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sexta-feira, 28 de março de 2025

Por que o batom virou novo símbolo de críticas a Moraes...

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 27 de março de 2025

Por que o batom virou novo símbolo de críticas a Moraes e ameaça a credibilidade do STF

Na avaliação de acadêmicos e criminalistas o ministro Luiz Fux, do STF, ajudou a institucionalizar o debate sobre a revisão de penas aos condenados do 8.01, e o caso da pichadora Débora Rodrigues dos Santos é identificado facilmente pela população como injustiça. Roseann Kennedy para o Estadão:

Desde as primeiras condenações dos envolvidos nos atos golpistas de 8/01, o bolsonarismo reclama de excessos na aplicação das penas. Sem admitir a gravidade dos fatos ocorridos, esse grupo tentou propagar a ideia de que o Supremo Tribunal Federal (STF) estava punindo “velhinhas com a bíblia na mão”. Por óbvio, não colou. Mas, de repente, a pena de 14 anos de prisão para uma mulher com “o batom em punho” virou o símbolo da arbitrariedade para os críticos do ministro Alexandre de Moraes.

O assunto agora domina rodas de conversa pelo País, e ameaça a credibilidade do julgamento, na avaliação de acadêmicos e criminalistas, especialmente depois de o ministro Luiz Fux, do STF, institucionalizar o debate ao levar o tema para o meio do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Esse caso provocou mais emoção por toda semiótica que envolve. Uma mulher, jovem. Muita gente consegue se identificar. E tem o batom no lugar da arma”, observa a advogada Luisa Moraes Abreu Ferreira, professora de Direito da FGV. Entre os crimes atribuídos à pichadora Débora Rodrigues dos Santos, está associação criminosa armada.

É fato que parte dos magistrados já se incomodava com as penas aplicadas, considerando-as excessivas. Desde o início dos julgamentos relacionados ao 8 de Janeiro, cinco ministros votaram por penas menores que as determinadas por Moraes. São eles: Kassio Nunes Marques, André Mendonça, Luís Roberto Barroso, Cristiano Zanin e Edson Fachin. Parte desses votos foi apresentada no plenário. Agora, os casos estão concentrados na Primeira Turma do STF.

No primeiro julgamento de um réu do 8 de Janeiro, em 2023, o STF definiu uma pena de 17 anos para Aécio Pereira. Nunes Marques, André Mendonça e Barroso propuseram absolvição por alguns crimes e foram vencidos. Os ministros sempre ressaltam que o contexto desse julgamento no STF é inédito.

Agora Fux verbalizou, com todas as venias possíveis, sua divergência. E “o Supremo mordeu a isca”, diz Luisa. Para ela, isso pode ter ocorrido por duas hipóteses. Uma razão para a exposição neste momento seria o temor do efeito backlash, que poderá no futuro derrubar condenações, então seria melhor corrigir o rumo para garantir punições corretas e evitar que vire munição para anistia. “Ou pode ter pessoas lá dentro que quer usar o caso para frear o poder exacerbado do STF na figura de Moraes”.

O caso da pichadora com batom virou um estereótipo do julgamento do 8.01, na avaliação do criminalista Sergei Cobra Arbex. “Daqui a pouco, a oposição vai falar deste caso como mais importante que o de Bolsonaro. Porque representa uma situação de injustiça que todos veem com o tamanho da pena”.

“Uma pena porque esse é um processo extremamente importante, que mexe com nossa estrutura de democracia”, avalia Sergei. “Não é o resultado da condenação que vai fazer esse julgamento forte. É o processo. E a culpa a culpa não é de Moraes, é da Corte que se constrange para divergir do relator”, conclui.

Fux considera pena de cabeleireira que pichou ‘perdeu, mané’ exacerbada e fala em redução

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux lembrou na quarta-feira, 26, durante o julgamento que tornou réu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que pediu vista do julgamento da cabeleireira Débora dos Santos, que pichou a frase “Perdeu, mané” na estátua da Justiça no 8 de Janeiro. Fux questionou “pena exacerbada” em alguns processos dos atos golpistas. O relator dos processos, Alexandre de Moraes, reforçou sua posição, mas afirmou que o tamanho da punição será discutido pelos colegas.

“Vou fazer uma revisão dessa dosimetria (cálculo da pena), porque, se a dosimetria é inaugurada pelo legislador, a fixação da pena é do magistrado. E o magistrado o faz à luz da sua sensibilidade, do seu sentimento a cada caso concreto”, afirmou Fux, completando: “E o ministro Alexandre explicitou a conduta de cada uma das pessoas. E eu confesso que, em determinadas ocasiões, eu me deparo com uma pena exacerbada”.

Em referência ao processo de Débora dos Santos, Fux afirmou: “E foi por essa razão, ministro Alexandre, dando uma satisfação a Vossa Excelência, que eu pedi vista desse caso, que eu quero analisar o contexto em que essa senhora (Débora) se encontrava”.

Após a declaração de Fux, Moraes afirmou: “Em relação ao batom, Vossa Excelência me conhece, eu defendo a total independência de cada magistrado. Acho que Vossa Excelência vai poder trazer uma discussão importantíssima para a Turma. O que agora explicito é que é um absurdo as pessoas quererem comparar aquela conduta — de uma ré que estava havia muito tempo dentro dos quartéis, pedindo intervenção militar, que invadiu junto com toda a turba e além disso praticou esse dano qualificado — com uma pichação de um muro”.

O ministro Alexandre de Moraes lembrou que já houve divergências com outros ministros, a exemplo de Cristiano Zanin, sobre o tamanho das penas aos condenados do 8 de Janeiro. “A questão da dosimetria é uma questão a ser analisada”, concluiu o relator.

O julgamento de Débora dos Santos, no plenário virtual do STF, foi interrompido nesta semana por Fux. Moraes votou por condenar a cabeleireira a 14 anos de prisão.

De acordo com a Procuradoria-Geral da República, Débora Santos cometeu cinco crimes: golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, associação criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Bolsonaro no banco dos réus


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de fevereiro dde 2025

Bolsonaro no banco dos réus

Denúncia da PGR contra ex-presidente sob acusação de tentativa de golpe tem de ser analisada com serenidade pelo STF. Não pode haver dúvida sobre um processo que tende a sacudir o País. Editorial do Estadão:

A Procuradoria-Geral da República (PGR) ofereceu denúncia contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros 33 suspeitos de envolvimento numa suposta trama golpista para impedir a posse do presidente Lula da Silva, legitimamente eleito em 2022. Todos foram acusados pelo procurador-geral, Paulo Gonet, de terem cometido os crimes de organização criminosa, tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito, entre outros delitos. Somadas, as penas podem chegar a quase 30 anos de prisão.

O Estadão apurou que, no caso de Bolsonaro, Gonet concluiu que o ex-presidente não só tinha conhecimento da sedição, como tomou a frente das articulações para dar um golpe e, assim, permanecer no poder.

O oferecimento da denúncia já era esperado à luz do robusto conjunto de elementos de autoria e materialidade contra os acusados reunidos pela Polícia Federal (PF). O momento, no entanto, é de serenidade, a bem da própria Justiça, já que se trata de um processo que tende a sacudir o País. Em que pesem a gravidade da acusação e a substância desse arcabouço probatório – ao menos o conteúdo que veio a público até o momento –, é o caso de lembrar que nem Bolsonaro nem os demais denunciados ainda são réus, que dirá culpados de qualquer dos graves crimes que lhes foram imputados pela PGR.

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) – composta pelos ministros Luiz Fux, Cármen Lúcia, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Flávio Dino – ainda decidirá se aceita ou não a denúncia, o que determinará o início de uma eventual ação penal. Só então os denunciados deixam essa condição para se tornarem formalmente réus.

Embora não integre a Primeira Turma, o ministro presidente do STF, Luís Roberto Barroso, afirmou em entrevista que a Corte selará o destino penal de Bolsonaro “com seriedade, examinando provas”. É o que este jornal espera, e não de agora, de qualquer juízo ou tribunal. Mas é forçoso dizer, evidentemente, que Barroso só disse o que disse para responder às justas críticas que têm sido feitas à notável politização do Supremo.

Obviamente, o mínimo que se pode esperar do julgamento de Bolsonaro e dos outros acusados é que ele seja mesmo despolitizado, vale dizer, que o processo seja conduzido com rigor técnico. Todavia, o simples fato de esse anseio elementar ter de ser externado diz muito sobre o contexto que envolve o caso mais importante sob a guarda do Supremo em 2025. Se para todo julgamento a aura de equidade e retidão dos julgadores não pode ser tisnada sem que todo o processo seja comprometido, essa verdade é particularmente relevante no julgamento de um ex-presidente acusado de tramar um golpe de Estado.

Foi o próprio sr. Barroso, convém lembrar, quem alimentou essa desconfiança ao se colocar pessoalmente como um dos responsáveis por “derrotar o bolsonarismo”. Quando admoestado no exterior – indevidamente – por um bolsonarista, Barroso repeliu a abordagem com o hoje famoso bordão “perdeu, mané”.

Essa atmosfera de desconfiança na atuação do STF no que concerne à denúncia contra Bolsonaro foi diligentemente cultivada pela Corte – e só por ela há de ser dissipada. Para isso, é fundamental que agora o Supremo se ocupe da denúncia com técnica e temperança, não se deixando arrastar por pressões políticas ou ideológicas externas e, sobretudo, internas. As desventuras da Operação Lava Jato, movida pela crença messiânica de que trabalhava pela regeneração nacional, devem servir de exemplo do que acontece quando a exceção se torna regra e, em nome da luta contra o mal – seja a corrupção, seja o golpismo –, o Judiciário se permite ignorar o devido processo legal.

