quinta-feira, 2 de abril de 2026

'Cuba é o próximo alvo de Trump', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 31 de março de 2026 

Cuba é o próximo alvo de Trump
Por Fernando Gabeira (In Blog)

Se você acorda com a sensação de que este mundo é maluco, tem razão. Uma das causas: o homem mais poderoso é um estúpido. Trump declarou guerra ao Irã usando o falso pretexto de que havia ameaça à segurança americana. A capacidade nuclear dos iranianos já tinha retrocedido décadas com os bombardeios de junho.

Trump achou que o bombardeio levaria multidões às ruas para derrubar a ditadura sangrenta dos aiatolás. Tremendo erro de avaliação. Ninguém sairia às ruas para ser morto pela Guarda Revolucionária, quase ninguém se sentiria à vontade para lutar ao lado dos Estados Unidos e de Israel, horrorizados com a destruição de uma escola em que morreram mais de 150 crianças.

Trump diz que a guerra acabará logo porque devastou o Irã. Os iranianos fecham o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial. Isso significa inflação e queda no crescimento em quase todo o planeta.

Trump passa parte do tempo ora anunciando acordo, ora proclamando vitória, numa tentativa de deter o aumento do barril de petróleo. O pior é que já anunciou seu próximo objetivo: Cuba. Sua nova aventura será na América Latina. Ele considerou um sucesso a incursão na Venezuela. Sucesso pelo petróleo, fracasso pela democracia. Ficou evidente que, para ele, não importam princípios. Qualquer ditadura favorável é melhor que uma democracia independente.

Trump diz que, desde menino, se interessou por Cuba. Agora quer conquistá-la e entregá-la para Marco Rubio. Filho de imigrantes cubanos, Rubio fala fluentemente espanhol. Mas isso não o torna cubano.

A ilha não é um lugar qualquer. Apesar de haver uma ditadura que oprime os dissidentes impiedosamente, tem experiência militar, um exército aguerrido e uma grande parte da população ao lado do governo. Uma bomba numa escola cubana terá uma repercussão sem precedentes.

Quando Trump se move na América Latina, o Brasil precisa se posicionar. É difícil aceitar o bloqueio que impede a chegada de petróleo à ilha. Os apagões atingem o povo cubano, e não seus dirigentes. No mês passado, uma caravana de apoiadores internacionais de esquerda estava num hotel de luxo iluminado enquanto os cubanos amargavam mais um apagão.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

terça-feira, 31 de março de 2026

STF e Congresso: ocultando os escândalos

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 31 de março de 2026

STF e Congresso: ocultando os escândalos.

A pizza será um murro na cara da sociedade, corroendo o pacto entre Estado e cidadão que justifica e sustenta a democracia. Luciano Trigo para a Gazeta do Povo:

O Brasil assiste a um espetáculo estarrecedor: parte do STF e do Congresso Nacional parece mais empenhada em conter danos e proteger amigos do que em revelar a verdade e julgar os culpados. Há um empenho evidente de esvaziar os escândalos envolvendo o Banco Master e a fraude bilionária no INSS — possivelmente o maior assalto já cometido contra aposentados e pensionistas na história do nosso país.

Não se trata de episódios isolados, mas de uma dinâmica que sugere a tentativa de limitar o alcance das investigações e reduzir seu impacto político. Os sinais são inquietantes e já estabelecem um padrão consistente: movimentos para restringir investigações, disputas de competência, decretação de sigilo e iniciativas legislativas que, sob o pretexto de organizar procedimentos, comprometem a transparência. Em vez de um esforço coordenado de apuração, observa-se um processo de contenção.

Nesse contexto, a pergunta que paira no ar é: conseguirão bloquear? Mais do que jurídica e política, é uma pergunta de ordem moral. Se a resposta for afirmativa, os eventuais culpados podem até escapar — mas o custo institucional será altíssimo para os envolvidos. Congresso e Supremo podem até evitar danos imediatos, mas serão irremediavelmente condenados pela opinião pública, com repercussões previsíveis na eleição de outubro.

Os dois casos exigem respostas robustas. O escândalo do Banco Master, com suas ramificações financeiras e conexões políticas, e a fraude no INSS atingem diretamente a já abalada confiança da população no sistema que os governa. A pizza será um murro na cara da sociedade. A ausência de responsabilização ampliará a sensação de abandono, corroendo o pacto entre Estado e cidadão que justifica e sustenta a democracia.

Mas, se tudo terminar mesmo em pizza, as consequências serão profundas. A primeira é evidente: o prejuízo financeiro. Os bilhões desviados deixam de cumprir sua função social, enquanto aposentados e pensionistas, que mal conseguem sobreviver com o que recebem, seguirão enfrentando dificuldades.

A segunda consequência é mais grave: a já citada erosão da confiança. O brasileiro médio demonstra ceticismo crescente em relação às instituições, que parecem operar em regime de autoproteção — não por meio de uma conspiração explícita, mas por convergência de interesses.

Em quem votará o eleitor que percebe que a preservação do sistema vale mais do que a busca pela verdade? Quando escândalos de grande magnitude são abafados ou encerrados sem consequências, instala-se um desencanto particular: não o da revolta aberta, mas o da corrosão silenciosa da confiança. Trata-se de um processo gradual, mas profundamente desestabilizador.

É justamente aí que surge o terceiro efeito: a revolta silenciosa. Por medo ou cansaço, essa revolta pode não se manifestar em protestos barulhentos nas ruas, mas no silêncio das urnas. O eleitor, sentindo-se desrespeitado, tende a buscar alternativas que se apresentem como antissistema. Não é um movimento necessariamente ideológico, mas reativo. Trata-se de punir um arranjo institucional percebido como desonesto, mentiroso e incapaz de se autorregular.

É nesse contexto que se deve interpretar a rápida ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto. Sua viabilidade eleitoral não depende de carisma ou de um programa sofisticado, mas da capacidade de encarnar a rejeição ao sistema. Se os escândalos forem abafados sem punição, a ideia de que “eles se protegem, enquanto o povo paga” será poderosa do ponto de vista eleitoral.

Não seria a primeira vez que eleições são decididas pelo sentimento de indignação. A história recente mostra que o desgaste institucional frequentemente abre espaço para candidaturas que se apresentam “contra tudo isso que está aí”. Por isso, o custo de uma “operação abafa” tende a superar, em muito, os benefícios de curto prazo obtidos com a contenção de danos.

O Congresso, ao proteger seus próprios interesses, parece ignorar um fator essencial: o eleitor não é idiota. Os escândalos abafados, somados às dificuldades econômicas e à insegurança cotidiana, formam um caldo propício ao desejo de mudança. São essas as sementes que estão sendo plantadas.

É verdade que o sistema dispõe de mecanismos formais e informais capazes de travar investigações e varrer tudo para debaixo do tapete. Mas, politicamente, o efeito tende a ser devastador. Cada documento ocultado, cada investigação interrompida, cada vítima sem resposta reforçará a percepção de que o sistema apodreceu. Soluções de conveniência podem aliviar pressões imediatas, mas geram custos elevados no médio e longo prazo.

A história política brasileira é rica em crises “administradas”, em vez de resolvidas. Em muitos casos, o preço dessas escolhas só se tornou evidente anos depois, quando pequenos acobertamentos se acumularam até produzir grandes rupturas. Repetir esse padrão, em um ambiente já marcado pela polarização, é um risco considerável.

O que é bloqueado na superfície reaparece com mais força no subsolo da vida política. A verdade, quando parcialmente ocultada, não desaparece — transforma-se em suspeita permanente. O que está em jogo não é apenas a elucidação de dois escândalos específicos, mas a credibilidade e a sobrevivência de um sistema inteiro.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

João fez a ponte e perdeu a eleição

 Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 29 de março de 2026

João fez a ponte e perdeu a eleição
Por Marcos Cardoso*

Faz 20 anos agora em setembro que o então governador João Alves Filho (PFL) inaugurou a ponte Aracaju-Barra dos Coqueiros. A grandiosidade da obra, que mudou definitivamente o perfil da ilha de Santa Luzia, não se reverteu em vitória para o experiente chefe do executivo estadual que buscava a reeleição e o quarto mandato à frente de Sergipe. Foi derrotado pelo “menino” Marcelo Déda (PT), então prefeito de Aracaju, e o episódio guarda lições importantes para a política local e até nacional.

Considerada a maior ponte urbana do Nordeste, cercada de muita polêmica com o governo federal e com a justiça eleitoral, a obra foi inaugurada no dia 24 de setembro de 2006, a poucos dias da eleição de 1º de outubro. Acusando perseguição do presidente Lula, o governador conseguiu com muito esforço a liberação de empréstimo de R$ 85 milhões do BNDES para a conclusão da ponte.

João se queixava de discriminação com um governador do PFL, mas a equipe econômica de Lula era contrária à destinação de dinheiro porque Sergipe não cumpria a Lei de Responsabilidade Fiscal. O Tesouro Nacional informava que o Estado comprometia 5% do Orçamento com a Assembleia Legislativa, quando, pela LRF, só poderia gastar 3%.

