segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Talvez não seja tão complicado pensar em um código de ética para o STF

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 14 de setembro de 2026

Talvez não seja tão complicado pensar em um código de ética para o STF

Crise é exemplo da ação dos pecados da usura, do orgulho e da vaidade. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

O conceito de pecado continua sendo um excelente operador para a análise do comportamento dos homens. Para os incautos, vale salientar que você não precisa ser religioso para entender o valor dos pecados como marcadores de vícios de comportamento.

O caso do STF é um exemplo gritante, entre outras causas de corrupção, da ação dos pecados da usura, do orgulho e da vaidade. O STF caiu, como Adão e Eva, e vai pôr em risco a credibilidade da Justiça, se nada for feito contra esse processo de decadência.

Que o caráter humano seja facilmente corruptível é óbvio. Alguém pode olhar para o lado numa situação de abuso de um representante do poder público ou numa empresa para não ser preso ou demitido —todos sabemos que a corrupção no Brasil é mais intrínseca ao tecido social do que a língua portuguesa.

Qualquer pessoa ou instituição que tenha poder no Brasil pode abusar de você se assim o quiser, e sua capacidade de defesa é quase nula. Se você tiver algum dinheiro, pode torrá-lo se defendendo; se não, sua saída é compactuar com o abuso e a humilhação.

Todo esse "blábláblá" em época de eleição é puro "bullshit". Falar de soberania, combate ao crime organizado, desigualdade social, cidadania, no Brasil, é quase sempre fake. A luta pelo "bem político" no país é, na maioria dos casos, mero nicho para ganhar dinheiro e manipular o poder político e econômico a seu favor ou dos seus amigos. Hoje, o próprio crime organizado deve ganhar dinheiro combatendo o crime organizado.

Vejamos o caso recente da "queda do STF". Quando essa dinâmica chega ao coração da República e do Estado democrático de Direito, como parece existir fortes indícios de que tenha ocorrido nos últimos anos, o dano é significativamente gigantesco. Ou a justiça é imparcial, ou é um dos mais violentos instrumentos de poder ilegítimo que existe. Quer ver uma comparação didática?

Você já viu filmes de faroeste antigos? Ou filmes em que aparecem estados da América Latina, muitas vezes inventados, ou do Leste Europeu, estes quase sempre citados de forma explícita, em que a polícia, o poder Judiciário, o Executivo e Legislativo, assim como os milionários, todos convergem num sistema de violência contra os cidadãos comuns?

Você já teve vontade de gritar para o mocinho ou para a mocinha "não confie nesse cara!", ou "ela foi posta aí para te seduzir e te matar"? E, no caso do faroeste, o xerife e o latifundiário do gado roubam as terras dos pequenos criadores e, se não for pelo Clint Eastwood, você está ferrado?

Pois bem, essa é a realidade do Brasil hoje —sem nenhum Clint Eastwood à vista—, apesar de idiotas do Nelson Rodrigues, à direita e à esquerda, acharem que todos os escândalos ligados ao STF são jogadas políticas contra seus ídolos. Talvez pensar como um idiota do Nelson Rodrigues seja, para além da pura e simples má-fé, uma defesa regressiva e infantil contra a realidade nua e crua da miséria política e moral do país.

Pensar em um código de ética para o STF talvez não seja tão complicado assim, se partirmos dos pecados da usura, do orgulho e da vaidade. "Se achar", seduzir-se pela aspiração de ser celebridade e rico é rota segura para a corrupção do caráter, matriz de toda forma de corrupção.

Quando você tem tão imenso poder, como os membros da corte suprema, você não pode ter os poucos privilégios que os fracos e comuns têm. A você não deveria ser permitido ter redes sociais. Frequentar festas do poder em Brasília deveria ser absolutamente interditado. Fazer palestras, jamais. Frequentar seminários ou festas literárias para quê?

Criar institutos ou ser sócio de qualquer escritório de advocacia deveria ser cláusula pétrea de interdição. Jamais dar entrevistas. Não emitir qualquer opinião sobre o país e os fatos que acontecem à sua volta. Não deveríamos lembrar do seu nome, nem do seu rosto. Nenhuma selfie.

Sua vida financeira deveria ser totalmente acessível para a população. Ou o poder é transparente, ou será sempre ilegítimo. Aliás, pensando bem, esse tópico deveria ser regra para todo servidor público, e os seus, a partir de um certo posto da hierarquia, como presidentes, governadores, prefeitos, deputados, senadores, vereadores, ministros e secretários de Estado, membros do Ministério Público e da magistratura.

Você acha que tudo isso é demais? Muita proibição da vida privada? Não gostou? Sinto muito. Vá ganhar a vida no setor privado.

O modelo deveria ser próximo do monge. Quando os membros do STF foram seduzidos pelo status de celebridade, enterrou-se a ética do Supremo. O silêncio deveria ser seu elemento.

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Master, Fake News e o 8 de janeiro: anulem tudo

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 13 de setembro de 2026

Master, Fake News e o 8 de janeiro: anulem tudo

A consequênica do poder absoluto é a corrupção - e seu efeito é a nulidade. Roberto Motta para a Oeste:

A ideia de que a política deve ter um papel fundamental em nossas vidas vem de Rousseau — aquele que lançou as bases da moderna educação infantil enquanto abandonava seus cinco filhos recém-nascidos na porta de orfanatos (o que, na época, equivalia a uma sentença de morte). A ideia do cidadão-ativista, sempre mobilizado por causas políticas, foi consolidada com a Revolução Francesa e se manifesta na mídia, na cultura, no ensino e em todas as ações do Estado — especialmente em discursos empolados, cheios de termos como “higidez”, feitos pelos membros de Cortes superiores.

Mas política, no Brasil, tem sido fonte de atraso, abuso e corrupção. Seu principal produto é a pobreza material, intelectual e espiritual. A moral da política é inferior à moral da sociedade. Eleições parecem um mecanismo para selecionar os piores entre nós (há importantes exceções, mas são cada vez mais raras).

O brasileiro alimenta com esperança e impostos o mecanismo que o devora. A razão de ser da política é extrair o máximo de dinheiro da população para concentrá-lo nas mãos de alguns grupos e dinastias.

A “desigualdade” entre as autoridades e o cidadão sempre aumenta.

O Brasil, quando consegue progredir, o faz apesar dos políticos.

A situação piorou quando um grupo de onze pessoas nomeadas, e não eleitas, passou a tutelar o país. Os tutores comandam o sistema de Justiça, decidem sobre todas as questões e controlam, através do sistema eleitoral, o acesso aos cargos eletivos.

Xeque-mate.

Enquanto o segundo líder político mais popular (de esquerda) ainda se apresenta como operário humilde — décadas depois de se consolidar como um dos caciques mais poderosos e ricos —, o líder mais popular (de direita) está preso, condenado por liderar a única tentativa de golpe da história que, em vez de usar soldados e tanques, preferiu senhoras e bíblias. Antes disso, ele foi declarado inelegível por ter realizado uma reunião com embaixadores e investigado por um cartão de vacina e por proximidade excessiva com uma baleia.

Quando o resultado da eleição de 2022 provocou a indignação de milhões de brasileiros e alguns resolveram se manifestar, as consequências foram trágicas. Preceitos fundamentais do Direito foram abandonados, procedimentos de exceção adotados e uma rede colaboracionista se formou nas instituições, na mídia e nas universidades, envolvendo servidores, juristas, jornalistas, intelectuais e artistas.

A infâmia do 8 de janeiro é simbolizada pela condenação de Débora Rodrigues dos Santos, mãe de duas crianças. Débora foi sentenciada a 14 anos de prisão por escrever com batom em uma estátua. O que havia de tão ofensivo ao Estado na frase escrita por Débora? Ela apenas reproduziu, como ato de protesto, o desaforo pronunciado por uma excelência, ao ser confrontado por dissidentes, em uma rua de Nova York: perdeu, mané.

O país voltou a ter presos políticos e exilados. Assistimos à violação da imunidade parlamentar e dos princípios do juiz natural, do juiz imparcial, da inércia do Judiciário, da legalidade, do sigilo da fonte, do direito de defesa, da inviolabilidade da advocacia, da igualdade perante a lei, do devido processo legal e da liberdade de expressão. O sistema acusatório se tornou obsoleto quando uma mesma pessoa passou a exercer os papéis de investigador, acusador, juiz, executor da pena e vítima. O mesmo aconteceu com a separação e a independência dos Poderes: nenhum projeto pode ser concebido pelo Congresso sem prévia autorização, como foi demonstrado no caso do Projeto de Lei da Dosimetria.

Lord Acton disse, em 1887, que “o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Isso explica tudo o que foi descoberto até agora sobre as ligações perigosas do banqueiro Master com a Suprema Corte. Se essas ligações aconteceram mais ou menos abertamente, é inevitável imaginar os outros contratos milionários e investimentos impróprios que devem ter sido feitos, mas que ainda não foram — e talvez nunca sejam — descobertos.

Quem acha que uma simples renúncia ou afastamento será suficiente, menospreza o sentimento da população e não entende o que aconteceu. É preciso abrir a caixa de Pandora, expor, investigar e punir todos os que beberam dessa fonte poluída.

Mas os milhões do Master e de outros esquemas não são nada comparados ao que aconteceu antes. A destruição da liberdade é pior que qualquer suborno. O prejuízo causado ao Brasil pela demolição do Estado de Direito é impossível de ser contabilizado.

