou cego. Viveu os 48 anos seguintes na escuridão, até o dia 17 de abril de 2024, quando morreu aos 82 anos.

São histórias de muita luta, suor, sangue e sofrimento. Mas ninguém penou tanto no cárcere quanto Bosco Rolemberg. Foram quase cinco anos atrás das grades, mais de quatro anos na penitenciária de Itamaracá. A história do sergipano e dos outros revolucionários naquele presídio é ricamente contada no livro “Dossiê Itamaracá: cotidiano e resistência dos presos políticos da Penitenciária Barreto Campelo – Pernambuco 1973-1979”, da jornalista Joana Côrtes, filha de Bosco e Ana Côrtes.

Fruto do mestrado no Programa de Estudos Pós-Graduados em História da PUC de São Paulo, o livro lançado pelo Arquivo Nacional em 2015 foi um dos vencedores do Prêmio de Pesquisa Memórias Reveladas 2012.

“O golpe militar foi o grande corte no sonho do povo brasileiro de avançar a democracia política, a independência nacional e os direitos do povo. Sentido dentro de casa. Na pele. A prisão do irmão mais velho, a invasão da casa, a apreensão dos livros. A irmã mais nova esquizofrênica aos gritos em desespero. Assisti ao desmoronamento dos projetos, enclausurei minhas mágoas, chorei, mas com o tempo tomei uma decisão: dedicar minha vida ao povo, ao país. Derrubar a ditadura tinha um gosto de vingança pessoal”. Depoimento de Bosco Rollemberg ao livro escrito pela filha, em 7 de setembro de 2011.

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* Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

'Os EUA são beligerantes e usurpadores', por Marcos Cardoso

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 3 de janeiro de 2026

Os EUA são beligerantes e usurpadores
Por Marcos Cardoso*

O golpe na Venezuela não é a primeira e nem será a última intervenção cometida pelos Estados Unidos da América contra uma nação latino-americana. A lista é longa e remete ao século 19, quando os ianques tomaram de assalto metade do território do México. As razões alegadas variam, mas por trás dos ataques imperialistas à soberania alheia há sempre o interesse nas riquezas dos outros povos. Afinal, foi assim que os EUA se tornaram um império.

E não faz diferença de quem esteja à frente do brother do norte, se republicano ou democrata, se Donald Trump, Barack Obama ou um personagem da Disney, pouco importa.

A última intervenção contra um país da América do Sul tinha acontecido em 2009 e atingiu o Paraguai. Naquele ano, um documento da embaixada dos Estados Unidos em Assunção, vazado pelo site Wikileaks, previa que Fernando Lugo seria derrubado por meio de um golpe parlamentar – exatamente como aconteceu, quando o presidente eleito do Paraguai foi substituído por seu vice Federico Franco.

O então presidente dos Estados Unidos, o democrata Barack Obama, não se mexeu. Quatro anos antes, imaginava-se que a posse do cerebral presidente negro, filho de queniano, de origem pobre, teria o condão de mudar a política imperialista dos Estados Unidos para a América Latina. Mas viu-se que, por uma questão de cacoete histórico, isso não aconteceu. Ainda mais que governos de esquerda se sucediam na região.

O histórico dessa relação desigual (inspirado em artigo publicado no site “America Latina em Movimiento”, de 19 de setembro de 2008) não deixa margem à dúvida quanto às intenções norte-americanas. A famosa Doutrina Monroe, divulgada em 1823, quando os países da América Latina principiavam seus movimentos de libertação, já deixava claro que o país do norte considerava toda essa região debaixo de sua esfera de influência.

Por 150 anos a diplomacia americana foi baseada na Doutrina Monroe, que reivindicava “a América para os americanos”. É a doutrina que Trump quer aberta e cinicamente resgatar.

O Dicionário de Política, de Norberto Bobbio (Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino), define o imperialismo como a “expansão violenta por parte dos Estados, ou de sistemas políticos análogos, da área territorial da sua influência ou poder direto, e formas de exploração econômica em prejuízo dos Estados ou povos subjugados”. O termo originalmente está associado ao império inglês e se considera que a Alemanha, a Itália e o Japão foram imperialistas nos anos 30, 40. A mesma obra acrescenta que, depois de 1945, quando se apagou o impulso imperialista desses Estados, “o fenômeno do imperialismo continuou a manifestar-se (…) na política neocolonialista praticada principalmente pelos Estados Unidos”.

“Os imperialistas são os parasitas do patriotismo… nunca perdem de vista as oportunidades de negócios lucrativos”, já observava, no começo do século passado, o economista inglês John Atkinson Hobson, autor do clássico “Imperialismo: um estudo” (1902) e um dos primeiros a pesquisar o tema: na transformação capitalista, os mercados internos já não bastam e se tornam necessários os mercados externos para a absorção da produção, mercados que se conquistam com a conquista das colônias.

Buscando explicar a rivalidade inter-imperialista entre as grandes potências, na busca por mais mercados que conduzira à Primeira Guerra Mundial, Vladimir Lênin, na obra “Imperialismo, estágio superior do capitalismo” (1916), afirma que “o imperialismo é o estágio monopolista do capitalismo”. De acordo com a teoria marxista do imperialismo, todas as formas de violência internacional foram provocadas pelas contradições estruturais do capitalismo, que consegue fazer do Estado um instrumento cada vez mais eficaz a serviço dos seus fins.

Mas a União Soviética, socialista, também foi imperialista, assim como a Rússia ainda o tenta ser. Portanto, historicamente, como política de expansão e domínio territorial, cultural e econômico de uma nação sobre outras, ou sobre uma ou várias regiões geográficas, o imperialismo extrapola os sistemas econômicos, políticos e sociais.

