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sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

'Lula não tem o direito de errar', por Paulo Roberto D. Brandão

Legenda da foto: Imagem postada pelo blog 'Ideias & Lideranças', para ilustrar o presente artigo - (Crédito da foto: NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)

Artigo publicado originalmente no Perfil do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão, em 16 de dezembro de 2022

Lula não tem o direito de errar
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

“Contra Hitler, me alio até com o diabo”, disse Churchill quando da II Guerra, respondendo a  pergunta se se aliaria aos Soviéticos.  Churchill, Primeiro Ministro inglês no período, era conhecido por ser anticomunista.  Mas tal aliança foi fundamental para vencer a guerra.  E ele sabia disso, como sabia que não podia errar.

Faço como Churchill, contra Bolsonaro votaria até no diabo.  Não só contra o que ele é pessoalmente, mas pelo que representa.  Por sua política extremista, que chegou a envolver quase toda a classe média do país.  Por sua tendência fascista, autoritária, atrasada e antidemocrática.  Como Hitler, Bolsonaro é um mal que precisa ser tirado da política.

Votei em Lula, sem morrer de amores pelo PT.  Mas era a opção que se apresentava.  Meu único arrependimento em todo esse processo é que na eleição de 2018 votei em branco.  Não quis dar meu voto a Haddad.  Foi um erro.  Vou começar a criticar Lula, sem arrependimento pelo meu voto.  Dentro das mesmas condições, votaria outra vez nele.  E nunca, nunca mesmo, votaria em Bolsonaro, ou em alguém que pense como ele.

Acredito que Lula tem uma missão acima de todas as outras: pacificar o país.  Para isso tem que fazer política, como é natural.  Começou bem ao ter Geraldo Alckmin como companheiro de chapa.  E fez uma costura impecável para o Segundo Turno.  Infelizmente está saindo do script na montagem do ministério. 

Entendo a indicação de Fernando Haddad para a Fazenda.  Não é o nome dos meus sonhos.  Preferia alguém mais ligado a área econômica.  Não um Paulo Guedes da vida, que se mostrou um destrambelhado boquirroto.  Mas alguém mais ligado ao centro esquerdo, e um tanto fora da influência petista.  Isso era difícil, não seria duradouro, e resultaria numa crise em pouco tempo.  Lula optou por alguém que obedecesse, e pronto.  Entendi.  Nada satisfeito, mas compreensível.

Acho que acertou no dome do Flavio Dino para a Justiça e de José Múcio para a Defesa.  Mauro Vieira para o Itamaraty não compromete.  É um técnico da área.  E Margareth Menezes para a Cultura mata diversos coelhos de um só golpe.  Mulher, negra, artista, popular.  Já o outro baiano, o ex-governador Ruy Costa na Casa Civil eu até entendo, mas não concordo.  Além de um tanto inexpressivo, poderia ter um nome não muito petista.

O problema é a voragem do PT que não aceita ceder um naco do poder, e quer todos os espaços.  Os petistas acham que foram eles que ganharam as eleições, o que não é verdade.  E, portanto, poderiam fazer como nos governos anteriores, onde os aliados eram meros subservientes, ocupando pastas inexpressivas. Seriam aderentes e não aliados.   Isso não poderia acontecer no presente, mas é o que se noticia.  Por exemplo, Simone Tebet, que teve um papel fundamental para a vitória de Lula no Segundo Turno, está sendo rifada pelo PT que não aceita o seu nome para o Ministério do Desenvolvimento Social.  O veto não é só um erro, que se confirmado vai prejudicar muito a principal missão do presidente eleito, mas uma demonstração clara da dificuldade que os aliados terão com os petistas.

Povoar o governo Lula, em todos os cargos importantes com petistas é repetir os erros dos governo anteriores, e dar munição aos bolsonaristas, na espreita por tais equívocos.  Ou Lula reforça o seu arco de alianças, ou fracassa.  Ele só tem uma bala para matar o monstro da extrema direita.  Não pode errar.  Não tem o direito de errar.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

sábado, 5 de novembro de 2022

'Vivandeiras ridículas e a vida que segue', por Paulo Roberto Dantas Brandão

Ato bolsonarista em Aracaju (SE), em 2 de novembro de 2022. Foto reproduzida do g1 SE e postada pelo blog para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente no Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão, em 2 de novembro de 2022

Vivandeiras ridículas e a vida que segue
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

A democracia pressupõe eleições livres e periódicas.  O corolário a isso é o respeito ao resultado das urnas.  O democrático é respeitar a vontade popular expressa em votos, por mais apertado que seja o resultado.  O resto é flerte com autoritarismo.  Proclamado o resultado da eleição, cabe ao perdedor reconhecer a derrota, como manda a boa educação.  Que vá para a oposição, e faça o possível para retornar ao poder da próxima eleição, com os votos necessários.  Terminou a eleição, pronto, acabou, por mais que alguém não goste do resultado.  O resto é golpe.

Feita essa abertura, desnecessária para os verdadeiros democratas, mas parece que temos que desenhar para que alguns entendam, estamos diante de uma tentativa canhestra de voltarmos aos anos 1950.  A começar pela histeria anticomunista bem própria da época da Guerra Fria, porém completamente anacrônica nos tempos presentes.  Vi pessoas que considerava pacatas chamando tudo e a todos de comunistas.  Ví expressões doidas tipo, que todo esquerdista é comunista.  Essa gente precisa entender que o comunismo, como visto no século passado, não existe mais.  Acabou faz tempo.

