quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

'A Folia dos Supersalários', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 10 de fevereiro de 2026 

A Folia dos Supersalários 
Por Fernando Gabeira (In Blog)

Quando menino, o carnaval era uma festa de acasalamento: Ai, morena/ Seria meu maior prazer/ Passar o carnaval contigo/ Beijar a sua boca e depois morrer.

Aos olhos do adulto, o carnaval é apenas um filtro político. Que enredos sobreviverão a ele, quantos escândalos ainda serão lembrados, pois, no Brasil, depois do carnaval é que começa o ano, com seu sabor de novidade. Algumas CPIs já estão no final, como a do crime organizado e a do assalto aos velhinhos do INSS. Seu último esforço é se agarrar à cauda do cometa, o escândalo do Banco Master.

A do crime organizado tenta convocar Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, para explicar o contrato milionário com o Banco Master: R$ 3,6 milhões por mês, num total de R$ 130 milhões. A do INSS tenta trazer o próprio Daniel Vorcaro. Todas buscam um gran finale para seu trabalho e, com isso, apostam, como nós, que o escândalo do Master tem uma generosa sobrevida depois do carnaval.

Outro tema com expectativa de longa vida é a luta contra os supersalários nos três Poderes da República. O ministro Flávio Dino proibiu os penduricalhos, que elevam os salários às alturas, e pediu regras claras para as verbas indenizatórias. Auxílio-panetone no Natal e auxílio iPhone estão entre os artifícios bizarros para turbinar os salários, assim como excesso de folgas, que passam a ser vendidas como trabalho extra. Segundo alguns cálculos, os supersalários — remuneração de 53 mil servidores — custam R$ 20 bilhões ao ano, com a parcela maior no Judiciário, R$ 10,5 bilhões. Isso para juízes, pois, no Ministério Público, o custo é de R$ 3,2 bilhões.

Os supersalários são aqueles acima do máximo permitido pela Constituição, equivalente ao salário de um ministro do Supremo, R$ 46,4 mil. Com ou sem penduricalhos, quem ganha mais que isso está fora da lei — vale dizer que boa parte dos juízes do Brasil está nessa condição.

A Câmara tem um projeto para regulamentar tudo isso. Nele, não se podem receber penduricalhos, exceto em 30 casos. Equivale simbolicamente a um queijo suíço. De qualquer forma, o Supremo analisará a decisão de Dino e pode dar uma ajuda proibindo os penduricalhos. Isso pode melhorar sua imagem num momento difícil. Apenas melhorar, pois o caso Master continua desgastando dois de seus ministros: Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

Bem que fizeram discursos defensivos na retomada dos trabalhos do Judiciário. Esgrimiram argumentos contra acusações hipotéticas e se esqueceram de responder a seus reais problemas.

Enfim, vamos ver como o carnaval filtra tudo isso para que mergulhemos de novo num ano eleitoral. De novo, teremos esperanças, promessas de novos tempos, enfim, o ritual clássico de uma eleição.

Cada vez mais, no entanto, alguns problemas se repetem tristemente no Brasil, e não encará-los é perigoso, porque a democracia pode ser vista como farsa. Nesse caso, teremos profundo desânimo ou sinal verde para aventureiros autoritários, inclusive no poderoso Congresso.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

O patrocinador da imprensa velha

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 8 de fevereiro de 2026

O patrocinador da imprensa velha

Apesar da queda de leitores, jornais e revistas têm no governo do PT um aliado generoso. Anderson Scardoelli para a Oeste:

Um fato une aqueles que já foram os grandes jornais brasileiros: a fuga de leitores. Em 2015, os 14 maiores diários impressos do país somavam 1,3 milhão de exemplares. Em 2024, a tiragem caiu para menos de 385 mil, segundo dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC) e da consultoria PwC. Retração de 70% em nove anos.

Mas, enquanto a circulação cai, os gastos do governo federal com anúncios em jornais aumentam. Nos três primeiros anos do atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os repasses publicitários da Secretaria de Comunicação Social (Secom) para esse tipo de publicação somam R$ 24,3 milhões, quantia que supera em aproximadamente 50% os R$ 16,3 milhões gastos durante todo o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Com revistas impressas, o roteiro é semelhante. A circulação despenca, mas as ações publicitárias voltam a subir com o PT no poder. Na parte de tiragem, há, inclusive, carência de informações. Os últimos dados públicos auditados pelo IVC são de 2021, quando, juntas, sete publicações registraram média semanal de 220 mil exemplares. Recuo de 30% em relação ao ano anterior. A queda foi de quase 90% na comparação com 2015, quando a tiragem foi de 1,75 milhão.

Apesar da ausência de levantamentos recentes, a tendência é de manutenção na curva de queda na circulação. Afinal, um dos títulos acompanhados pelo IVC, a revista Época, deixou de ser impresso em maio de 2021. Segundo o instituto auditor, a publicação, que era mantida pelo Grupo Globo, deixou o mercado com tiragem semanal média de 30 mil exemplares.

Os dados que mostram o encolhimento das revistas impressas no Brasil não têm, entretanto, sinergia com a estratégia adotada pela Secom no governo Lula 3. Desde 2022, o Executivo distribuiu R$ 10,3 milhões em anúncios publicados por veículos de comunicação desse formato de mídia. Assim como no caso dos jornais, os gastos ultrapassam o valor somado durante a administração Bolsonaro. De 2019 a 2022, o montante repassado foi de R$ 7,2 milhões, 30% menos em relação à atual gestão federal.

Lucas Berlanza, diretor-presidente do Instituto Liberal, não encontra explicações válidas para o aumento da publicidade em jornais e revistas. Para ele, esse tipo de gasto só serve aos interesses de autoridades que buscam manter boas relações com empresários de comunicação. “Um governo não é uma empresa, não concorre no mercado para atrair clientes, pois detém monopólio de suas funções”, diz. “O que ocorre é o uso de dinheiro público para fazer propaganda de si mesmo.”

O deputado federal Evair de Melo (PP-ES) destaca que os dados referentes a anúncios são sintomas de uma equipe gastadora e ineficaz. “O governo argumenta que precisa divulgar políticas públicas”, afirma. “O problema é a desproporcionalidade e a prioridade orçamentária”. O parlamentar lembra o cenário de déficit fiscal elevado, pressão sobre serviços públicos essenciais e aumento da carga tributária. “Nesse contexto, ampliar gastos com comunicação levanta dúvidas legítimas sobre eficiência e razoabilidade.”

Gastos multimídia

A gastança do governo Lula como anunciante também se faz presente no ambiente online. De 2023 a 2025, foram injetados mais de R$ 480 milhões em campanhas publicitárias na internet, o que inclui blogs, sites e plataformas de redes sociais. Cifra acima dos menos de R$ 400 milhões repassados nos quatro anos em que Bolsonaro esteve à frente do Palácio do Planalto.

Professor de jornalismo e mestre em comunicação, Jorge Tarquini ressalta que parte dessa verba teve como destino os cofres de big techs, como a Meta (controladora de Instagram, WhatsApp e Facebook) e a Alphabet (dona do Google e do YouTube). De acordo com ele, a parceria comercial entre grupos de comunicação e o governo de plantão se dá, cada vez mais, de forma multimídia, com acertos que envolvem mais de uma plataforma. Tarquini entende que é, inclusive, uma forma para a mídia em papel ganhar algum fôlego. “Os veículos impressos, apesar da queda impressionante da sua circulação, hoje negociam pacotes que incluem não apenas páginas de publicidade, mas tudo o que o veículo possui, versão online, redes sociais e apps.”

Dinheiro para cinema, rádio e TV

Fora os valores absolutos em jornais, revistas e internet, o governo Lula 3 supera a administração anterior na média anual de gastos com anúncios em outros quatro tipos de mídia: cinema, mídia exterior digital (totens, painéis digitais e aparelhos de TV corporativa), rádio e televisão. A era Bolsonaro só aparece na liderança em mídia exterior (outdoors, banners e painéis físicos).

Em cinema, o governo Bolsonaro gastou R$ 15,6 milhões em ações de publicidade, o que dá a média anual de R$ 3,9 milhões, valor inferior aos R$ 4,4 milhões desembolsados pela Secom de Lula na média nos três primeiros anos da atual administração — com total parcial na casa dos R$ 13,2 milhões.

Lula 3 também vence Bolsonaro na proporção de gastos com mídia exterior digital. Enquanto o liberal entregou, na média anual, R$ 79,1 milhões em anúncios no setor, o petista aparece como responsável por liberar, também na média por ano, R$ 80,6 milhões.

Na conta ano a ano, o atual governo também vence o confronto com a gestão anterior no critério dinheiro entregue a emissoras de rádio. Bolsonaro fechou seus quatro anos com média anual de R$ 62,3 milhões. Lula aparece com mais de R$ 10 milhões de vantagem. Afinal, em três anos, ele distribuiu R$ 218 milhões em virtude de campanhas de publicidade veiculadas em estações radiofônicas espalhadas pelo país, o que dá a média anual de R$ 72,7 milhões.

