Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 14 de setembro de 2026
Talvez não seja tão complicado pensar em um código de ética para o STF
Crise é exemplo da ação dos pecados da usura, do orgulho e da vaidade. Luiz Felipe Pondé para a FSP:
O conceito de pecado continua sendo um excelente operador para a análise do comportamento dos homens. Para os incautos, vale salientar que você não precisa ser religioso para entender o valor dos pecados como marcadores de vícios de comportamento.
O caso do STF é um exemplo gritante, entre outras causas de corrupção, da ação dos pecados da usura, do orgulho e da vaidade. O STF caiu, como Adão e Eva, e vai pôr em risco a credibilidade da Justiça, se nada for feito contra esse processo de decadência.
Que o caráter humano seja facilmente corruptível é óbvio. Alguém pode olhar para o lado numa situação de abuso de um representante do poder público ou numa empresa para não ser preso ou demitido —todos sabemos que a corrupção no Brasil é mais intrínseca ao tecido social do que a língua portuguesa.
Qualquer pessoa ou instituição que tenha poder no Brasil pode abusar de você se assim o quiser, e sua capacidade de defesa é quase nula. Se você tiver algum dinheiro, pode torrá-lo se defendendo; se não, sua saída é compactuar com o abuso e a humilhação.
Todo esse "blábláblá" em época de eleição é puro "bullshit". Falar de soberania, combate ao crime organizado, desigualdade social, cidadania, no Brasil, é quase sempre fake. A luta pelo "bem político" no país é, na maioria dos casos, mero nicho para ganhar dinheiro e manipular o poder político e econômico a seu favor ou dos seus amigos. Hoje, o próprio crime organizado deve ganhar dinheiro combatendo o crime organizado.
Vejamos o caso recente da "queda do STF". Quando essa dinâmica chega ao coração da República e do Estado democrático de Direito, como parece existir fortes indícios de que tenha ocorrido nos últimos anos, o dano é significativamente gigantesco. Ou a justiça é imparcial, ou é um dos mais violentos instrumentos de poder ilegítimo que existe. Quer ver uma comparação didática?
Você já viu filmes de faroeste antigos? Ou filmes em que aparecem estados da América Latina, muitas vezes inventados, ou do Leste Europeu, estes quase sempre citados de forma explícita, em que a polícia, o poder Judiciário, o Executivo e Legislativo, assim como os milionários, todos convergem num sistema de violência contra os cidadãos comuns?
Você já teve vontade de gritar para o mocinho ou para a mocinha "não confie nesse cara!", ou "ela foi posta aí para te seduzir e te matar"? E, no caso do faroeste, o xerife e o latifundiário do gado roubam as terras dos pequenos criadores e, se não for pelo Clint Eastwood, você está ferrado?
Pois bem, essa é a realidade do Brasil hoje —sem nenhum Clint Eastwood à vista—, apesar de idiotas do Nelson Rodrigues, à direita e à esquerda, acharem que todos os escândalos ligados ao STF são jogadas políticas contra seus ídolos. Talvez pensar como um idiota do Nelson Rodrigues seja, para além da pura e simples má-fé, uma defesa regressiva e infantil contra a realidade nua e crua da miséria política e moral do país.
Pensar em um código de ética para o STF talvez não seja tão complicado assim, se partirmos dos pecados da usura, do orgulho e da vaidade. "Se achar", seduzir-se pela aspiração de ser celebridade e rico é rota segura para a corrupção do caráter, matriz de toda forma de corrupção.
Quando você tem tão imenso poder, como os membros da corte suprema, você não pode ter os poucos privilégios que os fracos e comuns têm. A você não deveria ser permitido ter redes sociais. Frequentar festas do poder em Brasília deveria ser absolutamente interditado. Fazer palestras, jamais. Frequentar seminários ou festas literárias para quê?
Criar institutos ou ser sócio de qualquer escritório de advocacia deveria ser cláusula pétrea de interdição. Jamais dar entrevistas. Não emitir qualquer opinião sobre o país e os fatos que acontecem à sua volta. Não deveríamos lembrar do seu nome, nem do seu rosto. Nenhuma selfie.
Sua vida financeira deveria ser totalmente acessível para a população. Ou o poder é transparente, ou será sempre ilegítimo. Aliás, pensando bem, esse tópico deveria ser regra para todo servidor público, e os seus, a partir de um certo posto da hierarquia, como presidentes, governadores, prefeitos, deputados, senadores, vereadores, ministros e secretários de Estado, membros do Ministério Público e da magistratura.
Você acha que tudo isso é demais? Muita proibição da vida privada? Não gostou? Sinto muito. Vá ganhar a vida no setor privado.
O modelo deveria ser próximo do monge. Quando os membros do STF foram seduzidos pelo status de celebridade, enterrou-se a ética do Supremo. O silêncio deveria ser seu elemento.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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