Apareceu agora uma novidade, igualmente anacrônica, as neo-vivandeiras.  Se não sabe o que são as vivandeiras, eram mulheres que acompanhavam as tropas nas campanhas militares.  Nas décadas de 50 e 60 assim eram chamados os políticos civis que andavam nos quartéis pedindo golpe.  O general Castelo Branco, um dos líderes de 64, rotulou-os de “vivandeiras alvoroçadas vão aos bivaques bolir com os granadeiros, e enche-los de resoluções...”.  Vimos vivandeiras da pior espécie nesses últimos três dias.  Aqui mesmo em Aracaju marcaram uma manifestação em frente ao quartel do 28º BC, pedido uma intervenção militar-democrática.  Vamos lá: intervenção militar democrática é uma incongruência.  Se há uma intervenção militar, também chamada de golpe de estado, necessariamente é uma quebra da ordem constitucional, portanto não democrática.  Ainda bem que as neo-vivandeiras versão 2022, não passaram de meia dúzia de gatos pingados pelo que vi em vídeo.  Lá, em frente ao quartel, um senhor proferindo falas ridículas, conclamava os bolsonaristas para que fossem à manifestação, mas muito pouca gente se deu ao trabalho de atender ao chamado. No horário da falada manifestação, passei pela praia, estava cheia

Os caras não entenderam que a fila anda.  Que a vida continua.  Que a eleição passou.  Que todo mundo reconheceu Lula como presidente eleito.  O próprio Arthur Lira, aliado de Bolsonaro, veio a público para reconhecer o resultado na primeira hora.  

Às vivandeiras ridículas:  ACABOU.  Vida que segue.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

'Comemorar, mas com algumas advertências', por Paulo Roberto D. Brandão

Legenda e crédito da foto: Imagem de Ricardo Stuckert e postada pelo blog para ilustrar o presente artigo

Artigo compartilhado do Perfil do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão, de 30 de outubro de 2022

Comemorar, mas com  algumas advertências

É hora de comemorar.  Afinal, Lula foi eleito, e o bolsonarismo recebeu um basta.  

Acabamos a eleição mais apertada da história do Brasil.  O país está dividido.  Por isso é o momento também para advertências.

A primeira delas é que a vitória não foi do PT.  Foi de Lula, e do extenso arco de alianças que ele conseguiu montar.  Isso é importante pois os petistas precisam entender que o governo Lula não será deles.  A maioria das pessoas que votou em Lula, como eu, por exemplo, jamais havia votado no PT.  Não houve adesão ao governo do PT, e o partido é apenas um dos componentes dessa aliança.  Figuras não petistas que fizeram parte da campanha, como Simone Tebet, Geraldo Alckmin e Marina Silva, precisam ter uma participação efetiva no governo, evitando o aparelhamento petista.  Sem isso, tudo vai por água abaixo. 

A segundo é que o PT não pode esquecer os seus erros do passado.  Não pode esquecer, porque não pode voltar a cometê-los, nem por sonho.  Acho também que Lula compreendeu isso, pois precisa limpar a sua biografia, respingada com as máculas de outrora.

A terceira é buscar mesmo uma reconciliação nacional.  Será difícil com um país rachado, e uma extrema direita ensandecida e belicosa, a provocar o pais.  Acho que o primeiro passo foi importante, o discurso da vitória de Lula foi muito bom, um chamamento a tal da conciliação, mas que não pode ficar só nisso.

De todo coração, espero que o governo Lula tenha sucesso.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

terça-feira, 23 de agosto de 2022

'Descobri que sou do mal', por Paulo Roberto Dantas Brandão

Foto de Nelson Almeida/AFP e reproduzida do site G1 Globo, postada aqui pelo blog 'Ideias &  Lideranças', para simples ilustração do presente artigo

Artigo compartilhado do Perfil do Facebook de Paulo Roberto Dantas Brandão, de 23 de agosto de 2022

Descobri que sou do mal 
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

Descobri que sou do mal. Como descobri? Desde que li postagens dizendo que Bolsonaro é o bem, que com ele o Brasil vencerá na guerra do bem contra o mal. Como não estou rezando por Bolsonaro, não espero que ele vença, e votarei em qualquer um, menos nele, então sou do mal. 

Há muito que desconfiava que sou do mal. Tenho mania de defender a democracia representativa, o estado democrático de direito, como diz a nossa Constituição. Então não tem jeito, eu sou do mal. Defendo essa Constituição que estabelece a separação de poderes, e repudio qualquer tentativa de emparedar ou comprometer o funcionamento de tais instituição. Como sou avesso ao arbítrio, então eu sou do mal.

Quando tentam fechar o Congresso Nacional, esse Congresso ruim, mas cujos representantes, muitos corruptos, não tiveram um mandato divino, e foram colocados lá por nós. Quando acredito que o Judiciário, com todas as mazelas, tem que funcionar dentro das regras do sistema democrático. E quando defendo que a vontade do presidente não é a lei, fico convencido que eu sou do mal. 

Há algum tempo estou do lado errado da força. Repudio ditaduras, sinto asco de regimes autoritários. Acho que regimes militares são ruins. Que a Revolução de 64 foi um mal. Que o AI-5 foi uma aberração. Que tortura é crime, e que torturador é um degenerado que não pode ser considerado humano; portanto homenagear torturadores é atentar contra o que é humano. Não acredito que a segurança vem com a liberação de armas, nem aceito o fortalecimento de milícias. Sou do mal. 

Claro que tenho erros, mas entre eles não há qualquer concessão contra a democracia. Ah! A democracia, essa prostituta que tem me atraído sobremaneira. Esse regime que o abilolado do Churchill disse que é o pior de todos, com exceção de todos os outros. Claro, eu sou do mal.

Não acredito em teorias conspiratórias. Acho que o globalismo é uma tendência aperfeiçoadora da humanidade. Não vejo comunistas em todos os cantos, nem acho que eles comem criancinhas; aliás, acho que eles nem existem mais. Não acho que os esquerdistas são “o grande mal” do mundo. Logo eu que dia desses tive o desplante de dizer que me via distante dos extremismos, mas não há como fugir à conclusão óbvia que sou do mal.

Não acredito que a terra seja plana. Acho que a cultura e a educação devem ser valorizadas, que o aquecimento ambiental global deve ser uma preocupação, que a Amazônia deve ser cuidada, que a questão ambiental é séria e deve ser alvo de políticas públicas responsáveis. Por isso eu sou do mal. 