Nada disso teria acontecido sem a apatia, o aplauso, a subserviência e a participação dos colaboracionistas em sindicatos, universidades, veículos de mídia, associações classistas e ONGs “progressistas”.

O regime jurídico de exceção tem o rosto da esquerda.

Há remédios políticos disponíveis a congressistas corajosos. Eles incluem impeachment de ministros (e, possivelmente, do procurador-geral da República) e anistia ampla, geral e irrestrita. Os remédios jurídicos são a anulação de todos os inquéritos de exceção, a libertação dos presos e a indenização de todos os réus do 8 de janeiro — e, um dia, a responsabilização penal e cível dos responsáveis pelos abusos de poder. Quem sabe até o estabelecimento de uma Comissão da Verdade.

O mecanismo que arrebentou o Estado de Direito para “salvar a democracia” chegou aonde todo poder absoluto chega: ao abuso desse poder em benefício próprio.

O Brasil, que se acostumou com políticos que enriquecem na política, não quer se acostumar com magistrados que enriquecem no cargo. A conexão entre os dois fenômenos é clara: um governo que só existe graças ao ativismo judicial fará de tudo para que esse ativismo não acabe.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Aviso ao Olimpo: o Supremo não é lugar para chicanas

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 14 de setembro de 2026

Aviso ao Olimpo: o Supremo não é lugar para chicanas

Há carradas de razões para investigar Alexandre de Moraes. Por isso, serão inaceitáveis quaisquer manobras que devolvam o caso ao limbo, como se o Brasil não tivesse visto, estarrecido, o que viu. Editorial do Estadão:

O Supremo Tribunal Federal (STF) fará amanhã uma sessão extraordinária para decidir se o ministro Alexandre de Moraes deve ser investigado por suas relações com Daniel Vorcaro. Depois de meses de revelações sobre o escândalo do Banco Master, há carradas de razões para que os ministros do STF autorizem a investigação sem mais delongas. Por isso, serão inaceitáveis quaisquer chicanas que devolvam o caso ao limbo, como se o Brasil não tivesse visto o que viu, isto é, as gritantes evidências de relações promíscuas entre Moraes e o banqueiro mafioso.

O Master celebrou contrato de R$ 131 milhões com o escritório da mulher de Moraes, e o próprio ministro participou da elaboração do documento. O celular de Vorcaro registra contatos com Moraes enquanto o banqueiro tentava obstruir investigações. Em mensagens, buscava acionar o diretor-geral da Polícia Federal (PF) e o procurador-geral da República. Dois dias antes de ser preso, perguntou a Moraes se já deveria estar “fora”. Se isso não basta para abrir uma apuração, será difícil explicar qual padrão a Corte reserva aos demais cidadãos.

Moraes e seus companheiros tentam misturar alhos com bugalhos e jogar areia nos olhos do público. Ele chegou a pedir que se examinasse na mesma sessão as acusações contra o relator André Mendonça que ele mesmo forjou com fofocas espúrias da PF, alegando querer evitar “tumulto processual”. A manobra, rejeitada pelo presidente Edson Fachin, foi calculada para produzir justamente esse tumulto, criando uma falsa equivalência entre as suspeitas sobre sua relação com Vorcaro e as acusações contra quem permitiu que elas viessem à luz.

Mendonça não abriu, por conta própria, uma investigação contra um colega. A apuração já existia, estava sob sua relatoria e foi a PF que produziu o material. Ao se deparar com ele, Mendonça fez o que deveria: encaminhou ao plenário. Eventuais irregularidades devem ser apuradas. Ainda que existam, não inocentam Moraes nem diluem os indícios contra ele.

O mesmo vale para as alegações de nulidade do procurador-geral da República, Paulo Gonet, que já deveria ter se declarado impedido. Se o plenário considerar um ato irregular, deverá identificar o vício e sua consequência. Se a investigação precisar tramitar por outra via, abra-se a via correta. Invalidar um caminho não demonstra que nenhum caminho exista. A nulidade de um ato tampouco faz desaparecer os fatos.

Há precedentes para desconfiar de subterfúgios processuais que deixem as suspeitas sem resposta. Em fevereiro, depois que a PF levou ao Supremo elementos relativos ao então relator do caso Master, Dias Toffoli, os ministros se reuniram a portas fechadas. Em nota, validaram os atos do colega, declararam inexistirem suspeição e impedimento, manifestaram “apoio pessoal” e anunciaram sua saída da relatoria em nome dos “altos interesses institucionais”. O STF “explicou” a saída de Toffoli da relatoria. Jamais explicou ao País o destino dos indícios que o atingiam.

A sessão de amanhã será pública, mas câmeras ligadas não garantem transparência, muito menos integridade. O Supremo pode transmitir horas de debates sobre competência, nulidades e questões de ordem, para terminar sem responder ao que levou o plenário a se reunir. Seria uma versão televisionada daquela infame reunião que livrou Toffoli, agora revestida de juridiquês. A publicidade só servirá à República se mostrar o que cada ministro decidiu e qual será o destino dos fatos.

Um pedido de vista tampouco deveria oferecer esconderijo coletivo. O regimento permite que um ministro peça tempo; os demais podem antecipar seus votos. A vista é individual. O silêncio dos colegas será uma escolha. O tempo cobra seu preço: a atenção se dispersa, a responsabilidade se dilui e abre-se margem para acomodações – com o risco de um ministro sob suspeita de obstrução da Justiça continuar no exercício do cargo. Os fatos estão maduros, e consumir mais 90 dias seria prevaricação – se não legal, moral.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

domingo, 13 de setembro de 2026

O dia ‘d’ da democracia brasileira

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 12 de setembro de 2026

O dia ‘d’ da democracia brasileira

Sessão do STF da próxima terça-feira será o exame de uma tradição: somos mesmo o país do ‘estamento’ ou temos esperança de sermos uma república de iguais? Fernando Schüler para o Estadão:

“Apagar dados do celular indica consciência sobre a ilegalidade dos atos praticados”, escreveu o ministro Alexandre de Moraes, em um dos argumentos para condenar a cabeleireira Débora dos Santos a 14 anos de prisão. E explicou: “se o indivíduo tivesse convicção de sua inocência, não teria motivo para eliminar registros que poderiam confirmar sua versão dos fatos”. O Brasil é um país curioso. Agora é uma conta com o nome do ministro, vejam só, que aparece com o modo de visualização única, feito para apagar conteúdo, interagindo com as 52 mensagens de Vorcaro, logo antes de sua prisão. E aqui estamos, em um drama nacional para ver se alguma coisa, afinal de contas, será investigada.

Não acho que isto incomode muita gente. Débora é uma brasileira comum. E é do “outro lado”. Ficou cerca de dois anos presa, por uma cautelar do próprio ministro, distante dos filhos de 6 e 10 anos, pelo rabisco com o batom naquela estátua. Seu caso é similar ao de Alcides Hahn, o “colono” de Corupá, no interior de Santa Catarina, também condenado a 14 anos, dessa vez sem ir a Brasília, pelo Pix de R$ 500. Nos anos recentes, escrevi muito sobre estas histórias. A pior talvez seja a do Clezão, morto como um zé-ninguém em um presídio de Brasília, depois de meses sem que o ministro se desse o trabalho de despachar um pedido de liberdade, “sob risco de morte”, para tratar da saúde.

São histórias difíceis e quase infinitas. Elas não tratam apenas de um longo rastro de abuso de poder. De pessoas comuns “julgadas” diretamente pelo Supremo, sem os direitos mais elementares ao juiz natural, instância devida e graus de recurso. Tratam do “use a sua criatividade” para atingir alvos pré-definidos; da censura aos empresários, por nada, em um grupo de WhatsApp; de um sujeito, o Filipe Martins, preso por meses por uma “fuga” do País que jamais existiu.

Elas contam uma história de brutal assimetria na cidadania brasileira. Algo que sempre me faz lembrar do dualismo moral descrito por Roberto DaMatta em seu “Você sabe com quem está falando?”. Da ideia de que somos uma sociedade em que, no papel e na retórica, somos todos iguais. Todos “indivíduos” sujeitos a um regramento abstrato e imparcial. Mas que, no mundo real, nas hierarquias, no estamento e nas sombras do poder, somos “pessoas” com status pateticamente distintos.

Para uns, apagar mensagens ou fazer um Pix de 500 reais pode ser crime de lesa-pátria, sujeito a 14 anos de prisão; para outros, o contrato de uma centena de milhões e a suspeita de trabalhar para um banqueiro fraudador sequer parecem razão suficiente para que a República autorize uma investigação. Para uns, a exceção jurídica; para outros, um tipo de supergarantismo, autoconfiante e feito da ausência de limites.

No fundo, é disso que se trata a sessão do STF, nesta terça-feira, dia 15. Não é apenas uma reunião difícil para autorizar ou não uma investigação. É o exame de uma tradição. Para saber se somos mesmo o país do “estamento”, onde a lei funciona primeiro perguntando “com quem você está falando”, ou se ainda temos alguma esperança de sermos uma república de iguais. Confesso meu desânimo com tudo isso. Mas posso estar enganado, e logo ali adiante teremos a resposta.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 12 de setembro de 2026

A crise que nós plantamos

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 11 de setembro de 2026 

A crise que nós plantamos 
Por Fernando Gabeira (In Blog)

O chanceler da Alemanha disse que ficou chocado com a vitória da extrema direita na Saxônia-Anhalt. No entanto, essa vitória já era prevista pela quase totalidade dos observadores. Aqui, no Brasil, as pessoas parecem chocadas com a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) como se ela fosse um raio em céu azul. No entanto, os contornos dessa crise já se desenhavam há algum tempo. Ela pode ser inédita, mas não inesperada.