Como o capital sempre venceu — ou sempre vence? — o imperialismo, ou, mais modernamente, o neocolonialismo, é associado ao contexto do capitalismo e à busca por mercados e lucro à força, a qualquer custo. Inclusive militar. Os Estados Unidos invariavelmente justificaram intervenções militares no mundo para combater revoluções ou para obter o controle de mercados com o discurso da Guerra Fria, e não em termos de objetivos imperiais. Mas a verdade é que a guerra virou um negócio para os capitalistas — americanos, sobretudo — e, hoje, grande parte da economia estadunidense está ancorada nesse “setor”.

Dois autores norte-americanos estudiosos do capitalismo monopolista, Paul Baran e Paul Sweezy, afirmavam que os Estados Unidos não teriam tido, depois da Segunda Grande Guerra, um desenvolvimento econômico tão impressionante se não tivessem destinado parte considerável do seu orçamento aos armamentos. Garantindo ocupação para grande massa da população que seria improdutiva e investindo no setor tecnológico, pois grande parte das mais importantes invenções, usadas também no setor civil, provêm da atividade de pesquisa do setor militar.

“A ação conjunta entre as elites predadoras nacionais e o estado terrorista ianque é recorrente e parece seguir sempre o mesmo método: criação de focos desestabilizadores, instrução militar, apoio financeiro e mentiras, muitas mentiras. Estas são reproduzidas à exaustão pelos grandes meios de comunicação, na eterna lógica de desinformação e de fortalecimento da ideologia dominante. Assim, com o mesmo velho método já utilizado em 1836, quando insuflou a elite da região do que hoje é o Texas a se separar do México, os Estados Unidos atentam contra a soberania dos povos sempre com o mesmo objetivo: garantir o seu domínio sobre países e as riquezas dos povos”. A opinião, fundamentada, é do historiador e pacifista estadunidense contemporâneo Howard Zinn, no livro “Uma história popular dos Estados Unidos”.

Breve cronologia das intervenções imperialistas:

1836 – Os Estados Unidos empreendem guerra contra o México com o objetivo, alcançado, de anexar o estado do Texas.

1898 – A guerra com a Espanha garante aos EUA o ganho do controle sobre as antigas colônias espanholas no Caribe — incluindo Cuba e Porto Rico — e no Pacífico.

1903 – Os americanos do norte criam um foco separatista na região que hoje é o Panamá, justamente o lugar onde estava sendo construído um canal entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Com a ajuda de cima o Panamá declarou independência da Colômbia. Os EUA terminariam as obras e ficariam com o direito de usufruir do canal por um século inteiro.

1911 – Os Estados Unidos providenciaram nova guerra com o México, alegando que em Vera Cruz haviam aprisionado alguns soldados e se recusavam a pedir desculpas. Por conta disso, atacaram a cidade, bombardearam e mataram mais de 100 mexicanos. Foi um pretexto para tirar de cena a luta trabalhista e a “ameaça” do socialismo.

1915 – Os Estados Unidos invadiram o Haiti, onde uma força da marinha desembarcou na capital Porto Príncipe, dirigiu-se às caixas fortes do “Banco Nacional do Haiti” e levou os mais de quinhentos mil dólares que ali havia. As forças estadunidenses ficaram no país até 1934, quando deixaram o povo entregue a uma das dinastias mais sanguinárias da região, a família Duvallier: Fraçois (de 1957 a 1971) e seu filho Jean-Claude até 1986.

1916 – As tropas estadunidenses invadem a República Dominicana, onde permaneceram até 1924, deixando como presidente do país outro ditador da pior estirpe: Leônidas Trujillo, mais conhecido como “o chacal do Caribe”, que ficou no poder por 31 anos.

1946 – Quando assumiu a presidência da Bolívia um jovem militar nacionalista apoiado pelas forças populares, os Estados Unidos foram criando instabilidades internas, no seu velho estilo, até que conseguiram organizar o linchamento e o assassinato do presidente. Com isso a Bolívia saiu da influência das ideias “esquerdistas”.

1954 – Também a Guatemala nacionalista, sob o comando de Jacobo Arbenz, sofreu o peso da mão dos Estados Unidos, aborrecido com o tratamento dado a sua empresa United Fruit. O país foi invadido e o presidente deposto.

1954 – Ainda no mesmo ano, os olhos se voltaram para o Brasil e, usando o mesmo jogo de intrigas e mentiras, a CIA consegue levar à bancarrota o governo de Getúlio Vargas, com o providencial suicídio do presidente.

1955 – Foi a vez de derrubar Juan Domingos Perón e entregar toda a indústria estatal argentina nas mãos privadas, provocando o desmantelamento e a desnacionalização da economia.

1961 – Os ianques tentam acabar com a revolução cubana a partir de uma invasão via Playa Girón. O exército americano, formado basicamente de mercenários, foi derrotado.

1964 – São públicas as tramoias montadas pelos Estados Unidos para depor o presidente João Goulart, no Brasil.

1965 – Os Estados Unidos invadem outra vez a República Dominicana, onde principiava emergir um levantamento revolucionário popular.

1973 – No Chile de Salvador Allende, incendiavam-se os desejos de vida digna e soberania. Atuando junto à direita, cooptando sindicalistas e lideranças sociais, os estadunidenses foram criando o caldo da contrarrevolução até culminar com um golpe de estado que colocou no poder Augusto Pinochet. Este encharcaria de sangue o país, sob as bênçãos da CIA e da Escola das Américas, que ensinava aos militares as técnicas mais sofisticadas de tortura.

1973 – Também o Uruguai sofreu a intervenção alheia e uma ditadura sanguinária se instalou.

1975 – Dois anos depois era o Peru que caia a partir de um golpe contra o presidente nacionalista Juan Velasco, que havia nacionalizado empresas estadunidenses e feito uma reforma agrária que beneficiara mais de 370 mil famílias.

Anos 80 – Os Estados Unidos estiveram por trás de todos os movimentos contrarrevolucionários da América Central, combatendo com mercenários os partidários de transformações radicais naquela região. Tirando os sandinistas que lograram vencer na Nicarágua, os demais não conseguiram. Antes do sandinismo, eram os EUA que treinavam e financiavam a ditadura de Somoza.