Quando o assunto é anúncio em canais de televisão, incluindo tanto TV aberta quanto TV por assinatura, Bolsonaro aparece à frente na soma total: R$ 1 bilhão gastos em anúncios durante todo o seu mandato, contra R$ 910 milhões contabilizados pela Secom de Lula em três anos de governo. Dessa forma, o petista supera o liberal na média anual: R$ 303,2 milhões versus R$ 250,7 milhões.

Até o momento, levando-se em consideração que a Secom ainda não divulgou todos os gastos com publicidade em 2025 e que Lula ainda terá quase todo um ano pela frente para patrocinar veículos de comunicação, o governo Bolsonaro supera o seu sucessor tanto em cifras totais quanto na média anual na divisão de mídia exterior. Em quatro anos, Bolsonaro gastou R$ 143,7 milhões com empresas do setor, média de R$ 35,9 milhões a cada ano. Por ora, o integrante do PT contabiliza R$ 92,2 milhões (total) e R$ 30,7 milhões (média anual).

No geral, com todo um ano de mandato pela frente e com gastos com campanhas publicitárias de 2025 ainda a serem divulgados, Lula 3 já se aproxima dos R$ 2 bilhões entregues a veículos de comunicação. Na soma de seus quatro anos de governo, Bolsonaro usou R$ 2,1 bilhões para o mesmo tipo de ação.

Parceria comercial e editorial

A dinheirada que sai dos cofres públicos diretamente para as contas de veículos de comunicação põe em xeque a independência jornalística. Lucas Berlanza, Evair de Melo e Jorge Tarquini concordam que a dependência comercial pode afetar a liberdade da imprensa.

“Infelizmente, a relação entre os grandes veículos de imprensa e o Estado é um problema antigo no Brasil, comprometendo a tarefa de nosso jornalismo”, diz Berlanza, jornalista por formação. “Daí a grande importância de veículos independentes de verba estatal.”

Para o deputado federal, a parceria na parte de conteúdo não é perceptível ao grande público, que, por vezes, acaba influenciado sem ter a real dimensão disso. “O problema é mais sutil: pode haver autocontenção editorial, suavização de críticas, seleção mais cautelosa de pautas ou redução de espaço para questionamentos mais duros ao governo, que financia parte significativa da receita”, avalia Melo. “O dinheiro é público. Não pode se transformar em mecanismo de alinhamento editorial nem em instrumento de fortalecimento político.”

Com mais de 30 anos dedicados a pesquisas na área da comunicação, Tarquini tem opinião similar. “Seria ingenuidade acreditar que o governo utiliza e distribui essas verbas de modo desinteressado, sem a expectativa de algum retorno sob a forma, se não de apoio, de um olhar mais suave para seus erros e outros problemas”, afirma. Para exemplificar, ele faz analogia à cobertura esportiva. “Manchetes em que se abusa das adversativas, criando ressalvas ou para desmerecer algo positivo ou para fazer parecer bom algo ruim: tal time ganhou o jogo, mas jogou mal, ou o contrário: perdeu o jogo, mas jogou bem”.

Por falar em jornalismo político, a expressão “follow the money” (“siga o dinheiro”) ficou famosa durante a cobertura do escândalo conhecido como Watergate, que resultou na renúncia de Richard Nixon à presidência dos Estados Unidos, em 1974. No Brasil, para compreender a linha editorial adotada por certos veículos de comunicação, talvez seja preciso “seguir o dinheiro” oriundo da publicidade estatal.

Longe do caso Watergate, o jornalista J. R. Guzzo (10/7/1943 – 2/8/2025), um dos fundadores de Oeste e diretor perpétuo da publicação digital, definiu anúncios bancados por órgãos públicos como “aberração” brasileira. “O certo, no fim de todas as contas, é que o governo não deveria pagar um único tostão para a mídia publicar sua propaganda”, ensinou Guzzo, em artigo publicado na revista Veja em junho de 2012. “Eis aí mais uma coisa que nos separa, por exemplo, de um país como a Alemanha, onde publicidade oficial não existe. É que a Alemanha, coitada, é apenas a Alemanha. Já o Brasil é o Brasil — aqui há dinheiro de sobra para o governo jogar pela janela.”

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Auschwitz e o dever da memória


Entrada principal do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. 
Esta fotografia foi tirada algum tempo depois da libertação do campo, 
em janeiro de 1945. Polônia, data incerta 

Uma visão geral do campo em 1945

Mulheres sobreviventes se aglomeraram em um barracão de 
prisioneiros logo após as forças soviéticas libertarem o campo de Auschwitz. 
Auschwitz, Polônia, 1945 

Um grupo de judeus húngaros transportados forma uma fila 
na rampa para seleção no centro de extermínio de Auschwitz-Birkenau,
 na Polônia ocupada pelos alemães. Maio de 1944 

Malas que pertenceram a pessoas deportadas para o campo de Auschwitz.
 Esta fotografia foi tirada após a libertação do campo pelas forças soviéticas.
 Auschwitz, Polônia, depois de janeiro de 1945 

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 2 de fevereiro de 2026

Auschwitz e o dever da memória

O Holocausto foi motivado por uma ideologia que via os judeus como um mal a ser extirpado. Erradicar essa verdade da história não torna o passado mais inclusivo ou humano. Torna-o falso. Ana Paul Henkel para a Oeste:

Na manhã de 27 de janeiro de 1945, quando a Segunda Guerra Mundial entrava em seus dias finais e a Europa começava a emergir dos escombros, soldados do Exército Vermelho avançavam pela Polônia ocupada sem imaginar que estavam prestes a atravessar um dos limites mais sombrios da história humana. O que encontraram em Auschwitz-Birkenau não foi um campo de batalha, nem os vestígios comuns de uma guerra em retirada. Encontraram silêncio. Um silêncio pesado, quebrado apenas por corpos esqueléticos que ainda respiravam — e por milhões de vozes que jamais voltariam a falar.

Os soldados não compreenderam imediatamente o que viam. Barracões intermináveis. Fornos. Pilhas de roupas, sapatos infantis, óculos, malas com nomes escritos à mão. Homens e mulheres que pareciam ter envelhecido décadas em poucos meses. Crianças sem infância, sem família, sem futuro. Auschwitz não se revelava de uma vez. Ele se impunha aos poucos, como uma verdade que o espírito humano reluta em aceitar.

Os relatos daqueles soldados descrevem um espanto para o qual nenhuma instrução militar poderia prepará-los. Alguns acreditaram, num primeiro momento, tratar-se de um hospital improvisado ou de um campo de prisioneiros comum. A compreensão veio lentamente e, com ela, o choque moral. Muitos sobreviventes estavam fracos demais para falar. Outros tentavam explicar o inexplicável, misturando línguas, gestos e lágrimas. Havia também os que já não conseguiam chorar: o corpo havia sobrevivido, mas algo essencial já tinha sido levado.

Encontraram crianças órfãs que pareciam idosos, mulheres sem cabelo nem identidade, homens reduzidos a números tatuados no braço. Encontraram também armazéns inteiros cheios de objetos pessoais — malas, fotografias, utensílios simples — a prova silenciosa de que aquelas pessoas haviam chegado ali acreditando que viveriam. Cada mala guardava uma esperança enganada.

Auschwitz não foi revelado ao mundo como um campo abandonado, mas como um sistema em funcionamento interrompido apenas pelo avanço da guerra. Se não tivesse sido libertado naquele momento, teria continuado operando. Esse é um dado que pesa sobre a consciência humana: não foi o arrependimento que encerrou Auschwitz, foi a derrota militar do regime que o sustentava.

Ali, o mal não era explosivo e nem era caótico. Era organizado. Havia horários, listas, funções, turnos. A morte tinha método. O assassinato em massa havia sido transformado em rotina administrativa. Auschwitz não foi um desvio da civilização moderna, mas uma de suas possibilidades quando a técnica se divorcia da moral e a ideologia substitui a consciência.

Mais de um milhão de pessoas foram assassinadas naquele lugar. Judeus, em sua esmagadora maioria, mortos não por crimes, não por escolhas, mas por aquilo que eram. O antissemitismo, elevado à condição de política de Estado, produziu uma máquina de aniquilação sem precedentes. Auschwitz foi o ponto em que o ódio deixou de ser retórico e se tornou industrial.

Quando o mundo finalmente entendeu o que havia acontecido, veio o choque — e depois, o juramento. Nos anos seguintes, os Julgamentos de Nuremberg buscaram algo inédito: responsabilizar indivíduos por crimes cometidos em nome de um Estado. Ali, a humanidade tentou reafirmar um princípio essencial: há limites que nenhuma autoridade pode ultrapassar, e obedecer ordens não absolve o mal.

