sexta-feira, 15 de maio de 2026

O filme de terror de Flávio Bolsonaro

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 15  de maio de 2026

O filme de terror de Flávio Bolsonaro

O caso da relação de Flávio com Vorcaro expõe a baixa estatura moral do pré-candidato e torna ainda mais urgente que a direita democrática se mobilize para se libertar do bolsonarismo. Editorial do Estadão:

O primeiro teste de estresse da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência terminou mal. A revelação de que o primogênito de Jair Bolsonaro cobrou do banqueiro Daniel Vorcaro dinheiro para alegadamente bancar um filme sobre a trajetória do pai fez mais do que expor o despreparo político do indigitado: escancarou a sua baixa estatura moral, deficiência que o torna absolutamente indigno de ser presidente da República.

Esse episódio torna ainda mais urgente que a direita democrática se empenhe em construir uma alternativa conservadora séria, comprometida com a Constituição e com padrões mínimos de decência, para disputar a Presidência e impedir que o petista Luiz Inácio Lula da Silva ganhe mais quatro anos para arruinar o País. Para isso, a direita não pode seguir a reboque de um desqualificado como Jair Bolsonaro e de seu clã, cuja trajetória política é marcada desde sempre por sua vocação antidemocrática, por sucessivos escândalos, pela confusão deliberada entre público e privado e pela imoralidade.

Graças às conversas reveladas pelo site Intercept Brasil, confirmadas pelo Estadão, essa depravação fica ainda mais explícita. Nelas, constata-se o grau de proximidade entre um senador da República, hoje com a pretensão de governar o Brasil, e um banqueiro que já naquela época era suspeito de ser o protagonista do maior crime já cometido contra o sistema financeiro nacional.

De acordo com os documentos da Polícia Federal (PF) publicados pelo site, Flávio Bolsonaro negociou diretamente com Vorcaro uma quantia equivalente a US$ 24 milhões para a produção de Dark Horse, a tal cinebiografia do ex-presidente, dos quais US$ 10 milhões já teriam sido pagos ao longo de 2025.

Primeiro, Flávio tentou negar. Questionado por jornalistas, disse que se tratava de “mentira”. Depois, quando as provas vieram à luz, o senador teve de reconhecer que pediu mesmo o dinheiro, mas enfatizou que se tratava de uma relação “privada”, sem envolver recursos públicos.

Ora, pouco importa se o dinheiro era privado ou público. O busílis é a origem dos recursos. A fortuna do sr. Vorcaro não advém do seu sucesso empresarial em atividades legais. Segundo a PF, o banqueiro construiu patrimônio por meio de fraudes bancárias, algumas das quais envolvendo fundos de previdência de servidores públicos em diversos Estados e municípios, além do Banco de Brasília (BRB). Em paralelo, Vorcaro construiu uma rede de influência nos Três Poderes, ao que parece a peso de ouro. Tudo isso já era sabido na época da conversa entre os dois.

O problema central aqui, portanto, é outro. Flávio Bolsonaro não pode ser tratado como um cidadão qualquer pedindo ajuda a um financiador qualquer. Era um senador com pretensões presidenciais esperando receber milhões de dólares de um notório escroque, cuja prisão aconteceria no dia seguinte à tal conversa.

Ademais, constrange o tratamento fraterno que Flávio Bolsonaro dispensa a Vorcaro. “Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente”, disse o senador. A frase não deixa margem para dúvidas sobre a relação de proximidade, confiança e eventual “gratidão política”, chamemos assim, envolvidas naquela negociação.

Para piorar, a mambembe explicação do entorno bolsonarista só aprofundou as suspeitas sobre as reais intenções de Flávio Bolsonaro. O produtor do filme, o deputado Mário Frias (PL-SP), afirmou textualmente que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”. Ora, se não havia dinheiro do banqueiro na produção, para onde iria a dinheirama cobrada pelo senador?

Não cabe a este jornal antecipar julgamentos. Mas tampouco se pode condenar quem acredite que a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro envolva suspeitas de lavagem de dinheiro, formação de caixa dois ou enriquecimento ilícito. Um pré-candidato à Presidência envolvido em transações desse jaez tem o dever de dar explicações convincentes ao País, o que Flávio Bolsonaro ainda não fez. Por ora, preferiu mentir, atacar a imprensa e zombar da inteligência alheia.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Susane Vidal, sinalizando entrada na política

Susane Vidal: “agora é seguir. Parar não é opção. 
Retroceder jamais. Tem muita coisa pela frente”

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 15 de Mai de 2026

“O propósito agora é representar o que o sergipano de fato quer”, diz Susane Vidal, sinalizando entrada na política

Por Jozailto Lima * (Coluna Aparte)

“Porque como jornalista a gente tem um limite, né? Agora eu posso fazer mais. Agora eu posso de fato representar o sergipano”. Ao que tudo - e agora até ela mesma indica -, Susane Vidal vai de fato entrar para a política.

Em mais um vídeo publicado em suas redes sociais, dessa vez na noite desta quinta-feira, 14, a jornalista e agora ex-apresentadora do noticioso SE1 anunciou sua saída da TV Sergipe, sua casa por quase 30 anos.

Quem acompanha o perfil da apresentadora nas redes já notou que o tom mais formal e reservado vem dando lugar a vídeos mais desenvoltos e expositivos, mais um alerta da mudança de rumo da jornalista.

“As pessoas se acostumaram a me ver na TV. Eu me acostumei a ver as pessoas através da câmera também”, diz ela reforçando a imagem conhecida pelos sergipanos há décadas.

“Agora eu quero estar realmente dentro da casa das pessoas, não apenas pelo aparelho de TV. Eu quero entrar pela porta da frente. Eu quero conversar e também dar oportunidade às pessoas de me conhecerem”, diz ela.

Filiada ao partido Republicanos desde o mês passado, Susane não dava declarações sobre seu futuro por ainda ter contrato com a emissora afiliada à Rede Globo, que proíbe veementemente a ligação entre jornalismo e políticos.

Agora de saída da TV Sergipe, a jornalista mostra um tom de conversa e sinaliza um “novo jeito” de conhecer as pessoas. “Noticiar apenas já não basta, agora o propósito é justamente fazer algo maior representar esses anseios. O propósito agora é representar o que o Sergipano de fato quer”, diz ela.

“Eu quero conhecer essas pessoas que passaram anos e anos me assistindo. Eu não sou de casa? Permita entrar em sua casa”, diz a jornalista.

O possível cargo de disputa e quando essa pré-candidatura será lançada ainda não foram revelados, mas pode-se dizer que o status de pré-candidata passou de possível para provável.

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* Jozailto Lima - É jornalista há 43 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Acabou, Flávio? | Ponto de Partida, com Pedro Dória

 

Site Intercept revelou que Flávio Bolsonaro negociou R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, pra bancar o filme biográfico do pai. 

E que cobrou cada parcela, por áudio, por WhatsApp. 

Esse é o tipo de coisa que decide eleição...

terça-feira, 12 de maio de 2026

'É melhor não se iludir com a delação de Vorcaro', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 12 de maio de 2026 

É melhor não se iludir com a delação de Vorcaro 
Por Fernando Gabeira (in blog)

Não sou dessas pessoas que o tempo inteiro dizem: “Vai acabar em pizza, vai acabar em pizza.” Mas confesso que estou um pouco cético sobre a delação de Daniel Vorcaro, o homem que iluminaria toda a escuridão da República. Vorcaro não entende a delação como fim de carreira. Faz planos. Para começar, não entregará todo o dinheiro que amealhou. Precisa de recursos para recomeçar adiante. Há muita coisa que não poderá esconder, pois o conjunto de mensagens no celular revela seu movimento financeiro. Mas aquilo que não está a descoberto, ele deve considerar um fundo de sobrevivência para a nova etapa, pois certamente não conta com um longo período de prisão.

Outro ponto vulnerável na delação de Vorcaro são os próprios advogados. Ele é apenas um caso fortuito, e provavelmente muito lucrativo, para os advogados. Mas nada se compara à relação estratégica e permanente que precisam manter com o STF. Quando se trata de apontar as armas para a Corte, faltará pólvora ou, no mínimo, ela estará molhada.

Detesto a expressão “acochambrar”. Para coisas feias, palavras feias. Na semana passada, um ministro do TSE, aliado de Alexandre de Moraes, Floriano Marques, encontrou-se com o advogado de Vorcaro num hotel de Brasília. O encontro se deu um dia depois da apresentação da proposta de delação. O ministro admite que conversou superficialmente sobre a delação e comentou:

— Puxa vida, que coisa!

