domingo, 8 de março de 2026

"Foi tudo pela democracia, não é mesmo?", por Fernando Schüler

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 7 de março de 2026

Foi tudo pela democracia, não é mesmo?

Se o episódio das mensagens de Vorcaro e Moraes não for investigado com rigor, e não com o truque de uma ‘nota explicativa’, podemos concluir que não somos um País sério. Fernando Schüler para o Estadão:

“Ilação mentirosa”, respondeu o ministro a Malu Gaspar, na revelação de seu papo, com direito ao “conseguiu bloquear?”, com Daniel Vorcaro. O ministro diz que não recebeu mensagem nenhuma. E que, pasmem, estão querendo “atacar o STF”. Quando li isto me deu um certo cansaço. Mas fui em frente. Malu Gaspar contra-atacou: mostrou os prints. O ministro não apenas aparece recebendo, como respondendo as mensagens. De forma que temos um problema: ou os prints da Malu são falsos, ou é falsa a explicação do ministro.

Cada um pode achar o que quiser. Meu ponto é apenas dizer o seguinte: se isto não for investigado com rigor, e não com o truque de uma “nota explicativa”, podemos concluir - definitivamente – que não somos um País sério.

A frase que mais intriga é meio longa, mas vale ser lida: “apagar dados do celular também indica uma consciência sobre a ilegalidade dos atos praticados pelo agente, na medida em que, se o indivíduo tivesse plena convicção de sua inocência, não teria motivo para eliminar registros que poderiam confirmar sua versão dos fatos”. Entenderam bem? Quem escreveu isso foi o ministro Moraes. Escreveu sobre as mensagens apagadas pela Débora dos Santos, a moça que cometeu o crime hediondo de escrever “perdeu mané”, com um batom vermelho, e condenada a 14 anos de prisão. O fato de que ela tenha apagado as mensagens era um ato de “desprezo pela Justiça e pela ordem pública”.

Vejam só. Agora consta que o ministro usava mensagens de visualização única em suas mensagens para Vorcaro. Exatamente para “eliminar registros”. Mas ok, é possível que as tais mensagens não existam. E que tudo de fato seja uma orquestração da mídia para “atacar o STF”. E logo a “democracia”. E sendo assim, é nosso jornalismo investigativo que precisa se reinventar. Só saberemos disso com uma investigação rigorosa. Coisa que também deveria ter sido feita a partir das denúncias de Eduardo Tagliaferro. O que, como todos sabemos, nunca aconteceu.

O fato é que um padrão se repete. Primeiro, nosso clássico “dois pesos e duas medidas”. O que vale para a Débora não vale para quem detém o poder. A perfeita cara do Brasil. Outro aspecto é retórico: o “querem atacar o STF”.

Ano após ano, depois de 2019, aceitamos a ideia de que os “excessos” do Supremo eram necessários à defesa da democracia. Por este raciocínio, era necessário censurar e bloquear as contas bancárias daqueles empresários do grupo de WhatsApp. Alguns deles por um “joinha”, em um papo-furado digital. Outros por coisa nenhuma. Tudo isso foi justificado, e continua sendo, à base de notas explicativas, como vimos esta semana, e sob a retórica oficial do “ataque” às instituições. O ponto é que talvez agora tenhamos ultrapassado um certo limite. E por aí, quem sabe, as coisas podem avançar um pouco.

O pecado original de todo este processo é a aceitação do poder fora da regra. A criação dos inquéritos, em 2019, é por óbvio um ponto de partida de todo este processo. Criou-se não apenas uma investigação sem prazo, sem fim e sem objeto definido. Criou-se um tipo de poder inovador em nosso edifício republicano. Um poder que opera à margem do sistema de freios e contrapesos.

O ponto aqui, para ser claro, é o seguinte: em uma democracia, não importa que a regra seja quebrada para censurar um humorista ou o presidente de uma associação, como a Unafisco, ou para ajudar um banqueiro prestes a ser preso.

A permissividade democrática é prima-irmã da permissividade ética. O que assistimos confirma uma antiga sabedoria republicana: os homens não são anjos (a expressão é de James Madison). E o poder sem limites leva à corrupção da democracia, e não à sua salvação.

A pergunta que interessa ao País: o poder sairá mais uma vez impune disso tudo? Alguém será responsabilizado por todo o abuso de poder praticado por aqui nos anos recentes? Sendo mais prático: haverá alguma denúncia, por parte da PGR, relativamente a algum ministro? O senador Davi Alcolumbre irá se mover para instalar a CPMI do Master no Congresso?

Em 2022, a presidência do Senado não instalava a CPI da Pandemia e o Supremo entrou em campo: mandou instalar, pois era um “direito da minoria”. Agora teria deixado de ser? O Supremo entrará em campo para mandar instalar a CPMI? Isso e coisas mais prosaicas: na próxima semana, quando a prisão de Vorcaro for julgada no Supremo, algum ministro que tem negócios conhecidos com o banqueiro irá se declarar suspeito para votar? Ou nem isso?

A pergunta, no fundo, é mais ampla: nos tornamos mesmo o País em que um poder simplesmente se encontra fora de qualquer hipótese de controle republicano? Confesso não saber responder a estas questões. Há certa indignação na sociedade. Isto é importante, mas não basta. Chegou a hora das instituições. Se nada acontecer, quem sabe a resposta seja dada nas eleições. Pensando com um certo realismo, a maior probabilidade é que seja exatamente isto que aconteça.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Questão de impeachment nos casos Toffoli e Moraes é pertinente, diz Giannetti.

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 8 de março de 2026

Questão de impeachment nos casos Toffoli e Moraes é pertinente, diz Giannetti.

Economista e filósofo diz que os casos que levam Toffoli e Moraes para o centro da crise do Banco Master são ‘da maior gravidade’. Entrevista ao Estadão:

As suspeitas sobre a proximidade dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli e Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro deixaram o economista e escritor Eduardo Giannetti “estarrecido”.

Integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL), Giannetti diz que os casos que levam Toffoli e Moraes para o centro da crise do Banco Master são “da maior gravidade”, o que, segundo ele, abre o debate sobre o impeachment dos dois ministros.

“Eu acho, na minha modesta opinião, que a questão do impeachment de ministro do Supremo é pertinente nesses dois casos”, afirma.

Em entrevista concedida ao Estadão, Giannetti elogia a atuação do Banco Central, que impediu a compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB), mas diz que a instituição também sai arranhada depois da revelação de que dirigentes do BC, incluindo Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização, teriam recebido uma mesada de Vorcaro para ajudar o Master a driblar a fiscalização feita pelo próprio órgão.

“Apesar disso, no balanço geral, eu acredito que o Banco Central cumpriu o seu papel, porque o esquema estava montado para jogar para o contribuinte o rombo produzido por essa gestão fraudulenta e temerária”, diz.

A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estadão.

Como o sr. avalia a resposta institucional do País à escalada da crise envolvendo o Banco Master?

A resposta óbvia é que tem de apurar e punir. O pior sinal seria a impunidade. Eu acho que as apurações e o trabalho da Polícia Federal estão sendo muito consistentes, corajosos. E o que chama muita atenção para quem observa é que o problema tenha precisado se agravar ao ponto a que chegou para que a coisa aflorasse. Demorou tempo demais para se tomar uma providência em relação ao que era um descalabro, quase certamente o maior escândalo e a maior fraude financeira da história do Brasil. E olha que a história do Brasil não é para amadores.

Uma coisa que eu acho que tem de ser melhor apurada, investigada é a seguinte: a imprensa alardeia muito que o rombo dos depósitos garantidos pelo Fundo Garantidor de Crédito é de R$ 40 bilhões. Esse é o volume total do que o Master captou oferecendo uma taxa de retorno muito acima do que o mercado pratica e dando para os investidores a falsa certeza ou a certeza de que não tinha risco porque estava garantido. Agora, não significa que houve uma perda de R$ 40 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito.

Por quê?

É fato que uma parte desse valor foi usada para comprar corruptos, uma parte desse valor provavelmente foi aplicada em ativos que perderam muito valor, mas nós estamos falando de R$ 40 bilhões. Por mais que você imagine que tenha havido desvio e que tenha havido perda financeira, não chega perto desse total. Portanto, a perda não é de R$ 40 bilhões. É muito menos que isso. O que está faltando saber é qual é o estado dos ativos que correspondem ao que o banco captou fazendo esse uso indevido da proteção que o fundo garante. É uma informação pública da maior relevância: de quanto existe de patrimônio que sobra, depois de toda a má utilização desse recurso que foi captado. É inimaginável uma perda de R$ 40 bilhões. Não é esse o volume real, porque existe uma contrapartida que está no banco e que pode e deve ser usada para o ressarcimento dos aplicadores.