O que está em jogo, ao fim e ao cabo, não é apenas o futuro de Bolsonaro, mas também a própria credibilidade do sistema de Justiça. Disso depende o vigor e a legitimidade da duríssima resposta que deve ser dada a todos os que tentaram solapar a democracia brasileira.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Braga Netto: erro de cálculo de risco - comum em tentativas de golpe

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 16 de dezembro de 2024

Braga Netto: erro de cálculo de risco - comum em tentativas de golpe

Os conspiradores de 2022 superestimaram o contexto para um golpe e erraram no cálculo do risco de punição. Diogo Schelp para o Estadão:

A prisão preventiva do general Braga Netto, acusado de interferir na investigação sobre uma tentativa de golpe de estado em 2022, na qual ele figura como um dos principais suspeitos, é uma demonstração de que a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e o Supremo Tribunal Federal não estão dispostos a pegar leve com quem conspirou contra a ordem democrática. A detenção é inédita pela patente de Braga Netto, pela influência que ele tem (ou tinha) nas Forças Armadas e pelo alto grau de participação política que ele teve ao longo do mandato de Jair Bolsonaro.

Caberá à Justiça concluir se ele e outros indiciados pela tentativa de golpe, inclusive o ex-presidente, são culpados e, se sim, como deverão ser punidos. A historiadores e cientistas políticos, porém, já é permitido se perguntar por que um grupo de militares, 36 anos depois da redemocratização do País, se sentiu no direito — ou mesmo no dever — de arquitetar um golpe e o que os fez acreditar que poderiam ser bem-sucedidos.

O estudo das centenas de golpes de estado, fracassados ou não, ocorridos nos últimos 100 anos, permite identificar um padrão na disposição de militares de romper com a ordem estabelecida e assumir o poder. Os cientistas políticos Malcom Easton e Randolph Siverson, da Universidade da Califórnia, resumiram esse padrão na seguinte frase: “Os golpistas tipicamente pensam em dar um golpe após avaliar sua satisfação com o status quo e a oportunidade de ter sucesso.” Satisfação e oportunidade, esses são os elementos que determinam a propensão de militares, protagonistas da maioria das tentativas de golpe registrados na história mundial recente, a seguir adiante com uma conspiração.

Os riscos são sempre altos para os golpistas. No século passado, aproximadamente metade das tentativas de golpe de estado falhou e as consequências para os conspiradores foram quase sempre duríssimas. Aliás, nesse ponto, a literatura especializada faz uma distinção interessante quando o alvo da tentativa de ruptura institucional é um governo autoritário ou democrático.

Quando se trata do primeiro, as punições são mais pesadas, podendo chegar à pena de morte, e os expurgos mais amplos, de modo a favorecer a duração do regime por mais tempo. Quando a vítima do golpe fracassado é um líder democrático, por sua vez, não há ganho político e as punições costumam ser mais leves. São raros, porém, os casos em que os golpistas não são sequer presos.

O Brasil, com seu histórico de anistias e perdões a pretexto de buscar uma acomodação com as elites militares, é um caso à parte. Isso pode ter levado os conspiradores de 2022, principalmente os de mais alta patente, a avaliar que o risco de serem punidos com prisão era relativamente baixo.

Voltando à questão da satisfação e da oportunidade. Os militares que, segundo a PF, planejaram um golpe em 2022 estavam insatisfeitos com o status quo? Também aqui o caso brasileiro se revela uma exceção. Os militares certamente estavam satisfeitos com o novo status quo que Bolsonaro lhes havia presenteado, distribuindo a eles milhares de cargos na administração federal, incluindo um bom naco do poder político.

Mas eles não estavam completamente satisfeitos com o status quo institucional do País, tendo que lidar com um Poder Legislativo com crescente apetite por atribuições do Executivo (como na destinação do orçamento via emendas) e com um Judiciário combativo. E, acima de tudo, eles estavam insatisfeitos com a perspectiva de perder o status quo quando Lula tomasse posse.

Os conspiradores erraram na avaliação da oportunidade para o golpe. Se tivessem estudado um pouco mais os exemplos de outros países, saberiam que o fator determinante para uma tomada de poder bem-sucedida é a existência de um contexto de instabilidade política e de um líder com legitimidade abalada. Não era o caso em 2022. Havia um clima de polarização política extrema, mas não uma situação de instabilidade.

O líder que eles pretendiam impedir de assumir o poder havia sido eleito com a maioria dos votos, ainda que por uma margem apertada. Mesmo que os golpistas acreditassem de fato nas teorias que contavam sobre uma suposta fraude eleitoral, não havia na sociedade brasileira uma impressão generalizada de que faltava legitimidade a Lula. Os conspiradores de 2022 superestimaram o contexto para um golpe e erraram no cálculo do risco de punição

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

domingo, 8 de dezembro de 2024

Ruiu a pirâmide fajuta do bolsonarismo


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 8 de dezembro de 2024

Ruiu a pirâmide fajuta do bolsonarismo

O enredo golpista desvendado pela Polícia Federal é espantoso mas não surpreendente. De quebra, também é muito, muito brega. Jerônimo Teixeira para a Crusoé:

Donald Trump, eu disse aqui outro dia, é uma pirâmide: "um objeto imenso, sólido e de linhas na verdade bem simples, mas que representa um mistério para o observador”.

Jair Bolsonaro já foi chamado de “Trump dos trópicos”.

O próprio Trump usou essa expressão quando declarou apoio ao então presidente do Brasil na eleição de 2022.

Pirâmides já foram erguidas nos trópicos. Bolsonaro não é uma delas. Falta-lhe o elemento de mistério. Até seus momentos de destempero e incontinência verbal são previsíveis.

(As revelações do relatório da Polícia Federal sobre o golpismo no governo Bolsonaro são espantosas mas não surpreendentes. "Claro que isso tudo aconteceu. Estava na cara”, pensei logo que soube dos planos elaborados pela milicada bolsonarista para matar o presidente eleito, seu vice e um ministro do STF – embora eu nunca houvesse imaginado nada parecido…)

Bolsonaro será no máximo uma pirâmide cenográfica em um carro alegórico de uma escola de samba do segundo grupo.

Não, a analogia é ruim: o ex-presidente não gosta de Carnaval. Vou tentar de novo.

Bolsonaro é a pirâmide de plástico que caberia na entrada de uma loja Havan, se Luciano Hang decidisse trocar a Estátua da Liberdade por um figurino egípcio (ou maia, ou asteca…).

A chanchada golpista

Como era brega o golpe que não foi!

Reparem na carga de melodrama patrioteiro no nome da operação que pretendia “neutralizar" Xandão, Lula e Alckmin: "Punhal Verde e Amarelo”.

Sérgio Reis poderia tirar daí uma canção de dor de corno: “Um punhal verde amarelo / cravado em meu coração”.

E ainda tem os tais “kids pretos” que andavam monitorando os movimentos de Alexandre de Moraes. Ao que parece, é uma tropa de elite, treinada para operações especiais.

O apelido, no entanto, não evoca soldados sorrateiros e ágeis ou franco-atiradores que nunca erram o alvo. Em sua pronúncia abrasileirada, Quídis Pretos soa mais como um grupo de pagode infantil que homenageia Muçum. Olha o gólpis, cacíldis!

(Mas que sei eu sobre a vida militar? Sou só um desses civis vagabundos cuja vida de folga e festa foi exposta no vídeo da Marinha. Escrevo esta coluna bebendo um mojito nas areias cálidas de Fernando de Noronha. Na noite passada, o DJ do surubão, que é um pândego, tocou In the navy, do Village People.)

O clamor de 1964

É tudo muito ridículo – e também muito grave (chego tarde para dizer isso: Cora Rónai apontou essa dualidade na sua crônica em O Globo).

Entre as revelações sérias do relatório da PF, está a conexão dos conspiradores palacianos com a turma acampada em frente ao quartel de Brasília.

O general Mário Fernandes, um Kid Preto radical, estava em contato com líderes do acampamento. Quis protegê-los: pediu a Mauro Cid que intercedesse junto ao presidente para deter eventuais operações da Polícia Federal na "área militar”.

Fernandes preocupava-se em manter acesas as manifestações contra o resultado das urnas. “O clamor popular, como em 64”, disse ele em áudio enviado ao então chefe da Secretaria-Geral, general Luiz Eduardo Ramos.

Creio que ainda não está claro como a quebradeira do 8 de setembro se encaixa na história. Ao que parece, naquela data as atividades dos Kids Pretos já haviam sido suspensas. É possível que a Horda Canarinha, cansada de esperar, tenha decidido chamar os militares à ação.

O cientista social Jonas Medeiros, que tem acompanhado todas as grandes manifestações de rua do bolsonarismo e escrito a respeito no site da revista Piauí, observou que depois depois do 8 de janeiro a exaltação às Forças Armadas quase sumiu dos cartazes e palavras de ordem desses eventos. Os militantes sentiram-se traídos pelos militares.

Fico imaginando o que terão sentido ao ver o vídeo em que Bolsonaro, sob o pretexto de “pacificar” o país, pede arrego ao STF.

Acabou o pano

Saíram desmentidos os "passadores de pano” de Bolsonaro. Não cola mais a conversa de que o ex-presidente é um homem no fundo inofensivo que não sabe medir as palavras – só um capitão falastrão que jamais representou qualquer ameaça à democracia.

Como tudo é binário no debate público atual, muitos imaginam que, se os golpistas foram desmascarados, Alexandre de Moraes, o ministro dos mil inquéritos, sai consagrado como o comandante da última praça forte da democracia.