Ninguém pode provar que a conversa não foi superficial. Marques foi indicado por Lula, por sugestão de Moraes. São colegas na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Por uma tentativa de conhecer a delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, o general Braga Netto foi para o espaço. O advogado de Vorcaro sabe disso. Por coincidência, Braga Netto também é seu cliente. O ministro e o advogado são amigos. Quem não é amigo, conhecido, camarada? “Meu caro, que prazer, vamos tomar algo para combater essa secura de Brasília.”

A Polícia Federal trabalha firme e com competência. Mas será difícil romper esse cipoal de relações e favores. No caso do senador Ciro Nogueira, houve indícios, casa, mesada, cartão e um ato de ofício: a emenda apresentada por Ciro, subindo de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a garantia de ressarcimento aos credores de um banco quebrado. Vorcaro saudou essa emenda nas conversas com a namorada. Possivelmente, outros amigos de Vorcaro na política terão dado bandeira e cairão também. Mas o núcleo mais duro, que envolve ministros do Supremo, talvez não seja tocado.

Quem quer brigar com o Supremo? A qualquer momento, nosso destino pode estar nas mãos deles. Se julgam e condenam, apelar para quem? Você fica com a corda no pescoço, com a espada na cabeça e com uma parte da esquerda jurando que você é de extrema direita.

No entanto será preciso reclamar. O caso Master não pode dar em pizza. Haja farinha, molho de tomate e orégano para cobrir 8 milhões de quilômetros quadrados. Mas é preciso não ter grandes ilusões. O Brasil não é fácil.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

segunda-feira, 11 de maio de 2026

O preço de um senador

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10  de maio de 2026

O preço de um senador

PF descobre relação financeira entre Vorcaro e Ciro Nogueira e pode esvaziar delação do banqueiro. Wilson Lima para a Crusoé:

A operação da Polícia Federal (PF) desta quinta, 7, mostrou quanto custa um senador da República. E o valor não é dos mais modestos.

Mensagens interceptadas pela PF, e que resultaram na quinta fase da Operação Compliance Zero, revelaram que Daniel Vorcaro pagava entre 300 mil e 500 mil reais mensais para o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e um dos principais expoentes do Centrão, para que o banqueiro tivesse algum tipo de interlocução no Congresso.

Na fase anterior, a PF já havia mostrado quanto custa o dono de um banco público.

Para comprar o presidente do BRB, Paul Henrique Costa, foram seis apartamentos de luxo, avaliados em 140 milhões de reais.

Segundo as investigações, Ciro Nogueira apresentou uma emenda à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) de autonomia do Banco Central que aumentava o valor do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de 250 mil reais para 1 milhão de reais.

A emenda — mais precisamente um jabuti no jargão do Congresso Nacional, já que o texto versava sobre algo que não tinha a menor relação com a proposta originária — beneficiava diretamente o banco de Daniel Vorcaro e foi elaborada pela assessoria do banqueiro, de acordo com a PF.

Ainda segundo os investigadores, o tal jabuti foi entregue na casa de Ciro Nogueira em um envelope. Ou seja: um jabuti delivery.

Depois de receber o texto em casa, Ciro protocolou a emenda na PEC e, conforme a PF, teria atuado para que ela fosse aprovada.

A própria justificativa da proposta chama a atenção porque reafirma o discurso do próprio Vorcaro na época.

O senador afirmou, no ato da apresentação da emenda, que ela tinha como objetivo acabar com “o monopólio dos serviços para as instituições mais tradicionais e maiores”.

Exatamente a mesma ladainha contada por Vorcaro ao presidente Lula quando os dois tiveram, em 4 de dezembro de 2024, um encontro intermediado pelo ex-ministro Guido Mantega.

Em troca da defesa do Master no Congresso, Ciro, de acordo com a PF, teve despesas pessoais custeadas pelo banqueiro e ainda recebeu uma mesada que começou em 300 mil reais e pode ter chegado a 500 mil reais.

Ciro Nogueira Comércio de Motocicletas

O esquema chama a atenção por ser absolutamente infantil e mambembe. Algo inacreditável.

Segundo a PF, os recursos eram pagos a Ciro por meio da BRGD S.A., empresa que tinha Oscar Vorcaro, tio de Daniel Vorcaro, como diretor. Os repasses foram feitos para a CNLF Empreendimentos Imobiliários, empresa controlada por Ciro.

A CNLF — exatamente as iniciais do senador, Ciro Nogueira Lima Filho — não tinha empregados e funcionava, no papel, no mesmo endereço de uma loja de venda de motos no Piauí: a Ciro Nogueira Comércio de Motocicletas LTDA. Um amadorismo que choca.

Em 30 de junho do ano passado, o próprio Vorcaro questiona sobre os pagamentos a Ciro Nogueira e fala sobre atrasos nos repasses. “Cara eu no meio dessa guerra atrasou dois meses ciro?”, escreveu o banqueiro ao seu primo, Felipe, apontado como um de seus operadores financeiros.

“Vou ver se dou um jeito aqui.. Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?”, responde Felipe a Vorcaro.

Segundo a PF, para dar fins de legalidade aos repasses, eles recorreram a uma negociação com participação nos lucros de um grupo econômico controlado por Vorcaro, mais especificamente a Green Investimentos.

Para conseguir fazer isso, conforme as investigações da Polícia Federal, a CNLF teria adquirido um terço da participação da Green Investimentos. O administrador do fundo atribuía um valor de 43,5 milhões de reais em todas as ações da Green. A empresa ligada a Ciro adquiriu 30% delas.

Em teoria, elas valeriam algo em torno de 13 milhões de reais, mas o grupo do parlamentar conseguiu comprá-las pela bagatela de 1 milhão de reais.

“Considerando que os 30% atribuídos à empresa ligada ao senador Ciro Nogueira corresponderiam, proporcionalmente, ao montante de aproximadamente 720 mil reais, verifica-se que, em um único exercício, tal valor se aproxima do montante integral supostamente investido, indicando que, em curto espaço de tempo, o investimento inicial estaria praticamente recuperado”, afirma a Polícia Federal na representação contra Nogueira.

Park Hyatt

A mesada foi apenas um dos absurdos flagrados pela Polícia Federal. Além disso, Vorcaro destinou um cartão de crédito para o parlamentar, deixou um imóvel para uso do presidente do PP e ainda custeou hospedagens, para ele e uma acompanhante, no Park Hyatt, um dos hotéis mais caros de Nova York, nas proximidades do Central Park.

A diária lá custa módicos 10 mil reais em um quarto econômico. Os mais caros podem chegar a 130 mil reais.

“Só uma pergunta rápida… eh pros meninos continuarem pagando conta dos restaurantes do Ciro/Flávia até Sábado?”, disse, em mensagem, Léo Serrano, uma das pessoas que intermediavam as operações de Vorcaro. “Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths”, respondeu o banqueiro, conforme a PF, em referência a uma das ilhas mais sofisticadas e exclusivas do Caribe.

Kakay

A defesa de Ciro Nogueira nega qualquer ilegalidade nas ações de Ciro. Para o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, a falta de decoro está na falta de investigação da PF, não nas ações do parlamentar.

“A defesa pondera que medidas investigativas graves e invasivas tomadas com base em mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros, podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade, tema que deverá ser enfrentado tecnicamente pelas Cortes Superiores muito em breve”, declarou ele.

Delação premiada

Investigadores da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR) também passaram a fazer ponderações sobre Vorcaro. Mais especificamente, sobre a proposta de delação premiada apresentada pelo banqueiro nesta semana.

Vorcaro entregou sua proposta na quarta-feira e esperava concluir a negociação em dois meses. O problema é que o banqueiro omitiu, logo na largada, suas relações com Ciro Nogueira e o pagamento da mesada ao parlamentar.

A proposta que já não empolgava os agentes agora pode morrer no nascedouro.

Conforme investigadores ouvidos por Crusoé, a suspeita é que Vorcaro tenha “selecionado” seus delatados ou as histórias que gostaria de contar.

A má notícia para o banqueiro é que a PF parece estar anos-luz à frente dele e, ao avanço de cada fase das investigações, a contribuição de Vorcaro tem se tornado menos útil para os policiais.

Por essa razão, após a operação desta semana, alguns agentes passaram a defender que Vorcaro volte para a Penitenciária da Papuda e encerre, de vez, as tratativas para a formalização de um acordo de delação.

Bancada Master

A suspeita da PF é que Ciro Nogueira, com sua influência, possa ter ajudado Vorcaro a obter outras vantagens no Congresso que vão além da apresentação de uma emenda a uma PEC.

Uma ala da PF suspeita que parte do pagamento de até 500 mil a Nogueira possa ter sido direcionado a outros integrantes do Centrão e isso, por consequência, teria garantido o custeio de alguns integrantes da Bancada Master no Congresso.

