quarta-feira, 24 de junho de 2026

O desanimador cultural Gilmar Mendes

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de junho de 2026

O desanimador cultural Gilmar Mendes

Decano do STF disse que se entende atualmente "quase que como um animador cultural", mas sua atuação política é o contrário disso. Rodolfo Borges para O Antagonista:

O decano do Supremo Tribunal Federal (STF) deu mais uma longa entrevista na noite de segunda-feira, 23, desta vez ao programa Roda Viva, na tentativa de defender condutas indefensáveis.

Gilmar Mendes (foto) repete há semanas insinuações nem sempre sutis contra aqueles que ousam apontar atitudes impróprias de ministros do STF, e acrescentou a elas mais recentemente críticas abertas à Operação Compliance Zero, que ameaça afetar ao menos dois de seus colegas de tribunal.

O alvo mais novo do decano do Supremo é o ministro André Mendonça, relator do caso do Banco Master, que defendeu a Compliance Zero das suspeitas semeadas por Gilmar. O decano do STF comparou a investigação à Operação Lava Jato, que ele tem orgulho de ter combatido.

Questionado sobre o incômodo manifestado em relação a essas duas operações e o silêncio acerca do julgamento da trama golpista, tão criticado por tanta gente, Gilmar se fez de desentendido.

O decano do STF disse que não participou do processo sobre a tentativa de golpe de Estado, tocado pela Primeira Turma, e que acompanhou as críticas aos seus supostos abusos pela imprensa.

“Erro crasso”

Gilmar apontou, durante a entrevista, um “erro crasso” de Mendonça ao ouvir de um advogado — e negar — uma proposta de delação “seletiva”, como descreveu o relator do caso no julgamento em que a Segunda Turma decidiu manter, contra a vontade do decano do Supremo, as prisões preventivas do pai e de um primo do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Mais uma vez chama a atenção a rigidez do ministro com a conduta de um colega e a leniência diante de decisões bem mais problemáticas de outro.

O ministro Dias Toffoli sustentou por mais de três meses uma desgovernada relatoria do caso Master, apesar de ser sócio oculto de uma empresa que fez negócios com o grupo de Vorcaro no resort Tayayá, no Paraná.

Antes de se declarar impedido para julgar o caso, Toffoli impôs sigilo máximo às investigações, determinou acareação entre investigador e investigado e selecionou os peritos que poderiam participar da investigação, voltando atrás sempre que as decisões pegavam mal.

Desanimador

O contraste entre aquilo que incomoda e aquilo que, apesar de ser muito mais problemático, não incomoda Gilmar sugere que o ministro não está exatamente preocupado com o tal do Estado democrático de direito ao fazer suas críticas públicas àquilo que aponta como errado.

Questionado sobre a dificuldade de se fechar um acordo de delação que poderia envolver ministros do STF, o decano concordou que a probabilidade de ele ser firmado é pequena e disse ter dúvidas de se o “o ‘plea bargain’ vai se dar bem nos trópicos”, porque nós “não temos doutrina”.

O ministro disse ainda que “a gente vale, muitas vezes, menos pelo que faz, e mais pelo que a gente evita que se faça”, e que seu “papel, às vezes, é de evitar que se façam determinadas coisas”.

Gilmar criticou mais uma vez o código de ética encampado pelo presidente do STF, Edson Fachin, defendeu sua interferência na Lei do Impeachment e advogou a favor da “soberania digital” do Brasil contra a influência das big techs, tão temidas pelos ministros do Supremo.

Questionado sobre as críticas que faz à Compliance Zero e as comparações desabonadoras com a Lava Jato, o decano do STF afetou humildade e disse que se entende atualmente, após 24 anos de STF, “quase que como um animador cultural”. É desanimador.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

A ameaça do islamismo radical na Europa

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de junho de 2026

A ameaça do islamismo radical na Europa

Na Europa, à arrogância de recusar como possível tudo o que foge das nossas categorias intelectuais, segue-se a fraqueza de ser incapaz de combater uma das maiores ameaças. João Marques de Almeida para o Observador:

Após os ataques do 11 de Setembro de 2001, analisei a Al-Qaeda e percebi rapidamente que as ameaças terroristas aos Estados Unidos e à Europa tinham anos. Mas no ocidente ninguém levou a sério. A Al-Qaeda foi desvalorizada como “um grupo de fanáticos medievais.”

Em 2022, depois da agressão militar da Rússia, também se observou rapidamente que Putin havia defendido durante anos a conquista da Ucrânia. Foi igualmente desvalorizado como defendendo “ideias bélicas do século XIX” que não se aplicavam à “Europa do século XXI.”

Estes dois exemplos mostram uma arrogância extrema por parte dos europeus: os não-ocidentais que não pensam como nós, não são levados a sério. Muitos europeus têm a mesma atitude perante o islamismo radical, que cresce na Europa a uma velocidade impressionante.

Existem muitos estudos e relatórios de governos europeus sobre o crescimento e a ameaça do islamismo radical, há livros publicados sobre o assunto, mas mesmo assim o tema tornou-se um tabu na maioria das discussões na Europa. Devíamos levá-lo muito a sério. O objectivo final do islamismo radical na Europa é converter os países europeus ao islamismo. Já sei que muitos leitores estão a reagir como se reagiu à Al Qaeda ou às ameaças de Putin. Mas não sou eu que o escrevo. São os líderes do islamismo radical na Europa, e em particular da Irmandade Muçulmana.

Observo bem o que se passa no Reino Unido. Há uma estratégia clara para radicalizar imigrantes muçulmanos, especialmente de segunda geração. Esses esforços começaram com a ida de Imãs radicais para as mesquitas britânicas. A maioria desses Imãs foi expulsa do Egipto, da Arábia Saudita e do Paquistão. Ou seja, países muçulmanos expulsaram líderes religiosos para defender as suas populações do radicalismo islâmico, os quais vieram promover as mesmas ideias para o Reino Unido e outros países europeus. Mas os governos britânicos permitiram a radicalização de muitos jovens muçulmanos no Reino Unido. Muitas mesquitas continuam a ser centros de radicalização islâmica.

Simultaneamente, em nome da defesa contra o racismo e contra a Islamofobia, tornou-se proibido defender certas posições contra o islamismo radical no Reino Unido (não deixa de ser irónico, dado o profundo racismo dos islâmicos radicais). Hoje, a liberdade de expressão está sob ameaça no Reino Unido. Pior, os oficiais da polícia britânica vivem em pânico de serem acusados de racistas, e deixaram de garantir a segurança dos britânicos em muitas localidades do país. Hoje, a polícia britânica tem instruções para dar mais importância a discursos de Islamofobia do que a prosseguir crimes cometidos por islâmicos radicais.

A estratégia de radicalização de populações muçulmanas é bem pensada, executada e financiada de fora do Reino Unido. Há três fontes principais de financiamento: a Irmandade Muçulmana, muitas vezes através da Turquia, o Paquistão e o Irão. As autoridades britânicas, para evitar confrontos diplomáticos, pouco fazem para travar estes financiamentos.

O sucesso da radicalização islâmica no Reino Unido já tem implicações políticas. No poder local, há municípios onde os radicais islâmicos fazem parte das maiorias políticas, com consequências graves para a educação, a segurança e a igualdade de géneros (por exemplo, nas escolas). Aliás, os locais que mais praticam a discriminação entre homens e mulheres no Reino Unido são as mesquitas e os centros islâmicos. Os trabalhistas e os verdes sabem muito bem disso, mas nada dizem, e atacam quem o diz. É assim que a liberdade política começa a morrer.

A política externa britânica no Médio Oriente, particularmente em relação a Israel e ao Irão, também já está altamente condicionada pela presença de islamistas radicais no seu território.

Há um ponto central: não se pode confundir islamismo radical com o Islão ou a religião muçulmana. Aliás, os muçulmanos são as primeiras vítimas da radicalização islâmica. Ouçam os depoimentos de raparigas britânicas muçulmanas que se revoltaram contra os casamentos forçados pelas suas famílias. Do mesmo modo, os responsáveis políticos de muitos países árabes afirmam claramente que o islamismo radical deve ser combatido e que hoje é um problema maior na Europa. Por exemplo, os Emirados Árabes Unidos deixaram de dar bolsas para estudar nas universidades britânicas para os seus jovens não regressarem ao país radicalizados. Para combater o islamismo radical, os países europeus devem cooperar com países árabes e muçulmanos.

Na Europa, à arrogância de recusar como possível tudo o que foge das nossas categorias intelectuais, segue-se a fraqueza de ser incapaz de combater uma das maiores ameaças aos valores, à liberdade, à segurança e até à democracia na Europa. O islamismo radical é o terceiro grande movimento totalitário que a Europa livre enfrenta, depois do comunismo soviético e do nazismo.

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terça-feira, 23 de junho de 2026

André Mendonça está enfrentando o sistema...


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de junho de 2026

André Mendonça está enfrentando o sistema. Como acabaram outros juízes antes dele?

Alguns juízes pagaram com a vida; outros, com a carreira; apenas alguns poucos conseguiram reverter a perseguição. Adriano Gianturco para a Gazeta do Povo:

O ministro do STF André Mendonça está com segurança reforçada e arriscando a vida. Mendonça é relator do caso Banco Master e está enfrentando, sozinho: Daniel Vorcaro; a turma de Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli; todos os políticos envolvidos; sicários; e até infiltrados da e na Polícia Federal.

