Ideias & Lideranças
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quinta-feira, 26 de março de 2026
terça-feira, 24 de março de 2026
Criamos a categoria Delação Séria
Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 24 de março de 2026
Criamos a categoria Delação Séria
Por Fernando Gabeira (in blog)
O advogado de Daniel Vorcaro procurou a PF e disse que seu cliente queria fazer uma delação séria. São coisas do Brasil. A delação premiada existia em alguns países antes de chegar aqui. Tivemos várias. Mas, bem cedo, chegamos a essa categoria de delação séria, pois, como para muitas outras coisas no Brasil, temos uma versão leve. Sem açúcar, sem gordura, sem glúten, sem agrotóxicos.
Outro front bem brasileiro é o sigilo processual. A antiga canção diz: segredo é pra quatro paredes. No entanto um segredo guardado entre quatro paredes frequentadas por mais de 20 deputados é um segredo de mentirinha.
Vivemos o maior escândalo financeiro de nossa história. Cerca de R$ 40 bilhões serão pagos pelo Fundo Garantidor de Créditos. Outros bilhões foram para o espaço. Teoricamente, o esforço deveria se concentrar na recuperação dessa fortuna roubada. Mas vazaram conversas íntimas de Vorcaro com a namorada, e elas passaram a ser o centro das atenções.
É um sinal dos tempos, mas há um viés cultural. No passado, quando a imprensa profissional detinha a hegemonia, havia um filtro na divulgação das notícias. Hoje, com milhares de comunicadores nas redes sociais — muitos buscando aumentar sua audiência —, um diálogo íntimo empolga os seguidores. Simplesmente não há como controlar nosso ímpeto latino. Se o órgão sexual da mulher foi chamado, carinhosamente, de “peleleca” ou “cherolaine”, essas palavras estarão entre as trends dominantes na internet.
Segundo tenho lido nos jornais, Vorcaro fará uma delação tão séria que não pretende citar ministros do Supremo Tribunal Federal. Os R$ 130 milhões do contrato com a mulher de Alexandre de Moraes foram apenas para uma cartilha de compliance que, ironicamente, resultou na Operação Compliance Zero para botá-lo na cadeia. O dinheiro investido no resort em que familiares de Dias Toffoli tiveram participação era apenas um bom investimento — tão bom que empresas poderosas como a J&F também investiram. E o que foi destinado ao filho de Nunes Marques era apenas o reconhecimento ao jovem talento, como há muitos em Brasília, todos filhos de alguém importante na República.
São problemas que deveriam estar na pauta. Mas competem com outros, como as festas na casa de Trancoso. Foram trazidas algumas mulheres do Leste Europeu que não tinham a mínima ideia dos homens com quem festejariam. A grande expectativa são as fotos e vídeos dessas festas. Como se Vorcaro e seus convidados fossem descuidados o bastante para permitir isso. As pessoas estão sintonizadas no escândalo errado, o de Jeffrey Epstein, nos Estados Unidos.
Isso não significa que não tenha havido festas e, possivelmente, que as mulheres não tenham sido vítimas de algum tipo de exploração criminosa. Pode ser até que Vorcaro tenha instalado câmeras secretas em Trancoso. Mas por que usaria essa tática se possivelmente comprou a fidelidade de políticos e juízes com muito dinheiro?
A realidade sem festas — gente com pouca roupa, louras europeias beijando maduras autoridades republicanas — é apenas a realidade de milhares de pequenos investidores roubados. Não podemos nos afastar dela no exame da responsabilidade de Vorcaro e seus cúmplices na política e na Justiça.
Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br
domingo, 22 de março de 2026
Habermas e o destino da nossa democracia
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de março de 2026
Habermas e o destino da nossa democracia
Habermas saiu de cena exatamente quando o Brasil demonstra o que acontece quando os guardiões da Constituição decidem que o silêncio dos outros é condição para sua própria segurança. Francisco Razzo para a Gazeta do Povo:
Jürgen Habermas morreu em 14 de março de 2026, em Starnberg, aos 96 anos, levando consigo a última voz do Iluminismo disposta a defender, com rigor sistemático, que a democracia só funciona onde o discurso público é livre. Coincidência infeliz, Habermas saiu de cena exatamente quando o Brasil demonstra o que acontece quando os guardiões da Constituição decidem que o silêncio dos outros é condição para sua própria segurança.
Na mesma semana, um ministro do Supremo Tribunal Federal ordenou busca e apreensão na residência de um jornalista que havia denunciado o uso irregular de veículos oficiais pela família de outro ministro do STF. A democracia perdeu seu teórico mais consequente enquanto um dos nossos tribunais mais poderosos produzia, por decreto judicial, um efeito de intimidação sobre a imprensa crítica.
A decisão do ministro Alexandre de Moraes contra o jornalista Luís Pablo revela sua intenção pelo que escolhe atacar. O sigilo de fonte, corolário elementar da liberdade de imprensa em qualquer manual de Direito Constitucional, torna-se aqui obstáculo a ser removido por decreto. O raciocínio é o seguinte: o Estado não pode calar o jornalista antes da publicação sem incorrer em censura prévia, inconstitucional e politicamente custosa; pode, contudo, vasculhar sua casa depois, expor sua fonte e tornar a reportagem crítica uma aventura que nenhum servidor público com bom senso vai repetir. Censura prévia e intimidação retrospectiva produzem o mesmo silêncio. Diferem apenas no timing e na plausibilidade negável.
Habermas descreveu esse mecanismo como “colonização do mundo da vida pelo sistema”. O jornalismo crítico funciona segundo uma lógica interna orientada à verdade, e essa lógica exige a proteção da fonte como condição fundamental. Quando o Judiciário invade essa esfera com seus critérios instrumentais – utilidade, controle, preservação de posições –, corrói a condição de possibilidade da própria democracia que diz proteger. O que resta não é tirania; é algo mais estável e mais difícil de combater – uma ordem jurídica que funciona e, funcionando, protege a si mesma.
O problema filosófico central aqui é epistêmico, anterior ao jurídico. A liberdade de expressão existe para proteger o inconveniente, porque o conveniente dispensa proteção. Mill formulou o argumento definitivo: mesmo quando uma opinião é falsa, suprimi-la priva a sociedade de confrontar o erro com a verdade e, por isso, de compreender a verdade com firmeza. A intervenção contra Luís Pablo vai além de atingir um repórter: priva o espaço público de saber o que servidores honestos sabem sobre seus superiores e transforma o funcionário que cumpre o dever de informar em suspeito potencial de investigação.
O argumento da defesa institucional é bem previsível: o Judiciário tem o dever de investigar. Tem, mas a questão é outra. Quando um ministro do STF usa o aparato judicial para apurar a origem de uma denúncia sobre sua própria família, a imparcialidade da investigação deixa de ser suposição razoável e passa a ser requisito ausente. O conflito de interesses está inscrito na estrutura do ato e não precisa ser demonstrado por intenção subjetiva, porque é consequência objetiva da posição institucional do investigador.
A tirania se distingue da política legítima pela racionalização que produz para o que faz. O tirano age com a lei. Instrumentaliza a lei ao interesse particular enquanto declara agir pelo bem comum.
Decisões judiciais carregam a aparência formal da legalidade, o que torna o critério de forma insuficiente para avaliá-las. O critério tem de ser substantivo: a quem serve a decisão? Quem ela protege? Quem ela expõe? No caso de Luís Pablo, a resposta é estruturalmente constrangedora: um ministro usou o poder judicial para descobrir quem o denunciou. A mensagem que isso envia a cada servidor público do país dispensa interpretação – informações que constrangem os poderosos têm um custo pessoal para quem as repassa. A imprensa capitula pela acumulação silenciosa desses custos, até o ponto em que a autocensura torna o decreto desnecessário.
Em A Teoria da Ação Comunicativa, Habermas pressupõe um ideal de racionalidade que a experiência histórica contradiz com regularidade. Não sou idealista e me afasto de Habermas aqui. A “situação ideal de fala” – contexto sem coerção onde os melhores argumentos vencem – é a ficção que o século 20 desmentiu em pelo menos duas ocasiões industriais. O próprio Habermas terminou por admitir, nos anos finais de sua trajetória, que o Estado liberal democrático depende de recursos morais que sua própria estrutura procedimental não consegue regenerar. Seriam as patologias da razão?
Foi essa concessão que o levou ao diálogo com Ratzinger em 2004, publicado como Dialética da Secularização – um texto em que um iluminista confesso e um cardeal chegaram mais perto da verdade sobre os fundamentos da democracia do que a maioria dos constitucionalistas progressistas que hoje invocam a democracia para legitimar o controle judicial do discurso público.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
sexta-feira, 20 de março de 2026
Adianta matar líderes xiitas que cultivam o martírio, como os iranianos?
