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quarta-feira, 24 de abril de 2024

60 Anos do Golpe de 1964

Artigo compartilhado do site SÓ SERGIPE, de 30 de março de 2024

60 Anos do Golpe de 1964: Um passado que jamais deve ser esquecido
Por Jorge Santana *

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 Como beber dessa bebida amarga

Tragar a dor, engolir a labuta

Mesmo calada a boca, resta o peito

Silêncio na cidade não se escuta”

(Cálice, Chico e Gil)

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Este 31 de março de 2024 marca os 60 anos do abjeto golpe civil-militar de 1964, que se prolongou por longos 21 anos de uma ditadura perversa e sombria, razão pela qual torna-se crucial relembrar para evitar seu apagamento da memória coletiva do Brasil. É fundamental que as gerações mais velhas recordem e que os jovens aprendam o que realmente significou esse triste período, especialmente quando forças da extrema-direita ousam emergir do lixo da história e atrevem-se a tentar reescrever esse capítulo obsceno do nosso passado.

O ano de 1964 foi palco de um dos momentos mais críticos da história brasileira. Um período marcado pela instabilidade política e social, com crescentes tensões entre as classes conservadoras e os setores progressistas. A conjuntura era de medo e incerteza, com a ameaça comunista sendo amplamente propagada pelas forças do atraso como justificativa para ações radicais.

Não se pode ignorar o papel central desempenhado pelas elites econômicas, pela classe média conservadora, pela mídia de grande escala e por parte da Igreja Católica no incentivo e na legitimação do golpe. Esses setores, temendo a perda de seus privilégios e influência sob um governo de esquerda, mobilizaram-se intensamente, pintando o golpe como uma necessidade para a preservação da ordem e da família brasileira.

O regime militar, instaurado pós-golpe, caracterizou-se pela supressão das liberdades democráticas, a instituição de uma farsa institucional que se mantinha por meio do medo, da perseguição, da tortura e da morte de opositores. A repressão brutal e sem limites tornou-se a marca do regime, com inúmeros casos de sórdidas violações de direitos humanos.

Por outro lado, a ideia de que a corrupção é um mal dos regimes democráticos é desfeita ao lembrarmos dos escândalos que permearam a ditadura, muitos dos quais jamais vieram a público devido à censura imposta à imprensa. Projetos megalomaníacos, desvios de verbas e enriquecimento ilícito de militares e aliados ocorreram longe dos olhos da sociedade.

É uma falácia acreditar que o Brasil, sob a ditadura, era um país de prosperidade e segurança para todos. O crescimento econômico desse período beneficiou uma parcela ínfima da população, enquanto a maioria enfrentava a repressão, a falta de liberdade e a desigualdade social crescente.

O golpe de 1964 e o regime ditatorial que se seguiu representam um dos capítulos mais tristes e vergonhosos da história brasileira. É imperativo lembrar e ensinar sobre esse período não apenas como um ato de resistência contra a tentativa de revisionismo histórico, mas também como um alerta.

A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 nos lembra da fragilidade da nossa democracia e da constante ameaça que as forças autoritárias representam. Jamais podemos esquecer, para que quando ousarem tentar repetir, sejam derrotados e severamente punidos.

Na promulgação da Constituição Cidadã de 1988, Ulysses Guimarães fez um célebre discurso que entrou para a história e que deve estar sempre presente nas mentes e corações dos verdadeiros democratas:

“Traidor da Constituição é traidor da pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgaram a Constituição, trancaram as portas do Parlamento, garrotearam as liberdades, mandaram os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério. (…) Temos ódio à ditadura, ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania, onde quer que ela desgrace homens e nações”.

DITADURA NUNCA MAIS!

* Sobre Jorge Santana - Jorge Santana é ativista pró-democracia.

Texto e imagem reproduzidos do site: www sosergipe com br

segunda-feira, 25 de março de 2024

O regime militar e a resistência estudantil da UFS

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 25 de março de 2024

O regime militar e a resistência estudantil da UFS
Por Marcelo Alves Mendes*

O regime militar refere-se a um período da história política de alguns países, incluindo o Brasil, em que as Forças Armadas assumiram o controle do governo exercendo com autoritarismo o destino sobre a sociedade.

No próximo dia 1 de abril o país refletirá sobre os 60 anos do golpe civil militar e suas consequências na história do Brasil. Em Sergipe, teremos vários eventos, marcando uma data e uma memória que não deve ser esquecida e refletida, com a devida profundidade, para que jamais ocorra de novo. Sobre o golpe civil militar de 1964, há centenas de livros, documentos, registros, filmes, documentários, locais de memória, relatórios finais das Comissões da Memória, dentre outros.

Em Sergipe temos os estudos de Ariosvaldo Figueiredo, Ibarê Dantas, José Vieira da Cruz, Zelita Batista, o relatório da Comissão da Verdade, coordenada pelo ex-reitor da UFS, Josué Modesto dos Passos Subrinho, depoimentos registrados de lideranças estudantis da época, a exemplo de Marcélio Bonfim, Jackson Barreto, Bosco Rolemberg, Zelita Correia, Alexandre Diniz, na época, estudantes jovens da Universidade Federal de Sergipe.

Com o endurecimento do regime, a partir de 1968, atividades estudantis foram monitoradas, vigiadas, acompanhadas. A UFS recebeu na época, uma listagem de alunos que deveriam ser expulsos, por supostas atividades contrárias ao regime. Por coragem e determinação do reitor, professor João Cardoso, a ordem foi colocada em banho-maria sem uma solução imediata, até a conclusão dos cursos dos mesmos.

A altivez da UFS, presente nos primórdios, via a personalidade e ação do Reitor naquele momento, possibilitou que mentes brilhantes não fossem proibidas de cumprir sua missão, a exemplo do professor Ibarê Dantas, cientista social reconhecido no país, da professora Adelci Figueiredo (in memória), irmã de Ariosvaldo Figueiredo, uma Mestra no campo da geografia na graduação e na pós-graduação na UFS, assim como Alexandre Diniz, um dos maiores intelectuais da geografia agrária no Brasil, professor do Departamento de Geografia da UFS, entusiasta e criador da pós-graduação na nossa Universidade. O professor Alexandre Diniz, vivo e lúcido entre nós, é um dos comprovados perseguidos políticos do regime, fato reconhecido pelo estado brasileiro.

A passagem dos 60 anos do golpe civil militar nos delega o papel de homenagear os resistentes do regime e defensores da democracia, dentre os quais se destacaram estudantes da UFS, de vários cursos, como também, dos que faziam o ensino da geografia sergipana, representada nas ações políticas contestatórias, práticas e discursivas, dos jovens Adelci Figueiredo e Alexandre Diniz, a quem expressamos nosso respeito e gratidão.

A resistência estudantil foi parte significativa da oposição ao regime militar no Brasil, particularmente dos estudantes universitários e secundaristas, em defesa da democracia brasileira, desempenhando um papel importante na conscientização da sociedade sobre os abusos dos direitos humanos cometidos pelo regime militar. Seus esforços ajudaram a construir a pressão pública interna e externa que eventualmente contribuiu para o fim do regime militar e o retorno do Brasil à democracia.

* Professors do Departamento de Geografia do Campus Itabaiana, Pró-Reitor de Assuntos Estudantis da UFS.

Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias com br