Nos últimos dias, viralizaram vídeos de seu voto no julgamento que manteve presos o pai e o primo de Vorcaro. Mendonça revelou o que as investigações estão mostrando: milícias e sicários com orçamento mensal de R$ 1 milhão, fuzis, munições etc. Falou sobre ameaças, acenou com o perigo de ser assassinado, e ainda discutiu com Gilmar Mendes. Em resposta, o Ministério da Justiça, sob diretiva de Lula, retirou os agentes da PF cedidos a vários órgãos – inclusive os delegados que estavam no gabinete de Mendonça.

Essa combinação – juiz isolado, sob pressão, enfrentando interesses poderosos e até colegas – tem vários paralelos no Brasil e fora dele.

Nos anos 1990, na Itália, Giovanni Falcone e Paolo Borsellino foram os juízes que lideraram o “pool antimáfia” e organizaram o Maxiprocesso, que condenou 338 mafiosos sicilianos com penas de 2.665 anos, com prisão perpétua para 19 chefes. A resposta da máfia foi o assassinato de ambos.

Em 1998, o juiz espanhol Baltasar Garzón ficou mundialmente famoso por mandar prender o ex-ditador chileno Augusto Pinochet em Londres, com base no princípio da jurisdição universal. Antes disso, ele já tinha investigado os GAL, grupo paramilitar usado pelo próprio governo socialista espanhol contra o ETA – o escândalo contribuiu para a queda do governo de Felipe González. Mas o desfecho de sua carreira foi duro: ele tentou investigar crimes da ditadura franquista e foi processado; depois, foi condenado por ter autorizado escutas ilegais em um caso de corrupção, o “caso Gürtel”; por fim, acabou inabilitado da magistratura por 11 anos, encerrando de fato sua carreira como juiz.

Na França, a juíza Eva Joly investigou um caso político-financeiro de desvio de verba envolvendo a petrolífera estatal Elf. O presidente da Corte Constitucional estava envolvido e teve de se demitir. A juíza foi ameaçada e, certo dia, encontrou na porta uma lista com nomes de juízes assassinados. Recebeu proteção policial, mas, após o suicídio do ex-marido em meio ao processo, deixou a França, dizendo que não queria dar tempo para ninguém se vingar. Foi trabalhar na Noruega, onde havia nascido, e só retornou à França anos depois.

No Paquistão, o presidente da Suprema Corte Iftikhar Chaudhry questionou o duplo papel de presidente e chefe do Exército de Pervez Musharraf. Em março de 2007, Musharraf tentou afastá-lo do cargo, mas um movimento de advogados o defendeu e um painel de 13 juízes da Suprema Corte o reintegrou por unanimidade. Musharraf tentou de novo em novembro do mesmo ano, demitindo-o junto com outros juízes sob estado de emergência, mas acabou cedendo à pressão de protestos e o reintegrou.

Na Polônia, o juiz Igor Tuleya se tornou símbolo de resistência às reformas do partido governista PiS, que ampliavam o controle político sobre o Judiciário. Foi alvo de processo disciplinar por ter permitido que a imprensa acompanhasse um julgamento politicamente sensível, e foi suspenso. Ficou mais de dois anos afastado, mas, no fim, a Suprema Corte da Polônia o considerou inocente. A Corte Europeia de Direitos Humanos reconheceu múltiplas violações no processo contra ele.

No Brasil, Sergio Moro foi símbolo do “juiz contra o sistema” durante a Lava Jato. Mas, em 2021, o STF declarou sua suspeição, uma decisão que anulou todos os seus atos nos processos contra Lula e abriu caminho para a anulação de várias outras condenações da Lava Jato. Deltan Dallagnol, que não era juiz, mas procurador e líder da força-tarefa do Ministério Público Federal, foi alvo de vários processos disciplinares no Conselho Nacional do Ministério Público e teve seu mandato de deputado federal cassado após decisão do TSE.

Os desfechos variam: alguns juízes pagaram com a vida (Falcone e Borsellino); outros, com a carreira (Garzón e Joly, além do ex-procurador Dallagnol); apenas alguns poucos conseguiram reverter a perseguição por meio da mobilização popular ou de cortes internacionais (Chaudhry e Tuleya).

Não é uma questão técnica: se Mendonça quiser vencer, precisa de aliados e de apoio popular, midiático, político e internacional. Combater a corrupção e abusos de poder não é para Rambos: ninguém consegue vencer sozinho.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Onde está a magia do futebol brasileiro?

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 23 de junho de 2026

Onde está a magia do futebol brasileiro?
Por Fernando Gabeira (in blog)

Como a maioria dos brasileiros, sou apaixonado por futebol. Isso me dá o direito de escrever sobre o tema, dentro de certos limites. Perguntar, por exemplo, onde está a velha magia do nosso futebol. O que fazer para recuperá-la?

No passado, sempre reagiam com um sorriso ao saber que éramos brasileiros. Brasil? Ah, sim, Pelé, Garrincha, Rivelino. O futebol era nosso principal recurso em soft power, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional.

Foi usado no Haiti, em 2004, para fortalecer o papel militar do Brasil na pacificação daquele caos que motivou a presença da ONU. Nossos craques desfilaram nos tanques que faziam o patrulhamento de áreas perigosas, como a favela Cité Soleil. Arrastaram multidões para saudá-los e agregaram simpatia às nossas tropas, que continuariam ali para patrulhar a turbulenta vida cotidiana.

Mas ali, em 2004, já desfrutávamos glórias passadas. Em 2014, descobrimos perplexos que havia algo errado com nosso futebol. O placar de 7 a 1 passou a ser a medida nacional para uma derrota desastrosa. Sempre que algo sai errado, dizemos: perdemos de 7 a 1.

De lá para cá, no futebol, não conseguimos ainda dar a volta por cima. Às vezes, fico preso aos detalhes. Não temos mais laterais como antigamente. Cafu, Carlos Alberto, Roberto Carlos, o lendário Nilton Santos, só vemos os sobreviventes nos camarotes da Copa. Não são um retrato na parede, mas um rápido zoom das câmeras de TV.

Às vezes penso que o calendário é o nosso problema. Muitos jogos. Talvez isso explique por que acho o futebol mais intenso na Europa. Será que é o cansaço que nos obriga a um jogo tão pouco vertical? Por que fazemos um gol e passamos a administrar o resultado? Somos devagar.

Na minha busca por respostas, às vezes, me volto aos cartolas que me parecem tão sospechosos, como aqueles políticos que pintam o cabelo e dão um beliscão no bumbum da secretária. Leio nas redes que o presidente da CBF levou a mulher e amante para a Copa, hospedando uma nos Estados Unidos, outra no México. Ele se submete ao mesmo rigoroso regime imposto por Trump ao time do Irã: joga nos Estados Unidos, mas dorme no México.

A Argentina continua brilhando. Seus cartolas não são melhores que os brasileiros. Não devemos descartar esse item, mas não podemos superestimá-lo. De qualquer forma, será necessário um esforço nacional para reerguer o futebol do Brasil. As empresas que faturam em cima da paixão deveriam destinar parte de seus investimentos a esse projeto. Quando começarmos a nos sentir como os neozelandeses sentem por sua seleção, a galinha dos ovos de ouro estará morta.

Talvez fosse pedir muito que o governo também se interessasse pelo assunto, embora seu papel seja secundário. As bets conseguiram monetizar a paixão. Grande parte dos impostos vai para os cofres públicos. Uma boa parte desse dinheiro deveria ser reinvestida no estímulo ao futebol. De talento, ruas, praias e becos estão cheios. O enigma é reencontrar a velha magia e nosso perdido soft power.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

Roda Viva ENTREVISTA Gilmar Mendes (22/06/2026)

 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Elon Musk, o trilionário, e o que podemos aprender com isto

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 13 de junho de 2026

Elon Musk, o trilionário, e o que podemos aprender com isto

Boa parte das pessoas parece não saber fazer a distinção básica entre a riqueza que é feita pela inovação e a riqueza que é fruto do truque ou da captura do Estado. Fernando Schüler para o Estadão:

“A distribuição não vem sendo igualitária”, escuto em um comentário, sobre o aumento da riqueza dos bilionários, mundo afora. E em especial sobre Elon Musk, nesta última sexta-feira consagrado como nosso primeiro trilionário global. Sempre acho graça quando escuto estas coisas.

Por que cargas d’agua a distribuição do dinheiro do Elon Musk deveria ser igualitária? Em primeiro lugar, ninguém está distribuindo nada. As pessoas investem na SpaceX porque querem ganhar mais, logo ali à frente. Alguns compram por fetiche, para dizer que são sócios do Musk. Mas é uma minoria. A maior parte acredita mesmo no negócio.

Na abertura do IPO, Musk disse que só dava 10% de chances de sobrevivência, no início da empresa. Hoje ela é líder absoluta da corrida espacial. Tem a maior constelação de satélites em órbita e mais de 50% dos lançamentos espaciais do planeta. E faz isso não porque tem amigos em Washington (o que não seria difícil), por causa da “desigualdade global”, ou porque “as regras do sistema favorecem”, como escuto no besteirol midiático. Faz isso porque criou foguetes reutilizáveis. Que vão ao espaço, dão marcha ré e retornam suavemente à base de lançamento. E porque trabalham para fundar uma colônia com um milhão de pessoas em Marte até a metade do século.

Foi por isso que este sujeito estranho criou a empresa, em 2002, indo a uma feira de foguetes amadores, na Califórnia. E reafirmou isso na sexta-feira, falando em uma humanidade “multiplanetária”. E se alguém rir dessas coisas, sugiro que dê uma disfarçada. O sujeito que diz estas coisas acorda, por estes dias, com um trilhão na conta e – literalmente – um universo aberto de possibilidades à frente. De modo que o melhor é parar e quem sabe revisar alguns velhos preconceitos.