As investigações sobre o elo político do esquema Master estão apenas no início. E, pelo visto, os órgãos policiais não dependem mais da boa vontade de Vorcaro. Uma má notícia para o banqueiro; uma boa notícia para o Brasil.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Vorcaro, o grande sociólogo

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10  de maio de 2026

Vorcaro, o grande sociólogo

Quem sabe Vorcaro seja a parte menor disso tudo; o que deveria nos preocupar é o largo estamento de poder que permitiu sua ascensão. Fernando Schüler para o Estadão:

“Saiu exatamente como mandei”, teria dito Vorcaro, animado, quando viu publicada a “emenda Master”, apresentada por Ciro Nogueira no Congresso e que aumentaria o limite do FGC para um milhão de reais. É difícil exagerar na gravidade de um fato como este. Um senador faz, a pedido de um banco, uma proposta inteiramente estapafúrdia, com potencial de ferir gravemente o sistema de crédito no país. A revelação não é lá uma grande novidade, mas nos leva a uma constatação bastante constrangedora: Vorcaro não é apenas um banqueiro fraudador, mas um fenômeno sociológico. Seus tentáculos alcançaram os três Poderes da República, com relativo sucesso. E isto não é pouca coisa.

Os fatos são conhecidos. Além do braço legislativo, há o Banco Central. Um diretor com mandato, em uma instituição federal independente, além de um chefe de supervisão bancária. Na esfera do Executivo, havia um ex-ministro fazendo “aproximações”. Chegando, sem maiores dificuldades, a encontros fora da agenda com o presidente da República. No Supremo, impressiona a incrível proximidade. Os charutos, as viagens, o whisky Macallan, os voos de jatinho, a compra das ações, a contratação de familiares. Tudo que, por alguma razão, vamos considerando “aceitável”, à medida que o tempo vai passando, a roda da política vai girando e a indignação difusa vai ganhando certo ar de cansaço.

Não acho que Vorcaro tenha lido nenhum de nossos clássicos, mas parece ter compreendido bastante bem nossa velha tradição patrimonialista. Percebeu a zona cinzenta em que o público e o privado se encontram. O reino dos eventos de luxo, mundo afora, reunindo políticos, ministros e empresários. Espaços em que se pode fazer “aproximações” e tudo se resolve, entre um jantar e outro, porque isto faz parte do “jogo”, como um dia escutei de um animado figurão.

Quem sabe Vorcaro tenha sido uma versão algo grotesca de nosso “homem cordial”. O tipo que sabe que o poder é vulnerável. Sabe que a “frieza da regra” não é exatamente o nosso forte. E que o melhor é apostar na “pessoalidade”. No seu caso, uma pessoalidade paga a preço de ouro, envolvendo festas em Trancoso, contratos milionários e noites de charme em Campos do Jordão. Seu erro, sabe-se lá, talvez tenha sido confiar demais em sua própria rede de poder. Sua frase-síntese, pendurada no ar: “E aí, conseguiu bloquear?”. Um dia, quem sabe, vamos entender o que aquilo significa, exatamente. Talvez ele tenha alimentado expectativas além da conta. Confiado que aquela proximidade adquirida pudesse desbloquear alguma coisa na estrutura do poder. Mas acabou no xilindró. Ou quem sabe tudo isso ainda será devidamente “resolvido”, como manda nossa boa tradição, no tempo certo.

O processo como um todo se aproxima do momento crítico. Se fizer uma delação “controlada”, dizendo não muito mais do que os investigadores já sabem, é possível que ela seja descartada. Mas, se fizer uma delação completa, que atinja o núcleo do poder, a pergunta é simples: isto seria aceito?

O ex-ministro Pedro Parente escreveu um ótimo artigo, por estes dias, observando como muita gente boa e “respeitável”, país afora, topou atuar junto com Vorcaro. Vender CDBs a 130%, prestar serviços de “consultoria jurídica e institucional” para um banco fraudulento, sem fazer perguntas inconvenientes. Parente diz esperar que nossas autoridades tratem com rigor dos “vilões”. De minha parte, sou menos otimista. Como já escrevi algumas vezes, há um sistema de poder bem estruturado em Brasília. E sua essência é a possibilidade de fazer exatamente o que não deveria ser feito em uma República: o uso do poder para ajustar a regra do jogo.

Ainda esta semana, escutava um ministro influente sugerindo, sem muito constrangimento, que um certo “nós” já havia definido que é preciso dois terços de votos, no Senado, para abrir um processo de impeachment contra ministros do Supremo. É só ler a regra geral estabelecida no art. 47 da Constituição, e a legislação pertinente, para saber que o quórum exigido é de maioria simples. E que dois terços é para uma eventual condenação. É só um detalhe. Como quase tudo, é só um detalhe. Nossos donos do poder fazem isso pela razão simples de que podem fazer. Porque têm apoio no mundo jurídico e intelectual. Porque alimentamos uma visão seletiva sobre a ética pública. E por aí vamos levando.

De todo modo, é preciso prestar atenção. Vorcaro não deixa de ser, por curioso que pareça, o peixe pequeno de toda esta história. O teste real é se a ampla esfera de poder em que ele ancorou sua ascensão meteórica, no coração de nossa república patrimonialista, sairá ou não intacta disso tudo. É esta, lá no fundo, a pergunta que devemos nos fazer.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 9 de maio de 2026

'O Prelúdio de uma Grande Campanha', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 8 de maio de 2026 

O Prelúdio de uma Grande Campanha 
Por Fernando Gabeira (In Blog)

A campanha mal começou, mas recebo constantemente mensagens de amigos sobre o futuro imediato. Não sei se têm muitos votos, sei apenas que são exigentes e esperam muito do futuro presidente. Acham que sem uma reforma política e institucional, não vale a pena a vitória. Só o eleito, com a legitimidade dos votos, poderia liderar algo assim no Brasil. Pensam numa reforma dos Três Poderes. O Executivo precisa ser responsabilizado, o Legislativo precisa se livrar do fisiologismo medular e perder o controle do Orçamento, que usa como quer. O Judiciário está tão carente de reformas que as ideias estão surgindo do interior da instituição.

Será que algum candidato vai colocar a reforma política-institucional no topo de sua agenda? É uma agenda que pode ser confundida com uma crítica ao sistema, mas, na verdade, pode renová-lo como esperam tantos, apesar de parecer antisistema.

Algumas pessoas que ouço acham que está na hora de aproveitar a revolução digital e digitalizar o serviço público com o objetivo de melhorar a vida do cidadão. Não se trata de modernização pela tecnologia apenas, mas orientar o Estado para uma nova relação com a sociedade: menos burocracia e maior entrega.

Há também os que pregam um equilíbrio fiscal sem ambiguidades. Acham que isso não é um dogma liberal, mas a condição básica para qualquer política de longo prazo. O problema aqui é mais delicado. O fracasso da social-democracia é atribuído exatamente às tentativas drásticas de ajuste fiscal que geram espaço para o populismo de direita.

Lula abordou esse tema com muita sinceridade no discurso de Barcelona. Não tenho saída para isso, mas creio que é preciso, pelo menos, qualificar os gastos. Desde minha passagem pela Câmara, era evidente que a máquina estatal poderia economizar sem prejuízo da eficácia.

Um dos pontos mais defendidos numa visão econômica é a necessidade de colocar a produtividade como prioridade nacional, para fazer o Brasil crescer de forma sustentada. E solucionar mais facilmente problemas como a árdua escala de trabalho.

Um consenso é o peso dos trabalhadores por conta própria, que operam como empreendedores. Não podem ser enquadrados pelas categorias do passado e precisam de políticas de proteção desvinculadas do modelo clássico de emprego. Precisam de uma formalização progressiva e flexível.

Outro consenso, pelo menos entre os que não idolatram o petróleo, é sobre a necessidade da transição energética. Isso está sendo encaminhado no governo atual. A continuidade dos esforços poderia inspirar uma reindustrialização verde, assim como a exportação de energia limpa.

Essas são demandas de pessoas mais intelectualizadas. Suas aspirações se encontram num ponto com grande parte de pessoas simples: segurança pública. Nunca o tema ocupou tanto destaque na agenda nacional. Nunca foi o topo da lista de assuntos que um presidente do Brasil discutiu com um presidente dos EUA.

O problema é como isso se desdobra em política pública com eficácia. Alguns instrumentos legais, como a Lei Antifacção e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública foram pensados para enfocar o problema.

