Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 1 de abril de 2026
Por que a Geração Z não quer saber de Lula e da esquerda?
A ironia é que, apesar de dominar a cultura, a academia e a mídia, a esquerda revela uma tremenda desconexão com grande parte da nova geração. José Fucs para o UOL:
Em meio à divulgação das pesquisas mais recentes, que apontaram um empate técnico no segundo turno das eleições de 2026 entre o presidente Lula, provável candidato à reeleição, e Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL, um indicador merece ser avaliado com mais atenção, pelo que revela sobre as novas tendências do eleitorado.
Perdido nas análises sobre o acirramento da disputa, o dado aparece no levantamento AtlasIntel/Bloomberg e mostra a enorme rejeição a Lula entre os integrantes da chamada Geração Z, composta pelos nascidos de 1995 a 2010.
Segundo a pesquisa, divulgada na semana passada, a desaprovação de Lula entre os jovens de 16 a 24 anos —que representam 13% dos eleitores ou 20,5 milhões de pessoas— alcança nada menos que 72%. É o maior índice negativo nesta faixa desde o início do terceiro mandato e supera de longe a média geral, considerando todas as idades, de 53,5%.
Para desconsolo do presidente e do PT, a reprovação atinge a maioria desses jovens em todas as faixas de renda. Ela oscila entre 55%, na faixa até dois salários mínimos, e 80%, na faixa acima de dez salários. A alta desaprovação dos jovens a Lula também independe de gênero. Embora seja mais alta entre os homens, atingindo 78,2%, também é bem superior à media geral entre as mulheres, com 61,4%. Além disso, 48,3% disseram temer mais a reeleição de Lula e apenas 25,6%, a vitória de Flávio Bolsonaro.
O levantamento não é apenas um recorte fora da curva. A pesquisa AtlasIntel reforça resultados semelhantes apontados por sondagens de outros institutos também divulgadas em março. De acordo com uma pesquisa do Ipsos, os jovens da Geração Z no Brasil estão se mostrando bem mais conservadores que seus pais —uma tendência reforçada por um levantamento Quaest, que apontou um recall muito maior para políticos de direita, como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira (PL-MG), do que para qualquer nome da esquerda, entre jovens que se dizem independentes.
Esses resultados representam uma mudança significativa em relação à eleição de 2022, quando o voto dos mais jovens foi decisivo para a vitória de Lula. Não tanto pela adesão à sua agenda e às bandeiras da esquerda, mas principalmente pela rejeição ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A maior evidência disso é que, nas eleições estaduais e para o Congresso, a direita e a centro-direita avançaram.
A ironia é que, apesar de dominar a cultura, a academia e a mídia, a esquerda revela uma tremenda desconexão com grande parte da nova geração. Nas universidades, onde esta faixa etária predomina, a esquerda persegue professores que não rezam pela sua cartilha, impede palestrantes de direita de dar seus recados, toma conta das entidades estudantis e influencia até os currículos dos cursos, apesar da falta de representatividade junto à maior parte dos alunos.
Discurso embolorado
As motivações da guinada política dos jovens ainda carece de estudos mais profundos. Mas já dá para levantar alguns pontos que podem explicar por que a Geração Z se identifica mais com a direita e não quer saber de Lula e da esquerda.
O envelhecimento de Lula tem o seu peso, não tanto pelos seus 80 anos, mas pelo seu discurso embolorado, que se mantém praticamente o mesmo há 50 anos. Em plena era da inteligência artificial, ele continua preso ao passado. Continua pensando de forma analógica, com a cabeça na Guerra Fria, defendendo Cuba, o ditador Nicolás Maduro, o Irã dos aiatolás e o tal do Sul Global —seu maior fetiche geopolítico. Ficou "véi", como diz a galera por aí.
Líder supremo do PT e eterno candidato a presidente, Lula abafou o surgimento de novas lideranças no partido. Com a tentativa de reeleição em 2026, ele completará seu sétimo pleito desde 1989. Só não concorreu em 2010, porque não podia, depois de dois mandatos consecutivos; em 2014, porque sua pupila Dilma Rousseff insistiu na reeleição; e em 2018 porque estava preso e indicou Fernando Haddad, seu fiel escudeiro, chamado de "poste" pelos adversários na época, para representá-lo.
Além de sua resistência em navegar no ambiente digital, Lula e o PT demonstram uma tremenda incapacidade de entender a mentalidade dos mais jovens, os chamados "nativos digitais", que já nasceram e cresceram sob a influência da internet. A rigor, eles não só têm dificuldade para entender suas ideias como rejeitam muitas delas.
Enquanto muitos dos integrantes da Geração Z valorizam a autonomia na vida pessoal e no trabalho e enxergam no empreendedorismo a principal via de ascensão social, Lula e o PT continuam a acreditar que "dignidade" é ter carteira assinada, sindicato forte e estabilidade no emprego. Seguem apegados à velha CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), criada por Getúlio Vargas em 1943, durante o Estado Novo, sob inspiração da Carta del Lavoro, do ditador fascista italiano Benito Mussolini.
Modelo ultrapassado
O maior exemplo desse descompasso é a tentativa de regulamentação a fórceps dos aplicativos de mobilidade e entrega. O problema, como mostram as pesquisas, é que para a maioria dos que trabalham nas plataformas esse é um modelo ultrapassado. Eles não estão preocupados com CLT nem com crachá. Valorizam a flexibilidade no horário de trabalho, a liberdade de atender a várias empresas ao mesmo tempo, sem vínculo empregatício, e a meritocracia, que lhes permite prosperar pelo próprio esforço.