O fato é que há um conflito cultural subjacente sobre como lidar com o fenômeno da riqueza global e, em particular, com a proliferação dos bilionários, mundo afora. Boa parte das pessoas parece não saber fazer a distinção básica entre a riqueza que é feita pela inovação e a riqueza que é fruto do truque ou da captura do Estado.

Diria que há duas visões predominantes: uma olha a vida de Elon e vê um tipo schumpeteriano. Um empreendedor serial que aposta tudo na inovação tecnológica e gera valor em grande escala. E faz o planeta andar para frente. Na outra visão, Elon é um vilão. Ele “acumula” dinheiro. Algo como se houvesse um volume mais ou menos fixo de riqueza no mundo, de modo que se alguém fica com um pedaço muito grande, como Musk, irá faltar para os “de baixo”. E por isso esta gente rica e ruim deve ser combatida.

O próprio Lula expressou uma ideia dessas semanas atrás, no Forum das esquerdas, em Barcelona, dizendo que os “verdadeiros culpados” dos males do mundo eram os “bilionários que concentram a riqueza”, exploram os trabalhadores e não deixam os outros subirem na vida.

O problema desta tese é que ela parece não bater com a realidade. Apenas o IPO da Space X fez mais de quatro mil “trabalhadores” da empresa milionários, em dólar, de uma hora para outra. Dos 10 bilionários à frente na lista da Forbes, todos, sem exceção, são superempreendedores. Nenhum fez seu dinheiro capturando algum monopólio ou recebendo favores de governos.

Amâncio Ortega, o décimo da lista, começou a vida como vendedor de camisas, em uma loja de La Coruja, na Espanha. Jeff Bezos, meu exemplo favorito, largou um emprego bacana, em Nova Iorque, abriu um site de vendas online com o nome de um imenso rio brasileiro. Foi chamado de “louco”, à época, e hoje comanda também a “Blue Origin”, maior concorrente privada de Musk, na corrida espacial.

Outro caso interessante é o de um imigrante de Taiwan, Jensen Huang, que trabalhou lavando pratos e como garçon, no Oregon, e década e meia depois criou a Nvidia, hoje a empresa mais valiosa do planeta. Estas pessoas se tornaram multibilionárias não porque enganaram alguém ou “concentraram” a renda global. Elas criaram riqueza. Souberam fazer coisas capazes de melhorar a vida das pessoas – sejam camisas boas e baratas, livros online, antenas da Starlink ou buscadores de informação. Na prática, jogaram um jogo de ganha-ganha, e é por isso estão hoje naquela lista da Forbes. E sumirão dali, podem ter certeza, logo que novos empreendedores aprenderem a fazer coisas melhores, como de resto sempre acontece na história do capitalismo.

Na teoria dos “vilões”, a lógica é oposta. “Um dia sombrio para a democracia”, disse um dirigente da impagável Oxfam, ONG cuja lógica obsessiva é combater “bilionários”. A frase é perfeitamente irresponsável. O sujeito acha que se as pessoas fossem impedidas de comprar ações da Space X, ou se o governo “capturasse” para si metade do dinheiro de Musk, isto seria bom para a democracia? Musk teria então meio trilhão e o governo mais dinheiro para gastar do jeito que conhecemos. Tudo com a suposição perfeitamente mágica de que um padrão de intervenção estatal como este não iria esfriar a disposição das pessoas – Musk à frente – para tomar riscos, empreender e investir.

Pela lógica da ONG, Musk deveria distribuir 10% do seu dinheiro para “aliviar a pobreza global por um ano”. A pergunta prosaica a fazer é simples. Supondo que isto fosse verdade, o que faríamos com a pobreza no ano seguinte? Quem sabe distribuiríamos mais dinheiro, sabe-se lá de onde, para as pessoas? De minha parte, acho a filantropia sensacional e de fato boa parte dos bilionários americanos já assinou a “Giving Pledge”, prometendo doar mais de metade de seu dinheiro. Mas não é isto que vai resolver o problema. O que de fato fez a pobreza efetivamente desabar, nas últimas décadas, foi exatamente o dinamismo econômico e a inovação tecnológica.

Em meados da década de vinte, cem anos atrás, havia não mais do que 20 bilionários, em valores corrigidos, mundo afora. O maior deles era John Rockefeller. A taxa de analfabetismo global girava em torno de 70%, e a pobreza extrema envolvia perto de 60% da população global. Cem anos depois, temos perto de 3,5 mil bilionários, segundo a lista da Forbes. A taxa de analfabetismo foi reduzida para 13%. E a pobreza para aproximadamente 10% da população.

A história contemporânea é feita do mesmo roteiro: a riqueza no topo aumenta, e a vida vai melhorando – e rápido – na base da pirâmide. Os melhores exemplos disso foram os dois países que mais reduziram a pobreza, nos anos recentes: China e Índia. A China reduziu a pobreza extrema virtualmente a zero, em quarenta anos, e viu seu plantel de bilionários sair de 0 para pouco mais de 400, ainda agora.

A Índia fez coisa parecida. Reduziu a pobreza de perto de 50% a menos de 5%, ao mesmo tempo em que viu seus bilionários saltarem de 3 para 229, ano passado. Isto ocorre porque a geração de riqueza e a redução da pobreza são dois lados do mesmo fenômeno de abertura e dinamização da economia. Podemos enfiar a cabeça em um buraco e fazer de conta que não enxergamos nada disso. Podemos ficar amaldiçoando Elon Musk, suas inovações, satélites e projetos espaciais. De fato, há um mercado retórico para isso. Mas, como País e como sociedade, não vamos muito longe com isso.

Quando leio sobre Musk, Bezos ou Jensen Huang, me lembro da antiga lição de Schumpeter. Em especial, de seu elogio do empresário inovador, o tipo que “nunca dorme tranquilo” e faz a máquina da “destruição criadora” do capitalismo andar à frente. Lembro também de sua visão algo sombria, reafirmada em um de seus últimos artigos, “A Marcha para o Socialismo”, segundo a qual o capitalismo caminhava para o seu fim. E isto em função de um paradoxo: o capitalismo faz aumentar a produtividade e o bem-estar, mas também o crescimento de uma “casta” intelectual - acadêmicos, jornalistas e ativistas de todos os tipos. Um estamento que vive dos sucessos da economia de mercado, mas cada vez mais distante de seu processo real de produção. Gente que não entente, ou não quer entender, como é gerada a riqueza e a prosperidade que logo ali, abaixo da superfície, sustenta seu próprio modo de vida.

Schumpeter estava errado. O capitalismo não foi derrotado. Na verdade, ele vai vencendo o jogo, apesar de toda a carga retórica em contrário. Os sucessos de Elon Musk são apenas uma modesta, ainda que interessante demonstração disso tudo. Algo que pode nos trazer algum aprendizado, neste País que anda um pouco de lado, se tivermos a paciência de prestar atenção.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 13 de junho de 2026

'Relação Brasil-EUA: Limites da Amizade,' por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 9 de unho de 2026

Relação Brasil-EUA: Limites da Amizade.

Por Fernando Gabeira (in Blog)

Nunca me senti confortável com a importância que a imprensa dá à proximidade dos candidatos com Trump. Tanto a fidelidade canina da família Bolsonaro como a química que o uniu a Lula enfraquecem uma análise mais fria sobre interesses dos dois países.

Compreendo que Lula tenha certo orgulho da simpatia de Trump. Afinal, o poder de sedução atravessou barreiras ideológicas confirmando seu prestígio internacional. Na hora do vamos ver, a situação se revela com toda a crueza. Ao apresentar sua política para o continente, os Estados Unidos fizeram uma grande reunião na Flórida. Foi lançado o Escudo das Américas, aliança contra o crime organizado e imigração ilegal. O Brasil ficou de fora, assim como Colômbia e México. Em discurso no Congresso, Marco Rubio nomeou os países que não se alinhavam com a política americana. Entre eles estava o Brasil.

É nesse contexto que temos de analisar alguns movimentos da política em relação ao nosso país. Um deles, a classificação de terrorismo imposta a PCC e Comando Vermelho. Não foi uma decisão importante para uma política de Estado. Vinha sendo avaliada havia muito tempo. Mas a oportunidade de sua oficialização deu uma pequena ajuda ao pré-candidato Flávio Bolsonaro, sem dúvida preferido dos americanos. A preferência explícita acabou trazendo grande desgaste a Flávio quando se anunciaram novas tarifas.

Embora seja um discurso muito eficaz de campanha, as tarifas não foram feitas para a família Bolsonaro. Não se pode analisá-las sob essa ótica de quarteirão, como se fossem obra dos Bolsonaros, dos Morales, dos Bertrands, dos Millers, dos Johnsons. Elas são uma política global de Trump. Já foram tentadas de forma autoritária e anuladas pela Suprema Corte. Agora, Trump volta à carga, usando a seção 301 de uma lei comercial para dar verniz legal a sua determinação.

Há muita coisa injusta nas razões que punem o Brasil. Uma delas é a denúncia de trabalho forçado, algo muito combatido num governo de esquerda, assim como o desmatamento. Os americanos não parecem muito preocupados com precisão nem coerência. Tanto que, no caso da carne, abrem uma exceção. Se o trabalho forçado é para produzir carne, então tudo bem.

É evidente que tudo isso será processado pelas narrativas eleitorais. Mas o Brasil precisa manter um olhar frio e uma prática profissional para atenuar o impacto das medidas e compreender a realidade americana como ela é. Nessa luta planetária contra o poder ascendente da China, os americanos podem passar por várias fases.