Tenho encontrado companhias estranhas. Não me considero mais católico, mas ando concordando com o Papa Francisco. Desde João XXIII que não apreciava a parolagem dos Senhores Papas. Mas esse “Papa Comunista” tem dito para mim algumas coisas que acho coerentes. Não posso fugir da constatação que tal companhia me coloca do lado do mal. 

Não aceito esse Estado de confrontação permanente. Não acho justo essa eleição de inimigos a cada momento. Nem acho lícito essa predominância dos ataques gratuitos que hoje chamam de fake News, que não passam de mentiras, mesmo. Ao contrário, tenho cometido o crime de bradar sobre o que considero desvios, atitudes antidemocráticas, e chamar pessoas para um debate franco e aberto. Tal comportamento, o meu que fique claro, deve ser mesmo abominável. Portanto, sou do mal.

Pelo que tenho visto nas Redes Sociais a maioria da classe média tem posição diametralmente oposta à minha, com raras exceções. Ora, se a grande maioria, da classe média que fique claro, não está errada, e é do bem, é porque eu sou do mal.  Mas aqui e ali encontro algumas pessoas que concordam comigo. Devem ser almas desgarradas. 

Mas não tem jeito. Sou do mal, e tenho me orgulhado disso.

Texto reproduzido do Perfil Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Se o comunismo não deu certo, como é que quer conquistar o mundo?

Legenda da foto: Imagem reproduzida do site BBC Brasil e postada pelo blog 'Ideias & Lideranças', para simplesmente ilustrar o presente artigo

Artigo compartilhado do Perfil do Facebook de Paulo Roberto Dantas Brandão, de 9 de agosto de 2020

Se o comunismo não deu certo, como é que quer conquistar o mundo?
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

Uma vez escrevi um artigo bem humorado na Gazeta.  Um professor e intelectual meu amigo leu, disse que gostou, mas estranhou o bom humor:  “Você não é economista?  Economistas não são bem humorados.”  Respondi que ele não devia conhecer meu colega Clínio.  Clínio Guimarães de Carvalho é um dos caras mais bem humorados que conheço, e é economista.

Dia desses aqui no Face, Clínio publicou, ou replicou, não importa, uma postagem para lá de bem humorada e muito verdadeira: “Os caras têm que decidir, o comunismo fracassou, ou está conquistando o mundo?”

Pois é.  Canso de receber mensagens, ou comentários sobre meus artigos ou minhas postagens, dizendo que o comunismo quer conquistar o mundo.  “Temos que reagir contra o comunismo”.  “Isso é coisa de comunista que quer se implantar no Brasil”.  “O comunismo está se espalhando pelo mundo”.  Por outro lado tenho recebido postagens criticando alguns escritos dizendo que é coisa de comunista, que não deu certo em lugar algum no mundo.

Estou com a postagem de Clínio.  Se o comunismo não deu certo, como é que quer conquistar o mundo?

Minha opinião é um tanto diferente.  Acho que o comunismo não existe mais.  A rigor nunca foi implantado.  Existiram reles ditaduras, como a da União Soviética stalinista, que só tinha o rótulo de comunista.  Os países da Cortina de Ferro eram meros dependentes da ditadura soviética.  A Coreia do Norte, último exemplar do que chamam de comunismo real, também não passa de uma ditadura familiar hereditária.  E a China, hoje é um capitalismo de Estado, que já deixou há muito tempo de ser qualquer coisa perto do comunismo, apesar de manter um estado fortíssimo.

O patinho feio da história foi a Iugoslávia, por uma circunstância especial:  foi o único país que na II Guerra Mundial conseguiu expulsar os alemães quase que por conta própria, ficando numa posição de não alinhado.  Mas foi dependente de Tito, que apesar de Croata, legou ao final um regime que se revelou supremacista sérvio.

Esse discurso anticomunista é, na verdade, reflexo de uma guerra fria extemporânea, que confronta agora duas potências capitalista que se mostram antagônicas, em busca da supremacia mundial.  O perigo comunista não existe agora, como não existiu no passado.  Resume-se a coisa de tiozinhos aposentados que não têm o que fazer e acham o bolsonarismo o máximo, e arrotam todo o seu autoritarismo.

Texto reproduzido do Perfil do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

terça-feira, 7 de junho de 2022

'Bem longe dos Bolsonaristas', por Paulo Roberto Dantas Brandão

Imagem reproduzida do site pcdob.org.br e postada pelo blog, para ilustar o presente artigo

Postagem compartilhada do Perfil do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão, de 15 de maio de 2022

Bem longe dos Bolsonaristas
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

Não sou petista.  Jamais votei no PT ou em Lula.  Duvidava da competência da turma do PT, porque acreditava que eles nada entendiam de economia e muito menos de administração pública.  Acho que eles erraram feio nos dois governos de Lula e Dilma.  Mas o maior erro foi no alcance à coisa pública.  Os petistas que se achavam os únicos honestos na política brasileira erraram onde menos podiam.  Os responsabilizo pelo resultado: Bolsonaro e o aflorar de todo o reacionarismo da classe média brasileira (que só esperava um motivo para externa-lo).  Nas eleições passadas cometi um erro.  Após no primeiro turno ter votado em Alkimin, no segundo resolvi votar em branco.  Não era possível votar em Bolsonaro.  Mas votar em Haddad me parecia muito difícil.  Foi um erro.  Deveria ter votado no petista e tentar evitar o que está ai.

Mas não posso olvidar algumas virtudes essenciais.  O PT no poder não atentou contra a democracia e as instituições.  Por exemplo, Dilma poderia utilizar do mesmo subterfúgio de Bolsonaro, e conceder a graça a todos os petistas que andaram como réus nos tribunais.  Não o fez.  Como não deveria ter feito.  Quando o Supremo considerou que a nomeação de Lula como ministro com o intuito de dá-lo privilégio de foro especial, tudo foi aceito.  Já Bolsonaro usou claramente a Graça ao deputado Daniel Silveira, com claro desvio de finalidade, e até hoje o caso está pendente.