A campanha já apresenta um grande problema conceitual. Há quem queira definir as facções criminosas como grupos terroristas. Isso entra em choque com a legislação brasileira, que vê terrorismo em quem pratica a violência com objetivos políticos, e não apenas para auferir lucros como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

A classificação de terrorismo poderia abrir caminho para uma intervenção norte-americana. Aqui está também uma grande diferença nas principais campanhas. Há uma visão de soberania nacional que não tolera a ideia de uma intervenção estrangeira. Há uma visão deslumbrada com Trump e os EUA que parece não se importar com isso.

Aí está uma questão interessante ressaltada pelo tarifaço. As pessoas no Brasil têm noção de soberania nacional e apoiam políticas que a defendam, sem bravatas, com maturidade. Isso são apenas algumas impressões que recolhi nessa fase inicial da campanha, quando ainda não houve debates ou mesmo entrevistas mais longas sobre a posição dos candidatos.

Por enquanto, o quadro está ocupado com pesquisas e algumas escaramuças. Mas esses amigos que trocam ideias sobre a campanha vão se sentir vitoriosos se a população se puser a pensar sobre o País, quando um homem simples puder ter sua posição sobre o Supremo. Seus ministros devem ter mandatos ou ficam até se aposentarem? Esse é um problema, por exemplo, que ainda não chegou à população. O Congresso tem direito de usar uma parte tão grande do Orçamento se não governa o País?

Quem conseguir disseminar todas as questões já fez a campanha à sua maneira, sem necessariamente pedir votos na esquina.

O problema agora é recolher todas as dúvidas, num País imenso e cheio de problemas e esperanças. Depois, veremos os candidatos percorrendo a imensidão, respondendo às questões e possivelmente trazendo novas.

A campanha será um curso intensivo para quem quer conhecer o País.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

terça-feira, 5 de maio de 2026

DOMINGUEIRA > Por Narciso Machado

Legenda da foto: Fabio Mitidieri e Valmir de Francisquinho

Publicação compartilhada do site FAN F1, de 3 de maio de 2026 

Opinião não é crime: entre Mitidieri e Valmir, eu fico com a realidade

Domingueira, por Narcizo Machado

Permitam-me trazer este texto cem por cento em primeira pessoa para refletir sobre algo grave que sempre permeou o trabalho da imprensa, mas que tem uma gravidade maior nos tempos atuais e que, por trás, resguarda o viés do desrespeito à liberdade de expressão.

Na semana passada, no auge da crise com a Iguá e diante do suposto boicote, lancei mão da opinião de que o fato isolado não apagava os problemas anteriores. A oposição se deleitou e compartilhou.

Dias depois, trago a revelação de que, no processo criminal que envolve o caso do matadouro contra Valmir, há o depoimento de um suposto laranja que recebeu quase R$ 100 mil em depósitos e não reconhece a compra de um terreno registrado em cartório.

Oposição e situação contrariadas em uma mesma semana.

E qual é a minha visão sobre o pleito atual?

Vejo Fábio Mitidieri como um bom governador. Não temos o Sergipe dos sonhos, mas temos, nos últimos quatro anos, avanços em todas as áreas. Os dados oficiais não desmentem essa constatação.

E a Iguá? Uma empresa que prometeu solução em cinco anos. Fato é que temos problemas pontuais, mas as soluções estruturais só virão no médio prazo. E a oposição, fazendo seu papel, cria o discurso do caos.

E na oposição, não tem o que elogiar? Claro que tem. Já disse e repito, mesmo com alguns só lendo e ouvindo o que querem: Valmir é o maior líder popular da história recente da política sergipana.

Francisquinho fez dois grandes governos em Itabaiana. O atual, do qual já se afastou, não teve grandes resultados. E ainda devemos pôr na conta dele o governo do aliado Adailton Souza, pois ele influía bastante.

E Ricardo Marques? Apesar da tímida pré-campanha, Ricardo é um exímio comunicador e pode dar trabalho com sua nova roupagem bolsonarista. Como vereador de oposição, foi um grande parlamentar e tem seu fã-clube na sociedade.

Uma constatação não anula a outra.

E qual é o motivo desta análise? É que já sofri, neste ano de 2026, duas provocações incômodas e, o pior, vindas de amigos. Ambas em locais públicos e feitas para gerar constrangimento. Tudo porque discordam das minhas opiniões e querem me enquadrar em suas visões de mundo.

Isso revela, repito, uma ausência de respeito pela liberdade de expressão. Ter opinião não é crime e nem me faz melhor ou pior que nenhum cidadão. O cidadão que me lê, ouve e segue nas redes sociais pode discordar de mim, exercendo seu direito inviolável, só não pode me agredir motivado pela divergência.

Essa é uma Domingueira de desabafo e apelo. Eu digo e escrevo sobre o que acredito. Peço apenas respeito.

Quem tenta calar a opinião não quer construir a verdade. Quer impor versão. E isso, definitivamente, não é jornalismo nem democracia.

Texto e imagens reproduzidos do site: fanf1 com br

domingo, 3 de maio de 2026

A derrota de um sistema de poder


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 2  de maio de 2026

A derrota de um sistema de poder

Depois de indicar seu advogado pessoal e um correligionário político, Lula tentou emplacar alguém cuja carreira foi essencialmente produzida pela fidelidade ao partido e a seus governos. Fernando Schüler para o Estadão:

“Foi a vitória da baixa política”, leio em um artigo, sobre a rejeição de Messias, para o STF. Achei curioso. Quem sabe a “alta política” teria sido repetir a crônica de 130 anos de “carimbos”, por parte do Senado, às indicações para o Supremo, vindas do executivo. Em outra notícia, leio que um grupo de “juristas” cogitava recorrer ao Supremo por “desvio de finalidade”. Achei graça, naquilo, mas me pareceu plausível.

Desvio de finalidade já justificou impedir Lula de assumir um ministério, no governo Dilma. E um ex-presidente conceder um indulto para um deputado condenado por “delito de opinião”. Isso e um bocado de esquisitices. Em um País que se especializou em relativizar direitos e reescrever a lei, a partir do próprio judiciário, não me surpreenderia com mais esta bizarrice.

A rejeição da indicação de Messias traz uma novidade em nossa história republicana: o Legislativo pode decidir com autonomia, na contramão do Executivo. Pode resistir ao peso da liberação de emendas e das posições no governo. Não há grande virtude, nisso. Há apenas instituições cumprindo o seu papel. Exercendo poder, funcionando dentro da regra.

Como disse o próprio Messias, em sua fala sóbria e ponderada, depois do resultado, há dias de vitória e há dias de derrota. Talvez tenhamos esquecido disso, nos últimos 130 anos de mando do governo sobre o parlamento. E é positivo para nossa república que todos saibam que as coisas possam seguir um rumo diferente.

A rejeição de Messias sugere um outro aspecto: é a derrota de um perfil de indicações, para o Supremo. De um político experiente escutei a frase síntese: o Supremo não é assessoria da presidência.

Depois de indicar seu advogado pessoal e um correligionário político, Lula tentou emplacar alguém cuja carreira foi essencialmente produzida pela fidelidade ao partido e a seus governos. Nenhum problema com isso. Pode ser uma ótima carreira. Mas inadequada a uma Suprema Corte, cuja virtude essencial é precisamente a independência e a imparcialidade, não o alinhamento político. É a fidelidade à lei e à Constituição, e não a uma fé, a um governo ou ideologia.

Por fim, há o tema existencial brasileiro. Na última semana, a PGR arquivou uma ação por homofobia contra um ministro do Supremo. E o fez porque considerou a fala (reconhecida como homofóbica pelo próprio ministro), como sem maior relevância. E porque ele havia se desculpado, depois. Curioso, isso. Significa que, a partir de agora, se alguém fizer uma fala homofóbica ou racista, e no dia seguinte pedir desculpas, estará tudo bem? Ou vale só neste caso? Ou não somos exatamente iguais, perante a lei? Ou quem sabe a lei, criada pelo próprio Supremo, é só de brincadeirinha, aplicada segundo a “interpretação” do momento?

O que temos aí é uma minúscula cereja do bolo. O fato é que o estado de direito foi quebrado, no Brasil, exatamente porque fomos cedendo, ao longo do tempo, a uma estranha hierarquia: a interpretação à frente do texto. A norma aplicada segundo a cor, a posição, o “lado”, o contexto.

É o mesmo caso com a imunidade parlamentar. O que faz um deputado processado, por denunciar um caso de abuso de poder da tribuna da Câmara? O que faz um pastor, sem foro convertido em réu no Supremo, por chamar um punhado de autoridades de “covardes”. E o que faz uma Advocacia Geral da União mandando uma carta a uma jornalista para que apague um tuite com uma crítica a um projeto de lei em discussão, no Congresso?