Nem a devoção da família Bolsonaro nem a química entre Trump e Lula são proteções estratégicas. Precisamos discutir caminhos, e eles estão um pouco ofuscados no valor cultural da amizade, algo que cultivamos no Brasil. Entre países, não há amigos, apenas interesses. Não significa que devamos abandonar o bom humor e a abertura para novas amizades. Sempre ajudam.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

Sentença bizarra: um caso exemplar de ativismo judicial.

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 9 de junho de 2026

Sentença bizarra: um caso exemplar de ativismo judicial.

Bizarra sentença da juíza do caso Henry Borel, que deu perdão judicial à mãe do menino por considerá-la vítima de misoginia, mostra como a cultura do ativismo disseminou-se no Judiciário. Editorial do Estadão:

O assassinato de Henry Borel, torturado até a morte aos 4 anos de idade em março de 2021 pelo então namorado de sua mãe, o ex-vereador carioca Jairo Souza Santos Júnior, vulgo Jairinho, chocou o País e pôs a sociedade em compasso de espera por justiça. Ao fim do julgamento no II Tribunal do Júri do Rio, na semana passada, Jairinho foi condenado a mais de 43 anos de prisão, uma pena que, à luz da hediondez do crime, só mesmo a defesa do assassino haverá de contestar por dever de ofício.

O grande problema – e não só para o caso particular, mas sobretudo para o Estado Democrático de Direito – foi a decisão da juíza Elizabeth Machado Louro de conceder perdão judicial a Monique Medeiros, a mãe de Henry, pelo crime de homicídio culposo por omissão. Para justificar o perdão, a juíza afirmou que Monique teria sido vítima, pasme o leitor, de “misoginia declarada extrema”, reflexo, em sua visão, de uma sociedade constituída em “moldes patriarcais”. Isso é discurso político, não fundamento jurídico.

Para extinguir a punibilidade da mãe de Henry, Sua Excelência descreveu como “incomensurável o sofrimento de quem, além de perder seu único filho, viu-se alvo durante cinco longos anos de perseguição implacável contra a sua honra e sua autoestima como mãe”. A despeito da contundência das palavras, nenhuma vírgula da decisão da juíza no que concerne à ré tem respaldo na prova dos autos contra ela, razão pela qual o Ministério Público, em boa hora, recorreu da sentença.

Noves fora a teratologia da decisão, eivada de vícios jurídicos, seria reducionista de nossa parte limitar esta nota à figura da juíza Elizabeth Louro. Sua sentença não foi mais do que sintoma de um fenômeno mais amplo e bem mais perturbador: a disseminação, no âmbito do Judiciário, de uma cultura ativista que divide os cidadãos entre aqueles sobre os quais pode recair todo o peso da lei penal e os que fazem jus a uma espécie de reparação histórica embutida, de forma sub-reptícia ou escancarada, em decisões judiciais.

Nesse sentido, o bizarro perdão concedido a Monique Medeiros decorre de um ecossistema permissivo diante do ativismo judicial que o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) têm alimentado com denodo de uns anos para cá.

O CNJ, vale lembrar, já editou protocolos que orientam julgamentos com base em “perspectiva racial” e “de gênero”. O STF, por sua vez, fixou teses sobre “racismo estrutural” com desdobramentos concretos sobre o sistema de persecução penal. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que injúria racial não pode ser cometida contra “pessoa branca”. Em outra frente, o STJ também aprovou o registro da categoria “não binário” em documentos oficiais, decisão que, no regime republicano, sustentado pela separação de Poderes, obviamente cabe ao Legislativo. Poderíamos continuar. São muitos os exemplos de ativismo de uma propalada “vanguarda iluminista” no Judiciário, para citar a famosa expressão do ministro aposentado do STF Luís Roberto Barroso. O busílis é que sentenças não se prestam a “melhorar” a sociedade, e sim a aplicar a lei tal como está escrita.

Eis o problema para o Estado Democrático de Direito. Quando juízes deixam de aplicar a lei para contrabandear em suas decisões ideologias, valores ou visões de mundo – em suma, para “reformar” a sociedade –, a sentença deixa de ser o que deveria para se tornar panfleto político. Isso é inaceitável. Decisão judicial não é instrumento de reparação histórica. A razão é elementar: a escolha por reparar qualquer que seja a dívida social, chamemos assim, é da sociedade, por meio de seus representantes eleitos, não de juízes.

O Judiciário não é o locus das transformações sociais. Juízes não têm a prerrogativa de reescrever a realidade ou “empurrar a História” à luz de suas teorias sociológicas ou vieses ideológicos. Ao transformar uma condenada por omissão gravíssima em vítima e, assim, afastar as consequências jurídicas de sua má conduta, Elizabeth Louro foi mais uma magistrada a expor o perigo de uma Justiça militante que, ao abandonar a imparcialidade em nome de causas supostamente virtuosas, arruína o princípio da igualdade de todos perante a lei.

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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Hannah Arendt, depressa

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 2 de junho de 2026

Hannah Arendt, depressa

O mal dos totalitarismos não está só no crime organizado que redundou nos gulags e no holocausto. Está também na redução a nada do cidadão a eles sujeito, a ponto de deixar de pensar por si próprio. Luiz Cabral de Moncada para o Observador:

1 Sou um antigo admirador de Hannah Arendt. A suas teses sobre o totalitarismo são magistrais. Não dá tréguas ao comunismo nem ao fascismo, equiparando-os até, embora com diferenças específicas, enquanto regimes totalitários. É seguramente por isso que a esquerda nacional que a conhece, e que é quase nenhuma, não gosta nada dela.

Arendt foi uma mulher independente que nunca se preocupou em agradar a todos nem a ninguém em especial. Os seus escritos sobre o julgamento do facínora Eichmann, principal executor do holocausto, desagradaram profundamente à comunidade judaica de Nova York, onde ela vivia, porque esperava dela, mais a mais judia e paga por um jornal americano para ir assistir ao julgamento em Jerusalém, que lhe chamasse os nomes mais feios, tais como homicida, desumano, canibal, eu sei lá, e que pintasse dele um retrato demoníaco, qual novo cavaleiro do Apocalipse. Mas não foi isso que sucedeu.

2 Efectivamente, Arendt foi muito mais fundo, mas poucos a compreenderam. Lançou o conceito espantoso de «banalidade do mal». Em que consiste isto? Em demonstrar que os regimes totalitários como o fascismo e o comunismo conseguem acabar com a faculdade de pensar ou seja, de fazer um juízo crítico de avaliação das coisas assim transformando os cidadãos numa espécie de rebanho acéfalo e incapaz de reagir. É este afinal o mal do totalitarismo que já Alfred Jarry tinha entrevisto na sua magnífica peça Ubu Roi e sem esquecer o grande Alexis, visconde de Tocqueville, embora noutro contexto completamente diferente e, se quisermos recuar, já estava descrito pelo quinhentista Étienne de La Boétie no seu magnífico Discurso sobre a Servidão Voluntária.

O mal dos totalitarismos não está só no crime organizado que redundou nos gulags e no holocausto. Está também na redução a nada do cidadão a eles sujeito, a ponto de deixar de pensar por si próprio e de, ao serviço do Estado, ser capaz das piores atrocidades com a satisfação do dever cumprido. O cidadão é transformado no burocrata ou, pelo menos, no cúmplice do terror. A este propósito escrevi em tempos um prefácio ao depoimento do embaixador alemão em Lisboa durante a segunda Grande Guerra, o barão von Hoyningen-Huenne, depoimento este que espero seja um dia publicado, onde trato da questão da culpa colectiva do povo germânico contemporâneo do holocausto.

O mal fica assim banalizado. Retira ao seu autor qualquer sentimento de culpa e transforma o horror no dever. Foi o caso exemplar de Eichmann que parecia indiferente ao demoníaco sofrimento humano que provocou e se mostrava até orgulhoso da sua eficiência e zelo na execução das malditas ordens que recebia.

O horror é aquilo em que os totalitarismos são capazes de transformar os homens. Foi a intuição por H. Arendt do mal intrínseco nos totalitarismos que entusiasmou a filosofia fenomenológica, na esteira de Husserl, ainda em voga quando escreveu sobre eles.

Por outro lado, Arendt demonstrou como ninguém que Marx transformou a dialéctica de mero método em ideologia pelo que a confirmação do desenvolvimento dialéctico passou a valer muito mais do que a avaliação dos resultados e a real compreensão das coisas. Hegel tinha utilizado a dialéctica para ajustar contas com o passado mas Marx quis servir-se dela para futurar. Foi esta patetice que permitiu ao antigo partido comunista da URSS afirmar, sem pestanejar, ao abrigo da Constituição de 1977 e sob a liderança de Brezhnev, que já estava concretizado o «estado de todo o povo» e que, portanto, a luta de classes tinha pura e simplesmente terminado, abrindo-se à frente a partir daí a radiosa fase final do comunismo. E a realidade? Que interessa isso? A dialéctica é muito mais forte do que ela, Suslov dixit.

3 Arendt é, portanto, quem mais lucidamente denunciou os totalitarismos. A esquerda portuguesa não gosta dela porque esperava que ela denunciasse apenas o fascismo, mas enganou-se. Denunciou também e nos mesmos termos o comunismo leninista/estalinista. Não deu tréguas a ninguém.