Nuremberg não foi apenas um tribunal. Foi um esforço moral. Uma tentativa de dizer que a civilização ainda reconhecia a diferença entre o justo e o injusto, entre o crime e o dever. O mundo prometeu a si mesmo que Auschwitz não se repetiria. Que aquele grau de ódio, aquela escala de extermínio, jamais seriam tolerados novamente. A expressão “Nunca Mais” nasceu ali — não como slogan, mas como compromisso civilizacional.

Os Julgamentos de Nuremberg marcaram uma ruptura histórica profunda. Pela primeira vez, líderes de um Estado soberano foram julgados não apenas por perderem uma guerra, mas por crimes cometidos contra a própria ideia de humanidade. Ali, o mundo rejeitou formalmente a defesa que se tornaria tristemente famosa: “eu apenas obedecia ordens”.

Nuremberg afirmou um princípio que deveria ser eterno: há ordens que não podem ser obedecidas, leis que não podem ser cumpridas, autoridades que perdem legitimidade no momento em que violam os limites morais fundamentais. Esse foi talvez o maior legado de Nuremberg — mais importante até do que as sentenças. A ideia de que o indivíduo nunca está completamente dissolvido no Estado, de que existe uma consciência que antecede o poder político. E de que a civilização depende da coragem de reconhecer essa hierarquia.

Quando esse princípio é esquecido, quando a responsabilidade moral é terceirizada, o caminho para novos Auschwitz se abre; ainda que com outros nomes, outros métodos, outras justificativas.
Durante décadas, a memória do Holocausto funcionou como um limite. Auschwitz tornou-se referência negativa absoluta: o ponto a partir do qual se dizia “daqui não passaremos”. Ensinar aquela história não era apenas lembrar o passado, mas vacinar o futuro contra a tentação do totalitarismo, da desumanização e do ódio organizado.

No Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, instituído pela ONU justamente para preservar essa lembrança, a BBC foi obrigada a pedir desculpas após omitir, em sua cobertura, que os 6 milhões assassinados pelo regime nazista eram judeus. Falou-se em “6 milhões de pessoas”. Um detalhe, dirão alguns. Um erro de redação, alegou a emissora.

Mas não é um detalhe. Não é um erro neutro. Quando se apaga o sujeito do crime, o crime se dissolve. Quando se dilui a identidade das vítimas, o ódio que as matou perde forma — e, sem forma, perde também o limite que o contém.

O Holocausto não foi uma tragédia genérica. Não foi um desastre impessoal da guerra. Foi um genocídio dirigido, motivado por uma ideologia que via os judeus como um mal a ser erradicado. Retirar essa verdade da narrativa histórica não torna o passado mais inclusivo ou mais humano.

Torna-o falso.

Não é por acaso que a primeira batalha travada por regimes totalitários ocorre na linguagem. Antes de prender, censurar ou matar, é preciso redefinir palavras, suavizar conceitos, apagar distinções morais. O Holocausto foi precedido por eufemismos. Deportações sem destino viraram “realocação”. Campos de extermínio foram chamados de “centros de trabalho”. O assassinato em massa foi escondido atrás de termos técnicos e burocráticos. A linguagem foi usada como anestesia moral.

Por isso, quando hoje uma grande emissora evita nomear os judeus como vítimas centrais do Holocausto, não estamos diante de um simples erro editorial. Estamos diante de um eco histórico perigoso. A diluição da linguagem sempre precede a diluição da responsabilidade. A história mostra que o mal prospera quando deixa de ser nomeado com precisão.

A relativização da memória não acontece de forma abrupta. Ela começa com ajustes de linguagem, com generalizações convenientes, com o receio de nomear. Aos poucos, o mal deixa de ter rosto, o crime perde autoria, e a história se transforma em uma abstração inofensiva. É assim que Auschwitz deixa de ser advertência e passa a ser apenas um capítulo distante dos livros de história.

Esse processo não é acidental. Toda vez que a memória incomoda o presente, há uma tentação de suavizá-la. Toda vez que a verdade exige coragem, surge a alternativa do silêncio educado. Mas a história ensina — de forma implacável — que o silêncio nunca é neutro.

O antissemitismo, hoje, não veste mais o uniforme do século 20. Ele reaparece sob novas máscaras: linguagem acadêmica, slogans políticos, revisionismo seletivo, ataques simbólicos. Cresce em universidades, nas redes sociais, nas ruas da Europa e do mundo. E cresce, sobretudo, onde a memória foi enfraquecida.

Lembrar Auschwitz não é um exercício acadêmico. É um ato moral. É reconhecer que a civilização depende de verdades inegociáveis: que não existem vidas descartáveis, que não há causas que justifiquem o extermínio, que nenhuma ideologia autoriza a negação da humanidade do outro.

Cada geração acredita, em algum momento, que aprendeu definitivamente as lições do passado. Mas a história é menos otimista. O aprendizado civilizacional não é cumulativo por natureza — ele precisa ser reafirmado, ensinado e defendido continuamente. A memória do Holocausto não é garantida pelo tempo. Pelo contrário: quanto mais distante Auschwitz parece, maior é o risco de que se torne abstrato, simbólico demais, inofensivo demais.

Preservar essa memória exige mais do que cerimônias. Exige honestidade intelectual. Exige disposição para enfrentar narrativas confortáveis. Exige a coragem de afirmar que houve vítimas específicas, algozes específicos e uma ideologia específica responsável pelo maior crime do século 20.
Por isso, o 27 de janeiro não pertence apenas aos museus ou aos livros de história. Ele pertence ao presente. Cada geração recebe Auschwitz como herança moral — e decide o que fazer com ela. Preservar a memória exige esforço, responsabilidade e vigilância constante.

Auschwitz nos lembra que a civilização não cai de uma vez. Ela se deteriora aos poucos, quando aceita pequenas concessões à mentira, quando relativiza o mal, quando troca a verdade pelo conforto.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Ives Gandra: O STF vive uma crise e precisa de um código de conduta...


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 2 de fevereiro de 2026

Ives Gandra: ‘O STF vive uma crise e precisa de um código de conduta para voltar ao que era’.

Jurista é contrário a impeachment de ministros do Supremo no formato atual, mas com um código de conduta o Senado terá poder claro para essas cassações. Entrevista a Roseann Kennedy, do Estadão:

O Supremo Tribunal Federal (STF) realiza nesta segunda-feira, 2, a sessão solene de abertura do Ano Judiciário de 2026. A retomada dos trabalhos ocorre num clima de desconforto entre os magistrados, diante dos desdobramentos do escândalo do Banco Master que fazem a Corte enfrentar uma crise reputacional.

Para superar esse momento, o STF precisa estabelecer um código de conduta para seus ministros e “voltar a ser o que era no passado”. A avaliação é feita pelo jurista Ives Gandra que foi consultor na Constituinte, é advogado e defende causas no Supremo desde 1962.

Embora seja contrário a impeachment de magistrado do STF no modelo atual, Ives Gandra ressalta em entrevista à Coluna do Estadão que o código embasaria esse poder do Senado. “Se um ministro não seguir, estará se expondo ao Senado, que deverá ser muito mais conservador nas próximas eleições”.

Ele também considera que o texto ajudaria a exigir o cumprimento de cinco princípios da Carta Magna: moralidade, legalidade, publicidade (transparência), impessoalidade e eficiência.

Ives Gandra aponta, ainda, que instituições que reúnem advogados e juristas estão unidas na cobrança de um código de conduta no STF. “Indiscutivelmente, o que o STF vive hoje é uma crise. Eu acho que esse momento está sendo ruim para o Brasil, mas bom para as vozes se levantarem e fazer com que eles retornem a ser o Supremo. Pelo menos estamos gritando. Agora as nossas vozes vão ter que ser ouvidas pela crise que está se criando”, conclui.

Na entrevista, ele detalha as normas que precisam ser estabelecidas.

Leia abaixo os principais trechos:

Como o sr. avalia este momento no STF, que enfrenta uma série de questionamentos à atuação de seus ministros?

Veja a situação. Eles, que são defensores da democracia, têm que sair com segurança na rua. Não podem usar aviões de carreira porque são hostilizados. E o povo, que é antidemocrático, enche as ruas. Antigamente, nenhum ministro precisava dizer que defendia a democracia e era admirado. Todo mundo admirava o Moreira Alves (ministro do STF de 1975 a 2003), ainda hoje ele é um símbolo de ministro. Mas hoje você tem cerceamento de liberdade de expressão. Tem que tomar cuidado. Tudo que você fala contra o ministro passa a ser contra o Estado Democrático.

Como o STF pode fazer esse caminho de volta?