1981 – São as tramas secretas dos agentes da CIA que viabilizam o assassinato de Omar Torrijos no Panamá, um presidente nacionalista que logrou rever a questão do canal, viabilizando um acordo de devolução para 1999.

1982 – Os Estados Unidos ajudam, pela segunda vez na história, a Inglaterra a abocanhar as ilhas Malvinas da Argentina. A base estadunidense na ilha Ascensión, os satélites ianques no espaço, as armas, combustíveis, mísseis, e até o serviço diplomático, tudo foi colocado a serviço dos interesses ingleses.

1983 – Os Estados Unidos promovem a invasão à pequena ilha de Granada, que caminhava pela senda do socialismo.

1989 – Bush pai mandou invadir o Panamá e lá aportaram mais de 26 mil soldados. O objetivo era depor Manuel Noriega, que tinha sido um bom aliado – e agente da CIA – mas estava querendo caminhar com os próprios pés. Assim, com o argumento de que ele liderava um cartel de drogas, o exército estadunidense baixou em Ciudad Panamá e, no ataque ao bairro mais populoso da capital, El Chorrillo, mais de quatro mil civis morreram.

Anos 90 – Os EUA não se limitaram a intervir na América Latina, também estiveram presentes em “ações humanitárias” na Somália, Bósnia e Kosovo. No Afeganistão, mantiveram bem armados os exércitos do talibã para só depois considerá-los inimigos, destruindo-os na guerra pós 11 de setembro de 2001.

1995 – Os ianques invadiram mais uma vez o Haiti, com o argumento de que o governo de Bertrand Aristide era corrupto. Então, para “salvar” o povo, lá foram os marines. Estão lá até hoje, junto com tropas de outros países, entre eles o Brasil.

1999 – Entram também na Colômbia, desta vez com a bênção dos governantes locais. Sob o pretexto de combater o tráfico de drogas — os norte-americanos são os maiores consumidores de cocaína do mundo — programam o Plano Colômbia, que mantém a região sob o seu domínio militar, bem às portas da Amazônia, berço da maior biodiversidade do planeta.

2002 – Avançam sobre o Afeganistão e depois invadem o Iraque, sempre ancorados em fragorosas mentiras. E as mentiras seguem sendo as mesmas, desde o século 19.

2002 – Desde 1998, quando Hugo Chávez assume a presidência da Venezuela, os Estados Unidos vêm tentando colocar por terra todas as ideias nacionalistas que foram se conformando no andar do governo. E o poderio estadunidense é ameaçado quando Chávez começa a falar em socialismo, nacionalização do petróleo, combate à Alca e aproximação com Fidel Castro. Até que o serviço secreto inicia a mesma sorte de tramas, intrigas e formação para o golpe, que acontece em abril de 2002, mas dura pouco tempo.

2005 – Na Bolívia, vence as eleições um aymara que tinha no seu programa a proposta de nacionalizar as riquezas até então em mãos estrangeiras e dar autonomia às nações indígenas. A vitória esmagadora de Evo Morales lhe dá a condição de iniciar reformas que arrepiam o cabelo da oligarquia branca de Santa Cruz, que começa a chamar o separatismo. Tudo orquestrado pelos irmãos do norte. Não bastasse isso, Rafael Correa vence as eleições no Equador com um programa mais próximo de Hugo Chávez e Evo Morales. Era a formação do “eixo” de esquerda que deveria ser extirpado.

2009 – Em 28 de junho, o presidente Manuel Zelaya foi destituído pela Suprema Corte e exilado pelo Exército hondurenho. O ato ocorreu em função do desejo de Zelaya de realizar uma consulta popular para perguntar aos hondurenhos se queriam que, em simultâneo com as eleições a realizar em Novembro de 2009, se realizasse também uma votação no sentido de decidir a criação de uma Assembleia Constituinte que reformasse a Constituição para aprovar reeleições. O golpe de estado contou com o apoio dos EUA.

2012 – O ex-bispo Fernando Lugo foi cassado no dia 22 de junho como presidente do Paraguai após ser considerado culpado por mau desempenho de suas funções em um julgamento político no Senado. Em menos de 30 horas, Lugo foi julgado, sentenciado e seu vice-presidente, Federico Franco, assumiu a Presidência até o término do mandato, em 15 de agosto de 2013.

2025 – Alegando um suposto combate ao terrorismo e ao narcotráfico, os Estados Unidos atacaram Caracas, capital da Venezuela, e outros três estados, na madrugada deste sábado. O presidente Nicolas Maduro e a sua esposa foram sequestrados. Deverão ser julgados pela justiça dos EUA. A informação foi confirmada e comemorada pelo próprio Donald Trump, em sua rede social. Ele diz que governará a Venezuela e admite que o seu interesse é no petróleo do país que detém a maior reserva do mundo. Os governos do Brasil, da China e da Rússia condenaram o ataque.

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* Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

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O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias.

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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Dom Helder, o arcebispo vermelho, em Aracaju, por Marcos Cardoso


 Artigo compartihado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 21 de dezembro de 2025

Dom Helder, o arcebispo vermelho, em Aracaju
Por Marcos Cardoso*

Há quase 36 anos, no dia 25 de janeiro de 1990, Dom Helder Câmara, arcebispo emérito de Olinda e Recife, esteve pela última vez em Aracaju. Veio a convite da Ordem dos Advogados do Brasil em Sergipe para proferir uma palestra sobre “O desafio da pobreza e a realidade brasileira”. Um tema recorrente na vida daquele que foi declarado Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos. O presidente da OAB era o irrequieto Clóvis Barbosa de Melo.

Ele falou em esperança no governo de Fernando Collor, iniciado naquele mês, defendendo a livre manifestação do povo nas urnas como uma “virtude democrática”. A eleição presidencial de 1989 foi a primeira em quase 30 anos e Collor derrotou Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno.

Também disse ter assistido com esperança a queda do Muro de Berlim, evento de importância para a humanidade, acontecido poucos meses antes, mas ainda se preocupava com a possibilidade de novos conflitos mundiais. “É preciso rezar e trabalhar muito para que as superpotências não voltem a promover uma nova guerra mundial”.