É saudável voltar a Arendt. E, a propósito, sugiro uma colectânea de textos seus editada já em 1991 pela Seuil intitulada Juger – Sur la Philosophie Politique de Kant. Não será a sua melhor obr,a mas é seguramente uma das melhores. A ideia central que retoma de Kant é esta: o juízo em geral e o político em particular é aquela específica faculdade humana que só se desenvolve no contacto com os outros e se analisa no tratamento das questões concretas e volúveis que só em sociedade se colocam. Não resulta de regras gerais, ao invés do juízo teórico e do prático (na terminologia kantiana) e, portanto, não se aprende nem se ensina: exerce-se e vai-se aperfeiçoando à medida do seu exercício.

4 Arendt e Orwell são como que um tratamento de desinfestação. Arendt foi muito mais longe do que a «escola de Frankfurt», principalmente do que Max Horkheimer. Este passou a vida a denunciar a razão instrumental característica do capitalismo, segundo dizia, que reduz o homem a uma peça de uma máquina produtiva que o transcende e consome e que facilmente o torna presa de todas as alienações. A fonte é o célebre primeiro capítulo de O Capital de Marx, onde ele desenvolve o conceito de mercadoria, o tal capítulo que os comunistas ortodoxos se esforçaram por ocultar com a estúpida tese do «corte epistemológico, como se o Marx economista fosse desligável do filósofo, não fossem os mais curiosos constatar que afinal no socialismo a razão é tão instrumental como no capitalismo e o homem é na mesma mercantilizado porque tão subordinado às necessidades da produção como nas sociedades ocidentais. Alguém já se esqueceu do que foi o stakhanovismo soviético, esse acintoso e desumano método de tirar partido do trabalho operário? Creio que nem nas fases primitivas da acumulação do capital próprias do capitalismo manchesteriano do século XIX se foi tão longe na degradação do trabalhador. Só que C. Dickens em Inglaterra e H. de Balzac e V. Hugo em França logo as denunciaram, ao passo que os comunistas de serviço nos países ocidentais as abençoaram e Horkheimer foi um deles.

Horkheimer, como era comunista, não conseguiu perceber, ou se percebeu fingiu que não percebeu, a essência do totalitarismo e apontou o dedo aos países ocidentais, de modo a não beliscar os camaradas, apesar de sempre bem instalado no american way of life, onde nunca lhe faltaram patrocinadores.

Parte da minha primeira juventude vivi imerso nisto: conheço isto bem demais. E enjoei. Basta de hipocrisia filocomunista. Afinal vale muito mais a pena ler a obra de homens com o bom-senso e a extraordinária acutilância de um G. Orwell, que nunca se armou em doutrinador, em vez de perder tempo a ler marxistas ressabiados e «revoltadinhos da silva» que lograram encontrar nas liberais sociedades capitalistas um nicho de mercado que bem os sustentou.

5 H. Arendt não era moralista em política. Nem no tempo em que viveu podia ser. Não desconhecia as leges artis dela própria e apreciava a desenvoltura e a coragem, «para além do bem e do mal», própria dos homens políticos que ainda existiam quando viveu, desde Churchill a Adenauer, desde «Ike» Eisenhower a de Gaulle. Só execrou os facínoras como Hitler e Estaline. Mao e quejandos nem teve tempo de os denunciar, sorte dela. Teve perfeitamente a percepção da importância do carácter dos líderes em momentos difíceis. Mas ao mesmo tempo tinha a consciência clara da falibilidade dos homens comuns e do consequente perigo da manipulação das democracias de massas, indefesas perante o bonapartismo, rosto das ditaduras totalitárias a surgir.

6 As opiniões dos homens (doxa) valem todas o mesmo? Valem. O difícil está em delas extrair o que é comum e sobre ele construir um património intelectual. O esquerdismo, sempre profético, nunca entenderá isto. Para ele a palavra não é a dita (aqui e agora), é a revelada. O diálogo propriamente dito e a consequente procura da concórdia é-lhe estranho.

Já no Génesis se diz que Deus criou o homem mas «homem e mulher Ele o criou». A vida política começa aí porque o ser humano não existe no singular. É da nossa natureza o conflito mas dentro da unidade. A humanidade só se manifesta na distinção, mas entre iguais. Só o coitadito do Marx é que pensava que a pluralidade humana se reduzia à posição distinta nas relações de produção e nos objectos fabricados. Abolida ela, à política sucederia a mera administração. Não percebeu nada. À força de tudo querer compreender com dois ou três axiomas, nada compreendeu. E ainda há quem o considere grande filósofo.

O esquerdismo pensa (porque não julga) que o ser humano é redutível a um só modelo a clonar por milhões, sem palavra e sem acção, embevecido pela verdade revelada, quais filhos dilectos das revolucionárias ideias fundacionais. Ignoram que o que caracteriza o ser humano é a diferença e daí a pluralidade, consequência mais forte da natureza humana. O fascismo navega nas mesmas águas turvas unitárias: a diferença é que a referência não é material mas sim «espiritual», o que vai dar ao mesmo.

Homem «unidimensional», dizia o esquerdismo mais elaborado do proletário característico das sociedades capitalistas avançadas da primeira metade do século XX. Unidimensional? Unidimensional era a perspectiva de quem assim o queria ver.

7 Já estou a ver os aprendizes de feiticeiro da política portuguesa a ruminarem que, afinal, isto já eles sabiam, apesar da sua proverbial ignorância, pois que se julgam, os coitados, portadores de vasta intuição política. Mas não é disto que Kant falava, como nos bem ensina H. Arendt, quando se referia à faculdade de julgar.

Na verdade, a faculdade de julgar não é independente da razão prática, que lhe serve de ideia reguladora, e esta rege-se por regras racionais e imperativas. O juízo é apenas a aplicação da razão prática às circunstâncias concretas e volúveis da vida em sociedade, como disse, não é o reino da falta de escrúpulos, da mentira profissionalizada e da má-fé, que tanto caracteriza quase todos os actuais políticos portugueses. Ainda se alguns deles se caracterizassem pela virtù perante as imprevisibilidades da fortuna, que o forte Maquiavel associava ao desempenho do Príncipe e que o identificava, mas nada disso. Não passam na sua esmagadora maioria de uns manobradores de pacotilha figurantes nesse espectáculo degradante que é hoje a política à portuguesa.

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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Entre a cruz e o consultório

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 3 de junho de 2026

Entre a cruz e o consultório: psicólogas(os) cristãs(ãos) na disputa pela moralidade pública no Brasil

Por Péricles Andrade* e Helmir Rodrigues**

A disputa pela moralidade pública no Brasil é descrita como uma verdadeira “guerra cultural”, na qual a direita cristã utiliza o “pânico moral” para reagir contra avanços de pautas progressistas ligadas à diversidade e aos direitos reprodutivos. Esse embate centraliza-se na sacralização da família tradicional (heteronormativa) e na oposição ferrenha à chamada “ideologia de gênero”, percebida por esses grupos como uma ameaça existencial à sobrevivência da ordem social cristã. Enquanto movimentos identitários, feministas e LGBTQIAPN+ buscam igualdade de direitos e tratamento isonômico pelo Estado, os setores conservadores atuam como um “contramovimento de resistência”, tentando limitar mudanças nos costumes e preservar a hegemonia das instituições religiosas sobre a vida pública.

Nesse contexto, o Senado Federal voltou a colocar religião e esfera pública no centro do debate político brasileiro com o Projeto de Resolução nº 3/2026, apresentado pelo senador Magno Malta (PL-ES). A proposta cria a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos e busca defender profissionais que alegam sofrer sanções ético-disciplinares por manifestações de fé em redes sociais, espaços públicos ou ambientes religiosos. Esta iniciativa, de caráter suprapartidário e duração indeterminada, visa promover e defender o respeito aos direitos fundamentais no exercício da Psicologia. O fundamento central da proposta reside no artigo 5º da Constituição Federal, que garante a inviolabilidade da liberdade de consciência, de crença e a proteção à objeção de consciência no Brasil.

A proposta fundamenta-se na premissa de que a religiosidade é uma dimensão estruturante da identidade humana e que a laicidade do Estado brasileiro deve ser colaborativa e não hostil à fé, combatendo o que define como uma “falsa neutralidade” ideológica nos conselhos profissionais. Entre seus objetivos principais descritos no Artigo 2º, a Frente busca fiscalizar órgãos reguladores e reagir a sanções institucionais, como notificações, termos de ajustamento de conduta e processos ético-disciplinares, aplicadas a psicólogos(as) por expressarem suas convicções em ambientes públicos ou redes sociais, visando impedir que a ética profissional seja instrumentalizada para restringir garantias constitucionais “inegociáveis”.

A proposição surge como uma resposta do legislativo às normas administrativas e processos ético-disciplinares movidos por conselhos profissionais contra psicólogos(as). Segundo a justificativa do projeto, existe uma preocupante tendência de imposição de uma “neutralidade absoluta” que, na prática, pode ocultar “visões ideológicas secularistas” e restringir “indevidamente” a liberdade de expressão religiosa. Dessa forma, a Frente busca fiscalizar os conselhos de psicologia para evitar que atos infralegais restrinjam direitos fundamentais ou inovem o ordenamento jurídico em desacordo com a supremacia constitucional.

No Brasil, o grupo identificado como “psicólogos cristãos”, por exemplo, defende o direito de oferecer terapias para a “reversão” da homossexualidade, tratando-a como uma “desordem moral” ou um “desvio patológico”. Esses profissionais desafiam o consenso científico contemporâneo, que aboliu sua classificação como patologia, e utilizam estrategicamente a linguagem dos direitos humanos para reivindicar suas “liberdades religiosa e científica”, buscando recolocar a orientação sexual no território do patológico, frequentemente vinculando sua prática a um ativismo político conservador voltado à defesa da “família tradicional”.