Tenho raiva de Bolsonaro por me fazer votar pela primeira vez no PT e em Lula.  Mas o que me faz não votar no Bolso, é todo o seu conjunto da obra.  Não aceito o ataque às instituições e à democracia.  Isso põe em risco a estabilidade do país.  Não aceito essa política beligerante de eleger inimigos a cada momento.  Não aceito o exaltar de torturadores, nem o saudosismo de uma das épocas mais negras da história do país.

Não acho que os militares são tutores da sociedade, posto que portam as armas que são dos cidadãos.  Georges Clemenceau, premier francês durante a I Guerra Mundial já disse que “há a sociedade civil fundada na liberdade, e a sociedade militar fundada na obediência;  quem deve seguir a obediência não pode ser tutor da liberdade”.

Sou um defensor da liberdade de expressão, meus trinta anos de jornalismo não podiam me levar a outro rumo.  Mas não se pode confundir crime com liberdade de expressão.  Não se pode utilizar as redes sociais para pregar mentiras e sepultar reputações, e achar que isso é liberdade de expressão.  Não se pode insuflar a violência impunemente (como descreve Jamil Chade num excelente artigo no UOL).  Não se pode pregar o uso indiscriminado de armas: querem o quê?  Uma matança?

Não creio nos extremismos, muito menos nas formas de fascismo que estão querendo implantar.  Tais formas de governo apenas privilegiam os medíocres, como os que pululam e infestaram esse governo desde o seu início.  Democratas, verdadeiros democratas, não podem apoiar esse governo, nem pensar em votar pela reeleição do Bolsonaro.

Por seu turno o PT deve estar consciente que o voto em Lula não é, nem por longe, um apoio ao projeto petista, como bem chamou a atenção o ex-senador Cristovam Buarque em um belo artigo “O Brasil é maior que isso”, que republiquei no Face há alguns dias.  Há uma massa de cidadãos, talvez até a maioria dos que votarão em Lula, que não estão aderindo aos projetos do seu partido.  Penso que Lula já percebeu isso ao convidar Geraldo Alckmin para ser seu companheiro de chapa.  Acho que Lula, que é muito mais inteligente que a maioria dos seus comandados, percebeu que terá que fazer um governo de unidade nacional.  Um governo de transição, para se chegar a uma nova realidade política em 2026.  Marina Silva já externou essa opinião.

A chamada terceira via, uma das minhas esperanças, cometeu o erro fatal de colocar Bolsonaro e Lula no mesmo balaio.  Não podia.  Ao contrário do Bolso, Lula jamais atacou a democracia, seus pecados foram outros.  Bolsonaro é o cara a ser derrotado, seus pecados são muito maiores.

Por tudo isso voto em Lula.  Primeiro para tirar a democracia do perigo.  Segundo, para livramos o país desse mar de mediocridade em que foi levado.  Terceiro, para preservar as instituições.  Quarto, porque acredito que o país não aguentará mais quatro anos nesse desgoverno.

Estou consciente que se Lula e os petistas acharem que a vitória foi deles, e não dessa frente de salvação do pais, estarei na oposição logo em janeiro.  Mas sempre longe dos bolsonaristas.

Texto reproduzido do Perfil da Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

domingo, 31 de outubro de 2021

'Comunista, eu?', por Paulo Roberto Dantas Brandão

Imagem reproduzida do Twitter e postada pelo blog para ilustrar o presente artigo

Texto compartilhado do Perfil no Facebook de Paulo Roberto Dantas Brandão, em 30 de outubro de 2021 


Comunista, eu? 

Por Paulo Roberto Dantas Brandão 

 

Winston Churchill, primeiro ministro da Grã-Bretanha quando da II Guerra Mundial declarou uma vez que “não ser comunista aos 18 anos é não ter coração; continuar comunista depois disso é não ter cabeça”.


Churchill era um dos maiores frasistas da história, e quase sempre era preciso. Nos meus 18 anos até que tentei ser comunista. Meu coração muito grande, recheado de labirintos que me sujeitavam a paixões avassaladoras, assim o exigiu. Mas naquela época ser comunista dava um trabalho insano. Para começar tinha que saber o “Manifesto” decorado, tinha que conhecer toda a obra de Marx e de Engels, e tinha que discutir “O Capital” em todas as suas nuances, inclusive a natureza da Mais Valia e a forma da Acumulação Primitiva do Capital. O pior era a tal da disciplina partidária. Logo eu, não tão disciplinado o quanto pareço. Bom, nem começou, e já desisti. 


Mas minha cabeça, bem menor do que o meu coração, nunca obliterou o meu sentimento da busca da justiça social. Isso me fez humano, mesmo tendo abandonado o comunismo antes de entrar. 


Essa minha cabeça pequena, porém, me levou a não fazer concessões contra a democracia. As liberdades democráticas passaram a ser a minha profissão de fé. Consciente de outra frase de Churchill, de que “a democracia era a pior forma de governo, com exceção de todas as outras”, acho que estou no caminho certo. 


Agora, de repente, vejo-me na condição de comunista, ou de pelo menos de um perigoso esquerdista. Disso é o que estão me chamando em alguns grupos das redes sociais dos quais faço parte, e onde de quando em vez publico meus artigos. Logo eu, pobre de mim, que jamais quis trazer perigo para quem quer que fosse. A única coisa que me torna intransigente é a defesa da democracia. Mas, de repente, ser comunista agora é fácil. Nem mais trabalho dá. Basta falar mal de Bolsonaro, e imediatamente você é galgado à posição de comunista. Não que isso me incomode, até porque acho que quem quiser tem todo o direito de ser comunista, esquerdista ou socialista essa é a graça da democracia. Mas pelo sim pelo não, tenho evitado vestir algumas camisas vermelhas que possuo inclusive a do glorioso Club Sportivo Sergipe. 