Se observarmos com algum cuidado, é este o mesmíssimo significado da aprovação final da “dosimetria”, no Congresso. Ou alguém acha que há amparo legal para condenar aquele senhor de 70 anos, do interior de Santa Catarina, a 14 anos de prisão, por um PIX de 500 reais? Ou acha bacana atirar pela janela o princípio da instância devida, julgando pessoas sem Foro no Supremo, sem direito a recurso, à revelia de tudo que reza nosso estado de direito?

O fato é que a tudo isso fomos assistindo um tanto quanto “bestializados”, nos anos recentes. E agora houve uma reação. Uma derrota não do governo, mas de um sistema de poder. De um modo de lidar com os direitos e garantias individuais, no Brasil.

A melhor resposta que o Supremo pode dar a esta reação é encerrar os “inquéritos” e retomar a normalidade institucional, no País. Retomar a vigência da regra do jogo, que todos decidimos, e da qual jamais deveríamos ter nos afastado, neste triste Brasil dos últimos anos.

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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Decisão histórica: plenário do Senado rejeita 'Bessias' no STF

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29  de abril de 2026

Decisão histórica: plenário do Senado rejeita 'Bessias' no STF.

Desde a criação do STF, há 135 anos, apenas cinco nomes foram barrados pelo Senado, todos em 1894, durante o governo de Floriano Peixoto. Camila Abrão para a Gazeta do Povo:

O plenário do Senado rejeitou nesta quarta-feira (29) a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF), em uma derrota histórica ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Messias recebeu 34 votos favoráveis e 42 contrários.

Eram necessários no mínimo 41 votos favoráveis entre os 81 senadores. Desde a criação do STF, há 135 anos, apenas cinco nomes foram barrados pelo Senado, todos em 1894, durante o governo de Floriano Peixoto.

Messias é o primeiro indicado a ser rejeitado após a aprovação da Constituição de 1988. Agora, Lula deve escolher outra pessoa para ocupar a mesma vaga. O novo indicado deverá ser submetido ao aval dos senadores.

Mais cedo, o AGU foi aprovado pela Comissão de Constiuição e Justiça (CCJ) por 16 votos favoráveis e 11 contrários.

No início da sessão, o senador Weverton Rocha (PDT-MA), relator da indicação, disse ter sido perguntado se o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), estaria atuando contra a indicação de Messias.

“Não há de se falar em boicote, pois Vossa Excelência deu total abertura para que o processo andasse, sem nenhum tipo de interferência”, defendeu Weverton. Alcolumbre disse que evitaria comentar as alegações para focar em sua atuação institucional no comando da sessão.

Na sabatina, Messias foi confrontado pelos senadores da oposição sobre temas como aborto e liberdade de expressão. Ele fez acenos ao Congresso, defendendo a separação dos poderes e a prerrogativa do Legislativo. Também disse que o STF não pode atuar como uma espécie de “Procon da política”, mas também “não pode ser omisso”.

Lula tentou driblar resistência de Alcolumbre a Jorge Messias

Lula indicou Jorge Messias para ocupar a vaga do ministro Luís Roberto Barroso, que antecipou sua aposentadoria, em 20 de novembro de 2025. No mesmo dia, a decisão foi formalizada no Diário Oficial da União (DOU).

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), defendia a indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), ao STF. Além de preferir outro candidato, Alcolumbre reclamou de não ter sido avisado da decisão do petista.

"Tomei conhecimento pela imprensa da decisão do governo. Estabeleci um diálogo com os senadores para organizar [a sabatina e a votação], pois temos um período curto", disse o senador em 1º de dezembro de 2025.

A sabatina foi marcada para o dia 10 daquele mês. Em retaliação, o chefe do Legislativo colocou em votação uma “pauta-bomba” para o governo.

Diante da resistência, Lula driblou Alcolumbre e decidiu não enviar a mensagem oficial com o nome de Messias ao Senado, passo necessário para dar continuidade ao processo de indicação.

O senador cancelou a sabatina, acusando o governo de "grave omissão". A mensagem só foi encaminhada à Casa Alta no dia 1º de abril, quatro meses após o anúncio da indicação.

"Ministério da Verdade"

Sob o comando de Messias, a AGU criou a Procuradoria Nacional da União de Defesa da Democracia, o chamado "Ministério da Verdade", devido à sua atuação na remoção de conteúdos digitais. Juristas ouvidos pela Gazeta do Povo consideram que o órgão é utilizado como um instrumento de censura que ameaça a liberdade de expressão no Brasil.

Eles apontam que a AGU tem ampliado o uso de notificações extrajudiciais para remover conteúdos sem a necessidade de uma ordem judicial pública, o que ocorre sem processo direto contra o autor e sem chance de contraditório.

“Sem transparência, o usuário nem sequer sabe contra quem litigar, a agência foge da accountability política, e a plataforma se camufla atrás da própria moderação. É a forma mais sofisticada de censura no século 21, exatamente aquela que o artigo 19 do Marco Civil da Internet, antes de ser desfigurado pelo STF, existia para impedir", disse o advogado Leonardo Corrêa, presidente da Lexum.

Evangélico, Messias contou com o apoio de Mendonça no périplo

Em novembro, Messias deu início ao “beija-mão”, a campanha que todos os indicados à Corte fazem junto aos senadores. O ministro André Mendonça foi o primeiro integrante do STF a declarar apoio publicamente ao indicado de Lula.

Os dois são evangélicos e já comandaram a AGU. Mendonça é pastor auxiliar na Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo. Já o indicado de Lula é membro da Igreja Batista Cristã de Brasília.

Em uma carta ao Senado, Messias destacou sua origem cristã e afirmou que atuará com “imparcialidade” e “guiado” por valores, como fé, família e trabalho, se fosse aprovado.

Além disso, Mendonça também enfrentou a resistência de Alcolumbre quando teve o nome escolhido. Em 2021, o senador era presidente da CCJ e defendia a escolha do então procurador-geral da República, Augusto Aras, para a Corte. À época, Alcolumbre levou mais de quatro meses para marcar a sabatina.

Quem é Jorge Messias?

Há dez anos, Jorge Messias ficou conhecido nacionalmente como “Bessias” ao ser mencionado em conversa interceptada pela Operação Lava Jato entre a então presidente e Lula. A gravação foi divulgada em março de 2016.

Na ocasião, Dilma pediu a Messias, seu subchefe para Assuntos Jurídicos da Presidência, que levasse a Lula, então alvo da Lava Jato, o termo de posse como ministro da Casa Civil para uso “em caso de necessidade”. O episódio foi considerado como uma tentativa de garantir foro privilegiado a Lula.

Messias é graduado em Direito pela Faculdade de Direito do Recife (UFPE), mestre em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional pela Universidade de Brasília - UnB (2018) e doutor pela mesma universidade (2023), onde lecionou como professor visitante.

Procurador da Fazenda Nacional desde 2007, já foi subchefe para Assuntos Jurídicos da Presidência, secretário de Regulação e Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação e consultor jurídico dos ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação. Ele é casado e tem dois filhos.

Quem são os ministros do STF, quem os indicou e quando eles devem se aposentar

A idade limite para exercer a função de ministro do STF é 75 anos, quando ocorre a aposentadoria compulsória. Contudo, os integrantes da Corte podem antecipar a aposentadoria, como aconteceu com Barroso. Veja abaixo a idade atual dos ministros, o ano da posse e quando eles devem se aposentar:

Luiz Fux (73 anos): Indicado pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Tomou posse em 2011. Deve se aposentar em 2028;

Cármen Lúcia (72 anos): Indicada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tomou posse em 2006. Deve se aposentar em 2029;

Gilmar Mendes (70 anos): Indicado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Tomou posse em 2002. Deve se aposentar em 2030;

Edson Fachin (68 anos): Indicado pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Tomou posse em 2015. Deve se aposentar em 2033;

Dias Toffoli (58 anos): Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tomou posse em 2009. Deve se aposentar em 2042;

Alexandre de Moraes (57 anos): Indicado pelo ex-presidente Michel Temer (MDB). Tomou posse em 2017. Deve se aposentar em 2043;

Flávio Dino (57 anos): Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tomou posse em 2024. Deve se aposentar em 2043;

Nunes Marques (53 anos): Indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Tomou posse em 2020. Deve se aposentar em 2047;

André Mendonça (53 anos): Indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Tomou posse em 2021. Deve se aposentar em 2047;

Cristiano Zanin (50 anos): Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tomou posse em 2023. Deve se aposentar em 2050.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Choque Zema X Gilmar Inaugura Campanha


Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 28 de abril de 2026

Choque Zema X Gilmar Inaugura Campanha
Por Fernando Gabeira (in blog)

São evidentes os sinais de que a campanha começou. Lula ironiza Trump porque sabe que o presidente americano será um bom cabo eleitoral para ele e um transtorno para o adversário. No capítulo das polêmicas, o debate Romeu Zema x Gilmar Mendes teve grande destaque. Zema é azarão, a julgar pelas pesquisas. Mas tem um marqueteiro audacioso, que fez animação criticando os ministros do STF. Gilmar saiu para o debate, dando entrevistas a jornalistas, sem escolher os mais camaradas. O resultado foi uma grande exposição do ministro e, provavelmente, um ligeiro avanço de Zema nas pesquisas.