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de março de 2026
Adianta matar líderes xiitas que cultivam o martírio, como os iranianos?
O aspecto religioso não deve ser subestimado, mas também não deve paralisar as ações para enfrentar a mentalidade de seita que rege dirigentes. Vilma Gryzinski:
Jornalistas ocidentais gostavam de Ali Larijani porque ele falava bem inglês, tinha estudado ciências da computação e filosofia e escrito um livro sobre Kant. Parecia alguém com quem podiam conversar e até relevar o fato de que era também sanguinário e fanático, responsável por milhares de mortes de seu próprio povo. Se foi lícito ou não matá-lo, juntamente com o filho e mais um punhado de assessores e seguranças, como se viu ontem no enterro, envolve questões éticas e legais transcendentais. Mas implica também numa pergunta de ordem mais utilitarista: adianta matar líderes identificados com um ramo da religião muçulmana que, tendo sido minoritário e perseguido ao longo dos séculos, não só cultiva o martírio como o considera uma forma desejável de apressar o fim do mundo, tal como o entendem os xiitas?
Israel, obviamente, não tem esses dilemas. Poucas horas antes de Larijani ser enterrado, aumentou a lista dos chefões eliminados com Ismail Khatib, o ministro responsável por todas as operações de inteligência, no Irã e no exterior.
Não que os líderes israelenses desconheçam os meandros do radicalismo xiita, com o qual lidam diretamente há décadas no Líbano do Hezbollah. Nem que ignorem a hipótese de que a sucessiva eliminação de grandes nomes do regime, iniciada com a do líder máximo, Ali Khamenei, em 28 de fevereiro, pode promover substitutos mais radicais ainda.
Dessa vez, Israel resolveu correr esse risco. Os resultados ainda não podem ser cravados, apesar da extensa destruição infligida às estruturas de ataque e defesa do Irã e à dizimação de suas lideranças, na casa de vários milhares, ambos os processos ainda em andamento. O próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deixou entrever o objetivo: “criar as condições” para que o povo iraniano mude o destino do país, desafiando a capacidade de repressão do regime, ainda forte o suficiente para manter os protagonistas dos protestos do começo do ano trancados em casa, apenas soltando gritos de alegria quando um de seus algozes é atingido, como aconteceu no caso dos “dois Alis”, Larijani e o próprio Khamenei.
A VIRTUDE DO SOFRIMENTO
Os nomes não são coincidência: louvam a figura mais fundamental do xiismo, Ali, primo e genro de Maomé. Ele e seus filhos, Hussein e Hassan, foram mortos nas disputas internas pelo poder posteriores à morte do profeta, no século VII da nossa era. Em resumo, as figuras mais veneradas do xiismo, as quais todos querem emular, foram mártires – não como os santos originais do cristianismo, que aceitavam resignadamente a própria morte, mas combatentes, tombados de espada na mão.
“A história subsequente das várias seitas xiitas foi de perseguição, exílio e morte nas mãos de qualquer que fosse o grupo dominante na época. Isso se transformou num entranhado entendimento da virtude de sofrer por suas crenças, inexistente em versões mais triunfalistas do Islã”, escreveu no Telegraph o acadêmico paquistanês Michael Nazir-Ali.
O autor de uma perspectiva única para o entendimento de questões religiosas: é cristão, originário de um país esmagadoramente muçulmano, com uma grande minoria xiita. De bispo da Igreja Anglicana, transitou para o catolicismo, foi recebido como sacerdote e hoje dirige um centro de estudos em Oxford.
A corrente xiita dominante no Irã também cultiva uma visão escatológica, ou seja, referente à teologia do fim do mundo. Acredita que o último dos doze líderes religiosos enviados ao mundo, chamado de Mahdi, está oculto desde seu “desaparecimento”, no ano 874. Reemergerá como uma espécie de messias muçulmano, quando o mundo inteiro será convertido à religião e governado por seus 313 generais.
Alguns xiitas dessa corrente acham até que o retorno do Mahdi deve ser apressado e quanto mais conflitos houver, melhor, pois antecipam a batalha do fim do mundo. São chamados de “apressacionistas”. O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad era dessa linha e chegava a deixar um lugar desocupado na mesa para o caso do Mahdi, de repente, aparecer. Israel apressou sua ida ao encontro das 72 virgens de pele translúcida prometidas aos mártires, ou shahids.
COMPLEXO DE MARTÍRIO
Kant, objeto dos estudos de Ali Larijani, que na prática era o principal executivo do regime, definitivamente não combina com visões desse tipo, mas é ela que predomina no Irã.
“O que o Ocidente e seus aliados precisam compreender é que a retórica procedente de Teerã é influenciada pelo complexo de martírio. Não é um blefe ou uma posição desafiadora, mas profundamente enraizada na psicologia xiita, entendida à luz das circunstâncias contemporâneas”, escreveu Nazir-Ali.
“Se o regime vier a cair, seja em consequência da guerra aérea ou das ‘botas no chão’, os revolucionários islamistas já têm pronta uma resistência infinita ao que quer que seja que tome seu lugar”.
Alguma perspectiva menos pessimista?
Disse o especialista paquistanês radicado na Inglaterra: “Existe um grande número de pessoas no Irã – estudantes, mulheres, minorias, acadêmicos e até elementos da classe comercial – que desejarão cooperar na emergência de um novo Irã. Ela terá que ser ancorada na antiga civilização do Irã, da qual tirará inspiração para a tarefa urgente de reconstrução quando os aiatolás caírem”.
Obviamente, se caírem.
Mesmo intimidada e sem condições de sair às ruas, a população que execra o regime está procurando fazer a sua parte. Foi por uma pista dada por um iraniano anônimo que Israel soube onde se escondia – numa barraca, numa área cheia de árvores, tentando enganar os mísseis – o chefe da milícia Bassij, Gholamreza Suleimani, responsável direto pela pior parte dos massacres dos manifestantes no começo do ano. A informação consta de uma reportagem espetacular do Wall Street Journal sobre como os líderes iranianos estão sendo eliminados sistematicamente, inclusive nos centros esportivos e estádios onde integrantes do segundo escalão se esconderam depois dos ataques iniciais seguindo um plano previamente concebido. Em uma semana, estavam todos mortos.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
Vorcaro terá incentivos para incluir na delação juízes...
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de março de 2026
Vorcaro terá incentivos para incluir na delação juízes do tribunal em que seu caso será julgado?
Delação ‘seletiva’ é, por si só, um crime em nosso ordenamento legal e é um absurdo que isto seja abertamente considerado. Fernando Schüler para o Estadão:
Todos os dobramentos agora do caso Banco Master se voltam para a delação de Daniel Vorcaro. A provável delação vai acontecer, já houve a primeira reunião do seu advogado com o ministro André Mendonça, não há outra alternativa. A questão básica que o País acho que começa a se perguntar é que tipo de delação será essa. É incrível que interlocutores de Daniel Vorcaro, isso já sai inclusive em matéria de jornalismo investigativo, falam abertamente numa delação seletiva. Ora, não existe delação seletiva no direito brasileiro. Nos regramentos de acordos de delação cabe o dever de verdade a quem faz a delação e cabe a imparcialidade ao sistema de Justiça, aí órgãos de investigação - Polícia Federal, o tribunal que conduz a investigação, que é o Supremo Tribunal Federal, a PGR, enfim, todo o sistema de Justiça do país.
Então é absurdo. A mera menção a uma delação seletiva já é um completo absurdo. Entre nós, no Brasil, não seria grande novidade, mas um absurdo.
Mas na questão central, o núcleo de poder estando no próprio Supremo Tribunal Federal, que é o tribunal que conduz a investigação, é que houve toda uma blindagem nos últimos meses em torno do Supremo em relação a essa questão. Nenhuma investigação encaminhada pela PGR em relação aos contratos da esposa do ministro, de R$ 129 milhões, da compra das cotas do resort. Hoje mesmo, nós estamos aqui na quinta-feira, tivemos este veto do ministro Gilmar Mendes à abertura do sigilo bancário do fundo Arleen, que comprou cotas do resort do ministro Dias Toffoli. Nós tivemos aquela investigação aos funcionários da Receita Federal, que eventualmente teriam acessado contas de ministros e assim por diante. Isso não se confirmou até agora. Há um completo bloqueio à CPMI, à abertura de uma CPMI no Congresso Nacional, que já tem as assinaturas da minoria, as assinaturas necessárias sobre o caso Master. Enfim, todas as tentativas, todos os espaços que tornariam possível uma investigação dos ministros, dos integrantes do Supremo Tribunal Federal, foram solenemente bloqueados. E esse é o histórico, se a gente for um pouco para trás, o caso Tagliaferro, que eu mencionei aqui algumas vezes, foi o mesmo caso.