Será?

Em agosto de 2022, um mês depois de Bolsonaro ter aludido a seus planos de golpe em uma reunião ministerial, Moraes mandou a PF bater na porta de oito empresários – o mais famoso e vistoso deles era Luciano Hang – que disseram besteiras monstruosas em um grupo privado de WhatsApp.

Um deles afirmou que preferiria golpe e ditadura à volta do PT ao poder.

Quem leu ou ouviu pelo menos algumas das mensagens que o general Fernandes trocou com Cid e outros colaboradores entenderá, pela mais simples comparação, que as opiniões tortas compartilhadas pelos amigos do véio da Havan não constituem um plano de golpe.

Não havia razão plausível para investigar essa gente. Moraes só reconheceria isso um ano depois, quando encerrou o inquérito.

Nenhum dos oito empresários está entre os 37 indiciados no caudaloso relatório da PF. Seus nomes tampouco apareceram entre os financiadores do 8 de setembro.

Ao longo do ano crucial de 2022, a Justiça sacudiu várias árvores, mas não chegou perto daquela que tinha os frutos podres.

As conspirações do núcleo radical do Planalto só seriam descobertas bem mais tarde.

O que nos salvou foi o relativo isolamento dos radicais do Planalto em meio ao legalismo do Alto Comando das Forças Armadas. E também a incompetência dos pretensos golpistas.

Parece que a operação Punhal Verde e Amarelo esteve perto de cumprir pelo menos um de seus três objetivos. Os agentes destacados para sequestrar e talvez matar Moraes estavam em campo no dia 15 de dezembro de 2022. A ação teria sido suspensa porque uma sessão do STF foi adiada.

Por pouco o que era ridículo não se tornou trágico.

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terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Treze acepções de "golpe"

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de novembro de 2024

Treze acepções de "golpe"

O canto da araponga, uma batida de carros e a Proclamação da República remetem à mesma palavra. A crônica de Orlando Tosetto para a revista Crusoé:

Desde que, em 31 de agosto de 2016, após mais de oito meses de conversas e vaivéns, com relatórios dos deputados, relatórios dos senadores, abertura de processo, infindáveis discursos de defesa e votação aberta do Parlamento em sessão presidida por Ministro do STF (ministro que, aliás, hoje ministra aquilo que o país se habituou a chamar de “Justiça”), a então presidente da República sofreu impeachment, temos convivido diuturnamente com a palavra golpe.

E eis que o termo entrou na moda.

Foi golpe, teve golpe, deram um golpe, quiseram dar um golpe, querem ainda o golpe, medidas excepcionais e temporárias foram adotadas para evitar o golpe, heroicamente impediu-se o golpe — e vamos seguindo assim, golpeados o tempo todo pela palavra, usada a troco de tudo e de nada.

Tanto é assim que nem duvido mais que golpista, tal como fascista ou nazista, já seja ofensa comum em discussões de trabalho e em mesas de família pelo país afora.

É que somos um povo cordial, ou seja, guiado pelo coração; e o nosso coração às vezes se apaixona por uma palavra. Ou a transforma em mania (também chamada, hoje em dia, de “hiperfoco”).

Mas o que quer dizer essa palavra que virou mania?

Segundo ensina, em seu dicionário, o senhor Aurélio Buarque de Holanda (sobrenome aliás quase hagiográfico hoje em dia), golpe é um substantivo masculino que tem mais de uma acepção, isto é, mais de um significado.

Na verdade, ele nos dá nada mais, nada menos do que treze acepções diferentes; nem todas, é claro, nos interessam.

Uma delas, por exemplo, é o canto da araponga (do pássaro, não daquele cara da Abin que fica andando atrás de você na rua).

Outro é a batida, a trombada: colisão de trens ou de veículos, ou aquela topada com o dedão na quina da mesa.

Outro ainda é o choque inesperado, que causa algum tipo de abalo emocional (esse poderia ser o nosso, mas ainda não é).

E até um grande número de pessoas que entram ou saem de algum lugar: um golpe de gente entrando no metrô ou saindo do Pacaembu.

Entre os maus golpes estão o de ar ou de vento, que nos traz a tosse, a gripe, às vezes até a pneumonia; o financeiro, que empobrece alguns para enriquecer outros; o do baú, que é a variante matrimonial do financeiro; o de vista, que infelicita tanto a vida dos goleiros; os de malandragem, que fazem a vida dos estelionatários; e os diversos golpes e contragolpes das lutas, das brigas, das artes marciais: jab, gancho, upper-cut, ippon, etc.

Há também golpes bons: o teatral, que já teve má fama mas anda se reabilitando; o de mestre, de que temos visto vários; e o de sorte, que temos visto mais ainda – que o diga o inocentíssimo, impolutíssimo e sacrossantíssimo colosso moral que nos rege, governa, beneficiadíssimo que foi por vários golpes consecutivos dados pela pena e pelas togas da sorte.

Mas, claro, o que domina a nossa vida e a nossa imaginação é sempre o golpe na sua acepção política: o golpe de Estado, que também é chamado, entre os patrícios mais ilustrados, pelo nome francês coup d’état, ou pelo nome alemão putsch – este exclusivo para golpes dados por militares, como, por exemplo, o de 1964, ou a Proclamação da República.

(Sim: a República nasceu de um golpe de Estado, e foi também um golpe militar.

Deodoro da Fonseca era marechal de campo quando derrubou o imperador, e terminou a vida, qual Stálin ou esses cabras aí da Nicarágua, Cuba, Venezuela e adjacências, como generalíssimo. Deve, inclusive, ter inaugurado o uso dessa patente.)

Esse é o golpe que não nos dá sossego, esse é o golpe sob cujo barulho tentamos dormir, esse é o golpe que está sempre à espreita, sempre na bica de acontecer, esse é o golpe Godot: o que estamos continuamente temendo que cresça, apareça e aconteça. Esse é o golpe que tanto nos cansa.

Da nossa parte, amigo, e digo “nossa” porque sei que nessa você está comigo, o negócio é simplesmente ser contra qualquer golpe, seja ele militar, seja ele judicial, seja ele dado com a espada ou com a pena.

Tanto faz se o golpe é pra tirar um (do poder, da cadeia, da vida) ou pra pôr outro (lá em cima, sempre lá em cima).

Chega, basta.

Nossa vida já é cheia demais de solavancos (outra acepção de golpe); pleiteemos uma estrada mais lisa pras nossas vidas.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

domingo, 1 de dezembro de 2024

A estratégia de Bolsonaro para se livrar da prisão...

Legenda da foto: Bolsonaro pretende rifar Augusto Heleno e Braga Netto para se livrar da prisão - (Créditos das fotos: Lula Marques/Fernando Frazão/Tânia Rêgo ABr).

Publicação compartilhada do site do JORNAL DO BRASIL, de 30 de novembro de 2024 

A estratégia de Bolsonaro para se livrar da prisão e jogar golpe no colo de Heleno e Braga Netto

Defesa já alega que beneficiários da trama golpistas seriam militares de alta patente e que ex-presidente seria deixado de lado em caso de êxito do golpe

Por JORNAL DO BRASIL com Revista Fórum (redacao@jb.com.br)

Por Ivan Longo - Após falar em fugir para uma embaixada em caso de condenação pela tentativa de golpe de Estado no Brasil, Jair Bolsonaro já trabalha com mais uma estratégia para tentar se livrar de prisão: jogar a culpa em militares de alta patente que compunham o seu governo, entre eles o general Augusto Heleno (ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional) e general Walter Braga Netto (ex-ministro da Defesa e da Casa Civil, além de candidato a vice de Bolsonaro nas eleições de 2022).

Trata-se de a tese de "golpe dentro do golpe", que consistiria em um plano golpista não só para impedir a posse de Lula após o pleito, mas para que os próprios militares assumissem o poder, em detrimento de Bolsonaro. A sinalização de que essa deve ser a estratégia foi dada por Paulo Amador da Cunha Bueno, um dos advogados de Bolsonaro, em entrevista à GloboNews nesta sexta-feira (30).

Bueno usa como base nesta narrativa o "Punhal Verde e Amarelo", documento elaborado, segundo a Polícia Federal (PF), pelo general da reserva e ex-secretário-executivo da Secretaria-Geral da Presidência no governo Bolsonaro, Mario Fernandes, que foi preso recentemente na operação "Contragolpe". O planejamento envolvia o assassinato de Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O documento previa, após deflagrado o golpe, a a criação de um Gabinete Institucional de Gestão de Crise que seria comandando por militares.

Heleno, segundo o planejamento, seria o chefe de tal gabinete. Braga Netto, por sua vez, seria o coordenador-geral, enquanto outros militares de alta patente, como o próprio Mario Fernandes, assumiriam outras funções de comando.

O fato de Jair Bolsonaro não ser mencionado no plano "Punhal Verde e Amarelo" é a base da estratégia a ser usada pela defesa do ex-presidente para jogar a culpa pela tentativa de golpe em Heleno e Braga Netto.

"Quem seria o grande beneficiado? Segundo o plano do general Mario Fernandes, seria uma junta que seria criada após a ação do 'Plano Punhal Verde e Amarelo', e nessa junta não estava incluído o presidente Bolsonaro", disse o advogado de Bolsonaro em entrevista à GloboNews.

"Não tem o nome dele [Bolsonaro] lá, ele não seria beneficiado disso. Não é uma elucubração da minha parte. Isso está textualizado ali. Quem iria assumir o governo em dando certo esse plano terrível, que nem na Venezuela chegaria a acontecer, não seria o Bolsonaro, seria aquele grupo", afirmou ainda.

