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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Tirania digital


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 21  de fevereiro de 2026

Tirania digital

Nascida sob o símbolo da liberdade, a internet passou a ser usada como instrumento das ditaduras. Dagomir Marquezi para a Oeste:

“Sua presença em reuniões ilegais foi notada e você está sendo monitorado. Recomenda-se que vocês se abstenham de participar de tais reuniões ilegais, que são desejadas pelo inimigo.”

Essa mensagem aparece nas telas dos celulares dos cidadãos iranianos, da mesma forma que recebemos alertas de tempestades da Defesa Civil. Não satisfeito em matar dezenas de milhares de seus próprios cidadãos, o regime dos aiatolás agora persegue quem participou dos recentes protestos que abalaram o Irã.

Segundo matéria do New York Times, o Big Brother de turbante provavelmente baseou o monitoramento dos manifestantes no uso da geolocalização. Se um iraniano tivesse o azar de, ao voltar do trabalho, passar por uma das manifestações, seria automaticamente enquadrado como suspeito. Outro método é o reconhecimento facial, possibilitado por uma vasta rede de câmeras de vigilância. Tudo com o apoio tecnológico de duas outras ditaduras, a China e a Rússia.

A organização Citizen Lab informou em 2023 que a estatal iraniana de comunicação Ariantel recebeu o apoio técnico das chinesas Huawei e ZTE e da russa Protei. O suporte, segundo a organização Article 19, foi realizado para implantar a capacidade de censura e controle.

A ditadura que se instalou no Irã em 1979 não está conseguindo fornecer nem água aos seus cidadãos, mas teve recursos para estabelecer no país uma rede de vigilância que integra redes de comunicação, reconhecimento facial e tráfego de internet. Quem é apanhado nessa rede é levado para longos interrogatórios que podem terminar em prisão ou mesmo tortura. Como se não bastasse, os capangas do regime a qualquer momento podem parar um cidadão na rua e exigir que desbloqueie seu celular para uma inspeção surpresa.

Segundo a organização Holistic Resilience (“Resiliência Holística”), um grupo voltado para os direitos digitais no Irã, quem é apanhado com algum post sobre as manifestações enfrenta castigos adicionais, como a suspensão dos cartões SIM — o que anula na prática o acesso à rede de celulares. Outros tiveram suas contas bancárias bloqueadas.

Mahdi Saremifar, da Holistic Resilience, disse ao New York Times que, com toda essa vigilância eletrônica, “o governo termina com uma longa lista de nomes. Eles podem visitar cada uma dessas pessoas, talvez um mês ou dois meses depois”. Quem usou um receptor Starlink para furar o bloqueio estatal da internet pode ser preso pelo resto da vida — ou mesmo ser enforcado num guindaste em público.

A teia de controle vai além. Por volta de 2019, o regime criou um método de centralizar a identidade digital de cada iraniano, registrando seu “comportamento digital” como uma ficha corrida. Essa identidade digital é necessária porque o uso da internet no Irã é todo controlado. Aplicativos como X, WhatsApp, YouTube e Telegram são proibidos. A única rede permitida é a estatal NIN, ou “Rede Nacional de Informação”.

Espiões dentro do celular

Para piorar as coisas para os iranianos, toda estrutura de comunicação é dominada pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), os carrascos do regime. Os avanços tecnológicos que facilitam a vida dos cidadãos em países livres são usados para escravizar a população do Irã. “Eles querem um sistema centralizado que monitore a vida diária”, resumiu Mahdi Saremifar, para a revista Wired. “É a vigilância do estilo de vida.”

As garras da ditadura chegam até os instrumentos usados para combatê-la. Aplicativos de VPN (que disfarçam a identidade do usuário) tiveram spywares instalados pelo regime. Spywares são aplicativos que espiam secretamente a atividade do usuário. Cidadãos desavisados que baixaram programas de provedores da Starlink também acabaram instalando os spywares do aparelho de repressão.