Lembramos que o Conselho Federal de Psicologia publicou no final da década de 1990 a Resolução nº 01/1999 para proibir práticas de patologização da homossexualidade e impedir a participação de profissionais em terapias de “reversão” sexual. A resolução também impede pronunciamentos públicos que trate esta orientação como doença ou distúrbio psicológico, tais como nos casos envolvendo as psicólogas Rozangela Justino e Marisa Lobo, que passaram a ocupar espaço no debate público após processos ético-disciplinares movidos pelos conselhos profissionais. As duas defenderam publicamente a legitimidade da chamada “cura gay” e apresentaram os processos como exemplos de “perseguição religiosa” dentro da Psicologia.

Já no ano de 2023, por meio da Resolução nº 07/2023, o Conselho Federal de Psicologia buscou estabelecer normas referentes a atuação profissional da psicologia e seu caráter laico. A referida resolução reafirma o já disposto no Código de Ética da Profissional do Psicólogo (CEPP), de 2005, o qual já ressalta que a prática dos(as) psicólogos(as) é vedado “induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual, ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais” (Alínea b, art. 2º).

Essa Resolução não só reafirma as vedações já dispostos no CEPP, quanto à indução de crenças religiosas no exercício profissional do(a) psicólogo(a), como também traz, por outro lado, a orientação para uma postura na compreensão que a prática profissional da psicologia dar-se-á por observar a dimensão religiosa e da espiritualidade (sem denominar uma ou outra), como aspectos formativos das subjetividades e coletividades. Junto a isso, o documento também amplia tal visão, de modo a atrelar a atuação psi na observância dos contextos históricos, culturais dos povos originários, das comunidades tradicionais, como também no respeito às vivências a-religiosas, agnósticas e ateístas de indivíduos e grupos.

Com isso, podemos perceber que as disposições normativas e legais do Conselho Federal de Psicologia, que se baseiam na Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU) e da Constituição Federal (Brasil, 1988), atuam na defesa de um olhar e postura ampliada sobre as formas de expressão de crenças religiosas e a-religiosas, compreendendo sua importância nos processos de subjetividade dos indivíduos e coletivas, que devem sempre ser levadas em consideração, nos processos de atuação profissional, mas não compactuando com quaisquer que sejam posições que venham a partir de crenças particulares, como único caminho possível para o processo de cuidado psicoterapêutico.

Com o Projeto de Resolução nº 3/2026 temos a ampliação desses embates de oposição entre ciência e religião. Além disso, é inserida uma disputa estratégica que envolve a regulação estatal e a política de gênero na democracia brasileira. Enquanto os conselhos defendem a Psicologia como uma ciência comprometida com a não discriminação, o ativismo a partir da “psicologia cristã” representa uma reação conservadora que tenta legitimar visões de mundo dogmáticas através de argumentos pseudocientíficos. Assim, a controvérsia em torno da “cura gay” revela tensões profundas sobre como o conhecimento especializado e o poder legislativo devem lidar com a diversidade e as convicções religiosas no espaço e na esfera pública.

A atuação da Frente Parlamentar Evangélica no PRS 3/2026 pode ser analisada a partir do conceito de minoritização evangélica elaborado por Joanildo Burity. Segundo Burity (2015), grupos religiosos podem utilizar a posição de “minoria perseguida” como estratégia política mesmo quando possuem presença institucional ampla. Esse mecanismo aparece no projeto quando profissionais que atuam a partir da “psicologia cristão” são apresentados simultaneamente como vítimas de perseguição ideológica e representantes da maioria cristã da população brasileira. Burity e Giumbelli (2020) observam que disputas religiosas contemporâneas passaram a utilizar a linguagem dos direitos e das minorias para justificar reivindicações morais e políticas. No caso do PRS 3/2026, a defesa da liberdade religiosa aparece vinculada à crítica contra órgãos técnicos do Estado e contra normas éticas produzidas pelos conselhos profissionais.

A iniciativa marca uma mudança qualitativa na estratégia da FPE, que avança da representação parlamentar para a fiscalização direta de órgãos reguladores e da máquina estatal. Ao propor o monitoramento de processos ético-disciplinares contra psicólogos(as) por suas manifestações de fé em redes sociais ou espaços públicos, a Frente visa mitigar a autoridade técnica dos conselhos de classe em favor de uma proteção institucional às convicções cristãs. Essa movimentação reflete a tentativa de converter a autoridade moral evangélica em um instrumento jurídico-político capaz de reagir a sanções institucionais que o grupo percebe como “perseguição” ideológica.

Afinal de contas, o projeto insere-se nas disputas pela moralidade pública travada pela FPE, que utiliza pautas de moralidade para combater o que denomina “ideologia de gênero” e avanços progressistas no campo dos direitos humanos. O objetivo central é transformar concepções religiosas particulares em parâmetros normativos universais, utilizando o aparato estatal para sancionar visões de mundo conservadoras como a norma ética da nação. Dessa forma, a Frente Parlamentar Evangélica busca consolidar um projeto de religação moral da sociedade, no qual a defesa da família tradicional e da moral cristã define os contornos legítimos da democracia e da prática profissional da Psicologia no Brasil.

A fundamentação do projeto questiona a “neutralidade absoluta” exigida pelos órgãos reguladores, classificando-a como uma “falsa neutralidade” que ocultaria uma ideologia secularista hostil à fé. A FPE defende uma “laicidade colaborativa”, argumentando que a religiosidade é uma dimensão estruturante da identidade humana e que exigir sua dissociação da prática profissional representaria uma “fragmentação artificial da personalidade”. Assim, a atuação parlamentar visa redefinir a laicidade brasileira como um regime de pluriconfessionalidade (Blancarte, 2011), no qual as convicções religiosas não devem ser deixadas “fora do consultório”, mas sim protegidas como garantias constitucionais “inegociáveis”.

Em síntese, o PRS 3/2026 evidencia que o debate em torno da liberdade religiosa dos “psicólogos cristãos” ultrapassa os limites corporativos da Psicologia e revela uma disputa mais ampla sobre os sentidos da laicidade, da autoridade científica e da moralidade pública no Brasil contemporâneo. Ao mobilizar a narrativa da perseguição religiosa e reivindicar uma “laicidade colaborativa”, a Frente Parlamentar Evangélica busca ampliar a legitimidade pública de convicções religiosas particulares no interior das instituições técnicas e regulatórias do Estado.

Nesse contexto, a controvérsia sobre a “cura gay”, a atuação dos Conselhos de Psicologia e a defesa da liberdade de expressão religiosa tornam-se elementos centrais de uma “guerra cultural” que disputa não apenas direitos, mas o próprio poder de definir quais são os valores que devem orientam a vida pública brasileira.

O PRS 3/2026 mostra como debates sobre religião e Psicologia passaram a ocupar espaço nas disputas políticas brasileiras recentes. A controvérsia reúne discussões sobre liberdade religiosa, direitos humanos, laicidade estatal e autoridade científica. O conflito não ocorre apenas entre religião e ciência. Ele envolve diferentes projetos sobre o papel das instituições públicas e sobre os critérios utilizados para regular práticas profissionais no Brasil contemporâneo.

Por fim, deixamos algumas questões para reflexão. Quem deve estabelecer os limites entre liberdade religiosa e ética profissional? Até que ponto convicções de fé podem reivindicar reconhecimento normativo em instituições científicas? Estaria a defesa da liberdade religiosa funcionando como ampliação democrática de direitos ou como estratégia de ocupação moral do Estado? E, diante dessas disputas, que tipo de laicidade e democracia está sendo construída no Brasil contemporâneo?

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* Professor Titular do DCS/UFS. Doutor em Sociologia pela UFPE. E-mail: periclesdcs@academico ufs br

** Professor Adjunto do DESL/UFS. Doutor em Psicologia pela UFF. E-mail: helmirdeslufs@gmail com

Referências:

BLANCARTE, Roberto. América Latina: entre pluriconfessionalidad y laicidade. Civitas: Revista de Ciências Sociais, Porto Alegre, v. 11, n. 2, p. 182–206, 2011.

BRASIL. Senado Federal. DOC Avulso inicial da matéria – PRS 3/2026. Institui a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos. Brasília: Senado Federal, 31 mar. 2026.

BRASIL. Senado Federal. Projeto de Resolução do Senado nº 3, de 2026. Institui a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos. Autor: Senador Magno Malta. Brasília: Senado Federal, 2026.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília, DF, 2005.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução nº 001, de 22 de março de 1999. Estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução nº 7, de 06 de abril de 2023. Estabelece normas para o exercício profissional em relação ao caráter laico da prática psicológica.

BURITY, Joanildo A. Políticas de minoritização religiosa e glocalização: notas para um estudo de redes religiosas de ativismo sociopolítico transnacional. Revista Latinoamericana de Estudios sobre Cuerpos, Emociones y Sociedad (RELACES), Córdoba, n. 18, ano 7, p. 19-30, ago./nov. 2015.

BURITY, Joanildo; GIUMBELLI, Emerson. Minorias religiosas: identidade e política em movimento. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, v. 40, n. 1, p. 9-17, 2020.

MACEDO, Cleber Michel Ribeiro de; SÍVORI, Horacio Federico. Repatologizando a homossexualidade: a perspectiva de “psicólogos cristãos” brasileiros no século XXI. Estudos e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 19, n. 1, p. 265-285, 2019.