Apesar da tentativa do advogado de Bolsonaro de imputar a culpa somente a Heleno e Braga Netto, a Polícia Federal, em seu relatório final sobre a investigação, aponta o ex-presidente como o principal líder da organização criminosa que tentou deflagrar um golpe no Brasil. Os investigadores afirmam, inclusive, que Bolsonaro tinha conhecimento do plano para assassinar autoridades.

Bolsonaro indiciado

O relatório final da Polícia Federal (PF), encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR) propondo o indiciamento de Jair Bolsonaro e de outras 37 pessoas, traz com detalhes o envolvimento do ex-presidente na trama golpista.

A investigação da PF é taxativa no documento. "Os elementos de prova obtidos ao longo da investigação demonstram de forma inequívoca que o então presidente da República, JAIR MESSIAS BOLSONARO, planejou, atuou e teve o domínio de forma direta e efetiva dos atos executórios realizados pela organização criminosa que objetivava a concretização de um Golpe de Estado e da Abolição do Estado Democrático de Direito, fato que não se consumou em razão de circunstâncias alheias à sua vontade", diz trecho do relatório, sendo preservada aqui a grafia original.

O arcabouço probatório colhido pelos investigadores demonstra que o grupo investigado e liderado por Bolsonaro "criou, desenvolveu e disseminou a narrativa falsa da existência de vulnerabilidade e fraude no sistema eletrônico de votação do País desde o ano de 2019". O objetivo seria sedimentar na população a falsa realidade de fraude eleitoral para que dois objetivos fossem alcançados posteriormente: "primeiro, não ser interpretada como um possível ato casuístico em caso de derrota eleitoral e, segundo e mais relevante, ser utilizada como fundamento para os atos que se sucederam após a derrota do então candidato".

Texto e imagens reproduzidos do site: jb com br

sábado, 30 de novembro de 2024

Os homens que barraram o golpe

General Freire Gomes

Artigo copartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de novembro de 2024

Os homens que barraram o golpe

Como os então comandantes do Exército e da Aeronáutica resistiram às pressões de Bolsonaro, militares e ativistas. Felipe Moura Brasil para a revista Crusoé:

Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro e o ministro Dias Toffoli, indicado por Lula ao Supremo Tribunal Federal, tinham um incômodo em comum: a Operação Lava Jato.

Entre a vitória de Bolsonaro sobre o petista Fernando Haddad e a posse no cargo, seu filho mais velho, Flávio, havia sido atingido pela Operação Furna da Onça, desdobramento da força-tarefa no Rio de Janeiro, e o avanço das investigações durante o primeiro ano de governo trouxe à tona o histórico de funcionalismo fantasma em gabinetes ocupados pela família.

Já Toffoli, enquanto Lula estava preso, articulava a retirada de investigações da Lava Jato da Justiça Federal e o envio para a Justiça Eleitoral, transformando propina em caixa dois, o que foi apontado pelo procurador Diogo Castor de Mattos em O Antagonista como “novo golpe” da “turma do abafa” à operação.

O incômodo com o texto levou o ministro a tratar as críticas do então membro da Lava Jato como “ataques ao Poder Judiciário Eleitoral de nosso país”, pedir ao Conselho Nacional do Ministério Público uma investigação sobre elas e abrir de ofício o inquérito das fake news, entregando a relatoria ao colega Alexandre de Moraes, que, logo no mês seguinte, censurou Crusoé por revelar o codinome de Toffoli na Odebrecht.

O “amigo do amigo do meu pai” havia cobrado de Moraes “a devida apuração das mentiras recém divulgadas por pessoas e sites ignóbeis que querem atingir as instituições brasileiras”. Nascia ali o discurso de defesa da “democracia” contra “ataques”, embora estes nada mais fossem que verdades inconvenientes a Toffoli.

Na ocasião, Bolsonaro não só minimizou o caso (“agora vamos tocar o barco”), como também atuou para blindar o ministro contra a CPI da Lava Toga, participando com Flávio da pressão sobre senadores pela retirada de assinaturas de seu requerimento de criação. A aliança apontada na raiz por Crusoé foi mutuamente benéfica: Toffoli blindou Flávio no STF, paralisando investigações a seu respeito.

Faltou, no entanto, combinar o jogo com Moraes, que acumulou superpoderes de relator.

O diversionismo dos dois lados

A Polícia Federal, em seu relatório final de 884 páginas sobre tramas golpistas no governo Bolsonaro, divulgado em 26 de novembro de 2024, apontou que “os ataques às urnas eletrônicas” se iniciaram em 2019, quando “o grupo ora investigado já propagava essa ideia”.

Diz o texto:

“O objetivo era sedimentar na população a falsa realidade de fraude eleitoral para posteriormente a narrativa atingir dois objetivos: inicialmente não ser interpretada como um possível ato casuístico, em caso de derrota eleitoral, e, o mais relevante, ser utilizada como fundamento para os atos que se sucederam após a derrota do então candidato Jair Bolsonaro no pleito de 2022.”

A PF omitiu, no entanto, o objetivo imediato da estratégia bolsonarista: desviar as atenções do desmantelamento da Lava Jato, o primeiro e mais emblemático estelionato eleitoral do então presidente.

A rigor, o que se buscou desde 2019 foi manter o discurso antissistema da campanha, alterando sorrateiramente sua substância: do combate à corrupção real, que não podia mais ser combatida, para exploração de teorias conspiratórias sobre as urnas.

Como explica a PF, “os investigados sabiam que a narrativa falsa de fraude eleitoral, sendo disseminada por muito tempo, por vários canais, especialmente na internet (aplicativos de mensagens, redes sociais, vídeos, entrevistas etc.), em grande volume, seria extremamente eficiente em seu público-alvo”.

“Receber mensagens semelhantes de várias fontes é muito mais persuasivo. O endosso de um grande número de usuários aumenta a confiança na informação que está sendo transmitida, especialmente se a informação vem de um canal (ou perfil de rede social) com o qual o destinatário se identifica (afinidades ideológicas, políticas, religiosas etc.). Além disso, a repetição maçante das informações, mesmo que falsas, leva à familiaridade, e a familiaridade leva à aceitação por parte dos receptores. Por fim, os investigados ainda fizeram uso de pessoas com posição de autoridade perante o público-alvo, para dar uma falsa credibilidade às narrativas propagadas", afirma o relatório, corretamente.

O bolsonarismo havia passado da primeira realidade para a segunda — a das fantasias —, como eu, Felipe, expliquei na Crusoé em 2020, no artigo “Dom Bolsonaro del Centrão”.

O STF, então, aproveitou para dar ares de legitimidade, e até de heroísmo democrático, a um inquérito nascido para destruir a Lava Jato e censurar a imprensa. A partir de maio daquele ano, Moraes determinou operações contra blogueiros e empresários bolsonaristas — e o resto é história.

De um lado, um relator superpoderoso, incumbido sem sorteio de editar o debate público da maneira mais conveniente à Corte; do outro, reacionários aloprados posando de mártires das liberdades públicas e privadas. Tinha tudo para dar errado. E deu.

Mas poderia ter dado mais errado ainda, se não fossem dois homens pouco conhecidos, que, ao contrário de ambos os lados ainda beligerantes, nunca fizeram a menor questão de posar de salvadores da suposta democracia brasileira.

A recusa histórica

Nascido em 31 de julho de 1957, o general Marco Antônio Freire Gomes, durante o governo Bolsonaro, foi Comandante Militar do Nordeste, Comandante de Operações Terrestres e Comandante do Exército, exercendo este último cargo de março a dezembro de 2022.

Nascido em 5 de setembro de 1960, o tenente brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Jr., durante o governo Bolsonaro, foi chefe de Operações Conjuntas do Ministério da Defesa, Comandante Geral de Apoio da Aeronáutica e Comandante da Aeronáutica, exercendo este último cargo de abril de 2021 a janeiro de 2023.

Freire Gomes e Baptista Jr. resistiram a pressões de Bolsonaro, militares e ativistas para que anuíssem com um golpe de Estado travestido de medida constitucional, como Garantia da Lei e da Ordem (GLO), Estado de Defesa, Estado de Sítio, ou intervenção militar por interpretação “anômala”, como diz a PF, do artigo 142.

Os relatórios são fartos em evidências neste sentido, porque, além de ambos terem confirmado em depoimento a postura adotada em reuniões realizadas após o segundo turno de 2022, policiais encontraram as minutas de decreto apresentadas pelo então presidente, bem como mensagens de investigados atestando e lamentando a recusa de anuência, bem como determinando retaliação.

Eis um resumo:

Em 1º de novembro daquele ano, Baptista Jr. foi uma das autoridades que, segundo ele, “expuseram” a Bolsonaro “que não tinha ocorrido fraudes nas eleições”; “que todos os testes realizados não constataram qualquer irregularidade e que era preciso reconhecer o resultado”, “com o objetivo de acalmar o país”.

O então presidente “perguntou ao então AGU [advogado-geral da União] se haveria algum ato que se poderia fazer”, mas “Bruno Bianco expôs que as eleições transcorreram de forma legal” e “que não haveria alternativa jurídica”.

O então comandante da Aeronáutica “achou que o ambiente estava controlado, que não haveria qualquer tentativa de reverter o resultado das eleições”, mas, em 10 de novembro, um dia após a entrega do Relatório de Fiscalização do Sistema Eletrônico de Votação, feito por militares da Aeronáutica, veio um sinal em sentido contrário.