A repressão não se dá apenas a quem participa de manifestações. A polícia também usa um aparelho conhecido como “caçadores de ISMI” para “identificar e intimidar mulheres que se recusam a usar o hijab”, segundo a reportagem do NYT. No Irã, mulheres que mostram uma mecha de cabelo são consideradas criminosas.

Esse objetivo de controle total transformou a internet no Irã num sistema tão frágil que, em parte, o feitiço se voltou contra o próprio regime. Para evitar manifestações, o regime desliga a internet. Aí não consegue enviar suas ordens, nem monitorar o que acontece nas ruas.

US$ 9,4 milhões por hora

Um caso semelhante acontece em Cuba. A ditadura comunista não tem dinheiro para distribuir eletricidade ou abastecer aviões. Mas gastou uma fortuna para estabelecer um serviço de vigilância eletrônica na ilha, segundo a ONG Defensores de Prisioneiros, com sede em Madri.

O site Latin America Reports cita o caso típico de Carlos Michael Morales Rodríguez, um jornalista de 48 anos que, em 2021, publicou no Facebook “posts que criticavam os líderes do nosso país”. Foi condenado a dois anos e dez meses de prisão. E foi libertado em 2024 com a ameaça de que seria preso de novo se continuasse a exercer jornalismo independente.

Rodríguez, que trabalha para três agências independentes (Martí Noticias, CiberCuba e Cubanet Noticias), além da BBC e do Washington Post, desobedeceu à ordem e ficou mais 45 dias preso, seguido por mais um período de prisão domiciliar. Durante todo o tempo, ele foi ameaçado se continuasse publicando notícias nas redes sociais. As ameaças são baseadas no sinistro Decreto 35, que restringe qualquer mensagem online que desafie o governo. Segundo o decreto, qualquer um que “subverta a ordem constitucional” será considerado um “cyberterrorista”.

A Rússia de Vladimir Putin obviamente não poderia seguir caminho diferente. Segundo o site Jamestown, o regime está penalizando todos os que acessam “sites extremistas”. A invasão da Ucrânia justifica qualquer ação autoritária como um esforço de guerra.

O submisso parlamento russo, conhecido como Duma, passou uma lei que permite que computadores sejam investigados em busca de “sites extremistas”. E, como os iranianos, a ditadura russa se dá ao direito de interromper a internet quando decide que é necessário. Só em junho de 2025 foram realizadas 650 interrupções locais da internet, mais do que acontece no resto do mundo num ano inteiro. VPNs são proibidas e quem utilizar o aplicativo pode receber multas que vão de US$ 2,5 mil (cerca de R$ 13 mil) a US$ 6,3 mil (aproximadamente R$ 33 mil).

A justificativa oficial do Kremlin é evitar ataques dos ucranianos dentro do país, com drones. Mas todo mundo sabe que o que preocupa Putin é o crescente descontentamento com a situação do país, onde cerca de 1,2 milhão de soldados foram mortos, feridos ou estão desaparecidos desde a invasão da Ucrânia.

A vítima dessas interrupções da internet não é apenas a liberdade dos usuários. Segundo o Jamestown, cada hora de internet derrubada pelo governo custa cerca de US$ 9,4 milhões para as economias regionais.

Made in China

Cada país que implementa essa tirania digital passa a servir de laboratório para novas experiências. A ditadura de Mianmar (antiga Birmânia), no poder há 64 anos, inventou uma sigla PSMS que significa “Sistema de Monitoramento e Escrutínio Pessoal”.

Segundo o site Fulcrum, especializado em assuntos do Sudeste da Ásia, no final de 2023, o regime no poder declarou que havia digitalizado 52 milhões de identidades biométricas e 13 milhões de residências. Ou seja, quase a população inteira do país (55 milhões) está sob total controle. Impressões digitais, dados faciais, registro de íris, tudo está arquivado para que a ditadura siga cada passo de cada cidadão.