MACHADO, Maria das Dores Campos. A vertente evangélica do neoconservadorismo brasileiro. In: GUADALUPE, José Luís Pérez; CARRANZA, Brenda (org.). Novo ativismo político no Brasil: os evangélicos do século XXI. Rio de Janeiro: Konrad Adenauer Stiftung, 2020. p. 271-286.

MACHADO, Maria das Dores Campos. O ativismo cristão e as democracias contemporâneas. Rio de Janeiro: Letra e Imagem, 2020.

MACHADO, Maria das Dores Campos. Pânicos morais e a política de costumes no Brasil. São Paulo: Hucitec, 2024.

SOUZA, Naiana Zaiden Rezende. Religião e política: a Frente Parlamentar Evangélica no Congresso Nacional. Goiânia: Cegraf UFG, 2024.

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Texto e imagens reproduzidos do site: www destaquenoticias com br

terça-feira, 2 de junho de 2026

'Uma chance para o Rio', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 2 de junho de 2026

Uma chance para o Rio 
Por Fernando Gabeira (in blog)

Quem mora no Rio e não pensa em se mudar precisa considerar a possibilidade que se abre de abolir a triste tradição de ver os governadores saindo do Palácio Guanabara para a cadeia.

As eleições nos dão uma chance, talvez a única, de nos livrarmos desse tipo de governo. É preciso eleger alguém que compreenda o potencial do Rio e queira também fazer algo decente por um estado que vem sendo saqueado ao longo do tempo.

Não tenho ilusões de que essa mudança possa ser feita da noite para o dia. O último governador conseguiu adaptar alguns setores da administração a sua perspectiva predadora. Isso é demonstrado na sonegação da Refit — até setores do meio ambiente foram cooptados para o crime. É possível que grande parte da administração tenha apodrecido.

É preciso um plano de trabalho cauteloso para avançar nesse campo minado. Caso contrário, haverá colapso. Da mesma forma, não será possível romper com todos na Assembleia Legislativa. É preciso manter contato com alguns para ir se livrando progressivamente da máfia. Do contrário, haverá paralisia.

Nesse ponto específico, a volta por cima depende parcialmente de nós. Temos de escolher bem os deputados, acompanhar o trabalho de quem elegemos. A própria imprensa, na medida em que se concentre nos deputados, poderá ajudar a minoria, com apoio da opinião pública, a evitar barbaridades e avançar alguns projetos indispensáveis.

O grande tema na recuperação é a segurança pública. Para que tenhamos um trabalho de excelência e profissionalismo, será preciso ir além do discurso de matar bandidos. O governador eleito terá de ser capaz de convencer a sociedade de que a segurança pública exige investimentos em salários, equipamento e formação.

O estado tem pouco recurso. Mas a importância da segurança pública no Rio tem dimensão internacional. Brasília precisa ter sensibilidade para o tema que se tornou um delicado item da política externa.

Mesmo antes disso, o sofrimento de milhões de fluminenses, alguns sem gozar a liberdade nas áreas ocupadas pelo crime organizado, já seria motivo mais que razoável para que os governos estadual, federal e municipal se unissem.

A devastação moral, as dívidas crescentes, a captura de setores da administração pelo crime, a insegurança urbana, tudo isso é motivo para que todos os setores vivos e criativos do Rio se unam e tentem uma volta por cima.

Sem a consciência de que temos uma chance e de que é preciso embarcar nela, dificilmente as coisas acontecerão entregues apenas ao domínio da política profissional.

O Rio chegou a este ponto porque grande parte das forças criativas considera que não vale a pena acompanhar esse espetáculo desagradável. Pois nossos olhos, nossa voz, nossa atenção podem ser o veículo adequado para que os políticos realizem pelo menos um trabalho razoável. Não há nada a perder, basta embarcar nessa última chance.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O Brasil real é muito menos polarizado do que imaginamos

Legenda da foto: Líderes da Revolução Federalista, no fim do século 19

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 27 de maio de 2026

O Brasil real é muito menos polarizado do que imaginamos

A política passa a ser organizada em torno dos grupos que mais gritam, ou que mais likes e cliques obtêm, e não necessariamente dos grupos que mais representam. Ricardo Gomes, do Instituto Millenium, para a Gazeta do Povo:

“Vivemos o momento de maior polarização da história”, diz-se nos quatro cantos do país, refletindo uma percepção que se equivoca quanto ao presente e também quanto ao passado.

Em 13 de agosto de 1894, um soldado subiu as escadarias do Palácio de Barro, então sede do governo do Rio Grande do Sul, levando uma caixa de chapéu em suas mãos. A caixa, que seria entregue ao presidente (como se chamava à época o governador) do estado, Júlio de Castilhos, continha nada mais, nada menos que a cabeça de Gumercindo Saraiva, seu maior opositor político.

Eram os dias da Revolução Federalista no sul do Brasil. Depois daquela, lutou-se uma guerra em 1823, e outra em 1824 – eu escrevo do Rio Grande do Sul, onde os conflitos deixaram profundas marcas na memória coletiva. Em 1930, um golpe de Estado levantou o Brasil em armas. Em 1932, a Revolução Constitucionalista, em São Paulo, foi o mais próximo que o Brasil já esteve de uma guerra civil. Em 1962, a Campanha da Legalidade conclamou todos que dispunham de armas a levantarem-se contra o Congresso para impor a posse de João Goulart.

Hoje, nos xingamos no X (o velho Twitter). Os fatos não parecem confirmar a hipótese de nunca termos experimentado uma radicalização política tão exacerbada. O passado foi muito mais polarizado do que pode supor quem não o estudou.

O presente, ademais, também não é como pensam os defensores da tese da “maior polarização da história”.

As manchetes dos jornais, os programas políticos, os comentários televisivos e, principalmente, as redes sociais transmitem a sensação de que o Brasil está dividido em dois grandes blocos políticos perfeitamente organizados, em permanente estado de confronto, e capazes de explicar toda a dinâmica nacional.

Mas talvez a característica mais interessante da polarização brasileira seja justamente o fato de que ela parece muito maior no ambiente da comunicação e, portanto, na percepção do grande público, do que na vida cotidiana da maior parte dos brasileiros.

Pesquisa recente da Quaest mostrou que apenas 19% dos brasileiros se identificam como lulistas, enquanto 12% se declaram bolsonaristas. Os números chamam atenção por um motivo simples: eles indicam que aproximadamente dois terços do eleitorado brasileiro não se identificam diretamente com os dois principais polos políticos que florescem no debate nacional.

Isso não significa que Lula e Bolsonaro não sejam as figuras centrais da política brasileira contemporânea. Evidentemente são. Tampouco significa que a polarização seja artificial ou inexistente. Ela existe, influencia eleições, organiza discursos políticos e molda parte importante da dinâmica institucional do país.

Mas talvez ela não ocupe na vida real dos brasileiros comuns o mesmo espaço que ocupa no ambiente da comunicação política.

A polarização domina o debate público porque ela tem enorme capacidade de produzir engajamento. Conflitos geram atenção. Antagonismos geram audiência. Disputas morais e políticas produzem reação emocional imediata. As redes sociais, por sua própria natureza, amplificam esse fenômeno. Elas privilegiam o confronto, a simplificação e a lógica das identidades políticas rígidas.

O algoritmo raramente recompensa moderação, nuance ou complexidade. Ele recompensa intensidade. O resultado é a formação de um ambiente comunicacional em que a polarização parece totalizante, como se todas as relações sociais, institucionais e pessoais do país estivessem permanentemente submetidas ao conflito político nacional.

Mas fora das redes sociais e dos círculos mais agudamente politizados, o Brasil real parece funcionar de forma mais complexa e menos ideológica do que frequentemente se imagina.

A maior parte das pessoas continua organizando sua vida em torno de preocupações muito mais concretas e imediatas: renda, emprego, segurança, custo de vida, saúde, transporte, educação dos filhos, oportunidades econômicas e estabilidade pessoal. A política aparece, muitas vezes, mais como pano de fundo que como elemento central da identidade individual.

Isso ajuda a explicar um fenômeno curioso da política brasileira contemporânea: embora a polarização domine as mídias (tradicionais e sociais), existe simultaneamente um eleitorado enorme, volátil e pouco rígido ideologicamente. Um eleitorado que transita, muda de opinião, vota pragmaticamente e frequentemente não se sente plenamente representado por nenhum dos polos políticos em disputa.

Talvez por isso as eleições brasileiras, apesar da retórica fortemente antagonizada, continuem sendo muito mais disputadas no centro do eleitorado do que nas extremidades mais mobilizadas.

Esse fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Democracias contemporâneas vivem, em maior ou menor grau, uma dissociação entre o ambiente hiperpolitizado das redes e a vida prática das maiorias silenciosas. A comunicação política passa a operar em temperatura máxima permanente, enquanto grande parte da sociedade continua vivendo fora desse estado contínuo de mobilização ideológica.

O problema é que a política institucional frequentemente passa a reagir mais ao ambiente da comunicação do que ao país real. Governos, partidos, lideranças e até instituições acabam capturados pela lógica da polarização permanente, porque é nela que estão as pressões mais visíveis, os grupos mais organizados e os conflitos de maior repercussão pública. E assim o debate político nacional vai gradualmente se tornando mais radicalizado que a própria sociedade que pretende representar.

Talvez resida aí uma das maiores distorções da nossa midiática democracia contemporânea. A política passa a ser organizada em torno dos grupos que mais gritam, ou que mais likes e cliques obtêm, e não necessariamente dos grupos que mais representam.

Enquanto isso, o grande espaço intermediário da sociedade brasileira – menos ideológico, mais pragmático e mais preocupado com problemas concretos – permanece relativamente sub-representado no debate público, embora seja provavelmente ele quem decida a maior parte das eleições nacionais.