O Ministério da Defesa divulgou uma nota que manteve no ar a possibilidade de fraude eleitoral, apesar de nenhuma ter sido encontrada: "embora [o Relatório] não tenha apontado também não excluiu a possibilidade de existência de fraude ou inconsistência nas urnas eletrônicas e no processo eleitoral”.

Baptista Jr. disse à PF que “não foi consultado sobre a divulgação da nota”.

No dia seguinte, 11 de novembro, os comandantes das Forças Armadas divulgaram a sua própria carta, intitulada “Às Instituições e ao Povo Brasileiro”, reafirmando seu “compromisso” com a “democracia” e apontando o Congresso Nacional como o foro para se “corrigir possíveis arbitrariedades ou descaminhos autocráticos que possam colocar em risco o bem maior de nossa sociedade, qual seja, a sua Liberdade”.

No mesmo dia 11, no entanto, o então ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, encaminhou para o então comandante do Exército, Freire Gomes, um áudio com interpretação distorcida da carta, destacando a importância dela como “respaldo” para manutenção e intensificação das manifestações contra o resultado da eleição, até para deslocá-las à Praça dos Três Poderes, como ocorreria em 8 de janeiro.

“E aí o medo deles é retaliação por parte do Alexandre Moraes. Então, no entendimento deles, essa carta significa que as forças armadas vão garantir a segurança deles. Manifestação pacífica é livre. Então, se eles forem lá e forem presos as Forças Armadas vão garantir a segurança deles", acrescentou Cid.

Freire Gomes disse à PF que “tal interpretação foi dada de forma equivocada”; que “o objetivo era demonstrar que as manifestações não deveriam ocorrer em frente às instalações militares e sim no âmbito do Poder Legislativo”.

Em 14 de novembro, Bolsonaro entregou a Baptista Jr. a versão impressa do “estudo” do Instituto Voto Legal - IVL que embasaria o pedido do PL, partido do então presidente, feito no dia 22 de novembro, para anulação dos votos.

O documento apresentava a narrativa disseminada pelo argentino Fernando Cerimedo em live de 4 de novembro sobre “fraude”, mas, ao ler o relatório, o então comandante da Aeronáutica ressaltou a Bolsonaro “que o documento estava mal redigido e com vários erros técnicos e se tratava de um sofisma”, ou seja, um raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade.

Mensagens encontradas pela PF também mostraram que Mauro Cid confessou, com risadas, que “nosso pessoal que fez” uma publicação na internet que serviu de base ao “argelino” [sic], cujo sistema de nuvem ainda era abastecido por um contato militar do então ajudante de ordens.

Em 6 de dezembro, Mario Fernandes, então secretário da Presidência e interlocutor dos manifestantes acampados em frente ao quartel-general do Exército, imprimiu novamente no Palácio do Planalto o planejamento "Punhal Verde e Amarelo", que previa ações armadas, com possíveis disparos ou envenenamento, contra Alexandre de Moraes, Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin.

Fernandes já havia criado e impresso o documento em 9 de novembro e vinha supervisionando o monitoramento do ministro do STF com outros militares de forças especiais, os “kids pretos”, mas, no dia 6 de dezembro, Bolsonaro, Mauro Cid e seu comparsa Rafael de Oliveira estavam ao mesmo tempo no Palácio, como indicou o rastreamento de mensagens e celulares.

Em 7 de dezembro, Bolsonaro reuniu os comandantes do Exército, Freire Gomes, e da Marinha, Almir Garnier, além do ministro da Defesa, Paulo Sérgio de Oliveira, e apresentou uma minuta de decreto para consumar um golpe com ares de legitimidade, impondo Estado de Sítio e, “como ato contínuo”, operação de GLO.

Os 'considerandos’, que seriam os ‘fundamentos jurídicos’, foram lidos por Filipe Martins, então assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, de acordo com Freire Gomes.

O general relatou “que sempre deixou evidenciado” ao então presidente que “o Exército não participaria da implementação desses institutos jurídicos visando reverter o processo eleitoral”.

Em 8 de dezembro, a deputada federal bolsonarista Carla Zambelli interpelou Baptista Jr. com a seguinte indagação, após a formatura dos aspirantes à oficial da Força Aérea Brasileira (FAB), na cidade de Pirassununga/SP:

"Brigadeiro, o senhor não pode deixar o presidente Bolsonaro na mão.”

O então comandante da Aeronáutica respondeu:

"Deputada, entendi o que a senhora está falando e não admito que a senhora proponha qualquer ilegalidade.”

Baptista Jr. ainda relatou à PF que, em 9 de dezembro, quando viu Bolsonaro dizer a apoiadores, ao lado do general Walter Braga Netto, que “quem decide para onde vai as Forças Armadas são vocês!”, “começou a ficar preocupado, pois entendeu que iriam continuar a tentar uma ruptura institucional”.

No dia seguinte, 10, o então comandante da Força Aérea Brasileira, “com o intuito de reforçar a posição” de “que haveria uma transição democrática e pacífica no âmbito da FAB”, parabenizou no X a indicação de seu sucessor, feita pelo presidente eleito, Lula.

Baptista Jr., em outras reuniões, “tentava demover” Bolsonaro “de utilizar os referidos institutos jurídicos” e “deixou claro” que “tais institutos não serviriam” para mantê-lo “no poder após 1° de janeiro de 2023”. Ele contou que o então presidente “ficava assustado”.

Na reunião do dia 14 de dezembro, quando Paulo Sérgio de Oliveira disse que gostaria de apresentar aos comandantes uma minuta, Baptista Jr. questionou o ministro da Defesa:

"Esse documento prevê a não assunção do cargo pelo novo presidente eleito?"

Paulo Sérgio “ficou calado” e o comandante “entendeu que haveria uma ordem que impediria a posse do novo governo eleito” e disse que “não admitiria sequer receber esse documento”, que “a Força Aérea não admitiria tal hipótese (Golpe de Estado)”; e que “retirou-se da sala”.

O brigadeiro ainda confirmou que, depois de Bolsonaro “aventar a hipótese de atentar contra o regime democrático, por meio de algum instituto previsto na Constituição (GLO ou Estado de Defesa ou Estado de Sítio)”, o então comandante do Exército “afirmou que caso tentasse tal ato teria que prender o Presidente”.

No mesmo dia 14 de dezembro, o general Walter Braga Netto, vice na chapa presidencial derrotada, e o capitão reformado Ailton Gonçalves Moraes Barros, eleito em 2022 deputado estadual suplente do Rio de Janeiro dizendo-se “o 01 do Bolsonaro”, passaram “a realizar ataques” a Freire Gomes “por uma suposta postura de ‘Omissão’ e ‘Indecisão’”. Fizeram isso em diálogos depois identificados pela PF no celular de Ailton.

Braga Netto afirmou: “a culpa pelo que está acontecendo e acontecerá é do GEN FREIRE GOMES. Omissão e indecisão não cabem a um combatente”; “Oferece a cabeça dele. Cagão”.

Ailton completou: "Se FG tiver fora mesmo. Será devidamente implodido e conhecerá o inferno astral".

Braga Netto também encaminhou a Ailton uma foto da frente da casa de Freire Gomes com manifestantes pressionando pela anuência dele.

Freire Gomes confirmou à PF que as falas de Braga Netto se devem ao fato de ele ter se “negado a anuir com o plano de ruptura institucional”.

Falou ainda que “recebia ataques pelas mídias sociais, principalmente por meio da pessoa de PAULO FIGUEIREDO”, blogueiro então atuante em emissora de rádio e TV que faturou mais de 18 milhões de reais em verbas de publicidade do governo Bolsonaro.

Baptista Jr. também disse ter recebido ataques de Figueiredo, “dentre outros”, “recebendo o rótulo de ‘melancia’, ‘traidor da pátria’ etc.”.

Em 15 de dezembro, Braga Netto orientou Ailton Barros: "Senta o pau no Batista Júnior… Inferniza a vida dele e da família". Também orientou o destinatário a elogiar Almir Garnier.

Baptista Jr. confirmou que ele e sua família sofreram diversos ataques, pressões e hostilidades de apoiadores de Bolsonaro “para que a FAB anuísse com a ruptura democrática”.

No mesmo dia 15 de dezembro, Freire Gomes visitou Bolsonaro, frustrando de vez os reacionários aloprados.

Como concluiu a PF, “apesar de todas as pressões realizadas, o general FREIRE GOMES e a maioria do Alto Comando do Exército mantiveram a posição institucional, não aderindo ao golpe de Estado. Tal fato não gerou confiança suficiente para o grupo criminoso avançar na consumação do ato final e, por isso, o então presidente da República JAIR BOLSONARO, apesar de estar com o decreto pronto, não o assinou. Com isso, a ação clandestina para prender/executar o ministro ALEXANDRE DE MORAES foi ‘abortada’.”

Sem estardalhaço, portanto, os homens que efetivamente barraram o golpe não salvaram apenas o regime supostamente democrático brasileiro, mas também alguns de seus autoproclamados defensores.

Essa é a história que o STF deveria contar.

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quinta-feira, 28 de novembro de 2024

O golpismo dos malucos e o golpismo dos profissionais

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de novembro de 2024

O golpismo dos malucos e o golpismo dos profissionais

Pacificar o pais, afinal, não é fechar os olhos para aqueles que tramavam nas sombras incendiá-lo para não deixar o poder. Guilherme Macalossi para a Gazeta do Povo:

As câmeras de segurança da Praça dos Três Poderes registraram para a história a imagem desesperada e patética de um extremista tentando, pelos meios que tinha, destruir o Supremo Tribunal Federal e, simbolicamente, a estrutura institucional do país. Francisco Wanderley Luiz, o Tio França, era o radical do golpismo na ponta, sem juízo e cheio das certezas que lhe foram inoculadas na cabeça. Devia se achar parte daquilo que Jair Bolsonaro descrevia como seu “exército”. E se propôs, ultrapassando qualquer limite, empreender uma “missão patriótica” em nome daquilo que muitos chamam distorcidamente de "defesa da liberdade”. Um mártir em nome da causa do golpismo, como outros tantos a protagonizar cenas de terror mundo afora.