Gilmar expôs muitos aspectos de sua personalidade que não eram tão conhecidos. Começou por criticar a maneira como Zema falava, “algo parecido com o português”. O ministro chegou a pensar que era o idioma falado em Timor-Leste. Zema pode ser complicado, mas fala com um sotaque mineiro. Suponhamos que uma ou outra palavra não seja usual. Mas, com base nessa premissa, consideraríamos o “Grande Sertão” de Guimarães Rosa um verdadeiro atentado.

Parece que os mineiros gostam de brincar com as palavras. Outro dia vi nas redes uma linda jovem mineira ensinando xingamentos: estrupício, energúmeno, marmota e songamonga. Quando cobri a Farra do Boi, ritual hoje proibido, notei que os moradores do litoral falavam também com forte sotaque, marcado pela colonização açoriana em Santa Catarina. No Rio Grande do Sul, conheci um dialeto de origem italiana falado por todos na cidade. Era o talian. Alguns sinais de trânsito na cidade de Serafina Corrêa também eram nesse dialeto.

A diversidade aconselha a não se escudar no português castiço. Mas esse foi apenas um detalhe na longa exposição de Gilmar. Ele reclamou que o Brasil tem 180 milhões ou 200 milhões de juristas, reproduzindo aquela frase de que o país tem 200 milhões de técnicos de futebol. Isso acontece porque somos apaixonados por futebol, e muitas vezes a pressão sobre o técnico acabou levando a soluções bem-sucedidas. Qual é o problema de termos 200 milhões de juristas? O tema deveria ser proibido para os não especializados?

Gilmar não só aconselhou a investigar Zema, como afirmou defender que o inquérito das fake news dure até depois das eleições. É uma certa superestimação dos poderes de Alexandre de Moraes, acossado pelo escândalo do Master. Se a Polícia Federal for acionada para defender o Supremo de ataques, corre o risco de ser soterrada pela demanda. As críticas ao Supremo são inevitáveis. As mais duras, sem dúvida, virão da direita, mas a esquerda também propõe uma reforma do Judiciário.

A proposta de levar o inquérito das fake news até as eleições, sem dúvida, é o aspecto mais grave da temporada de entrevistas de Gilmar. Tem um viés intimidativo que acaba revelando uma posição autoritária, sugerida pelo elitismo no idioma e pela crítica à participação popular nas decisões jurídicas.

Sou um desses 200 milhões de juristas. Achei um absurdo o inquérito das fake news quando foi aberto. Foi uma reação ao trabalho da Receita, que investigava as contas das mulheres de Gilmar e Toffoli. Protestei contra a censura à revista Crusoé e pedi que Moraes e Toffoli renunciassem aos seus cargos. Era um pedido ingênuo, mas considerava muito grave o desrespeito à liberdade de expressão. Se tivessem ouvido aquele apelo, pelo menos não estariam tão enroscados como agora.

Texto e imagem reproduzidos do site gabeira com br

Bob Fernandes ENTREVISTA Milton Hatoum

 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Gilmar briga com fantoches

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 27  de abril de 2026

Gilmar briga com fantoches

É lamentável que o ministro de uma corte constitucional não saiba o que é sátira. Lygia Maria para a FSP:

Gilmar Mendes quer que o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, seja investigado no inquérito das fake news por causa de um vídeo com fantoches.

É lamentável que o ministro de uma corte constitucional não saiba o que é sátira. Afinal, foram os textos constitucionais das democracias modernas que, ao consagrarem a liberdade de expressão, protegeram a crítica humorística a figuras públicas contra os arbítrios persecutórios do passado.

O pedido enviado a Alexandre de Moraes —relator do inquérito que, desde 2019, respalda medidas censórias no Brasil— diz: "Valendo-se de avançados mecanismos de ‘deep fake’, o vídeo emula vozes de ministros da Suprema Corte para travar diálogo que, além de inexistente, tem como claro intuito vulnerar a higidez desta instituição da República".

Ora, sátira não é jornalismo. Exigir factualidade de diálogos é um disparate —basta imaginar tal exigência em quadros de programas como Casseta & Planeta.

Ademais, se as vozes se parecem com as dos ministros, os fantoches explicitam que não se trata de "deep fake", tecnologia que cria conteúdos extremamente realistas. Tal ignorância digital seria risível, se não se prestasse a infringir a liberdade de expressão.

Censurar também é o objetivo da alegação de que o vídeo ataca a corte, o que, por sua vez, seria um ataque à democracia. É preciso interromper essa ladainha ilógica que, há anos, promove abusos de poder. Ministros não são o STF, e o STF não é a democracia.

No vídeo, bonecos que figuram Gilmar e Dias Toffoli tratam da anulação da quebra de sigilo de um fundo ligado ao Banco Master que teria conexões com uma empresa da qual Toffoli é sócio.

A cena faz referência a fatos noticiados pela imprensa e criticados pela opinião pública. Estranho seria se não fossem ridicularizados. Todo cidadão tem o direito de questionar as conexões entre Toffoli e Moraes com o Master, sobretudo quando um Supremo corporativista finge que não há problema. Se a PGR autorizar a investigação de uma sátira com fantoches, talvez seja melhor mudar a alcunha de Estado de Direito para Estado de Exceção.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Zema cresce no conflito com Gilmar Mendes...

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de abril de 2026

Zema cresce no conflito com Gilmar Mendes e aumenta o desgaste do STF

É a censura, e não o humor político, que ameaça a democracia, afirma Fernando Schüler em seu comentário no Estadão (resumo em seguida):

Em seu comentário nesta quinta-feira, 23, o colunista Fernando Schüler aborda, sob dois aspectos, a tensão entre o ministro Gilmar Mendes e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo).

“Tem um aspecto que é essencialmente republicano. Ora, se o poder no Brasil, seja de qualquer esfera, for monitorar o humor político no Brasil, as charges, os desenhos, as animações, o stand-up comedy e etc no Brasil, nós vamos nos tornar uma república Orwelliana, que é uma referência ao clássico do George Orwell sobre estados de natureza totalitários”, diz ele.

Segundo Schüler, se observarmos o passado, inclusive nos tempos do Império, há uma tradição brasileira do humor satírico.

“Se o País mudar essa tradição, a partir de agora, não apenas alguém que ocupa posição de poder vá mover um processo de agressão contra a honra, calúnia, difamação, enfim, na instância devida, mas alegar, dentro do inquérito de fake news, porque detém um poder como se fosse uma agressão ao estado de direito, ou seja, uma charge relativamente ao comportamento de um agente público se transformar numa ameaça à própria democracia, aí realmente nós estamos num outro tipo de regime político”, critica.

Além disso, Fernando Schüler também aborda o aspecto político, que é o da visibilidade que o caso dá a Romeu Zema.

“É o efeito Barbra Streisand, conhecido nos debates sobre liberdade de expressão, em que você coloca um enorme foco em alguém, em um personagem, em função de um ato de censura. No fundo, é disso que se trata, ou de algum tipo de exercício do poder mais ou menos arbitrário, enfim, relativamente a alguém, e aquilo ganha um destaque que jamais teria se a censura não tivesse sido aplicada”, lembra Schüler, destacando o espaço que Zema passa a ocupar no cenário político, inclusive com aumento no engajamento e na atenção dada a ele na disputa eleitoral.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 21 de abril de 2026

Jornalismo sem credibilidade




Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19  de abril de 2026

Jornalismo sem credibilidade

Metade dos brasileiros desconfia de notícias publicadas na imprensa. Edilson Salgueiro para a Oeste:

Às 7h12, o celular que descansa na mesa de cabeceira vibra pela terceira vez. No grupo de WhatsApp da família, alguém encaminha um vídeo curto: um youtuber fala com convicção, sem legenda, sem fonte, sem contexto. Em poucos segundos, surgem respostas — um emoji, uma frase curta, um encaminhamento — e o vídeo segue adiante, rumo a diferentes destinatários. Em outro celular, em outra casa, uma pessoa abre um portal de notícias, lê as manchetes, desliza a página, compara títulos e fecha a aba. Esses dois comportamentos coexistem e ajudam a explicar o cenário descrito no estudo Integridade da Informação 2025, elaborado pelo Painel TIC: no Brasil, a maneira de se consumir notícias mudou.