A outra coisa que eu queria entender melhor também é o seguinte: qual é a remuneração das aplicações que o banco captou oferecendo 20%, 30% acima do CDI? Pelo que eu entendi, o que está sendo feito é o seguinte: até o momento da intervenção, estão garantindo o valor remunerado do que foi aplicado. A partir dali, parou a remuneração. Eu acho que é incorreto.

Por que é incorreto? Como deveria ser?

Eu acho que esse tipo de excesso de remuneração não pode ser sancionado na devolução. O correto, na minha opinião, seria alguma coisa como CDI, e ponto. E zero a partir do dia da intervenção. Mas eu acho que está incorreto você sancionar a extravagância dessa promessa dando para o aplicador o que foi prometido a ele. Não é um bom sinal. E eu acho que também os intermediadores desses fundos têm parte relevante de responsabilidade no que aconteceu.

Pode acabar estimulando ações similares como a do Master…

Não acredite em promessas muito extravagantes desse tipo, ainda por cima garantidas, sem risco. Não existe retorno sem risco. Isso não tem lógica. E, se o aplicador tem um retorno e é ressarcido integralmente, o sinal não é bom.

É um escândalo que tem o setor financeiro envolvido, o mundo político e arrasta o Judiciário. Qual é a falha do sistema que levou a esse escândalo tão grande?

Tem duas coisas diferentes. Uma foi o Banco Master explorar um erro de desenho no Fundo Garantidor de Crédito. É o moral hazard. O moral hazard é aquela situação: você compra um seguro contra roubo do seu carro, você não tranca mais a porta do carro e deixa o carro aberto. Isso é o moral hazard. Quer dizer, a existência do seguro altera o comportamento. Eles exploraram, de maneira oportunista e temerária ao extremo, uma falha de desenho do Fundo Garantidor de Crédito. Não há crime propriamente nisso. É temerário, acabou metendo os pés pelas mãos. Quebrou. A outra coisa é fraude. Eles criaram créditos que não existem, inclusive no consignado. E aí é crime. Essa é a parte do crime.

O esquema dele foi imaginar que ele (Vorcaro) poderia aliciar, junto aos Três Poderes, proteção — como agora sabemos. Proteção política no Legislativo, proteção jurídica no Judiciário e proteção técnica no Banco Central. E a grande novidade, e muito triste para todos nós, é saber que um corpo técnico de excelência, como é o corpo de carreira do Banco Central, tinha uma maçã podre.

E como o sr. acha que fica a credibilidade do Banco Central?

O Banco Central passou no teste de fogo, que foi impedir a venda do Master para o BRB, com uma pressão avassaladora vinda do Legislativo e do Judiciário. O Banco Central mostrou uma firmeza e uma independência que fazem justiça à sua função. Sai arranhado agora, no momento em que nós temos essa evidência de que possivelmente um diretor de fiscalização foi conivente e conseguiu, por algum tempo, mascarar a gravidade do problema financeiro que o banco já vinha enfrentando. Mas, apesar disso, no balanço geral, eu acredito que o Banco Central cumpriu o seu papel, porque o esquema estava montado para jogar para o contribuinte o rombo produzido por essa gestão fraudulenta e temerária.

E em relação ao Supremo?

Eu me confesso estarrecido. Primeiro, pelo fato de o ministro Toffoli ter aceito se tornar o relator, sendo sócio de uma empresa da família que recebeu um enorme aporte de venda de ativos para o banco. É inconcebível que isso aconteça. Ele negou o fato, depois foi desmentido pela revelação, e ele chamou para si a relatoria. Ele deveria ter imediatamente dito: “Eu não posso. Há conflito de interesse”. Isso é claro e cristalino. Fez muitas coisas mal explicadas no período em que ele foi relator. O outro fato é a esposa de um ministro do Supremo (Alexandre de Moraes) ser prestadora de serviço do Banco Master, recebendo uma quantia exorbitante, sem um objeto claro de qual é o serviço. E, agora, a revelação mais recente é o grau de proximidade pessoal entre o ministro Moraes e o ex-banqueiro Vorcaro, com muitos encontros, situações muito informais e algumas delas mal explicadas. São dois casos da maior gravidade. Eu acho, na minha modesta opinião, que a questão do impeachment de ministro do Supremo é pertinente nesses dois casos.

E como realizar esse tipo de debate de forma madura, dado que o País está polarizado e essa bandeira de impeachment do ministro do Supremo será uma das pautas da oposição na eleição?

Uma coisa foi o processo de 8 de janeiro, que, no meu entender, foi conduzido de maneira correta e necessária. Outra coisa é a descoberta de que alguns ministros que participaram daquilo estão envolvidos com um banco que se revelou ilegal, fora da lei. O problema é que não vão separar essas duas coisas. Todo o desejo da oposição vai ser misturá-las. Uma coisa não compromete a outra e não deveria, em princípio, ter nada com a outra. Acho que coloca como imprescindível a iniciativa do Fachin de ter um código de ética bem exigente para quem assume a responsabilidade de se tornar ministro do Supremo. Eu gostaria muito de ver isso prosperar e acho que se impõe nesse momento.

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André Mendonça: a esperança terrivelmente improvável do Brasil.

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 8 de março de 2026

André Mendonça: a esperança terrivelmente improvável do Brasil.

E a verdade é que, na situação em que estamos, nunca precisamos tanto de um herói. Um herói que não se assuma como tal, mas ainda assim herói. Paulo Polzonoff para a Gazeta do Povo:

“A linha que separa o bem e o mal passa pelo coração de todo ser humano.” (Aleksandr Solzhenitsyn)

De terrivelmente evangélico a terrivelmente covarde, André Mendonça é um personagem terrivelmente confuso no não menos confuso Brasil de 2026. E agora cabe a ele, Mendonça, com seu jeitinho de Tintim (não parece?), dar um jeito nesta zorra. Ou capitular mansamente, acomodando interesses – como é mais provável que aconteça.

Maldade minha, eu sei. É que acordei cínico. Acontece e o espantoso é que não aconteça com mais frequência. Ainda mais em se tratando de alguém, euzinho, que passa o dia consumindo notícias e mais notícias que às vezes, na verdade quase sempre, parecem não levar a lugar nenhum. Mas daqui a pouco já passa e o otimismo e a ingenuidade intencional voltam, você vai ver só.

Terrivelmente humano

Em dias assim, não me é difícil imaginar Daniel Vorcaro como um Joesley Batista mais bem-apessoado e talvez (estou sendo otimista) capaz de usar os plural corretamente. Quer apostar como daqui a dois anos ele, Vorcaro, estará sendo anunciado como presidente do Banco do Brasil ou ministro da Economia de um país latino-americano cujo nome começa com “B” e não é a Bolívia?

E não. Se isso acontecer, não vou dizer que André Mendonça tenha sido exatamente (e terrivelmente) culpado. Terrivelmente humano, sim. O que já é terrível o bastante... É que, não adianta. Essas coisas têm um jeito todo especial de se acomodar, ainda mais quando não há ninguém capaz de assumir o papel de autoridade moral incontestável nesse processo todo. A não ser que André Mendonça...

Mais santo do que guerreiro

Mas seria uma covardia terrivelmente covarde de minha parte exigir uma coragem terrivelmente corajosa de André Mendonça. Que não conheço pessoalmente (aliás, aguardo o convite), mas que pelo que fez nos últimos anos, assistindo pacientemente aos sucessivos abusos de seus colegas Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, me parece que estamos diante de um simplório e inofensivo burocrata, não de um herói.

E a verdade é que, na situação em que estamos, nunca precisamos tanto de um herói. Um herói que não se assuma como tal, mas ainda assim herói. Um herói mais para santo do que para guerreiro. Um herói que aja com base na sabedoria, e não na esperteza. Um herói que não pegue atalhos, mas que tenha noção do senso de urgência de uma sociedade sedenta por justiça. Esse herói te parece o ministro André Mendonça? Com todo o respeito, pois é.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 6 de março de 2026

Casal presidencial?

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 27 de fevereiro de 2026

Casal presidencial?

João Campos e Tabata Amaral mostram força política no casamento e se posicionam para substituir a esquerda lulista no futuro. Duda Teixeira e Wilson Lima para a Crusoé:

O casamento do prefeito de Recife, João Campos, com a deputada federal Tabata Amaral, ambos do PSB e com 32 anos, é, mais do que uma união de dois pombinhos risonhos e apaixonados.

Realizado em uma igrejinha na paradisíaca praia de Carneiros, em Pernambuco, o evento juntou duas personalidades com capital político próprio que, juntas, terão potencial ainda maior de influenciar nos rumos do país no futuro.

Em um país onde as mulheres costumam ganhar projeção na política após se tornarem primeiras-damas, a reboque do marido, Tabata se destaca por se casar já com força própria.

Ela foi eleita deputada federal em 2018 por São Paulo, com 264 mil votos.

Nasceu na Vila Missionária, bairro na periferia de São Paulo.

Filha de mãe diarista e pai cobrador de ônibus, conseguiu estudar na Universidade Harvard com uma bolsa do empresário bilionário Jorge Paulo Lemann.