E, claro, defendeu a opção preferencial pelos pobres como bandeira da Igreja Católica, tema que só seria efetivamente levado a sério pelo Papa Francisco, cujo pontificado Dom Helder não alcançou. Ele morreu em agosto de 1999, aos 90 anos. O cardeal Jorge Mario Bergoglio (1936-2025) só foi entronizado no Vaticano em março de 2013.

A opção pelos pobres rendeu a Dom Helder perseguições pela ditadura militar e admoestações da própria Igreja. Foi acusado de ser comunista e taxado de “arcebispo vermelho”. Sofreu a censura da imprensa, onde tinha como um dos mais severos algozes ninguém menos que Nélson Rodrigues. “D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva”, pilheriava o jornalista e teatrólogo.

Coincidentemente, seu governo na Arquidiocese de Olinda e Recife durou o mesmo tempo da ditadura militar, de 1964 a 1985. Quando se desligou dos afazeres da Arquidiocese, o papa João Paulo Segundo nomeou um arcebispo conservador, Dom José Cardoso Sobrinho, que desmontou a estrutura erguida por Dom Helder, afastou pelo menos 30 padres e extinguiu o Instituto de Teologia, o Seminário da Arquidiocese e a Comissão de Justiça e Paz. Na palestra que fez em Aracaju, recusou-se a falar sobre esse assunto.

Dom Helder foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que deve a ele ter conseguido a autorização do Vaticano para sua fundação em 1952. Foi Cidadão Honorário de 28 cidades brasileiras e estrangeiras e doutor honoris causa de 32 universidades do Brasil e do exterior.

Foi indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz, sendo que, em 1970, o próprio ditador Emílio Garrastazu Médici dirigiu uma campanha para que ele não fosse o premiado. O que de fato nunca aconteceu.

Em maio de 2014, a Arquidiocese de Olinda e Recife enviou carta ao Vaticano solicitando a abertura de processo de canonização de Dom Hélder Câmara, que desde 2015 já é reconhecido como Servo de Deus, primeira etapa do processo de beatificação. No último dia 15 de novembro de 2022, a Arquidiocese anunciou a validação jurídica de todo o material enviado a Roma para o processo de beatificação e canonização, o que pode torná-lo venerável.

O acervo de Dom Helder Câmara foi tombado pelo Governo de Pernambuco, reconhecendo a importância de dimensão estadual, nacional e internacional dos cerca de 210 mil itens que contam a história do arcebispo de Olinda e Recife, o “arcebispo vermelho”, aquele que fez a opção pelos pobres e nunca se rendeu aos poderosos.

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PS. Na foto, em 25 de janeiro de 1990, na sede da OAB em Sergipe, ladeado pelo professor José Silvério Leite Fontes e pelo presidente da casa, advogado Clóvis Barbosa de Melo, o arcebispo emérito de Olinda e Recife Dom Helder Câmara concede entrevista para os jornalistas Marcos Cardoso (Jornal da Cidade), Adiberto de Souza (Jornal da Manhã), Marcelo Brandão (Gazeta de Sergipe ou Jornal de Sergipe) e outro não identificado. Fotógrafo também não identificado.

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* Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

'A bancada do atraso', por Marcos Cardoso

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 19 de novembro de 2025

A bancada do atraso
Por Marcos Cardoso*

Caberá ao senador Alessandro Vieira (MDB) sacudir a poeira ideológica e tentar transformar um projeto complexo e complicado numa inédita solução de combate às facções criminosas. Ele é o todo-poderoso relator da CPMI do INSS e, agora, do projeto de lei Antifacção aprovado na Câmara. Mesmo já tendo declarado que Guilherme Derrite foi maleável, o delegado da Polícia Civil de Sergipe e senador é merecedor de confiança por parte de seus pares e considerado preparado para resolver essa missão.

O que parece não ter solução é a capacidade da bancada de deputados sergipana de sempre votar como uma igrejinha nos projetos que interessam à extrema-direita. Parece que pelo menos seis dos nossos oito deputados federais nem passam a vista nas matérias que estão votando. Só obedecem e pronto.

Vide o projeto de lei que dificulta o aborto legal à menina que tenha ficado grávida após um estupro. O que fazem pai e mãe em condições normais de afeto numa situação como essa? Claro que vão optar por retirar o feto e tentar amenizar a dor daquela pessoa frágil e necessitada de amparo, familiar e do Estado.

Os senhores políticos se ponham nesse lugar.

O Projeto de Decreto Legislativo suspende a resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) de 2024, que garante o direito de acesso à informação sobre a possibilidade de aborto da criança caso a gestação seja resultado de estupro.

Votaram sim a favor do projeto que poderá dificultar o acesso ao aborto legal dessas vítimas de violência sexual, no último dia 5 de novembro, os deputados federais sergipanos Delegada Catarina (PSD), Gustinho Ribeiro (Republicanos), Ícaro de Valmir (PL), Rodrigo Valadares (União Brasil), Thiago de Joaldo (PP) e Yandra Moura (União Brasil).

Agora os mesmos deputados aprovam, sem restrição, a sexta versão do projeto de lei Antifacção, batizado como Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, ou PEC da Bandidagem 2.0, apresentado pelo deputado Guilherme Derrite (PP-SP). Fábio Reis (PSD) não participou das duas votações, mas os sete votaram pela anistia de Bolsonaro. Apenas o deputado João Daniel (PT) votou contra ambas proposituras.

A verdade é que a bancada de deputados sergipanos é tão medíocre que dá até saudade dos tempos que Sergipe era representado na Câmara Federal por nomes da direita como Francisco Rollemberg, Passos Porto, Celso de Carvalho, Antonio Carlos Valadares, João Machado Rollemberg, Ivan Paixão, Pedrinho Valadares, Albano Franco e José Carlos Machado. E pelos progressistas como José Carlos Teixeira, Jackson Barreto, Tertuliano Azevedo, Iran Barbosa, Rogério Carvalho, Márcio Macedo e Marcelo Déda.