Há muitos pontos de reflexão se não nos detivermos apenas no destino de ministros que se associaram ao banqueiro Daniel Vorcaro. As coisas não vinham bem no STF a começar pela compreensão de que os ministros nomeados deveriam ser aliados incondicionais do presidente que os indica. A indicação política foi contaminada pela polarização. Bolsonaro queria um ministro terrivelmente evangélico; Lula indicou dois aliados e sua última indicação foi barrada pelo Congresso. Existe uma tendência a naturalizar escolhas políticas, em detrimento das condições determinadas pela Constituição. Era de esperar que o confronto existente na sociedade se espelhasse ali, com todos os perigos que isso representa.

Não houve reação social à decisão de ministros de permitirem que seus parentes advogassem na Corte. Em alguns processos envolvendo bilhões de reais, parentes de mais de um ministro eram os advogados. De certa forma, essa decisão amplia as rendas familiares de forma exponencial.

Numa das análises sobre o STF no exterior, um jornal alemão chegou a dizer que a cobiça tinha arruinado a reputação dos ministros. Já era uma reação ao contrato entre o Banco Master e a família de Alexandre de Moraes, um acordo aparentemente com o escritório da mulher de Moraes, mas no fundo algo que envolvia diretamente o ministro, a julgar pela troca de mensagens.

Alexandre de Moraes combateu o bolsonarismo. Os outros ministros o apoiaram, mas deixaram que ele fosse a encarnação da luta. Era mais cômodo para eles. Também foi mais cômodo para a maioria não se intrometer nesse processo repressivo corrigindo seus excessos.

Nesse sentido, a experiência moderna do Brasil não foi muito diferente de outros países. A escritora iraniana Azar Nafisi conta, em seu livro Leia Perigosamente, que a revolução islâmica foi muito dura com os seus adversários. Mas ninguém se importava muito, porque afinal as vítimas eram pessoas com quem não se concordava ou mesmo se desprezava. Essas soluções nunca dão bons resultados. Em alguns casos, a repressão se amplia, mas o silêncio de qualquer forma desumaniza aqueles que deveriam protestar, mas não o fazem.

Escrevi alguns discretos artigos sobre o tema, lembrando que a generosidade dos vencedores poderia ser um fator decisivo para abrandar o clima de hostilidade entre os brasileiros. Nos casos em que me envolvi pessoalmente, como o de uma jovem de Minas, que estava presa, fui atendido por Moraes, que a libertou imediatamente. Fiquei grato a ele, mas segui recebendo muitas denúncias.

O clima sempre foi de punição. Moraes era aplaudido em shows onde as pessoas gritavam “sem anistia”. Vozes que sugeriam outros caminhos para lidar com o problema tendiam a desaparecer. Esse clima de apoio ostensivo pode ter estimulado o ministro Moraes a seguir seu caminho em busca da fortuna material.

Todas essas coisas me vêm à cabeça no momento em que a extrema direita vence na Saxônia-Anhalt. O Brasil teve uma experiência de vitória de uma corrente radical em 2018. Bolsonaro fracassou na sua Presidência, tanto que, ao contrário dos outros, não conseguiu se reeleger.

Era para termos contido essa experiência radical. Mas ela volta a ser perigosa agora, nas eleições de 2026. Cabe uma pergunta importante: era para termos superado o problema. Como explicar que ela volte a aparecer como uma alternativa?

Essa é uma discussão importante. Infelizmente, não há clima para ela, pois as paixões não permitem dúvidas ou ambiguidades. Elas são preto e branco.

A vitória sobre Bolsonaro foi vista e proclamada como uma vitória da democracia. Dentro dos limites, ou até mesmo estourando os limites financeiros, foram realizadas políticas sociais de peso. A democracia triunfante em 2022, no entanto, não conseguiu responder à sensação de desânimo da população. Ela manteve muitos dos erros que deram a vitória a Bolsonaro.

Poderíamos ter feito de outro modo? Que mudanças deveriam ser feitas para que o distanciamento entre a política e as pessoas não fosse tão grande? Que políticas, como a segurança pública, precisaríamos adotar com seriedade e eficácia para evitar que o mercado eleitoral fosse inflacionado com imitadores de Bukele?

Tenho ainda uma visão de que a continuidade triunfará nas eleições, graças à popularidade do candidato e à dispersão e inexperiência da direita. No entanto, a vitória seria uma espécie de fim de linha. Se não caminharmos para reformas na política e na Justiça, o desgaste aumentará e o fantasma que ronda o mundo pode reaparecer com força no Brasil.

Se isso ocorrer, não teremos direito, como o chanceler alemão, de nos considerarmos chocados. Essas coisas não acontecem por acaso e têm uma longa gestação no trabalho incessante dos adversários e nas vacilações do processo democrático.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br/blog

Lavação de toga suja

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 11 de setembro de 2026

Lavação de toga suja

Na próxima terça, só há um programa: ver o STF revelando, ao vivo, quem combate e quem acoberta a corrupção. Eugênio Esber para a Oeste:

Não marque nada para este 15 de setembro. É o dia em que o país viverá uma superterça de suspense e, se tudo correr bem, de enorme depuração. Depois de todas as hesitações e manobras protelatórias bem próprias de sua personalidade, o presidente do STF, Edson Fachin, finalmente convocou uma sessão plenária em que a Corte terá de decidir se autoriza a abertura de investigação contra um de seus mais poderosos ministros. Os indícios de crimes que pesam contra Alexandre de Moraes são gravíssimos, mas nada têm de novidade — arrastam-se desde o início do ano nas conversas de botequim e padaria, nos fóruns, nas rodas de cafezinho das empresas, nas redações e nas missas. Se Moraes sobreviveu até aqui no cargo e seguiu perseguindo e encarcerando vítimas dos atos do 8 de janeiro sob aplausos e bajulações de escolas de Direito como a da USP, é porque tem conexões profundas com o estamento oligárquico que lhe deu poderes extraordinários a partir de 2019. A grande notícia, porém, é que pela primeira vez, nestes sete anos, estará na condição de acusado, frente a seus próprios pares e sob os olhos da nação. O dia tão esperado chegou, e é nesta terça-feira.

Não será um parto indolor, a se considerar tudo o que aconteceu nestes nove meses de gestação da mais séria crise moral enfrentada pela, entre muitas aspas, “Nova República”.

Foi em dezembro de 2025 que o jornal O Globo publicou uma notícia-bomba sobre o contrato de R$ 129 milhões (na verdade, R$ 131 milhões) que o escritório jurídico da família de Moraes faturou para defender os interesses de Daniel Vorcaro, banqueiro que havia sido preso em novembro, quando se preparava para fugir do Brasil em seu jatinho particular.

Desde então, Moraes não deu uma única entrevista nem fez pronunciamento público para desfazer a informação de que enriqueceu colocando sua toga de ministro da Suprema Corte a serviço do financista que aplicou o maior desfalque no sistema financeiro nacional e na poupança de uma multidão de brasileiros. O silêncio de Moraes é uma gritante confissão de culpa. E a inação de Fachin, uma evidente admissão de tibieza.

O pedido para investigar Moraes parte de seu colega André Mendonça, relator do processo relativo ao escândalo da quebra do Banco Master no Supremo Tribunal Federal. A base é um relatório preparado pela Polícia Federal sobre a surpreendente e dócil subordinação de Alexandre de Moraes aos interesses de um banqueiro em apuros para fugir da aplicação da lei. Diálogos encontrados no telefone de Daniel Vorcaro indicam que ele contava com a assessoria de Moraes para ter acesso a informações sigilosas sobre diligências contra si e seu Banco Master que estavam em curso no Banco Central, na Polícia Federal, no Ministério Público e até no Judiciário. E o pior dos mundos: Vorcaro pediu orientação sobre quando deveria se mandar — sim, fugir — do Brasil. Isso tem nome. É obstrução da justiça.

Se a investigação for autorizada e Moraes sofrer uma quebra de sigilo telefônico, talvez a Polícia Federal consiga recuperar mensagens de visualização única que ele enviou a Vorcaro e então decifrar que papel o ministro desempenhava diante de missões comprometedoras que recebia do banqueiro. Por exemplo, quando Vorcaro perguntava a Moraes se ele conseguiria acionar Paulo Gonet, procurador-geral da República, Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, ou Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, para evitar o que chamava de “maldades” e “sacanagens” contra seu banco.

E aqui chegamos a alguns aspectos de puro nonsense da sessão plenária que selará o destino de Moraes, na terça-feira, 15. É que lá estará o procurador-geral da República, citado em contextos embaraçosos no mesmo relatório da Polícia Federal que fulmina Moraes. E Gonet, em decisão muito criticada por seus pares do Ministério Público, não se declarou impedido neste caso e emitiu parecer — contrário, claro — ao uso do relatório da PF para embasar a abertura de investigação.

Portanto, Moraes está enredado na mesma teia de relações promíscuas de Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, como abordei no artigo da semana passada, “O conluio do uísque”.

O clima pode pesar ainda mais na sessão se, além de Gonet, estiver presente o próprio Alexandre de Moraes, pivô do caso que, nas palavras do jornal espanhol El País, é uma “bomba atômica”. O temperamento explosivo e afrontoso de Moraes não permite duvidar de que ele queira encarar os colegas julgadores ou, até mesmo, votar. Especialmente se Dias Toffoli, outro ministro enrolado na rede de negócios de Daniel Vorcaro, resolver deixar de lado a decisão de abster-se de votações que envolvem o caso Master e desejar tomar parte na sessão plenária. Se a confusão se estabelecer, o grito de “ordem no tribunal” terá de vir de Fachin, o presidente de voz sussurrante e mania de conciliação.

