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sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Pablo Marçal e o debate transformado em circo

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 21 de setembro de 2024

Pablo Marçal e o debate transformado em circo

O debate eleitoral não pode ser um picadeiro para que arrivistas tumultuem ou busquem inviabilizar a discussão democrática. Guilherme Macalossi para a Gazeta do Povo:

Pablo Marçal foi ao debate do SBT disposto a lamber as feridas que ele mesmo se infligiu. Resolveu se “comportar” depois de constatar a rejeição crescente nas pesquisas e os indicadores de intenção de voto em queda. Sua estratégia de tumultuar, agredir e provocar sistematicamente seus adversários o fez conquistar rapidamente o eleitorado antiestablishment, mas também o isolou no radicalismo. É por isso que quando veio a cadeirada, não foi tomado como vítima. Pelo contrário. Ainda que repudiando a violência, muitos até se questionaram se não fariam o mesmo que Datena diante do que ex-coach dizia.

Vítima é quem não escolhe uma situação negativa. Marçal, pela própria postura, ajudou a materializar a agressão. Antes do tucano lhe desferir o golpe, o chamou de “arregão”, disse que “não é homem” e ainda o instigou com um “vai”. Alguém poderá dizer que ao político cabe o “sangue frio”, e que isso “faz parte do jogo”. É o mesmo que legitimar tal comportamento e tomar como aceitável o que não é.

Ao longo de debates anteriores, Marçal farejava sangue, buscando o concorrente que pudesse lhe dar o frame definitivo. Ficou no quase com Guilherme Boulos. Mas, quando finalmente conseguiu o que queria, já havia passado tanto do ponto que o meme resultante se voltou contra ele.

Após a cadeirada, já dentro da ambulância que o levou ao hospital para fazer avaliação médica, tentou mostrar que estava em estado grave. O vídeo tremido mostrava a movimentação frenética dos enfermeiros e Marçal recebendo oxigênio. Como se corresse risco de vida. Chegou até a se comparar com Donald Trump e Jair Bolsonaro, ambos vítimas de atentados. Não convenceu.

A pergunta é se alguém se convencerá ou ficará cativado com o que ele definiu no SBT como “sua melhor versão”. Isolado pelos adversários, tentou se reapresentar. “As pessoas querem saber a sua pior versão e a sua melhor. A minha pior eu já mostrei nos debates. A partir de agora você vai ver alguém que tem postura de governante”, disse de forma acanhada. Ao tentar ser mais “propositivo”, só conseguiu enfileirar platitudes e propostas rasteiras. Talvez não haja uma “melhor versão” de Pablo Marçal. Talvez o que haja seja outra versão, também ruim, mas por outros motivos.

Tipos como Marçal tendem a se tornar cada vez mais comuns na era da política disruptiva. É por isso que os veículos de comunicação precisam refletir sobre seu papel no debate público em períodos eleitorais. Marçal só se “comportou” pela circunstância política que se tornou adversa. Mantida a “pior versão”, poderia facilmente ter achincalhado o debate, como conseguiu nos encontros promovidos pelo Estadão, TV Cultura e Rede TV!

Na Rede TV!, por exemplo, o ex-coach entrou disposto a não cumprir qualquer regra acordada previamente. Transformou o primeiro bloco numa sucessão de direitos de resposta que resultaram numa gritaria generalizada. Não havia obrigatoriedade para que estivesse ali. É bem verdade, sua participação está vinculada também a busca de audiência. É aí que cabe uma necessária reavaliação desse espaço.

O debate eleitoral não pode ser um picadeiro para que arrivistas tumultuem ou busquem inviabilizar a discussão democrática. Tampouco as emissoras devem aguardar até o momento em que os candidatos escolham se comportar. As regras precisam ser endurecidas e a moderação precisa ser mais ativa. Ou se age preventivamente ou, pela omissão, se estará contribuindo para o achincalhe da eleição.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

domingo, 8 de setembro de 2024

Pablo Marçal: incêndio em São Paulo

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de agosto de 2024

Pablo Marçal: incêndio em São Paulo.

O sucesso de Marçal se deveu ao fato de ele se ter mostrado superlativamente inescrupuloso, ignorante, cínico e debochado; de modo que o eleitorado bolsonarista passou a cultuá-lo com ainda maior fervor do que o dedicado ao capitão. Catarina Rochamonte para O Antagonista:

São Paulo pegou fogo. Focos de incêndio se alastraram pelo estado causando enorme destruição. As queimadas foram causadas, em parte, por questões climáticas, mas há suspeita de que alguns focos de incêndio tenham sido criminosos.

No fim do ano passado, na apreciação do orçamento 2024, deputados e senadores resolveram diminuir a verba para fiscalização ambiental, prevenção e combate de incêndios.