É um caso típico de alguém que saiu de baixo e subiu na escada social por méritos próprios.

João Campos, por sua vez, já nasceu em berço de ouro, porque vem de uma dinastia nordestina.

Seu bisavô foi Miguel Arraes, que foi cassado pelo golpe militar de 1964 e se exilou na Argélia. De volta ao Brasil, foi três vezes governador do estado.

O neto de Arraes, Eduardo Campos, foi governador por dois mandatos e morreu tragicamente em um acidente aéreo em campanha nas eleições de 2014.

"No velório do Eduardo, o garoto João Campos, com cerca de 16 ou 17 anos, segurou o caixão do pai. Essa imagem foi muito recorrente e marcante entre os especialistas em política", disse o jornalista Ricardo Antunes, em entrevista ao Meio-Dia em Brasília.

No velório, João, o filho mais velho, comandou as homenagens ao pai morto com os gritos de "Eduardo, guerreiro do povo brasileiro". Ele e os irmãos usavam um chapéu de palha, marca registrada de Arraes.

"João foi preparado para seguir o rumo da política e o PSB, vale lembrar, na época de Eduardo Campos já tinha governado Pernambuco por 16 anos", afirmou Antunes.

Futuro

A dupla romântica do PSB tem boas chances de se viabilizar como uma possível substituta da esquerda lulista que depende do atual presidente para ter projeção nacional.

Tabata é católica. Sua mãe a levava a uma igreja todos os domingos e ela chegou a ser coroinha. Sempre quis casar e ter filhos. Não tem, portanto, o discurso identitário de muitos membros da esquerda.

Ao votar a favor da reforma da Previdência e defender o equilíbrio fiscal no Congresso, Tabata foi criticada por figuras da esquerda, como o ator José de Abreu e o teólogo Leonardo Boff.

"Quando defendo a mesma visão de mundo progressista, do combate à desigualdade, da defesa da educação pública, mas também a responsabilidade fiscal, a eficiência do Estado, que é o único caminho que a história nos mostra ser possível para o Brasil ser um país justo e desenvolvido, eu apresento uma alternativa para as pessoas que também têm sensibilidade social, mas discordam das teses que estão presentes hoje de forma mais majoritária na esquerda", disse ela em entrevista a Crusoé, em 2021.

Tabata ainda não declarou que tentará mais um mandato como deputada federal por São Paulo, mas a chance existe.

João Campos assumiu o gabinete do governo de Pernambuco dois anos após a morte de seu pai.

Em 2018, elegeu-se deputado federal. No Congresso, conheceu Tabata em reuniões de comissões sobre educação. Foi então que os dois se apaixonaram.

Em 2020, elegeu-se prefeito do Recife. Quatro anos depois, obteve a reeleição. Nas duas vezes, venceu no primeiro turno.

Agora ele está à frente, com 53% das intenções de voto, na corrida para o governo de Pernambuco. A atual governadora, Raquel Lyra, aparece com 31% na Paraná Pesquisas.

Alcance nacional

Fortes em suas regiões, os dois também conhecem muito bem o jogo da política nacional.

Tabata se candidatou à prefeitura de São Paulo em 2024. Como os debates com Datena e Pablo Marçal foram acalorados, isso a ajudou a se projetar nacionalmente.

João Campos conta com o apoio do presidente Lula em seu desejo de tentar o governo do estado. Com aliança no dedo, esse caminho ficará mais fácil.

Ele também tornou-se o presidente do seu partido, o PSB, em meados do ano passado.

Meses depois, Campos nomeou para procurador de Recife o filho de uma procuradora.

Ele ficou em 63º lugar em um concurso público, mas foi promovido para o primeiro lugar da fila depois de alegar ter autismo e pedir uma vaga reservada para PCD. O laudo só foi feito três anos após o concurso.

O Ministério Público de Pernambuco iniciou uma apuração, mas uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes trancou as investigações. O caso corre em segredo de justiça.

Gilmar atendeu a um pedido do PSB, que alegou risco à neutralidade do Estado em período pré-eleitoral.

No casamento de Campos e Tabata, quem compareceu foi outro ministro do STF, Alexandre de Moraes, que levou a esposa, Viviane. Os dois chegaram à praia de helicóptero.

Moraes e Viviane estão envolvidos no escândalo do Banco Master, por um contrato de 129 milhões de reais entre o escritório da esposa com a instituição financeira de Daniel Vorcaro.

Outro que estava no casório foi Geraldo Alckmin, vice-presidente da República e membro do PSB.

Jorge Messias, advogado-geral da União e indicado para vaga no STF, também apareceu por lá.

Lula só não foi porque estava de viagem pela Índia e pela Coreia do Sul.

Na política, aqueles que mostram a possibilidade de exercer poder no futuro conseguem mais aliados no presente.

João Campos e Tabata já demonstram ter essa capacidade.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 3 de março de 2026

Iranianos ficam entre a Ditadora Local e o Imperialismo Americano

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 3 de março de 2026 

Iranianos ficam entre a Ditadora Local e o Imperialismo Americano
Por Fernando Gabeira (in blog)

Quem tem memória lembra bem a guerra do Iraque. Colin Powell foi à ONU com umas fotos estranhas, para demonstrar que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça. Agora, Donald Trump, de boné com a inscrição “USA”, afirma que o Irã é uma ameaça nuclear à segurança do povo americano.

Saddam não tinha armas de destruição maciça. E a capacidade nuclear do Irã, segundo a própria inteligência americana, foi retardada em décadas pelos bombardeios de 2025. Tanto a guerra no Iraque como a no Irã são guerras de escolha. Na avaliação de Trump, o governo dos aiatolás, que massacrou recentemente centenas de manifestantes, está mais fraco.

Neste momento em que todos buscam notícias e em que, como no início de guerras, elas são muito desencontradas, creio ser possível demonstrar um tipo de angústia que domina os iranianos. Eu intuía isso, mas escrevo agora baseado em depoimentos deles, postados no fim de semana passado. Um desses depoimentos diz:

— Como iraniano, posso afirmar que a situação não é mais apenas política, mas existencial. Caímos numa armadilha de duas estruturas em colapso, uma interna, outra externa.

O depoimento mostra que a esperança interna foi dissipada pela constante repressão às tentativas de reforma. Mas acentua aí o paradoxo: estão aterrorizados pelo colapso do regime injusto porque conhecem os resultados das intervenções ocidentais em países como Iraque, Líbia, Síria e Afeganistão.

O depoimento afirma ainda que os iranianos não confiam nos Estados Unidos e em Israel. Não porque apoiem o regime repressor do Irã, mas porque sabem como os poderes imperiais tratam as nações “liberadas” do Oriente Médio.

O que aparece para muitos iranianos é um dilema entre a terrível repressão dos aiatolás e a alternativa oferecida pelos ocidentais, que não é liberação, mas colapso. Para eles, o país é refém de um regime, como se vivessem numa casa de ódio, aterrorizados pelo fogo exterior — pelo destino de seus vizinhos.

Essa visão interna do Irã nos ajuda a compreender como é difícil obter um dos objetivos de Trump: a mudança de regime. Uma chuva de bombas, inclusive algumas que atingem escolas e hospitais, não consegue mudar o regime, mesmo matando seu líder máximo, um homem velho e doente, cuja substituição já era preparada.

No fundo, a política externa de Trump usa o termo mudança de regime como retórica. A tática é intimidar e favorecer um governo mais flexível aos interesses imperiais, como na Venezuela. Trump inaugurou uma política de violência, baseada em intimidação, bombardeio e ações de comando. Mas tem uma limitação evidente: seus eleitores não perdoariam as botas no terreno, uma invasão real.

Alguns do movimento Make America Great Again já não apoiam nem a própria guerra do Irã, vista como de interesse apenas de Israel.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

RODA VIVA | Alessandro Vieira | 02/03/2026

 

domingo, 1 de março de 2026

Trump, às claras: ’Quando nós acabarmos, assumam seu governo’

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 28 de fevereiro de 2026

Trump, às claras: ’Quando nós acabarmos, assumam seu governo’.

Assim o presidente americano resumiu o objetivo do ataque desfechado nessa madrugada: mudar o regime do aiatolá Ali Khamenei. Vilma Gryzinski:

Durante as últimas semanas, choveram especulações sobre o objetivo estratégico de Donald Trump com o ataque que se desenhava com a grande concentração de recursos bélicos no teatro de operações do Oriente Médio. Agora, por suas próprias palavras – “Quando nós acabarmos, assumam seu governo”-, está definido que o regime teocrático que tem como autoridade máxima o aiatolá Ali Khamenei tem que cair e ser substituído por alguma entidade ainda inexistente, visto que os iranianos que no começo do mês saíram às ruas em massa para clamar por “morte ao ditador” não estão organizados em partidos capazes de se impor como alternativa de governo.