Fachin é, hoje, um homem acuado, dentro e fora do tribunal. Sabe que o STF terá de entregar a cabeça de Moraes se quiser restituir parte de sua imagem pública, ou o que resta dela após meses de desmoralização. Mas suas omissões e relutâncias criaram internamente um vácuo de autoridade que estimulou os baixos instintos de um trio guloso de poder – Gilmar Mendes, decano da Corte e caudilho das maquinações políticas; Alexandre de Moraes, perseguidor-geral da República saído do mesmo ninho tucano de Gilmar; e Flávio Dino, um político de toga com vaidade e ambição suficientes para almejar a Presidência da República como herdeiro do lulopetismo.

Os três estão unidos e mostrando os dentes para Fachin, a quem chamam de “Frachin” desde que o presidente do STF apareceu com a ideia de enquadrar os ministros em um Código de Ética, e assim reduzir a crítica externa que se avolumou por causa dos negócios de Toffoli e Moraes. A ideia é tão inócua quanto tratar tumor com band-aid, mas Fachin delegou à ministra Cármen Lúcia a tarefa de apresentar o tal código, e tudo ficou por isso mesmo. O melhor código que Cármen pode redigir, se estiver mesmo preocupada com ética, começa por lançar um voto favorável à abertura de investigação de Moraes na sessão da próxima terça-feira.

Mendonça, autor do pedido de investigação, precisará de mais quatro votos para obter maioria dentre os oito julgadores aptos, já que Moraes e Toffoli, por razões óbvias, devem ser impedidos de votar. Por enquanto, seu bloco de apoio, formado apenas por Luiz Fux e Nunes Marques, é insuficiente para contrastar a monolítica coesão de Gilmar e Dino e seu poder de influência sobre o ministro Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula. O fiel da balança será mesmo Cármem Lúcia, eis que Fachin, como presidente, provavelmente se eximirá de votar.

Estou otimista. Moraes, que perdeu boa parte de seu poder ao ser retirado, por Fachin, da relatoria do Inquérito das Fake News (4.781), deve se tornar formalmente investigado a partir de terça-feira que vem, se nenhum cambalacho acontecer de última hora – pedido de vista de Gilmar ou Dino, por exemplo. Ou algum acordo de acomodação – e, neste campo, tudo, absolutamente tudo, pode acontecer. Até o absurdo de manter Moraes na Corte enquanto é investigado.

Fachin não pode ser “Frachin”. Não agora. Do contrário, as ruas vão rugir. Moraes, se permanecer vestindo toga, será o próximo presidente do STF daqui a um ano. Inaceitável.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Alexandre de Moraes parece empenhado em indignar ainda mais os brasileiros

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10 de setembro de 2026

Alexandre de Moraes parece empenhado em indignar ainda mais os brasileiros

Alexandre de Moraes não tem uma estratégia. Tem apenas desespero misturado a desprezo pela República e pela inteligência alheia. Mário Sabino para o Metrópoles:

Alexandre de Moraes já não tem mais a certeza da impunidade que cultivava até a semana passada, quando cometeu a infâmia de tentar incluir André Mendonça no inquérito das fake news — do qual já não é mais relator, graças a Edson Fachin.

Menos de 24 horas depois de o presidente do STF marcar o julgamento do pedido de inclusão de Moraes como investigado no caso Master, acordamos com a notícia de que Moraes faria um pronunciamento. Meia hora depois, contudo, o ministro avisou que havia desistido.

A menos que seja para contar a verdade sobre a sua relação promíscua com Daniel Vorcaro, perpetrador da maior fraude financeira da história nacional, e renunciar ao cargo na sequência, não há nada que Moraes possa dizer ou fazer que realmente interesse aos cidadãos revoltados com toda a sujeira, e esses cidadãos são a maioria esmagadora.

O ministro perdeu a certeza da impunidade, íamos dizendo, mas parece empenhado em indignar ainda mais os brasileiros.

“A expectativa no STF é de que Moraes sustentará que não há como provar que o celular utilizado nas trocas de mensagens pertence a ele. A tese repete a estratégia adotada no início do ano, quando surgiram as primeiras revelações sobre sua relação com o banqueiro”, diz a jornalista Roseann Kennedy.

Além de contar essa piada, o ministro e os seus compadres buscarão convencer os votantes que lhes faltam, basicamente Cármen Lúcia e Fachin, de que todos os ministros já tidos como favoráveis à inclusão de Moraes na investigação são suspeitos para julgá-lo.

Sim, você leu certo: todos. A saber, Mendonça, Luiz Fux e Nunes Marques. Como seguro morreu de velho, até Dias Toffoli, que vem se declarando suspeito para julgar qualquer tema relativo a Daniel Vorcaro, entrou na lista. Perguntinha: se meio STF é suspeito, por que o Xandão fez tanto esforço extraconstitucional para que confiássemos nesse tribunal?

Moraes e os seus compadres também querem anular o relatório da PF que mostrou que o ministro e o fraudador trocaram 51 mensagens em 21 dias. Não vão desistir de dizer que Moraes foi investigado ilegalmente.

Como cobertura da gororoba jurídica que querem nos enfiar goela abaixo, eles ainda pressionam para que o julgamento no plenário do STF não seja presencial e à vista da nação. Só falta querer manifestação de desagravo.

Possibilidade de pedido de vista? Também existe para o Supremo sangrar a prazo.

Isso não é estratégia, é desespero misturado a desprezo pela República. É acinte à inteligência alheia. É brincar com o trabalhador. Se colar, é porque o STF morreu mesmo e recebeu apenas a visita da saúde com as decisões de ontem de Fachin.

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O STF na hora da verdade: investigação ‘rigorosa’ ou apenas jogo de cena?

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10 de setembro de 2026

O STF na hora da verdade: investigação ‘rigorosa’ ou apenas jogo de cena?

Não se está falando em punição ou juízo prévio, mas apenas a autorização para que se investigue aquilo que é óbvio que deve ser investigado. Resume do vídeo de Fernando Schüler para o Estadão:

No vídeo desta quinta-feira, 10, o colunista Fernando Schüler trata da crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e a expectativa acerca da reunião da próxima terça-feira, 15, marcada para a avaliação de um pedido de investigação das mensagens de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes.

“Foi de longe a decisão mais importante tomada pelo ministro Fachin, atendendo, de certa maneira, a uma demanda dos ex-presidentes do Supremo que fizeram uma carta pedindo uma sessão pública para que se autorize ou não a investigação sobre o ministro Alexandre de Moraes e outras questões”, diz Schüler, lembrando que o Supremo autorizou formalmente a investigação de um dos seus membros.

“A gente viveu um momento histórico também, algo que não acontecia desde Floriano Peixoto, recentemente, quando o Senado Federal recusou a indicação de Jorge Messias. Vai que 2026 seja um ano de decisões extraordinárias, mas eu quero dizer que eu não acredito. Eu sou o cético”, enfatiza.

Para Schüler, a cobrança por parte dos ex-presidentes da Corte é para haver de fato uma investigação. “Não é para fazer a reunião e aí, por maioria simples, ou por algum tipo de pendenga jurídica ou filigrana jurídica, anular a decisão, ou anular a própria sessão, ou cancelar a sessão. Isto é uma tradição brasileira. A tradição do ‘deixar disso’, a tradição da procrastinação, a aposta no cansaço das pessoas, no esquecimento”, lembra.

O colunista diz que não está falando em punição ou juízo prévio, mas “apenas a autorização para que se investigue aquilo que é óbvio que deve ser investigado”.

“Essas 52 mensagens do Daniel Vorcaro para uma conta chamada Alexandre de Moraes Brasília, com mensagem de leitura única, precisam ser investigadas”, diz ele, citando também o contrato do Master com o escritório Barci de Moraes.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O que esperar das eleições

Artigo compartilhado dosite do GABEIRA, de 8 de setembro de 2026

O que esperar das eleições
Por Fernando Gabeira 

E essas eleições aí? Nas ruas, já começam a perguntar pelo processo eleitoral e confesso que não tenho resposta fácil. O Brasil anda muito complicado, temos de fazer um esforço permanente para ligar os fios, preencher lacunas, enfim, entender o que se passa.

A historiadora e psicanalista Élisabeth Roudinesco fez uma palestra interessante no Brasil com o título “Ainda podemos sonhar com outra vida?”. Sinto que as pessoas na rua me fazem precisamente esta pergunta:

— Ainda podemos sonhar com outro país?

Roudinesco faz uma digressão sobre uma famosa ideia popularizada por Gramsci: é preciso aliar o pessimismo da inteligência ao otimismo da vontade. Segundo ela, a inteligência anda junto ao pessimismo porque pressupõe uma distância crítica da realidade para que a gente não se iluda. Parar por aí, porém, pode significar um mergulho na nostalgia, uma recusa a mudar o curso da história.

Todas essas teorias são complexas. No Brasil, às vezes parecem inaplicáveis. A crise é muito profunda, com deputados gastando uma grande parte do Orçamento, ministros do STF associando-se a banqueiros desonestos, escândalos como combustível de campanha.