Um código de conduta é positivo. O que eu acho fundamental é que, se houver um código e um ministro não seguir, daí ele estará se expondo ao Senado. E deverá ser um Senado muito mais conservador nessas próximas eleições. Quero ressaltar que sou contra o impeachment de ministros do Supremo (da forma como seria hoje), porque abre um precedente perigoso. Então, vai ser mais do que um código moral, será um instrumento que o Senado terá de poder. Eu considero que isso é bom para eles (ministros do STF) e é bom para o Legislativo. Porque assim, na verdade, eles terão que voltar a fazer o que o Supremo era no passado.

O sr. acredita que o ministro Edson Fachin vai conseguir fazer o código de ética?

Sim. Fachin pode conseguir.

O sr. se lembra de outro momento tão crítico em relação ao Supremo?

Indiscutivelmente, o que o STF vive hoje é uma crise. Eu acho que esse momento está sendo ruim para o Brasil, mas bom para as vozes se levantarem e fazer com que eles retornem a ser o Supremo do passado. Por exemplo, São Paulo representa 40% da advocacia do Brasil. As três maiores instituições de advogados e juristas no Estado — OAB, Iasp e Aasp — se manifestaram em defesa do código de conduta. Então você tem unanimidade.

E quais são as críticas à conduta do STF que unem essas instituições?

As instituições criticam as decisões monocráticas e as sessões virtuais. É evidente que sessão virtual não é sessão. Você manda uma sustentação oral, 48 horas antes. Você acha que eles vão ouvir? Não tem uma sustentação. Amesquinharam o trabalho da advocacia. Quando eu fazia a sustentação do Supremo, eu olhava os ministros de frente. Muitas vezes eu mudei o argumento na hora, observando as expressões dos ministros e virei votos.

Quais pontos o código precisa incluir?

Primeiro, sessões virtuais não podem existir. Decisão monocrática tem que ser exceção em caso urgente e imediatamente levada ao plenário, na semana seguinte. Parentes dos ministros não têm que atuar em processos na Corte, e não haver qualquer possibilidade de advocacia administrativa. Os magistrados também não podem participar de congressos patrocinados por empresas com causas a serem julgadas no STF. E não pode haver sigilo. A transparência nós consideramos o mais importante. O povo tem que saber de tudo.

Qual é sua avaliação sobre o inquérito das fake news, que já dura 7 anos e continua em sigilo?

Como é que pode permanecer um inquérito interno sigiloso? Você tem cinco princípios na Constituição que são fundamentais para a administração. Estão no artigo 37: moralidade, legalidade, publicidade que é a transparência, impessoalidade e eficiência. Transparência não tem, tudo é sigiloso. Não existe eficiência. O Supremo precisa voltar a ser o que era.

Outra crítica frequente é que o STF invade competências. Qual é sua avaliação?

O Supremo tem de voltar a ser apenas o guardião da Constituição, não um legislador. O que o STF está fazendo hoje é reconstruindo a Constituição. Reescreveram o artigo 53, no caso Daniel Silveira. Também reescreveram o artigo 19 sobre liberdade de expressão.

O caso Master deixou explícitas relações de ministros e parentes com pessoas ligadas a casos no STF. O que pode ser feito?

Se colocar impessoalidade, não pode haver parentesco, nepotismo direto. Por isso nós estamos pedindo que seja feito um código de ética. E estamos fazendo mais, entrando em uma PEC, um princípio constitucional, para definir o que é transparência do Supremo Tribunal Federal.

Agora vocês estão sendo ouvidos?

Pelo menos estamos gritando. Agora as nossas vozes vão ter que ser ouvidas pela crise que está se criando. Mas eu entendo que, de novo, a nossa voz está sendo ouvida. Ela foi ouvida na democratização. Vocês (imprensa) tinham censura, mas nós pudemos falar. Então nós voltamos a falar.

E vai funcionar?

Tem uma história que eu gosto de contar. O comandante de um voo chega com óculos escuros e braços dados com a aeromoça. O passageiro pergunta o motivo e descobre que o piloto é cego. Mas dizem que é o melhor comandante. Chega o copiloto, da mesma forma, também cego, mas dizem que é o melhor copiloto. Todos ficam em pânico. O avião é taxiado até a cabeceira da pista, começa a tremer e, de repente é aquela gritaria e, finalmente, o avião levanta o voo. O piloto, que é um filósofo, vira para o copiloto e diz: ‘no dia em que eles não gritarem, eu não sei o que vai ser de nós. Nós temos que gritar’.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 31 de janeiro de 2026

Bosco Rolemberg penou mais tempo no cárcere

Legenda da foto: Ana Côrtes, Bosco, Wellington e Laurinha 
Crédito da foto: Cleverton Ribeiro

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 30 de janeiro de 2026

Bosco Rolemberg penou mais tempo no cárcere
Por Marcos Cardoso*

Foi bonita a festa da reparação histórica. Foi concorrida e emocionante a entrega dos títulos de doutores honoris causa ao casal Ana Maria Santos Rolemberg Côrtes e João Bosco Rolemberg Côrtes pela Universidade Federal de Sergipe na tarde da segunda-feira, 26. Foi o reconhecimento da academia aos militantes históricos de 1968 que dedicaram a vida à democracia brasileira, sofrendo na ditadura as agruras da luta pela liberdade.

Presentes ao auditório da UFS, aplaudindo, se emocionando e também se sentindo homenageados, estavam outros resistentes, como Jackson Barreto, Marcélio Bonfim, Benedito Figueiredo, João Augusto Gama, além de Wellington Mangueira e Laura Marques, o outro casal símbolo da sobrevivência ao que pode haver de mais sádico na crueldade humana, a tortura.

Bosco Rolemberg e Ana Côrtes participavam do movimento estudantil na Faculdade de Serviço Social, onde se conheceram. Então militantes da Ação Popular (AP), casaram-se em 1969 e logo entraram na clandestinidade, atuando no ABC paulista, entre 1969 e 1971, e na região canavieira de Pernambuco, de 1972 a 1974.

Foram presos próximo a Caruaru em junho de 1974, tendo sido torturados pelo Dops-PE e pelo Doi-Codi, em São Paulo, durante dois meses. Ana estava grávida de Eduardo, hoje procurador do Tribunal de Contas de Sergipe. Ela permaneceu encarcerada até outubro daquele ano.

Bosco foi transferido para uma cela provisória da Secretaria da Segurança Pública no Recife, onde permaneceu até ser enviado para a Penitenciária Barreto Campelo, na ilha de Itamaracá, em janeiro de 1975. Ficou encarcerado até 20 de março de 1979, quando o Brasil já se preparava para assinar a Lei da Anistia, em agosto.

Três sergipanos foram assassinados pela ditadura instaurada em 1964, segundo relatório da Comissão Nacional da Verdade. O sargento do Exército Manoel Alves de Oliveira, 30 anos incompletos, natural de Aquidabã. Pouco antes do golpe militar, ele foi candidato a presidente do Clube de Subtenentes e Sargentos do Exército, atividade política que certamente o condenou às torturas que sofreu no Regimento Andrade Neves – Escola de Cavalaria, localizado na Vila Militar do Rio de Janeiro, e consequente morte no Hospital Central do Exército, no dia 8 de maio de 1964.

O laranjeirense Lucindo Costa, servidor público em Santa Catarina, onde militava no PCB, desapareceu após fazer uma viagem a Curitiba em julho de 1967. Ele tinha 48 anos, era casado e pai de seis filhos. Já havia sido preso duas vezes como subversivo. Posteriormente, a esposa Elisabeth Baader recebeu a informação de que ele morreu atropelado e foi enterrado como indigente. Era mentira, claro. Foi provavelmente detido, torturado e morto.

Também considerada assassinada pelo Estado brasileiro foi a aracajuana Therezinha Viana de Assis, economista que concluiu o curso na escola que viria a ser parte da UFS, em 1965. Mudou-se para Belo Horizonte, onde foi funcionária da Caixa Econômica Federal. Militante da AP, Therezinha foi presa e torturada por agentes da repressão entre os anos de 1968 a 1972. No início de 1973, exilou-se no Chile, onde fez um curso de pós-graduação na Universidade de Santiago. Passou a militar no Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR). Após o golpe militar que depôs Salvador Allende, Therezinha buscou asilo político na Holanda, onde apareceu morta em Amsterdã.

Outro natural de Aquidabã que foi torturado, mas sobreviveu para contar a história, foi Agonalto Pacheco. Militante desde a adolescência do Partido Comunista Brasileiro, mudou-se para São Paulo após o golpe de 64, onde se alistou na Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella, principal dirigente da luta armada contra a ditadura. Foi preso em janeiro de 1969 quando organizava uma reunião nacional de proscritos. Torturado no Dops de São Paulo para delatar Marighella, que sabia onde estava escondido, resistiu estoicamente. Sobreviveu porque foi um dos 15 presos políticos libertados em troca do embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick.