A polarização existe. Mas talvez ela diga mais sobre o funcionamento da política contemporânea do que sobre a vida cotidiana da maioria dos brasileiros.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

domingo, 24 de maio de 2026

Procura-se um procurador-geral da República

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 24 de maio de 2026

Procura-se um procurador-geral da República

A denúncia contra vídeos satíricos expõe a atuação seletiva de Gonet: agressivo na hora de defender interesses de ministros, omisso para investigá-los mesmo diante de grossas suspeitas. Editorial do Estadão:

Romeu Zema virou alvo de denúncia criminal junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) por vídeos satíricos com fantoches de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A peça, assinada pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, acusa o ex-governador de Minas de calúnia contra o ministro Gilmar Mendes. Convém parar um instante e absorver a cena: o chefe do Ministério Público mobilizou o aparato penal da República por causa de bonecos de internet.

Zema caricaturou uma decisão questionada pelo próprio presidente do STF, Edson Fachin, e suspeitas amplamente debatidas sobre o caso Banco Master e a atuação dos ministros. Pode-se considerar os vídeos injustos, agressivos, toscos ou demagógicos. O que não se pode fazer, sem violentar o Direito Penal, é fingir que um fantoche equivale a uma acusação formal de crime.

Calúnia exige imputação falsa de fato determinado. Humor político funciona justamente por exagero, compressão e distorção. Desde os panfletos do século 18 até os programas televisivos contemporâneos, a paródia sempre tratou governantes e juízes como personagens ridículos. Em democracias maduras, autoridades toleram isso. Aqui, o procurador-geral resolveu denunciar.

Zema não tem foro privilegiado. Se Mendes se sentiu ofendido, deveria acionar o Ministério Público na primeira instância. Mas o ministro pediu providências ao colega Alexandre de Moraes, que encaminhou o caso à Procuradoria-Geral da República (PGR). E o órgão que deveria funcionar como filtro contra abusos chancelou sua formalização. A peça da PGR se aproxima perigosamente de uma advocacia penal privada da honra de um ministro.

A seletividade fica mais visível quando se observa aquilo que Gonet escolhe não fazer. Mais de uma vez, o próprio Mendes insinuou que o senador Alessandro Vieira teria vínculos com milicianos e o crime organizado. Onde está a denúncia? Onde está o zelo pela honra? A régua muda conforme o sobrenome na capa do processo.

Diante de contratos multimilionários de empresas de Daniel Vorcaro – o banqueiro investigado pela maior fraude no sistema financeiro de que se tem notícia – e o escritório da mulher de Moraes ou a empresa da família de Dias Toffoli, a PGR entrou em estado contemplativo. Quando Toffoli assumiu a relatoria do caso Master, Gonet arquivou pedidos de impedimento que os próprios ministros do STF se viram obrigados a reconhecer – ainda que não formalmente – numa reunião secreta. Mensagens entre Moraes e Vorcaro foram dispensadas como ninharias. Gonet procrastinou a avaliação de um pedido de prisão de Vorcaro quando a Polícia Federal já evidenciava riscos flagrantes de obstrução e intimidação.

A elasticidade muda conforme o alvo. Depois que um ex-assessor de Moraes, Eduardo Tagliaferro, trouxe à tona mensagens e relatos sobre a atuação informal do ministro para perseguir críticos, o foco deslocou-se rapidamente. Em vez de concentrar energia no conteúdo revelado, o aparato persecutório voltou-se contra quem revelou. A Procuradoria investiga o mensageiro com vigor, mas a mensagem foi varrida para debaixo do tapete.

Esse padrão explica por que tantos brasileiros enxergam hoje uma Justiça de castas. Críticas a ministros são equiparadas a “ataques à democracia”. Um entrevero entre Moraes e um cidadão comum em Roma ativou as engrenagens penais da PGR. Uma frase escrita com batom numa estátua gerou pedido de pena superior à aplicada a criminosos violentos. Um Pix de R$ 500 para ajudar a fretar um ônibus com manifestantes rumo a Brasília virou acusação por tentativa de golpe. Já ministros do STF parecem habitar um ecossistema processual muito mais acolhedor, paciente e compreensivo.

O Ministério Público existe para defender a ordem jurídica e fiscalizar o poder, inclusive o poder togado. Uniformidade de critérios, prudência sem covardia, coragem sem abusos, apego rigoroso ao devido processo legal, proporcionalidade e, sobretudo, independência são o que se espera de um bom procurador. Já Paulo Gonet oscila entre dois polos igualmente degradantes para o parquet: o de perseguidor-geral da República e o de prevaricador-geral da República.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 23 de maio de 2026

'Direita, de uma queda foi ao chão', por Fernando Gabeira

Artigo comparilhado do site do GABEIRA, de 22 de maio de 2026

Direita, de uma queda foi ao chão 
Por Fernando Gabeira (in blog) 

Quando baixar a poeira do envolvimento de Flávio Bolsonaro com o dono do Banco Master, muitas perguntas poderão ser respondidas sobre o futuro da direita e, indiretamente, o futuro imediato do próprio País. Ao que parece, as revelações não são um mero incidente de campanha, mas revelam o tamanho do erro de essa corrente de opinião se tornar refém da liderança de Jair Bolsonaro. É um homem limitado para uma tarefa complexa, e o simples fato de ter optado por um caminho dinástico, apresentando o filho como candidato, já é um sinal de estreiteza.

A direita brasileira, de um modo geral, não vencia eleições majoritárias, daí o grande número de tentativas de golpe em nossa história contemporânea. No entanto, o processo de redemocratização trouxe algumas novidades: Collor e o próprio Jair Bolsonaro se elegeram – hoje ambos cumprem prisão domiciliar por razões humanitárias.

A vitória de Jair Bolsonaro representou um encontro com o voto popular. No auge das lutas identitárias, ele soube como ninguém usar o desconforto conservador, explorando o lado sombrio do racismo, da homofobia e da misoginia. Líderes como Carlos Lacerda não teriam a mesma desenvoltura, apesar do brilho intelectual. Verdade é que as condições históricas estavam mudadas, mas a direita sempre foi acusada de elitismo. Bolsonaro conseguiu adicionar à clássica agenda da direita a luta contra a corrupção, além de todos os temas de costumes presentes no Brasil moderno. E enfatizou uma visão implacável na segurança pública, uma política do tipo “bandido bom é bandido morto”.

Numa época em que as redes sociais têm hegemonia na propaganda política, Bolsonaro se beneficiou de uma presença agressiva na internet e mobilizou, por sua vez, grupos aguerridos a seu favor. Com todas essas características, principalmente a capacidade de atrair votos, Bolsonaro galvanizou a direita e também o antipetismo. Os candidatos no seu campo que desprezam sua orientação seriam apenas coadjuvantes no processo eleitoral.

Agora que o modelo dinástico com a candidatura do filho está fazendo água, Bolsonaro coloca em risco toda a estratégia de avanço da direita que deveria culminar, ao lado da campanha presidencial, com uma eleição de grande número de senadores. Essa força no Senado seria usada para combater alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), inclusive com impeachment.

Nada autoriza dizer que a direita perderá espaço no Parlamento. Mas um baque na Presidência acaba refletindo nas eleições proporcionais. Muitos candidatos estão revendo seu plano de campanha diante da fragilidade de Flávio expressa nas relações com Vorcaro e suas desculpas inconsistentes. Certos candidatos ao Senado estudam disputar a Câmara. A expectativa vai baixar.

No campo da esquerda, havia um certo cansaço com o governo. O desgaste de Lula por nada disso foi alterado. Mas a primeira pesquisa que surgiu após as revelações mostra uma queda acentuada de Flávio e a manutenção das preferências por Lula. Diante desse quadro, o favoritismo se fortaleceu. Vários candidatos continuam a disputar o papel de opositor, mas dificilmente um deles vai superar a fragmentação.

Diante dessa possível realidade, o caminho é desejar que a política do atual governo mantenha alguns dos seus pontos positivos e, certamente, encontre outros.

A política de transição energética é fundamental para, entre outras coisas, fortalecer o papel do Brasil como um importante interlocutor global no campo do meio ambiente. A hipótese de que se vai lutar contra o desmatamento, explorar de forma sustentável nossos recursos naturais e proteger nossos povos originários pode ser uma boa previsão para o futuro.

Reformas serão necessárias: política, administrativa e judiciária. Muita coisa velha tem de ser superada. E todas essas tensões estarão presentes diante de um Congresso hostil e de grandes dificuldades financeiras em 2027.

Será preciso superar o problema de equilíbrio fiscal. Não tenho a fórmula. Sei que uma política austera dá margem ao desgaste e o avanço do populismo, conforme o próprio Lula admitiu em seu discurso de Barcelona.

Penso que uma reforma administrativa e a adesão do Estado aos instrumentos digitais poderiam tornar a máquina mais leve, a vida das pessoas e empresas mais fácil e, quem sabe, um grande alívio para o peso fiscal. Não podemos deixar de gastar e não podemos gastar. Será preciso discutir com calma como sair desse dilema.

É preciso saber também como será o resultado final das eleições, que tipo de correlação de forças emergirá das urnas, que evolução terá a conjuntura internacional com protagonistas tão imprevisíveis como Donald Trump.

É previsível que todos terão de tentar uma renovação, inclusive os vencedores. Com a velocidade dos fatos, a interdependência global, a nostalgia é proibida: a direita brasileira que o diga.

Texto e imagem reproduzidos do site do gabeira com br