Então, a pergunta básica é: qual seria um incentivo, qual seria a lógica de um acordo de delação premiada de um réu, de um investigado, em relação aos integrantes do tribunal aonde ele será julgado? Qual o incentivo para o seu advogado, enfim, para a sua equipe, para ele mesmo contar tudo que é importante, que está no centro, digamos assim, das estruturas de poder no País, que é o Supremo Tribunal Federal, em relação a ministros que, logo ali adiante, irão julgar o seu próprio caso?
Ou seja, há um evidente conflito de interesses nisso. Eu disse várias vezes aqui: por isso, esse caso deveria estar na primeira instância. Muita gente me retrucou, muita gente argumentou, não, mas a primeira instância não tem força para isso. Mas é verdade, a primeira instância tem uma fragilidade, os processos podem ser revisados, anulados, como aconteceu recentemente no Brasil, mas a questão central aqui não é força nesse momento. É uma coisa chamada imparcialidade. A questão aqui fundamental é a ausência de conflito de interesse. É alguém, um réu, um investigado, não ser obrigado ou não estar na condição de fazer uma delação relativamente a ministros ou juízes do Supremo Tribunal, no qual ele será julgado. Essa é a questão central do País, mas questão extremamente incômoda do ponto de vista da estrutura, não só do Poder Judiciário, mas estrutura republicana, enfim, da democracia brasileira, porque, se isso não for esclarecido, se essas questões dos contratos, do conflito de interesse, da imparcialidade, de uma suposta, uma acusação de advocacia administrativa, qual é o sentido dessa delação?
O outro caminho seria CPMI no Congresso Nacional, mas, aí, você tem um muro que é a enorme gaveta do senador Davi Alcolumbre. Se o país não encarar com seriedade esta questão, seja pela via legislativa, seja pela via da Procuradoria-Geral da República, ou a retomada desse julgamento na primeira instância, por onde que nós vamos caminhar? O que é inaceitável entre nós, em qualquer regime republicano, em qualquer democracia normal, em qualquer Estado de direito, é uma delação premiada seletiva. Vamos acompanhar.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
quarta-feira, 18 de março de 2026
'A Sedução de Vorcaro', por Fernando Gabeira
Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 17 de março de 2026
A Sedução de Vorcaro
Por Fernando Gabeira (in blog)
A festinha promovida por Daniel Vorcaro em Londres já foi muito abordada nas redes sociais. Não voltarei a ela para fazer considerações morais. Ela custou US$ 640 mil, consistiu na degustação de uísque Macallan, charutos e alguma comida. Deve ter sido financiada com dinheiro roubado aos aposentados e pequenos investidores.
Volto a essa festa de que participaram Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski, entre outros, para reafirmar uma intuição que já expressei em livro e debates pelo Brasil. No meu entender, a política brasileira se degradou no momento em que dependeu de caras campanhas pela televisão. Até então, os eleitores financiavam os candidatos com sorteios, festas onde se cobrava um pouco mais pela caipirinha. Essa forma mais ingênua foi superada quando se precisou de muito dinheiro para pagar marqueteiros e suas superproduções televisivas.
O convívio com empresários que mantinham negócios com o governo ou gostariam de ter passou a ser um dado da realidade. Para vencer, era importante ter dinheiro, e muito, e a relação com os eleitores foi relativizada. Políticos que eram funcionários públicos com salário apenas digno para alguém da classe média começaram a emular seus interlocutores milionários. O caso mais típico foi Sérgio Cabral, com origem modesta, mas que, de repente, passou a debater a qualidade dos mais caros restaurantes europeus e desejou abertamente um helicóptero igual ao de Eike Batista, bilionário na época.
Creio que Vorcaro intuitivamente compreendeu isso. Seduzir políticos e juízes para o consumo de luxo seria uma forma de viciá-los num estilo de vida de que não poderiam mais se afastar. Toffoli, com seu resort, já estava ganho para essa nova vida. Moraes, com o contrato milionário da mulher com o Master, mansão cara e viagens a Dubai, também já tinha acesso às altas esferas de consumo. Hugo Motta certamente avança de bom grado para esse mundo.
No entanto o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, são apenas funcionários públicos. Eram os mais vulneráveis a esse mundo fantástico de uísque e charuto caríssimos, clubes luxuosos. Certamente,Vocaro contava agradar seus amigos milionários e seduzir aqueles que viviam numa esfera mais próxima das pessoas comuns.
É muito difícil o antídoto para esse tipo de sedução, excluída, é claro, a vigilância sobre a evolução da riqueza. No entanto há certas ironias nisso tudo. Vorcaro alugou o Hotel Four Seasons em Taormina, na Sicília, para dar uma festa milionária. Antes dele, o mesmo hotel foi cenário de uma série de TV chamada “The white lotus”. O tema da série era exatamente o vazio e o tédio da vida das grandes fortunas que transitavam por ali.
Mas não podemos contar com essa verdade profunda. Ficar muito rico ainda é um sonho majoritário, muito mais sedutor que servir humildemente ao país. Daí a força dos Vorcaros da vida.
Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br
Questão de humanidade: prisão domiciliar para Bolsonaro
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de março de 2026
Questão de humanidade: prisão domiciliar para Bolsonaro.
Exceto para militantes mais empedernidos ou análises contaminadas pela ferocidade da polarização, há elementos suficientes para justificar tratamento especial ao ex-presidente. Editorial do Estadão:
O gravíssimo estado de saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro recolocou diante das instituições brasileiras um dever de maturidade: combinar rigor jurídico com serenidade. Internado em unidade de terapia intensiva com broncopneumonia e portador de um histórico extenso de cirurgias e internações, Bolsonaro enfrenta uma condição clínica que exige extrema cautela. E, acima de tudo, requer que aceitemos o óbvio: chegou o momento para que se converta sua prisão em regime domiciliar.
Exceto para militantes mais empedernidos ou análises contaminadas pela ferocidade da polarização, há elementos suficientes para justificar tratamento especial ao ex-presidente. Desconte-se a grita de oportunistas que pretendem capitalizar eleitoralmente o estado de saúde de Bolsonaro ou usá-lo para atacar o Supremo Tribunal Federal (STF). À parte as paixões políticas, torna-se difícil sustentar a permanência dele em regime fechado.
Convém recordar que Jair Bolsonaro não está preso por acaso nem por capricho de adversários. Foi condenado a 27 anos de prisão por liderar uma organização criminosa voltada à tentativa de golpe de Estado e à subversão da ordem democrática. Trata-se de crime de extrema gravidade institucional. Durante meses, Bolsonaro e aliados empenharam-se em desacreditar o sistema eleitoral, mobilizar setores militares e estimular uma ruptura com o resultado das urnas. A responsabilização judicial desses atos é um marco na história republicana.
Recorde-se também que o próprio Bolsonaro contribuiu para chegar a essa situação. Ao longo do processo, desafiou decisões judiciais, estimulou confrontos com as instituições e incentivou mobilizações destinadas a constranger o STF. Em diversas ocasiões, comportou-se como quem acreditava poder tensionar indefinidamente os limites da lei sem sofrer consequências. Como já observou este jornal, Bolsonaro pareceu pedir para ser preso, tamanha a sequência de provocações e desobediências às determinações da Justiça.
Nada disso muda agora. A doença não altera a gravidade dos crimes cometidos nem autoriza aliados a transformar o quadro médico em instrumento político. Há quem veja na fragilidade física do ex-presidente uma oportunidade de mobilização emocional e dividendos eleitorais. Trata-se de cálculo político cristalino. E cínico.
Reconhecer esse oportunismo, no entanto, não dispensa o Estado de agir com prudência e humanidade. A legislação brasileira admite prisão domiciliar quando as condições de saúde do detento são incompatíveis com o ambiente carcerário ou exigem cuidados médicos permanentes. Trata-se de dispositivo legal aplicado cotidianamente, não de privilégio.