Deputados estaduais foram cassados, estudantes da UFS foram perseguidos, alguns deles presos na Operação Cajueiro, ocorrida há 50 anos completos agora. Em fevereiro de 1976, 25 sergipanos foram presos arbitrariamente no quartel do 28º BC, alguns foram torturados e 18 foram processados. O então deputado estadual Jackson Barreto, MDB e ligado ao PCB, sofreu a segunda prisão e respondeu a Inquérito Policial Militar.

O petroleiro Milton Coelho de Carvalho foi uma das vítimas mais conhecidas das torturas sofridas na Operação Cajueiro. Ele tinha 34 anos quando foi vítima da violência que o deixou cego. Viveu os 48 anos seguintes na escuridão, até o dia 17 de abril de 2024, quando morreu aos 82 anos.

São histórias de muita luta, suor, sangue e sofrimento. Mas ninguém penou tanto no cárcere quanto Bosco Rolemberg. Foram quase cinco anos atrás das grades, mais de quatro anos na penitenciária de Itamaracá. A história do sergipano e dos outros revolucionários naquele presídio é ricamente contada no livro “Dossiê Itamaracá: cotidiano e resistência dos presos políticos da Penitenciária Barreto Campelo – Pernambuco 1973-1979”, da jornalista Joana Côrtes, filha de Bosco e Ana Côrtes.

Fruto do mestrado no Programa de Estudos Pós-Graduados em História da PUC de São Paulo, o livro lançado pelo Arquivo Nacional em 2015 foi um dos vencedores do Prêmio de Pesquisa Memórias Reveladas 2012.

“O golpe militar foi o grande corte no sonho do povo brasileiro de avançar a democracia política, a independência nacional e os direitos do povo. Sentido dentro de casa. Na pele. A prisão do irmão mais velho, a invasão da casa, a apreensão dos livros. A irmã mais nova esquizofrênica aos gritos em desespero. Assisti ao desmoronamento dos projetos, enclausurei minhas mágoas, chorei, mas com o tempo tomei uma decisão: dedicar minha vida ao povo, ao país. Derrubar a ditadura tinha um gosto de vingança pessoal”. Depoimento de Bosco Rollemberg ao livro escrito pela filha, em 7 de setembro de 2011.

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* Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

'Banco Master nas Eleições', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 30 de janeiro de 2026

Banco Master nas Eleições
Por Fernando Gabeira 

O ano eleitoral começa com um escândalo. Deve avançar nos próximos meses, mas não creio que possa influenciar a escolha presidencial. Mas isso não significa que é irrelevante. O escândalo atinge, de certa forma, o Supremo Tribunal Federal (STF). Na verdade, em termos populares, tanto o contrato da mulher de Alexandre de Moraes como a controvertida relatoria de Dias Toffoli são temas muito discutidos. As notas de Edson Fachin, alguns posts de Gilmar Mendes e a própria posição do procurador-geral indicam que Toffoli está blindado. A tendência, portanto, é de crescer a desconfiança em relação aos ministros, na medida em que avança o caso do Banco Master.

Desde o ano passado, a direita definia como uma das prioridades conquistar o Senado. No seu projeto, conquistar o Senado lhe daria poder para votar o impeachment de ministros do Supremo. Sua motivação era puramente partidária: vingar as sentenças que condenaram os vândalos de 8 de janeiro, Bolsonaro e militares de alta patente que participaram da tentativa de golpe. Apesar de seus objetivos estreitos, a posição de alguns de seus candidatos era bem razoável, tanto que Lula mobilizou a esquerda para que articulasse uma grande campanha e evitasse perder terreno num espaço vital para seu governo. Como as ligações conhecidas do Master se situam no Centrão e o processo, ao que tudo indica, não tem exclusividade ideológica, é difícil fazer simplificações.

Ao blindar seus ministros, o Supremo expõe um front que pode dar à direita um novo impulso para seus planos de ganhar o Senado. São situações difíceis de manejar, uma vez que o STF está muito fechado para aceitar críticas.

O próprio ministro Fachin enumerou uma série de razões pelas quais o Supremo é criticado. Mas no seu arrazoado só aparecem qualidades. Não há defeitos. O Supremo é uma força desarmada, o Supremo cuida das minorias, supervisiona os demais Poderes. A leitura do texto, inevitavelmente, nos leva a defender o Supremo, desde que esqueçamos as razões pelas quais é criticado. Uma delas é a ganância. A derrubada do artigo que proibia parentes de advogarem no Supremo abriu uma extraordinária fonte de renda que o próprio Master revela. O contrato com Viviane Barci de Moraes é milionário. Ela recebia R$ 3,6 milhões por mês. O escritório de Lewandowski, gerido pelos filhos, recebia R$ 250 mil por mês. Apesar de essas notícias circularem pelos jornais e outros meios, não houve ainda uma relação de causas, ganhas ou mesmo perdidas, que justificasse todo esse dinheiro.

O caso de Toffoli é ainda mais difícil, pois há notícias de negócios de seu resort com o cunhado do dono do Master. E de relações de seu resort, registrado em nome da família, com um advogado da J&F, a mesma empresa cuja multa de R$ 10,3 bilhões o ministro anulou. Tanto Toffoli quanto Moraes não vieram a público se defender. Certamente têm suas versões, mas não as apresentaram.

Além do reflexo nas eleições já analisado, existe também a possibilidade de um desencanto geral. Aliás, o desencanto já é turbinado pelo comportamento dos parlamentares, que dificilmente votam projetos populares e ainda abocanharam grande parte do Orçamento nacional.

Um quadro desses, sem uma dinâmica favorável que pode ainda surgir ao longo do ano, arrisca a produzir uma apatia geral, sacudida parcialmente por propostas aventureiras.

Ao advertir para essas possibilidades, como tenho feito, corro sempre o risco de mal-entendidos. Prever o avanço de uma força política diante de um quadro negativo não significa apoio a essa força política, apenas uma advertência e um apelo para mudanças. Diante do maniqueísmo da política nacional, qualquer nuance é um perigo. Da mesma forma, criticar a cúpula do STF por blindar um relator contestado não significa criticar o papel do STF numa democracia.

Infelizmente, as notas que foram lançadas, até agora, vão sempre na direção de caracterizar os críticos como adversários do Estado de Direito. Não é bem assim. Não é correto vestir o figurino de salvador da democracia e considerar que o exercício do jornalismo, por exemplo, é um ato antidemocrático. Na verdade, uma reação desse tipo revela a semente do autoritarismo. Assim como em muitos países o jornalismo é considerado uma traição nacional ou então um pecado imperdoável, em governos religiosos.

No momento, as autoridades máximas da Justiça, com seu discurso de negação das críticas, podem estar nos empurrando para dias difíceis, exatamente um quadro oposto à democracia que afirmam defender. Precisamos de abertura para críticas e transparência. Sem isso, o País pode afundar. Ainda é hora de buscar outro caminho.

É preciso que as eleições ocorram com eleitores interessados, base política de grandes mandatos presidenciais. E é preciso que uma alta dose de confiança nas instituições para mobilizar o País em torno de um programa.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Editorial do Estadão


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 28 de janeiro de 2026

Por que ministros do STF se opõem a um código de conduta? Ética pública não é escolha.

Numa república democrática, a adoção de regras claras de comportamento ético para autoridades não deveria enfrentar resistência. Editorial do Estadão:

A rigor, é ocioso todo esse debate em torno da pertinência de um código de conduta para os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Numa república democrática, a adoção de regras claras de comportamento ético para autoridades investidas do múnus público não deveria enfrentar resistência. No Brasil, contudo, o foco da resistência está justamente no STF, como revelou o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, em entrevista a este jornal. E isso diz muito sobre a visão que alguns ministros têm de si mesmos e de sua relação com a sociedade.

Segundo Fachin, a eventual aprovação do código de conduta esbarra, em primeiro lugar, na existência de normas já previstas na Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman) e, ademais, no calendário eleitoral. “Há alguns colegas que entendem que não (é necessário um código de conduta), porque nós já temos a Loman”, disse Fachin. E “há uma maioria entendendo que o momento deveria ser mais adiante”, concluiu. Se, de fato, essa é a orientação de alas do Supremo – e não há razões para duvidar da palavra de seu presidente –, o insulto se soma à injúria.

Reduzir uma questão de ética pública a um suposto conflito normativo ou, pior, a um juízo de oportunidade é uma deturpação gravíssima. Um código de conduta não concorre com a Loman – a complementa, reforça compromissos com a moralidade da magistratura e dá previsibilidade ao comportamento dos ministros. Está-se no campo da ética, não da conveniência.

É curioso que haja ministros do Supremo contrários à adoção de um código dessa natureza. Por que são infensos à proposta? Que prejuízo institucional isso traria à Corte no que concerne à sua independência ou à garantia de suas competências constitucionais? As perguntas são retóricas, obviamente. Não haveria prejuízo algum. Ao contrário: a existência de um norte moral claro e público só teria o efeito de fortalecer a credibilidade da instituição.