Ainda assim, precisamos sonhar com outro país. Meus sonhos são modestos. Gostaria de ver o Brasil aproveitando seus recursos naturais de forma sustentável, mantendo sua posição de importante interlocutor ambiental no mundo. Gostaria de ver o país defendendo a paz e a solução dos conflitos pelo diálogo, mas bastante mais preparado para se defender, uma vez que já não se respeitam as leis internacionais.

É preciso completar a transição energética, digitalizar o governo para facilitar a vida de cidadãos e empresas, avançar na educação. Será uma grande felicidade liberar milhões que vivem em áreas ocupadas pelo tráfico ou pela milícia. E também liberar do medo quem caminha pelas cidades.

Não sigo enunciando um programa, pois não sou candidato. É preciso deixar o espaço do outro, para que coloque também seus sonhos na mesa. No fundo mesmo, não acredito numa separação rígida entre inteligência e vontade, razão e emoção.

Sou leitor do neurocientista António Damásio, e ele se ocupa de criticar essa separação. Coração e cabeça andam muito mais próximos do que parece. Mas, para que a gente consiga sonhar com um outro país, será preciso enfrentar esses gargalos.

Não creio que basta punir um juiz que faz acordos milionários com o crime financeiro. Será preciso reformar o tribunal, a começar pela prática daninha de presidentes indicarem amigos ao STF. Isso arruinará a possibilidade de justiça no país. Temos regras descritas na Constituição, mas não as seguimos. A polarização tem sido introjetada no Supremo.

Mesmo com certo desencanto com o processo democrático ao longo desses anos, precisamos insistir nele. Pelo menos, podemos legar algumas pequenas vitórias aos que virão e, quem sabe, o esforço de gerações acabará vingando.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

Fachin e o STF: sair dessa fossa moral

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10 de setembro de 2026

Fachin e o STF: sair dessa fossa moral

Presidente do STF mostrou-se sensível ao anseio cívico por um escrutínio público, colegiado e republicano das graves suspeitas que pairam sobre Moraes, que não pode continuar juiz. Editorial do Estadão:

A sociedade civil fez ouvir sua legítima indignação diante da terrível crise que, dia após dia, corrói o pouco que ainda resta de legitimidade ao Supremo Tribunal Federal (STF). Três manifestos exortaram o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, a levar ao plenário o pedido de investigação do ministro Alexandre de Moraes por sua associação potencialmente criminosa com o banqueiro Daniel Vorcaro.

Fachin ouviu esse clamor. No fim da tarde de ontem, ele retirou de Moraes a relatoria do inquérito das fake news, abrindo caminho para o encerramento de um feito aberto há mais de sete anos. Ademais, convocou sessão plenária, no próximo dia 15, a fim de deliberar sobre o destino jurídico de Moraes. Foram passos na direção correta. No âmbito de sua competência, não há saída fora do órgão máximo do STF – e o afastamento de Moraes, que já não reúne as condições morais para continuar juiz, é uma providência inadiável.

Um dia antes, 13 ex-presidentes do Supremo expressaram em carta sua confiança em Fachin e o exortaram, “com toda a urgência”, a fazer o que ele fez para tratar dos gravíssimos fatos que ora tisnam a confiança do País em sua mais alta instância judicial. Outros dois manifestos, subscritos por organizações e cidadãos preocupados com o esfacelamento do STF em praça pública, foram publicados nos principais jornais do País, entre os quais o Estadão.

Um desses manifestos, liderado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, exigiu que o plenário da Corte “examine os fatos” causadores da atual crise em “sessão pública”, “sem subterfúgios e sem corporativismo”. Outro, intitulado “Pela lei e pelo Brasil”, que reuniu 157 cidadãos insuspeitos quanto às suas credenciais democráticas, basicamente clamou pela mesma atitude do ministro presidente.

Este jornal não apenas endossa os manifestos, como reafirma seu apoio a Fachin, cuja atuação como chefe do Poder Judiciário nesta hora grave representa o caminho institucional menos traumático para o resgate do STF da fossa moral em que foi atirado por Moraes. Em um tribunal onde a sobriedade e o espírito público se tornaram ativos raros, não é trivial ter um presidente que parece reconhecer o peso do cargo e seu papel nesta quadra particularmente desafiadora dos 135 anos de história republicana do Supremo Tribunal Federal.

Colegiadamente, o Supremo precisa reconhecer sua própria responsabilidade na degradação de sua legitimidade. Foram Suas Excelências quem admitiram a concentração de poder em alguns gabinetes, não no colegiado, toleraram sigilos inaceitáveis e se deixaram envolver com interesses privados até o ponto da mais deslavada promiscuidade. E se foi este Supremo que gestou o corporativismo que ora o afunda em crise inédita, é este mesmo Supremo que, idealmente, tem de eliminá-lo – e com absoluta transparência, contrição e espírito republicano. Caso contrário, mais cedo ou mais tarde, o Senado o fará.

A República exige um Supremo íntegro, independente e cioso de sua missão de zelar pelo cumprimento da Lei Maior. Isso passa por uma reforma que o País não pode adiar: fazer do STF uma corte eminentemente constitucional, destituída de atribuições que, ao longo de 38 anos de vigência da Constituição de 1988, escancaram as portas para a politização de seus ministros.

Decerto há no País quem não queira um STF reformado, mas sim submetido a desígnios liberticidas. A prevalência de uma ou outra conformação da Corte no futuro próximo depende da ação do próprio Supremo em relação aos malfeitos de alguns de seus integrantes e do Congresso, como engrenagem do sistema de freios e contrapesos. É isso o que está em jogo.

Esse Supremo republicano tem muitos amigos no Brasil. E é em respeito a eles que Fachin precisa dar o devido tratamento aos pedidos que estão sobre sua mesa. A extrema gravidade das suspeitas que recaem sobre Moraes e a bagunça instalada na Corte, reduzida a um campo de batalha de liminares, uma mais excrescente do que a outra, provocaram a justa estupefação da sociedade civil, que agora clama por uma saída civilizada desse imbróglio. Fachin tem o dever de tirar o STF desse lugar desonroso. E, como se viu, não está sozinho nessa faina.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Dez ex-presidentes do STF alertam Fachin sobre gravíssimos fatos...

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 8 de setembro de 2026

Dez ex-presidentes do STF alertam Fachin sobre gravíssimos fatos que comprometem a confiança na Corte

Carta divulgada sete dias após o Estadão revelar 51 mensagens de Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes pede sessão pública urgente do plenário para ‘imediata e rigorosa apuração’. Blog do Fausto Macedo no Estadão:

Dez ex-presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF) e três ministros aposentados endereçaram uma carta ao presidente da Corte, Edson Fachin, alertando sobre “os gravíssimos fatos cuja divulgação vem comprometendo o prestígio e a autoridade” do tribunal, além “da confiança do povo e até a estabilidade das instituições democráticas”. A divulgação da carta ocorre sete dias após a revelação, pelo Estadão, das 51 mensagens enviadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes.

Assinam a carta Néri da Silveira (presidiu o STF de 1989 a 1991; indicado por João Figueiredo), Francisco Rezek (não presidiu o STF; indicado inicialmente por Figueiredo e, em seu retorno à Corte, por Fernando Collor), Sydney Sanches (presidiu o STF de 1991 a 1993; indicado por Figueiredo), Celso de Mello (1997 a 1999; indicado por José Sarney), Carlos Velloso (1999 a 2001; indicado por Collor), Ilmar Galvão (não presidiu o STF; indicado por Collor), Nelson Jobim (2004 a 2006; indicado por FHC), Ellen Gracie (2006 a 2008; indicada por FHC), Cezar Peluso (2010 a 2012; indicado por Lula), Ayres Britto (2012; indicado por Lula), Joaquim Barbosa (2012 a 2014; indicado por Lula), Eros Grau (não presidiu o STF; indicado por Lula) e Rosa Weber (2022 a 2023; indicada por Dilma Rousseff).

Eles manifestaram “confiança na seriedade, discernimento e firmeza” de Fachin “na condução dessa Suprema Corte, na mais aguda crise de sua história, e a absoluta convicção” de que o ministro “designará, com toda a urgência, sessão pública para que o Pleno determine imediata e rigorosa apuração, sob o devido processo legal”.

Na última terça-feira, 1º, o Estadão revelou as principais vertentes da relação entre Vorcaro e Alexandre de Moraes, incluindo pedidos reiterados do banqueiro para que o ministro interviesse junto ao diretor-geral da Polícia Federal, delegado Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para travar as investigações sobre negócios fraudulentos do Master; a participação de Moraes na edição de um contrato de R$ 131 milhões de Viviane Moraes com Vorcaro; conversas sobre uma possível saída do banqueiro do País antes de sua prisão; cobranças relacionadas a pagamentos ao escritório Barci de Moraes; e a autorização de cartões de crédito com limite de R$ 300 mil para os filhos de Moraes.

Fachin prometeu tomar providências, mas não especificou quais nem quando. “Nos próximos dias, concluída a análise necessária dos fatos e observados os procedimentos institucionais pertinentes, esta Presidência anunciará, no tempo devido e sem precipitação, as medidas cabíveis e necessárias”, disse um dia após a revelação das mensagens.

Nas duas últimas sessões plenárias da Corte, os ministros não se manifestaram sobre o tema. No domingo, 6, o ministro André Mendonça, relator do caso Banco Master, liberou para julgamento no plenário o caso que envolve o relatório da Polícia Federal que identificou Alexandre de Moraes como um dos principais interlocutores de Vorcaro. O presidente do STF, Edson Fachin, ainda não definiu a data do julgamento.