Há ainda uma dimensão institucional que recomenda cautela. A prisão de um ex-presidente da República nunca é um fato trivial. O Estado deve aplicar a lei com firmeza, mas sem ignorar as circunstâncias excepcionais que cercam alguém que ocupou o cargo máximo do País. Há precedentes para tanto. Quando o ex-presidente Fernando Collor foi condenado e iniciou o cumprimento da pena, o STF avaliou seu estado de saúde e definiu novas condições de encarceramento. Hoje cumpre prisão domiciliar justamente por se entender que sua condição clínica é incompatível com o regime fechado.
Se laudos médicos consistentes indicarem situação semelhante no caso de Bolsonaro, a concessão de prisão domiciliar não representará capitulação política nem absolvição disfarçada. Será apenas a aplicação da lei em sua dimensão mais elementar, isto é, aquela que exige que a punição conviva com a dignidade humana.
Bolsonaro deve cumprir a pena imposta pela Justiça, decorrente de crimes graves contra a democracia. Mas isso não dispensa o Estado brasileiro de agir com humanidade. Se o quadro clínico assim o exigir, a prisão domiciliar poderá ser a solução juridicamente correta e institucionalmente prudente – não para livrá-lo da lei, insista-se, mas para demonstrar que, no Brasil, até mesmo a punição de um ex-presidente permanece submetida à lei, e não ao impulso da vingança.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
terça-feira, 17 de março de 2026
'Brasil vai repetir o erro?', por Marcos Cardoso
Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 16 de março de 2026
Brasil vai repetir o erro?
Por Marcos Cardoso*
Essa tal de polarização deixou pessoas tão embotadas e confusas a ponto de preferirem se molestar e rejeitar o que foi realizado em seu próprio benefício. Algumas delas preferem continuar adorando aqueles machos que sempre desprezaram as mulheres, mas insistem em não apoiar quem lançou um pacto para prevenir todas as formas de discriminação, misoginia e violência de gênero contra mulheres e meninas.
Um perfil nas redes sociais confessa: é extremamente broxante ver que existe grande parte da população brasileira considerando “devolver” o Brasil para a família que contribuiu diretamente para a morte de 700 mil pessoas na pandemia; que recolocou o Brasil no mapa da fome; que atacou a cultura e a ciência; que tentou acabar com a democracia com um golpe de estado; que minou o sistema da justiça e a Polícia Federal para acabar com investigações; e que sempre atacou os direitos das minorias.
Outro nota que metade do país quer a volta da fila do osso só para tirar do poder quem reduziu a desigualdade e levou o Brasil ao menor índice de desemprego da história; que prefere tirar do poder quem quer acabar com a escala 6×1 para trazer de volta quem tirou os seus direitos trabalhistas; que está insatisfeita com quem zerou o imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil e trazer de volta um governo que reclamava de empregada doméstica na Disney.
Se é politicamente correto defender o feminismo, muitas mulheres preferem ficar do lado de quem considera que ter uma filha mulher foi “uma fraquejada” e desdenha do movimento feminista dizendo que não está preocupado com mulher de braço cabeludo.
Se é politicamente correto defender os índios e garantir o que lhe são de direito, porque são os donos originais das terras, porque foram chacinados e a maioria dizimada pelos colonizadores, pelos latifundiários, pelos madeireiros, pelos mineradores e pelo próprio Estado, há quem prefira quem defende que índio não merece um centímetro de terra e que merece é comer capim, “para manter as suas origens”.
Em agosto de 2018, esta coluna fez os seguintes questionamentos:
Você votaria num candidato a presidente da República que nega a história do país que pretende dirigir? Que nega que tenha havido ditadura militar e que, ao mesmo tempo, tem como herói um oficial militar que é símbolo da tortura aos presos políticos da ditadura? Você votaria num candidato que nega a maior ferida da história brasileira, a escravidão, raiz das desigualdades e razão vital da nossa cruel sociedade do atraso?
E questionava:
Você votaria num candidato que desdenha da colega dizendo que só não a estupra porque a acha feia? Que acha normal as mulheres ganharem menos do que os homens? Votaria num candidato que em 28 anos de mandato como deputado federal conseguiu aprovar apenas dois projetos de lei de pouca relevância e que nesse longo período não aprendeu o básico, como procurar entender o funcionamento da economia do Brasil real? E que não fez nada para tentar melhorar a segurança do seu estado, o Rio de Janeiro?
Por fim:
Você votaria num candidato que prega honestidade, mas que em quatro anos multiplicou o próprio patrimônio por mais de 150%, segundo declaração no TSE, sem conseguir explicar como realizou esse extraordinário milagre?
A maioria votou nesse candidato e deu no que deu. O Brasil não vai repetir o erro. Ou vai?
(Citando @brasilforadacaverna e @livrespensadores)
Foto: Agência Senado
Texto e imagem reproduzidos do site: www destaquenoticias com br
sábado, 14 de março de 2026
'Para onde vai o Caso Master', por Fernando Gabeira
Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 13 de março de 2026
Para onde vai o Caso Master
Por Fernando Gabeira (in Blog)
Temos muitos temas estratégicos para discutir. E outros urgentes, como o impacto da guerra e do fechamento do Estreito de Ormuz em nossa economia. No entanto, será difícil avançar em algo enquanto a atenção nacional estiver concentrada no escândalo do Banco Master.
Escândalos financeiros de maior volume, como foi o caso de Bernie Madoff nos EUA, foram muito discutidos, mas não conseguiram monopolizar o debate político. O caso brasileiro é crucial, porque envolve autoridades políticas, financeiras e judiciárias. Mais especificamente, algo inédito na História: dois ministros do Supremo Tribunal Federal.
Existe uma intensa batalha de bastidores entre avançar nas investigações ou enterrá-las. Ela se manifesta em inúmeros movimentos táticos. Houve um erro, por exemplo, na divulgação de diálogos íntimos de Daniel Vorcaro. A dramatização desse erro indiscutível pelo ministro Gilmar Mendes mostra que a investigação corre risco.
O erro se deu pela incapacidade de separar as frases íntimas das de interesse político. Ou, melhor, os diálogos que são ao mesmo tempo íntimos e de interesse público. Entre esses, destaco os momentos em que ele conta seus encontros com autoridades brasileiras, a reunião com Hugo Motta e Alexandre de Moraes, o momento em que o ministro o visita em Campos do Jordão.
Mais interessante, nesses diálogos íntimos de interesse público, é a confissão da compra de propriedade em Miami, que ficaria no nome de um russo para despistar. As propriedades de Vorcaro são de interesse público porque podem ressarcir os prejuízos que ele deu. Nem todos esses prejuízos foram cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Diz-se que apenas 30% dos celulares de Vorcaro foram periciados. Até o momento, portanto, a luta mais decisiva a respeito das investigações é sobre avançar ou não sobre os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
O ministro Toffoli deixou muitos flancos. Tentou controlar as investigações, decretando sigilo e escolhendo peritos, mas acabou sendo derrubado da relatoria do caso por um relatório da Polícia Federal (PF). Toffoli vendeu uma parte de seu resort para o cunhado de Daniel Vorcaro. Outra parte, a vendeu para um advogado da J&F, a mesma empresa que teve multa de R$ 10,3 bilhões anulada por ele.
No dia de sua primeira prisão, Vorcaro trocou mensagens com Alexandre de Moraes, que aparece como seu amigo nos diálogos. A mulher de Moraes, Viviane Barci, tem um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master. Segundo ela, sua tarefa foi formular o compliance do Master. A operação que prendeu Vorcaro tem o nome de Compliance Zero.
Quais os caminhos possíveis da investigação?
Independência da Polícia Federal para seguir, apesar das consequências. Isso vai depender de algumas variáveis. O ministro André Mendonça quer uma PF sem influência de seus chefes máximos. Conseguirá? Por outro lado, o próprio Mendonça resistirá à pressão do STF? Na célebre reunião em que os ministros definiram a solidariedade a Toffoli, Mendonça também embarcou no todos por um, um por todos.
O procurador-geral nem é bom lembrar. Como se diz na gíria, ele é assim com os homens, isto é, dificilmente quebrará os laços de amizade que o levaram ao posto.
Resta um grupo de senadores que se articula para fazer uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). O problema das CPIs é que dependem de Davi Alcolumbre. E ele jamais as permitirá, porque é um investigado em potencial. O instituto de aposentadoria do Amapá (Amprev) investiu R$ 400 milhões em ativos do Master. O responsável foi indicado por Alcolumbre. Como ele poderia ter descoberto o negócio estando tão longe? Vorcaro frequentou a casa de Alcolumbre. Não teriam falado sobre isso? Só a investigação poderá precisar.