Com esse espírito, o de resgatar o STF do pântano moral em que se meteu, a seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) realizou um notável trabalho na elaboração de uma proposta de resolução para um código de conduta, encaminhada ao STF anteontem. Formulado, entre outros, por dois dos mais discretos presidentes da Corte, os ex-ministros Ellen Gracie e Cezar Peluso, o texto contém vedações éticas muito razoáveis, às quais nenhum ministro genuinamente comprometido com os valores morais simbolizados pela toga poderá se opor. Aceitar a oferta da OAB-SP seria um bom começo para o STF sinalizar ao País que voltou a se dar ao respeito.

Como está, a situação é confortável para onze indivíduos, não para a Corte, nem muito menos para a sociedade. A imprensa profissional cumpre sua missão de revelar fatos de interesse público, a sociedade se indigna, e o que acontece? O presidente do STF emite uma nota lamentável classificando como “regular” a atuação do ministro Dias Toffoli como relator do inquérito do Banco Master – que, nunca é demais reforçar, nem sequer deveria tramitar no STF. Além disso, Fachin ainda silencia sobre o contrato milionário firmado pela mulher do ministro Alexandre de Moraes com o banco de Daniel Vorcaro. E fica tudo por isso mesmo.

Nada disso contribui para o resgate da autoridade moral do Supremo. Ao contrário: só consolida a crença de muitos brasileiros de que parte de seus ministros resiste a qualquer forma de controle republicano sobre seus atos. Um código de conduta jamais será uma ameaça à integridade da Corte como instituição. Será um mecanismo de transparência, de contenção e, principalmente, de respeito ao princípio republicano fundamental, segundo o qual ninguém está acima da lei nem exerce poderes ilimitados.

Em última análise, a oposição a um código de conduta para ministros do STF não é apenas injustificável – é reveladora. Quem, afinal, pode ser contra a adoção de padrões éticos mínimos, alguns dos quais nem precisariam estar escritos? Quem teme regras claras de comportamento para o exercício de uma das mais altas funções da República? As respostas a essas perguntas ajudam a compreender por que o tema é urgente e por que adiá-lo, sob qualquer pretexto, só aprofunda a distância entre o Supremo e a sociedade à qual deve servir.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

República dos sem-vergonhas


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 28 de janeiro de 2026

República dos sem-vergonhas

Daniel Vorcaro é uma espécie de vírus que só prolifera numa República doente, cujos anticorpos já estão gravemente debilitados. Luiz Felipe D'Avila para o Estadão:

O caso escandaloso do Banco Master retrata a perversa combinação de imoralidade pública e disfuncionalidade institucional que reina no País. A alquimia do “banqueiro” Daniel Vorcaro em transformar crédito podre de precatórios em ganhos milionários e oferecer Certificado de Depósito Bancário (CDB) com rentabilidade acima do valor de mercado, ilustra como o sistema está dominado por oportunistas, vigaristas e criminosos. Eis aqui a história da república dos sem-vergonhas em quatro atos.

Ato I: os oportunistas são agentes do mercado que ganharam muito dinheiro vendendo CDBs do Banco Master, oferecendo um investimento “seguro” e garantido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Mas esses mesmos agentes sabiam que esses CDBs estavam lastreados em ativos de alto risco, como os precatórios. O FGC emitiu 38 alertas sobre o Banco Master, mas foram ignorados porque a farra dos ganhos estava boa demais. Mas os oportunistas não teriam produto para vender se não fossem os vigaristas.

Ato II: nas democracias avançadas, a dívida do governo com o cidadão é quitada quando há uma decisão judicial definitiva. Mas no Brasil, o precatório tornou-se crédito podre. Somente na república dos sem-vergonhas, o Congresso Nacional aprova uma emenda constitucional que legaliza o calote dos precatórios. Em português claro, o governo paga quando tiver dinheiro em módicas parcelas que atravessarão gerações para serem quitadas. Mas Vorcaro criou uma sólida rede de amizades e interesses com políticos, juízes e autoridades que o ajudaram a dar liquidez aos precatórios do Master. Essa mágica se deu graças ao talento do banqueiro em criar a Disney dos sem-vergonhas, com festas deslumbrantes, viagens em jatinhos particulares, patrocínio de seminários internacionais e contratos milionários com advogados, cujo principal ativo é pertencer ao clã familiar de algum ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). As boas relações com os donos do poder geraram outros negócios rentáveis, como as operações com o fundo previdenciário do Rio de Janeiro e do Amapá e os esquemas fraudulentos de desconto indevido do consignado dos aposentados do INSS. Essas transações necessitam da ajuda dos criminosos.

Ato III: a Operação Carbono Oculto, conduzida pela Polícia Federal, desmantelou a operação financeira do crime organizado (PCC) que atuava por meio de instituições e “laranjas” empregados na lavagem de dinheiro via mercado financeiro, venda de combustível e outras falcatruas. É o caso de uma corretora que comprou títulos de um banco estatal falido de Santa Catarina e transformou-os em crédito “bom” para dar “robustez” aos ativos do Banco Master. Essas operações fizeram o Master entrar no radar do Banco Central.

A turma da Disney dos sem-vergonhas foi acionada para tentar salvar o banco da liquidação. Um banco estatal de Brasília anunciou a compra de R$ 12 bilhões em ativos fraudulentos do Master. Em seguida, criou-se uma operação de “compra” do controle do banco por uma corretora e um misterioso grupo de investidores árabes. O Banco Central vetou essas armações e liquidou o Master. Num país sério, a história terminaria aqui. Mas na república dos sem-vergonhas, as relações políticas buscam passar por cima das leis e instituições.

Ato IV: a turma da Disney entrou em ação para tentar reverter a liquidação do banco. Um ministro da Suprema Corte, cujos familiares têm ligações perigosas com as operações do Banco Master, transformou o caso em sigilo de Estado. Outro ministro da Corte, cuja mulher teve contratos firmados no valor de R$ 129 milhões, fez vários telefonemas suspeitos para o presidente do Banco Central, como noticiado pela mídia. O teor da conversa foi colocado sob sigilo. Por fim, um ex-deputado do baixo clero, que usou emendas parlamentares para financiar um loteamento de casas populares fantasmas, tornou-se relator do caso do Master no Tribunal de Contas da União (TCU) e, num arrombo de coronel político, tentou interferir no processo de liquidação do banco e desafiar a autonomia do Banco Central. Por fim, o presidente da República deu uma ajudinha. Escolheu para presidir a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) um aliado de Vorcaro, que postergou as investigações do Banco Master.

Daniel Vorcaro é uma espécie de vírus que só se prolifera numa República doente, cujos anticorpos – que são as instituições e as leis – já estão gravemente debilitados pelo câncer da corrupção moral, da degeneração institucional e da arbitrariedade escancarada dos donos do poder. O único tratamento eficaz contra esse vírus é a mobilização dos cidadãos de bem para frear a marcha dos sem-vergonhas que usam o poder para debilitar a democracia, a liberdade e a política. Se não tivermos coragem para combater os usurpadores das leis e da Constituição e dar um basta nas relações imorais entre as autoridades públicas e as saúvas da República, não merecemos ter uma democracia. Nos tornaremos uma vergonhosa capitania de coronéis que se colocam acima das leis e das instituições. A escolha é nossa.

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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

'Cúpula do STF Contra o Povo', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 27 de janeiro de 2026 

Cúpula do STF Contra o Povo 
Por Fernando Gabeira (in blog)

Pensei em escrever um artigo sobre o discurso do primeiro-ministro do Canadá em Davos. Mark Carney acha que vivemos um momento de ruptura, e não de transição. A ordem internacional, que já não era grande coisa, se rompeu para dar lugar claramente à lei do mais forte. Nesse contexto, é preciso se preparar, pois quem não estiver na mesa estará no menu. Tema importante para o Brasil, mas posso voltar a ele, algumas vezes, antes das eleições.

Neste momento, tenho de escrever sobre o escândalo do Banco Master. Não esperava, a esta altura da vida, aos 40 minutos do segundo tempo, encontrar nosso país nesta condição patética. A nota do ministro Edson Fachin, as manifestações do procurador-geral e o post de Gilmar Mendes confirmam a ideia de uma cúpula judiciária unida para se blindar. Usando a máscara de salvadores da democracia, querem impor uma situação marcada, como diz um jornal alemão, pela ganância que afunda o STF.

No fundo, consideram ameaça à democracia questionar o contrato milionário de Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, com o Banco Master. Ou criticar o inacreditável ministro Dias Toffoli por artificialmente levar o processo do Master para o Supremo e sentar em cima dele com uma decisão de sigilo rigoroso.