Para os mais jovens, que sonham com o CNPJ e querem virar MEI (microempreendedor individual), o que Lula, o PT e a esquerda chamam de "precarização do trabalho" e "uberização" soa mais como uma limitação da liberdade profissional que eles almejam. Os exemplos de sucesso para muitos integrantes dessa turma são os influencers e os vendedores de cursos online que enriqueceram na internet. Neste cenário, o discurso da direita, em defesa da liberdade econômica e da redução de impostos, parece fazer muito mais sentido do que a sanha regulatória do governo Lula.
Não por acaso, conforme o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), o número de MEIs criadas pelos mais jovens está batendo recorde e já representa cerca de 20% de todos os novos micronegócios do país. É sintomática também a proliferação de entidades de apoio ao empreendedorismo e ao microcrédito em favelas e a realização de feiras de empreendedores nas periferias de grandes cidades.
Lula, o PT e a esquerda em geral podem esperar retribuição dos mais jovens às "entregas" do governo, como o Pé de Meia, o programa que oferece compensações financeiras a estudantes do ensino médio de escolas públicas, para estimular a permanência no curso e sua conclusão. De acordo com as pesquisas, no entanto, muitos acreditam que o governo não está fazendo mais do que a obrigação.
"Forma de transgressão"
Ao contrário do que muitos analistas podem imaginar, o fenômeno não é apenas uma osciliação conjuntural, fruto da falta de calibragem nas políticas oficiais ou de um mau humor passageiro. O que os dados das pesquisas AtlasIntel, Ipsos e Quaest mostram não parece ser um desvio estatístico, mas um realinhamento histórico estrutural.
Durante décadas, a juventude foi "sinônimo da rebeldia progressista", nas palavras de Lucas de Aragão, mestre em ciência política e sócio da Arko Advice, empresa de consultoria sediada em Brasília. A percepção geral era de que os jovens se identificavam naturalmente com a esquerda, pelo desejo de "mudar o mundo" e de lutar contra o "sistema" e o "conservadorismo" da sociedade. Pelo jeito, porém, a Geração Z —considerada bem mais pragmática que as suas antecessoras recentes, inclusive os milennials (nascidos entre 1981 e 1996) —está redefinindo suas prioridades.
"A rebeldia mudou de lado", diz Aragão, em artigo publicado no site de notícias Brazil Journal em fevereiro, ao comentar uma pesquisa da AtlasIntel que já apresentava resultados semelhantes à de março. "Houve um tempo em que ser de direita significava defender o establishment. Hoje é o inverso. Para a Geração Z, as instituições que moldam o discurso público (universidades, grandes empresas, imprensa e o próprio governo) falam a gramática do progressismo. Nesse ambiente, adotar posições à direita virou uma forma de transgressão."
Segundo ele, um exemplo emblemático dessa mudança apareceu na eleição para a prefeitura de São Paulo, em 2024. Na zona leste da cidade, que historicamente faz parte do "cinturão" da esquerda, o empresário e influenciador Pablo Marçal, candidato pelo PRTB (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro), foi o mais votado em 14 das 20 zonas eleitorais no primeiro turno. "Não foi um acidente estatístico", afirma. "Ali, uma parcela da juventude trocou a esperança no Estado pela aposta antissistema."
Conflito de valores
Curiosamente, alguns valores relacionados à Geração Z estão em conflito com o receituário dos conservadores e da direita raiz. Aparentemente, seus integrantes —ou boa parte deles— estão desvinculando as questões comportamentais dos limites delineados pelos campos políticos tradicionais.
Ao mesmo tempo em que a Geração Z tem uma visão mais realista do mundo, abraçando a economia de mercado e a meritocracia, e se tornou mais cética em relação às instituições, como apontam as pesquisas, ela não virou necessariamente conservadora nos costumes.
Como diz um estudo da McKinsey, uma das principais empresas internacionais de consultoria, ela não abriu mão de certas pautas comportamentais que a direita tradicional digere com dificuldade, como a defesa radical da diversidade.
Para muitos integrantes da Geração Z, a sustentabilidade não é um papo de "ecochatos", mas uma questão de sobrevivência. Eles preferem empresas que busquem preservar o meio ambiente, mas se mostram preocupados com as políticas ecológicas muito restritivas, que afastam quem vê na tecnologia verde uma oportunidade de negócio e encarecem os combustíveis e os alimentos.
Ao que tudo indica, apesar das diferenças de visão na área de costumes, a direita parece muito mais alinhada com os anseios e o discurso da Geração Z do que Lula e o PT. E não adianta imaginar que é possível resolver o problema de olho no pleito de outubro. Não há marqueteiro, por melhor que seja, que consiga superar isso da noite para o dia —ou em alguns meses. Nem o Sidônio Palmeira, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social e ex-marqueteiro de Lula em 2022.
O divórcio da juventude com Lula e o PT não parece ser, enfim, um desentendimento passageiro que uma peça publicitária bem feita ou um novo auxílio financeiro possa resolver. É um problema sério de conteúdo e não de forma, que se choca com princípios incrustados na esquerda desde sempre e que promete pautar não apenas as eleições de 2026 como também as seguintes, mudando a configuração política do país.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com







.jpg)