Os habitantes têm seu nome registrado no SIM do celular. Cada um de seus movimentos, como transações bancárias, compras, comunicações e deslocamentos, pode ser monitorado. A tecnologia, só para não variar, é made in China. Os equipamentos são fornecidos pelas empresas chinesas Huawei, Hikvision e Dahua. Segundo o site Fulcrum, “com câmeras aprimoradas por inteligência artificial, identidades SIM com nomes reais e reconhecimento facial alimentando um banco de dados central, o Estado pode identificar, comparar e sinalizar cidadãos antes mesmo que os protestos aconteçam”. A China está instalando sistemas semelhantes no Paquistão e no Camboja.

A ditadura chinesa tem todo esse aparato para controlar seu 1,4 bilhão de cidadãos. E agora conta com um novo recurso: a inteligência artificial. De acordo com uma investigação do Instituto Australiano de Estratégia Política, divulgada pela CNN, a IA possibilita “automatizar a censura, intensificar a vigilância e suprimir preventivamente a dissidência. A China está utilizando inteligência artificial para tornar seus sistemas de controle existentes muito mais eficientes e intrusivos. A IA permite que o Partido Comunista Chinês (PCC) monitore mais pessoas, mais de perto e com menos esforço”.

O que começou como alerta no celular de um iraniano termina como modelo exportável de tirania digital. Cada novo país que adota essa tecnologia dá mais um passo rumo a um mundo onde o cidadão já nasce suspeito. Com 600 milhões de câmeras para vigiar sua população — uma para cada 2,3 pessoas —, a China transformou o controle em ciência exata. O monitoramento chega a tal ponto que câmeras em prisões captam se um detento demonstra irritação. Ele é isolado antes mesmo de qualquer reação além de uma careta. Resultado: segundo a CNN, o sistema jurídico chinês — submetido ao Partido Comunista — registra 99% de condenações. Está muito próximo da “perfeição”.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Como surgiu o novo coronavírus?

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 15 de janeiro de 2021

Como surgiu o novo coronavírus?

A resposta mais provável, até o momento: o vírus teve origem em pesquisas com manipulação genética no Instituto de Virologia de Wuhan. Dagomir Marquezi para a nova edição da revista Oeste:

Você sabe como surgiu a covid-19?

Ninguém sabe. O regime comunista chinês escondeu a própria existência do novo coronavírus por um mês, enquanto a doença se espalhava pelo mundo. A Organização Mundial da Saúde, que cansou de demonstrar subserviência ao governo de Pequim, pediu por meses a entrada de uma delegação no país para descobrir como tudo havia começado. A China respondeu com uma barreira de exigências e regras que adiaram até agora o início dos estudos. E assim, um ano depois, ninguém sabe ainda como surgiu o vírus que mudou nossa vida.

Finalmente a autorização para o início das investigações foi dada no último dia 11 pelo governo chinês. Dez “caçadores de vírus”, originários de quatro continentes, vão se encontrar em Wuhan, o berço da pandemia, a partir deste dia 14. Farão, é claro, o que as autoridades permitirem. Isso se o regime comunista não inventar alguma nova barreira de última hora.

Afinal, o presidente Xi Jinping impediu (segundo a agência Associated Press) universidades, agências médicas e laboratórios chineses de compartilhar qualquer informação sobre o novo coronavírus com o resto do mundo. Quem tentou furar esse bloqueio foi preso ou simplesmente desapareceu. A origem do problema mais grave do mundo atual permanece no escuro.

Enquanto a China não liberava o grupo de pesquisadores da OMS, o escritor norte-americano Nicholson Baker resolveu fazer sua própria investigação. Pesquisou todos os relatórios científicos que encontrou e conversou com dezenas dos maiores especialistas do mundo em pandemias. Reuniu suas conclusões num longo artigo para a New York Magazine. Manteve a mente aberta para qualquer possibilidade. Até para a hipótese de a covid-19 ter surgido espontaneamente, o que é defendido por cientistas sérios e competentes.