É a opção mais arriscada de todas – e, tal como na Venezuela, também sem precedentes. Mudar um regime profundamente entranhado apenas com operações aéreas, sem tropas avançando por terra, como aconteceu no Iraque quando Saddam Hussein foi derrubado.

Trump, obviamente, quer o melhor dos mundos, ou o menos pior: acabar com o regime mais antiamericano do mundo, com a possível exceção da Coreia do Norte (que, note-se, nunca sequestrou cidadãos americanos nem bradou “Morte à América”), sem precisar colocar diretamente a mão na massa, ou seja, desfechar um ataque terrestre, com suas inevitáveis baixas entre tropas invasoras e população civil.

A opinião prevalecente entre analistas é de que é muito difícil – mesmo descontando-se a torcida contra dos comentaristas que querem ver dar tudo errado.

Mas é preciso admitir que Trump não deixou margens à ambiguidade, usando termos raramente vistos na história dos conflitos:

“Aos membros da Guarda da Revolução Islâmica, das Forças Armadas e de todas as polícias, digo esta noite que você precisam depor armas e terão completa imunidade, a alternativa é enfrentar a morte garantida”.

“Deponham armas. Serão tratados de forma justa e com total imunidade, ou enfrentarão a certeza da morte”.

“Ao grande e orgulhoso povo do Irã, digo esta noite que a hora de sua liberdade está a seu alcance. Continuem abrigados. Não deixem suas casas. É muito perigoso lá fora. Estão caindo bombas em toda parte”.

“Quando acabarmos, assumam o regime. Será sua chance. Provavelmente será a única em gerações”.

São palavras que implicam em enormes riscos e responsabilidades. Se os iranianos comuns, desarmados, enfrentarem uma repressão que continua brutal, mesmo debaixo de bombas, o que fará Trump?

Por quanto tempo durarão os bombardeiros enquanto isso não acontece?

E se houver um número de vítimas inaceitável entre a população civil de Israel?

E se o conflito se expandir para o Líbano do Hezbollah, o Iraque das milícias xiitas e o Iêmen dos hutis?

O número de “e ses” é enorme, mas pelo menos agora sabemos o que Trump quer. Aos 87 anos, o aiatolá Ali Khamenei terá que deixar o cenário que domina há décadas e levar junto seu bando de fanáticos.

Nunca foram tão altas as apostas no Irã.

Texto e imagens reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 28 de fevereiro de 2026

'Crise Para Além das Eleições', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 27 de fevereiro de 2026

Crise Para Além das Eleições
Por Fernando Gabeira (in blog)

Conversando com um amigo sobre o futuro, sem nenhuma pretensão de prevê-lo com rigor, afirmei que, infelizmente, as eleições deste ano não resolvem a crise que a democracia vive no Brasil.

Para começar, uma das instituições mais criticadas, o Congresso, deve emergir da disputa com uma configuração semelhante à que está aí. O mecanismo das emendas parlamentares, que hoje avançam sobre o Orçamento, não é apenas irracional e vulnerável à corrupção. Ele é uma garantia da continuidade de deputados e senadores.

Na verdade, é possível que o Senado se posicione mais à direita ainda porque há uma estratégia de aumentar o número de senadores para solucionar outra crise institucional: a do Supremo Tribunal Federal (STF).

Nesse caso, é uma tentativa de punição de alguns ministros pelo caminho do impeachment. Há outras propostas para tratar o caso do Supremo. Uma delas foi apresentada pelo jurista Walter Maierovitch, que propõe emenda constitucional para reformular a Corte, com mandatos de nove anos. O que fazer com os ministros que só se aposentariam com 75 anos? Seriam colocados em disponibilidade. Iriam para o banco, para usar uma linguagem de futebol. Emenda constitucional dessa envergadura só seria apresentada por um presidente que fosse muito forte e que estivesse disposto a comprar essa reforma.

Acontece, portanto, que tanto o Congresso quanto o STF são de difícil reforma e não podemos contar com isso para 2027. Resta indagar se as eleições conseguem equacionar o problema da segurança pública no Brasil. Ele depende da conjugação das forças federais, estaduais e municipais. Isso pode ser conseguido por meio de emenda constitucional. E deverá ocorrer.

O problema, no entanto, é mais profundo. Como vencer as desconfianças entre as polícias locais e a Polícia Federal? Será preciso um intenso trabalho de articulação. Um trabalho desse tipo anda muito melhor quando orientado pelo presidente.

Lula é o favorito. Terá 80 anos ao vencer. Muitos questionam sua saúde para exercer um cargo desse tipo. Também já tive 80 anos e acho que ele consegue com os recursos que tem, superar tranquilamente esse obstáculo. Nessa análise, numa mesa de bar, simplesmente ignorei a idade de Lula. Minha pergunta não é se Lula terá saúde, mas se terá paciência.

Nesse terceiro mandato, já demonstrou uma ligeira fadiga com as articulações políticas, principalmente com deputados e senadores. A conjuntura internacional o empurrou para uma série de viagens pelo mundo. É necessária, porque a abertura de novos mercados, que era importante em si, tornou-se mais decisiva ainda com os rompantes de Trump.

Num mundo efervescente, as viagens devem continuar sendo um tópico importante na agenda. Muda-se de clima, vê-se um novo país, mergulha-se em nova cultura. Mas com o tempo, essas experiências tornam-se previsíveis, não tanto quanto uma conversa com deputados, mas com menos encanto do que agora.

Paradoxalmente, é possível que se tenha um presidente com menos paciência, num país mais complexo e nervoso, portanto mais impaciente. Chegará um tempo em que o presidente terá de tomar grandes decisões num país em crise. Alguns dos seus aliados podem avaliar a crise como estrutural e aconselhá-lo a dar passos para a frente, rumo ao socialismo. De qualquer forma, serão necessários muita sabedoria e um governo enérgico para enfrentar o caos.

Nesse momento da análise, o amigo lembrou que as eleições ainda nem começaram, que haverá alguns debates importantes, alianças surpreendentes, sem contar com o fato de que a popularidade de Trump está em declínio. Sim, esses fatores são importantes e pode ser que com outras variáveis mais confortáveis, Congresso e STF consigam celebrar um imenso acordo que garanta sua sobrevivência sem sobressaltos. E o presidente eleito tenha apenas de tocar o barco, aparando uma ou outra aresta, empurrando com a barriga as questões insolúveis até agora.

De qualquer forma, será necessária muita paciência. Um cenário de monotonia não costuma ser frequente no Brasil.

Enquanto nada disso acontece, não há outro caminho, exceto lutar por um Congresso melhor, enfatizando a importância de uma boa escolha. E também lutar pela transparência em escândalos como o do Banco Master. É importante saber quem se envolveu, políticos e juízes. A verdade é que tudo o que sabemos sobre Dias Toffoli nos deixa mais confusos ainda: como é possível que se faça tudo que ele fez e não aconteça nada? Aí voltamos à crise do próprio STF, que se tornou uma Corte insustentável.

Vamos votar num presidente sabendo que não terá dinheiro para realizar seu programa. Com todos os senões, vamos adiante. É o que nos resta.

Imagem e texto reproduzidos do site: gabeira com br

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Chico Pinheiro ENTREVISTA Eduardo Giannetti

 

O Irã antes de 1979


Xá Mohammed Reza Pahlavi 

Jovens iranianas se divertem em uma praia

Iranianos se divertem em Teerã ao som de rock and roll no início dos anos 1960 

Jovens participando da Revolução Islâmica do Irã em 1979

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de fevereiro de 2026

O Irã antes de 1979

A Revolução Islâmica dos aiatolás mudou completamente a sociedade iraniana - em todos os aspectos, para pior. Daniela Giorno para a Oeste:

Em um tempo não muito distante, o Irã era socialmente muito mais vibrante, liberal e secular do que é hoje. Antes da Revolução Islâmica de 1979, o país era governado por Mohammad Reza Pahlavi, o último xá da dinastia Pahlavi. Seu reinado de quase 40 anos (1941–1979) foi marcado por um projeto ambicioso de modernização econômica e social, aliado a um regime político autoritário.

Na década de 1960, o xá lançou a chamada Revolução Branca, um conjunto de reformas que incluía redistribuição de terras, expansão da educação pública, incentivo à industrialização e concessão de direitos às mulheres, como o voto (introduzido em 1963). O governo também investiu fortemente em infraestrutura, saúde e urbanização. Com o aumento expressivo das receitas do petróleo nos anos 1970, o país viveu rápido crescimento econômico e passou por intensa modernização, especialmente em grandes cidades como Teerã.

Havia crescimento de universidades, cinemas, cafés, empresas privadas e infraestrutura moderna. A elite urbana vivia de forma semelhante a padrões europeus ou norte-americanos, com acesso à moda ocidental, música internacional e maior liberdade social. Mulheres das classes média e alta, especialmente em centros urbanos, podiam frequentar universidades, ingressar no mercado de trabalho, vestir-se com saias curtas e sem véu (o uso não era obrigatório), além de participar da vida cultural e social.