Texto reproduzido do Perfil/Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão 

sexta-feira, 9 de julho de 2021

'Larápios lá e cá', por Paulo Roberto Dantas Brandão

Foto postada pelo blog, para simples ilustração do presente artigo.

Texto compartilhado de post no Perfil do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão, de 08/07/2021

Larápios lá e cá
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

Lá pelo ano de 1976 ou 1977, eu repórter da Gazeta de Sergipe, estava na redação, quando um colega chegou com a notícia que um militar, de nome Argus Lima, estava hospitalizado na Clínica dos Acidentados, por causa de uma batida de carro na BR 101.  Mas Argus Lima era o nome do General de Exército que estava assumindo o comando do IV Exército em Recife.  Pelo cargo, naqueles tempos da chamada Revolução, era o Vice-Rei do Nordeste.  Era coincidência demais.  Fomos à luta, e descobrimos que era o general de fato.  Ele, a mulher e um sargento motorista haviam sofrido um acidente de carro na estrada, numa reta perto da entrada de Capela.  O sargento motorista havia cochilado no volante, e foi atingir uma Kombi na outra faixa da estrada.

Depois de tudo apurado, chegou uma nota do Exército.  Estava proibida a divulgação da notícia.  Por qual razão?  Era o que nos perguntávamos na redação.  Afinal, um general não pode sofrer um acidente de carro?  Será uma desonra para as Forças Armadas?  Era mais um dos absurdos da chamada Revolução? 

Era nada mais nada menos que um arbítrio de quem se considerava melhor que os outros.  O general, cansado do protocolo do alto comando, posto que tinha que requisitar um avião para se apresentar em Recife, pegou a mulher, o motorista, e viajou de carro, sofrendo o acidente.  Era uma transgressão, leve, mas uma transgressão.  O general Argus não queria que seu deslize fosse divulgado.

Publicamos, e o mundo quase caiu sobre nós.

Ontem, quarta-feira, o Senador Aziz, presidente da CPI da Covid, disse que “Os bons das Forças Armadas devem estar envergonhados com algumas pessoas que hoje estão na mídia, porque fazia muito tempo que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do Governo.”

O mundo quase que desabou sobre o senador.  O Ministro da Defesa e os Comandantes das três forças publicaram uma ridícula nota dizendo que sentiam-se ofendidos.  A pergunta é por quê?

Ofendidos devíamos estar nós. Cada vez que é ouvido alguém lá na CPI, surge o nome de um oficial, reformado ou não, fazendo parte de inconfessáveis negociações com vacinas.  Inconformados estamos nós, que com mais de 500 mil mortes vimos oficiais das forças armadas, comandados então por um general da ativa, em um tremendo descaso com a vida dos brasileiros, exatamente no Ministério da Saúde.

Tal qual lá na década de 1970, quando um general estava muito mais preocupado com suas transgressões leves, do que com as torturas e mortes dentro dos quartéis, os generais de hoje se dizem preocupados com a imagem das forças armadas.

Senhores generais: há malandros nas forças armadas, como há nos meios civis.  Faria um bem danado se, ao invés de saírem divulgado notas ridículas, os militares resolvessem se afastar desse desastroso governo, com pendores ditatoriais.

Só para lembrar: na década de 1960, houve em Aracaju um subcomandante do 28 BC que foi acusado de desonestidades, e foi simplesmente afastado do exército.  É assim que se age com os malandros.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão.

sábado, 3 de abril de 2021

'A ditadura era violenta e uma bagunça', por Paulo Roberto D. Brandão

Foto reproduzida da Wikimedia e postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente no Perfil do Facebook de Paulo Roberto Dantas Brandão, em 3 de abril de 2021

A ditadura era violenta e uma bagunça

Estou estarrecido com amigos que nas redes sociais pedem a volta da ditadura e comemoraram efusivamente o 31 de março.  Eu só comemoro a data porque por coincidência do destino é a data de aniversário do meu pai.  Para esses amigos, vou só relembrar a história de Vladimir Herzog.  Quem quiser uma boa leitura, indico “A Casa da Vovó” do jornalista Mauricio Godoy, um pujante relato dos porões do Doi-Codi de São Paulo.

O alvo nem era o Herzog, mas sim o governador de São Paulo, Paulo Egidio Martins, e por tabela o presidente Ernesto Geisel.  Em 1997, Paulo Egídio tinha se transformado em uma pedra no sapato dos torturadores de São Paulo.  Sempre que tinha conhecimento que alguém tinha sido intimado pelo Doi, alertava seus contados em Brasília, com isso evitou que muita gente fosse torturada.  E, Paulo Egídio não era nenhum esquerdista, ao contrário, havia sido nomeado pela chamada revolução.

Os celerados do DOI resolveram então ir atrás dos “comunistas” infiltrados no governo do Estado de São Paulo, como uma forma de atingir o governador. Valdimir Herzog era editor da TV Cultura, televisão educativa do governo do Estado, nem era importante na estrutura governamental.  Numa tarde agentes do DOI foram à TV para prender o jornalista.  Ele retrucou que tinha que terminar o fechamento do jornal.  Os agentes telefonaram para um superior, que autorizou a que Herzog se apresentasse no dia seguinte.  Tudo acertado.

Herzog era um jornalista pacato.  Era membro do PCB, mas nunca tinha participado da luta armada, jamais tinha praticado ações violentas, não levava vida clandestina, nem portava armas.  No dia seguinte, apresentou-se à sede do DOI, como havia combinado.  Estavam lá mais alguns jornalistas já detidos.  Assim que se apresentou, foi levado à tortura, e pediam informações genéricas que ele não dispunha.  Mataram-no.  Assassinaram-no.