Ele não encontrou nenhuma suspeita de que a covid-19 tenha sido planejada como arma biológica. Mas, segundo o levantamento de Baker, o que aconteceu foi definitivamente um acidente. Depois de ouvir tantos depoimentos qualificados, o escritor ganhou muita certeza para afirmar que o novo coronavírus foi “desenhado” na China. E que escapou de um laboratório.

A covid-19 pode ter sido consequência de uma escola de pesquisas biológicas chamada de gain of function (ou “ganho de função”). A ideia é pegar um vírus existente e manipular sua genética para que ele se torne cada vez mais letal. E, assim, criar as condições para que a cura da doença causada por ele seja possível.

Parece inacreditável. Mas é isso mesmo que ocorre nas pesquisas de “ganho de função”, movidas a muito dinheiro: laboratórios criam doenças inéditas, cada vez mais devastadoras, para encontrar a cura delas. O vírus Sars surgiu em 2003 na China a partir de experimentos em que se misturavam códigos genéticos de vírus que infectam morcegos e seres humanos. O mesmo aconteceu uma década depois com o Mers (agente da síndrome respiratória do Oriente Médio) quando foram misturados genes de vírus presentes em morcegos e camelos.

Por mais bem guardados que sejam esses novos vírus artificiais, acidentes acontecem. “Um tubo de ensaio cai, uma agulha se quebra, um rato morde, um frasco ganha o rótulo errado”, resume Baker. Só nos Estados Unidos, segundo investigação do jornal USA Today, “mais de 1.100 incidentes envolvendo bactérias, vírus e toxinas que representam riscos significativos de bioterrorismo foram reportados aos órgãos reguladores federais entre 2008 e 2012”.

Trata-se de casos descobertos, investigados e corrigidos dentro do possível pelas autoridades norte-americanas. Não é o que aconteceu na China — que preferiu até agora esconder seus erros debaixo do tapete. Declarou a cientista Alina Chan, que trabalha no Instituto de Tecnologia de Massachusetts e na Universidade Harvard: “Não sei se encontraremos as provas de um erro, especialmente se foi um acidente de laboratório. […] O governo chinês também restringiu seus especialistas de procurar pelas origens do Sars-CoV-2 [responsável pela covid-19]. Nesse passo, a origem do vírus deverá ser enterrada pela passagem de tempo”.

Os especialistas que apostam na hipótese de vazamento do vírus de um laboratório apontaram o mais forte suspeito: o Instituto de Virologia de Wuhan, onde se realizam trabalhos para criar coronavírus híbridos a partir de morcegos. O jornalista Sam Husseini, do Consortium News, lembrou logo no início da pandemia que existem onze laboratórios de nível BSL-4 nos Estados Unidos. A sigla indica um estabelecimento “de segurança máxima e nível 4 de biossegurança, usado para estudar os patógenos (vírus transmissores de doenças) mais perigosos conhecidos”. Husseini declarou num simpósio: “Só estou perguntando: é total coincidência que esta epidemia tenha acontecido na única cidade da China que tem um laboratório de nível BSL-4?”. Ele se refere justamente a Wuhan e seu Instituto de Virologia.

O professor Botao Chao (da Universidade de Tecnologia do Sul da China) publicou, também no início da pandemia, um relatório notando que em Wuhan se localizam não só o Instituto de Virologia como um Centro de Prevenção e Controle de Doenças. Esse centro fica a pouco mais de 100 metros do “mercado molhado” — de onde, segundo o próprio governo chinês, o vírus se espalhou.

É praticamente certo que a primeira origem da covid-19 seja o vírus de um morcego. E, segundo o professor Chao, o mercado de onde a doença se espalhou não vendia morcegos. Ele acha muito improvável que um morcego que vive em cavernas no sul do país tenha penetrado numa metrópole. “O coronavírus provavelmente é originário de um laboratório em Wuhan”, concluiu o professor. E defendeu a ideia segundo a qual laboratórios que lidam com doenças tão perigosas deveriam ser afastados de lugares densamente povoados. (Wuhan tem 11 milhões de habitantes.) Logo, o relatório do dr. Botao Chao desapareceu da internet.