O Irã mantinha relações estreitas com os Estados Unidos e países europeus, sendo considerado um aliado estratégico do Ocidente no contexto da Guerra Fria. O país adotava um modelo de desenvolvimento fortemente influenciado por padrões ocidentais, tanto na economia quanto nos costumes urbanos de parte da população.

Entretanto, o período também foi caracterizado por repressão política. A temida polícia secreta do regime, a Savak, era responsável por monitorar, prender e interrogar opositores. Partidos políticos tinham atuação limitada e críticas ao governo eram frequentemente reprimidas. A concentração de poder nas mãos do xá e as desigualdades sociais geradas pelo crescimento acelerado provocaram insatisfação em diferentes setores da sociedade, incluindo religiosos, intelectuais, estudantes e trabalhadores.

Além disso, parte do clero xiita se opunha às reformas do xá, considerando-as excessivamente ocidentais e contrárias aos valores islâmicos tradicionais. Essa oposição religiosa ganhou força ao longo dos anos 1970, especialmente em meio à inflação, ao desemprego e à percepção de corrupção no governo.

Esses fatores — modernização rápida, autoritarismo político, desigualdade social e tensões culturais — criaram um ambiente de crescente instabilidade. Em 1979, após meses de protestos massivos, greves e confrontos, o xá deixou o país, abrindo caminho para a Revolução Islâmica que transformaria profundamente o sistema político e social iraniano.

Assim, o Irã deixou de ser uma monarquia e tornou-se uma república teocrática. A nova Constituição, aprovada no fim de 1979, estabeleceu o princípio do Velayat-e Faqih (“governo do jurista islâmico”), que concede autoridade suprema a um líder religioso. O aiatolá Ruhollah Khomeini tornou-se o primeiro Líder Supremo, posição com amplos poderes sobre as Forças Armadas, o Judiciário, a mídia estatal e decisões estratégicas do país.

Embora eleições para presidente e parlamento tenham sido mantidas, candidatos são previamente avaliados por órgãos religiosos, como o Conselho dos Guardiães, o que limita a pluralidade política.

A legislação passou a ser baseada na interpretação xiita da lei islâmica (Sharia) e isso afetou diversas áreas:

*Implementação obrigatória do uso do hijab para mulheres em espaços públicos.

*Separação mais rígida entre homens e mulheres em determinados ambientes.

*Reformulação do direito de família e das normas de comportamento social.

*Introdução de punições baseadas na lei islâmica para certos crimes.

Universidades passaram por um processo conhecido como “Revolução Cultural”, com revisões curriculares e afastamento de professores considerados contrários ao novo regime, que adotou uma postura declaradamente antiocidental e passou a defender a exportação de sua revolução para outros países da região.

A Revolução Islâmica não foi apenas uma troca de governo, mas uma transformação estrutural do Estado iraniano — substituindo uma monarquia secular e pró-Ocidente por uma república teocrática baseada na autoridade religiosa, redefinindo o papel da religião na política e reposicionando o país no cenário internacional.

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Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.

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Texto e imagens reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

domingo, 22 de fevereiro de 2026

A lógica do abuso de poder


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de fevereiro de 2026

A lógica do abuso de poder

Do uso sistemático dos inquéritos contra o “bolsonarismo”, transita-se para o enquadramento de qualquer um que desafie sua própria engrenagem de poder. Fernando Schüler para o Estadão:

“São medidas para amedrontar”, disse Kleber Cabral, presidente da Unafisco, e lascou: “é mais seguro investigar o PCC do que altas autoridades”. A crítica doeu em algum lugar de Brasília. Seu ponto era dizer que não era razoável sair colocando tornozeleira eletrônica em funcionários da Receita, naquela fase da investigação. Teria razão?

Quando li aquilo, me lembrei das denúncias de Tagliaferro. Elas eram graves, nada foi investigado e o sujeito ainda virou réu. Rapidamente, um filme me passou pela cabeça. O comediante Bismark Fugazza, preso por meses, vida quebrada no meio, por um punhado de críticas e piadas a “autoridades”; o famoso tuíte do Prof. Marcos Cintra sobre algumas urnas. E logo a censura, a humilhação. E mais toda a bizarrice brasileira dos últimos anos.

O curioso é que Cabral terminou provando seu ponto. Foi ele mesmo parar na Polícia Federal, intimado pelo Supremo a dar “explicações” sobre sua crítica. Acabou por descobrir, como tantos brasileiros, que não é só investigar autoridades que se tornou perigoso. Mas que também uma crítica ao próprio abuso de poder pode ser, ela mesma, um risco danado. No final, ele declarou que não iria mais dar entrevistas. Achei perfeito. O líder de uma entidade de classe de bico calado, por críticas ao Estado. Nossa democracia devidamente salva mais uma vez.

A verdade é que tudo isso é inadmissível. Se o presidente de uma entidade de classe como a Unafisco considera que exista um abuso de poder, ele não tem apenas o direito de expressar esta crítica. Ele tem o dever. E a sociedade tem o direito a esta informação. É assim que funciona uma grande democracia.

Se uma atitude como esta fosse um ponto isolado, já seria grave. Mas não é. Ela é a repetição de um padrão de abuso de poder que o País vem assistindo desde 2019. Naquele ano, o STF criou o inquérito sobre fake news a partir de um artigo de seu regimento interno que simplesmente não lhe dava este direito.

De uma licença para investigar infrações cometidas na sede da Corte, produziu-se um tipo de alien jurídico. Uma expansão interpretativa que deu poderes ao relator para investigar e punir qualquer delito, discurso, crítica, “ataque” contra a instituição ou seus membros, em qualquer lugar do planeta, internet inteira incluída.

Por muitos anos, bastava usar a expressão “blogueiro bolsonarista”, ou alguma variação, para justificar qualquer coisa. A tudo assistimos passivamente, salivando no transe dos rancores políticos.

O que se observa agora é uma migração. Do uso sistemático dos inquéritos contra o “bolsonarismo”, transita-se para o enquadramento de qualquer um que desafie sua própria engrenagem de poder.

Muita gente achava bacana quando nosso alien tropical funcionava contra um “lado” do jogo político. O ponto é que agora ele envelheceu. E aprendeu a agir, em primeiríssimo lugar, em defesa de si mesmo. O poder é sedutor. O poder excepcionalíssimo, quase irresistível. Saber como lidar com esta engrenagem sem freios, não duvidem, é nosso grande desafio.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 21 de fevereiro de 2026

O STF precisa reencontrar os limites de seu papel constitucional

Legenda da foto: Tocqueville

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18  de fevereiro de 2026

O STF precisa reencontrar os limites de seu papel constitucional

Em meio à atual crise de confiança, o Supremo Tribunal Federal precisa reencontrar os limites de seu papel constitucional e reafirmar a autocontenção como fundamento de sua legitimidade. Editorial do Estadão:

Quanto maior o poder, maior deve ser a disposição para abrir mão dele. Assim ensina a boa cultura democrática, que funciona como dique contra arroubos autoritários e desvios constitucionais. A máxima pode soar paradoxal numa realidade política em que a autoridade costuma ser medida pela capacidade de decisão e mando. Nas democracias constitucionais, porém, a força de uma instituição se revela tanto na extensão de suas competências quanto na consciência clara de seus limites. Isso é ainda mais verdadeiro quando se trata de um tribunal.

É o caso do Supremo Tribunal Federal (STF), hoje no epicentro de uma crise de confiança sem precedentes na história brasileira. A dificuldade, mesmo diante de evidências abundantes, para afastar o ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master, decisão só consumada quando se tornou incontornável; o debate sobre a participação de ministros em eventos patrocinados por grandes empresas; os inquéritos sem prazo definido conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes; o excesso de protagonismo e exibicionismo; as declarações públicas sobre casos que ainda irão julgar; e a atuação política evidente – tudo isso abriu uma ampla janela de interrogações sobre a imparcialidade e o distanciamento dos princípios republicanos que devem reger a Corte.

Não é preciso ir longe na teoria. Alexis de Tocqueville, pensador político francês do século 19 e intérprete das democracias modernas, já advertia que o Poder Judiciário é poderoso, mas sua força depende da confiança pública. Isso o torna simultaneamente forte e frágil: forte porque suas decisões moldam a vida pública; frágil porque sua autoridade repousa na confiança da sociedade. Essa confiança não se sustenta apenas no rigor técnico dos votos, mas sobretudo na percepção de imparcialidade e autocontenção.

O poder que se limita é o poder que se preserva. Por isso há uma longa tradição anglo-saxã do chamado judicial restraint, doutrina segundo a qual o Judiciário deve exercer suas competências com máxima cautela, intervindo o mínimo possível nas decisões dos demais Poderes e evitando expandir seu próprio alcance além do estritamente necessário à Constituição. Em síntese, a legitimidade da Corte se fortalece quando ela sabe não decidir – ou decidir menos – sempre que a Constituição permitir deferência institucional.