Cerca de metade (48%) dos usuários de internet diz desconfiar de reportagens publicadas por veículos jornalísticos. Ao mesmo tempo, a desconfiança é menor quando a informação é enviada por amigos ou familiares em redes sociais (39%) ou em aplicativos de mensagens (42%). A informação não desapareceu da mídia tradicional, mas passou a circular com força nas redes sociais.

O estudo, realizado com 5.250 homens e mulheres com 16 anos ou mais entre agosto e setembro de 2025, mostra que os brasileiros acompanham o noticiário de diversas formas. Ao todo, 60% dizem se informar diariamente por aplicativos de mensagens; 53% recorrem a feeds de vídeos curtos; metade utiliza plataformas de vídeo; e 46% acessam notícias por redes sociais. A televisão aparece depois, com 45%; portais de notícias e podcasts, 37%; canais 24 horas, 34%; rádio, 28%; jornais, 26%; e revistas, 22%.

Ao longo do dia, o mesmo usuário pode receber um vídeo no WhatsApp, assistir a um short no TikTok e, mais tarde, abrir um site de notícias para confirmar uma informação. Esse percurso fragmentado alterou o ritmo da atenção humana. Os formatos que mais crescem, como mensagens de WhatsApp e vídeos curtos, são aqueles que exigem menos tempo contínuo e se encaixam na lógica das notificações. Em comparação, o telejornal pede horário, o portal exige permanência e o jornal impresso demanda leitura prolongada.

Essa mudança se reflete na forma como os brasileiros leem notícias. Apenas 36% dos usuários dizem checar sempre a veracidade das informações que recebem; 28% afirmam fazê-lo na maioria das vezes; e 14% admitem checar poucas vezes ou nunca. Entre os que não verificam, os motivos são curiosos: esquecem (36%), não têm tempo (33%) ou não têm interesse (33%). Outros partem de uma certeza prévia: 31% acreditam que a informação já é verdadeira; e 25%, que já é falsa.

Especialistas consultados por Oeste afirmam que a confiança no interlocutor se tornou fundamental no consumo de informações. Em ambientes como grupos de mensagem, a notícia chega filtrada por relações de proximidade, o que reduz a resistência inicial e acelera a circulação.

“Vivemos um momento em que as pessoas estão menos dispostas a serem conduzidas por narrativas únicas”, observa a especialista em gestão de crises Fernanda Turco, sócia-diretora da empresa de comunicação estratégica Infomuts. “Há uma busca crescente na autonomia de pensamento. Cada indivíduo quer se sentir respeitado em suas escolhas, valores e visões de mundo. Nesse contexto, qualquer sinal de direcionamento, viés ou tentativa de influência explícita gera uma resistência imediata.”

Fernanda acredita que a desconfiança do público em relação ao jornalismo tradicional decorre da perda de credibilidade e da falta de imparcialidade. “Não basta produzir conteúdo correto, é preciso reconstruir relações de confiança”, resume a especialista, ao defender mais transparência nas linhas editoriais e a ampliação da pluralidade de vozes.

Pesquisas sobre o perfil ideológico dos jornalistas brasileiros trazem luz ao problema. Um estudo da Universidade Federal de Santa Catarina, por exemplo, mostra que mais de 50% dos profissionais se declaram de esquerda e cerca de 30% de centro-esquerda, enquanto aproximadamente 5% se posicionam à direita ou à centro-direita. O restante (15%) se divide entre centristas e apolíticos.

A nova era da informação

Apesar da mudança nos hábitos, a informação segue presente na vida dos brasileiros: 65% dizem acompanhar notícias diariamente, embora esse número varie conforme a idade. Entre jovens de 16 a 24 anos, a taxa cai para 46%; entre pessoas de 45 a 59 anos, sobe para 79%. Esse consumo, no entanto, não se traduz necessariamente em engajamento com o conteúdo. Parte dos entrevistados, por exemplo, demonstra pouca disposição para verificar informações. Ao todo, 34% afirmam que não vale a pena checar se os conteúdos são verdadeiros, e 30% dizem que a polarização torna esse esforço inútil. O levantamento associa esse comportamento ao cansaço diante do excesso de conteúdo — dinâmica que, na literatura, se aproxima do chamado news avoidance (evitar consumir notícias).

Para o professor de jornalismo Jorge Tarquini, mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo, esse fenômeno está ligado ao chamado viés de confirmação. “A gente educa o algoritmo a entregar aquilo que confirma o nosso pensamento”, explica. “Se os usuários acompanham conteúdo de esquerda, recebem mais disso. Se consomem material de direita, acontece a mesma coisa.”

Tarquini avalia que a solução não passa por adaptar o jornalismo à lógica das redes sociais ou ao padrão de consumo moldado pelos algoritmos. Na visão do professor, alinhar a produção jornalística ao viés do público significaria comprometer sua função original — a de confrontar, contextualizar e oferecer diferentes perspectivas. “O jornalismo precisa voltar a fazer o que sempre fez: manter o contraditório e reforçar a diferença entre notícia e opinião”, afirma.

Nesse ambiente saturado, novos tipos de conteúdo circulam com frequência. Ao todo, 41% dos usuários relatam contato diário com deepfakes (imagens ou vídeos manipulados por inteligência artificial). Nem tudo é imediatamente verificável, e nem sempre há tempo ou disposição para investigar. Para lidar com esse cenário, muitos usuários adotam estratégias próprias de filtragem: 76% dizem já ter bloqueado ou silenciado perfis, e 69% afirmam sinalizar que não têm interesse em determinados assuntos.

Quando a pesquisa testa a capacidade prática de identificar informações falsas, o resultado revela outro tipo de descompasso: apenas 17% dos entrevistados alcançaram o nível mais alto de acerto. Há, contudo, diferenças entre grupos — pessoas mais velhas, com maior escolaridade e renda tendem a ter melhor desempenho, assim como aquelas que acessam a internet por mais de um aparelho eletrônico. No entanto, o dado mais significativo é outro: 11% se dizem muito confiantes para identificar informações falsas, e outros 29% afirmam estar confiantes.

Essa disparidade aparece também no entendimento de como a informação circula. Ao todo, 45% acreditam que todos recebem os mesmos resultados ao fazer uma busca na internet, embora as plataformas personalizem o que cada usuário vê; já 56% consideram que publicações circulam mais porque chamam atenção, independentemente de serem verdadeiras ou não. A lógica dos algoritmos, baseada em personalização, histórico de uso e engajamento, nem sempre é percebida. O ambiente parece igual, mas opera de forma diferenciada para cada internauta.

Nesse cenário, as plataformas seguem ocupando espaço central no cotidiano. O WhatsApp é usado diariamente por 91% dos entrevistados, e 54% dizem estar nele praticamente o tempo todo. Já o Instagram e o YouTube aparecem com 73% de uso diário, seguidos pelo Facebook (57%) e pelo TikTok (50%). Na era digital, a comunicação, o entretenimento e a informação convivem nos mesmos espaços. Um vídeo pode informar e divertir ao mesmo tempo; uma mensagem pode misturar opinião e dado; e uma notícia pode aparecer ao lado de um conteúdo pessoal.

O leitor é protagonista

A inteligência artificial (IA), considerada a menina dos olhos das big techs, acrescenta uma nova camada a esse universo. Ao todo, 47% dos brasileiros dizem já ter utilizado o ChatGPT; a IA do WhatsApp aparece com 42%, seguida pelo Gemini (30%) e pelo Copilot (14%). Além de distribuir informação, a IA participa da produção, da organização e da interpretação das notícias.

Entretanto, o uso das diversas ferramentas digitais não ocorre de forma homogênea. De acordo com o estudo, as diferenças sociais continuam influenciando o acesso e a diversidade de fontes. Entre cidadãos das classes A e B, 58% acessam diariamente portais de notícias; na classe C, são 33%; nas classes D e E, 27%. Quanto maior o acesso a fontes, maior a chance de comparar e checar informações.

No conjunto, o estudo descreve um ambiente em transformação contínua. A informação chega mais rápido, por diversos canais e em diferentes formatos, o que amplia o acesso e a circulação. Ao mesmo tempo, exige mais do usuário: selecionar, interpretar e decidir em meio a um fluxo constante.

No grupo de WhatsApp da família, o vídeo continua circulando. Em algum momento, alguém pergunta se é verdadeiro. Outro responde com uma experiência pessoal. Um terceiro envia um link de notícia. Um quarto muda de assunto. Tudo acontece ao mesmo tempo. Nesse fluxo contínuo, a informação chega por caminhos diferentes, em velocidades distintas e com graus diferenciados de confiabilidade. Cabe ao usuário escolher em que acreditar.