Inicialmente orçada em R$ 100 milhões, a ponte concluída custou R$ 150 milhões, inclusive muito dinheiro do Estado. Atualizado, o dinheiro teria poder de compra equivalente a R$ 460 milhões hoje. Em comparação, a nova ponte Aracaju-Barra, já licitada pelo governo Fábio Mitidieri, tem um custo inicial de R$ 838 milhões. Note-se que a ponte de João Alves possui 1.850 metros de comprimento, enquanto a nova ponte terá 1.260 metros. Mas cada ponte é uma ponte, com suas dificuldades e idiossincrasias.

Por exigência do TRE, a ponte foi inaugurada sem a presença e de João e Maria do Carmo Alves (PFL), então candidata à reeleição de senadora, tendo como principal adversário José Eduardo Dutra (PT). Coube ao filho deles, João Alves Neto, representá-los. Também ficou determinado que nenhuma imagem da ponte fosse utilizada nas propagandas eleitorais do candidato à reeleição de governador.

Mas o apelo eleitoral da ponte já estava consolidado na cabeça do povo sergipano, para o bem e para o mal. Se por um lado o governo do Estado a apresentava como uma obra redentora, capaz de mudar destinos em Sergipe, por outro lado a oposição associava os vários problemas que o Estado enfrentava na época à canalização dos recursos para uma única obra.

João fez novos investimentos na Orla de Aracaju, obra dele em governo passado, mas a saúde e a educação enfrentavam dificuldades, principalmente no interior. Até mesmo o Hospital João Alves Filho, construído pelo próprio em gestão anterior, atravessava um momento difícil, com superlotação e carência de material e equipamentos. A relação com os servidores também não era nada boa e a campanha de Marcelo Déda soube explorar as fragilidades pontuais de um gestor possuidor de capital político robusto.

Os dois líderes sempre estiveram em lados opostos e travaram um embate duro na eleição estadual anterior, em 2002, quando João Alves derrotou Eduardo Dutra na campanha para governador. Com 46 anos em 2006 — João tinha 65 —, Déda já era experimentado na política desde os tempos de estudante e já havia participado de nove eleições, saindo vitorioso em cinco delas, com votações expressivas para deputado estadual, para deputado federal e para prefeito.

A gestão de Déda na Prefeitura de Aracaju era bem avaliada, era reconhecido seu trabalho na área da saúde, por isso João buscou explorar principalmente os desgastes da gestão de Lula na presidência, onde respondia pelo Mensalão, escândalo de corrupção política descoberto em 2005. Tratou-se de um esquema ilegal de repasse mensal de dinheiro a parlamentares da base aliada em troca de votos favoráveis a projetos de interesse do Governo Federal no Congresso.

João também se tornou a principal voz contrária ao projeto de transposição do rio São Francisco, para grande contrariedade de Lula. O governador repetia à exaustão que o povo sergipano ficaria sem água se o projeto fosse adiante. Nos assuntos paroquiais, explorou a “micareta picareta”, uma denúncia da revista Veja contra a Prefeitura de Aracaju, que teria gastado milhões com shows e festas.

Mas nada disso evitou sua derrota no primeiro turno da eleição estadual. Apoiado na boa gestão, na eloquência vocabular e num arco de alianças que contava com o deputado federal Jackson Barreto (então PTB), com o ex-governador Antonio Carlos Valadares (PSB) e com o sertanejo deputado federal Heleno Silva (PL), Déda obteve mais de 52% dos votos já no dia 1º de outubro.

A ponte certamente pesou para a derrocada de João Alves Filho. Fica a lição.

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*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

Texto e imagem reproduzidos do site: www destaquenoticias com br

Roda Viva | Erika Hilton | 03/30/2026

 

domingo, 29 de março de 2026

Do Mundo ao Master, a Crise em ano Eleitoral

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 27 de março de 2026

Do Mundo ao Master, a Crise em ano Eleitoral 
Por Fernando Gabeira (in blog)

As investigações sobre o Banco Master não devem acabar com a delação de Daniel Vorcaro. Elas continuarão sob o escrutínio de forças poderosas que querem anulá-la. Nessa lógica, causa apreensão o confronto entre o ministro André Mendonça e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), em torno da prorrogação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A Comissão ficou duas semanas sem ouvir ninguém, achou que poderia convocar a ex-noiva de Vorcaro, Martha Graeff, em Miami, um sonho impossível, e decidiu continuar seu trabalho além do prazo. Em princípio, com todas as assinaturas necessárias, o adiamento seria burocrático. Mas Davi Alcolumbre precisava concordar e se há algo que não quer ver pela frente, é a CPMI funcionando.

Os deputados e senadores decidiram recorrer a André Mendonça e involuntariamente abrem mais um flanco na solidez do trabalho do ministro. O tema será discutido no plenário do STF, onde as condições não são favoráveis a Mendonça. Independentemente do resultado, é uma exposição desnecessária. Talvez tenha vindo também da CPMI uma outra atitude que enfraqueceu o trabalho sobre o Banco Master: a divulgação dos diálogos íntimos de Vorcaro. Um dos observadores mais severos dessas investigações é o ministro Gilmar Mendes. Ele considerou a divulgação dos diálogos uma barbárie institucional. Num outro momento, Gilmar Mendes criticou André Mendonça. Apesar de concordar com a prisão de Vorcaro, Gilmar discordou da argumentação de Mendonça para justificá-la.

O caminho para investigar o Master não é tranquilo no Supremo. Dois ministros, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, estão envolvidos. O próprio Gilmar fez malabarismos jurídicos para evitar a quebra do sigilo da Maridt, empresa de Dias Toffoli, e também a quebra de sigilo do Fundo Arleen, que comprou parte do resort de Toffoli.

Tudo isso indica que o caso Master terá mais dificuldades do que a própria Lava Jato, fulminada pelo Supremo. As dificuldades institucionais não param aí. A Procuradoria-Geral da República não parece muito empolgada. Relutou em decretar a prisão preventiva de Vorcaro, pois não a considerava urgente. Pior ainda: informada de que Vorcaro estava tendo acesso a dados confidenciais da instituição, nada fez para reprimi-lo.

No Tribunal de Contas, o quadro não é menos desolador. Um ministro chamado Jhonatan Jesus, oriundo do Centrão na Câmara, suspeitou que o Banco Central foi precipitado em liquidar o Master. Até hoje, ele suspeita, apesar do relatório dos próprios técnicos do tribunal. Está apenas jogando em sintonia com seus pares do Centrão que queriam aprovar um projeto para demitir funcionários do Banco Central. Algo puramente intimidatório. Ou mesmo o senador Ciro Nogueira, que apresentou uma emenda elevando de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos para pessoas lesadas por bancos falidos como o Master.

Todo esse processo segue com a grande expectativa em torno de delação de Vorcaro. Mas uma delação nunca é tudo. Novas investigações precisam ser feitas, outras, concluídas. O trabalho vai desembocar no período eleitoral, num país ainda polarizado.

Se fosse apenas isso, já estaríamos numa situação complicada. Num mundo estranho, liderado por um homem tão imaturo quanto Trump, restam poucas esperanças. Ele assumiu prometendo acabar com guerras, tentou ganhar o Prêmio Nobel, contentou-se, finalmente, com um prêmio da Federação Internacional de Futebol (Fifa) e partiu para uma guerra sem sentido, uma vez que os objetivos não são claros. O Irã já tinha perdido anos de trabalho nuclear com os bombardeios de junho, o Hezbollah estava em retirada e não havia no horizonte ameaça contra os Estados Unidos. A ideia de que o povo iraniano, massacrado pelo regime, iria para as ruas tomar o poder é muito ingênua.

De qualquer forma, a guerra que já se prolonga por quatro semanas e traz prejuízos para todos. Alguns países, como a Eslovênia, já estão racionando a gasolina. No Brasil, temos um aumento no preço do diesel, que leva o governo a planejar um subsídio de R$ 1,20 por litro para evitar também uma inflação de alimentos – que é ruim para todos, principalmente para quem disputa eleições. O ideal seria uma avaliação mais completa da conjuntura internacional para avaliarmos como navegaremos na crise. Mas estamos num estado de paixão que impede esse distanciamento. Avançamos como se o mundo não existisse ou fosse um espaço previsível com desequilibrados como Donald Trump dando as cartas.

Será um ano complicado no Brasil. Nesse contexto, é praticamente impossível falar em posições nacionais ou em algum tipo de consenso que nos faça sentir menos o impacto da crise internacional. Mesmo porque, com todo o desequilíbrio, há quem ainda acredite nos projetos de Trump. Houve até quem achou razoável aquele absurdo tarifaço, que o próprio contrapeso institucional anulou. Possivelmente, ache a guerra contra o Irã uma boa ideia, apesar desses resultados negativos.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

terça-feira, 24 de março de 2026

Criamos a categoria Delação Séria

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 24 de março de 2026 

Criamos a categoria Delação Séria
Por Fernando Gabeira (in blog)

O advogado de Daniel Vorcaro procurou a PF e disse que seu cliente queria fazer uma delação séria. São coisas do Brasil. A delação premiada existia em alguns países antes de chegar aqui. Tivemos várias. Mas, bem cedo, chegamos a essa categoria de delação séria, pois, como para muitas outras coisas no Brasil, temos uma versão leve. Sem açúcar, sem gordura, sem glúten, sem agrotóxicos.

Outro front bem brasileiro é o sigilo processual. A antiga canção diz: segredo é pra quatro paredes. No entanto um segredo guardado entre quatro paredes frequentadas por mais de 20 deputados é um segredo de mentirinha.

Vivemos o maior escândalo financeiro de nossa história. Cerca de R$ 40 bilhões serão pagos pelo Fundo Garantidor de Créditos. Outros bilhões foram para o espaço. Teoricamente, o esforço deveria se concentrar na recuperação dessa fortuna roubada. Mas vazaram conversas íntimas de Vorcaro com a namorada, e elas passaram a ser o centro das atenções.

É um sinal dos tempos, mas há um viés cultural. No passado, quando a imprensa profissional detinha a hegemonia, havia um filtro na divulgação das notícias. Hoje, com milhares de comunicadores nas redes sociais — muitos buscando aumentar sua audiência —, um diálogo íntimo empolga os seguidores. Simplesmente não há como controlar nosso ímpeto latino. Se o órgão sexual da mulher foi chamado, carinhosamente, de “peleleca” ou “cherolaine”, essas palavras estarão entre as trends dominantes na internet.

Segundo tenho lido nos jornais, Vorcaro fará uma delação tão séria que não pretende citar ministros do Supremo Tribunal Federal. Os R$ 130 milhões do contrato com a mulher de Alexandre de Moraes foram apenas para uma cartilha de compliance que, ironicamente, resultou na Operação Compliance Zero para botá-lo na cadeia. O dinheiro investido no resort em que familiares de Dias Toffoli tiveram participação era apenas um bom investimento — tão bom que empresas poderosas como a J&F também investiram. E o que foi destinado ao filho de Nunes Marques era apenas o reconhecimento ao jovem talento, como há muitos em Brasília, todos filhos de alguém importante na República.

São problemas que deveriam estar na pauta. Mas competem com outros, como as festas na casa de Trancoso. Foram trazidas algumas mulheres do Leste Europeu que não tinham a mínima ideia dos homens com quem festejariam. A grande expectativa são as fotos e vídeos dessas festas. Como se Vorcaro e seus convidados fossem descuidados o bastante para permitir isso. As pessoas estão sintonizadas no escândalo errado, o de Jeffrey Epstein, nos Estados Unidos.

Isso não significa que não tenha havido festas e, possivelmente, que as mulheres não tenham sido vítimas de algum tipo de exploração criminosa. Pode ser até que Vorcaro tenha instalado câmeras secretas em Trancoso. Mas por que usaria essa tática se possivelmente comprou a fidelidade de políticos e juízes com muito dinheiro?

A realidade sem festas — gente com pouca roupa, louras europeias beijando maduras autoridades republicanas — é apenas a realidade de milhares de pequenos investidores roubados. Não podemos nos afastar dela no exame da responsabilidade de Vorcaro e seus cúmplices na política e na Justiça.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

domingo, 22 de março de 2026

Habermas e o destino da nossa democracia

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de março de 2026

Habermas e o destino da nossa democracia

Habermas saiu de cena exatamente quando o Brasil demonstra o que acontece quando os guardiões da Constituição decidem que o silêncio dos outros é condição para sua própria segurança. Francisco Razzo para a Gazeta do Povo:

Jürgen Habermas morreu em 14 de março de 2026, em Starnberg, aos 96 anos, levando consigo a última voz do Iluminismo disposta a defender, com rigor sistemático, que a democracia só funciona onde o discurso público é livre. Coincidência infeliz, Habermas saiu de cena exatamente quando o Brasil demonstra o que acontece quando os guardiões da Constituição decidem que o silêncio dos outros é condição para sua própria segurança.

Na mesma semana, um ministro do Supremo Tribunal Federal ordenou busca e apreensão na residência de um jornalista que havia denunciado o uso irregular de veículos oficiais pela família de outro ministro do STF. A democracia perdeu seu teórico mais consequente enquanto um dos nossos tribunais mais poderosos produzia, por decreto judicial, um efeito de intimidação sobre a imprensa crítica.

A decisão do ministro Alexandre de Moraes contra o jornalista Luís Pablo revela sua intenção pelo que escolhe atacar. O sigilo de fonte, corolário elementar da liberdade de imprensa em qualquer manual de Direito Constitucional, torna-se aqui obstáculo a ser removido por decreto. O raciocínio é o seguinte: o Estado não pode calar o jornalista antes da publicação sem incorrer em censura prévia, inconstitucional e politicamente custosa; pode, contudo, vasculhar sua casa depois, expor sua fonte e tornar a reportagem crítica uma aventura que nenhum servidor público com bom senso vai repetir. Censura prévia e intimidação retrospectiva produzem o mesmo silêncio. Diferem apenas no timing e na plausibilidade negável.

Habermas descreveu esse mecanismo como “colonização do mundo da vida pelo sistema”. O jornalismo crítico funciona segundo uma lógica interna orientada à verdade, e essa lógica exige a proteção da fonte como condição fundamental. Quando o Judiciário invade essa esfera com seus critérios instrumentais – utilidade, controle, preservação de posições –, corrói a condição de possibilidade da própria democracia que diz proteger. O que resta não é tirania; é algo mais estável e mais difícil de combater – uma ordem jurídica que funciona e, funcionando, protege a si mesma.

O problema filosófico central aqui é epistêmico, anterior ao jurídico. A liberdade de expressão existe para proteger o inconveniente, porque o conveniente dispensa proteção. Mill formulou o argumento definitivo: mesmo quando uma opinião é falsa, suprimi-la priva a sociedade de confrontar o erro com a verdade e, por isso, de compreender a verdade com firmeza. A intervenção contra Luís Pablo vai além de atingir um repórter: priva o espaço público de saber o que servidores honestos sabem sobre seus superiores e transforma o funcionário que cumpre o dever de informar em suspeito potencial de investigação.

O argumento da defesa institucional é bem previsível: o Judiciário tem o dever de investigar. Tem, mas a questão é outra. Quando um ministro do STF usa o aparato judicial para apurar a origem de uma denúncia sobre sua própria família, a imparcialidade da investigação deixa de ser suposição razoável e passa a ser requisito ausente. O conflito de interesses está inscrito na estrutura do ato e não precisa ser demonstrado por intenção subjetiva, porque é consequência objetiva da posição institucional do investigador.

A tirania se distingue da política legítima pela racionalização que produz para o que faz. O tirano age com a lei. Instrumentaliza a lei ao interesse particular enquanto declara agir pelo bem comum.

Decisões judiciais carregam a aparência formal da legalidade, o que torna o critério de forma insuficiente para avaliá-las. O critério tem de ser substantivo: a quem serve a decisão? Quem ela protege? Quem ela expõe? No caso de Luís Pablo, a resposta é estruturalmente constrangedora: um ministro usou o poder judicial para descobrir quem o denunciou. A mensagem que isso envia a cada servidor público do país dispensa interpretação – informações que constrangem os poderosos têm um custo pessoal para quem as repassa. A imprensa capitula pela acumulação silenciosa desses custos, até o ponto em que a autocensura torna o decreto desnecessário.

Em A Teoria da Ação Comunicativa, Habermas pressupõe um ideal de racionalidade que a experiência histórica contradiz com regularidade. Não sou idealista e me afasto de Habermas aqui. A “situação ideal de fala” – contexto sem coerção onde os melhores argumentos vencem – é a ficção que o século 20 desmentiu em pelo menos duas ocasiões industriais. O próprio Habermas terminou por admitir, nos anos finais de sua trajetória, que o Estado liberal democrático depende de recursos morais que sua própria estrutura procedimental não consegue regenerar. Seriam as patologias da razão?

Foi essa concessão que o levou ao diálogo com Ratzinger em 2004, publicado como Dialética da Secularização – um texto em que um iluminista confesso e um cardeal chegaram mais perto da verdade sobre os fundamentos da democracia do que a maioria dos constitucionalistas progressistas que hoje invocam a democracia para legitimar o controle judicial do discurso público.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 20 de março de 2026

Adianta matar líderes xiitas que cultivam o martírio, como os iranianos?

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de março de 2026

Adianta matar líderes xiitas que cultivam o martírio, como os iranianos?

O aspecto religioso não deve ser subestimado, mas também não deve paralisar as ações para enfrentar a mentalidade de seita que rege dirigentes. Vilma Gryzinski: 

Jornalistas ocidentais gostavam de Ali Larijani porque ele falava bem inglês, tinha estudado ciências da computação e filosofia e escrito um livro sobre Kant. Parecia alguém com quem podiam conversar e até relevar o fato de que era também sanguinário e fanático, responsável por milhares de mortes de seu próprio povo. Se foi lícito ou não matá-lo, juntamente com o filho e mais um punhado de assessores e seguranças, como se viu ontem no enterro, envolve questões éticas e legais transcendentais. Mas implica também numa pergunta de ordem mais utilitarista: adianta matar líderes identificados com um ramo da religião muçulmana que, tendo sido minoritário e perseguido ao longo dos séculos, não só cultiva o martírio como o considera uma forma desejável de apressar o fim do mundo, tal como o entendem os xiitas?

Israel, obviamente, não tem esses dilemas. Poucas horas antes de Larijani ser enterrado, aumentou a lista dos chefões eliminados com Ismail Khatib, o ministro responsável por todas as operações de inteligência, no Irã e no exterior.

Não que os líderes israelenses desconheçam os meandros do radicalismo xiita, com o qual lidam diretamente há décadas no Líbano do Hezbollah. Nem que ignorem a hipótese de que a sucessiva eliminação de grandes nomes do regime, iniciada com a do líder máximo, Ali Khamenei, em 28 de fevereiro, pode promover substitutos mais radicais ainda.

Dessa vez, Israel resolveu correr esse risco. Os resultados ainda não podem ser cravados, apesar da extensa destruição infligida às estruturas de ataque e defesa do Irã e à dizimação de suas lideranças, na casa de vários milhares, ambos os processos ainda em andamento. O próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deixou entrever o objetivo: “criar as condições” para que o povo iraniano mude o destino do país, desafiando a capacidade de repressão do regime, ainda forte o suficiente para manter os protagonistas dos protestos do começo do ano trancados em casa, apenas soltando gritos de alegria quando um de seus algozes é atingido, como aconteceu no caso dos “dois Alis”, Larijani e o próprio Khamenei.

A VIRTUDE DO SOFRIMENTO

Os nomes não são coincidência: louvam a figura mais fundamental do xiismo, Ali, primo e genro de Maomé. Ele e seus filhos, Hussein e Hassan, foram mortos nas disputas internas pelo poder posteriores à morte do profeta, no século VII da nossa era. Em resumo, as figuras mais veneradas do xiismo, as quais todos querem emular, foram mártires – não como os santos originais do cristianismo, que aceitavam resignadamente a própria morte, mas combatentes, tombados de espada na mão.

“A história subsequente das várias seitas xiitas foi de perseguição, exílio e morte nas mãos de qualquer que fosse o grupo dominante na época. Isso se transformou num entranhado entendimento da virtude de sofrer por suas crenças, inexistente em versões mais triunfalistas do Islã”, escreveu no Telegraph o acadêmico paquistanês Michael Nazir-Ali.

O autor de uma perspectiva única para o entendimento de questões religiosas: é cristão, originário de um país esmagadoramente muçulmano, com uma grande minoria xiita. De bispo da Igreja Anglicana, transitou para o catolicismo, foi recebido como sacerdote e hoje dirige um centro de estudos em Oxford.

A corrente xiita dominante no Irã também cultiva uma visão escatológica, ou seja, referente à teologia do fim do mundo. Acredita que o último dos doze líderes religiosos enviados ao mundo, chamado de Mahdi, está oculto desde seu “desaparecimento”, no ano 874. Reemergerá como uma espécie de messias muçulmano, quando o mundo inteiro será convertido à religião e governado por seus 313 generais.

Alguns xiitas dessa corrente acham até que o retorno do Mahdi deve ser apressado e quanto mais conflitos houver, melhor, pois antecipam a batalha do fim do mundo. São chamados de “apressacionistas”. O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad era dessa linha e chegava a deixar um lugar desocupado na mesa para o caso do Mahdi, de repente, aparecer. Israel apressou sua ida ao encontro das 72 virgens de pele translúcida prometidas aos mártires, ou shahids.

COMPLEXO DE MARTÍRIO

Kant, objeto dos estudos de Ali Larijani, que na prática era o principal executivo do regime, definitivamente não combina com visões desse tipo, mas é ela que predomina no Irã.

“O que o Ocidente e seus aliados precisam compreender é que a retórica procedente de Teerã é influenciada pelo complexo de martírio. Não é um blefe ou uma posição desafiadora, mas profundamente enraizada na psicologia xiita, entendida à luz das circunstâncias contemporâneas”, escreveu Nazir-Ali.

“Se o regime vier a cair, seja em consequência da guerra aérea ou das ‘botas no chão’, os revolucionários islamistas já têm pronta uma resistência infinita ao que quer que seja que tome seu lugar”.

Alguma perspectiva menos pessimista?

Disse o especialista paquistanês radicado na Inglaterra: “Existe um grande número de pessoas no Irã – estudantes, mulheres, minorias, acadêmicos e até elementos da classe comercial – que desejarão cooperar na emergência de um novo Irã. Ela terá que ser ancorada na antiga civilização do Irã, da qual tirará inspiração para a tarefa urgente de reconstrução quando os aiatolás caírem”.

Obviamente, se caírem.

Mesmo intimidada e sem condições de sair às ruas, a população que execra o regime está procurando fazer a sua parte. Foi por uma pista dada por um iraniano anônimo que Israel soube onde se escondia – numa barraca, numa área cheia de árvores, tentando enganar os mísseis – o chefe da milícia Bassij, Gholamreza Suleimani, responsável direto pela pior parte dos massacres dos manifestantes no começo do ano. A informação consta de uma reportagem espetacular do Wall Street Journal sobre como os líderes iranianos estão sendo eliminados sistematicamente, inclusive nos centros esportivos e estádios onde integrantes do segundo escalão se esconderam depois dos ataques iniciais seguindo um plano previamente concebido. Em uma semana, estavam todos mortos.

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Vorcaro terá incentivos para incluir na delação juízes...

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de março de 2026

Vorcaro terá incentivos para incluir na delação juízes do tribunal em que seu caso será julgado?

Delação ‘seletiva’ é, por si só, um crime em nosso ordenamento legal e é um absurdo que isto seja abertamente considerado. Fernando Schüler para o Estadão:

Todos os dobramentos agora do caso Banco Master se voltam para a delação de Daniel Vorcaro. A provável delação vai acontecer, já houve a primeira reunião do seu advogado com o ministro André Mendonça, não há outra alternativa. A questão básica que o País acho que começa a se perguntar é que tipo de delação será essa. É incrível que interlocutores de Daniel Vorcaro, isso já sai inclusive em matéria de jornalismo investigativo, falam abertamente numa delação seletiva. Ora, não existe delação seletiva no direito brasileiro. Nos regramentos de acordos de delação cabe o dever de verdade a quem faz a delação e cabe a imparcialidade ao sistema de Justiça, aí órgãos de investigação - Polícia Federal, o tribunal que conduz a investigação, que é o Supremo Tribunal Federal, a PGR, enfim, todo o sistema de Justiça do país.

Então é absurdo. A mera menção a uma delação seletiva já é um completo absurdo. Entre nós, no Brasil, não seria grande novidade, mas um absurdo.

Mas na questão central, o núcleo de poder estando no próprio Supremo Tribunal Federal, que é o tribunal que conduz a investigação, é que houve toda uma blindagem nos últimos meses em torno do Supremo em relação a essa questão. Nenhuma investigação encaminhada pela PGR em relação aos contratos da esposa do ministro, de R$ 129 milhões, da compra das cotas do resort. Hoje mesmo, nós estamos aqui na quinta-feira, tivemos este veto do ministro Gilmar Mendes à abertura do sigilo bancário do fundo Arleen, que comprou cotas do resort do ministro Dias Toffoli. Nós tivemos aquela investigação aos funcionários da Receita Federal, que eventualmente teriam acessado contas de ministros e assim por diante. Isso não se confirmou até agora. Há um completo bloqueio à CPMI, à abertura de uma CPMI no Congresso Nacional, que já tem as assinaturas da minoria, as assinaturas necessárias sobre o caso Master. Enfim, todas as tentativas, todos os espaços que tornariam possível uma investigação dos ministros, dos integrantes do Supremo Tribunal Federal, foram solenemente bloqueados. E esse é o histórico, se a gente for um pouco para trás, o caso Tagliaferro, que eu mencionei aqui algumas vezes, foi o mesmo caso.

Então, a pergunta básica é: qual seria um incentivo, qual seria a lógica de um acordo de delação premiada de um réu, de um investigado, em relação aos integrantes do tribunal aonde ele será julgado? Qual o incentivo para o seu advogado, enfim, para a sua equipe, para ele mesmo contar tudo que é importante, que está no centro, digamos assim, das estruturas de poder no País, que é o Supremo Tribunal Federal, em relação a ministros que, logo ali adiante, irão julgar o seu próprio caso?

Ou seja, há um evidente conflito de interesses nisso. Eu disse várias vezes aqui: por isso, esse caso deveria estar na primeira instância. Muita gente me retrucou, muita gente argumentou, não, mas a primeira instância não tem força para isso. Mas é verdade, a primeira instância tem uma fragilidade, os processos podem ser revisados, anulados, como aconteceu recentemente no Brasil, mas a questão central aqui não é força nesse momento. É uma coisa chamada imparcialidade. A questão aqui fundamental é a ausência de conflito de interesse. É alguém, um réu, um investigado, não ser obrigado ou não estar na condição de fazer uma delação relativamente a ministros ou juízes do Supremo Tribunal, no qual ele será julgado. Essa é a questão central do País, mas questão extremamente incômoda do ponto de vista da estrutura, não só do Poder Judiciário, mas estrutura republicana, enfim, da democracia brasileira, porque, se isso não for esclarecido, se essas questões dos contratos, do conflito de interesse, da imparcialidade, de uma suposta, uma acusação de advocacia administrativa, qual é o sentido dessa delação?

O outro caminho seria CPMI no Congresso Nacional, mas, aí, você tem um muro que é a enorme gaveta do senador Davi Alcolumbre. Se o país não encarar com seriedade esta questão, seja pela via legislativa, seja pela via da Procuradoria-Geral da República, ou a retomada desse julgamento na primeira instância, por onde que nós vamos caminhar? O que é inaceitável entre nós, em qualquer regime republicano, em qualquer democracia normal, em qualquer Estado de direito, é uma delação premiada seletiva. Vamos acompanhar.

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quarta-feira, 18 de março de 2026

'A Sedução de Vorcaro', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 17 de março de 2026 

A Sedução de Vorcaro 
Por Fernando Gabeira (in blog)

A festinha promovida por Daniel Vorcaro em Londres já foi muito abordada nas redes sociais. Não voltarei a ela para fazer considerações morais. Ela custou US$ 640 mil, consistiu na degustação de uísque Macallan, charutos e alguma comida. Deve ter sido financiada com dinheiro roubado aos aposentados e pequenos investidores.

Volto a essa festa de que participaram Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski, entre outros, para reafirmar uma intuição que já expressei em livro e debates pelo Brasil. No meu entender, a política brasileira se degradou no momento em que dependeu de caras campanhas pela televisão. Até então, os eleitores financiavam os candidatos com sorteios, festas onde se cobrava um pouco mais pela caipirinha. Essa forma mais ingênua foi superada quando se precisou de muito dinheiro para pagar marqueteiros e suas superproduções televisivas.

O convívio com empresários que mantinham negócios com o governo ou gostariam de ter passou a ser um dado da realidade. Para vencer, era importante ter dinheiro, e muito, e a relação com os eleitores foi relativizada. Políticos que eram funcionários públicos com salário apenas digno para alguém da classe média começaram a emular seus interlocutores milionários. O caso mais típico foi Sérgio Cabral, com origem modesta, mas que, de repente, passou a debater a qualidade dos mais caros restaurantes europeus e desejou abertamente um helicóptero igual ao de Eike Batista, bilionário na época.

Creio que Vorcaro intuitivamente compreendeu isso. Seduzir políticos e juízes para o consumo de luxo seria uma forma de viciá-los num estilo de vida de que não poderiam mais se afastar. Toffoli, com seu resort, já estava ganho para essa nova vida. Moraes, com o contrato milionário da mulher com o Master, mansão cara e viagens a Dubai, também já tinha acesso às altas esferas de consumo. Hugo Motta certamente avança de bom grado para esse mundo.

No entanto o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, são apenas funcionários públicos. Eram os mais vulneráveis a esse mundo fantástico de uísque e charuto caríssimos, clubes luxuosos. Certamente,Vocaro contava agradar seus amigos milionários e seduzir aqueles que viviam numa esfera mais próxima das pessoas comuns.

É muito difícil o antídoto para esse tipo de sedução, excluída, é claro, a vigilância sobre a evolução da riqueza. No entanto há certas ironias nisso tudo. Vorcaro alugou o Hotel Four Seasons em Taormina, na Sicília, para dar uma festa milionária. Antes dele, o mesmo hotel foi cenário de uma série de TV chamada “The white lotus”. O tema da série era exatamente o vazio e o tédio da vida das grandes fortunas que transitavam por ali.

Mas não podemos contar com essa verdade profunda. Ficar muito rico ainda é um sonho majoritário, muito mais sedutor que servir humildemente ao país. Daí a força dos Vorcaros da vida.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

Questão de humanidade: prisão domiciliar para Bolsonaro

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de março de 2026

Questão de humanidade: prisão domiciliar para Bolsonaro.

Exceto para militantes mais empedernidos ou análises contaminadas pela ferocidade da polarização, há elementos suficientes para justificar tratamento especial ao ex-presidente. Editorial do Estadão:

O gravíssimo estado de saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro recolocou diante das instituições brasileiras um dever de maturidade: combinar rigor jurídico com serenidade. Internado em unidade de terapia intensiva com broncopneumonia e portador de um histórico extenso de cirurgias e internações, Bolsonaro enfrenta uma condição clínica que exige extrema cautela. E, acima de tudo, requer que aceitemos o óbvio: chegou o momento para que se converta sua prisão em regime domiciliar.

Exceto para militantes mais empedernidos ou análises contaminadas pela ferocidade da polarização, há elementos suficientes para justificar tratamento especial ao ex-presidente. Desconte-se a grita de oportunistas que pretendem capitalizar eleitoralmente o estado de saúde de Bolsonaro ou usá-lo para atacar o Supremo Tribunal Federal (STF). À parte as paixões políticas, torna-se difícil sustentar a permanência dele em regime fechado.

Convém recordar que Jair Bolsonaro não está preso por acaso nem por capricho de adversários. Foi condenado a 27 anos de prisão por liderar uma organização criminosa voltada à tentativa de golpe de Estado e à subversão da ordem democrática. Trata-se de crime de extrema gravidade institucional. Durante meses, Bolsonaro e aliados empenharam-se em desacreditar o sistema eleitoral, mobilizar setores militares e estimular uma ruptura com o resultado das urnas. A responsabilização judicial desses atos é um marco na história republicana.

Recorde-se também que o próprio Bolsonaro contribuiu para chegar a essa situação. Ao longo do processo, desafiou decisões judiciais, estimulou confrontos com as instituições e incentivou mobilizações destinadas a constranger o STF. Em diversas ocasiões, comportou-se como quem acreditava poder tensionar indefinidamente os limites da lei sem sofrer consequências. Como já observou este jornal, Bolsonaro pareceu pedir para ser preso, tamanha a sequência de provocações e desobediências às determinações da Justiça.

Nada disso muda agora. A doença não altera a gravidade dos crimes cometidos nem autoriza aliados a transformar o quadro médico em instrumento político. Há quem veja na fragilidade física do ex-presidente uma oportunidade de mobilização emocional e dividendos eleitorais. Trata-se de cálculo político cristalino. E cínico.

Reconhecer esse oportunismo, no entanto, não dispensa o Estado de agir com prudência e humanidade. A legislação brasileira admite prisão domiciliar quando as condições de saúde do detento são incompatíveis com o ambiente carcerário ou exigem cuidados médicos permanentes. Trata-se de dispositivo legal aplicado cotidianamente, não de privilégio.

Há ainda uma dimensão institucional que recomenda cautela. A prisão de um ex-presidente da República nunca é um fato trivial. O Estado deve aplicar a lei com firmeza, mas sem ignorar as circunstâncias excepcionais que cercam alguém que ocupou o cargo máximo do País. Há precedentes para tanto. Quando o ex-presidente Fernando Collor foi condenado e iniciou o cumprimento da pena, o STF avaliou seu estado de saúde e definiu novas condições de encarceramento. Hoje cumpre prisão domiciliar justamente por se entender que sua condição clínica é incompatível com o regime fechado.

Se laudos médicos consistentes indicarem situação semelhante no caso de Bolsonaro, a concessão de prisão domiciliar não representará capitulação política nem absolvição disfarçada. Será apenas a aplicação da lei em sua dimensão mais elementar, isto é, aquela que exige que a punição conviva com a dignidade humana.

Bolsonaro deve cumprir a pena imposta pela Justiça, decorrente de crimes graves contra a democracia. Mas isso não dispensa o Estado brasileiro de agir com humanidade. Se o quadro clínico assim o exigir, a prisão domiciliar poderá ser a solução juridicamente correta e institucionalmente prudente – não para livrá-lo da lei, insista-se, mas para demonstrar que, no Brasil, até mesmo a punição de um ex-presidente permanece submetida à lei, e não ao impulso da vingança.

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terça-feira, 17 de março de 2026

'Brasil vai repetir o erro?', por Marcos Cardoso

Pandemia - Morte de 700 mil pessoas...

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 16 de março de 2026

Brasil vai repetir o erro?
Por Marcos Cardoso*

Essa tal de polarização deixou pessoas tão embotadas e confusas a ponto de preferirem se molestar e rejeitar o que foi realizado em seu próprio benefício. Algumas delas preferem continuar adorando aqueles machos que sempre desprezaram as mulheres, mas insistem em não apoiar quem lançou um pacto para prevenir todas as formas de discriminação, misoginia e violência de gênero contra mulheres e meninas.

Um perfil nas redes sociais confessa: é extremamente broxante ver que existe grande parte da população brasileira considerando “devolver” o Brasil para a família que contribuiu diretamente para a morte de 700 mil pessoas na pandemia; que recolocou o Brasil no mapa da fome; que atacou a cultura e a ciência; que tentou acabar com a democracia com um golpe de estado; que minou o sistema da justiça e a Polícia Federal para acabar com investigações; e que sempre atacou os direitos das minorias.

Outro nota que metade do país quer a volta da fila do osso só para tirar do poder quem reduziu a desigualdade e levou o Brasil ao menor índice de desemprego da história; que prefere tirar do poder quem quer acabar com a escala 6×1 para trazer de volta quem tirou os seus direitos trabalhistas; que está insatisfeita com quem zerou o imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil e trazer de volta um governo que reclamava de empregada doméstica na Disney.

Se é politicamente correto defender o feminismo, muitas mulheres preferem ficar do lado de quem considera que ter uma filha mulher foi “uma fraquejada” e desdenha do movimento feminista dizendo que não está preocupado com mulher de braço cabeludo.

Se é politicamente correto defender os índios e garantir o que lhe são de direito, porque são os donos originais das terras, porque foram chacinados e a maioria dizimada pelos colonizadores, pelos latifundiários, pelos madeireiros, pelos mineradores e pelo próprio Estado, há quem prefira quem defende que índio não merece um centímetro de terra e que merece é comer capim, “para manter as suas origens”.

Em agosto de 2018, esta coluna fez os seguintes questionamentos:

Você votaria num candidato a presidente da República que nega a história do país que pretende dirigir? Que nega que tenha havido ditadura militar e que, ao mesmo tempo, tem como herói um oficial militar que é símbolo da tortura aos presos políticos da ditadura? Você votaria num candidato que nega a maior ferida da história brasileira, a escravidão, raiz das desigualdades e razão vital da nossa cruel sociedade do atraso?

E questionava:

Você votaria num candidato que desdenha da colega dizendo que só não a estupra porque a acha feia? Que acha normal as mulheres ganharem menos do que os homens? Votaria num candidato que em 28 anos de mandato como deputado federal conseguiu aprovar apenas dois projetos de lei de pouca relevância e que nesse longo período não aprendeu o básico, como procurar entender o funcionamento da economia do Brasil real? E que não fez nada para tentar melhorar a segurança do seu estado, o Rio de Janeiro?

Por fim:

Você votaria num candidato que prega honestidade, mas que em quatro anos multiplicou o próprio patrimônio por mais de 150%, segundo declaração no TSE, sem conseguir explicar como realizou esse extraordinário milagre?

A maioria votou nesse candidato e deu no que deu. O Brasil não vai repetir o erro. Ou vai?

(Citando @brasilforadacaverna e @livrespensadores)

Foto: Agência Senado

Texto e imagem reproduzidos do site: www destaquenoticias com br

sábado, 14 de março de 2026

'Para onde vai o Caso Master', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 13 de março de 2026 

Para onde vai o Caso Master
Por Fernando Gabeira (in Blog)

Temos muitos temas estratégicos para discutir. E outros urgentes, como o impacto da guerra e do fechamento do Estreito de Ormuz em nossa economia. No entanto, será difícil avançar em algo enquanto a atenção nacional estiver concentrada no escândalo do Banco Master.

Escândalos financeiros de maior volume, como foi o caso de Bernie Madoff nos EUA, foram muito discutidos, mas não conseguiram monopolizar o debate político. O caso brasileiro é crucial, porque envolve autoridades políticas, financeiras e judiciárias. Mais especificamente, algo inédito na História: dois ministros do Supremo Tribunal Federal.

Existe uma intensa batalha de bastidores entre avançar nas investigações ou enterrá-las. Ela se manifesta em inúmeros movimentos táticos. Houve um erro, por exemplo, na divulgação de diálogos íntimos de Daniel Vorcaro. A dramatização desse erro indiscutível pelo ministro Gilmar Mendes mostra que a investigação corre risco.

O erro se deu pela incapacidade de separar as frases íntimas das de interesse político. Ou, melhor, os diálogos que são ao mesmo tempo íntimos e de interesse público. Entre esses, destaco os momentos em que ele conta seus encontros com autoridades brasileiras, a reunião com Hugo Motta e Alexandre de Moraes, o momento em que o ministro o visita em Campos do Jordão.

Mais interessante, nesses diálogos íntimos de interesse público, é a confissão da compra de propriedade em Miami, que ficaria no nome de um russo para despistar. As propriedades de Vorcaro são de interesse público porque podem ressarcir os prejuízos que ele deu. Nem todos esses prejuízos foram cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Diz-se que apenas 30% dos celulares de Vorcaro foram periciados. Até o momento, portanto, a luta mais decisiva a respeito das investigações é sobre avançar ou não sobre os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.

O ministro Toffoli deixou muitos flancos. Tentou controlar as investigações, decretando sigilo e escolhendo peritos, mas acabou sendo derrubado da relatoria do caso por um relatório da Polícia Federal (PF). Toffoli vendeu uma parte de seu resort para o cunhado de Daniel Vorcaro. Outra parte, a vendeu para um advogado da J&F, a mesma empresa que teve multa de R$ 10,3 bilhões anulada por ele.

No dia de sua primeira prisão, Vorcaro trocou mensagens com Alexandre de Moraes, que aparece como seu amigo nos diálogos. A mulher de Moraes, Viviane Barci, tem um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master. Segundo ela, sua tarefa foi formular o compliance do Master. A operação que prendeu Vorcaro tem o nome de Compliance Zero.

Quais os caminhos possíveis da investigação?

Independência da Polícia Federal para seguir, apesar das consequências. Isso vai depender de algumas variáveis. O ministro André Mendonça quer uma PF sem influência de seus chefes máximos. Conseguirá? Por outro lado, o próprio Mendonça resistirá à pressão do STF? Na célebre reunião em que os ministros definiram a solidariedade a Toffoli, Mendonça também embarcou no todos por um, um por todos.

O procurador-geral nem é bom lembrar. Como se diz na gíria, ele é assim com os homens, isto é, dificilmente quebrará os laços de amizade que o levaram ao posto.

Resta um grupo de senadores que se articula para fazer uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). O problema das CPIs é que dependem de Davi Alcolumbre. E ele jamais as permitirá, porque é um investigado em potencial. O instituto de aposentadoria do Amapá (Amprev) investiu R$ 400 milhões em ativos do Master. O responsável foi indicado por Alcolumbre. Como ele poderia ter descoberto o negócio estando tão longe? Vorcaro frequentou a casa de Alcolumbre. Não teriam falado sobre isso? Só a investigação poderá precisar.

Resta a jogada final: delação de Daniel Vorcaro. É algo visto com muito entusiasmo. Mas o depoimento tem de ser colhido com independência. Num sistema tão complexo, é possível produzir uma delação premiada que alivie Vorcaro, defina alguns bodes expiatórios e salve todos os graúdos.

Tudo é possível no Brasil, daí a singularidade de nossa vida. Ela é um sobressalto. Isso não é razão para tentar um bom resultado em todas as etapas.

Em caso de investigação, que seja séria e fundamentada; em caso de delação premiada, que seja examinada com lupa.

É preciso esperar, também, que a justiça funcione na condenação dos culpados. Ela costuma ser longa e, às vezes, branda. No caso dos políticos, isso é atenuado pelas eleições. Os próprios eleitores assumem seu papel, como foi no caso da CPI dos Sanguessugas: mais de 90% dos envolvidos foram derrotados nas urnas.

Com domínio de uma grande parte do orçamento federal, os políticos criaram uma inesgotável fonte de propaganda. Pode ser que isso os salve. Mas a bancada do Master foi ativa, tentando elevar o teto coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (Ciro Nogueira) e demitir funcionários do Banco Central (todos os líderes do Centrão).

Deveriam ser investigados, pois foram o braço parlamentar de um grande prejuízo para os brasileiros, não só os que investiram no Master, mas milhares de aposentados.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

quinta-feira, 12 de março de 2026

A corrupção volta de forma nova e intensa com a quebra do Master


Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 10 de março de 2026 

A corrupção volta de forma nova e intensa com a quebra do Master

Por Fernando Gabeira (In Blog)

No momento, estamos imersos num escândalo. Nem sequer temos tempo de pensar noutros temas que pedem passagem. Como a defesa nacional, diante de um mundo dominado pela força bruta. Ou mesmo as mudanças no universo do trabalho, ditadas pela ascensão da inteligência artificial.

Existe uma sensação de que algo importante pode acontecer na esteira do escândalo. Velhos marinheiros se lembram da Lava-Jato. Falava-se em passar o país a limpo, e as expectativas se frustraram; a própria operação foi enterrada no governo Bolsonaro.

A corrupção volta de forma nova e intensa com a quebra do Banco Master. É preciso, de novo, conter as expectativas e corrigir erros do passado, como a divulgação de diálogos íntimos. Quando se trata de político envolvido em escândalo, não há muito o que fazer. Uma vez expostos, dificilmente vencem de novo as eleições. Pelo menos essa foi a experiência da CPI dos Sanguessugas, parlamentares que superfaturavam a compra de ambulâncias.

Mas como proceder quando suspeitas recaem sobre ministros do Supremo? Um longo relatório da Polícia Federal (PF) foi enviado à Corte denunciando a ação de Dias Toffoli. Numa reunião já histórica, o STF respaldou Toffoli, e um ministro chegou a classificar o relatório de “lixo”.

Telefones periciados pela PF sugerem que Alexandre de Moraes falou muitas vezes com Vorcaro. Moraes nega, apesar do contrato de R$ 130 milhões do Banco Master com o escritório de sua mulher. Relatórios e perícias da PF foram usados para o STF condenar centenas de pessoas. No momento em que os ministros são suspeitos, esse trabalho não vale. É descartado.

Como avançar nessas circunstâncias? Seria preciso investigar a ação dos ministros a partir dos dados da PF. Ela não avançará sozinha. No entanto o procurador é próximo dos ministros e não criará nenhum inquérito contra eles. Resta o Senado, mas a maioria dos senadores é muito prudente para iniciar um processo de impeachment. Será então que a sociedade está inteiramente desamparada, a ponto de não esperar nada?

Tenho falado na proposta de emenda constitucional do jurista Walter Maierovitch, que renova o Supremo garantindo o direito dos atuais ministros. Eles ficariam em disponibilidade, mas um novo STF poderia surgir com regras mais rígidas ou mesmo mandatos.

Mas essa proposta também tem probabilidade reduzida de ser aprovada. Na verdade, estamos num impasse, e não há outro caminho, exceto esperar investigações sérias e uma possibilidade de delação premiada de Daniel Vorcaro para que o processo seja concluído com êxito.

Não haverá grandes cataclismos. Apenas uma ponta de esperança de alguma reforma que o grande escândalo do Master pode inspirar.

Será necessário também definir como os milhares de aposentados podem ser ressarcidos do golpe. Se contarmos o rombo nas previdências do Rio e do Amapá, se levarmos em conta o assalto àqueles descontos ilegais no INSS, os mais velhos foram as grandes vítimas da sequência de escândalos.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

Menino iraniano, acenando para a mãe, antes de morrer em bombardeio


Legenda da foto: Imagem de menino iraniano acenando para a mãe antes de morrer em bombardeio viraliza - (Crédito da foto: Reprodução/Redes Sociais).

Publicação compartilhada do site ICL NOTÍCIAS, de 11 de março de 2026 

Foto de Mikaeil Mirdoraghi foi feita horas antes de ataque a escola em Minab e se tornou símbolo da guerra

Uma foto de um menino iraniano acenando para a mãe antes de sair para a escola se tornou um dos símbolos mais compartilhados da guerra entre o Irã e os Estados Unidos. A imagem mostra Mikaeil Mirdoraghi poucos momentos antes de ir para a aula no dia 28 de fevereiro, quando um bombardeio atingiu uma escola na cidade de Minab, no sul do país. Segundo o jornal The New York Times, o ataque matou 175 pessoas, a maioria crianças.

Em entrevista ao jornal iraniano Hamshahri, a mãe do menino contou que o filho pediu para ser fotografado antes de sair de casa naquela manhã. Ela também relatou as últimas horas de vida da criança. “Na noite anterior, ele disse: ‘Mãe, a comida que você fez tem gosto de paraíso’”, afirmou.

Segundo o relato, Mikaeil ainda brincou de guerra com o irmão antes de dormir, dizendo: “Eu sou o Irã e você é os Estados Unidos”. Durante a brincadeira, comemorou: “O Irã venceu”.

O nome do menino aparece nas listas de vítimas divulgadas pela imprensa iraniana, que passou a tratar as crianças mortas no ataque como “mártires”.

A fotografia em que Mikaeil se despede da mãe começou a circular amplamente nas redes sociais e foi compartilhada por perfis ligados ao governo iraniano, tornando-se um símbolo da tragédia. Ferramentas de verificação indicaram alta probabilidade de que a imagem seja autêntica.

Buscando um culpado

Uma investigação publicada pelo Times aponta que vídeos e imagens analisados indicam que um míssil americano caiu nas proximidades da escola pouco antes da explosão. Segundo o veículo, o ataque teria como alvo uma instalação militar próxima, mas atingiu a região da escola primária. O levantamento reúne imagens de satélite, registros em vídeo e depoimentos de testemunhas.

De acordo com a reportagem, apenas os Estados Unidos possuem mísseis Tomahawk entre os países envolvidos diretamente no conflito com o Irã. Já a agência Reuters revelou que uma investigação preliminar conduzida pelos próprios militares americanos indicou que forças dos EUA provavelmente foram responsáveis pelo ataque que atingiu o prédio escolar.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o caso está sendo investigado. Em declarações anteriores, ele chegou a sugerir que o próprio Irã poderia ter sido responsável pela explosão — versão rejeitada pelas autoridades iranianas, que classificam o episódio como crime de guerra.

Enquanto a disputa de narrativas continua, a imagem de Mikaeil acenando antes de sair para a escola se espalhou pelo mundo como retrato de uma das faces mais brutais do conflito: a morte de crianças inocentes.

Texto e imagem reproduzidos do site: iclnoticias com br

quarta-feira, 11 de março de 2026

66 Anos Sempre Presente! Eterno Marcelo Déda Chagas

Foto1: Arquivo Portal Infonet
(Postada pelo blog: 'Ideias & Lideranças')

Foto2: Blog Cláudio Nunes/Infonet

Artigo compartilhado do BLOG INFONET/CLÁUDIO NUNES, de 11 de março de 2026 

66 Anos Sempre Presente! Eterno Marcelo Déda Chagas

Por Cláudio Nunes, do blog Infonet
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Blog Cláudio Nunes: a serviço da verdade e da justiça

“O jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter.” Cláudio Abramo.
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Desde que o professor e eterno governador de Sergipe faleceu em 2 de dezembro de 2013, este pequeno espaço sempre faz questão de homenageá-lo, não só porque foi um político com uma honra inabalada e que, amou Sergipe de todas as formas.

Em tempos onde a política é composta de muitos demagogos que são candidatos num sistema eleitoral legitimo, mas defendem o golpe e a ditadura. Em tempos eleitorais onde surgem muitos sorrateiros, ignorantes e até mesmo obtusos, é preciso lembrar e homenagear quem atuou – acertando ou errando – mas nunca se desviou do caminho da honestidade e sempre foi consciencioso em tudo o que fez.

Para relembrá-lo um texto que sintetiza muito quem foi o professor Marcelo Déda, do brilhante jornalista Edson Júnior publicado aqui em 11 de março de 2024:

Déda, o menino sonhador que falava a voz do coração

Todos os anos me apresento ao blog do meu amigo, o jornalista Cláudio Nunes, com texto em celebração ao dia de aniversário do saudoso ex-governador Marcelo Déda, que hoje completaria 64 anos. Ele partiu, precocemente, em 2 de dezembro de 2013, quando somava apenas 53 anos.

Déda teve uma trajetória meteórica, fez muito em pouco tempo, e se o tempo não lhe tivesse sido tão curto, teríamos um jovem simãodiense, um ardoroso sergipano, um eloquente e apaixonado político na Presidência da República. Tinha todos os predicados para tal.

Neste 11 de março, ao invés de um textão, por certo repetitivo em relação às qualidades desse gigante, já testemunhadas e escritas por tantas e tantos com muito mais proximidade e intimidade com Déda, ficarei em breves memórias do seu tempo.

Marcelo Déda, o menino sonhador, de pensamentos alados, de caráter imaculado, de honestidade e ética reconhecidas por aliados e adversários; de um ser humano que sabia pesar o peso da dor do seu semelhante e se punha a trabalhar pela justa causa.

O “menino”, a que faço referência no título deste texto, retrata as eleições de 2006, quando o também saudoso ex-governador João Alves Filho, na tentativa de reduzir o nome de Déda na disputa pelo Governo de Sergipe naquele ano, classificou o jovem adversário como menino. Pois é, o menino venceu e se tornou governador por duas vezes, em 2006 e 2010.

O jovem advogado Marcelo Déda era um idealista, devorava livros com fome de conhecimento, colecionava amigos, de todas as bandeiras e caminhava pelas vielas da vida para se aprimorar como gente e como político. Carregava sempre o sorriso sincero e espontâneo, sem perder a seriedade das causas que defendia.

Como orador, falava a voz do coração – como cantou o genial Tim Maia – e se fazia entendido e admirado por todos. Era um líder nato! Seu sorriso abria avenidas, construía pontes, acolhia desvalidos e investia no futuro do que seus olhos observavam a quilômetros do seu tempo.

Eita Marcelo Déda, você foi cedo demais, companheiro! Mas tenha certeza de que em sua celeste morada, de onde a tudo assisti, sabe que está imortalizado na mente e no coração do seu povo, aquele a quem você dedicou seu tempo.

O sorriso que você espalhou ainda ilumina os dias de Sergipe com as várias obras que deixou. Você plantou sorrisos de felicidade e que bonito é ver como eles se multiplicaram em gerações de crianças para as quais você pavimentou o futuro.

Então, Déda, é assim que estou, enquanto dedilho cada palavra deste breve texto: com um sorriso de alegria por ter conhecido um ser humano tão especial, de sentimentos tão nobres e de se importar com a dor de pessoas invisíveis, esquecidas por quem deveria ajudá-las. Você as observava e tornou-as a grande causa de sua vida, a sua missão.

Se uma lágrima derramo agora é de felicidade e alegria. Você faz falta, Déda, mas estará sempre presente. Feliz Aniversário, companheiro!

Texto e foto2 reproduzidos do site: infonet com br/blogs/claudio-nunes

Ataque a escola de meninas no Irã expõe horrores da guerra

Legenda da foto: Mãe luto exibe fotos de suas filhas que foram mortas, durante o funeral das crianças que perderam a vida após um ataque a uma escola primária na província de Hormozgan, no Irã, em 3 de março de 2026, em Minab, Irã. Milhares de pessoas, incluindo familiares e autoridades, compareceram à cerimônia - (Crédito da foto: Agência Anadolu/Reuters)

Artigo compartilhado do site do JORNAL DO BRASIL, de 7 de março de 2026

Ataque a escola de meninas no Irã expõe horrores da guerra

Por JB INTERNACIONAL (redacao@jb com br)

Por Lucas Pordeus León - O ataque a uma escola de meninas iranianas, que causou a morte de 168 crianças, marcou o primeiro dia da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciada no último sábado (28). A tragédia expõe os horrores que o conflito no Oriente Médio pode produzir e seus impactos na vida de menina e mulheres nestes países.

Uma multidão vestida de preto compareceu ao velório das crianças, ocorrido na terça-feira (3). As imagens das valas abertas para receber os caixões enfileirados, acompanhados por milhares de pessoas, correu o mundo.

Durante décadas, as violações de direitos humanos no Irã, inclusive contra as mulheres, foram usadas por potências ocidentais para justificar o isolamento internacional de Teerã, alvo de sanções econômicas que contribuíram para fragilizar sua economia.

Em nome de uma suposta "libertação" do povo iraniano do regime dos aiatolás, um dos primeiros alvos de EUA e Israel nesta nova ofensiva foi justamente uma escola de educação infantil feminina na cidade de Minab, no sul do país persa. Além das dezenas de meninas mortas, mais de 90 crianças ficaram feridas. O caso aconteceu pela manhã, enquanto as alunas estavam em aula, segundo a agência de notícias.

A socióloga Berenice Bento, professora da Universidade de Brasília (UnB) que estuda as relações de gênero no mundo muçulmano, afirma que o ataque revela justamente que a guerra não tem relação com direitos humanos ou democracia.

Em razão do regime do país, as mulheres sofrem uma série de restrições no Irã, como o uso obrigatório do véu (hijab) para cobrir os cabelos, além de impedimentos para viagem e mobilidade, que geralmente precisam de autorização dos pais ou maridos. O desrespeito aos códigos é duramente punido pela chamada polícia da moralidade, ou Patrulha de Orientação da República Islâmica do Irã.

A jornalista palestino-brasileira SorayaMisleh, doutora em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo (USP), afirma que mulheres iranianas lutam há décadas por seus direitos e destaca, em especial, o movimento Mulher, Vida e Liberdade. Ele foi criado em 2022 após a morte da estudante Mahsa Amini, detida em um protesto e espancada pela Patrulha de Orientação,

"Mulheres iranianas organizaram um grande movimento, em 2022, o Mulher, Vida e Liberdade e seguem em luta há décadas. O povo iraniano, os povos árabes, o povo palestino devem decidir seu destino, não os EUA e Israel", comentou.

A história de luta das mulheres iranianas inclui vítimas de prisões e condenações por sua militância. Uma delas é a advogada e ativista Narges Mohammadi, vencedora do Nobel da Paz em 2023 "pela sua luta contra a opressão das mulheres".

Narges está atualmente presa no Irã, condenada a 7 anos e meio de reclusão por "conspiração", segundo seu advogado. Mas, a socióloga Berenice Bento reafirma que a mobilização das mulheres no Irã não pede intervenção externa.

"Quando você analisa as manifestações que aconteceram, nenhuma está dizendo que quer a volta da monarquia, ou que os Estados Unidos e Israel vá libertá-las. Nunca. O que você tem é uma sociedade que está lutando", ponderou.

Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa sobre as Relações do Mundo Árabe, do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS),a professora Natália Ochôa explica que há um olhar do mundo Ocidental para a necessidade de salvar a mulher muçulmana que, no episódio da escola, foi o alvo.

"Mulheres muçulmanas vistas e retratadas como oprimidas e sem capacidade de agência precisariam da salvação de mulheres ocidentais, sendo estas últimas o grande exemplo de liberdade a ser seguido. Ora, se um desses pilares é a educação, por que então logo uma escola de meninas, onde elas são alfabetizadas e aprendem sobre seus direitos, é um dos primeiros espaços a se tornarem alvos desses ataques? Se elas precisam de salvação, por que a última coisa que tem sido feita é salvá-las?", questiona a pesquisadora em artigo.

Apesar dos problemas da República Islâmica, a especialista pondera que houve avanços sociais nos últimos 47 anos. Dados do Banco Mundial e da Unesco apontam que a alfabetização das mulheres passou de cerca de 30%, nos anos 1970, para cerca de 85%, nos anos 2000.

A participação das mulheres iranianas nas universidades subiu de 33%, na década de 1970, para cerca de 60%, nos anos 2000. Por outro lado, a participação delas no mercado de trabalho segue reduzida, algo em torno de 15% a 20% do total das pessoas empregadas.

Autoria do ataque

O ataque à escola de meninas de Minab foi condenado pela comunidade internacional e o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu uma investigação rápida, imparcial e minuciosa sobre as circunstâncias do ocorrido.

Estados Unidos e Israel não reconheceram ainda a autoria do ataque. A Casa Branca diz que está investigando o caso. Já Israel informou que não encontraram nenhuma ligação do ataque com as operações militares de Tel Aviv.

Berenice Bento cita a chamada Doutrina Dahiya, do exército israelense, que se baseia na destruição em larga escala de habitações e estrutura, para argumentar que o ataque deve ter sido intencional.

"Com o ataque à escola, eles estão querendo dizer não vão deixar pedra sob pedra. É destruir tudo. Para que a própria população civil, diante daquela destruição, se coloque contra o poder local. Eles destruíram Gaza inteira para fazer com que a população de Gaza se posicione contra o Hamas", avaliou.

O nome da doutrina faz referência ao bairro Dahiya, zona densamente povoada de Beirute, no Líbano, onde o Hezbollah tinha uma das suas bases, e que foi amplamente bombardeado por Israel na guerra do Líbano de 2006.

A jornalista palestino-brasileira SorayaMisleh, doutora em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo (USP), avalia que o ataque às escolas, hospitais e infraestrutura civil em Gaza abriu espaço para novos crimes em outros países do Oriente Médio.Para Misleh, as mulheres da região não precisam ser salvas, e sim de apoio e solidariedade.

Estados Unidos e Israel não reconheceram ainda a autoria do ataque. A Casa Branca diz que está investigando o caso. Já Israel informou que não encontraram nenhuma ligação do ataque com as operações militares de Tel Aviv.

O jornal norte-americano New York Times (NYT), após analisar imagens de satélites, publicações nas redes sociais e vídeos verificados, indica que a escola foi severamente danificada por ataque de precisão, que ocorreu simultaneamente a ofensivas dos EUA a uma base naval da Guarda Revolucionária Islâmica.

As declarações oficiais de que as forças americanas estavam atacando alvos navais perto do Estreito de Ormuz, onde está localizada a base da Guarda Revolucionária Islâmica, sugerem que eles provavelmente foram as responsáveis pelo ataque, avaliou o NYT.

Levando em consideração a proximidade da escola em relação ao objetivo militar, o major-general português Agostinho Costa avalia que o bombardeio pode ter sido um erro de alvo.

"Já estive em locais submetidos a ataques com mísseis Tomahawk podendo constatar que a margem de erro existe", comentou o especialista em segurança e geopolítica. (com Agência Brasil).

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