A morte de Vladimir Herzog foi uma forma de afrontar ordens do Presidente Ernesto Geisel, que tinha proibido prisões e torturas sem ordens do SNI; em Brasília, e principalmente uma forma de peitar Paulo Egídio Martins, que teve a petulância de se intrometer nas barbáries dos porões da ditadura.

O resultado foi que o General Ednardo Dávila Melo, comandante do 2º Exercito em São Paulo acabou demitido pelo presidente, por desobediência.  E o resto todo mundo sabe.

Em tempo: o torturador é o ser mais abjeto e covarde que pode existir.  Igualmente, são aqueles que apoiam tortura e torturadores, existências inerentes às ditaduras.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

sábado, 5 de dezembro de 2020

"Cada vez mais perto do fim", por Paulo Roberto Dantas Brandão

Imagem reproduzida do Google e postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente no perfil do Facebook de Paulo Roberto Dantas Brandão, em 4 de dezembro de 2020.

Cada vez mais perto do fim
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

O que será que tem no Art. 57 da Constituição Federal, principalmente n o seu parágrafo 4º que está causando tanta polemica. Vamos lá:

Art. 57. O Congresso Nacional reunir-se-á, anualmente, na Capital Federal, de 2 de fevereiro a 17 de julho e de 1º de agosto a 22 de dezembro.

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§ 4º Cada uma das Casas reunir-se-á em sessões preparatórias, a partir de 1º de fevereiro, no primeiro ano da legislatura, para a posse de seus membros e eleição das respectivas Mesas, para mandato de 2 (dois) anos, vedada a recondução para o mesmo cargo na eleição imediatamente subseqüente.

Mais claro impossível: “vedada a recondução [dos membros eleitos do Senado e da Câmara Federal] para o mesmo cargo na eleição imediatamente subsequente”. Só falta desenhar. Mas vou tentar complicar mais. A Câmara e o Senado no início da legislatura reúnem-se para eleger suas respectivas mesas diretoras. Que terão mandato de 2 anos. E os eleitos não podem ser reconduzidos (reeleitos) naquela mesma legislatura. Certo?

A legislatura atual iniciou-se em 2019. O Alcolumbre foi eleito presidente do Senado, para um mandato de dois anos. Em 2021, portanto ainda na presente legislatura, ele não pode ser reeleito. Alguma complicação nisso? Já Rodrigo Maia foi eleito presidente da Câmara em 2017 com mandato de dois anos. Em 2019 foi reeleito, pode? Sim, porque sua reeleição foi em outra legislatura. Ou seja, ele havia sido reeleito deputado, e iniciando-se nova legislatura, pode ser reconduzido à pesidência. Pode ser reeleito em 2021 para o mesmo cargo? Não. Essa é a regra, clara como o sol do meio dia, como dizia um velho professor de direito processual penal. E porque raios o Supremo está se debruçando sobre isso?

O problema é que avacalharam as instituições. Parece que as regras não mais existem, e se existem, devem ser desrespeitadas sempre que interesses superiores o exijam. Estão mandando a democracia às favas.

Acho até que Rodrigo Maia está fazendo um bom trabalho na Câmara, e sendo um contraponto às loucuras autoritárias do Presidente Bolsonaro. Mas, e daí? Não é porque Rodrigo Maia quer se reeleger sem poder, que vamos desrespeitar as regras. Não é porque Bolsonaro quer colocar um pau mandado qualquer na presidência da Câmara, e isso nos preocupa, que devemos desrespeitar a Constituição.

O que me deixa perplexo é que o Supremo venha a dar guarida a tais excentricidades. O Supremo é o intérprete último da Constituição. E o §4º do art. 57 da Constituição é literal, não se tem o que interpretar.

Pois bem, o Gilmar Mendes vem com um voto dizendo que isso é questão interna corporis do Congresso. Não é. É mandamento constitucional. Se querem diferente, mudem, dentro das regras, a constituição. Quem deu até agora o único voto sério foi o Ministro Marco Aurélio, logo ele de quem não aprova boa parte dos seus votos.

Quando nem o Supremo respeita a Constituição, devemos temer por nossas instituições, e termos em mente que colocaram mais um tijolo no monumento final da nossa democracia.

Texto reproduzido do Perfil Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

"Aborto e obscurantismo", por Paulo Roberto Dantas Brandão

Imagem reproduzida do site da revista Veja e postada pelo blog,
para simples ilustração do presente artigo

Texto publicado originalmente no Perfil do Facebook de Paulo Roberto Dantas Brandão, em 19 de agosto de 2020

Aborto e obscurantismo
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

No ano 2000 houve uma Conferência do Rotary em Salvador, onde reuniram-se os rotarianos de Alagoas, Sergipe e Bahia.  Foi em comemoração aos 500 anos do Descobrimento do Brasil, por isso lembro bem o ano.  Numa das sessões o tema foi família, e o mais ilustre dos palestrantes foi o Dr. Elsimar Coutinho, médico ginecologista, cientista baiano, e a maior autoridade brasileira em fertilização humana.  Dr. Elsimar morreu na semana passada, uma grande perda.

Mas em sua palestra, o debate descambou para o aborto.  E o Dr. Elsimar foi categórico:  “Eu sou contra o aborto.  O aborto não é uma coisa boa.  Ninguém chama uma moça e diz vamos ali para curtir um aborto.  Mas eu sou completamente a favor da descriminalização do aborto”.   E passou a elencar uma série de razões para que acabem com essa tolice, para não dizer desumanidade de tratar o aborto como crime.

Tal discussão ganhou força com o aborto legal, autorizado judicialmente, em uma menina de 10 anos que foi estuprada por um tio.  Desumanidade e crime é querer que uma menina de 10 anos leva adiante uma gestação que ela não quer, não tem condições tanto físicas quanto mentais de levar até o fim e que prejudicará todo o seu desenvolvimento futuro.

Tanto o código penal quando o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, preveem o aborto em caso de estupro.  Qualquer caso de estupro, ainda mais tratando-se de vulnerável.  E ainda prevê em caso de risco de morte da gestante, ou quando o feto é diagnosticado como anencéfalo.  Portanto, o aborto a que a garota foi submetida foi legal.  Gostem ou não alguns obscurantistas.