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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Não há civilização sem contenção moral

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 7 de setembro de 2026

Não há civilização sem contenção moral

Alegria brasileira não passa de signo de falta de civilização. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

Lembro-me de que, nas eleições de 2022, muitos que apoiavam Lula falavam em defesa do projeto civilizador.

Fato era que a figura de Bolsonaro, e seu comportamento vil, parecia sim dar lugar à ideia de que as boas maneiras, o respeito às pessoas que morriam de Covid —"não sou coveiro", lembra?—, o comer com garfo e faca, enfim, Bolsonaro parecia uma ameaça de retrocesso ao neolítico —com todo o respeito ao neolítico.

Mas daí achar que o PT representa um Brasil mais civilizado é outra história. O PT é uma gangue responsável, em grande parte —uma vez que tem estado no poder federal por quase 18 anos—, pela desgraça moral, econômica e política que se abate sobre o país.

O PT não é uma força civilizadora no Brasil, aliás, diga-se de passagem, tampouco é o centrão, a direita, o STF —todos delinquentes. Todos eles se reúnem num grande abraço de afogado. Sugam o país como sanguessugas letais.

Um país em que os líderes, dos três Poderes, se reúnem para ferir a lei, traficar influência e faturar alta grana a favor dos seus não pode não ver um esgarçamento do contrato social. E, quando ocorre esse tipo de fenômeno, torna-se inevitável o crescimento da desconfiança entre os cidadãos.

Esse esgarçamento aparece nos espancamentos que vimos nas últimas semanas. Aparece no modo como motociclistas, ciclistas e motoristas se comportam nas vias públicas. Um monte de gente não respeita nem mais farol vermelho.

Aparece no fato de muita gente ouvir música alta nas suas casas, obrigando os vizinhos a ouvirem a música lixo que essa gente gosta.

Aparece no modo dramático como cada vez mais sentimos que qualquer estabelecimento comercial ou empresa pode ser lavador de dinheiro. Aparece na violência da especulação imobiliária em cidades

como São Paulo, que constroem torres imensas, despejando milhares de carros, destruindo a qualidade do convívio nos bairros. Um grande "foda-se" percorre nossas vidas no Brasil.

A ideia de que nossos líderes deveriam servir de exemplo é letra morta. Durante o período das eleições, como agora, essa gente vem atrás de nós para votarmos neles. Mas, para quem tem mais de dois neurônios, é óbvio que mentem e riem da nossa cara. Lula, ao prometer projetos, deveria responder, afinal, por que, depois de tanto tempo no poder, qual foi a razão de não ter realizado esses "projetos" até agora.

Por outro lado, como confiar num candidato —Flávio Bolsonaro— com zero experiência de gestão pública, erguido à condição de candidato só porque tem o sangue do pai?

Esse critério de indicação de sucessor para o cargo maior da República replica modos de transmissão do poder característicos das máfias. Segundo Joseph Schumpeter, na democracia, o soberano se estabelece por meio de uma competição por votos —conhecida como eleições. Logo, o que importa é ganhar essa competição por votos, o resto é blá-blá-blá.

E, na medida em que essa competição por votos se acirra entre grupos que se odeiam, a tendência é que cada vez mais esses candidatos deem menos bola para "projetos" e discursos racionais. O objetivo único é ganhar a competição por votos e que se foda.

Por outro lado, as pessoas polarizadas e militantes estão na mesma "vibe" que seus candidatos preferidos. Nem candidatos, nem eleitores estão preocupados com a "qualidade dos políticos".

Preocupam-se que os seus políticos vençam e ponham a mão na grana do Estado. Mas, apesar de falarmos de política, a questão é pré-política. O que isso quer dizer? Isso quer dizer que o problema do Brasil é, em grande parte, moral, e a moral é mais difícil de manipular do que a política.

Os costumes, os hábitos, os sentimentos morais, como dizia Adam Smith no século 18, os comportamentos espontâneos entre nós estão em franca desagregação. A cultura brasileira hoje pertence ao "sem noção", a própria alegria brasileira hoje não passa de signo de atraso e falta de civilização. A bandidagem adora gente alegre.

Talvez a dura verdade seja que não há como manter certos cuidados morais básicos quando se é ruidosamente alegre como muitos brasileiros são, e mal educados, que escondem essa má educação sob o manto da alegria festiva.

Assim como há a esquerda festiva, há o mal educado festivo. Não se trata de aliviar a barra dos políticos e ministros corruptos, mas, sim, de dizer que a corrupção brasileira é moral, antes de ser política. Não dá

para ser civilizado e sujar ruas com seus maus hábitos e garrafas de Macallan.

Não há civilização sem contenção moral. Sei, os inteligentinhos vão às raias da loucura com isso, mas que fiquem, hoje, brincando no parquinho.

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Marco Antonio Villa ENTREVISTA Ministro Marco Aurélio

 

“O STF está sangrando. Estou perplexo com o que está acontecendo.” (Ministro Marco Aurélio)

domingo, 6 de setembro de 2026

Um apelo ao que resta do Supremo

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 3 de setembro de 2026

Um apelo ao que resta do Supremo

Roga-se aos ministros que ainda colocam a instituição acima de seus interesses pessoais que manifestem sem medo seu horror diante do colapso moral que ameaça o STF. Editorial do Estadão:

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, veio a público na manhã de ontem para dizer que os indícios reunidos pela Polícia Federal (PF) sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro “reclamam o devido encaminhamento institucional” e que, ademais, o cargo de ministro do STF “não confere privilégios, mas impõe deveres”. Fachin também anunciou que, “no tempo devido e sem precipitação”, tomará as medidas cabíveis. É pouco, mas um sinal de que ainda resta vida republicana na Corte.

Não ficou claro qual é o “devido encaminhamento” que Fachin pretende dar ao caso, mas não deveria haver dúvida: o relatório da PF deve ser submetido o quanto antes à deliberação do plenário do STF, em sessão pública e presencial. Se o ministro Fachin fizer a coisa certa, roga-se aos ministros que ainda colocam a instituição acima de seus interesses pessoais que manifestem sem medo seu horror diante do colapso moral que ameaça o STF. Não será fácil, diante da conhecida truculência de alguns ministros, mas o Brasil precisa saber que ainda há genuínos e destemidos republicanos no Supremo.

Diante da extrema gravidade do que está em jogo, não há espaço para outro arranjo clandestino, como aquele a que o plenário se rebaixou para acomodar a evidente suspeição do ministro Dias Toffoli como o primeiro relator do caso Master no STF. Independentemente do parecer pusilânime e suspeito do procurador-geral da República, Paulo Gonet, o relatório da PF documenta, de forma cabal, que Vorcaro tratava Moraes como um funcionário regiamente pago, cobrando-lhe providências, digamos assim, que nem a um advogado se cobra. Não estamos diante de um conjunto de ilações. Como revelou o Estadão, estão documentadas as relações promíscuas entre um investigado pela maior fraude financeira já praticada no País e um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Se Moraes cometeu crimes ao se vender aos interesses comerciais de Vorcaro, só uma investigação técnica e um julgamento justo haverão de concluir. Mas é preciso reiterar com todas as letras: a despeito de sua situação jurídico-penal, Moraes já é um estorvo para o STF. Sua permanência na Corte se tornou o maior problema do Poder Judiciário desde a redemocratização do País. A premente necessidade de seu afastamento – seja voluntário, seja pela via constitucional do impeachment – independe do que um futuro inquérito policial venha a apurar sobre prevaricação, advocacia administrativa, obstrução de justiça e corrupção passiva. A questão é moral antes de tudo. E questões morais têm de ser enfrentadas com coragem e um mínimo senso de decência pessoal.

Este jornal crê que ainda há, no Supremo, quem se preocupe com o papel da Corte como um dos pilares da República. É a essas autoridades que nos dirigimos, pedindo que examinem suas consciências e reconheçam que, ou bem o destino pessoal do sr. Moraes é desassociado do destino da instituição, ou o STF morrerá abraçado a um dos seus por reles corporativismo, quiçá cumplicidade. As consequências dessa segunda opção são imprevisíveis, mas, no limite, não será surpreendente se chegarem à desobediência civil.

Como presidente do STF, Fachin tem o dever de evitar esse desfecho trágico. A crise, no ponto a que chegou, não será debelada com um acerto de contas nos corredores da Corte nem muito menos com covardia. O plenário do STF precisa autorizar que uma investigação sobre a conduta de Moraes seja instaurada – e não só a dele, haja vista a relação que há entre Toffoli e Vorcaro por meio de investimentos do ministro no resort Tayayá – e criar as condições para que o próprio Moraes se afaste do cargo enquanto ela tramita, supondo, é claro, que o ministro tenha respeito por este país e pela instituição que integra.

A sobrevivência moral do STF como o conhecemos desde 1988 depende hoje da capacidade de seus ministros de provar à Nação que sabem o que significa proteger um dos seus e proteger a instituição.

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A encruzilhada brasileira: o país sem freios e contrapesos

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 5 de setembro de 2026

A encruzilhada brasileira: o país sem freios e contrapesos

Inércia do Congresso e a passividade da PGR são apenas sinais de que nosso sistema de freios e contrapesos foi danificado. Restam-nos, no fundo, as eleições. Fernando Schüler para o Estadão:

A estratégia do ministro Alexandre de Moraes é a mesma de sempre: em vez de explicar alguma coisa, ataca o denunciante. Quando saíram os primeiros diálogos com Vorcaro na mídia, em março, ele ensaiou uma nota sugerindo que aquelas mensagens do dono do Master eram para outras pessoas. Nesta semana, reveladas 52 mensagens entre Vorcaro e uma conta com o seu nome, o ministro não divulgou nota nenhuma. Fez algo mais “ousado”, como escutei de um animado comentarista: acionou o inquérito sobre fake news contra o relator do processo, André Mendonça, com base em um relatório anônimo da “inteligência” da Polícia Federal.