PF enfraquecida

O projeto aprovado cria novos tipos penais, como o crime de Domínio Social Estruturado, com pena de 20 a 40 anos, direcionado a integrantes de organizações criminosas ultraviolentas, milícias ou grupos paramilitares. Aparentemente, foram retiradas da versão final a possibilidade de afastar a Polícia Federal da investigação das facções, de transformar o Ministério Público em mero coadjuvante da apuração e de equiparar o narcotráfico ao terrorismo.

Mas o aparente avanço perde o sentido quando foi mantido o claro propósito de enfraquecer a Política Federal. Como observou Fernando Haddad: “Como ministro da Fazenda e, portanto, responsável pela Receita Federal do Brasil, pelas aduanas brasileiras, e essas três operações que eu citei – os fundos de lavagem de dinheiro da Faria Lima, a máfia dos postos de combustível no Rio de Janeiro e a questão da fraude no sistema financeiro –, elas serão enfraquecidas com esse projeto, que, repito, asfixia financeiramente a Polícia Federal, e não o crime organizado”.

Os senhores deputados sergipanos conseguiram entender algo tão importante?

Os senadores Otto Alencar, presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, e Alessandro Vieira, relator do PL, imediatamente informaram que a Polícia Federal, o Ministério Público, a Polícia Civil e demais órgãos de segurança serão ouvidos antes de alterarem o texto do PL Antifacção. Essas instituições não foram ouvidas na Câmara.

Alessandro Vieira informou à Agência Brasil que seu relatório não permitirá que a Polícia Federal perca recursos, apesar de avaliar que o texto aprovado na Câmara está “adequado quanto ao mérito”: “Vamos verificar o formato, mas a gente já antecipa que não terá nenhum tipo de redução no financiamento da Polícia Federal, que é fundamental para o Brasil.”

Hugo Motta recebeu do governo um projeto que tinha como finalidade modernizar e fortalecer o ordenamento jurídico brasileiro, dando mais força ao Estado para reprimir as organizações criminosas que exercem controle de territórios e atividades econômicas, que foi elaborado por especialistas, tendo à frente o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, e o entregou para um policial militar de atuação no mínimo questionável.

O deputado federal Guilherme Derrite (PP), secretário de Segurança Pública de São Paulo desde a primeira hora da gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos) foi transferido da Rota para o Corpo de Bombeiros, em 2015, por conta da alta letalidade policial das operações que coordenava. Ele foi investigado por 16 assassinatos. Como secretário, sua gestão é marcada pela disparada na letalidade dos agentes, principalmente da Polícia Militar. O número de mortes em decorrência de intervenção policial no estado subiu de 421 em 2022 para 813 no ano passado. É o modelo que agrada aos deputados sergipanos.

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*Marcos Cardoso é jornalista. marcoscardosojornalista@gmail.com

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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Artigo: 'Quando o político é um inocente útil', por Marcos Cardoso

Post compartilhado do Perfil Facebook/Marcos Cardoso, de 4 de agosto de 2025

Artigo: Quando o político é um inocente útil
Por Marcos Cardoso

A política é um campo favorável à proliferação de personagens exóticos. Toda eleição brotam os candidatos com nomes ou apelidos incomuns, que não têm expressão política e buscam se destacar e atrair a atenção do eleitorado de forma criativa. Esses nomes podem incluir referências a figuras populares, apelidos relacionados a características físicas ou comportamentais, ou até mesmo nomes inspirados em personagens de filmes, desenhos animados ou músicas.

Em toda eleição pululam país afora figuras folclóricas como Capitão América, Engraxate das Estrelas, Orlando Cannabis, Gato Velho e Negona de Bolsonaro. Alguns alcançam o sucesso, como o palhaço Tiririca, deputado federal pelo PL de São Paulo, Hélio Negão ou Hélio Bolsonaro, deputado federal pelo PL do Rio de Janeiro, o Palhaço Soneca, vereador pelo PSD de Aracaju, e Luizão Donatrampi, deputado estadual pelo PL de Sergipe.

Mecânico de profissão, natural de Itabaiana, Donatrampi, como o pseudônimo sugere, é fã incondicional de Donald Trump desde que o milionário americano governou os EUA pela primeira vez, de 2017 a 2021. É também um ferrenho defensor do ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem considera um injustiçado.

Parlamentar relativamente atuante, ele deve ao capitão reformado sua eleição, pois é um dos muitos beneficiados pela onda bolsonarista que se alastrou pelo país desde a eleição de 2018, elegendo governadores, prefeitos e parlamentares alinhados com a extrema-direita.

Donatrampi demonstra preocupação com a educação e apresentou alguns projetos de lei voltados para a escola. Um projeto dispõe sobre a “vedação de práticas, materiais, conteúdos e atividades de cunho erótico ou sexualmente sugestivo nas instituições de ensino públicas e privadas”. Outro dispõe sobre a “vedação à prática de militância político-partidária por agentes públicos e profissionais da educação nas instituições de ensino da rede pública em geral”.

E um outro projeto, esse mais complexo, “institui a proibição do ensino ou abordagem disciplinar do holocausto, holodomor e outros genocídios históricos sob os prismas do negacionismo ou revisionismo histórico, no âmbito do sistema estadual da educação básica do estado de Sergipe”.

Recentemente, esteve no programa de Luiz Carlos Focca, na rádio Transamérica, para defender o seu líder político e atacar aqueles que estariam praticando ilegalidades contra ele. Toda vez que a emissora do Sistema Atalaia precisa de alguém para falar bem de Bolsonaro e espinafrar Lula, Donatrampi é convocado.

Mas dessa vez ele apresentou uma novidade. Pretende lançar-se candidato a senador no próximo ano. Seu principal projeto já está definido: fazer uma maioria de extrema-direita no Senado para aprovar o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do STF.