Aprendi com Dr. Elcimar Coutinho que não se deve ser a favor do aborto, mas a favor da sua descriminalização.  Não tenho a competência científica daquele médico, mas tenho as minhas razões.  A primeira é que a legalização do aborto é uma questão de saúde pública.  O aborto existe e é praticado em todo o país.  As filhas de famílias ricas ou de classe média alta utilizam-se de clínicas no exterior, ou mesmo no Brasil, com todas as condições sanitárias e toda a assistência.As mulheres pobres submetem-se a curandeiras, ou tomam um abortivo qualquer comprado por aí.  E o número de mortes é grande, só não é contabilizada.  A segunda razão é que vivemos em uma sociedade cuja filosofia central é o hedonismo, a busca ao prazer.  Todo o aparato cultural leva a isso, a busca ao prazer.  Nesse, o apelo maior é do prazer sexual.  Para os homens, uma gravidez indesejada de sua parceira pode ter poucos reflexos (se o cara for um irresponsável), mas para as mulheres ficam todo o fardo.  Ora, fica-se num contrassenso.  Estimula-se a busca ao prazer, mas um grupo influente, normalmente conduzido por homens reacionários, ou que apresentam sérios problemas com a sua sexualidade encetam campanhas ruidosas contra o aborto e obstruem a sua descriminalização.  Uma terceira razão é científica.  Se a sociedade decidir que o feto tem vida consciente desde a sua concepção, por isso o aborto seria crime, então obrigatoriamente deve-se repensar a questão da morte encefálica, que tem possibilitado uma série de transplantes que têm salvado vidas.

Infelizmente essa onda obscurantista que tem assolado o pais tem nos levado a posições cada vez mais atrasadas.  As palavras do presidente da CNBB condenado o aborto na garota do Espírito Santo só serve para nos levar à idade das trevas.  Daqui a pouco vão querer queimar os hereges em praça pública.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

sábado, 18 de abril de 2020

Homens ou ideias?, por Paulo Roberto Dantas Brandão

Imagem reproduzida do site sistemafibra e postada pelo blog para ilustrar o presente artigo.

Texto publicado originalmente na Linha do Tempo/Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão, em 18 de abril de 2020

Homens ou ideias?
Paulo Roberto Dantas Brandão

Início dos anos 80, por aí, a Gazeta de Sergipe funcionava na Av. Rio Branco, em frente ao Rio Sergipe. Estava chegando ao jornal, quando ia entrando um conhecido médico, que todos admiravam e uma das figuras respeitáveis do Estado. Um senhor já, se não tinha seus 80 anos, estava bem perto, mas mantinha um bom físico. Ele me conhecia, mas não sabia meu nome, e me tratava como “Neto de Orlando“. Perguntei o que desejava. Ele queria um jornal de alguns dias atrás, onde saíra uma publicação qualquer. Pedi à menina da recepção que conseguisse, e fiquei conversando com ele.

Ele, simpático, começou: “Oh Neto de Orlando, você sabe que sou leandrista, sou um homem de Dr. Leandro, mas nunca deixei de admirar, nem de ser muito amigo de seu avô”. Para quem por acaso não saiba, leandrista eram os partidário de Leandro Maciel, que foi um governador e um dos políticos mais importantes do Estado. O comentário foi motivado porque meu avô Orlando Dantas era o crítico mais feroz de Leandro Maciel, e de quem não se furtou a ser um ferrenho adversário.

A questão é por que eu, tantos anos depois, nunca esqueci esse diálogo banal? Em primeiro lugar é que para mim, um jovem, era uma honra estar trocando ideias com uma personalidade do Estado. Mas o principal era ficar estarrecido como, uma grande figura, ser um partidário de alguém, ser um “leandrista”. Não por ser leandrista em si, não é isso, é por simplesmente seguir pessoas. Eu nunca entendi essa posição. Eu sempre procurei seguir ideias. Quando você segue pessoas, não consegue combater os seus defeitos e destacar suas virtudes. Quando você segue ideias, sabe os desvios das pessoas que estão no poder.

Não acredito em “salvadores da pátria”, não espero que um Messias venha nos salvar. Somos os responsáveis por fazer o nosso destino, buscando realizar aquilo que pensamos.

Por que essa reflexão? Dia desses um intelectual que muito admiro, em resposta a uma minha postagem se declarou “bolsonarista”.

Sou crítico tanto aos bolsonaristas quanto aos lulistas. Quem segue um líder carismático está propenso a aceitar todos os desvios autoritários que tais líderes costumam a pregar, e a adotar. Líderes carismáticos são ditadores em potencial. Por isso, procuro seguir ideias. Uma das que nunca me arredei é de ser um democrata, de lutar por uma democracia representativa. Com todos os seus defeitos pois, como disse Winston Churchill, é o pior de todos os sistemas, excetuando-se todos os outros.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Tempos pré-históricos, por Paulo Roberto Dantas Brandão

Foto: Shutterstock - postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo.

Texto publicado originalmente na Linha do Tempo no Perfil do Facebook de Paulo Roberto Dantas Brandão, em 17 de abril de 2020

Tempos pré-históricos
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

No ano passado eu escrevi que estávamos de volta aos anos 1950. Teríamos voltado aos tempos do auge da Guerra Fria, em que o comunismo era o principal inimigo do “Mundo Ocidental” onde nos víamos. Tempos retrógrados.

No comecinho desse ano escrevi que estávamos, de fato, de volta aos anos 1930: os comunistas continuavam sendo um grande inimigo, mas os Integralistas haviam voltado. E com direito a atentados e tudo mais. Pois é! Tempos estranhos onde até os Galinhas Verdes estavam presentes.

No mês passado tive impressão que estávamos em 1918. Pandemia, quarentena, pânico e mortes. Empirismos e voluntarismo político. Tempos perigosos.