 Inútil perguntar como o relatório foi parar nas mãos do ministro. Ou, ainda, quem pediu para que a atuação do ministro fosse “avaliada” por alguém da Polícia Federal. O relatório acumula uma sucessão de suposições políticas, por vezes um tanto curiosas. Uma delas diz que é um “risco” a indicação de Jorge Messias para o Supremo. Messias estaria muito próximo de André Mendonça e, por isso, teria dificuldades de avaliar os “riscos políticos” do caso Lulinha. Riscos políticos para quem, exatamente, daria para perguntar. Mas é inútil. Messias seria também um risco pela sua proximidade com Mendonça, já que este estaria “agressivamente” tentando mudar a correlação de forças no STF, em detrimento do grupo de ministros que tão valorosamente atuou para salvar nossa democracia. Parece piada, mas está escrito lá. E foi este o relatório usado por Moraes para abrir uma “investigação” contra André Mendonça.

A lógica é perfeitamente conhecida: ninguém pode investigar coisa nenhuma. E, se alguém tentar, sofrerá as consequências. O caso mais notório foi o de Eduardo Tagliaferro. Um peixe pequeno. Era um perito criminal que participou do núcleo de poder. Suas denúncias eram gravíssimas. Entre muitas coisas, o “use sua criatividade” para produzir provas contra alvos determinados. O resultado todos sabemos. Terminou o próprio Tagliaferro convertido em réu, além de nada ter sido investigado. Muita gente aplaudiu. Era politicamente interessante, então ok. Um dia isto será devidamente passado a limpo. Pode demorar, mas vai acontecer.

O truque agora pode funcionar novamente? É evidente que sim. Para começo de conversa, cria-se uma falsa equivalência. Haveria algum “erro processual” de Mendonça comparável à relação fartamente documentada de Moraes com Vorcaro. Alguém já viu este filme? “Erros processuais” para anular casos notórios de corrupção? Ato seguinte, embaralha-se o jogo na opinião pública. Com o País dividido, às vésperas das eleições, é fácil que tudo se converta em um Fla-Flu, em que “quem gosta do Lula fica com o Alexandre de Moraes” e “quem gosta do Flávio fica com o André Mendonça”. O jogo político é real. De fato, o País está dividido neste tema, e quase tudo se define com as eleições. Mas a equivalência é falsa como uma nota de três reais. A única questão real em jogo é se o Supremo decidirá ou não investigar as relações de um de seus ministros com Vorcaro e o escândalo Master. Mais do que isto, está em jogo a própria ideia de que somos uma república e a pergunta sobre se desejamos ou não conviver com um tipo de poder acima de qualquer hipótese de controle ou responsabilização.

Cá entre nós, não foi por acaso que chegamos a esta situação. Ainda esta semana, escutava jornalistas importantes repetindo o mantra de que “tempos de exceção exigiam poderes de exceção”. Insistiam, gaguejando um pouco, que pode ter havido algum exagero nos poderes dados ao ministro para censurar e mandar prender quem lhe desse na telha, com base no infinito Inquérito das Fake News. Na sequência do diálogo, um dos jornalistas emendou: depois que prenderam o Bolsonaro, deveriam ter parado, não é mesmo? Pois é, quem diria, não pararam. Não acho que ninguém vá aprender nada com isso, mas, de qualquer forma, repito a lição: há um preço em aceitar poderes de exceção em uma república. Primeiro, o poder terá o aspecto de alguma virtude. No Brasil, houve gente que realmente acreditou que tudo era feito para salvar a democracia. Depois, o poder será usado para benefício próprio. Para ganhar muito, mas muito dinheiro, além da prerrogativa de eliminar do léxico republicano o conceito de conflito de interesses. Ato seguinte, o mesmo poder será usado para que nada, em nenhuma hipótese, seja investigado. E, por fim, para ameaçar e retirar do jogo quem arriscar alguma oposição.

Chegamos agora a uma encruzilhada. Nosso sistema de freios e contrapesos foi danificado. A inércia do Congresso e a passividade da PGR são apenas sinais disso tudo. Restam-nos, no fundo, as eleições. O novo presidente indicará três ou quatro novos ministros para o STF. E uma nova maioria pode, ou não, se formar no Senado. O próximo presidente governará por quatro anos, mas definirá os rumos do País por muito mais tempo. E é sobre isto, lá no fundo, que a crise desta última semana pode nos ajudar a refletir.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Que falta faz Paulo Francis!

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 4 de setembro de 2026

Que falta faz Paulo Francis!

A crônica de Paulo Polzonoff para a Gazeta do Povo:

Faz tempo que estou querendo falar de Paulo Francis. Da ausência dele, que era assim uma espécie de superego das elites e de farol para aqueles que aspiravam a alguma coisa que me escapa identificar. Uma glória tola, talvez? Tola como todas as glórias. Uma glória contida pelos pudores de uma santidade intuitiva. Paulo Francis que morreu há trinta anos e cujo nome não significa nada para os jornalistas de hoje. Mesmo os que ostentam o diploma cafonamente emoldurado e pendurado na sala de jantar, onde antes havia uma reprodução da Santa Ceia.

Paulo Francis que aprendi a admirar nas páginas desta Gazeta do Povo. Na época em que a gente sujava as mãos para ler e aprender. Se não me prega peça a memória, recortava a última página do Caderno G. Lia. Entendia pouco, mas fingia que entendia tudo. Guardava numa pasta que foi jogada fora quando me mudei para o Rio, em 2003. Com Paulo Francis aprendi a ler bons autores contemporâneos e a me emocionar com o balé. Com ele também aprendi rudimentos de filosofia e política. Havia um bocado de afetação naquilo, claro. Não nego isso. Mas em Paulo Francis havia um objetivo outro que não a ostentação estéril da cultura. Ou talvez eu esteja viajando na maionese, sei lá.

Cacife

Acho que, aos 48 anos de idade, dá para confessar sem passar tanta vergonha: me tornei jornalista para ser um Paulo Francis. Para provocar, compartilhar impressões, informar sem ser chato. Não, nunca consegui. Nem vou. Mas sigo tentando. Aliás, como me alertou/ofendeu alguém circa 1998, não tenho cacife para ser Paulo Francis. Sei disso. Porque me falta a vocação para a discórdia. Eu que tenho esse olhar estúpido de poeta-sem-soneto. E tem outra coisa que me impede: a elite intelectual de hoje mal sabe o que é e para que serve um superego – que não, não é personagem da Marvel. É, sr. Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, a.k.a Paulo Francis. Chegamos a este ponto.

Paulo Francis que, se fosse vivo hoje em dia, se escandalizaria com a vulgaridade de tudo. Absolutamente tudo. Hahahaha. Imagine Paulo Francis falando de Alexandre de Moraes! Ele, Francis, que seria xingado de isentão e de esteta – o que de fato era. E que falta fazem os bons estetas! De petista por uns; de bolsonarista por outros. Paulo Francis que faz muita falta como intérprete de um mundo que queria mais de si. Que exigia mais de si. Que sonhava e talvez eu esteja exagerando, romantizando tudo. Eu sei. Sei também que talvez Paulo Francis tivesse se transformado num comentarista senil ou num irrelevante cronista de província. O que, pensando bem, é um consolo para o menino imberbe que, aos 18 anos, acreditava ter cacife para ser qualquer coisa diferente do que ele é hoje.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Abre tudo, Fachin, por Pedro Dórea

 

Abre tudo, Fachin, por Pedro Dória > Ponto de Partida, Canal do Youube, em 2 de set. de 2026  

E hoje eu tenho um pedido ao presidente do Supremo, Edson Fachin: abre tudo. Tudo que a Polícia Federal já sabe sobre Moraes, Flávio, Toffoli e o filho de Lula. Porque faltam trinta dias pra eleição, e o eleitor tem direito de votar sabendo. E, depois da vinheta, uma proposta: a Nova República acabou. Como começar a Quarta sem golpe e sem ditadura.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O Brasil que trabalha e dá certo

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 31 de agosto de 2026

O Brasil que trabalha e dá certo

O Brasil real é a nação de milhões de pessoas que acordam cedo, enfrentam dificuldades, criam empregos, inovam e sustentam suas famílias. Carlos Alberto Di Franco para a Gazeta do Povo:

O negativismo sistemático é uma forma sutil de falsear a realidade. A vida, como uma grande pintura, é feita de luzes e sombras. O jornalismo responsável não pode esconder os problemas, silenciar diante da corrupção nem abandonar sua função fiscalizadora. Mas também não deve apresentar a realidade como um imenso corredor sem portas e sem janelas.

A velha máxima segundo a qual notícia ruim é notícia boa contaminou parte da imprensa. O resultado está diante de nós: manchetes carregadas, análises sombrias e uma sucessão de conteúdos que parecem destinados a castigar diariamente o fígado do leitor. A denúncia, indispensável à democracia, transformou-se, em alguns ambientes, numa espécie de denuncismo profissional.