Resta a jogada final: delação de Daniel Vorcaro. É algo visto com muito entusiasmo. Mas o depoimento tem de ser colhido com independência. Num sistema tão complexo, é possível produzir uma delação premiada que alivie Vorcaro, defina alguns bodes expiatórios e salve todos os graúdos.
Tudo é possível no Brasil, daí a singularidade de nossa vida. Ela é um sobressalto. Isso não é razão para tentar um bom resultado em todas as etapas.
Em caso de investigação, que seja séria e fundamentada; em caso de delação premiada, que seja examinada com lupa.
É preciso esperar, também, que a justiça funcione na condenação dos culpados. Ela costuma ser longa e, às vezes, branda. No caso dos políticos, isso é atenuado pelas eleições. Os próprios eleitores assumem seu papel, como foi no caso da CPI dos Sanguessugas: mais de 90% dos envolvidos foram derrotados nas urnas.
Com domínio de uma grande parte do orçamento federal, os políticos criaram uma inesgotável fonte de propaganda. Pode ser que isso os salve. Mas a bancada do Master foi ativa, tentando elevar o teto coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (Ciro Nogueira) e demitir funcionários do Banco Central (todos os líderes do Centrão).
Deveriam ser investigados, pois foram o braço parlamentar de um grande prejuízo para os brasileiros, não só os que investiram no Master, mas milhares de aposentados.
Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br
quinta-feira, 12 de março de 2026
A corrupção volta de forma nova e intensa com a quebra do Master
A corrupção volta de forma nova e intensa com a quebra do Master
Por Fernando Gabeira (In Blog)
No momento, estamos imersos num escândalo. Nem sequer temos tempo de pensar noutros temas que pedem passagem. Como a defesa nacional, diante de um mundo dominado pela força bruta. Ou mesmo as mudanças no universo do trabalho, ditadas pela ascensão da inteligência artificial.
Existe uma sensação de que algo importante pode acontecer na esteira do escândalo. Velhos marinheiros se lembram da Lava-Jato. Falava-se em passar o país a limpo, e as expectativas se frustraram; a própria operação foi enterrada no governo Bolsonaro.
A corrupção volta de forma nova e intensa com a quebra do Banco Master. É preciso, de novo, conter as expectativas e corrigir erros do passado, como a divulgação de diálogos íntimos. Quando se trata de político envolvido em escândalo, não há muito o que fazer. Uma vez expostos, dificilmente vencem de novo as eleições. Pelo menos essa foi a experiência da CPI dos Sanguessugas, parlamentares que superfaturavam a compra de ambulâncias.
Mas como proceder quando suspeitas recaem sobre ministros do Supremo? Um longo relatório da Polícia Federal (PF) foi enviado à Corte denunciando a ação de Dias Toffoli. Numa reunião já histórica, o STF respaldou Toffoli, e um ministro chegou a classificar o relatório de “lixo”.
Telefones periciados pela PF sugerem que Alexandre de Moraes falou muitas vezes com Vorcaro. Moraes nega, apesar do contrato de R$ 130 milhões do Banco Master com o escritório de sua mulher. Relatórios e perícias da PF foram usados para o STF condenar centenas de pessoas. No momento em que os ministros são suspeitos, esse trabalho não vale. É descartado.
Como avançar nessas circunstâncias? Seria preciso investigar a ação dos ministros a partir dos dados da PF. Ela não avançará sozinha. No entanto o procurador é próximo dos ministros e não criará nenhum inquérito contra eles. Resta o Senado, mas a maioria dos senadores é muito prudente para iniciar um processo de impeachment. Será então que a sociedade está inteiramente desamparada, a ponto de não esperar nada?
Tenho falado na proposta de emenda constitucional do jurista Walter Maierovitch, que renova o Supremo garantindo o direito dos atuais ministros. Eles ficariam em disponibilidade, mas um novo STF poderia surgir com regras mais rígidas ou mesmo mandatos.
Mas essa proposta também tem probabilidade reduzida de ser aprovada. Na verdade, estamos num impasse, e não há outro caminho, exceto esperar investigações sérias e uma possibilidade de delação premiada de Daniel Vorcaro para que o processo seja concluído com êxito.
Não haverá grandes cataclismos. Apenas uma ponta de esperança de alguma reforma que o grande escândalo do Master pode inspirar.
Será necessário também definir como os milhares de aposentados podem ser ressarcidos do golpe. Se contarmos o rombo nas previdências do Rio e do Amapá, se levarmos em conta o assalto àqueles descontos ilegais no INSS, os mais velhos foram as grandes vítimas da sequência de escândalos.
Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br
Menino iraniano, acenando para a mãe, antes de morrer em bombardeio
Publicação compartilhada do site ICL NOTÍCIAS, de 11 de março de 2026
Foto de Mikaeil Mirdoraghi foi feita horas antes de ataque a escola em Minab e se tornou símbolo da guerra
Uma foto de um menino iraniano acenando para a mãe antes de sair para a escola se tornou um dos símbolos mais compartilhados da guerra entre o Irã e os Estados Unidos. A imagem mostra Mikaeil Mirdoraghi poucos momentos antes de ir para a aula no dia 28 de fevereiro, quando um bombardeio atingiu uma escola na cidade de Minab, no sul do país. Segundo o jornal The New York Times, o ataque matou 175 pessoas, a maioria crianças.
Em entrevista ao jornal iraniano Hamshahri, a mãe do menino contou que o filho pediu para ser fotografado antes de sair de casa naquela manhã. Ela também relatou as últimas horas de vida da criança. “Na noite anterior, ele disse: ‘Mãe, a comida que você fez tem gosto de paraíso’”, afirmou.
Segundo o relato, Mikaeil ainda brincou de guerra com o irmão antes de dormir, dizendo: “Eu sou o Irã e você é os Estados Unidos”. Durante a brincadeira, comemorou: “O Irã venceu”.
O nome do menino aparece nas listas de vítimas divulgadas pela imprensa iraniana, que passou a tratar as crianças mortas no ataque como “mártires”.
A fotografia em que Mikaeil se despede da mãe começou a circular amplamente nas redes sociais e foi compartilhada por perfis ligados ao governo iraniano, tornando-se um símbolo da tragédia. Ferramentas de verificação indicaram alta probabilidade de que a imagem seja autêntica.
Buscando um culpado
Uma investigação publicada pelo Times aponta que vídeos e imagens analisados indicam que um míssil americano caiu nas proximidades da escola pouco antes da explosão. Segundo o veículo, o ataque teria como alvo uma instalação militar próxima, mas atingiu a região da escola primária. O levantamento reúne imagens de satélite, registros em vídeo e depoimentos de testemunhas.
De acordo com a reportagem, apenas os Estados Unidos possuem mísseis Tomahawk entre os países envolvidos diretamente no conflito com o Irã. Já a agência Reuters revelou que uma investigação preliminar conduzida pelos próprios militares americanos indicou que forças dos EUA provavelmente foram responsáveis pelo ataque que atingiu o prédio escolar.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o caso está sendo investigado. Em declarações anteriores, ele chegou a sugerir que o próprio Irã poderia ter sido responsável pela explosão — versão rejeitada pelas autoridades iranianas, que classificam o episódio como crime de guerra.
Enquanto a disputa de narrativas continua, a imagem de Mikaeil acenando antes de sair para a escola se espalhou pelo mundo como retrato de uma das faces mais brutais do conflito: a morte de crianças inocentes.
Texto e imagem reproduzidos do site: iclnoticias com br
quarta-feira, 11 de março de 2026
66 Anos Sempre Presente! Eterno Marcelo Déda Chagas
Ataque a escola de meninas no Irã expõe horrores da guerra
Legenda da foto: Mãe luto exibe fotos de suas filhas que foram mortas, durante o funeral das crianças que perderam a vida após um ataque a uma escola primária na província de Hormozgan, no Irã, em 3 de março de 2026, em Minab, Irã. Milhares de pessoas, incluindo familiares e autoridades, compareceram à cerimônia - (Crédito da foto: Agência Anadolu/Reuters)
Artigo compartilhado do site do JORNAL DO BRASIL, de 7 de março de 2026
Ataque a escola de meninas no Irã expõe horrores da guerra
Por JB INTERNACIONAL (redacao@jb com br)
Por Lucas Pordeus León - O ataque a uma escola de meninas iranianas, que causou a morte de 168 crianças, marcou o primeiro dia da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciada no último sábado (28). A tragédia expõe os horrores que o conflito no Oriente Médio pode produzir e seus impactos na vida de menina e mulheres nestes países.