Logo Toffoli, que vendeu parte de seu resort para a empresa ligada ao cunhado do dono do Master. Logo Toffoli, que anulou uma multa de R$ 10 bilhões da J&F e recebeu em seu resort um advogado da empresa como sócio no mesmo resort. A imprensa diz que o resort é da família do Toffoli. A esta altura, não escrevo sobre formalidade. Os donos são um irmão que é padre, outro que vive numa casa modesta, e sua própria mulher desconhece a empresa dona do resort.

Pessoalmente, a convite do deputado Capitão Augusto, conheci o projeto da região, Angra Doce, e naveguei na Represa Chavantes. Ouvi algumas pessoas mencionando o resort de Toffoli. Nos últimos dias, apareceu um vídeo onde o ministro lá recebe um banqueiro e um empresario. Jornalistas que se hospedaram no resort de Toffoli encontraram um pequeno cassino em seu interior.

Apoiar toda essa degradação é defender a democracia? O Senado poderia fazer algo. Mas não faz por medo. Alguns senadores têm questões no STF, outros temem a possibilidade de ter. Os mais à esquerda estão presos à miopia da corrente política. Acham que, apesar de tudo, os ministros são importantes para conter o adversário.

Não percebem que um Supremo corrompido pela ganância é exatamente o combustível que impulsiona seus adversários? Não percebem que esse estado patético das instituições fortalece o apoio popular a quem pode destruí-las?Não percebem que a juventude está encontrando uma causa para sua rebeldia? Fazemos leitura diferente da História, não só no Brasil, mas em outros lugares do mundo. Consideram que tudo isso é secundário porque Lula é imbatível nas eleições. É provável que estejam certos nesse cálculo. Mas que tipo de país o vencedor herdará?

O deputado Nikolas Ferreira iniciou solitariamente uma marcha e chegou a Brasília com milhares de pessoas, grande parte jovens como ele. Gritavam: “Acorda, Brasil”. Nesse nível de abstração, é algo que deveria valer para todos.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Entrevista: Eduardo Leite (PSD), governador do RS | Central Meio

Editorial do Estadão > 'Arte sob tutela'


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 25 de janeiro de 20264

Arte sob tutela

A esquerda explora politicamente o sucesso de ‘O Agente Secreto’, tratando críticas ao filme como expressão da direita reacionária. Essa instrumentalização da arte empobrece a cultura. Editorial do Estadão:

O filme O Agente Secreto foi indicado a quatro categorias do Oscar – melhor filme, melhor filme internacional, melhor direção de elenco e melhor ator. Trata-se de um feito e tanto, que coroa uma trajetória já robusta de premiações internacionais e constitui motivo legítimo de alegria nacional. É reconhecimento ao trabalho liderado pelo cineasta Kleber Mendonça Filho e pelo ator Wagner Moura, além de confirmação da vitalidade do cinema brasileiro e de sua capacidade de dialogar com o mundo em alto nível artístico. Num país historicamente errático no apoio à cultura, cada conquista internacional nessa área merece ser celebrada.

No entanto, a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao lado da equipe do filme, durante sessão especial no Palácio da Alvorada, celebrando O Agente Secreto como uma espécie de chancela política do Brasil que “voltou”, ilustra os riscos de uma relação demasiadamente próxima – e instrumental – entre cinema, arte e política partidária. Quando conquistas artísticas passam a ser usadas como prova de sucesso de um projeto de poder, a arte deixa de ser um fim em si mesmo e passa a ser meio. E isso é sempre prejudicial – à cultura, à política e à própria obra celebrada.

De um lado, há o uso político explícito dessas indicações, como se O Agente Secreto simbolizasse uma virada civilizatória e como se o reconhecimento internacional de um filme fosse evidência das qualidades de um governo específico, e não resultado do talento de artistas que, vale lembrar, produziram obras relevantes sob governos de todas as cores. A apropriação simbólica da arte pelo poder é antiga, mas não por isso menos deletéria. De outro lado, o ambiente de polarização extrema em que o Brasil se atolou compromete algo ainda mais delicado: a possibilidade de análise crítica do que se faz no País em matéria artística e cultural. Quando tudo passa a ser lido exclusivamente pela lente da ideologia, a crítica deixa de ser exercício intelectual e passa a ser tratada como ato político hostil – ou, pior, como traição ao País.

Viu-se isso à direita, nos boicotes bolsonaristas ao premiado filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, rejeitado não por seus méritos ou limites cinematográficos, mas por sua leitura histórica e política. Vê-se agora, com frequência crescente, à esquerda, reações virulentas contra qualquer avaliação crítica de O Agente Secreto, tratando essa crítica como expressão da direita reacionária.

Como em outros campos do debate público, a polarização eliminou nuances. Já não há espaço para o meio-termo, para a ambiguidade, para o debate qualificado. Restam apenas anjos e demônios, o bem e o mal. Corre-se o risco de filmes bons serem rejeitados por setores da direita por expressarem uma visão progressista do mundo e, no extremo oposto, de obras medianas, mas politicamente engajadas, serem alçadas ao Olimpo cultural por parecerem estar “do lado certo da História”.

Arte e política nunca foram esferas isoladas, mas há sinais claros de que algo se agravou na paisagem cultural brasileira, em especial com o poder das milícias digitais. Ondas organizadas de ataque, difamação e intimidação transformam divergência estética em ofensa nacional, criando um ambiente de patrulhamento moral que sufoca a crítica.

O Agente Secreto é uma obra ambiciosa, justamente por isso merecedora de escrutínio crítico. Kleber Mendonça Filho é um cineasta de mérito inequívoco; Wagner Moura, um ator de qualidade evidente. É desejável que o audiovisual brasileiro seja valorizado no exterior. Nada disso está em disputa. O que está em disputa é outra coisa: a liberdade da crítica, a autonomia da arte e a saúde da cultura política brasileira. Quando a patrulha chega à fruição artística, o resultado não é fortalecimento cultural, mas empobrecimento do debate público. Arte não precisa de tutela política. Precisa de liberdade, inclusive para ser contestada. Sem isso, não há cultura viva. Há apenas propaganda com verniz artístico.

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 2 comentários

Anonymousdomingo, janeiro 25, 2026 12:23:00 PM

Professor Orlando Tambosi, ainda assisto Filmes com Atores que saibam atuar libertos de ideologias ou crenças satânicas. Me respondam os adoradores da lacração qual foi a Bilheteria ou Streamings do Filme "Ainda estou aqui" que ganhou o Oscar de Melhor Diretor para um dos donos do Banco Itaú? Vou esperar para ver também esse mesmo retorno para este filme Agente Secreto, é pela procura e crítica ao filme e todos os seus aspectos que me faz assistir e opinar pelo trabalho. Estou cheio da lacração, sou do tempo que os "Filmes em Preto e Branco" com os Geniais Atores Grande Otelo, Oscarito e Ankito e as Grandes Vedetes do Brasil lotavam os Cinemas do Brasil sem se preocuparem com lacração da "Mídia Esquerdopata" ou "notinhas ideológicas" achando que alí é o que o Brasil pensa ou quer para seu futuro. Conheço o Cinema de Pernambuco desde seus Percursores que não escreviam Textos ideológicos e que hoje são criminosamente esquecidos como se o Cinema em Pernambuco tivesse começado agora, uma grande mentira das Mídias pagas na Orquestração da Perpetuação de um Ditadura até naquilo que chamam de Arte e Cultura. O Recife começou sua História na Arte do Cinema em 1923 com o "CICLO DO RECIFE, oficialmente, mas, já nos anos 10 do Século passado o Cinema já tinhas suas Produções em Pernambuco, sem lacrações ideológicas e mimi de adorações a canastrões que cospem pó quando falam ou pensam. Para ilustrar , tivemos os Filmes "Aitaré da Praia (1925)" e "A Filha do Advogado(1926)" que se tornaram Clássicos na História do Cinema Brasileiro. Esse movimento tinha o poder de impulsionar e retratar o Recife como uma Cidade Moderna, Urbana e em transformação. Se tivesse espaço informaria como o Cinema de Pernambuco é respeitado pelo seus Ciclos de Verdadeira Arte e Produção Cinematográfica, o resto que assisto é besteirol ideológico como se Lula tivesse inaugurado o Cinema Brasileiro. Saudades das tardes de Domingo para ver Grande Otelo, Oscarito e Ankito e tantos outros Grandes Artistas que lotavam os Cinema do Recife, ainda 3a. capital do Brasil, e hoje uma "Cidade Destruída" após mais de 25 anos de administração de PT e PSB em Cumplicidade e Conluio total, basta andar pelo Centro do Recife, é um verdadeiro Filme de Terror legado do LuloPeTralhismo e seus Cúmplices pernambucanos. A bilheteria de um Filme mede a grandeza de sua Arte, no mais a Lei Rouanet ainda paga para os Institutos de Pesquisas criarem "públicos invisíveis" como se um Filme arrastasse milhões de pessoas para frente das telas.