Ainda que tenha dado cabo da própria vida e colocado a de terceiros em risco, Tio França era menos perigoso que outros agentes que tentaram fazer o mesmo golpismo, mas juntando a convicção e o “senso de dever” com o método e o treinamento de uma vida. Enquanto ele recorria a fogos de artifício e a explosivos improvisados, outros maquinaram e colocaram em prática ações de espionagem e estratégia militar com o objetivo de matar autoridades e líderes políticos eleitos. Nesse verdadeiro zeitgeist do golpismo que foi insuflado no Brasil nos últimos quatros anos, há os malucos e os profissionais.

Na última terça-feira, a Polícia Federal deflagrou uma operação para desbaratar uma organização criminosa que planejou impedir a posse de Lula. Cinco pessoas foram presas. O general de brigada Mário Fernandes (da reserva), o tenente-coronel Helio Ferreira Lima, os majores Rodrigo Bezerra Azevedo e Rafael Martins de Oliveira, (todos eles integrantes das Forças Especiais do Exército), e também o policial federal Wladimir Matos Soares.

Segundo a investigação “a organização se utilizou de elevado nível de conhecimento técnico-militar para planejar, coordenar e executar ações ilícitas nos meses de novembro e dezembro de 2022”. Além de impedir a posse do presidente eleito, o objetivo era assassiná-lo, junto com o então vice-presidente Geraldo Alckmin e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Alexandre de Moraes. Um gabinete de crise seria então instaurado de maneira a reestabelecer a ordem nacional.

Desde que caiu o sigilo da decisão de Alexandre de Moraes e tornou-se pública a conspirata dos envolvidos, já há quem esteja reciclando a tese dos “atos preparatórios” para isentá-los de qualquer responsabilidade. Como se nada tivesse ocorrido apenas porque a pretensão fora frustrada. De fato, conjecturar a prática de um crime não é punível, mas não está se falando apenas disso. Os agentes envolvidos montaram uma organização que já implementava ações objetivas com vistas a cumprir o objetivo de derrubar o sistema democrático, incluindo ai o monitoramento ilegal das autoridades e infiltração no esquema de segurança de Lula.

Há uma confusão deliberada aqui entre o crime de homicídio e o crime de tentativa de abolição do Estado de Direito. As mortes de Lula, Alckmin e Moraes não eram o fim em si mesmo, mas o meio para alcançar o objetivo verdadeiro: a usurpação do poder mediante uma série de outros atos decorrentes dos assassinatos. E sim, estamos a falar de uma série de ações que já estavam em curso, não de diletantismo ou de conjecturas.

O Brasil já conviveu demais com anistias e esquecimentos, muitas vezes com trágicas consequências para a própria democracia. Pacificar o pais, afinal, não é fechar os olhos para aqueles que tramavam nas sombras incendiá-lo para não deixar o poder.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Editorial do Estadão: "Bolsonaro nu"

Artigo e comentários compartilhados do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 28/11/2024

> Editorial do Estadão: Bolsonaro nu

O relatório final da Polícia Federal (PF) sobre a tentativa de golpe de Estado que teria sido urdida no seio do governo de Jair Bolsonaro para aferrá-lo ao poder decerto não surpreendeu quem acompanhou minimamente a vida pública do ex-presidente. Desde quando saiu do Exército em desonra, passando por uma frívola carreira parlamentar – que, se prestou para alguma coisa, foi para enriquecê-lo, além de sua família – até chegar à Presidência da República, Bolsonaro jamais traiu seu espírito golpista. De mau militar e mau deputado a mau presidente, foram quase 40 anos de exploração da insurreição e da infâmia como ativos políticos.

Este jornal, seguramente, não está surpreso com o que veio a público após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), levantar o sigilo sobre o referido relatório. Afinal, faz quase 25 anos que já sublinhávamos nesta página o vezo parasitário de Bolsonaro no Brasil pós-redemocratização, chamando-o pelo que é: um desqualificado que se serve das mesmas liberdades democráticas que sempre quis obliterar (ver o editorial Dejetos da democracia, 8/1/2000).

A rigor, ninguém precisava de um relatório policial de mais de 800 páginas para saber que Bolsonaro é um golpista inveterado. Quem já votou nele ao longo da vida pode alegar tudo, menos desconhecimento de sua índole destrutiva. Mas, para quem quiser, aí está o portentoso material reunido pela PF a encadear fatos e personagens com notável robustez, além de desnudar o espírito insurreto que jamais deixou de guiar o ex-presidente ao longo de sua trajetória.

Segundo a PF, Bolsonaro “planejou, atuou e teve domínio de forma direta e efetiva” das tramoias para impedir a posse do presidente Lula da Silva, o que teria incluído até um suposto plano para assassiná-lo, entre outras autoridades. E não só entre novembro e dezembro de 2022, mas durante todo o mandato – que, recorde-se, começou com a disseminação de mentiras sobre a suposta “fragilidade” das urnas eletrônicas. Ainda de acordo com a PF, essa desabrida campanha de desqualificação do sistema eleitoral já era parte do plano golpista de Bolsonaro para se insurgir contra um resultado nas urnas que não fosse a sua reeleição, contando que a desconfiança que semeou entre milhões de brasileiros poderia lhe ser útil no futuro.

É fundamental frisar que ainda se está em fase de inquérito policial. De modo que o contraditório e a ampla defesa só estarão plenamente garantidos aos 37 indiciados, como é próprio do Estado Democrático de Direito, mais à frente, vale dizer, se e quando a Procuradoria-Geral da República (i) oferecer denúncia contra eles, (ii) as acusações forem aceitas pelo STF e (iii) o caso, então, entrar na fase judicial propriamente dita. Entretanto, as eventuais provas que poderão ser apresentadas à Justiça pelo parquet, obviamente, serão decisivas apenas, por assim dizer, para o destino penal de Bolsonaro. Já sobre seu golpismo não há prova mais cabal de que se trata de um inimigo figadal da democracia do que seu próprio passado.

Nesse sentido, é estarrecedor ainda haver no seio de uma sociedade que se pretende livre e democrática quem admita a presença de alguém como Bolsonaro na vida política. Ou pior, que enxergue como “democrata”, “patriota”, “vítima do sistema” ou baboseira que o valha um sujeito de quinta categoria que já defendeu o fechamento do Congresso, lamentou o “baixo número” de concidadãos torturados e mortos nos porões da ditadura militar, pregou o fuzilamento do presidente Fernando Henrique Cardoso e trata adversários políticos como inimigos a serem eliminados, inclusive fisicamente. Ademais, Bolsonaro jamais desestimulou as manifestações de teor golpista realizadas em seu nome, como os acampamentos na frente de quartéis País afora. Tudo indica que não o fez para falsear um “clamor popular” pelo golpe e, assim, pressionar as Forças Armadas a apoiá-lo na intentona – o que, para o bem do Brasil, não ocorreu.

A Justiça, primeiro, e a História, depois, hão de ser implacáveis com Bolsonaro e todos os que flertaram com a destruição da democracia no Brasil.

> COMENTÁRIOS

AHTquinta-feira, novembro 28, 2024 

Ao ler o editorial do Estadão intitulado “Bolsonaro nu”, me deparei com a citação de outro editorial, publicado em 08 de janeiro de 2000, na página 3 do O Estado de S. Paulo.

No acervo do Estadão, localizei esse editorial, fiz o download da página (arquivo PDF) e tentei convertê-la para o Word. No entanto, o resultado não atendeu às minhas expectativas. Então, decidi copiar o conteúdo, digitando diretamente no Word. Vide, a seguir:

AHTquinta-feira, novembro 28, 2024 

>> Dejetos da Democracia

Há quem diga, com o maior sarcasmo, que o deputado federal e capitão da reserva Jair Bolsonaro presta um relevante serviço à Democracia, porque faz lembrar os piores temos em que os militares estavam no poder – exercendo, sob este aspecto, um papel didático para as novas gerações.

Sarcasmos à parte, os militares brasileiros não merecem essa desmoralizante “representação” congressual. Até porque esse irresponsável congressista, de fato, não representa ninguém, a não ser, talvez, alguns adeptos de um folclórico e anacrônico radicalismo de direita. É claro, que ele, jamais poderá falar pelos militares, o que não o impede confundir os desavisados e dar a impressão de que exerce, no Parlamento esse tipo de representação.

Ao apregoar, pela segunda vez (na primeira referiu-se ao que os militares “deveriam ter feito” com Fernando Henrique Cardoso) nada menos do que o fuzilamento do presidente da República, o sr. Bolsonaro apenas se mostrou coerente, em relação ao fulcro de sua carreira política, que, de forma inacreditável, o faz exercer o segundo mandato no Parlamento federal.

Talvez muitos não se recordem de que esse cidadão se tornou publicamente conhecido quando divulgou seu plano de explodir o sistema de abastecimento de água do Rio de Janeiro, em protesto contra a falta de reajuste nos ganhos de seus colegas militares.