Os episódios recentes envolvendo Alexandre de Moraes e, sobretudo, Dias Toffoli mostram que impedimento e suspeição não são artifícios processuais, mas mecanismos de proteção institucional. Ao se afastar de casos em que haja dúvida razoável sobre sua imparcialidade, o magistrado fortalece a própria Corte. Essa higiene republicana funciona como blindagem contra a erosão do capital de legitimidade que nenhuma decisão erudita recompõe depois de perdido.

O que está em jogo é a percepção de que o STF precisa reencontrar com clareza os limites constitucionais de seu papel, evitando excessos que fragilizem sua própria autoridade. A crítica deste jornal não é um ataque à instituição, mas um convite à prudência. A autocontenção, nesse sentido, é virtude republicana comparável à prudência do estadista clássico: longe de sinal de fraqueza, trata-se de maturidade democrática e institucional.

A legitimidade de uma Corte é tanto questão de substância quanto de percepção. No passado, Rui Barbosa já defendia uma magistratura que não apenas fosse incorruptível, mas também parecesse assim, reafirmando princípio essencial da tradição republicana: ninguém está acima da lei. Quando um magistrado opta por se declarar impedido, reafirma publicamente a segurança do sistema judicial, reduz tensões entre os Poderes e protege a instituição de contestações que podem se alastrar como crise de confiança. Trata-se, em essência, de prática republicana clássica: a autocontenção como instrumento de autocuidado institucional.

A função do Supremo não é apenas julgar com rigor técnico, mas preservar o arcabouço moral que sustenta a democracia. A virtude republicana da autocontenção é, nesse sentido, pilar silencioso, porém decisivo, da legitimidade judicial e, por extensão, da própria ordem constitucional.

Que esse debate e as lições recentes inspirem o bom juízo do STF, antes que a erosão da confiança se torne irreversível.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Tirania digital


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 21  de fevereiro de 2026

Tirania digital

Nascida sob o símbolo da liberdade, a internet passou a ser usada como instrumento das ditaduras. Dagomir Marquezi para a Oeste:

“Sua presença em reuniões ilegais foi notada e você está sendo monitorado. Recomenda-se que vocês se abstenham de participar de tais reuniões ilegais, que são desejadas pelo inimigo.”

Essa mensagem aparece nas telas dos celulares dos cidadãos iranianos, da mesma forma que recebemos alertas de tempestades da Defesa Civil. Não satisfeito em matar dezenas de milhares de seus próprios cidadãos, o regime dos aiatolás agora persegue quem participou dos recentes protestos que abalaram o Irã.

Segundo matéria do New York Times, o Big Brother de turbante provavelmente baseou o monitoramento dos manifestantes no uso da geolocalização. Se um iraniano tivesse o azar de, ao voltar do trabalho, passar por uma das manifestações, seria automaticamente enquadrado como suspeito. Outro método é o reconhecimento facial, possibilitado por uma vasta rede de câmeras de vigilância. Tudo com o apoio tecnológico de duas outras ditaduras, a China e a Rússia.

A organização Citizen Lab informou em 2023 que a estatal iraniana de comunicação Ariantel recebeu o apoio técnico das chinesas Huawei e ZTE e da russa Protei. O suporte, segundo a organização Article 19, foi realizado para implantar a capacidade de censura e controle.

A ditadura que se instalou no Irã em 1979 não está conseguindo fornecer nem água aos seus cidadãos, mas teve recursos para estabelecer no país uma rede de vigilância que integra redes de comunicação, reconhecimento facial e tráfego de internet. Quem é apanhado nessa rede é levado para longos interrogatórios que podem terminar em prisão ou mesmo tortura. Como se não bastasse, os capangas do regime a qualquer momento podem parar um cidadão na rua e exigir que desbloqueie seu celular para uma inspeção surpresa.

Segundo a organização Holistic Resilience (“Resiliência Holística”), um grupo voltado para os direitos digitais no Irã, quem é apanhado com algum post sobre as manifestações enfrenta castigos adicionais, como a suspensão dos cartões SIM — o que anula na prática o acesso à rede de celulares. Outros tiveram suas contas bancárias bloqueadas.

Mahdi Saremifar, da Holistic Resilience, disse ao New York Times que, com toda essa vigilância eletrônica, “o governo termina com uma longa lista de nomes. Eles podem visitar cada uma dessas pessoas, talvez um mês ou dois meses depois”. Quem usou um receptor Starlink para furar o bloqueio estatal da internet pode ser preso pelo resto da vida — ou mesmo ser enforcado num guindaste em público.

A teia de controle vai além. Por volta de 2019, o regime criou um método de centralizar a identidade digital de cada iraniano, registrando seu “comportamento digital” como uma ficha corrida. Essa identidade digital é necessária porque o uso da internet no Irã é todo controlado. Aplicativos como X, WhatsApp, YouTube e Telegram são proibidos. A única rede permitida é a estatal NIN, ou “Rede Nacional de Informação”.

Espiões dentro do celular

Para piorar as coisas para os iranianos, toda estrutura de comunicação é dominada pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), os carrascos do regime. Os avanços tecnológicos que facilitam a vida dos cidadãos em países livres são usados para escravizar a população do Irã. “Eles querem um sistema centralizado que monitore a vida diária”, resumiu Mahdi Saremifar, para a revista Wired. “É a vigilância do estilo de vida.”

As garras da ditadura chegam até os instrumentos usados para combatê-la. Aplicativos de VPN (que disfarçam a identidade do usuário) tiveram spywares instalados pelo regime. Spywares são aplicativos que espiam secretamente a atividade do usuário. Cidadãos desavisados que baixaram programas de provedores da Starlink também acabaram instalando os spywares do aparelho de repressão.

A repressão não se dá apenas a quem participa de manifestações. A polícia também usa um aparelho conhecido como “caçadores de ISMI” para “identificar e intimidar mulheres que se recusam a usar o hijab”, segundo a reportagem do NYT. No Irã, mulheres que mostram uma mecha de cabelo são consideradas criminosas.

Esse objetivo de controle total transformou a internet no Irã num sistema tão frágil que, em parte, o feitiço se voltou contra o próprio regime. Para evitar manifestações, o regime desliga a internet. Aí não consegue enviar suas ordens, nem monitorar o que acontece nas ruas.

US$ 9,4 milhões por hora

Um caso semelhante acontece em Cuba. A ditadura comunista não tem dinheiro para distribuir eletricidade ou abastecer aviões. Mas gastou uma fortuna para estabelecer um serviço de vigilância eletrônica na ilha, segundo a ONG Defensores de Prisioneiros, com sede em Madri.

O site Latin America Reports cita o caso típico de Carlos Michael Morales Rodríguez, um jornalista de 48 anos que, em 2021, publicou no Facebook “posts que criticavam os líderes do nosso país”. Foi condenado a dois anos e dez meses de prisão. E foi libertado em 2024 com a ameaça de que seria preso de novo se continuasse a exercer jornalismo independente.

Rodríguez, que trabalha para três agências independentes (Martí Noticias, CiberCuba e Cubanet Noticias), além da BBC e do Washington Post, desobedeceu à ordem e ficou mais 45 dias preso, seguido por mais um período de prisão domiciliar. Durante todo o tempo, ele foi ameaçado se continuasse publicando notícias nas redes sociais. As ameaças são baseadas no sinistro Decreto 35, que restringe qualquer mensagem online que desafie o governo. Segundo o decreto, qualquer um que “subverta a ordem constitucional” será considerado um “cyberterrorista”.

A Rússia de Vladimir Putin obviamente não poderia seguir caminho diferente. Segundo o site Jamestown, o regime está penalizando todos os que acessam “sites extremistas”. A invasão da Ucrânia justifica qualquer ação autoritária como um esforço de guerra.

O submisso parlamento russo, conhecido como Duma, passou uma lei que permite que computadores sejam investigados em busca de “sites extremistas”. E, como os iranianos, a ditadura russa se dá ao direito de interromper a internet quando decide que é necessário. Só em junho de 2025 foram realizadas 650 interrupções locais da internet, mais do que acontece no resto do mundo num ano inteiro. VPNs são proibidas e quem utilizar o aplicativo pode receber multas que vão de US$ 2,5 mil (cerca de R$ 13 mil) a US$ 6,3 mil (aproximadamente R$ 33 mil).

A justificativa oficial do Kremlin é evitar ataques dos ucranianos dentro do país, com drones. Mas todo mundo sabe que o que preocupa Putin é o crescente descontentamento com a situação do país, onde cerca de 1,2 milhão de soldados foram mortos, feridos ou estão desaparecidos desde a invasão da Ucrânia.