Segundo ele, o Supremo Tribunal Federal, Xandão à frente, implantou a ditadura do Judiciário, pratica um ativismo judicial que cerceia a liberdade de expressão e persegue Bolsonaro sem que ele tenha cometido nenhum crime. É o discurso matraqueado pelos seguidores do ex-presidente, sem argumento lógico que se sustente. Mas e daí? O eleitorado gosta.

Um dos preceitos fundamentais e cláusula pétrea da Constituição é a liberdade de expressão e no Brasil esses caras podem falar todas as falácias que falam por aí, inclusive, que vivemos numa ditadura e não temos liberdade de expressão. Eles não se enganam, mas contam lorotas para quem quer ser enganado.

Donatrampi é o arquétipo do inocente útil que serve à extrema-direita bolsonarista. É usado como instrumento para promover ou defender causas, ideias ou ações que podem ter objetivos manipuladores ou prejudiciais, sem que perceba, movido por boas intenções, ingenuidade ou ignorância.

Muitos se arrependeram ou foram abandonados à própria sorte, como Joice Hasselmann e Gustavo Bebianno, ou os notáveis Reinaldo Azevedo, Danilo Gentilli, Lobão, Fagner, Marco Antônio Villa, Gilberto Dimenstein, Alexandre Frota, Rachel Sheherazade e Eduardo Costa. 

O deputado Hélio Negão ou Hélio Bolsonaro, militar da reserva, é um resistente da tropa bolsonarista. É o típico inocente útil servil a Bolsonaro. Se o capitão mandar vestir a bandeira de Israel para defender valores cristãos, ele veste. Mesmo sem saber que a única relação que Cristo tem com o estado judeu é que Jesus nasceu na Palestina.

Da mesma forma, Hélio Negão veste a camisa com o rosto de Margaret Thatcher, certamente sem saber que a primeira-ministra britânica apoiava o apartheid que perseguia e matava os negros da África do Sul. Ora, quem precisa saber disso?

Esses senhores, que consideram o STF um tribunal viciado e acham que Donald Trump está certo em taxar o Brasil, não são necessariamente criminosos, como aqueles que participaram da tentativa de golpe de estado incitados por Bolsonaro, mas servem a uma causa indefensável. E a extrema-direita, o mundo inteiro sabe, sempre joga no quanto pior, melhor.

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terça-feira, 20 de maio de 2025

'E se fosse um macho?,' por Marcos Cardoso

Deputada Linda Brasil (Psol)

Artigo compartilhado do site DESTAQUE MOTÍCIAS, de 19 de maio de 2025

E se fosse um macho?
Por Marcos Cardoso*

A deputada estadual Linda Brasil (Psol) voltou a procurar as autoridades policiais para denunciar as ameaças de morte que tem sofrido sistematicamente desde o primeiro ano do mandato. Em junho de 2023, as ameaças chegaram por email à Escola do Legislativo e a Assembleia acionou a Polícia Civil, que instaurou inquérito. O Gabinete de Segurança Institucional da casa colocou-se à disposição dela.

Em março do ano passado, ela recebeu email com novas ameaças e registrou a ocorrência no Centro de Operações Especiais (Cope) da SSP, além de ter comunicado o fato à Polícia Federal. Há uma semana, no último dia 12, após reiteradas intimidações, entregou um dossiê com mais de 120 mensagens de ameaças, injúrias e discursos de ódio, com teor discriminatório e violento, à Delegacia de Atendimento aos Grupos Vulneráveis (DAGV) da SSP, ao Ministério Público Federal, ao Ministério Público Estadual e à Polícia Federal.

A dúvida que se impõe é: até quando a deputada terá que pedir socorro por estar sendo ameaçada de morte sem que nada de real aconteça para se punir o criminoso? Não se faz nada de concreto porque ela é uma mulher trans? E se fosse um macho? Se fosse o presidente da Assembleia ou o líder do governo a sofrer reiteradas ameaças, o agressor já teria sido descoberto?

Talvez essa seja também uma forma de transfobia. Sempre é bom repisar que o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo. Em 2023, houve 155 mortes de pessoas trans no Brasil, sendo 145 casos de assassinatos e dez que cometeram suicídio após sofrer violências ou devido à invisibilidade trans.

O número de assassinatos aumentou 10,7%, em relação a 2022, quando houve 131 casos. Os dados são na 7ª edição do Dossiê: Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2023, da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra). Em Sergipe, não houve nenhum caso naquele ano, mas pode haver subnotificação.

Os assassinatos são quase sempre por meios cruéis. O dossiê registra tiros, facadas, espancamentos, estrangulamentos, apedrejamentos e outros. A Antra destaca a ausência de ações de enfrentamento da violência contra pessoas LGBTQIA+ por parte do Estado brasileiro e a falta de rigor nas investigações policiais de casos de transfobia.

Os dados do Atlas da Violência 2025, uma parceria entre o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), confirmam um aumento nos registros de casos de violência contra pessoas LGBTQIA+. De 2022 para 2023, os casos de violência contra homossexuais e bissexuais registrados no Ministério da Saúde aumentaram 35%, enquanto os casos de violência contra pessoas transexuais e travestis aumentaram em 43%.

A violência contra mulheres trans saltou de 291 casos registrados em 2014 para 2.540 em 2022 e daí para absurdos 3.524 casos de violência contra pessoas com essa identidade de gênero em 2023. Os tipos de violência registrados no sistema de saúde podem incluir violência física, psicológica/moral, tortura, sexual, tráfico de seres humanos e outras.

O substancial aumento das notificações de violência contra a população LGBTQIA+ a partir de 2020 coincide com o governo Bolsonaro.

“Não obstante, na última década, em muitos países e, em particular, no Brasil, um fenômeno sócio-político notável é a intensificação e fortalecimento dos grupos de extrema direita, que ficou conhecido como backlash. No Brasil, esse movimento político extremista se articulou em torno da chamada agenda ‘anti-ideologia de gênero’, que não só se institucionalizou durante o governo Bolsonaro, mas também após esse período, desestruturando políticas e instituições de defesa de direitos LGBTQIAPN+”, diz o Atlas da Violência 2025.