Se a proposta de fuzilamento do presidente da República não é um casso de absoluta falta de decoro parlamentar, é difícil imaginar o que o seja. Disse bem o líder do PT na Câmara, deputado José Genoíno: “Direito de opinião não pode ser usado para pregar assassinato.”

Neste sentido é mais do que oportuna uma punição drástica para quem não só ultrapassa, reiteradamente, os limites do decoro parlamentar, como revela personalidade – seja ou não psicopática – de toda incompatível com a representação legislativa, a ponto de já ter defendido sem nenhuma sutileza, o fechamento puro e simples do Congresso. Vale dizer, Bolsonaro é um parlamentar que tem se valido das liberdades democráticas para tentar eliminá-las.

(Em destaque, em quadro entre parágrafos: O deputado Jair Bolsonaro usa a democracia que quer destruir)

Agora, se a punição decidida for a mera suspensão do mandato do sr. Bolsonaro, mesmo que por longo período, a Câmara dos Deputados estará fazendo, exatamente, o que mais deseja esse elemento, que busca consolidar sua imagem de “herói” e “vítima” incompreendida, defensor destemido dos valores da caserna.

É evidente que os militares deveriam ser os maiores interessados na cassação de quem, até agora, só desmoralizou suas reivindicações. Mas é o Legislativo federal que deve cuidar da própria imagem, que depende do comportamento de seus membros.

Então, a única solução é cassar logo o mandato desse deputado por manifesta e notória quebra de decoro, afastando-o da vida política para a qual não está preparado.

Ao contrário dos regimes autoritários, as democracias se caracterizam pela plena liberdade de expressão e heterogeneidade, praticamente sem limites, da representação parlamentar. Essa liberdade e essa heterogeneidade fazem com que, muitas vezes, se tenha de tolerar, em nome da Democracia, atitudes abusivas, se não absurdas.

Não se considere, porém, que a Casa Legislativa de uma democracia deva ser tolerante, obrigada a dar abrigo, a quem apregoa a extrema intolerância. Figuras dessa espécie, que envergonham a instituição parlamentar, em qualquer lugar do mundo, dela tem que ser expelidas num processo natural de limpeza, pois a Democracia também tem que saber administrar, com tranquilidade, o escoamento de seus dejetos.

AHTquinta-feira, novembro 28, 2024 1:59:00 PM

>>> Correção (digitação), nesses dois parágrafos:

Há quem diga, com o maior sarcasmo, que o deputado federal e capitão da reserva Jair Bolsonaro presta um relevante serviço à Democracia, porque faz lembrar os piores tempos em que os militares estavam no poder – exercendo, sob este aspecto, um papel didático para as novas gerações.

Se a proposta de fuzilamento do presidente da República não é um caso de absoluta falta de decoro parlamentar, é difícil imaginar o que o seja. Disse bem o líder do PT na Câmara, deputado José Genoíno: “Direito de opinião não pode ser usado para pregar assassinato.”

Texto de artigo e comentários reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

sexta-feira, 22 de março de 2024

Áudios de Mauro Cid não anulam investigação e podem devolvê-lo à cadeia

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de março de 2024

Áudios de Mauro Cid não anulam investigação e podem devolvê-lo à cadeia

Suas declarações são contraproducentes para sua defesa e inúteis no esforço de anular os inquéritos em curso. Guilherme Macalossi para a Gazeta do Povo:

Seria ingenuidade imaginar que os áudios de Mauro Cid com acusações contra a Polícia Federal e ataques ao ministro Alexandre de Moraes constituam um mero “vazamento”. O teor das falas parece calculado para tentar anular sua própria delação premiada, talvez com o objetivo final de atrapalhar as várias investigações que envolvem ele e outras figuras do governo Bolsonaro, principalmente o ex-presidente. Se, de fato, foi isso que aconteceu – e é uma hipótese que não pode ser descartada –, o efeito será negativo apenas para ele, que pode ter a suspensão dos efeitos benéficos de sua colaboração, como a uma nova decretação de prisão.

Ciente do provável prejuízo que a matéria da revista Veja pode acarretar ao ex-ajudante de ordens, a defesa de Cid divulgou nota oficial classificando seu conteúdo como possivelmente “clandestino” e que os supostos diálogos “em nenhum momento coloca em xeque a independência, funcionalidade e honestidade da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República ou do Supremo Tribunal Federal na condução dos inquéritos em que é investigado e colaborador”.

O efeito político, entretanto, parece já ter sido atingido. Bolsonaristas já estão usando os áudios como base para reforçar seu posicionamento de que o STF promove uma perseguição contra a cúpula do antigo governo, e acham que com isso se evidencia a ilegalidade de todos os procedimentos adotados nas investigações, o que comprometeria sua continuidade. Mas a gritaria é precipitada.

Experiente que é, o advogado Cezar Bitencourt, que representa Cid, sabe muito bem que a eventual anulação da delação de seu cliente não encerraria as apurações. Há outros elementos constantes que ampliaram o leque de provas e indícios, e que não se sustentam nem dependem exclusivamente dos depoimentos do militar para continuar.

A Operação Tempus Veritatis, por exemplo, tem mais de mil páginas de relatório policial. O celular de Cid, apreendido antes de ele fazer o acordo de delação, subsidiou as investigações com áudios, prints, trocas de mensagens e outros elementos que ajudaram a materializar diversas acusações que não seriam afetadas caso ocorresse uma anulação. E esta é apenas uma das muitas fontes de informação, inclusive com outros depoimentos até mais relevantes, como o do general Freire Gomes, que deu detalhes dos encontros no Planalto com a apresentação da minuta golpista.

Se de fato houve coação da Polícia Federal, Cid terá de provar. Mas esse não parece ser o desejo de seu advogado, que tratou de contemporizá-lo e, sim, também desmenti-lo. Se ele faz jogo duplo, se pretende com isso passar um recado para outros implicados na investigação, se quer obstruir a Justiça, o fato é que suas declarações são contraproducentes para sua defesa e inúteis no esforço de anular os inquéritos em curso. Desesperado, Cid apenas dança na beira do abismo, e da cadeia.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 16 de março de 2024

A palavra do general contra Jair Bolsonaro

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 15 de março de 2024

A palavra do general contra Jair Bolsonaro

Fica cada vez mais evidente, com os detalhes revelados no aprofundamento das investigações, que a tal minuta não era um documento banal entregue fortuitamente. Guilherme Macalossi para a Gazeta do Povo:

A delação premiada de Mauro Cid não é mais o único testemunho direto de um membro do círculo íntimo de poder a relatar a tramoia golpista que se desenhava no Palácio do Planalto no curso de 2022. O depoimento do ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro abriu uma verdadeira caixa de Pandora, na medida em que outros que personagens relevantes citados por ele passaram a corroborá-lo, inclusive das próprias Forças Armadas. As declarações mais relevantes e graves são as do general Freire Gomes, ninguém menos do que o então comandante do Exército.

Em sua coluna em O Globo, Bela Megale trás detalhes do que disse o militar para a Polícia Federal em depoimento extenso que levou cerca de 7 horas. Segundo a jornalista, Freire Gomes, que foi citado na delação de Cid, afirmou que Bolsonaro apresentou ao menos três versões diferentes de minutas com ações que poderiam levar a uma ruptura da ordem democrática. A insistência em discutir o assunto e tomar uma medida extrema, levou o general a advertir o então presidente com uma possível ordem de prisão.

Na manifestação do dia 25 de fevereiro, Bolsonaro admitiu a existência da minuta. “Agora o golpe é porque tem uma minuta de um decreto de Estado de Defesa. Golpe usando a Constituição? Tenham santa paciência”, disse para os apoiadores. Ainda que ele tenha buscado relativizá-la como um ato legítimo da Presidência, sua a defesa foi a campo para tentar contornar o que poderia agravar sua situação na Justiça. “Declaração do presidente foi em cima da minuta que ele só teve conhecimento em outubro de 2023. Não reforça em nada a investigação, porque foi a primeira minuta que ele viu. Não tinha visto antes”, declarou seu advogado para a Folha de São Paulo. Tanto da delação de Cid quanto o depoimento do general Freire Gomes contradizem essa versão.

Os defensores da tese dos “atos preparatórios” acham que tudo isso não passou de abstração. Que um presidente pode sair a reunir generais para estudar o que fazer com as instituições, confabular meios para depor integrantes de outros poderes e até prendê-los, usar ardis jurídicos de forma a legitimar sua permanência no poder ou anular na canetada o resultado da eleição.

Ainda que o Estado de Defesa, a Garantia da Lei e da Ordem e o Estado de Sítio sejam institutos jurídicos, todos têm regras de aplicação. A existência deles prevista na Constituição não é salvo-conduto para o uso indevido. A minuta identificada na casa de Torres era uma excrescência legal que colocava o Poder Judiciário sob as ordens dos militares.

Fica cada vez mais evidente, com os detalhes revelados no aprofundamento das investigações, que a tal minuta não era um documento banal entregue fortuitamente e separado para o descarte, como alegou a defesa do ex-ministro da Justiça. Sua materialização foi elaborada minuciosamente, inclusive em reuniões com a presença de membros da alta cúpula das Forças Armadas. Só não foi editado por falta de apoio da Aeronáutica e, mais importante, do Exército. Mas não faltou gente a buscar, por todos os meios, uma forma de viabilizá-lo na prática. É a palavra do general.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Boletim do Professor Villa > Depoimento do Gal. sobre a ameaça de golpe

sexta-feira, 8 de março de 2024

'O Golpe Tabajara', por Jorge Santana

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 7 de março de 2024

O Golpe Tabajara
Jorge Santana*

Em plena terceira década do século XXI, parecia não fazer sentido algum acreditar na viabilidade de um golpe militar no Brasil, mesmo considerando que os primeiros 75 anos da história republicana foram marcados por sucessivos golpes de estado, mais precisamente sete, todos eles com marcante participação dos militares.