A vítima dessas interrupções da internet não é apenas a liberdade dos usuários. Segundo o Jamestown, cada hora de internet derrubada pelo governo custa cerca de US$ 9,4 milhões para as economias regionais.

Made in China

Cada país que implementa essa tirania digital passa a servir de laboratório para novas experiências. A ditadura de Mianmar (antiga Birmânia), no poder há 64 anos, inventou uma sigla PSMS que significa “Sistema de Monitoramento e Escrutínio Pessoal”.

Segundo o site Fulcrum, especializado em assuntos do Sudeste da Ásia, no final de 2023, o regime no poder declarou que havia digitalizado 52 milhões de identidades biométricas e 13 milhões de residências. Ou seja, quase a população inteira do país (55 milhões) está sob total controle. Impressões digitais, dados faciais, registro de íris, tudo está arquivado para que a ditadura siga cada passo de cada cidadão.

Os habitantes têm seu nome registrado no SIM do celular. Cada um de seus movimentos, como transações bancárias, compras, comunicações e deslocamentos, pode ser monitorado. A tecnologia, só para não variar, é made in China. Os equipamentos são fornecidos pelas empresas chinesas Huawei, Hikvision e Dahua. Segundo o site Fulcrum, “com câmeras aprimoradas por inteligência artificial, identidades SIM com nomes reais e reconhecimento facial alimentando um banco de dados central, o Estado pode identificar, comparar e sinalizar cidadãos antes mesmo que os protestos aconteçam”. A China está instalando sistemas semelhantes no Paquistão e no Camboja.

A ditadura chinesa tem todo esse aparato para controlar seu 1,4 bilhão de cidadãos. E agora conta com um novo recurso: a inteligência artificial. De acordo com uma investigação do Instituto Australiano de Estratégia Política, divulgada pela CNN, a IA possibilita “automatizar a censura, intensificar a vigilância e suprimir preventivamente a dissidência. A China está utilizando inteligência artificial para tornar seus sistemas de controle existentes muito mais eficientes e intrusivos. A IA permite que o Partido Comunista Chinês (PCC) monitore mais pessoas, mais de perto e com menos esforço”.

O que começou como alerta no celular de um iraniano termina como modelo exportável de tirania digital. Cada novo país que adota essa tecnologia dá mais um passo rumo a um mundo onde o cidadão já nasce suspeito. Com 600 milhões de câmeras para vigiar sua população — uma para cada 2,3 pessoas —, a China transformou o controle em ciência exata. O monitoramento chega a tal ponto que câmeras em prisões captam se um detento demonstra irritação. Ele é isolado antes mesmo de qualquer reação além de uma careta. Resultado: segundo a CNN, o sistema jurídico chinês — submetido ao Partido Comunista — registra 99% de condenações. Está muito próximo da “perfeição”.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

'O fim dos tiranos', por Marcos Cardoso

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 20 de fevereiro de 2026

O fim dos tiranos
Por Marcos Cardoso *

O tirano é um animal que viceja na estupidez humana, cresce como um ser superior, julga-se imortal quando no poder, vive atormentado por fantasmas, sofre tresloucado quando invariavelmente fracassa e morre tragicamente. A história é implacável e está fartamente ilustrada com figuras dessa estampa.

Tome-se como exemplo dois tipos cujos malditos legados o mundo ainda insiste em não sepultar de uma vez: Adolf Hitler e Benito Mussolini. O italiano inspirador do fascismo foi executado por partigianos numa tarde de 28 de abril de 1945, abraçado com sua amante, Claretta Petacci, após mais de 20 anos à frente de uma ditadura que levou o seu povo à miséria. Duas tardes depois, o sócio alemão pai no nazismo suicidou-se, ao lado da mulher Eva Braun, depois de 11 anos liderando um nacionalismo e um militarismo ferozes, que resultaram no mais odioso e brutal genocídio já levado a efeito por toda a humanidade.

Um dia, o castelo perpétuo do tirano vai ruir. O delírio de poder eterno dos dois começou a virar loucura quando alemães e italianos foram derrotados pelos britânicos no norte da África. “A roda da fortuna deu a volta no dia 29 de junho de 1942”, escreveu o próprio Mussolini, citado por Joel Silveira no livro “Segunda Guerra Mundial: todos erraram, inclusive a FEB” (Espaço e Tempo, 1989).

“Ao saber das más-novas, Mussolini foi inesperadamente acometido de insuportáveis dores no estômago, que o prostaram”, narra o jornalista sergipano, o mais destacado correspondente daquela guerra. “O homem parece mais humilhado que doente, está triste e incapaz de reagir ao peso da idade (Mussolini tinha, então, 59 anos)”, teria dito um hierarca do fascismo.

Silveira vai contando: em fins de 1942, Benito Mussolini é um homem profundamente marcado, física e moralmente é a caricatura do que foi. A entrada da Itália na guerra só lhe trouxe derrotas, decepções e humilhações. O Duce via-se relegado cada vez mais a um segundo plano – e logo não seria mais que um títere do Führer alemão.

A vida do ditador ficaria pior em julho de 1943, quando os primeiros soldados aliados desembarcariam na Sicília, dando início à tomada da Itália. Registre-se que a conquista da ilha contou com o apoio da Máfia, em acordo com os americanos. Esse gesto histórico prova que é preciso se aliar aos inimigos para derrotar um inimigo maior e mais belicoso.

“Tudo isso havia minado profundamente o físico e o moral de Mussolini. Sua antiga úlcera voltara a lhe queimar as entranhas e eram mais constantes os seus acessos de vômitos. Encovam-se visivelmente suas faces, os pomposos uniformes (a maioria deles por ele próprio desenhada) começam a lhe dançar no corpo que emagrecia”. Seus subordinados começam a resmungar contra ele.

“Quando a sorte da Sicília lhes pareceu definitivamente selada, o rei e muitos dos líderes fascistas chegaram à óbvia conclusão de que era tempo de se livrarem de Mussolini”. Nota: a Itália ainda era uma monarquia, que tinha como bobo da corte o débil rei Emmanuel III.

O Grande Conselho Fascista foi reunido, Mussolini foi preso, percorreu algumas prisões, até ser resgatado de um Albergo no cume do Gran Sasso por uma espetacular ação de paraquedistas alemães. A melodramática libertação causou uma grande excitação no país e no exterior, segundo palavras de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda nazista.

Mas Mussolini virou definitivamente uma marionete nas mãos de Hitler quando instalado como chefe de uma fantasiosa república nas proximidades de Milão. Ameaçado pela resistência italiana, fugiu com a amante escoltado por uma coluna alemã, mas foi alcançado pelos partigianos antes de chegar à Suíça.

Joel Silveira conclui: “No dia seguinte, 29 de abril de 1945, um domingo, às 9 horas e 30 minutos da manhã, o corpo de Mussolini (juntamente com o de Claretta Petacci, de Pavolini, de Starace, de Bombacci e de Gelormini) era levado para Milão e jogado no chão duro do Piazzale Loreto. Em seguida, atendendo os reclamos da multidão compacta, foram dependurados de cabeça para baixo, para que todos pudessem vê-los, num travessão de um posto de gasolina”.

Laura Fermi, a mais credenciada biógrafa de Mussolini, também citada por Silveira, escreveu: “Assim terminou a longa ditadura do homem que penhorou a liberdade, sufocou o pensamento independente e conduziu seu país a uma guerra desastrosa. Deixou atrás de si pouco pesar, pois aquele amor por si, que julgava tão arraigado em seu povo, estava destilado. Poucos o choraram; muito mais rejubilaram-se com a liberdade reconquistada e com a nova esperança que surgia da sua morte”.

Hitler drogado

Hitler vivia sob efeito de drogas. Abusava das injeções, chegando a tomar doze delas por dia, e de Pervitin (metanfetamina), a droga secreta que estimulava os soldados nazistas, além de morfina, soporíferos e até afrodisíacos. “Hoje se sabe que ele estava sob os efeitos daquele poderoso estimulante quando de todas as decisões que, a partir de 1942, tomou no terreno militar, e que resultaram em tão terríveis desastres”, escreveu o jornalista sergipano em outro capítulo do livro citado.

Assim drogado, e de forma tão maciça, com doses que Morell (o médico apontado como charlatão) ia aumentando de dia para dia, Hitler é um farrapo humano, afirma Joel Silveira: “Seu braço direito e sua perna esquerda tremem, atacados de Paralisis agitans; os olhos se mostram exageradamente dilatados; a pele é de um pálido esverdeado e doentio. Já não pode expor-se ao sol, de forma que toda a sua atividade é desenvolvida à noite, nos insólitos horários por ele estabelecidos que faziam o desespero dos seus colaboradores, particularmente dos seus generais”.

Vegetariano, mas glutão, o pai do nazismo ingeria enormes quantidades de bolos, tortas, doces de toda espécie e chocolate. “Sofrendo terrivelmente de prisão de ventre, era presa fácil de flatulência e, para corrigi-la, engolia uma atrás da outra certas pílulas antigases que Morell lhe receitava, e em cuja composição entrava a estricnina”.