O motivo pelo qual o Congresso corta verbas destinadas a atividades de inquestionável importância é fácil de adivinhar: a prioridade dos congressistas são eles mesmos; sendo preciso cortar da sociedade para que sobre dinheiro para os bilionários Fundo Partidário e Fundo Eleitoral, para as bilionárias Emendas parlamentares, para renovados privilégios que vão transformando os que deveriam ser representantes do povo em uma nova casta, regida pelos códigos e pelos rituais do fisiologismo.

Incêndio político

Enquanto isso, no curso das campanhas das eleições municipais, um incêndio político foi causado pela subida nas pesquisas de um candidato a prefeito, o “coach” Pablo Marçal (PRTB), que resolveu lacrar na disputa em São Paulo.

Com um debate e umas tantas postagens nas suas concorridas plataformas, Marçal subiu atropelando e já ameaça os antes favoritos Guilherme Boulos (PSOL) e Ricardo Nunes (MDB).

O sucesso de Marçal se deveu ao fato de ele se ter mostrado superlativamente inescrupuloso, ignorante, cínico e debochado; de modo que o eleitorado bolsonarista passou a cultuá-lo com ainda maior fervor do que o dedicado ao capitão. Para a nossa desgraça, o Brasil tem um novo “mito”.

O culto instantâneo a Marçal não se limitou à capital paulista, mas espalhou-se pelo Brasil, ameaçando a liderança nacional do próprio Bolsonaro sobre o bolsonarismo. Marçal já é visto como um potencial candidato a presidente da República, em 2026.

Tabata X Marçal

Causa estranheza que, diante do extravagante candidato em ascensão, apenas Tabata Amaral (PSB) tenha optado pelo caminho óbvio de apresentar a ficha corrida do dito cujo.

Em seu vídeo mais recente, a candidata levanta a questão: “Furto qualificado, quadrilha de fraude bancária, lavagem de dinheiro, ligações com o crime organizado. Nada disso é segredo. Eu sei porque está tudo documentado pela justiça e pela imprensa. Mas os meus adversários também sabem. Então por que eles não se mexem?”

A própria candidata, então, explica a estratégia de ambos. Segundo ela, Nunes acha que vai para o segundo turno com Boulos e quer negociar o apoio de Marçal. Boulos, por sua vez, quer levar Marçal para o segundo turno por achar que tem mais chances contra ele. “Nunes e Boulos estão assumindo o risco de ter um criminoso mandando na maior cidade do Brasil”, conclui Tabata.

Passageiro ou duradouro, o fenômeno Pablo Marçal expõe a lama para a qual a política brasileira vai escorrendo, já faz algum tempo.

Nas democracias, quando em meio a grandes dificuldades, a sociedade costuma ver a chegada das eleições com alguma esperança. No Brasil, onde um picareta de ordem maior consegue ser catapultado eleitoralmente em meio à divulgação da sua própria delinquência, só resta o tédio e a desolação.

Tabata X Boulos

Registre-se, porém, que o confronto em São Paulo comprova que há distinções, nuances importantes a serem consideradas dentro da esquerda.

Tabata representa uma esquerda combativa e democrática, sendo louvável tanto o seu confronto com o delinquente político do momento quanto sua condenação, sem ambiguidades, do regime político da Venezuela, nomeado por ela como ditadura, com todas as letras.

Guilherme Boulos, por sua vez, representa uma esquerda em crise de identidade, sem rumo, sem moral e sem juízo, que se reveza entre adular Nicolas Maduro e entoar desafinadamente o hino nacional com gênero neutro.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

domingo, 18 de agosto de 2024

Pablo Marçal é Bolsonaro na versão coach

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOS, de 15 de agosto de 2024

Pablo Marçal é Bolsonaro na versão coach

Marçal é, simbolicamente, aquilo que Bolsonaro foi em 2018. Passada essa moda, virá outra; e nós, brasileiros, enquanto não entendermos que temos um longo caminho pela frente, que não pode ser vencido pelo alarmismo anticomunista demodé dessa direita que insiste em permanecer na dependência de um Dom Sebastião. Paulo Cruz para a Gazeta do Povo:

“Ideólogos competem entre si, em uma imaginada fidelidade à sua verdade absoluta; e são rápidos em denunciar os desviantes ou traidores de sua ortodoxia partidária.” (Russell Kirk, A Política da Prudência)

Há muito tempo a política brasileira é uma atividade essencialmente emocional, conduzida por meio do engajamento. Quase nenhum candidato tem chances de obter votos apelando à razão, ao intelecto e à capacidade de discernimento do eleitor. A espetacularização, a “mitada” e até o ridículo são, atualmente, ferramentas indispensáveis para a atividade eleitoral (e política), ainda que o postulante, ao fim e ao cabo, tenha a pretensão de fazer um trabalho sério. E com a campanha eleitoral atual, para prefeito e vereadores, não tem sido diferente. A entrada do coach Pablo Marçal e do apresentador Datena na corrida paulistana tratou de estabelecer a “normalidade” naquilo que tinha chances de ser uma corrida eleitoral, pelo menos na maior capital do país, absolutamente insossa.