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'Papa versus Trump', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 21 de abril de 2026 

Papa versus Trump 
Por Fernando Gabeira (In Blog)

Quantas divisões tem o Papa? A pergunta, atribuída a Stálin, mostra o desprezo que os políticos em guerra têm pela autoridade moral de um Papa. Donald Trump revelou essa arrogância ao afirmar que o pontífice é fraco e não entende de política externa. Os Estados Unidos são uma nação religiosa e, pela primeira vez na História, o Papa é um americano. Nada disso inibiu Trump, apesar de os Estados Unidos continuarem dando um verniz religioso à sua política de conquista de regiões ricas em petróleo.

Essa versão religiosa estava muito presente em Bush filho antes da guerra do Iraque. Para ele, os Estados Unidos estavam em luta contra o Eixo do Mal. Ficou célebre esta declaração do tenente-coronel Gareth Brandl ao liderar o ataque dos fuzileiros navais americanos à cidade iraquiana de Faluja:

— O inimigo tem um rosto. Ele se chama Satã. Ele vive em Faluja. E nós o destruiremos.

Muitos dos conservadores religiosos que constituem parte da base republicana esperam um final dos tempos promovido pela intervenção divina. Encaram os conflitos mundiais, na análise de John Gray, como prenúncio do Armagedon, batalha final entre a luz e as trevas. Outros esperam ser poupados dessas provações, num êxtase em que serão conduzidos aos céus. Em ambos os casos, o mundo imperfeito vivido pela humanidade chegará ao fim.

O verniz religioso das aventuras geopolíticas americanas continua presente. Só que está ficando mais audacioso e ligeiramente ridículo. Em primeiro lugar estão as críticas ao Papa. O vice-presidente J.D. Vance disse que o Papa deveria tomar muito cuidado ao falar de teologia. Como assim? O Papa graduou-se em teologia aos 27 anos.

Na mesma semana em que fazem críticas ao Papa, querem se mostrar religiosos. O secretário de Defesa pensou ler um trecho bíblico do Livro de Ezequiel, mas, na verdade, lia um texto de Quentin Tarantino, escrito para o filme “Pulp fiction” e declamado pelo ator Samuel L. Jackson.

O tom religioso continua presente, com Trump fazendo leituras públicas da Bíblia. Tudo mostra que a velha aspiração de Bush continua de pé: nossa responsabilidade perante a História é livrar o mundo do Mal.

Embora não seja estudioso de teologia, observo que, desde Agostinho — precisamente o inspirador da ordem do Papa Leão XIV —, a corrente central do pensamento cristão rejeita a tentação do absolutismo moral na política. Para ela, o reino dos céus não é deste mundo; nenhuma instituição humana pode arvorar-se em encarnação do Bem.

Como lembrou o Papa na África, os tiranos estão devastando o mundo. E podemos acrescentar: devastam o mundo em nome do domínio geopolítico, do petróleo e, finalmente, em nome de Deus. O irônico é que a guerra de agora é contra uma teocracia que massacra seus opositores, principalmente as mulheres, e que considera os Estados Unidos o Grande Satã. Na verdade, assistimos a uma luta em que os contendores se consideram, respectivamente, Satã e o Grande Satã.

Só nos resta desejar a paz, como o Papa. Nesse sentido, a posição brasileira nos representa, pois ela prega a paz e se solidariza com Leão XIV.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

A doença de FHC

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 20  de abril de 2026

A doença de FHC

Aliás, talvez esse seja, aos olhos de hoje, o maior pecado de FHC: saber usar o garfo e a faca e se expressar em várias línguas, inclusive o português, ter lido alguns livros, e se portar como uma autoridade de fato. Paulo Polzonoff para a Gazeta do Povo:

A notícia de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o FHC, foi interditado pela família porque sofre de Alzheimer... alegrou muita gente. Espero que não você. Tudo porque ele apoiou Lula e era de esquerda. Até o fato de FHC ser descendente de um dos revolucionários republicanos de 1889 foi usado para dizer que ele não presta nem nunca prestou.

Coitado. FHC que, nos anos 1990, conseguiu o impensável. O inimaginável. O que parecia impossível. O equivalente, agora, a conseguir botar uma focinheira nesse Supremo autoritário que temos aí: acabou com a hiperinflação. Não sei se as pessoas têm ideia do tamanho desse feito, de quantas vidas o Plano Real salvou e de quantas oportunidades ele criou para milhões de pessoas. Foi uma revolução econômica imperfeita, mas seguramente virtuosa.

Garfo e faca

Mas é a tal coisa: a ideologia é ingrata. De um lado, a esquerda rejeita FHC pelo que eles chamam de “mentalidade privatista” e pela submissão dele ao “neoliberalismo”. De outro, a direita rejeita FHC pelo apoio histórico dele à esquerda, por ter passado a faixa para Lula, por ter feito oposição ao Bolsonaro. Sem falar em algo que FHC tinha de sobra e que incomoda tanto a direita quanto a esquerda atuais: decoro.

Aliás, talvez esse seja, aos olhos de hoje, o maior pecado de FHC: saber usar o garfo e a faca e se expressar em várias línguas, inclusive o português, ter lido alguns livros, e se portar como uma autoridade de fato. Como presidente de um país como o Brasil. Nah. Me desdizendo desde já, o maior pecado de FHC foi ter cometido o terrível erro de não ser perfeito numa época que exige perfeição, nada menos do que a perfeição, de seus homens públicos.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 18 de abril de 2026

O Fator Trump na Eleição Brasileira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 14 de abril de 2026

O Fator Trump na Eleição Brasileira 
Por Fernando Gabeira (in blog)

Nestes anos democráticos, política externa nunca foi um grande tema eleitoral. Mas agora isso mudará. Será preciso uma definição diante do governo Trump: como se relacionar com os Estados Unidos neste período tão conturbado?

Já tivemos a experiência de um tarifaço, que veio sem aviso prévio algum. De repente, acordamos com as maiores tarifas do mundo — nós, que tínhamos déficit no comércio entre os dois países.

Trump venceu dizendo America first. Venceu com uma grande sede de petróleo, que o levou a sequestrar Maduro e iniciar uma guerra contra o Irã.

É difícil projetar uma política diante de um homem que nega a importância dos outros, que despreza outros idiomas e que acorda, em certos dias, disposto a acabar com uma civilização que data de milênios antes de Cristo.

Sua relação com aliados históricos é difícil. Deixou a Europa um pouco só na defesa da Ucrânia, atacada por Putin. Obrigou o continente a gastar mais dinheiro com armas. No momento em que se voltou contra o Irã, pediu a ajuda dos europeus. Em seguida, disse: não precisamos do óleo que passa pelo Estreito de Ormuz; os europeus que resolvam o problema do fechamento.

Com os países do Golfo, Trump se mostrou mais problemático. Eles investiram bilhões de dólares em segurança, contavam com os Estados Unidos para protegê-los, e Trump levou a guerra e, com ela, uma grande insegurança sobre a produção de petróleo e a própria dessalinização da água.

Todos esses fatores o tornam um aliado pouco confiável. A desconfiança fica colossal quando se leem os bastidores de sua decisão. Netanyahu fez uma preleção sobre matar o aiatolá Khamenei, bombardear o Irã e despertar uma revolta popular que resultaria na troca de regime. Trump apenas disse:

— Sounds good.

Ele não consultou seus estrategistas, não submeteu a ideia ao Congresso, simplesmente foi à guerra.

Diante de tudo isso, fica claro que uma oposição direta a Trump não é uma saída sensata. Cooperar em alguns itens, como segurança pública, e distanciar-se de apoio a guerras que empobrecem o mundo parecem alguns elementos dessa política.

Uma diretriz de alinhamento acrítico não corresponde à sofisticação da política externa brasileira e pode ser extremamente perigosa no longo prazo. Independentemente de apoiar ou não o regime teocrático do Irã, a decisão de declarar guerra não pode ser tão grotesca quanto a tomada por Trump. Não era possível reproduzir a Venezuela.

O Irã se prepara há 40 anos para uma guerra; logo, não seria derrotado nos primeiros dias. O Estreito de Ormuz poderia ser fechado, com prejuízos para todo o planeta. A infraestrutura produtiva dos países do Golfo poderia ser atingida.

Uma adesão incondicional à política de Trump só pode ser classificada como cegueira ideológica, uma suposição de que os Estados Unidos estão sempre certos, mesmo num período e num governo tão excepcionais — especialmente de Donald Trump, que combina arrogância com uma visão limitada da situação mundial.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br