Uma multidão vestida de preto compareceu ao velório das crianças, ocorrido na terça-feira (3). As imagens das valas abertas para receber os caixões enfileirados, acompanhados por milhares de pessoas, correu o mundo.
Durante décadas, as violações de direitos humanos no Irã, inclusive contra as mulheres, foram usadas por potências ocidentais para justificar o isolamento internacional de Teerã, alvo de sanções econômicas que contribuíram para fragilizar sua economia.
Em nome de uma suposta "libertação" do povo iraniano do regime dos aiatolás, um dos primeiros alvos de EUA e Israel nesta nova ofensiva foi justamente uma escola de educação infantil feminina na cidade de Minab, no sul do país persa. Além das dezenas de meninas mortas, mais de 90 crianças ficaram feridas. O caso aconteceu pela manhã, enquanto as alunas estavam em aula, segundo a agência de notícias.
A socióloga Berenice Bento, professora da Universidade de Brasília (UnB) que estuda as relações de gênero no mundo muçulmano, afirma que o ataque revela justamente que a guerra não tem relação com direitos humanos ou democracia.
Em razão do regime do país, as mulheres sofrem uma série de restrições no Irã, como o uso obrigatório do véu (hijab) para cobrir os cabelos, além de impedimentos para viagem e mobilidade, que geralmente precisam de autorização dos pais ou maridos. O desrespeito aos códigos é duramente punido pela chamada polícia da moralidade, ou Patrulha de Orientação da República Islâmica do Irã.
A jornalista palestino-brasileira SorayaMisleh, doutora em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo (USP), afirma que mulheres iranianas lutam há décadas por seus direitos e destaca, em especial, o movimento Mulher, Vida e Liberdade. Ele foi criado em 2022 após a morte da estudante Mahsa Amini, detida em um protesto e espancada pela Patrulha de Orientação,
"Mulheres iranianas organizaram um grande movimento, em 2022, o Mulher, Vida e Liberdade e seguem em luta há décadas. O povo iraniano, os povos árabes, o povo palestino devem decidir seu destino, não os EUA e Israel", comentou.
A história de luta das mulheres iranianas inclui vítimas de prisões e condenações por sua militância. Uma delas é a advogada e ativista Narges Mohammadi, vencedora do Nobel da Paz em 2023 "pela sua luta contra a opressão das mulheres".
Narges está atualmente presa no Irã, condenada a 7 anos e meio de reclusão por "conspiração", segundo seu advogado. Mas, a socióloga Berenice Bento reafirma que a mobilização das mulheres no Irã não pede intervenção externa.
"Quando você analisa as manifestações que aconteceram, nenhuma está dizendo que quer a volta da monarquia, ou que os Estados Unidos e Israel vá libertá-las. Nunca. O que você tem é uma sociedade que está lutando", ponderou.
Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa sobre as Relações do Mundo Árabe, do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS),a professora Natália Ochôa explica que há um olhar do mundo Ocidental para a necessidade de salvar a mulher muçulmana que, no episódio da escola, foi o alvo.
"Mulheres muçulmanas vistas e retratadas como oprimidas e sem capacidade de agência precisariam da salvação de mulheres ocidentais, sendo estas últimas o grande exemplo de liberdade a ser seguido. Ora, se um desses pilares é a educação, por que então logo uma escola de meninas, onde elas são alfabetizadas e aprendem sobre seus direitos, é um dos primeiros espaços a se tornarem alvos desses ataques? Se elas precisam de salvação, por que a última coisa que tem sido feita é salvá-las?", questiona a pesquisadora em artigo.
Apesar dos problemas da República Islâmica, a especialista pondera que houve avanços sociais nos últimos 47 anos. Dados do Banco Mundial e da Unesco apontam que a alfabetização das mulheres passou de cerca de 30%, nos anos 1970, para cerca de 85%, nos anos 2000.
A participação das mulheres iranianas nas universidades subiu de 33%, na década de 1970, para cerca de 60%, nos anos 2000. Por outro lado, a participação delas no mercado de trabalho segue reduzida, algo em torno de 15% a 20% do total das pessoas empregadas.
Autoria do ataque
O ataque à escola de meninas de Minab foi condenado pela comunidade internacional e o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu uma investigação rápida, imparcial e minuciosa sobre as circunstâncias do ocorrido.
Estados Unidos e Israel não reconheceram ainda a autoria do ataque. A Casa Branca diz que está investigando o caso. Já Israel informou que não encontraram nenhuma ligação do ataque com as operações militares de Tel Aviv.
Berenice Bento cita a chamada Doutrina Dahiya, do exército israelense, que se baseia na destruição em larga escala de habitações e estrutura, para argumentar que o ataque deve ter sido intencional.
"Com o ataque à escola, eles estão querendo dizer não vão deixar pedra sob pedra. É destruir tudo. Para que a própria população civil, diante daquela destruição, se coloque contra o poder local. Eles destruíram Gaza inteira para fazer com que a população de Gaza se posicione contra o Hamas", avaliou.
O nome da doutrina faz referência ao bairro Dahiya, zona densamente povoada de Beirute, no Líbano, onde o Hezbollah tinha uma das suas bases, e que foi amplamente bombardeado por Israel na guerra do Líbano de 2006.
A jornalista palestino-brasileira SorayaMisleh, doutora em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo (USP), avalia que o ataque às escolas, hospitais e infraestrutura civil em Gaza abriu espaço para novos crimes em outros países do Oriente Médio.Para Misleh, as mulheres da região não precisam ser salvas, e sim de apoio e solidariedade.
Estados Unidos e Israel não reconheceram ainda a autoria do ataque. A Casa Branca diz que está investigando o caso. Já Israel informou que não encontraram nenhuma ligação do ataque com as operações militares de Tel Aviv.
O jornal norte-americano New York Times (NYT), após analisar imagens de satélites, publicações nas redes sociais e vídeos verificados, indica que a escola foi severamente danificada por ataque de precisão, que ocorreu simultaneamente a ofensivas dos EUA a uma base naval da Guarda Revolucionária Islâmica.
As declarações oficiais de que as forças americanas estavam atacando alvos navais perto do Estreito de Ormuz, onde está localizada a base da Guarda Revolucionária Islâmica, sugerem que eles provavelmente foram as responsáveis pelo ataque, avaliou o NYT.
Levando em consideração a proximidade da escola em relação ao objetivo militar, o major-general português Agostinho Costa avalia que o bombardeio pode ter sido um erro de alvo.
"Já estive em locais submetidos a ataques com mísseis Tomahawk podendo constatar que a margem de erro existe", comentou o especialista em segurança e geopolítica. (com Agência Brasil).
Texto e imagemreproduzidos do site: www jb com br/mundo
terça-feira, 10 de março de 2026
COISAS DA POLÍTICA > Jornal do Brasil, 8 de março de 2026
Legenda das fotos: Vorcaro despido da vaidade: sem barba e com cabelos cortados à la presidiário (Crédito das fotos: reproduções da internet).
Publicação compartilhada do site do JORNAL DO BRASIL, 8 de março de 2026
COISAS DA POLÍTICA
Revelações tenebrosas que abalam a República
Os fatos no Brasil se sucedem a tal velocidade (com repercussões amplificadas pelas narrativas de cada lado do espectro político das redes sociais), que o jornalista responsável em pesquisar várias fontes de informação precisa redobrar a cautela e as checagens, para não emitir um juízo leviano.
Antes de vazarem as revelações do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, que deixavam em situação no mínimo desconfortável os ministros Alexandre de Moraes e José Antônio Dias Toffoli - troca de mensagens telefônicas que Moraes, relator do julgamento no STF que condenou o ex-presidente Bolsonaro e seus companheiros da trama golpista, negou através de nota oficial -, o assunto que mais chamava a atenção era a confissão do presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, de que Jair Bolsonaro, então candidato à reeleição em 2022, ficou contrariado com o depósito recorde de R$ 3 milhões em sua conta pelo dublê de pastor e financista Fabiano Zettel.
A revelação foi feita na edição de domingo passado no “Canal Livre”, da TV Bandeirantes. Com a sinceridade que, por vezes, lhe queima a língua, o presidente do PL disse que Bolsonaro ficou contrariado em receber um depósito em conta corrente, “preferia receber em dinheiro vivo”. Dinheiro vivo não deixa recibo nem é rastreado pelo Tribunal Superior Eleitoral ou pelo Coaf (o controle das movimentações financeiras no país). Vale dizer que Fabiano Zettel, casado com Natália Vorcaro, irmã do banqueiro, é pastor da igreja evangélica Lagoinha, de Belo Horizonte (MG), e também doou R$ 2 milhões, em depósito bancário (com identificação e recibo), para a campanha do candidato a governador de São Paulo Tarcísio de Freitas, eleito pelo Republicanos-SP.