Entretanto, a entrada de Marçal na disputa em São Paulo trouxe ao bolsonarismo, que tinha tudo para abraçar tranquilamente a campanha do péssimo prefeito Ricardo Nunes – em articulação de Valdemar Costa Neto, cacique do PL (atual partido de Jair Bolsonaro) e, é bom que não esqueçamos, condenado a sete anos e dez meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no mensalão –, alguns problemas, digamos, de identidade.

Pablo Marçal é, na política brasileira atual, uma espécie de troll; retórico habilidoso, oriundo do universo neopentecostal brasileiro – em que o discurso apelativo e manipulatório encontra larga aceitação entre pessoas carentes material e espiritualmente –, alcançou, com seu discurso ousado, triunfalista e que não mede consequências no enfrentamento de seus adversários, um caminho para o coração dos eleitores de Bolsonaro, carentes de seu líder que não só os deixou à mercê de Alexandre de Moraes após a derrota eleitoral, mas, no momento, está inelegível e obediente ao Centrão que negou, mas do qual, atualmente, parece se orgulhar em fazer parte – não só ao esfregar na cara de seus eleitores o fatídico “vocês votaram num cara do Centrão”, mas por receber mais de R$ 40 mil por mês do PL de Valdemar.

E não sou só eu que estou percebendo essa sedução de bolsonaristas em relação a Pablo Marçal. Isso é assunto na imprensa, mas, também, entre os próceres, os guaridões do espólio do ex-presidente. O youtuber Kim Paim, numa live recente, disse – num trecho que repercutiu nas redes sociais:

“Pessoas estão se deixando tomar pelo sentimento puramente... estão ficando cegas pelo emocional. A coisa não pode ser assim, gente. O fato do Nunes não ser um cara bom não pode transformar o Marçal num ídolo. O Marçal pode se transformar numa alternativa. Tudo bem, coloque: ʻele é uma alternativa, ele é meu candidato, ele é melhor que o Nunesʼ. Mas o que tá acontecendo é que existe um movimento que é uma idolatria cega ao Marçal.”

Mas o que me parece muito curioso na admoestação de Paim é que ela poderia ser – e, de fato, foi –utilizada para alertar as pessoas, lá nos idos de 2017/18, a respeito de ninguém menos que Jair Bolsonaro. Eu mesmo escrevi várias vezes sobre isso, aqui mesmo, nesta Gazeta do Povo. Como, por exemplo, em um artigo de 12 de julho de 2018, intitulado “É urgente ter paciência”, em que eu disse: “a todo tempo, somos tentados pela ilusão de que somos capazes de suplantar as imperfeições inerentes a essa vida e, em geral, de modo inconsequente, depositarmos nossa esperança numa ideia, num grupo ou até mesmo numa pessoa. Em todo momento nosso senso de prudência é testado pela urgência de nossas aspirações imediatas”. Ou no seguinte, “Siracusa é aqui”, de 19 de julho de 2018, em que digo:

“A verdade é que somos quase todos, de fato, ingenuamente impacientes. A tentação por tomarmos nas mãos o destino do mundo, de manipularmos o imponderável, de, na expressão bíblica, recalcitrarmos contra os aguilhões de nossa natureza imperfeita, é quase irresistível. Dos nossos interesses mais íntimos àqueles cuja finalidade é o interesse de muitos – como a política –, as implicações de realizarmos tudo apressadamente são sempre incertas e quase sempre desastrosas.”

Ou mesmo quando, abertas todas as urnas e declarada a eleição de Bolsonaro, em 1.º de novembro de 2018, afirmei, num artigo intitulado “O que esperar dos governados por Bolsonaro?”, o seguinte: “Se você acompanha meus artigos aqui, nesta Gazeta do Povo, estimado leitor, sabe que considero nosso papel, como nação, como indivíduos, muito mais importante que o papel dos políticos. Já disse e repito: a política é o resultado do que somos como nação, e não o contrário”.

Ou seja, foram vários e vários artigos alertando para o perigo da paixão política, para o desastre, demonstrado ao longo da história, que há na tentativa de antecipar, política e materialmente, e entregar nas mãos de um político (ou de um grupo) o curso daquilo que só a educação e a cultura podem produzir. No entanto – pobre de mim! –, eu apelava à razão de meu leitor. Eu, como professor, humildemente valorizava a capacidade de discernir daqueles que me liam – um articulista declaradamente conservador, que preza pela liberdade que ilustra essa coluna desde o primeiro artigo. Mas fui vencido e serei novamente.

Que fique registrado, mais uma vez, que Marçal é, simbolicamente, aquilo que Bolsonaro foi em 2018. Passada essa moda, virá outra; e nós, brasileiros, enquanto não entendermos que temos um longo caminho pela frente, que não pode ser vencido pelo alarmismo anticomunista demodé dessa direita que insiste em permanecer na dependência de um Dom Sebastião, patinaremos no atraso, na irrelevância e numa posição que não só fortalece, mas confirma as teses de nossos adversários sobre nós.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com