O documento observa que o Legislativo se tornou ainda mais conservador no período, intensificando o avanço de proposições legislativas LGBTfóbicas, e especialmente, antitrans.

Conforme pesquisa da FGV Direito Rio, foram produzidos mais de 60 projetos antitrans entre 2019 e 2023: 26 sobre linguagem não-binária, 11 sobre mulheres trans em esportes, 10 sobre cirurgias de transgenitalização e/ou terapia hormonal, sete sobre “ideologia de gênero”, três sobre banheiros de gênero neutro e outros quatro projetos de lei que tiveram como foco a imposição do sexo biológico dos indivíduos em documentos oficiais para fins de identificação civil, matrimônio e questões previdenciárias.

Homens formaram 78% dos parlamentares proponentes desse rol de projetos, 70% dos parlamentares proponentes eram brancos. Além disso, 80% dos parlamentares proponentes faziam parte da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional ou da Frente Parlamentar Católica Apostólica Romana, 23% deles fazia parte de ambas.

A agressão a pessoas trans é enquadrada em crime de ódio. Isso porque, diferentemente de outros crimes, neste caso a identidade de gênero é um fator determinante para a agressão. O objetivo é atacar a minoria social, não apenas a pessoa em si. Além disso, em 2019, o Supremo Tribunal Federal decidiu que atos de homofobia e transfobia podem ser equiparados, perante a lei, ao crime de racismo e, dessa forma, devem ser punidos seguindo essa determinação.

Mas de onde vem tanto ódio? A psicologia social ensina que o ódio está relacionado ao pavor do diferente, um comportamento belicoso que é ensinado, tem raízes culturais. O tratamento de choque para esses casos é muita educação. Mas enquanto isso não acontece, espera-se que a polícia e a Justiça façam a sua parte.

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* Marcos Cardoso é jornalista. Autor, dentre outros livros, de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos”  (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024).

marcoscardosojornalista@gmail.com

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sábado, 3 de maio de 2025

'A direitona se organiza', por Marcos Cardoso

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 2 de maio de 2025

A direitona se organiza
Por Marcos Cardoso*

Pergunta sincera: alguém tem dúvida de que lado estariam o senador Laércio Oliveira (PP) e o ex-deputado André Moura (União Brasil) se o golpe de estado planejado por Bolsonaro tivesse logrado êxito? E os deputados federais Yandra Moura (União Brasil), Rodrigo Valadares (União Brasil) e Thiago de Joaldo (PP), de que lado estariam? Na resistência democrática contra a ditadura que não vingou por um triz ou aboletados no bem bom da nova desordem institucional?

Também não deve haver muita dúvida sobre de que lado estariam os deputados federais Ícaro de Valmir (PL), Gustinho Ribeiro (Republicanos), Delegada Katarina (PSD) e Nitinho (PSD). Mas miremos apenas naqueles que integram os quadros dos partidos Progressista e União Brasil.

É que essas duas agremiações estão se unindo numa federação partidária chamada União Progressista, uma super aglomeração que conta com 109 deputados federais e 14 senadores. Será a maior bancada do Congresso Nacional. Na Câmara, desbanca o PL, com 91 parlamentares, e a federação PT, PCdoB e PV, com 80. No Senado, empata com PSD e PL.

A nova federação também contará com a força de seis governadores e de 1.350 prefeitos espalhados pelo país, um quarto dos 5.569 municípios brasileiros. Ainda deverá ser registrada no Tribunal Superior Eleitoral, com validade já a partir de 2026. O PP, de Ciro Nogueira e Hugo Motta, e o União Brasil, de Antonio Rueda, ACM Neto e Davi Alcolumbre, funcionarão como uma única agremiação partidária e juntos poderão ter ou apoiar um candidato a presidente, além de manter o alinhamento nas demais disputas eleitorais.

Há uma questão de genética partidária que aproxima e não esconde a hereditariedade de PP e União Brasil. Parafraseando Leonel Brizola, são partidos filhotes da ditadura. O regime tinha o próprio partido, a Aliança Renovadora Nacional (Arena), que na reforma partidária de 1979 virou o Partido Democrático Social (PDS). Na mesma reforma surgiu o PT, PDT, PP, ressurgiu o PTB e o MDB se transformou no PMDB. Esse primeiro PP, de Partido Popular, do finado Tancredo Neves, sumiu em 1981, quando foi incorporado ao PMDB.

Em 1993, uma dissidência do PDS funde-se com o Partido Democrata Cristão (criado em 1988) e nasce o Partido Progressista Reformador (PPR). Em 1995, o PPR fundiu-se com o Partido Progressista (PP), legenda criada no ano anterior, também por agregação de outras forças partidárias. Nascia, então, o Partido Progressista Brasileiro (PPB), que posteriormente viria a se chamar apenas Partido Progressista, o atual PP.

Em 1985, o grupo majoritário do PDS já havia criado o Partido da Frente Liberal (PFL), que, em 2007, se transformaria no Democratas (DEM). O União Brasil é a fusão do DEM com o PSL, partido que abrigou o ex-presidente Jair Bolsonaro quando ele foi eleito em 2018.

Por essa conexão com o partido que dava sustentação à ditadura militar, os jornalistas José Roberto de Toledo e Tiago Mali, do UOL, apelidaram a federação União Progressista de “Arenão Brasil”. E eles revelam um dado surpreendente: esse agrupamento ofereceu mais votos ao governo Lula na Câmara dos Deputados do que o próprio PT. O Arenão Brasil é o maior partido da base de sustentação de Lula naquela casa do Congresso.

Lembremos que a nova federação comanda quatro ministérios do governo Lula: as pastas de Esportes, com André Fufuca (PP) — indicação apoiada por Arthur Lira —, e Turismo, com Celso Sabino (União), além de indicações dentro da cota partidária do União Brasil como Frederico Siqueira Filho, das Comunicações — indicado por Alcolumbre —, e Waldez Goés (PDT), da Integração e do Desenvolvimento Regional.