(A suposta conversa telefônica de 17 de novembro de 2025, entre Moraes e o banqueiro desesperado pela informação de que seria preso (seus cúmplices “hackeavam” a PF e o MPF), na verdade, não era uma interlocução com o celular do ministro - fato que deve ser melhor esclarecido por Moraes).
Na última quarta-feira, tanto Daniel Vorcaro quanto o cunhado e parceiro de negócios no Banco Master, Fabiano Zettel, foram presos pela Polícia Federal, por determinação do ministro André Mendonça, novo relator do caso Master no STF. Também foi preso na mesma operação o “sicário” Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado pela Polícia Federal como responsável por monitorar e planejar ataques contra adversários do banqueiro. No grupo apelidado de “A Turma” no celular de Vorcaro, o “sicário”, que tinha longa folha corrida nas delegacias de BH, era encarregado de “moer” adversários e espionar a PF, o Ministério Público Federal e até o FBI. Com tantos segredos e responsável por “pirâmide financeira” na capital mineira, o que estouraria com sua prisão, "sicário" morreu sexta-feira, no hospital, após tentar suicídio (não se sabe por qual dos motivos) dia 4, quarta-feira, na carceragem da PF mineira.
A tradição do dinheiro 'cash'
A preferência por doações "cash" era uma tradição brasileira. Até Fernando Collor, eleito em 1989, sequestrar os ativos financeiros em março de 1990, e também acabar com o cheque ao portador e aplicações e depósitos financeiros não identificados, era uma prática tão poderosa que os “tesoureiros de campanha” movimentavam fortunas e guardavam segredos. PC Farias, tesoureiro de Collor, morreu em circunstâncias não totalmente esclarecidas. De Paulo Maluf dizia-se que não se importava em perder nas urnas eleições presidenciais ou ao governo de São Paulo. Os ganhos na campanha compensavam.
Jânio Quadros, “o homem da vassoura”, candidato do UDN que ia combater a corrupção, em 1960, começou a despontar como favorito na disputa contra o marechal Henrique Lott, ex-ministro do Exército de Juscelino Kubitscheck. Pelo vasto canteiro de obras em que se transformou o Brasil, com a construção de Brasília e a abertura de estradas que ligassem as capitais estaduais à futura capital do país, os empreiteiros estavam apoiando Lott, candidato de JK. Entretanto, já naquela época, era comum os grandes empresários tentarem ficar bem com os dois lados da disputa (vide o que andaram fazendo banqueiros e a Odebrecht até à “Lava-Jato”). Líder dos empreiteiros do Rio de Janeiro (ainda a capital federal), Harold Polland reuniu colegas da construção pesada para um encontro com JQ em manhã de domingo, antes das eleições de outubro de 1960.
Marcado para as 11 horas, Jânio chegou sozinho, com uma pasta de couro, pouco depois das 10h30, ao apartamento do empreiteiro, morador do Edifício Chopin, na Avenida Atlântica, antes do alargamento (de 1968). Solícito, Polland indagou ao candidato se aceitava um refrigerante ou uma outra bebida. “Um uísque mesmo”, bradou JQ. Harold Polland deu dinheiro ao motorista para comprar um “scoth” legítimo no vizinho Copacabana Palace. Com o “scoth” em mãos, perguntou se queria com gelo. “Puro mesmo”, disse cruamente Jânio Quadros, que se serviu de uma dose tripla e bebeu até ficar corado.
Os empreiteiros foram chegando e Harold Polland (cujo nome foi dado a um viaduto na BR-40, na serra de Petrópolis) fazia as apresentações. Ao fim das quais, fez um pequeno discurso, manifestando a disposição dos empreiteiros em ajudar na campanha, citando a montagem de palanques nas grandes capitais e a possibilidade de doações em dinheiro. “Em espécie mesmo”, exclamou Jânio, para espanto geral, e foi abrindo a pasta para recolher as contribuições de cada empresário. Finda a coleta, sem promessas, Jânio agradeceu a colaboração e se despediu à francesa. O caixa de campanha bancou sua permanência por meses em Londres, após a renúncia, em 25 de agosto de 1961. Ao morrer, após ser prefeito de São Paulo, tinha uma fortuna em imóveis.
A preferência dos Bolsonaro por dinheiro em espécie está comprovada nas “rachadinhas” nos gabinetes do filho 01, quando era deputado da Alerj, o agora senador e candidato do PL à Presidência em 2026, Flávio Bolsonaro, e no do filho 02, o ex-vereador Carlos Bolsonaro, que renunciou ao mandato na Câmara Municipal do Rio de Janeiro para concorrer ao Senado pelo PL de Santa Catarina. Tão logo quando indiciado na trama golpista, o ex-presidente lançou uma “vaquinha” nas redes sociais para custear a defesa dos advogados. Arrecadou uma vasta “boiada” de mais de R$ 17 milhões via Pix, dos quais destacou R$ 2 milhões para o filho 03, o agora ex-deputado Eduardo Bolsonaro, tramar nos Estados Unidos contra o Brasil, instigando o tarifaço de Trump e a tentativa de parar o julgamento do STF. Bolsonaro gastou R$ 8 milhões com os advogados até aqui.
Por tudo isso, existem não só os controles de movimentação financeira do Coaf. A Justiça Eleitoral praticamente proibiu contribuições de empresas a campanhas eleitorais. É preciso ter a identificação do doador, pessoa física. No entanto, como as igrejas (de qualquer denominação) estão isentas de prestarem contas ao Imposto de Renda, além de exercerem forte influência sobre os eleitores evangélicos, novos “currais eleitorais” das grandes cidades e suas periferias, os pastores podem fazer operações triangulares com empresas (recebem dízimos e ofertas e “lavam” parte do dinheiro em doações dos pastores). Toda a atenção deve ser redobrada pela Justiça Eleitoral, e o caso Master pode indicar muitas práticas que extrapolam a “maior fraude financeira” do país.
O 'modus operandi' do Master
As investigações da PF vêm revelando um lado oculto e mafioso das atividades do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que vai muito além da alavancagem de recursos no mercado (no varejo, com a garantia de aplicações até R$ 250 mil pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e no atacado, com aplicações de fundos de pensão, com apadrinhamento político. Por sinal, por pouco o “senador amigo” Ciro Nogueira (PP-PI) não emplaca emenda que elevaria para R$ 1 milhão, em 2024, a garantia do FGC à captação em CDBs e letras financeiras. Multiplicaria por quatro a alavancagem do banco de Vorcaro. As investigações devem revelar as entranhas da parceria de Vorcaro (agora preso e despido da vaidade dos cabelos longos e da barba cultivada, submetido ao tratamento dos presos comuns: cabelo e barba raspados, camiseta e chinelo; como aconteceu com o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral). É curioso que os dois partidos que mais o apoiaram, o Progressista (PP) e o União Brasil, negociem uma federação - a “União Progressista”.
Mas as operações de “hackers” junto à PF e ao MPF, as quais era encarregado de contratar o falecido “sicário”, que permitiram a Vorcaro saber, com antecedência [até para "consultar Moraes" na conversa ainda não bem explicada], da existência de mandado de prisão da 10ª Vara Federal de Brasília (vazada para site amigo e ensejando ação cautelar imediata de seus advogados no dia 17/11/25, quando foi preso ao embarcar para Dubai, com escala no paraíso fiscal de Malta, no Mediterrâneo), revelam ainda corrupção com instâncias administrativas. Ao ser preso, Vorcaro alegou que iria “negociar a venda do banco com o fundo Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos” (o banco foi liquidado pelo BC dia 18 de novembro).
Inquérito interno do BC indicou que o ex-diretor de Fiscalização da gestão Paulo Roberto Campos (2019-2024, período em que o Master, constituído em 2018, após a compra do Banco Máxima, deslanchou), Paulo Sérgio Souza, que, como funcionário de carreira do BC, passou a atuar como superintendente de Fiscalização, ao ser substituído por Aílton Aquino em janeiro de 2025, na gestão Gabriel Galípolo, exercia o papel duplo de funcionário do BC e despachante de luxo do Master. Trocas de mensagens entre Daniel Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, mostram uma cobrança ríspida de Vorcaro pelo não pagamento dos “serviços de consultoria” de Paulo Sérgio Souza, através de suposta empresa de consultoria. Outro superintendente, de supervisão bancária, Belline Santana, também foi afastado por suspeita de corrupção pelo BC. Há a negociação de uma fazenda de Paulo Sérgio e um irmão, em Muzambinho (MG), por R$ 30 milhões, para um fundo administrado por Zettel, que servia a encobrir operações escusas do Master. Trata-se da mesma dinâmica ou “modus operandi” que envolveu a compra de cotas do Spa Tayayá, da família do ministro José Antônio Dias Toffoli, em Ribeirão Claro (PR). Pelo contrato milionário do Master com o escritório Barci de Moraes e filhos, gerido por sua mulher, Viviani Barci de Moraes, o ministro Alexandre de Moraes deve explicações mais amplas e diretas do que a nota oficial da Secretaria do STF.