O autor Nicholson Baker estudou a história do coronavírus desde que começou a afetar cães, vacas e porcos no início da década de 1970. A partir de 2003, o vírus passou a matar cozinheiros e outros envolvidos no tráfico e no consumo de carne de animais selvagens em Guangzhou, na China. De lá se espalhou para 30 países e territórios, matando mais de 800 pessoas.

No caso da China, são dois os fatores que levam ao desastre. O primeiro são laboratórios mal equipados e mal protegidos. O segundo é o costume chinês de comer “qualquer coisa que se mova”. Animais selvagens e domésticos de várias partes do mundo são oferecidos ainda vivos (em condições extremamente cruéis) e mortos na frente dos fregueses, ao ar livre. Os “mercados molhados” chineses (e de outros países da Ásia) empilham sangue, fezes e urina de espécies diferentes, criando o caldo de cultura ideal para o nascimento de vírus mutantes. Quando um laboratório biológico está instalado na vizinhança, temos a tempestade perfeita.

Seria injusto falar apenas dos chineses no desenvolvimento de vírus modificados, também conhecidos como “quimeras”. Dois cientistas norte-americanos, Ralph Baric e Boyd Yount (da Universidade da Carolina do Norte), dedicaram a vida a inocular doenças em cobaias sãs e misturar suas células com as de outras espécies, inclusive humanas. Em 2007, Baric declarou que o mundo havia entrado na “idade de ouro da genética do coronavírus”. Um colega dele disse a Nicholson Baker que tinha “medo de abrir os refrigeradores” do instituto de pesquisa onde trabalhavam. Ralph Baric e a dra. Shi Zhengli, do Instituto de Virologia de Wuhan, iniciaram pesquisas conjuntas a partir de 2015.

O apelido da dra. Shi Zhengli é “mulher-morcego”. Ela usa redes para capturar centenas de espécimes do mamífero em cavernas do sul da China. Colhe saliva, sangue, mucosas anais e pedaços de suas fezes. A partir de 2012, a dra. Zhengli passou a levar a coleta de material para o laboratório viral em Wuhan. Quando foi descoberto o vírus que seria conhecido como Sars-CoV-2, a revista Scientific American a entrevistou.

A cientista falou abertamente: “Eu nunca esperava que esse tipo de situação acontecesse em Wuhan, na China central”. Afinal, as amostras eram colhidas em cavernas localizadas a 1.500 quilômetros da cidade. Sua suspeita se tornou uma simples questão de lógica: o vírus teria escapado de seu laboratório? “Isso perturbou minha cabeça. Não consegui dormir por dias.” Mas logo o ministro da Educação da China baixou o toque de silêncio. E a dra. Shi Zhengli, a “mulher-morcego”, negou o que tinha dito à revista.

Independentemente dos dados que a equipe da OMS possa recolher — ou não — de sua pesquisa em Wuhan, existe uma lição a ser aprendida, enquanto há tempo. O artigo de Nicholson Baker encerra-se com uma questão ética fundamental para nossa sobrevivência. “Temos de parar de caçar novos agentes de doenças exóticas na natureza, mandá-los para laboratórios e manipular seus genomas para provar quão perigosas elas podem se tornar para o ser humano. Os morcegos querem apenas ficar pendurados em suas cavernas e não ser incomodados por gente carrancuda em roupa de astronauta que quer enfiar cotonetes em seu traseiro.”

Uma coisa é incentivar o avanço científico. Outra é cultuar cegamente a ciência como uma deusa intocável, sem refletir sobre as consequências de muitos de seus atos. Cientistas envolvidos no “ganho de função” estão abrindo a caixa de Pandora dos segredos mais elementares da vida por motivos fúteis e egoístas. Criar doenças para vender vacinas — ou potenciais armas biológicas — não parece ser uma atividade exatamente nobre. O espectro de quase 2 milhões de mortos pela covid-19 aguarda a revelação dos responsáveis pela tragédia.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com