Claro que tudo isso interessa ao governo e aos partidos com assento na Esplanada dos Ministérios. Mas o apoio de hoje pode não significar nada no próximo ano para quem historicamente sempre divergiu de Lula e do PT. O bolsonarista governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), é o candidato que a maioria dessa turma sonha na disputa à presidência em 2026. Se não for ele, a federação tem nome próprio, o também bolsonarista governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), que está rezando para ser o ungido.

Como sugerem alguns petistas, é bom Lula manter a barba de molho.

*Marcos Cardoso é jornalista. Autor, dentre outros livros, de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos”  (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024).

marcoscardosojornalista@gmail.com

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terça-feira, 29 de abril de 2025

Democracia brasileira faz 40 anos

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 23 de abril de 2025

Democracia brasileira faz 40 anos
Por Marcos Cardoso*

A democracia brasileira conquistada a duras penas é um sistema recente, em vias de consolidação e talvez por isso ainda tão ameaçada. Há somente 40 anos, no dia 8 de maio de 1985, o Congresso Nacional aprovou a emenda constitucional que estabeleceu as eleições diretas para presidente da República e para prefeitos das capitais. As eleições para governador já tinham sido reestabelecidas em 1982, no estertor da ditadura.

Foi no começo do governo do maranhense José Sarney, que sucedeu a Tancredo Neves, o presidente que morreria sem ser empossado. O mineiro foi eleito no Colégio Eleitoral no dia 15 de janeiro, foi internado no dia 14 de março, véspera de sua posse, morrendo no dia 21 de abril. Já no dia 15 de março de 1985, Sarney tornou-se o primeiro presidente civil do Brasil após 21 anos de regime militar.

Naquele mesmo ano, em 15 de novembro, foram realizadas as eleições em 201 municípios, incluindo 23 capitais. Na ditadura, os prefeitos das capitais e de municípios considerados áreas de interesse nacional eram biônicos, indicação dos governadores eleitos indiretamente. A contagem dos votos apontou uma vitória maciça do PMDB, com 127 prefeituras, sendo 19 capitais, incluindo Aracaju.

Jackson Barreto, eleito em 1985

O então deputado federal Jackson Barreto confirmou ali a sua trajetória de fenômeno eleitoral sendo eleito com folga, com mais de 70% dos votos, derrotando Gilton Garcia (PDS), candidato do governador João Alves Filho e que ficou na terceira colocação, e a revelação Marcelo Déda (PT), que ficou em segundo.

Aquele mandato de prefeito, que já seria curto, de apenas três anos, para Jackson ficou ainda menor por conta da intervenção que sofreu do governo de Antônio Carlos Valadares (PFL) em abril de 1988, acusado de malversação do dinheiro público. Foi substituído pelo vice-prefeito Viana de Assis (PMDB), que concluiu o mandato. No mesmo ano, Jackson elegeu Wellington Paixão (PSB) prefeito de Aracaju.

No pleito seguinte, de 1992, o mesmo Jackson foi mais uma vez eleito prefeito, ficando no cargo até 1994, quando se afastou para disputar o governo do Estado, sendo derrotado por Albano Franco (PSDB). Foi substituído pelo vice-prefeito Almeida Lima (PDT).

Na eleição de 1998, Jackson voltou a eleger o seu candidato, João Augusto Gama (PMDB), que governou até 2000, quando Marcelo Déda foi eleito prefeito de Aracaju (2001-2006). Depois sucederam-se Edvaldo Nogueira, então no PCdoB (2006-2012), João Alves Filho, do DEM (2013-2016), Edvaldo Nogueira, ainda no PCdoB e depois PDT (2017-2024) e agora Emília Correa (PL), eleita na última eleição, de 2024.

Eleições presidenciais

No centenário da Proclamação da República, dia 15 de novembro de 1989, foi realizado o primeiro turno das eleições presidenciais. Com o fim da ditadura militar, a primeira vez que o Brasil escolheu um presidente após a promulgação da Constituição Federal de 1988.

Após a frustração pela campanha das Diretas em 1984 e pela eleição indireta de 1985, finalmente o brasileiro pode votar para presidente da República. Elegeu Fernando Collor (PRN), que derrotou Lula (PT), Leonel Brizola (PDT) e Mário Covas (PSDB) e foi defenestrado do cargo no final de 1992, o mandato de cinco anos restando para ser concluído pelo vice Itamar Franco (sem partido).

Collor, Lula, Brizola e Covas, 1989

Depois foram eleitos Fernando Henrique Cardoso, do PSDB (1995-2002), Lula (2003-2010), Dilma Rousseff, também do PT (2011-2016), que sofreu impeachment e teve o mandato concluído pelo vice golpista Michel Temer, do PMDB (2016-2018), seguindo-se Jair Messias Bolsonaro, do PSL e depois PL (2019-2022) e, mais uma vez, Lula eleito em 2022.

Desde o retorno da normalidade eleitoral, Aracaju teve nove prefeitos, contando com aqueles que concluíram os mandatos dos eleitos, sendo que Jackson Barreto foi eleito prefeito duas vezes não consecutivas, Déda teve dois mandatos sucessivos e Edvaldo teve quatro mandatos em duas ocasiões distintas.

Também foram nove os presidentes da República, contando com Tancredo Neves e com aqueles que substituíram os eleitos, sendo que FHC e Dilma tiveram dois mandatos sucessivos e Lula está no terceiro mandato.

Já os governadores de Sergipe foram sete desde a eleição de 1982, sendo que João Alves foi eleito em três vezes distintas e Albano Franco e Déda foram eleitos para dois mandatos consecutivos.

Goste-se ou não dos resultados, a democracia ainda é o melhor dos regimes. São apenas 40 anos, mas já é o maior período de democracia plena no Brasil.

*Marcos Cardoso é jornalista e escritor. Autor, dentre outros livros, de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos”  (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024).

marcoscardosojornalista@gmail.com

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