O lado mais cabeludo
Ao mesmo tempo em que Daniel Vorcaro foi despido da vaidade de sua cultivada cabeleira e barba torneada, vieram à tona escabrosas revelações de orgias sexuais paralelas a seminários promovidos pelo Master no exterior. Convém falar disso no Dia Internacional da Mulher.
À imagem e semelhança do caso de Jeffrey Epstein, “suicidado” na prisão nos Estados Unidos em 2019, durante o primeiro governo Trump, hoje novamente assombrado pelas acusações de pedofilia com meninas de 13 a 17 anos – que levaram à prisão o Príncipe Andrew, no Reino Unido, Vorcaro tinha seu Epstein caboclo. Ele recrutava moças para viajar nos jatos do grupo Master e animar os convescotes no exterior com a presença de empresários, políticos e altas autoridades do Judiciário e do Banco Central. Como Epstein, a preferência era por modelos louras ou de pele clara, e que fossem estrangeiras, sem domínio do português, para deixar os convidados mais desinibidos.
Trump ataca Irã mirando a China
É impossível desconsiderar que o objetivo do segundo governo Trump é evitar que a China tire a hegemonia americana na economia. Em paridade do poder de compra, o PIB chinês já passou o dos Estados Unidos. Recapitulando as ações de Trump, elas começam com os tarifaços. E seguem com a tentativa de bloquear a produção de circuitos eletrônicos (“chips”), mediante restrições ao acesso global às terras raras. Houve efeito bumerangue. As cadeias de produção nos EUA foram atingidas e foram feitas exceções aos “chips” e às próprias tarifas. De resto, derrubadas pela Suprema Corte no mês passado.
Restou a Donald Trump atacar a China no ponto mais sensível: a dependência do petróleo e do gás importados. A aliança com Israel no ataque ao Irã, dono das terceiras maiores reservas de petróleo do mundo, e que tem na China seu maior cliente (o Brasil exportou 32% para lá no último trimestre de 2025), veio a calhar. Mas veio precedido pelo ataque à Venezuela para captura do ex-ditador Nicolás Maduro e a reabertura do acesso das petrolíferas americanas às maiores reservas de petróleo do mundo. Com autossuficiência atual e futura dos EUA, o teatro de guerra no Oriente Médio só prejudica a China, a Índia e as demais economias concorrentes à americana, agora atingidas mais duramente que pelo tarifaço. Com o pré-sal, o Brasil está, por ora, beneficiado.
Texto e imagens reproduzidos do site: www jb com br/colunistas/coisas-da-politica
domingo, 8 de março de 2026
"Foi tudo pela democracia, não é mesmo?", por Fernando Schüler
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 7 de março de 2026
Foi tudo pela democracia, não é mesmo?
Se o episódio das mensagens de Vorcaro e Moraes não for investigado com rigor, e não com o truque de uma ‘nota explicativa’, podemos concluir que não somos um País sério. Fernando Schüler para o Estadão:
“Ilação mentirosa”, respondeu o ministro a Malu Gaspar, na revelação de seu papo, com direito ao “conseguiu bloquear?”, com Daniel Vorcaro. O ministro diz que não recebeu mensagem nenhuma. E que, pasmem, estão querendo “atacar o STF”. Quando li isto me deu um certo cansaço. Mas fui em frente. Malu Gaspar contra-atacou: mostrou os prints. O ministro não apenas aparece recebendo, como respondendo as mensagens. De forma que temos um problema: ou os prints da Malu são falsos, ou é falsa a explicação do ministro.
Cada um pode achar o que quiser. Meu ponto é apenas dizer o seguinte: se isto não for investigado com rigor, e não com o truque de uma “nota explicativa”, podemos concluir - definitivamente – que não somos um País sério.
A frase que mais intriga é meio longa, mas vale ser lida: “apagar dados do celular também indica uma consciência sobre a ilegalidade dos atos praticados pelo agente, na medida em que, se o indivíduo tivesse plena convicção de sua inocência, não teria motivo para eliminar registros que poderiam confirmar sua versão dos fatos”. Entenderam bem? Quem escreveu isso foi o ministro Moraes. Escreveu sobre as mensagens apagadas pela Débora dos Santos, a moça que cometeu o crime hediondo de escrever “perdeu mané”, com um batom vermelho, e condenada a 14 anos de prisão. O fato de que ela tenha apagado as mensagens era um ato de “desprezo pela Justiça e pela ordem pública”.
Vejam só. Agora consta que o ministro usava mensagens de visualização única em suas mensagens para Vorcaro. Exatamente para “eliminar registros”. Mas ok, é possível que as tais mensagens não existam. E que tudo de fato seja uma orquestração da mídia para “atacar o STF”. E logo a “democracia”. E sendo assim, é nosso jornalismo investigativo que precisa se reinventar. Só saberemos disso com uma investigação rigorosa. Coisa que também deveria ter sido feita a partir das denúncias de Eduardo Tagliaferro. O que, como todos sabemos, nunca aconteceu.
O fato é que um padrão se repete. Primeiro, nosso clássico “dois pesos e duas medidas”. O que vale para a Débora não vale para quem detém o poder. A perfeita cara do Brasil. Outro aspecto é retórico: o “querem atacar o STF”.
Ano após ano, depois de 2019, aceitamos a ideia de que os “excessos” do Supremo eram necessários à defesa da democracia. Por este raciocínio, era necessário censurar e bloquear as contas bancárias daqueles empresários do grupo de WhatsApp. Alguns deles por um “joinha”, em um papo-furado digital. Outros por coisa nenhuma. Tudo isso foi justificado, e continua sendo, à base de notas explicativas, como vimos esta semana, e sob a retórica oficial do “ataque” às instituições. O ponto é que talvez agora tenhamos ultrapassado um certo limite. E por aí, quem sabe, as coisas podem avançar um pouco.
O pecado original de todo este processo é a aceitação do poder fora da regra. A criação dos inquéritos, em 2019, é por óbvio um ponto de partida de todo este processo. Criou-se não apenas uma investigação sem prazo, sem fim e sem objeto definido. Criou-se um tipo de poder inovador em nosso edifício republicano. Um poder que opera à margem do sistema de freios e contrapesos.
O ponto aqui, para ser claro, é o seguinte: em uma democracia, não importa que a regra seja quebrada para censurar um humorista ou o presidente de uma associação, como a Unafisco, ou para ajudar um banqueiro prestes a ser preso.
A permissividade democrática é prima-irmã da permissividade ética. O que assistimos confirma uma antiga sabedoria republicana: os homens não são anjos (a expressão é de James Madison). E o poder sem limites leva à corrupção da democracia, e não à sua salvação.
A pergunta que interessa ao País: o poder sairá mais uma vez impune disso tudo? Alguém será responsabilizado por todo o abuso de poder praticado por aqui nos anos recentes? Sendo mais prático: haverá alguma denúncia, por parte da PGR, relativamente a algum ministro? O senador Davi Alcolumbre irá se mover para instalar a CPMI do Master no Congresso?
Em 2022, a presidência do Senado não instalava a CPI da Pandemia e o Supremo entrou em campo: mandou instalar, pois era um “direito da minoria”. Agora teria deixado de ser? O Supremo entrará em campo para mandar instalar a CPMI? Isso e coisas mais prosaicas: na próxima semana, quando a prisão de Vorcaro for julgada no Supremo, algum ministro que tem negócios conhecidos com o banqueiro irá se declarar suspeito para votar? Ou nem isso?
A pergunta, no fundo, é mais ampla: nos tornamos mesmo o País em que um poder simplesmente se encontra fora de qualquer hipótese de controle republicano? Confesso não saber responder a estas questões. Há certa indignação na sociedade. Isto é importante, mas não basta. Chegou a hora das instituições. Se nada acontecer, quem sabe a resposta seja dada nas eleições. Pensando com um certo realismo, a maior probabilidade é que seja exatamente isto que aconteça.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com


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