O problema não está na crítica. Está na obsessão seletiva pelo fracasso. Está na incapacidade de perceber tudo o que nasce, cresce e prospera longe dos gabinetes oficiais e dos corredores do poder. O Brasil real não é apenas o país das crises políticas, das decisões judiciais controversas e dos escândalos administrativos. É também a nação de milhões de pessoas que acordam cedo, enfrentam dificuldades, criam empregos, inovam e sustentam suas famílias. É preciso olhar para elas.

O empreendedorismo brasileiro não é uma construção teórica. É uma realidade concreta, frequentemente nascida da necessidade. Muitos dos nossos empresários começaram com pouco dinheiro, escasso apoio e enormes obstáculos. Não herdaram estruturas prontas. Construíram seu caminho degrau por degrau, acumulando experiência, enfrentando erros e transformando dificuldades em oportunidades.

Empreender exige coragem. Mas coragem não é ausência de medo. É a decisão de seguir adiante apesar dele. O verdadeiro empreendedor não ignora os riscos: procura conhecê-los, administrá-los e vencê-los. Cai, aprende e recomeça. Sabe que nenhum crescimento consistente acontece sem trabalho, disciplina, formação e perseverança.

Um bom exemplo desse Brasil inovador é a Akiyama, empresa nacional fundada em 2005 e especializada em identificação biométrica. Com tecnologia desenvolvida no país, tornou-se referência em um setor estratégico, oferecendo suporte técnico e manutenção em mais de 5 mil municípios, incluindo todas as capitais brasileiras.

A dimensão de sua atuação impressiona. Mais de 140 milhões de brasileiros foram cadastrados por meio de equipamentos e programas fornecidos pela empresa. Em um país continental, garantir identificação segura, confiabilidade dos dados e atendimento técnico em milhares de localidades é uma tarefa de enorme complexidade.

A trajetória da Akiyama revela uma verdade importante: empresas que olham para o futuro não podem viver prisioneiras do retrovisor. Precisam preservar os valores que as fizeram crescer, mas devem estar abertas à renovação. Tradição e inovação não são adversárias. Quando bem combinadas, tornam-se poderosas ferramentas de desenvolvimento.

Outro exemplo inspirador vem de Rondônia. Tony Cozendey nasceu numa família humilde em Alta Floresta do Oeste. Aos 15 anos, mudou-se para Buritis e começou a trabalhar como office boy em uma ótica. Fazia cobranças de bicicleta, percorrendo os bairros da cidade. Depois, aprendeu a ajustar e montar óculos. Aos poucos, passou a atender os clientes e tornou-se vendedor.

Cada tarefa foi uma escola. Tony não desprezou os trabalhos simples nem ficou esperando a oportunidade ideal. Transformou o serviço cotidiano em aprendizado. Observou o funcionamento do negócio, conheceu as necessidades dos consumidores e descobriu um mercado que poderia ser mais bem atendido.

Anos depois, passou a comandar sua própria rede, presente em 14 estados, com mais de 34 unidades e faturamento anual em torno de R$ 20 milhões. O Instituto Visão Solidária, conhecido como IVS, cresceu oferecendo óculos a preços acessíveis, especialmente em cidades das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

A história de Tony mostra que o crescimento profissional raramente ocorre por meio de saltos espetaculares. Ele é construído com pequenas conquistas: aprender uma tarefa, atender bem um cliente, conquistar confiança, assumir novos desafios e não se acomodar. Antes de dirigir uma empresa, é necessário aprender a dirigir a própria vida.

O Brasil precisa valorizar essa cultura do esforço. Precisamos formar jovens que não tenham medo do trabalho, da responsabilidade e do risco. Jovens que compreendam que direitos e deveres caminham juntos e que a realização profissional não nasce apenas do desejo, mas da competência, da constância e do caráter.

A imprensa tem importante papel nessa tarefa. Deve denunciar os abusos, mas também revelar os bons exemplos. Deve fiscalizar o poder, sem ignorar a vida que pulsa fora dele. Deve mostrar o empresário que investe, o trabalhador que se aperfeiçoa, o professor que transforma uma escola, o jovem que abre um negócio e a comunidade que encontra soluções para seus problemas.

As sombras existem e precisam ser mostradas. Mas elas não conseguem apagar as luzes que brilham todos os dias na vida de milhões de brasileiros. Há um Brasil que trabalha, empreende, aprende e cresce. Um país que não aparece sempre nas manchetes, mas que merece ser conhecido.

Como sugeriu Guimarães Rosa, quando parece que nada acontece, pode haver um milagre que não estamos percebendo. Cabe ao bom jornalista abrir os olhos, sair às ruas e contar também os milagres cotidianos do trabalho, da perseverança e da esperança.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

domingo, 30 de agosto de 2026

A ideia é boa, Dr. Cury, mas não vai rolar

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de agosto de 2026

A ideia é boa, Dr. Cury, mas não vai rolar

Revolução digital deu poder para as pessoas, e nada indica que elas farão um uso bem-comportado desse poder. Fernando Schüler para o Estadão:

“Os debates morreram”, me diz um jornalista experiente, dia seguinte daquele debate na Band, em parceria com o Estadão. Na semana, li um ótimo texto, aqui mesmo no Estadão, do Sérgio Denicoli, observando algo na mesma linha: “A lacração matou os debates, e não há caminho de volta”.

As razões são conhecidas. Os candidatos viraram produtos de marketing, e não faz muito sentido debater com uma encenação; o foco dos debates seria “lacrar”. Produzir um bom corte para as redes. E isto, vamos lá, é mais fácil fazer com uma boa cena, ou quem sabe um palavrão, do que dizendo o que vai fazer o problema fiscal. O diagnóstico é este. Mais do que uma época de guerra, vivemos a era da trivialidade. A política como espetáculo. De mau gosto, diga-se de passagem. Mas esta é apenas a minha opinião.

Quem destoou dessa lógica foi Augusto Cury, e não por acaso gerou alguma raiva nos ativistas. “Sua agressividade me assombra”, disse ele para o Renan Santos, como se estivesse em um consultório. E foi além. Disse que a agressividade “asfixia” a capacidade de alguém ter a sua opinião e que “a beleza da democracia está na divergência”.

A reprimenda de Cury soa bem, mas tem um problema. Renan diz o que diz não por um traço psicológico, mas porque a política é um tipo de mercado. Se o eleitor punir quem fala palavrão, os candidatos não vão falar. Se punir quem não for ao debate, eles irão. Se votar em quem disser exatamente o que irá mudar na previdência, eles vão dizer. E se largar de mão quem mentir descaradamente em uma entrevista no horário nobre, eles irão dizer a verdade. Do contrário, nada feito. O apelo do Dr. Cury é bacana e tal. Mas não vai rolar.

A revolução digital deu poder para as pessoas, e nada indica que elas farão um uso bem-comportado desse poder. Na linguagem popularizada por Jason Brenann, houve foi uma conversão em massa de eleitores “hobbits” em “hooligans”. O hobbit sempre foi majoritário, nas democracias liberais. Um mundo comportado, onde a “maioria silenciosa” é devidamente interpretada por um arranjo de instituições intermediárias. Mídia profissional, partidos, sindicatos, organizações civis. Isto não terminou, mas faz parte de um mundo que envelheceu. O novo mundo é algo caótico. Seu personagem central é o ativista digital. Um tipo que lê o mundo via redes sociais, forma sua cabeça em grupos de WhatsApp, odeia quem pensa diferente e se move em um universo de baixíssima empatia. Não é um tipo queridão, em regra, disposto a escutar um bom argumento. O ativista digital prossegue sendo minoria, nas democracias, mas ocupa o centro do palco. Dá o tom, e isto – sejamos realistas – faz parte de um mundo que veio para ficar.

Simpatizo com os apelos de Cury. Também gostaria de um debate bacana, feito de ideias, sem palavrões, mas não acho que isto seja realista. A nova democracia digital tem lá suas vantagens. Ela entregou poder para as pessoas, quebrou o quase monopólio de velhas elites. E é cedo para saber se o saldo final disso tudo será bom ou ruim para nossas democracias.

Por ora, apesar dos fujões, falastrões e de todo o barulho, a conta me parece que anda no azul. James Madison, que era um homem sem ilusões, dizia que a república é, por definição, o espaço da “animadversão”. Do debate duro, por vezes mal-educado. E disse isso em 1800, bem antes da internet. Havia ali uma visão realista da política. Haverá facções e facciosismo, pois as paixões e o desejo de poder residem na alma humana. O que nos resta a fazer é contenção de danos. Melhorar as instituições. Proibir que os juízes façam política, por exemplo. Proibir a censura, sempre seletiva, em nome de um suposto bom-mocismo. Tirar esta montanha de dinheiro público que injetamos nas campanhas, no Brasil, para que os candidatos parem de torrar dinheiro em marketing e enganar as pessoas.

No mais, é deixar que os cidadãos decidam. A democracia liberal sempre será uma aposta, em última instância, na capacidade de pessoas adultas tomarem decisões por conta própria. Se quiserem votar no candidato do palavrão, ok. Se quiserem dar uma chance a um psiquiatra bem-educado, ótimo.

Quanto ao debate público, o limite é, e sempre deverá ser, o uso da palavra. Perigoso mesmo não é um país em que alguns candidatos fogem do debate ou falam grosso. Perigoso é um país em que o sujeito dá uma cadeirada no adversário e segue candidato normalmente. Perigoso é um juíz entrar em campo e mudar a regra do jogo, a partir de alguma predileção. Isto é inaceitável porque são formas - toscas ou sofisticadas, não importa - de violência. E como tal, o fim da política. Com o barulho e a algazarra digital, não se preocupem, logo vamos aprender a lidar.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com