Acreditava-se que um golpe violento como o de 64 não prosperaria por diversas razões, dentre as quais: o líder do movimento, Bolsonaro, contava com um “invejável” índice de reprovação popular que chegou a ultrapassar a barreira dos 60%; a grande mídia tinha se tornado, majoritariamente, antibolsonarista; e o grande capital já havia desembarcado da aventura ultraliberal errática, sobrando apenas o apoio da parte mais retrógrada e menos inteligente do empresariado, sobretudo do agronegócio.

Não sendo viável esse anacrônico golpe militar, permanecia a preocupação diante dos delírios autoritários de Bolsonaro e seus devotos, alertados que éramos pelos ensinamentos de dois conceituados professores de Harvard – Steven Levitsky e Daniel Ziblatt -, em seu best-seller “Como as democracias morrem”.

O mais importante alerta do livro é o seguinte: a democracia, atualmente, não termina com uma ruptura violenta nos moldes de um golpe militar. Agora, a escalada do autoritarismo se dá com o enfraquecimento lento e constante de instituições críticas, como o judiciário e a imprensa, e a erosão gradual de normas políticas de longa data, leia-se o sistema de freios e contrapesos que garante a harmonia entre os poderes.

Didaticamente, o livro apresenta os quatro principais indicadores de comportamento autoritário: rejeição das regras democráticas do jogo; negação da legitimidade dos oponentes políticos; tolerância ou encorajamento à violência; e propensão a restringir liberdades civis de oponentes, inclusive a mídia.

Impressionava constatar que o bolsonarismo seguia fielmente esse script, ou seja, flertava com o golpe militar e, ao mesmo tempo, deslizava gradualmente para o autoritarismo, diga-se de passagem com a conivência de uma maioria parlamentar bem alimentada com generosos nacos de poder e com o imoral orçamento secreto.

Em meados de 2022, já cientes da iminente derrota no pleito que se avizinhava, a caterva palaciana avançou no desenho do golpe, na expectativa de atacar as instituições antes das eleições, mas não reuniu força suficiente. Findo o pleito, agora derrotados nas urnas, retomaram o intento, desta feita manipulando fanáticos de mentes fracas que fecharam rodovias, acamparam em portas de quartéis, cantaram o Hino Nacional para pneus, imploraram apoio de ETs, promoveram desordem no dia da diplomação do presidente eleito e, por um triz, não explodiram o aeroporto de Brasília, naquilo que poderia vir a ser o mais grave atentado terrorista jamais ocorrido no país.

De nada adiantou, mas eles não desistiram. Inflamados pela ordem subliminar (e pusilânime) dos mandantes, incentivados por ventríloquos que utilizavam (e seguem utilizando) as redes sociais como palco e patrocinados por empresários que optaram por delinquir, a turba protagonizou a Intentona Bolsonarista de 8 de Janeiro de 2023, um espetáculo deprimente, que serviu para reafirmar o insuperável grau de estupidez do bolsonarismo.

Como vimos antes, a extrema-direita do resto do mundo tem como estratégia promover a erosão da democracia não por meio de golpes militares ou revoluções abruptas, mas por um processo gradual e, algumas vezes, imperceptível, onde líderes eleitos minam deliberadamente as instituições democráticas. Os regimes autocráticos da Turquia (Recep Erdogan), Hungria (Viktor Oban) e Rússia (Vladimir Putin) são bons (ou melhor, maus) exemplos.

Derrotado na busca pela reeleição, restou ao bolsonarismo a tentativa de golpe, uma verdadeira Operação Tabajara, sem chance de durar mais do que alguns dias, atestando o incomparável grau de obtusidade do líder e daqueles que abandonaram supostas reputações para servir a um projeto antinacional e antipovo.

No plano externo, retaliações internacionais, políticas e econômicas, trariam prejuízos inestimáveis ao comércio exterior e, por via de consequência, ao conjunto da economia. No interno, mesmo com prisões atabalhoadas, as instituições e a imprensa não se curvariam facilmente, sobretudo porque a maioria do povo brasileiro, que acabara de optar pelo fim da tragédia bolsonarista, jamais aceitaria que fosse devolvida da lata de lixo da história.

Essa tentativa de destruir a nossa jovem democracia impõe que resgatemos lições do passado. Em grande medida, o que se viu agora não teria acontecido se no processo de redemocratização que pôs fim à abjeta Ditadura Militar não tivesse havido a inaceitável “anistia ampla, geral e irrestrita”, que serviu para encobrir e condenar ao esquecimento a perversão criminosa daquele regime.

Atentar contra a democracia é crime de lesa pátria que não pode ser atenuado, por isso as penas precisam ser severas, mais ainda para os mandantes – com destaque para o maior beneficiário -, para os propagadores e para os financiadores. Cumpre não esquecer que este é um dos muitos crimes cometidos no desgoverno bolsonarista, um deles de gravidade semelhante: a conduta delituosa que culminou com centenas de milhares de vidas perdidas para a covid-19, por ação e omissão intencionais, fartamente reveladas na CPI da Pandemia.

Por tudo isso, a palavra de ordem tem que ser SEM ANISTIA!

*Ativista pró-democracia.

Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias com br

quinta-feira, 7 de março de 2024

A montanha pariu um rato

Pesquisa Quest: 47% dizem que Bolsonaro participou da trama do golpe

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 1 de março de 2024

A montanha pariu um rato

A expressão do título é de uma história atribuída a Esopo, que não aparece em sua obra, mas na Arte Poética de Horácio, como pequena história entre as fábulas de Fedro. Ora, se parece muito complicado para um escriba rudimentar, imagina nas cabeças ocas de Bolsonaro, Malafaia e Michelle, sem falar nos demais descerebrados do ato do dia 25 de fevereiro, domingo passado.

Segundo os escritos, uma montanha estava prestes a dar à luz e gemia de uma forma fora do normal. Os barulhos geraram grandes expectativas nas cercanias, mas no final, ela acabou por dar à luz um rato.

Moral da história: essa fábula foi escrita para todos aqueles que após proferirem muitas ameaças, não fazem nada que produzam o efeito propagandeado. E foi isso o que aconteceu na tarde de domingo 25 de fevereiro na Avenida Paulista na cidade de São Paulo.

Em resposta, o coeso colegiado de ministros do Supremo Tribunal Federal disse solenemente: o ato da Avenida Paulista não muda em nada se Jair Bolsonaro tiver que ser preso. Eis aí o rato!

Teve muita gente no ato? Teve sim, senhor! Segundo o Monitor do Debate Político no Meio Digital da Universidade de São Paulo, que não é da esfera do Governo Federal, tinha 185 mil pessoas, o que dá para acreditar pelas diversas imagens divulgadas no decorrer do evento.

Então cabe a pergunta: quem era aquela gente? Segundo a mesma fonte de checagem, a USP, 75% eram brancos, sendo 41% homens com ensino superior e católicos, com renda muito superior à faixa específica da massa trabalhadora, 88% deles acreditam que Bolsonaro venceu a eleição de 2022 e 94% acreditam que as perseguições a Jair Bolsonaro caracterizam uma ditadura. Ufa!

No meio da massa de manifestantes, tinham pessoas de outros Estados, tias do zap, que exibiam bandeiras com estrela de 5 pontas como se fossem de Israel e diziam defender o país porque o povo de lá é cristão e que o presidente Lula agrediu todos os judeus.

Ainda, segundo o Monitor da USP, a massa da manifestação era de eleitores bastante radicalizados de Bolsonaro que defendiam que ele deveria ter dado um golpe utilizando uma GLO, que não sabiam exatamente o que significa ou invocado o artigo 142 da Constituição Federal em flagrante atestado de deficiência cognitiva.

No questionário da pesquisa feita simultaneamente, na pergunta “caso Bolsonaro não seja candidato em 2026, em quem o senhor ou a senhora votaria?” 61% disseram votar em Tarcísio de Freitas, atual governador de São Paulo; 19% em Michelle Bolsonaro e 7% em Romeu Zema, governador de Minas Gerais - todos presentes e no palanque.

Com a cena histórica de uma parte da massa cantando “Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, música proibida e autor preso na ditadura militar, cujos ídolos, como o assassino e torturador Brilhante Ustra, eles exaltam até os dias de hoje.

Fazendo comparativo das imagens de domingo com as convocadas em toda a programação das grades da Globo para derrubar Dilma Rousseff da Presidência da República, a chamada massa cheirosa, não se consegue identificar pessoas negras, o que caracteriza uma manifestação de supremacia branca.

Em vez de passos à frente dos radicais de direta, o que se viu em seguida foram recuos e fake news. Em verdade, a saída pelo recuo pode estar ligada ao telefonema de Fabrício Queiroz para Santini, ex-sócio de Flavio Bolsonaro nas lojas de chocolate, com ameaças veladas.

Ainda não dá para cantar vitória antecipada, como alertou o ministro Alexandre de Moraes, mas a pesquisa Quest soltada dois dias depois sinaliza a provável morte do rato.

O declínio já é visível nos números: 47% dizem que Bolsonaro participou da trama do golpe; 50% dizem que é justo que ele seja preso; 39% dizem que não é justo que ele seja preso, sinalizando que a boca do jacaré está abrindo!

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Articulista Rômulo Rodrigues é ex-operário e sindicalista aposentado. 

Texto e imagem reproduzidos do site: www jlpolitica com br