Amigo do Amigodomingo, janeiro 25, 2026 1:11:00 PM

A cultura, ao lado da arte, na verdade, tem sido objeto de grande cobiça de governos autoritários e totalitários. A fim de conquistar corações e mentes, eles buscam controlar o teatro, o audiovisual, a imprensa, as galerias, os museus, as universidades e onde quer que se produza sentido sobre o país, o povo e a realidade. Como o Estado não produz cultura em si, ele procura controlar homens e mulheres que a produzam. A cultura é vista como “recurso político”. E o "Agente Secreto", além de ser péssimo, é uma ótima propaganda para esse governo medíocre!

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

O século do algoritmo e a morte do capitalismo clássico

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 25 de janeiro de 2026

O século do algoritmo e a morte do capitalismo clássico

 Por Jorge Santana*

Após a Segunda Guerra Mundial, os países centrais do Ocidente viveram o que o economista francês Thomas Piketty classifica como “exceção histórica”: décadas de crescimento econômico, forte regulação estatal e relativa distribuição de riqueza, que ampliaram a classe média e sustentaram democracias robustas. Esse arranjo, conhecido como social-democracia, garantiu estabilidade política e coesão social.

Desde os anos 1980, porém, essa engrenagem vem sendo desmontada. Desregulação financeira, enfraquecimento de políticas públicas e globalização sem contrapesos deslocaram empregos, comprimiram salários e favoreceram a concentração de renda. Piketty mostra, com dados históricos, que quando o retorno sobre o capital cresce mais rapidamente do que a economia, a desigualdade dispara — e foi exatamente isso que aconteceu.

Esse vácuo abriu espaço para o discurso fácil e perigoso da extrema-direita. Incapaz de oferecer soluções para problemas estruturais — desigualdade, precarização do trabalho e a erosão do futuro — a política tradicional viu emergir narrativas simplistas que elegem inimigos imaginários. No Brasil, essa frustração é canalizada contra um comunismo inexistente, enquanto a precarização do trabalho via aplicativos (a chamada “uberização”) cria uma massa de trabalhadores sem proteção que se torna solo fértil para o discurso do empreendedorismo messiânico de direita. Nos Estados Unidos e na Europa, apontam-se imigrantes como ameaça civilizatória. A fórmula é velha: medo, ressentimento e a promessa de soluções mágicas que nunca chegam.

A História oferece um paralelo inquietante. Nos anos 1920 e 30, a crise de 1929 corroeu o pacto social e abriu caminho para autoritarismos. Os tempos, claro, são outros, mas as condições emocionais e materiais — frustração e descrédito na democracia — se repetem com desconfortável familiaridade.

Há, contudo, dois elementos novos nessa crise. O primeiro é a ascensão da China, que combina planejamento estatal com abertura ao capital e desafia o dogma neoliberal de que só o mercado “resolve”. Esse modelo híbrido não apenas reorganiza a geopolítica, mas serve de combustível retórico para a extrema-direita ocidental, que utiliza a perda da soberania industrial para alimentar um nacionalismo defensivo e xenófobo.

O segundo elemento é o que Yanis Varoufakis chama de tecnofeudalismo. Para o economista grego, plataformas digitais ultrapassaram o capitalismo tradicional: elas controlam mercados por meio de algoritmos. Empresas como Meta e Google extraem riqueza pelo monopólio sobre dados e pela manipulação do comportamento. Não à toa, chamamos consumidores do século XXI de “usuários” — o mesmo termo aplicado a quem consome drogas. Esse novo poder algorítmico é, hoje, a infraestrutura por onde circulam as fake news que sustentam regimes autoritários, transformando o ódio em mercadoria rentável.

Se essa leitura estiver correta, a eleição e reeleição de figuras como Donald Trump não são desvios históricos, senão sintomas de um sistema exaurido. Perguntas incômodas se impõem: chegamos ao clímax dessa nova crise? E o que vem depois — reformas profundas que regulem o poder das plataformas e resgatem a dignidade do trabalho, um novo pacto democrático ou a escalada de conflitos que já se desenha do Oriente Médio ao Leste Europeu?

Prever o futuro é impossível, mas uma lição permanece: quando a política abandona a promessa de inclusão, o autoritarismo volta a bater à porta. E, como já vimos antes, nem sempre ele pede licença para entrar.

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* Jorge Santana é engenheiro, empreendedor e ativista pela democracia.

Texto e imagem reproduzidos do site: www destaquenoticias com br

sábado, 24 de janeiro de 2026

Editorial do Estadão

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 24 de janeiro de 20264

STF: acima dos controles republicanos.

A nota de Edson Fachin em defesa da atuação de Dias Toffoli no caso Master trata críticas legítimas como ‘ataques’ e expõe a recalcitrância da Corte em se submeter aos controles republicanos. Editorial do Estadão:

Supõe-se que a nota divulgada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, em defesa da Corte e da atuação do ministro Dias Toffoli no inquérito do Banco Master pretendia sinalizar força institucional. Em vão. Ao endossar o colega, sem ressalvas, por sua condução do caso amplamente questionada pela comunidade jurídica e pela opinião pública, Fachin expôs mais fragilidade – inclusive pessoal – do que firmeza. Ademais, manteve vivas as suspeitas que o próprio Supremo deveria dissipar.

Segundo Fachin, Toffoli age na “regular supervisão judicial” das investigações, com respeito ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa. A impressão que se tem, data maxima venia, é de que Fachin sentiu-se compelido a pagar um pedágio, digamos assim, para ministros que, ao que parece, são bem mais fortes do que ele nos arranjos internos do STF. Só isso explica sua omissão, na nota, diante da pletora de evidências de que a relatoria de Toffoli no caso Master pode ser tudo, menos “regular”.

É fácil enumerar em texto dispositivos constitucionais e princípios democráticos dos quais ninguém de boa-fé haverá de discordar. Difícil – e corajoso – seria deixar de lado o espírito de corpo e enfrentar os fatos que colocam em xeque a regularidade daquela supervisão e, principalmente, a própria competência do STF para exercê-la.

À omissão soma-se o fato de Fachin incorrer no velho cacoete de tratar críticas legítimas ao STF como “ameaças” ou “ataques”. Ora, criticar a Corte ou cobrar explicações por comportamentos impróprios de seus ministros não constitui ataque à instituição nem muito menos ao Estado Democrático de Direito. Ao contrário: é um exercício de cidadania que só os fortalece. Para piorar, ao desdenhar da “pressão midiática”, Fachin desqualifica o papel da imprensa profissional, que se limitou a divulgar fatos de interesse público e a formular perguntas sobre o caso Master, seus executivos e autoridades que permanecem no ar.

Em paralelo à nota de Fachin, o decano do STF, ministro Gilmar Mendes, foi a uma rede social celebrar a decisão da Procuradoria-Geral da República (PGR) de arquivar sumariamente os pedidos de impedimento de Toffoli formulados por parlamentares. Mendes falou em “funcionamento regular das instituições” e em “decisões (de Toffoli) fundadas em critérios jurídicos objetivos”. É mais uma retórica absolutamente dissociada da realidade factual.

Como já sublinhamos nesta página, e juristas em uníssono já o expuseram ao Estadão, há razões legais para o impedimento de Toffoli como relator do caso Master. É ocioso voltar a enumerá-las. Há, também, muitas perguntas ainda sem respostas. Por que o inquérito do Banco Master tramita no STF, se os investigados não têm prerrogativa de foro? Por que o ministro relator impôs sigilo às investigações? Que interesses, afinal, estão recebendo guarida na mais alta instância judicial do País?

Essas dúvidas, não sanadas por Fachin, só se fortaleceram após virem a público as relações pessoais e familiares de Toffoli com pessoas ligadas a investigados sob sua jurisdição. Ainda que, a priori, não se esteja diante de ilícitos, só essa proximidade pessoal do relator já expõe um conflito de interesses incontornável. Não admiti-lo é falta de humildade, como se os ministros do STF fossem seres morais superiores, e não servidores públicos submetidos a controles republicanos.

É nesse contexto que causa perplexidade a decisão do procurador-geral da República, Paulo Gonet, de arquivar os pedidos de afastamento de Toffoli. Não se pode condenar quem veja esse comportamento do chefe do Ministério Público Federal como submissão ao Supremo, não à ordem jurídica que o parquet tem por missão constitucional defender. A PGR não pode se rebaixar à condição de apêndice da Corte, muito menos de um punhado de ministros, sob pena de acabar com sua independência.

O Supremo não é uma instância imune ao escrutínio da opinião pública. Seu poder é contrabalançado por mecanismos de controle previstos na Constituição, entre eles a crítica social e a fiscalização do Senado. Colocar a Corte em um pedestal, acima de qualquer questionamento, como fez Fachin, não a fortalece – só aumenta a desconfiança.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com