Em 16 de abril de 1945, quando Eva Braun reencontra no bunker da Chancelaria o homem que de fato amava, apesar de Hitler tentar de toda maneira dissuadir a amante do seu propósito de encontrá-lo, a situação de Berlim já estava selada. Além da investida dos aviões ingleses e americanos, a cidade que agoniza também sofre com os bombardeios soviéticos, que despejam impiedosamente seus obuses certeiros sobre o que resta da outrora capital do III Reich.

Não é apenas Berlim que está em ruínas, mas também Hitler, constata Joel Silveira. O ministro “Albert Speer, que o visitou pela última vez quando do seu 56º aniversário, no dia 20, espantou-se com o aspecto físico do Führer: ‘…eu tinha diante de mim um decrépito ancião. Tremiam-lhe as mãos, andava curvado e arrastando os pés. Até a voz era insegura e perdera o antigo vigor, sendo a forma de falar titubeante e monótona. (…) O uniforme, antes impecável, estava naqueles últimos tempos frequentemente desalinhado e manchado pelo alimento que levava à boca com a mão trêmula’”.

O decrépito e quase derrotado Hitler já tinha decidido suicidar-se e Eva Braun morreria com ele. “Não lutarei. Há o perigo de que eu seja apenas ferido e caia vivo nas mãos dos russos. Nem quero que os meus inimigos mutilem meu corpo. Dei instruções para que seja incinerado. Fraulein Braun quer morrer comigo”, disse a Speer, que posteriormente declararia que teve “a impressão de já estar falando a um morto”.

Ministro da Produção e do Armamento, Albert Speer foi um dos 21 dirigentes do III Reich levado a julgamento no Tribunal de Nuremberg, em 1946. Diferentemente dos 11 carrascos que foram condenados à forca, ele pegou 20 anos de detenção.

O golpe mortal que atingiu Hitler foi a notícia da morte de Mussolini, de sua amante Claretta Petacci, e da maioria dos líderes fascistas. Ele decide que se matará assim que se casar com Eva Braun, o que acontece na madrugada do dia 29, numa cerimônia realizada no próprio bunker. Logo depois, Hitler dita seu testamento para a secretária. Uma sorridente Eva Braun despede-se de todos, faz recomendações e doa seu casaco de pele para a própria secretária.

É Joel Silveira quem descreve o ato derradeiro da vida do tirano. “Três horas da tarde do dia 30 de abril de 1945. Há já algum tempo Hitler e Eva estão encerrados em seus aposentos privados. À porta da antecâmara que conduz às dependências do Führer, o coronel Otto Gunsche monta guarda. E é ele quem conta: ‘De repente ouvi um tiro. Bormann (secretário pessoal de Hitler) foi o primeiro a entrar. Eu segui logo atrás de Lunge, o camareiro de Hitler. O Führer estava sentado numa cadeira: havia dado um tiro na boca. Eva estava estendida num divã. Tirara os sapatos, arrumando-os junto ao sofá. O rosto de Hitler estava coberto de sangue. Eva pusera um vestido azul com gola e punhos brancos e tinha os olhos completamente abertos. Na sala havia um odor penetrante de cianureto, o veneno que ela havia ingerido’”.

Os dois corpos, enrolados em lençóis, foram levados até o jardim da Chancelaria, que continuava a ser intensamente martelada pela artilharia soviética. O motorista de Hitler encharcou com 200 litros de gasolina os dois corpos e ateou fogo. Os despojos incinerados do Führer e de sua agora mulher foram enterrados ali mesmo, saudados pelos canhões inimigos. “No fim da vida, Hitler matou pessoalmente talvez a única pessoa que realmente o amou e que, por causa disso, tenha amado”, encerra Joel Silveira.

É o fim dos tiranos. Assim foi com o ditador Augusto Pinochet, que governou o Chile com mão de ferro de 1973 a 1990, e terminou a existência respondendo a processos e sofrendo prisão. Assim foi com o ditador argentino Jorge Videla (1976 a 1981), que terminou seus dias numa cadeia nos subúrbios de Buenos Aires. Não foi diferente com Getúlio Vargas, o tirano que se suicidou quando já não era ditador e exercia um governo democrático. E não deixa de ser emblemático o desfecho da ditadura militar no Brasil, quando o general João Baptista Figueiredo se despediu melancolicamente do poder, deixando o Palácio do Planalto pela porta dos fundos.

Assim está na história: o tirano um dia paga pela sua tirania.

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* Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias

Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias com br

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Editorial do Estadão > O ‘STF Futebol Clube’ contra-ataca

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de fevereiro de 2026

O ‘STF Futebol Clube’ contra-ataca

A investigação sobre vazamentos na Receita repete o padrão de irregularidades sobre foro, imparcialidade e ritos processuais, aprofundando a crise de legitimidade da Corte. Editorial do Estadão:

Violação de sigilo fiscal é crime. Se servidores da Receita Federal acessaram dados protegidos de ministros do Supremo Tribunal Federal e seus familiares sem justificativa funcional e os repassaram a terceiros, devem responder nos termos da lei. O ponto controvertido, portanto, não é a investigação, mas o modo como está sendo conduzida, por quem e sobre quais fundamentos.

No sistema acusatório, a iniciativa investigativa cabe ao Ministério Público; a distribuição por sorteio é salvaguarda de impessoalidade. Mas a apuração do suposto vazamento nasceu por decisão de ofício do ministro Alexandre de Moraes, enxertada no chamado “inquérito das fake news”, aberto em 2019 como reação extraordinária a uma escalada atípica de ameaças a ministros. Mantido em sigilo desde então, o procedimento expandiu objeto, duração e alcance. A vinculação automática de fatos novos a esse guarda-chuva elástico, por “prevenção”, reforça a percepção de que um instrumento excepcional foi institucionalizado como via ordinária.

Em princípio, a apuração nem sequer deveria tramitar no Supremo, já que os investigados são servidores sem foro privilegiado. Ainda mais alarmante é a condição objetiva de parcialidade. O autodesignado relator conduz diligências, autoriza buscas e quebras de sigilo em investigação que envolve sua esfera familiar. A credibilidade de qualquer decisão judicial depende de que seu autor não ocupe, simultaneamente, a posição de investigador, juiz e parte interessada – muito menos de vítima.

Além disso, há indícios substanciais de desproporcionalidade. A auditoria da Receita, segundo informes oficiais, ainda estava em curso quando foram determinadas medidas amplas e duras, como buscas, afastamentos funcionais, apreensão de passaportes, recolhimento domiciliar e monitoramento eletrônico. A nota do Tribunal falou em “posterior vazamento” antes mesmo da quebra dos sigilos telemático e bancário dos investigados, medida indispensável para comprovar a circulação indevida de informações. Medidas cautelares são instrumentos de garantia, não de intimidação ou antecipação punitiva. Sua extensão e tempestividade precisam ser fundamentadas com precisão, sob pena de converter excepcionalidade em regra operacional.

Nada disso pode ser verificado sob o acúmulo de obscuridades procedimentais. Nas já corriqueiras queixas de bastidores à imprensa, ministros relataram desconforto com o pedido de rastreamento abrangendo cerca de cem pessoas, inclusive familiares, argumentando que tal requisição deveria partir da presidência da Corte e mediante provocação formal. A divulgação dos nomes dos investigados antes da conclusão definitiva dos trabalhos é medida heterodoxa. A transparência, como se vê, é seletiva.

O episódio não ocorre no vácuo. O “inquérito das fake news” tornou-se uma usina de um sem-número de providências de amplo alcance, sob sigilo prolongado e com concentração funcional incomum. O acúmulo de funções – instaurar investigações, conduzir diligências, julgar – passou de exceção defensiva a método recorrente. Ao mesmo tempo, ministros resistem a um código de conduta e a Corte enfrenta desgaste reputacional crescente, em razão da percepção pública da contemporização de conflitos de interesses, blindagem corporativista, medidas de exceção e perseguição a críticos e denunciantes. Quanto mais o “STF Futebol Clube” – nas palavras do ministro Flávio Dino – ataca, mais corrói o seu capital institucional.

Nada disso diminui a gravidade da circulação de dados fiscais sem base legal. A defesa da legalidade, porém, exige que a resposta judicial observe, ela própria, as regras do jogo. Apurar vazamentos é dever. Fazê-lo dentro das balizas institucionais é condição de legitimidade. Investigações devem ser firmes, mas também regulares; rigorosas, mas delimitadas; céleres, mas transparentes quanto aos seus fundamentos. Autoridade não se sustenta apenas por decisões substantivamente corretas, mas pela fidelidade aos limites que a Constituição impõe. O que passa disso é autoritarismo. O Direito é forma, e quando ela é atropelada, é lícito inferir que não se está buscando justiça, mas vingança.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com