Agora estou tendo a certeza que voltamos à pré-história, quando os velhos eram abandonados para morrer dadas as duras condições do grupo. Simone de Beauvoir em seu livro “A Velhice!” diz que o destino dos velhos variou conforme alguns fatores. Um dos mais importante era o grau de fixação em um território, já que os constantes deslocamentos de sociedades nômades em busca de alimentos impunham muito sacrifício aos mais idosos e, por isso, muitos ficam literalmente pelo caminho, não podendo acompanhar seus parentes. Pois é, tem gente que quer abandonar os velhinhos à própria sorte, ao contágio do Coronavirus. Tempos pré-históricos.

Como já passei dos 60, fico preocupado. Afinal, quem tem ... tem medo.

Mas, Beauvoir chama a atenção que o estabelecimento de duras condições de vida para os idosos também pode ser atribuída à desimportância atribuída à sua experiência de vidas. Uma sociedade que despreza suas tradições despreza também os seus velhos e, consequentemente, toda a riqueza cultural de que é portador, privando e penalizando a juventude em seu conhecimento da sua história, da sua família, da sua cidade, do seu país. Além de pré-históricos, temos tempos ignorantes.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

quarta-feira, 1 de abril de 2020

"Acho que o Bolso pediu arrego", por Paulo Brandão

Foto reproduzida do site 4oito e postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente na Linha do Tempo do Perfil Facebook de PAULO ROBERTO DANTAS  BRANDÃO, em 31 de março de 2020

Acho que o Bolso pediu arrego
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

Acho que o Bolso pediu arrego. Posso estar enganado, mas vamos lá. O pronunciamento dele nesta terça-feira foi bem diferente do da semana passada. Tentou enrolar, pois não podia simplesmente dizer apaguem tudo o que disse, mas foi mais ou menos isso, com outras palavras. Podem até interpretar diferentemente, mas na realidade foi isso que aconteceu.

Na semana passada o ministro Mandetta foi mal. Tentou contemporizar com o presidente, e viu seu prestígio, conseguido na crise, cair. Na segunda-feira voltou à sua melhor performance. Viu que no momento o presidente não pode demiti-lo, como gostaria. Ai o Mandetta deitou e rolou. Ratificou todas as suas recomendações, disse que assistiu ao Fantástico da Globo, e fez comentários sobre o programa, o que para o governo Bolsonaro é crime capital. E, não bastasse, pediu desculpas à imprensa pelas besteiras que disse nas entrevistas anteriores. E ainda por cima disse que não pedia demissão (não disse, mas deixou claro que o presidente, se quisesse que o demitisse). Ontem, não falou de política, mas foi perfeito nas suas explicações técnicas sobre a pandemia.

O Bolso começou a semana com toda a pinta de quem ia demitir o Ministro da Saúde. A imprensa divulgou que ele teria externado a outros ministros que não suporta mais o Mandetta. Teve que engolir. A ala ministerial que tem alguma coisa na cabeça, encabeçada por Paulo Guedes e por Sergio Moro, apoiou Mandetta claramente na entrevista coletiva de ontem. O Ministro da Saúde tem conversado com governadores, prefeitos, congressistas, dos ministros do STF e também tem o apoio da área militar do governo. Enquanto Bolso está em isolamento político, quase só. Ou seja, o Bolso só não está completamente só, porque tem seus três filhos sem juízo, e uma parcela da classe média ressentida e que tem mostrado o quanto é reacionária e sem juízo. Os terraplanistas do governo não contam, e graças a Deus estão calados.

O resultado é que o Bolso teve que ler o pronunciamento de ontem, meio que enfiando a viola no saco. Leu mal, diga-se de passagem.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

quarta-feira, 25 de março de 2020

O porquê do discurso tresloucado, por Paulo Roberto Dantas Brandão

Foto reproduzida da TV e postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente no Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão, em 24/03/2020

O porquê do discurso tresloucado
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

O “Movimento” criado por Bolsonaro, que sustenta o seu governo, tem dois pilares. O primeiro é a eleição permanente de um inimigo, ou de inimigos, para deixar os seus apoiadores distraídos. O segundo seria um sucesso na economia, escorado num movimento liberal, que daria um colchão de renda e emprego para sustentar a classe baixa e a classe média. Com isso o Presidente Bolsonaro esperava atravessar os 4 anos de governo, e garantir mais 4 com a reeleição.

O coronavirus tem colocado tudo a perder. O vírus é um inimigo, mas não daqueles que você pode espancar verbalmente todos os dias nas redes sociais. Não é como o lulopetismo, como os esquerdistas de modo geral, como a imprensa, como o congresso ou como os intelectuais, entre outros. E o pior, não dá para ficar elegendo outros novos inimigos, ou mesmo requentando os demais, enquanto o vírus é que está na mídia.

Aí o combate ao coronarismo vem corroer o outro pilar: um pretenso sucesso econômico. A economia já não decolava. Agora, com a quarentena geral, vem aí uma recessão braba. São empregos que vão embora; empresas que vão fechar; trabalhadores informais que não vão ter o que comer, e por aí vai. A conta ainda vai chegar, e certamente será pesada.

Por isso o discurso tresloucado do Presidente. Por isso sua patente impaciência.

Quem dá um tempo para pensar vai descobrir que aqui e ali há alguns exageros nas medidas de quarentena. É certo que a sintonia fina das medidas deve ser bem observada, e as medidas não podem ultrapassar o necessário. Afinal, não se pode matar o boi para acabar com o carrapato (com todos os perdões pela metáfora ruim). Mas o desespero presidencial só faz prejudicar. Um “liberou geral” nessa altura, pode colocar tudo a perder, no combate à pandemia.

Há ainda perigos adicionais. O presidente desautoriza o Ministro da Saúde, o Mandetta, que até agora tem se mostrado um dos poucos com algo na cabeça no ministério.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão