quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

'Amanhã é um novo começo', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 17 de fevereiro de 2026 

Amanhã é um novo começo
Por Fernando Gabeira

Escrever numa terça-feira de carnaval amplia a latitude de um artigo político. Ainda mais porque faço hoje 85 anos. Amanhã, começa para valer o ano eleitoral. Poderia escrever sobre o debate entre grandes projetos políticos para o Brasil. Toda eleição, faço isso. Mas a experiência me diz: não vão rolar.

Para que perder tempo? Esta é a última eleição presidencial da minha vida. Com alguma sorte, a penúltima. Não adiantam grandes elucubrações. D. H. Lawrence afirma que é uma pena, ao lermos livros como “O futuro da América” ou “A situação da Europa”, não poder imaginar a pessoa gorda ou magra que dita o texto a uma estenógrafa com bobs no cabelo ou escrevendo, com caneta-tinteiro, marcas no papel.

Aqui, de uma varanda em Ipanema, com uma gata dormindo ao lado do computador, sou capaz apenas de imaginar algumas coisas que podem ser boas para as novas gerações. O Brasil precisa usar racionalmente suas riquezas naturais, completar a transição energética, proteger as florestas. Talvez precise compreender melhor o mundo digital, preparar-se para o bom uso da inteligência artificial, formular um projeto gradativo de autonomia das grandes plataformas.

Vamos discutir segurança pública e compreender, finalmente, que, sem integração de forças, não há saída. Só se integra com confiança recíproca. Isso não vai rolar, pelo menos não com facilidade. Há um grande muro subjetivo nos afastando da solução.

Se os candidatos analisarem o mundo, compreenderão que ele mudou. É preciso diversificar negócios, abrir novas frentes. Lula compreende isso bem. Ninguém viajou tanto quanto ele, nem se tornou tão presente no cenário internacional.

Mas é preciso também aprimorar a segurança nacional. Às vezes, Lula parece não compreender isso, com esse papo de sangue de Lampião. Será preciso investimento nas Forças Armadas e preparação real da sociedade.

De qualquer forma, uma das coisas que precisam ser feitas é jogar o foco nas eleições parlamentares. Também não vai rolar. A experiência mostra que tudo se concentra na presidencial. Mas é preciso advertir que o Congresso, no Brasil, tornou-se muito poderoso. Ele manipula verbas de R$ 50 bilhões, não depende do presidente como antes e teve performance muito medíocre.

Se o resultado das eleições parlamentares for muito diferente, em termos políticos, da presidencial, teremos dificuldades pela frente, com uma força bloqueando a outra. Também não vai rolar, mas valeria a pena discutir um projeto de longo prazo para reduzir a corrupção no Brasil.

Escrevi um longo artigo, na semana passada, com algumas ideias. A gente começou com muito entusiasmo em torno das Diretas. Esse entusiasmo arrefeceu. Não deixem a peteca da democracia cair. Não verei mais de duas eleições por causa da idade. Mas é preciso que elas continuem para sempre.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

Um farol em tempo de concessões

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de fevereiro de 2026

Um farol em tempo de concessões

O legado maior de Ives Gandra Martins é algo difícil de transmitir: uma postura firme diante do mundo. Ana Paulo Henkel para a revista Oeste:

Há épocas em que a coragem não se mede por gestos espetaculares, mas pela recusa obstinada em mentir. Não mentir para os outros e, sobretudo, não mentir para si mesmo. Em tempos de unanimidades fabricadas, de consensos impostos por constrangimento moral e de silêncios comprados pelo medo, dizer o óbvio passou a ser um ato de risco.

Há trajetórias que não se medem apenas por cargos ocupados, livros publicados ou títulos acumulados. Medem-se pela coerência entre pensamento e vida, pela fidelidade a princípios quando eles deixam de ser confortáveis e pela disposição de sustentar limites em tempos que preferem a exceção.

É nesse cenário que o aniversário de Ives Gandra Martins, em 12 de fevereiro, adquire um significado que vai muito além das homenagens protocolares. Não porque ele seja — como de fato é — um dos maiores juristas brasileiros, professor respeitado, autor prolífico, referência no Direito Constitucional e Tributário. Isso tudo será lembrado, repetido, celebrado. No entanto, para mim, profunda admiradora de seu trabalho e de sua coragem, e honrada pela amizade que ao longo dos anos se construiu entre nós, não é aí que reside o essencial.

O que distingue Dr. Ives não é apenas o que ele escreveu, mas o que ele se recusou a abandonar quando muitos decidiram que era mais confortável ceder. Sua trajetória recente, especialmente, é a de alguém que escolheu permanecer fiel a princípios quando eles deixaram de ser bem-vistos; quando passaram a ser tratados como anacronismos morais ou, pior, como ameaças.

Em uma época em que a fé foi empurrada para o terreno do folclore ou da conveniência retórica, ele nunca a escondeu e nem a transformou em instrumento. Sua fé cristã não aparece como slogan, mas como estrutura intelectual: uma compreensão profunda de que o homem é limitado, falível e que, exatamente por isso, o poder precisa ser contido. Não por desconfiança abstrata, mas por realismo moral.

Esse ponto é decisivo. Onde muitos veem a Constituição como um organismo maleável, pronto para ser moldado conforme a “sensibilidade do tempo”, o Dr. Ives sempre viu um pacto. Um limite. Um texto que não pertence aos intérpretes, mas à sociedade que o instituiu. Não por acaso, essa visão o aproximou de um dos maiores juristas do século 20, o juiz da Suprema Corte americana Antonin Scalia.

A amizade entre Ives Gandra Martins e Scalia não foi circunstancial nem protocolar. Foi o encontro de duas inteligências jurídicas que compartilhavam algo raro hoje: a convicção de que o Direito não existe para satisfazer vontades morais momentâneas, mas para proteger a ordem contra o arbítrio — inclusive o arbítrio travestido de boas intenções.

Essa afinidade entre Ives Gandra Martins e Antonin Scalia não se explicava por coincidências biográficas nem por alinhamentos ideológicos superficiais. Tratava-se de algo mais raro: uma convergência moral sobre o papel do jurista em tempos de desordem. Ambos entendiam que interpretar a Constituição não é um exercício de criatividade política, mas um ato de humildade intelectual. O intérprete não é o autor da norma; é seu servidor.

Scalia costumava dizer que uma Constituição que muda conforme a vontade dos juízes deixa de ser Constituição e passa a ser opinião. Ives, em contextos diferentes, sustentou a mesma tese com igual clareza: quando o Direito abandona seus limites, o que se instala não é progresso — é arbitrariedade. E a arbitrariedade, ainda que bem-intencionada, sempre cobra um preço alto das sociedades que a toleram.

Essa postura se tornou especialmente incômoda em um mundo jurídico cada vez mais seduzido pela ideia de “resultados justos”, ainda que obtidos por meios juridicamente frágeis. O problema dessa lógica é simples e devastador: quem decide o que é justo? E com base em qual autoridade? Quando o critério deixa de ser a lei e passa a ser a consciência do intérprete, o Direito se dissolve em moral pessoal.

Dr. Ives nunca aceitou essa confusão. Não por rigidez dogmática, mas por compreensão histórica. Ele sabe, como poucos, que todas as experiências de poder sem freios começam com discursos virtuosos. Nenhum arbítrio se apresenta como tal. Ele sempre chega acompanhado de uma causa nobre, de uma emergência moral, de uma promessa de correção histórica.

É aqui que sua fé reaparece, não como ornamento, mas como antídoto contra a soberba. A tradição cristã que molda sua visão de mundo parte de uma premissa incômoda para o espírito moderno: o homem não é perfeito. E, justamente por não ser perfeito, não deve concentrar poder absoluto — nem político, nem jurídico, nem moral. Essa ideia, que parece simples, tornou-se revolucionária em um tempo que flerta abertamente com a noção de juízes iluminados e instituições infalíveis.

Talvez por isso ele tenha se tornado, nos últimos anos, uma figura tão atacada quanto respeitada. Não porque tenha mudado, mas porque o ambiente ao redor mudou. O que antes era visto como prudência passou a ser rotulado como conservadorismo retrógrado. O que era rigor jurídico passou a ser acusado de insensibilidade. E o que era defesa da Constituição passou a ser descrito como obstáculo ao “avanço”.

Mas há um ponto decisivo: o Dr. Ives nunca respondeu ao ataque com ressentimento. Sua coragem não é ruidosa, não busca plateia nem aplauso. É a coragem tranquila de quem sabe que ceder no essencial pode até garantir conforto momentâneo, mas cobra um preço alto demais no longo prazo — o preço da própria integridade.

Em um país como o Brasil, marcado por ciclos recorrentes de exceção travestida de normalidade, essa postura não é apenas admirável. É necessária. Ives pertence a uma geração que entendeu que instituições não se defendem com retórica inflamada, mas com coerência ao longo do tempo. Que a Constituição não se protege com interpretações elásticas, mas com fidelidade — inclusive quando essa fidelidade se torna impopular.

Há também a lealdade intelectual. Ives Gandra Martins nunca tratou adversários como inimigos morais. Nunca aderiu à lógica da desumanização do outro, hoje tão comum no debate público. Para ele, discordar não implica destruir. Divergir não autoriza silenciar. Essa postura, cada vez mais rara, é talvez uma de suas maiores contribuições à vida pública brasileira.

Num ambiente em que muitos juristas passaram a medir suas palavras pelo humor das redes sociais, o Dr. Ives manteve uma relação quase ascética com a verdade. Disse o que pensava quando isso custava prestígio. Manteve posições quando manter posições significava isolamento. E fez isso sem estridência, sem espetáculo, sem recorrer ao vitimismo que hoje se tornou moeda corrente.

É por isso que seu legado não cabe em listas de títulos nem em homenagens protocolares. Ele está em algo mais difícil de transmitir — e mais difícil ainda de imitar: uma postura diante do mundo. A ideia de que há coisas que não se negociam; de que há momentos em que o silêncio não é prudência, mas omissão; e de que a função do jurista, em última instância, não é agradar ao poder, mas contê-lo. Seu legado recoloca um critério essencial no debate público: o poder não é virtude quando se afasta da lei.

Em tempos de confusão deliberada entre legalidade e legitimidade, entre vontade e norma, entre justiça e desejo, figuras como Ives Gandra Martins funcionam como pontos de ancoragem. Não porque ofereçam respostas fáceis, mas porque lembram perguntas fundamentais — aquelas que o nosso tempo prefere evitar.

Celebrar o aniversário do doutor Ives Gandra Martins é, portanto, mais do que homenagear um homem. É reafirmar a importância da Constituição, da responsabilidade institucional e da coragem intelectual em uma era que frequentemente tenta substituí-las por atalhos.

Em épocas de exceção, a história costuma ser generosa com quem resistiu — ainda que o presente não seja. E é exatamente por isso que Ives Gandra Martins permanece. Não como unanimidade. Mas como referência.

Obrigada, mestre.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Corrupção, O Patinho Feio do Debate Nacional

Artigo copartilhado do site do GABEIRA, de 13 de fevereiro de 2026 

Corrupção, O Patinho Feio do Debate Nacional

Por Fernando Gabeira

Um relatório sobre a percepção da corrupção, realizado pela Transparência Internacional, coloca o Brasil numa posição incômoda: na 107.ª posição entre 182 países. Muito possivelmente não é perfeito. O governo brasileiro responde com outras pesquisas, que mostram um crescimento de confiança no funcionalismo nacional. Argumenta que a pesquisa não capta os esforços que faz para combater a corrupção, que o aumento de certos índices não indica maior corrupção, mas o aumento das ações do Estado para combatê-la de forma efetiva.

Na televisão, o ministro Vinícius de Carvalho, da Controladoria-Geral, argumentou ainda que o combate à corrupção é uma batalha de décadas e que, às vezes, a percepção dela cresce porque os investimentos do governo são maiores. Mais dinheiro, mais possibilidade de desvio. O problema do combate ser de décadas é a dificuldade de mensurar quais os avanços concretos feitos no espaço de um ano, por exemplo.

Falar de corrupção no Brasil, apesar dos escândalos do INSS e do Banco Master, ainda é considerado uma atitude conservadora de direita e que ignora os temas centrais da nossa história. Raimundo Faoro, um dos grandes pensadores do Brasil, talvez não concordasse com essa tese. Sua visão do patrimonialismo é uma explicação para a gênese de nossos problemas modernos. Nela, o Estado nasce antes da sociedade, o acesso ao poder vale mais do que o acesso ao mercado, os cargos são moeda política, os recursos estatais são vistos como uma extensão da propriedade individual.

O Brasil, na minha opinião, precisava de um projeto de longo alcance para reduzir a corrupção. Reconheço que não é fácil. A Estônia obteve algum êxito digitalizando a relação Estado-cidadão. Menos contato físico acabou ajudando a reduzir a corrupção.

No entanto, se examinamos o que houve no INSS, os velhos foram roubados em muitos casos sem nenhum contato ou conhecimento do que se passava. Tudo aconteceu na mediação entre entidades e o Ministério do Trabalho.

Um fator clássico no combate à corrupção é a existência de punição correspondente ao crime. Se não houver punição adequada, ele se torna mais atraente.

Creio que Daniel Vorcaro trabalhava com essa possibilidade no Banco Master. Pagava pelos certificados bancários mais do que podia. Sabia que seu esquema iria para o espaço. Mas baseava seu negócio no Fundo Garantidor de Créditos. Era um equilibrista com rede.

Alguns autores afirmam que a criação de uma burocracia profissional, bem paga e protegida, é uma saída para combater a corrupção. No entanto, no Brasil, temos tudo isso. Os ministros do Supremo são bem pagos, escolhidos – ao menos teoricamente – por mérito e têm uma carreira estável. No entanto, foram atraídos por ganhos extras, seja em palestras patrocinadas, seja na advocacia de parentes, como mostrou o caso Master.

Verdade é que as burocracias profissionais têm mecanismos de controle, enquanto a brasileira parece ter capturado o Estado e consegue inclusive atuar acima das regras. Um exemplo nítido são os supersalários e os chamados penduricalhos, que custam ao País R$ 30 bilhões. Existe um teto salarial determinado por lei, mas que é superado e a pergunta de sempre é: quem fará valer a lei, se grande parte dos beneficiados são juízes ou procuradores?

Na pesquisa sobre corrupção, o Brasil ficou abaixo da média mundial, mas também abaixo da média sul-americana. O Uruguai, embora seja um país menor, apresenta índices muito melhores em termos mais próximos.

Isso remete também ao nosso sistema político. Durante muito tempo, o presidencialismo de coalizão foi apontado como uma causa da corrupção. Um dos exemplos históricos foi o escândalo do mensalão. Hoje, o Parlamento detém boa parte do Orçamento, cerca de R$ 60 bilhões. Visto de longe, parece uma divisão do poder, algo próximo ao parlamentarismo.

No entanto, ao contrário dessa forma de governo, os parlamentares usam essa verba individualmente. Isso produz redundância e estimula a corrupção, principalmente porque, apesar dos esforços da Polícia Federal, não há estrutura para fiscalizar rigorosamente a aplicação do dinheiro ao longo do País.

O Supremo tem tentado colocar alguns limites, combatendo o orçamento secreto e outras barbaridades. Mas as operações concretas para retomar o dinheiro desviado são pontuais, apenas simbólicas, destinadas mais a impressionar do que a corrigir a perda de recursos.

Para alguns analistas, o crescimento econômico, potencialmente, reduz a corrupção. Nesse caso, há mais dinheiro e menos pressão das elites sobre os cofres públicos.

Numa entrevista recente, um homem riquíssimo, Elon Musk, estava denunciando corrupção, inclusive temendo por sua própria vida. As soluções precisam ser integradas, muitas convergências políticas e econômicas precisam estar presentes para combater eficazmente o problema.

Estamos longe disso.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

Não é apenas Toffoli, mas todo um sistema de poder

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 14 de fevereiro de 20264

Não é apenas Toffoli, mas todo um sistema de poder.

Há algo lógico aí: sacrifica-se um personagem fraco, como Toffoli, em nome da preservação de um modelo. Fernando Schüler para o Estadão:

“Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo”, teria dito a ministra Cármen na famosa reunião do Supremo. Revelação do ano. Nunca imaginei que nossos ministros andassem de táxi. O mais curioso foi o “STF futebol Clube”. Suspeição de ministro só em caso de “estupro” ou “pedofilia”. Uma inovação jurídica. O ponto chave: se a PF investiga este ministro, porque ela não investigaria algum outro logo adiante? De modo que o melhor é pensar na “institucionalidade”.

Na prática, sacrificar Toffoli, sob pena dos demais ministros se tornarem “sócios” da crise, como lembrou um jornalista antenado. O que apenas daria munição ao discurso “bolsonarista” contra a Corte. E, no limite, levar a uma “ressignificação dos atos de 8 de janeiro”. Bingo. Há uma campanha eleitoral este ano. Taxistas têm a língua solta, e não dá para prender todos por “ataque à democracia”. De modo que o melhor mesmo é pensar na “institucionalidade”.

O fato é que o tribunal cedeu. Ele que nunca teve limites para praticar a censura prévia contra o outro “lado”, que condenou a 14 anos a moça do Batom, que sempre se jactou de não ceder à “opinião pública”, agora cedeu. E cedeu para a barulheira terminar. Há algo lógico aí: sacrifica-se um personagem fraco, como Toffoli, em nome da preservação de um sistema de poder. Sistema que não admite que um ministro possa sofrer alguma “suspeição”, que resiste a um código de conduta para seus negócios e se ancora em uma concepção algo metafísica de “fé pública”.

Se não havia nada de errado na conduta de Toffoli, por que ele deveria sair? Se não havia razões estritamente jurídicas, por que a Corte deveria se mover? Seria porque uma parte da imprensa, que antes dormia em sono profundo diante das “excepcionalidades” do Supremo, agora acordou?

Dias atrás li um editorial reclamando que Vorcaro não tem “foro”, e logo não deveria estar no Supremo. A turma acordou e descobriu que pessoas sem foro deveriam ir para a primeira instância? O Supremo soa perceber a si mesmo como um poder irresponsável a qualquer controle externo. E é isto que está em jogo.

Se os negócios em um resort são motivo para a suspeição de um ministro, por que um contrato gordo entre seus familiares e a empresa cuja causa irão julgar não o seriam? E por que não perguntar que fim levaram as denúncias de Tagliaferro? Ou pior, se o País começa a rever a história triste dos inquéritos, ou quem sabe desconfiar que nem tudo foi de fato necessário para “salvar a democracia”?

A pergunta agora é o que fará André Mendonça. Ele deveria dar transparência e devolver o processo à primeira instância. Isso de fato melhoraria a imagem do STF junto aos taxistas. Outra pergunta é sobre o Congresso. Se há assinaturas para abrir a CPMI, porque isto ainda está parado na mesa do senador Alcolumbre? Em 2021, o ministro Barroso mandou que a CPI da pandemia fosse instaurada porque era “direito da minoria”. Isto deixou de ser, por alguma razão, no Brasil atual?

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O problema Toffoli

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 13 de fevereiro de 2026

O problema Toffoli

O ministro afunda o STF na crise do Banco Master e se expõe a impeachment. Duda Teixeira para a revista Crusoé:

Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) recorrem frequentemente à retórica da defesa das instituições democráticas para se blindar de críticas diversas.

As últimas notícias sobre Dias Toffoli desta semana inviabilizam completamente essa narrativa.

Se existe hoje uma ameaça às instituições democráticas brasileiras, ela nasce da utilização que alguns magistrados fazem dos seus cargos públicos para obter benefícios pessoais.

Na noite de quinta, 12, Toffoli anunciou que deixaria a relatoria das investigações sobre fraudes no Banco Master.

A decisão, tomada a contragosto, só ocorreu depois que o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, entregou um relatório de 200 páginas ao presidente do STF, Edson Fachin, com menções ao ministro Toffoli ao longo das investigações sobre o Banco Master.

Investigadores que atuam no caso classificaram os achados como "bombásticos" e com capacidade de implodir a República.

No relatório entregue pela PF a Fachin, há troca de mensagens entre Vorcaro e Toffoli, telefonemas entre os dois, um convite de uma festa de aniversário do ministro, referências ao resort Tayayá e pagamentos para a Maridt S.A. e até uma suposta transação de 20 milhões de reais envolvendo a empresa.

No meio da confusão, Toffoli solicitou à Polícia Federal o envio de todas as provas e de todas as conversas extraídas do celular de Daniel Vorcaro. As suspeitas só aumentaram.

Fachin, então, abriu um processo de suspeição de Toffoli e convocou uma reunião de emergência com todos os dez ministros da Corte.

Acuado por todos os lados, Toffoli anunciou que deixará o caso.

Seu gesto pode até ajudar a aliviar a pressão momentânea sobre Toffoli, mas não afastará o risco de impeachment, uma vez que as investigações irão continuar, sob o comando de André Mendonça.

Além disso, o risco de o caso respingar na eleição presidencial e no presidente Lula continuará grande.

Informação de Polícia Judiciária

Um detalhe que pode explicar o desfecho de quinta é que, na papelada que foi encaminhada a Fachin, a PF encaminhou um relatório de Informação de Polícia Judiciária (IPJ).

Trocando em miúdos, um relatório de IPJ é um pré-inquérito, que lista indícios de crimes e sugestões de atuação por parte da autoridade policial.

A PF não pediu para investigar Toffoli, apenas questionou o que fazer diante desse caso inédito.

A sensação era que Toffoli estava agindo mais como advogado de defesa do que como juiz.

Maridt

A pressão contra o ministro ao longo da semana foi tanta que, pela primeira vez, ele admitiu ser sócio oculto da Maridt.

Ao longo da quinta, descobriu-se que a sigla da empresa era uma referência direta a Toffoli. "Mari" deve-se à cidade de Marília, local de nascimento de Toffoli. "DT" são as iniciais do integrante do Supremo. Genial, não?

Na nota oficial divulgada pelo seu gabinete na manhã de quinta, Toffoli admitiu que é sócio da Maridt, mas que não é sócio-controlador, algo vedado pela legislação e pela Lei Orgânica da Magistratura (Loman).

No papel, a empresa tinha como proprietários o padre José Carlos e o engenheiro José Eugênio, irmãos do ministro.

Ambos levam uma vida modesta em Marília, totalmente destoante de quem, em teoria, administra uma empresa que chegou a ter um terço de participação no Resort Tayayá, localizado na estrada do Laranjal, em Ribeirão Claro, interior do Paraná.

“A referida empresa foi integrante do grupo Tayaya Ribeirão Claro até 21 de fevereiro de 2025. A participação anteriormente existente foi integralmente encerrada por meio de duas operações sucessivas, sendo a primeira a venda de cotas ao Fundo Arleen, em 27 de setembro de 2021, e a segunda a alienação do saldo remanescente à empresa PHD Holding, em 21 de fevereiro de 2025”, admitiu o ministro em uma nota oficial, alegando que tudo está devidamente registrado junto à Receita Federal.

Lendo tudo de forma superficial, parece que estamos diante do negócio mais transparente do mundo.

Não é bem assim. A Maridt Participações S.A – ou Marília Dias Toffoli foi fundada em agosto de 2020. Em dezembro daquele ano, tornou-se sócia do Resort Tayayá. Em setembro de 2021, a Maridt vendeu 3,1 milhões de reais em cotas para o fundo Arleen.

O fundo Arleen, depois de comprar a parte da Maridt no resort, aplicou aproximadamente 20 milhões de reais nas empresas responsáveis pelo empreendimento.

O fundo Arleen, por sua vez, recebeu um aporte de 19,9 milhões de reais por meio de outro fundo, chamado Leal. O principal cotista da Leal era Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.

Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores é que a Maridt foi aberta com um capital social de 150 reais e está localizada em um endereço residencial.

Qualquer contador, por mais inexperiente que seja, nunca recomendaria a abertura de uma empresa S.A com um capital social tão baixo.

Impeachment

Tantas incongruências e inconsistências aumentaram a pressão no Congresso pelo impeachment de Toffoli.

Somente na quinta, foram apresentados dois novos pedidos: um do deputado Bibo Nunes (PL-RS), outro do Novo e ainda houve o aditamento de uma denúncia apresentada em 14 de janeiro pelos senadores Eduardo Girão (Novo-CE) e Magno Malta (PL-ES).

Se isso não fosse o bastante, a CPI do Crime Organizado está disposta a quebrar os sigilos dos irmãos de Toffoli e convocá-los a depor. O colegiado também pretende quebrar os sigilos do fundo Reag, que também esteve na cadeia de fundos ligadas ao Tayayá.

“A CPI do Crime Organizado cumpre uma função constitucional de investigar e fiscalizar a atuação de organizações criminosas que se utilizam do sistema financeiro nacional. Não podemos nos omitir diante desse escândalo que continua nos surpreendendo e horrorizando pela gravidade dos fatos revelados”, disse por meio de nota oficial o senador Fabiano Contarato (PT-ES), presidente da CPI.

Além disso, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) protocolou representação à Procuradoria-Geral da República (PGR) para que o órgão apresente ao STF pedido de suspeição do ministro Dias Toffoli na condução do inquérito que apura fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master. E a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) pretende ouvir Vorcaro em 24 de fevereiro.

Reações do poder

Diante de tanta pressão, há uma ala no STF que acredita ser impossível evitar o impeachment de Toffoli, mesmo com as investigações seguindo seu curso.

Alguns líderes partidários concordam que essa poderia ser uma solução negociada, inclusive com a oposição ao governo Lula, e que poderia agradar a gregos e troianos.

Eis algo que começou a ser ventilado: o STF entregaria a cabeça de Toffoli. Assim, salvaria outros ministros da pressão — como Alexandre de Moraes, que também foi citado no caso Master. Lula, então, teria condições de indicar Rodrigo Pacheco (PSD) para a vaga que seria aberta. Com anuência de Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, abriria-se um caminho para a condução sem sobressaltos de Jorge Messias à vaga de Barroso no STF.

Integrantes da oposição ouvidos por Crusoé até endossariam o acordo, mas apenas se a vaga que seria aberta com a saída de Toffoli fosse discutida pelo próximo presidente da República. Essa ideia, contudo, não conta com a simpatia do ministro Gilmar Mendes, decano do Tribunal.

Outra ala, alinhada a partidos do Centrão, teme a crise saia do controle. Essa turma defende que nem Câmara e nem Senado entrem nesse jogo e tentem preservar Toffoli da crise.

Alcolumbre, Pacheco e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), tentaram atuar como bombeiros e sentiram ao longo do dia a temperatura da crise.

Alguns cardeais do Centrão passaram a defender até mesmo a abertura de uma CPI para apurar vazamentos seletivos por parte da Polícia Federal. Felizmente, até o momento, nenhum integrante do Centrão teve coragem suficiente para defender uma ideia esdrúxula como essa.

Com esse tipo de investigação, o Centrão tenta controlar as investigações da PF justamente para debelar o incêndio na origem, antes que a crise do Banco Master atinja outros nomes do Centrão.

Alcolumbre, por exemplo, teme que as investigações tomem outros contornos e ele seja eventualmente citado por integrantes da PF.

Clima de Lava Jato

A revelação do conteúdo do celular de Daniel Vorcaro deve criar nos próximos dias um clima político de Lava Jato, com uma pressão intensa para que políticos e ministros do STF atendam às demandas da sociedade.

“Nós temos uma enorme dificuldade no Brasil de manter uma separação entre interesses públicos e privados. Não raro, grupos econômicos poderosos conseguem capturar parcelas do Estado para benefício próprio”, diz o cientista político Rodrigo Prando, colunista de Crusoé.

“Tudo isso pode ser nitroglicerina pura em um ano eleitoral, em que qualquer motivo pode dar à opinião pública uma sensação de descrença, de desconfiança e de raiva da política, permitindo que figuras de fora, como outsiders, ganhem corpo.”

Eleições em 7 meses

O escândalo, que só tende a crescer ao longo do ano, deve obrigar o presidente Lula a tomar decisões difíceis.

Apesar de Dias Toffoli ser próximo do PT e ter sido indicado por Lula ao STF, o presidente pode não hesitar em rifar o amigo encrenqueiro para preservar suas chances de reeleição.

Outra ação provável, já observada durante a crise do INSS, é argumentar que os podres do Master só vieram à tona porque o governo está fazendo a sua parte no combate à corrupção.

“Lula já está em um franco processo de reposicionamento de imagem. Ele já fez críticas públicas ao Toffoli, colocou o PT para assinar a CPI do Banco Master e não duvido que defenda seu impeachment e renúncia”, diz o cientista político Leonardo Barreto, colunista de Crusoé.

Na terça, 10, Lula chegou a citar em um discurso no Instituto Butantã, em São Paulo, “a nossa briga com o tal do Banco Master”.

O presidente, assim, já atua para tentar apagar as visitas de Vorcaro ao Palácio do Planalto, a resistência da base governista a uma CPMI do Banco Master (mais ampla e certeira) e o fato de que aliados próximos de Lula, como Ricardo Lewandowski e Guido Mantega, receberam pagamentos mensais do Master.

“Com escândalos se empilhando, a chance de o PT equilibrar o jogo ali é muito pequena porque não há nada que ele possa fazer. Mandar políticos do seu espectro criticarem o STF seria uma enorme traição”, afirma Leonardo Barreto.

Toffoli pode até ter largado o processo do Master, mas à medida que as descobertas das investigações vieram para a superfície, seu caso pode ficar ainda mais complicado. Melhor para o país.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

'A Folia dos Supersalários', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 10 de fevereiro de 2026 

A Folia dos Supersalários 
Por Fernando Gabeira (In Blog)

Quando menino, o carnaval era uma festa de acasalamento: Ai, morena/ Seria meu maior prazer/ Passar o carnaval contigo/ Beijar a sua boca e depois morrer.

Aos olhos do adulto, o carnaval é apenas um filtro político. Que enredos sobreviverão a ele, quantos escândalos ainda serão lembrados, pois, no Brasil, depois do carnaval é que começa o ano, com seu sabor de novidade. Algumas CPIs já estão no final, como a do crime organizado e a do assalto aos velhinhos do INSS. Seu último esforço é se agarrar à cauda do cometa, o escândalo do Banco Master.

A do crime organizado tenta convocar Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, para explicar o contrato milionário com o Banco Master: R$ 3,6 milhões por mês, num total de R$ 130 milhões. A do INSS tenta trazer o próprio Daniel Vorcaro. Todas buscam um gran finale para seu trabalho e, com isso, apostam, como nós, que o escândalo do Master tem uma generosa sobrevida depois do carnaval.

Outro tema com expectativa de longa vida é a luta contra os supersalários nos três Poderes da República. O ministro Flávio Dino proibiu os penduricalhos, que elevam os salários às alturas, e pediu regras claras para as verbas indenizatórias. Auxílio-panetone no Natal e auxílio iPhone estão entre os artifícios bizarros para turbinar os salários, assim como excesso de folgas, que passam a ser vendidas como trabalho extra. Segundo alguns cálculos, os supersalários — remuneração de 53 mil servidores — custam R$ 20 bilhões ao ano, com a parcela maior no Judiciário, R$ 10,5 bilhões. Isso para juízes, pois, no Ministério Público, o custo é de R$ 3,2 bilhões.

Os supersalários são aqueles acima do máximo permitido pela Constituição, equivalente ao salário de um ministro do Supremo, R$ 46,4 mil. Com ou sem penduricalhos, quem ganha mais que isso está fora da lei — vale dizer que boa parte dos juízes do Brasil está nessa condição.

A Câmara tem um projeto para regulamentar tudo isso. Nele, não se podem receber penduricalhos, exceto em 30 casos. Equivale simbolicamente a um queijo suíço. De qualquer forma, o Supremo analisará a decisão de Dino e pode dar uma ajuda proibindo os penduricalhos. Isso pode melhorar sua imagem num momento difícil. Apenas melhorar, pois o caso Master continua desgastando dois de seus ministros: Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

Bem que fizeram discursos defensivos na retomada dos trabalhos do Judiciário. Esgrimiram argumentos contra acusações hipotéticas e se esqueceram de responder a seus reais problemas.

Enfim, vamos ver como o carnaval filtra tudo isso para que mergulhemos de novo num ano eleitoral. De novo, teremos esperanças, promessas de novos tempos, enfim, o ritual clássico de uma eleição.

Cada vez mais, no entanto, alguns problemas se repetem tristemente no Brasil, e não encará-los é perigoso, porque a democracia pode ser vista como farsa. Nesse caso, teremos profundo desânimo ou sinal verde para aventureiros autoritários, inclusive no poderoso Congresso.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

O patrocinador da imprensa velha

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 8 de fevereiro de 2026

O patrocinador da imprensa velha

Apesar da queda de leitores, jornais e revistas têm no governo do PT um aliado generoso. Anderson Scardoelli para a Oeste:

Um fato une aqueles que já foram os grandes jornais brasileiros: a fuga de leitores. Em 2015, os 14 maiores diários impressos do país somavam 1,3 milhão de exemplares. Em 2024, a tiragem caiu para menos de 385 mil, segundo dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC) e da consultoria PwC. Retração de 70% em nove anos.

Mas, enquanto a circulação cai, os gastos do governo federal com anúncios em jornais aumentam. Nos três primeiros anos do atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os repasses publicitários da Secretaria de Comunicação Social (Secom) para esse tipo de publicação somam R$ 24,3 milhões, quantia que supera em aproximadamente 50% os R$ 16,3 milhões gastos durante todo o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Com revistas impressas, o roteiro é semelhante. A circulação despenca, mas as ações publicitárias voltam a subir com o PT no poder. Na parte de tiragem, há, inclusive, carência de informações. Os últimos dados públicos auditados pelo IVC são de 2021, quando, juntas, sete publicações registraram média semanal de 220 mil exemplares. Recuo de 30% em relação ao ano anterior. A queda foi de quase 90% na comparação com 2015, quando a tiragem foi de 1,75 milhão.

Apesar da ausência de levantamentos recentes, a tendência é de manutenção na curva de queda na circulação. Afinal, um dos títulos acompanhados pelo IVC, a revista Época, deixou de ser impresso em maio de 2021. Segundo o instituto auditor, a publicação, que era mantida pelo Grupo Globo, deixou o mercado com tiragem semanal média de 30 mil exemplares.

Os dados que mostram o encolhimento das revistas impressas no Brasil não têm, entretanto, sinergia com a estratégia adotada pela Secom no governo Lula 3. Desde 2022, o Executivo distribuiu R$ 10,3 milhões em anúncios publicados por veículos de comunicação desse formato de mídia. Assim como no caso dos jornais, os gastos ultrapassam o valor somado durante a administração Bolsonaro. De 2019 a 2022, o montante repassado foi de R$ 7,2 milhões, 30% menos em relação à atual gestão federal.

Lucas Berlanza, diretor-presidente do Instituto Liberal, não encontra explicações válidas para o aumento da publicidade em jornais e revistas. Para ele, esse tipo de gasto só serve aos interesses de autoridades que buscam manter boas relações com empresários de comunicação. “Um governo não é uma empresa, não concorre no mercado para atrair clientes, pois detém monopólio de suas funções”, diz. “O que ocorre é o uso de dinheiro público para fazer propaganda de si mesmo.”

O deputado federal Evair de Melo (PP-ES) destaca que os dados referentes a anúncios são sintomas de uma equipe gastadora e ineficaz. “O governo argumenta que precisa divulgar políticas públicas”, afirma. “O problema é a desproporcionalidade e a prioridade orçamentária”. O parlamentar lembra o cenário de déficit fiscal elevado, pressão sobre serviços públicos essenciais e aumento da carga tributária. “Nesse contexto, ampliar gastos com comunicação levanta dúvidas legítimas sobre eficiência e razoabilidade.”

Gastos multimídia

A gastança do governo Lula como anunciante também se faz presente no ambiente online. De 2023 a 2025, foram injetados mais de R$ 480 milhões em campanhas publicitárias na internet, o que inclui blogs, sites e plataformas de redes sociais. Cifra acima dos menos de R$ 400 milhões repassados nos quatro anos em que Bolsonaro esteve à frente do Palácio do Planalto.

Professor de jornalismo e mestre em comunicação, Jorge Tarquini ressalta que parte dessa verba teve como destino os cofres de big techs, como a Meta (controladora de Instagram, WhatsApp e Facebook) e a Alphabet (dona do Google e do YouTube). De acordo com ele, a parceria comercial entre grupos de comunicação e o governo de plantão se dá, cada vez mais, de forma multimídia, com acertos que envolvem mais de uma plataforma. Tarquini entende que é, inclusive, uma forma para a mídia em papel ganhar algum fôlego. “Os veículos impressos, apesar da queda impressionante da sua circulação, hoje negociam pacotes que incluem não apenas páginas de publicidade, mas tudo o que o veículo possui, versão online, redes sociais e apps.”

Dinheiro para cinema, rádio e TV

Fora os valores absolutos em jornais, revistas e internet, o governo Lula 3 supera a administração anterior na média anual de gastos com anúncios em outros quatro tipos de mídia: cinema, mídia exterior digital (totens, painéis digitais e aparelhos de TV corporativa), rádio e televisão. A era Bolsonaro só aparece na liderança em mídia exterior (outdoors, banners e painéis físicos).

Em cinema, o governo Bolsonaro gastou R$ 15,6 milhões em ações de publicidade, o que dá a média anual de R$ 3,9 milhões, valor inferior aos R$ 4,4 milhões desembolsados pela Secom de Lula na média nos três primeiros anos da atual administração — com total parcial na casa dos R$ 13,2 milhões.

Lula 3 também vence Bolsonaro na proporção de gastos com mídia exterior digital. Enquanto o liberal entregou, na média anual, R$ 79,1 milhões em anúncios no setor, o petista aparece como responsável por liberar, também na média por ano, R$ 80,6 milhões.

Na conta ano a ano, o atual governo também vence o confronto com a gestão anterior no critério dinheiro entregue a emissoras de rádio. Bolsonaro fechou seus quatro anos com média anual de R$ 62,3 milhões. Lula aparece com mais de R$ 10 milhões de vantagem. Afinal, em três anos, ele distribuiu R$ 218 milhões em virtude de campanhas de publicidade veiculadas em estações radiofônicas espalhadas pelo país, o que dá a média anual de R$ 72,7 milhões.

Quando o assunto é anúncio em canais de televisão, incluindo tanto TV aberta quanto TV por assinatura, Bolsonaro aparece à frente na soma total: R$ 1 bilhão gastos em anúncios durante todo o seu mandato, contra R$ 910 milhões contabilizados pela Secom de Lula em três anos de governo. Dessa forma, o petista supera o liberal na média anual: R$ 303,2 milhões versus R$ 250,7 milhões.

Até o momento, levando-se em consideração que a Secom ainda não divulgou todos os gastos com publicidade em 2025 e que Lula ainda terá quase todo um ano pela frente para patrocinar veículos de comunicação, o governo Bolsonaro supera o seu sucessor tanto em cifras totais quanto na média anual na divisão de mídia exterior. Em quatro anos, Bolsonaro gastou R$ 143,7 milhões com empresas do setor, média de R$ 35,9 milhões a cada ano. Por ora, o integrante do PT contabiliza R$ 92,2 milhões (total) e R$ 30,7 milhões (média anual).

No geral, com todo um ano de mandato pela frente e com gastos com campanhas publicitárias de 2025 ainda a serem divulgados, Lula 3 já se aproxima dos R$ 2 bilhões entregues a veículos de comunicação. Na soma de seus quatro anos de governo, Bolsonaro usou R$ 2,1 bilhões para o mesmo tipo de ação.

Parceria comercial e editorial

A dinheirada que sai dos cofres públicos diretamente para as contas de veículos de comunicação põe em xeque a independência jornalística. Lucas Berlanza, Evair de Melo e Jorge Tarquini concordam que a dependência comercial pode afetar a liberdade da imprensa.

“Infelizmente, a relação entre os grandes veículos de imprensa e o Estado é um problema antigo no Brasil, comprometendo a tarefa de nosso jornalismo”, diz Berlanza, jornalista por formação. “Daí a grande importância de veículos independentes de verba estatal.”

Para o deputado federal, a parceria na parte de conteúdo não é perceptível ao grande público, que, por vezes, acaba influenciado sem ter a real dimensão disso. “O problema é mais sutil: pode haver autocontenção editorial, suavização de críticas, seleção mais cautelosa de pautas ou redução de espaço para questionamentos mais duros ao governo, que financia parte significativa da receita”, avalia Melo. “O dinheiro é público. Não pode se transformar em mecanismo de alinhamento editorial nem em instrumento de fortalecimento político.”

Com mais de 30 anos dedicados a pesquisas na área da comunicação, Tarquini tem opinião similar. “Seria ingenuidade acreditar que o governo utiliza e distribui essas verbas de modo desinteressado, sem a expectativa de algum retorno sob a forma, se não de apoio, de um olhar mais suave para seus erros e outros problemas”, afirma. Para exemplificar, ele faz analogia à cobertura esportiva. “Manchetes em que se abusa das adversativas, criando ressalvas ou para desmerecer algo positivo ou para fazer parecer bom algo ruim: tal time ganhou o jogo, mas jogou mal, ou o contrário: perdeu o jogo, mas jogou bem”.

Por falar em jornalismo político, a expressão “follow the money” (“siga o dinheiro”) ficou famosa durante a cobertura do escândalo conhecido como Watergate, que resultou na renúncia de Richard Nixon à presidência dos Estados Unidos, em 1974. No Brasil, para compreender a linha editorial adotada por certos veículos de comunicação, talvez seja preciso “seguir o dinheiro” oriundo da publicidade estatal.

Longe do caso Watergate, o jornalista J. R. Guzzo (10/7/1943 – 2/8/2025), um dos fundadores de Oeste e diretor perpétuo da publicação digital, definiu anúncios bancados por órgãos públicos como “aberração” brasileira. “O certo, no fim de todas as contas, é que o governo não deveria pagar um único tostão para a mídia publicar sua propaganda”, ensinou Guzzo, em artigo publicado na revista Veja em junho de 2012. “Eis aí mais uma coisa que nos separa, por exemplo, de um país como a Alemanha, onde publicidade oficial não existe. É que a Alemanha, coitada, é apenas a Alemanha. Já o Brasil é o Brasil — aqui há dinheiro de sobra para o governo jogar pela janela.”

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Auschwitz e o dever da memória


Entrada principal do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. 
Esta fotografia foi tirada algum tempo depois da libertação do campo, 
em janeiro de 1945. Polônia, data incerta 

Uma visão geral do campo em 1945

Mulheres sobreviventes se aglomeraram em um barracão de 
prisioneiros logo após as forças soviéticas libertarem o campo de Auschwitz. 
Auschwitz, Polônia, 1945 

Um grupo de judeus húngaros transportados forma uma fila 
na rampa para seleção no centro de extermínio de Auschwitz-Birkenau,
 na Polônia ocupada pelos alemães. Maio de 1944 

Malas que pertenceram a pessoas deportadas para o campo de Auschwitz.
 Esta fotografia foi tirada após a libertação do campo pelas forças soviéticas.
 Auschwitz, Polônia, depois de janeiro de 1945 

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 2 de fevereiro de 2026

Auschwitz e o dever da memória

O Holocausto foi motivado por uma ideologia que via os judeus como um mal a ser extirpado. Erradicar essa verdade da história não torna o passado mais inclusivo ou humano. Torna-o falso. Ana Paul Henkel para a Oeste:

Na manhã de 27 de janeiro de 1945, quando a Segunda Guerra Mundial entrava em seus dias finais e a Europa começava a emergir dos escombros, soldados do Exército Vermelho avançavam pela Polônia ocupada sem imaginar que estavam prestes a atravessar um dos limites mais sombrios da história humana. O que encontraram em Auschwitz-Birkenau não foi um campo de batalha, nem os vestígios comuns de uma guerra em retirada. Encontraram silêncio. Um silêncio pesado, quebrado apenas por corpos esqueléticos que ainda respiravam — e por milhões de vozes que jamais voltariam a falar.

Os soldados não compreenderam imediatamente o que viam. Barracões intermináveis. Fornos. Pilhas de roupas, sapatos infantis, óculos, malas com nomes escritos à mão. Homens e mulheres que pareciam ter envelhecido décadas em poucos meses. Crianças sem infância, sem família, sem futuro. Auschwitz não se revelava de uma vez. Ele se impunha aos poucos, como uma verdade que o espírito humano reluta em aceitar.

Os relatos daqueles soldados descrevem um espanto para o qual nenhuma instrução militar poderia prepará-los. Alguns acreditaram, num primeiro momento, tratar-se de um hospital improvisado ou de um campo de prisioneiros comum. A compreensão veio lentamente e, com ela, o choque moral. Muitos sobreviventes estavam fracos demais para falar. Outros tentavam explicar o inexplicável, misturando línguas, gestos e lágrimas. Havia também os que já não conseguiam chorar: o corpo havia sobrevivido, mas algo essencial já tinha sido levado.

Encontraram crianças órfãs que pareciam idosos, mulheres sem cabelo nem identidade, homens reduzidos a números tatuados no braço. Encontraram também armazéns inteiros cheios de objetos pessoais — malas, fotografias, utensílios simples — a prova silenciosa de que aquelas pessoas haviam chegado ali acreditando que viveriam. Cada mala guardava uma esperança enganada.

Auschwitz não foi revelado ao mundo como um campo abandonado, mas como um sistema em funcionamento interrompido apenas pelo avanço da guerra. Se não tivesse sido libertado naquele momento, teria continuado operando. Esse é um dado que pesa sobre a consciência humana: não foi o arrependimento que encerrou Auschwitz, foi a derrota militar do regime que o sustentava.

Ali, o mal não era explosivo e nem era caótico. Era organizado. Havia horários, listas, funções, turnos. A morte tinha método. O assassinato em massa havia sido transformado em rotina administrativa. Auschwitz não foi um desvio da civilização moderna, mas uma de suas possibilidades quando a técnica se divorcia da moral e a ideologia substitui a consciência.

Mais de um milhão de pessoas foram assassinadas naquele lugar. Judeus, em sua esmagadora maioria, mortos não por crimes, não por escolhas, mas por aquilo que eram. O antissemitismo, elevado à condição de política de Estado, produziu uma máquina de aniquilação sem precedentes. Auschwitz foi o ponto em que o ódio deixou de ser retórico e se tornou industrial.

Quando o mundo finalmente entendeu o que havia acontecido, veio o choque — e depois, o juramento. Nos anos seguintes, os Julgamentos de Nuremberg buscaram algo inédito: responsabilizar indivíduos por crimes cometidos em nome de um Estado. Ali, a humanidade tentou reafirmar um princípio essencial: há limites que nenhuma autoridade pode ultrapassar, e obedecer ordens não absolve o mal.

Nuremberg não foi apenas um tribunal. Foi um esforço moral. Uma tentativa de dizer que a civilização ainda reconhecia a diferença entre o justo e o injusto, entre o crime e o dever. O mundo prometeu a si mesmo que Auschwitz não se repetiria. Que aquele grau de ódio, aquela escala de extermínio, jamais seriam tolerados novamente. A expressão “Nunca Mais” nasceu ali — não como slogan, mas como compromisso civilizacional.

Os Julgamentos de Nuremberg marcaram uma ruptura histórica profunda. Pela primeira vez, líderes de um Estado soberano foram julgados não apenas por perderem uma guerra, mas por crimes cometidos contra a própria ideia de humanidade. Ali, o mundo rejeitou formalmente a defesa que se tornaria tristemente famosa: “eu apenas obedecia ordens”.

Nuremberg afirmou um princípio que deveria ser eterno: há ordens que não podem ser obedecidas, leis que não podem ser cumpridas, autoridades que perdem legitimidade no momento em que violam os limites morais fundamentais. Esse foi talvez o maior legado de Nuremberg — mais importante até do que as sentenças. A ideia de que o indivíduo nunca está completamente dissolvido no Estado, de que existe uma consciência que antecede o poder político. E de que a civilização depende da coragem de reconhecer essa hierarquia.

Quando esse princípio é esquecido, quando a responsabilidade moral é terceirizada, o caminho para novos Auschwitz se abre; ainda que com outros nomes, outros métodos, outras justificativas.
Durante décadas, a memória do Holocausto funcionou como um limite. Auschwitz tornou-se referência negativa absoluta: o ponto a partir do qual se dizia “daqui não passaremos”. Ensinar aquela história não era apenas lembrar o passado, mas vacinar o futuro contra a tentação do totalitarismo, da desumanização e do ódio organizado.

No Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, instituído pela ONU justamente para preservar essa lembrança, a BBC foi obrigada a pedir desculpas após omitir, em sua cobertura, que os 6 milhões assassinados pelo regime nazista eram judeus. Falou-se em “6 milhões de pessoas”. Um detalhe, dirão alguns. Um erro de redação, alegou a emissora.

Mas não é um detalhe. Não é um erro neutro. Quando se apaga o sujeito do crime, o crime se dissolve. Quando se dilui a identidade das vítimas, o ódio que as matou perde forma — e, sem forma, perde também o limite que o contém.

O Holocausto não foi uma tragédia genérica. Não foi um desastre impessoal da guerra. Foi um genocídio dirigido, motivado por uma ideologia que via os judeus como um mal a ser erradicado. Retirar essa verdade da narrativa histórica não torna o passado mais inclusivo ou mais humano.

Torna-o falso.

Não é por acaso que a primeira batalha travada por regimes totalitários ocorre na linguagem. Antes de prender, censurar ou matar, é preciso redefinir palavras, suavizar conceitos, apagar distinções morais. O Holocausto foi precedido por eufemismos. Deportações sem destino viraram “realocação”. Campos de extermínio foram chamados de “centros de trabalho”. O assassinato em massa foi escondido atrás de termos técnicos e burocráticos. A linguagem foi usada como anestesia moral.

Por isso, quando hoje uma grande emissora evita nomear os judeus como vítimas centrais do Holocausto, não estamos diante de um simples erro editorial. Estamos diante de um eco histórico perigoso. A diluição da linguagem sempre precede a diluição da responsabilidade. A história mostra que o mal prospera quando deixa de ser nomeado com precisão.

A relativização da memória não acontece de forma abrupta. Ela começa com ajustes de linguagem, com generalizações convenientes, com o receio de nomear. Aos poucos, o mal deixa de ter rosto, o crime perde autoria, e a história se transforma em uma abstração inofensiva. É assim que Auschwitz deixa de ser advertência e passa a ser apenas um capítulo distante dos livros de história.

Esse processo não é acidental. Toda vez que a memória incomoda o presente, há uma tentação de suavizá-la. Toda vez que a verdade exige coragem, surge a alternativa do silêncio educado. Mas a história ensina — de forma implacável — que o silêncio nunca é neutro.

O antissemitismo, hoje, não veste mais o uniforme do século 20. Ele reaparece sob novas máscaras: linguagem acadêmica, slogans políticos, revisionismo seletivo, ataques simbólicos. Cresce em universidades, nas redes sociais, nas ruas da Europa e do mundo. E cresce, sobretudo, onde a memória foi enfraquecida.

Lembrar Auschwitz não é um exercício acadêmico. É um ato moral. É reconhecer que a civilização depende de verdades inegociáveis: que não existem vidas descartáveis, que não há causas que justifiquem o extermínio, que nenhuma ideologia autoriza a negação da humanidade do outro.

Cada geração acredita, em algum momento, que aprendeu definitivamente as lições do passado. Mas a história é menos otimista. O aprendizado civilizacional não é cumulativo por natureza — ele precisa ser reafirmado, ensinado e defendido continuamente. A memória do Holocausto não é garantida pelo tempo. Pelo contrário: quanto mais distante Auschwitz parece, maior é o risco de que se torne abstrato, simbólico demais, inofensivo demais.

Preservar essa memória exige mais do que cerimônias. Exige honestidade intelectual. Exige disposição para enfrentar narrativas confortáveis. Exige a coragem de afirmar que houve vítimas específicas, algozes específicos e uma ideologia específica responsável pelo maior crime do século 20.
Por isso, o 27 de janeiro não pertence apenas aos museus ou aos livros de história. Ele pertence ao presente. Cada geração recebe Auschwitz como herança moral — e decide o que fazer com ela. Preservar a memória exige esforço, responsabilidade e vigilância constante.

Auschwitz nos lembra que a civilização não cai de uma vez. Ela se deteriora aos poucos, quando aceita pequenas concessões à mentira, quando relativiza o mal, quando troca a verdade pelo conforto.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Ives Gandra: O STF vive uma crise e precisa de um código de conduta...


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 2 de fevereiro de 2026

Ives Gandra: ‘O STF vive uma crise e precisa de um código de conduta para voltar ao que era’.

Jurista é contrário a impeachment de ministros do Supremo no formato atual, mas com um código de conduta o Senado terá poder claro para essas cassações. Entrevista a Roseann Kennedy, do Estadão:

O Supremo Tribunal Federal (STF) realiza nesta segunda-feira, 2, a sessão solene de abertura do Ano Judiciário de 2026. A retomada dos trabalhos ocorre num clima de desconforto entre os magistrados, diante dos desdobramentos do escândalo do Banco Master que fazem a Corte enfrentar uma crise reputacional.

Para superar esse momento, o STF precisa estabelecer um código de conduta para seus ministros e “voltar a ser o que era no passado”. A avaliação é feita pelo jurista Ives Gandra que foi consultor na Constituinte, é advogado e defende causas no Supremo desde 1962.

Embora seja contrário a impeachment de magistrado do STF no modelo atual, Ives Gandra ressalta em entrevista à Coluna do Estadão que o código embasaria esse poder do Senado. “Se um ministro não seguir, estará se expondo ao Senado, que deverá ser muito mais conservador nas próximas eleições”.

Ele também considera que o texto ajudaria a exigir o cumprimento de cinco princípios da Carta Magna: moralidade, legalidade, publicidade (transparência), impessoalidade e eficiência.

Ives Gandra aponta, ainda, que instituições que reúnem advogados e juristas estão unidas na cobrança de um código de conduta no STF. “Indiscutivelmente, o que o STF vive hoje é uma crise. Eu acho que esse momento está sendo ruim para o Brasil, mas bom para as vozes se levantarem e fazer com que eles retornem a ser o Supremo. Pelo menos estamos gritando. Agora as nossas vozes vão ter que ser ouvidas pela crise que está se criando”, conclui.

Na entrevista, ele detalha as normas que precisam ser estabelecidas.

Leia abaixo os principais trechos:

Como o sr. avalia este momento no STF, que enfrenta uma série de questionamentos à atuação de seus ministros?

Veja a situação. Eles, que são defensores da democracia, têm que sair com segurança na rua. Não podem usar aviões de carreira porque são hostilizados. E o povo, que é antidemocrático, enche as ruas. Antigamente, nenhum ministro precisava dizer que defendia a democracia e era admirado. Todo mundo admirava o Moreira Alves (ministro do STF de 1975 a 2003), ainda hoje ele é um símbolo de ministro. Mas hoje você tem cerceamento de liberdade de expressão. Tem que tomar cuidado. Tudo que você fala contra o ministro passa a ser contra o Estado Democrático.

Como o STF pode fazer esse caminho de volta?

Um código de conduta é positivo. O que eu acho fundamental é que, se houver um código e um ministro não seguir, daí ele estará se expondo ao Senado. E deverá ser um Senado muito mais conservador nessas próximas eleições. Quero ressaltar que sou contra o impeachment de ministros do Supremo (da forma como seria hoje), porque abre um precedente perigoso. Então, vai ser mais do que um código moral, será um instrumento que o Senado terá de poder. Eu considero que isso é bom para eles (ministros do STF) e é bom para o Legislativo. Porque assim, na verdade, eles terão que voltar a fazer o que o Supremo era no passado.

O sr. acredita que o ministro Edson Fachin vai conseguir fazer o código de ética?

Sim. Fachin pode conseguir.

O sr. se lembra de outro momento tão crítico em relação ao Supremo?

Indiscutivelmente, o que o STF vive hoje é uma crise. Eu acho que esse momento está sendo ruim para o Brasil, mas bom para as vozes se levantarem e fazer com que eles retornem a ser o Supremo do passado. Por exemplo, São Paulo representa 40% da advocacia do Brasil. As três maiores instituições de advogados e juristas no Estado — OAB, Iasp e Aasp — se manifestaram em defesa do código de conduta. Então você tem unanimidade.

E quais são as críticas à conduta do STF que unem essas instituições?

As instituições criticam as decisões monocráticas e as sessões virtuais. É evidente que sessão virtual não é sessão. Você manda uma sustentação oral, 48 horas antes. Você acha que eles vão ouvir? Não tem uma sustentação. Amesquinharam o trabalho da advocacia. Quando eu fazia a sustentação do Supremo, eu olhava os ministros de frente. Muitas vezes eu mudei o argumento na hora, observando as expressões dos ministros e virei votos.

Quais pontos o código precisa incluir?

Primeiro, sessões virtuais não podem existir. Decisão monocrática tem que ser exceção em caso urgente e imediatamente levada ao plenário, na semana seguinte. Parentes dos ministros não têm que atuar em processos na Corte, e não haver qualquer possibilidade de advocacia administrativa. Os magistrados também não podem participar de congressos patrocinados por empresas com causas a serem julgadas no STF. E não pode haver sigilo. A transparência nós consideramos o mais importante. O povo tem que saber de tudo.

Qual é sua avaliação sobre o inquérito das fake news, que já dura 7 anos e continua em sigilo?

Como é que pode permanecer um inquérito interno sigiloso? Você tem cinco princípios na Constituição que são fundamentais para a administração. Estão no artigo 37: moralidade, legalidade, publicidade que é a transparência, impessoalidade e eficiência. Transparência não tem, tudo é sigiloso. Não existe eficiência. O Supremo precisa voltar a ser o que era.

Outra crítica frequente é que o STF invade competências. Qual é sua avaliação?

O Supremo tem de voltar a ser apenas o guardião da Constituição, não um legislador. O que o STF está fazendo hoje é reconstruindo a Constituição. Reescreveram o artigo 53, no caso Daniel Silveira. Também reescreveram o artigo 19 sobre liberdade de expressão.

O caso Master deixou explícitas relações de ministros e parentes com pessoas ligadas a casos no STF. O que pode ser feito?

Se colocar impessoalidade, não pode haver parentesco, nepotismo direto. Por isso nós estamos pedindo que seja feito um código de ética. E estamos fazendo mais, entrando em uma PEC, um princípio constitucional, para definir o que é transparência do Supremo Tribunal Federal.

Agora vocês estão sendo ouvidos?

Pelo menos estamos gritando. Agora as nossas vozes vão ter que ser ouvidas pela crise que está se criando. Mas eu entendo que, de novo, a nossa voz está sendo ouvida. Ela foi ouvida na democratização. Vocês (imprensa) tinham censura, mas nós pudemos falar. Então nós voltamos a falar.

E vai funcionar?

Tem uma história que eu gosto de contar. O comandante de um voo chega com óculos escuros e braços dados com a aeromoça. O passageiro pergunta o motivo e descobre que o piloto é cego. Mas dizem que é o melhor comandante. Chega o copiloto, da mesma forma, também cego, mas dizem que é o melhor copiloto. Todos ficam em pânico. O avião é taxiado até a cabeceira da pista, começa a tremer e, de repente é aquela gritaria e, finalmente, o avião levanta o voo. O piloto, que é um filósofo, vira para o copiloto e diz: ‘no dia em que eles não gritarem, eu não sei o que vai ser de nós. Nós temos que gritar’.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 31 de janeiro de 2026

Bosco Rolemberg penou mais tempo no cárcere

Legenda da foto: Ana Côrtes, Bosco, Wellington e Laurinha 
Crédito da foto: Cleverton Ribeiro

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 30 de janeiro de 2026

Bosco Rolemberg penou mais tempo no cárcere
Por Marcos Cardoso*

Foi bonita a festa da reparação histórica. Foi concorrida e emocionante a entrega dos títulos de doutores honoris causa ao casal Ana Maria Santos Rolemberg Côrtes e João Bosco Rolemberg Côrtes pela Universidade Federal de Sergipe na tarde da segunda-feira, 26. Foi o reconhecimento da academia aos militantes históricos de 1968 que dedicaram a vida à democracia brasileira, sofrendo na ditadura as agruras da luta pela liberdade.

Presentes ao auditório da UFS, aplaudindo, se emocionando e também se sentindo homenageados, estavam outros resistentes, como Jackson Barreto, Marcélio Bonfim, Benedito Figueiredo, João Augusto Gama, além de Wellington Mangueira e Laura Marques, o outro casal símbolo da sobrevivência ao que pode haver de mais sádico na crueldade humana, a tortura.

Bosco Rolemberg e Ana Côrtes participavam do movimento estudantil na Faculdade de Serviço Social, onde se conheceram. Então militantes da Ação Popular (AP), casaram-se em 1969 e logo entraram na clandestinidade, atuando no ABC paulista, entre 1969 e 1971, e na região canavieira de Pernambuco, de 1972 a 1974.

Foram presos próximo a Caruaru em junho de 1974, tendo sido torturados pelo Dops-PE e pelo Doi-Codi, em São Paulo, durante dois meses. Ana estava grávida de Eduardo, hoje procurador do Tribunal de Contas de Sergipe. Ela permaneceu encarcerada até outubro daquele ano.

Bosco foi transferido para uma cela provisória da Secretaria da Segurança Pública no Recife, onde permaneceu até ser enviado para a Penitenciária Barreto Campelo, na ilha de Itamaracá, em janeiro de 1975. Ficou encarcerado até 20 de março de 1979, quando o Brasil já se preparava para assinar a Lei da Anistia, em agosto.

Três sergipanos foram assassinados pela ditadura instaurada em 1964, segundo relatório da Comissão Nacional da Verdade. O sargento do Exército Manoel Alves de Oliveira, 30 anos incompletos, natural de Aquidabã. Pouco antes do golpe militar, ele foi candidato a presidente do Clube de Subtenentes e Sargentos do Exército, atividade política que certamente o condenou às torturas que sofreu no Regimento Andrade Neves – Escola de Cavalaria, localizado na Vila Militar do Rio de Janeiro, e consequente morte no Hospital Central do Exército, no dia 8 de maio de 1964.

O laranjeirense Lucindo Costa, servidor público em Santa Catarina, onde militava no PCB, desapareceu após fazer uma viagem a Curitiba em julho de 1967. Ele tinha 48 anos, era casado e pai de seis filhos. Já havia sido preso duas vezes como subversivo. Posteriormente, a esposa Elisabeth Baader recebeu a informação de que ele morreu atropelado e foi enterrado como indigente. Era mentira, claro. Foi provavelmente detido, torturado e morto.

Também considerada assassinada pelo Estado brasileiro foi a aracajuana Therezinha Viana de Assis, economista que concluiu o curso na escola que viria a ser parte da UFS, em 1965. Mudou-se para Belo Horizonte, onde foi funcionária da Caixa Econômica Federal. Militante da AP, Therezinha foi presa e torturada por agentes da repressão entre os anos de 1968 a 1972. No início de 1973, exilou-se no Chile, onde fez um curso de pós-graduação na Universidade de Santiago. Passou a militar no Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR). Após o golpe militar que depôs Salvador Allende, Therezinha buscou asilo político na Holanda, onde apareceu morta em Amsterdã.

Outro natural de Aquidabã que foi torturado, mas sobreviveu para contar a história, foi Agonalto Pacheco. Militante desde a adolescência do Partido Comunista Brasileiro, mudou-se para São Paulo após o golpe de 64, onde se alistou na Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella, principal dirigente da luta armada contra a ditadura. Foi preso em janeiro de 1969 quando organizava uma reunião nacional de proscritos. Torturado no Dops de São Paulo para delatar Marighella, que sabia onde estava escondido, resistiu estoicamente. Sobreviveu porque foi um dos 15 presos políticos libertados em troca do embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick.

Deputados estaduais foram cassados, estudantes da UFS foram perseguidos, alguns deles presos na Operação Cajueiro, ocorrida há 50 anos completos agora. Em fevereiro de 1976, 25 sergipanos foram presos arbitrariamente no quartel do 28º BC, alguns foram torturados e 18 foram processados. O então deputado estadual Jackson Barreto, MDB e ligado ao PCB, sofreu a segunda prisão e respondeu a Inquérito Policial Militar.

O petroleiro Milton Coelho de Carvalho foi uma das vítimas mais conhecidas das torturas sofridas na Operação Cajueiro. Ele tinha 34 anos quando foi vítima da violência que o deixou cego. Viveu os 48 anos seguintes na escuridão, até o dia 17 de abril de 2024, quando morreu aos 82 anos.

São histórias de muita luta, suor, sangue e sofrimento. Mas ninguém penou tanto no cárcere quanto Bosco Rolemberg. Foram quase cinco anos atrás das grades, mais de quatro anos na penitenciária de Itamaracá. A história do sergipano e dos outros revolucionários naquele presídio é ricamente contada no livro “Dossiê Itamaracá: cotidiano e resistência dos presos políticos da Penitenciária Barreto Campelo – Pernambuco 1973-1979”, da jornalista Joana Côrtes, filha de Bosco e Ana Côrtes.

Fruto do mestrado no Programa de Estudos Pós-Graduados em História da PUC de São Paulo, o livro lançado pelo Arquivo Nacional em 2015 foi um dos vencedores do Prêmio de Pesquisa Memórias Reveladas 2012.

“O golpe militar foi o grande corte no sonho do povo brasileiro de avançar a democracia política, a independência nacional e os direitos do povo. Sentido dentro de casa. Na pele. A prisão do irmão mais velho, a invasão da casa, a apreensão dos livros. A irmã mais nova esquizofrênica aos gritos em desespero. Assisti ao desmoronamento dos projetos, enclausurei minhas mágoas, chorei, mas com o tempo tomei uma decisão: dedicar minha vida ao povo, ao país. Derrubar a ditadura tinha um gosto de vingança pessoal”. Depoimento de Bosco Rollemberg ao livro escrito pela filha, em 7 de setembro de 2011.

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* Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

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