sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A Falha das máquinas na morte da menina

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 18 de agosto de 2026

A Falha das máquinas na morte da menina
Por Fernando Gabeira (In Blog)

A morte da menina de 13 anos numa transmissão ao vivo na plataforma Discord trouxe um grande e importante debate. Apesar de tantas intervenções esclarecedoras, fiquei com muitas dúvidas.

O Discord comunicou ao governo que suas máquinas de aprendizagem detectaram o problema, mas foram incapazes de mensurar sua gravidade e acionar o alarme. Na verdade, quem parece ter acionado o alarme foi a vigilância humana de um núcleo digital da Polícia Civil de São Paulo.

Minha primeira questão: se as máquinas de aprendizagem foram incapazes de acionar o alarme, não seria o caso de voltarem para a escola, aprenderem melhor a lição? Não sei como funcionam, mas, se obedecem à lógica da inteligência artificial, trabalham basicamente com linguagem.

A história da IA mostra que nem sempre as máquinas de aprendizagem estão maduras para uso humano em sua fase inicial. Esse é o tema de um grande debate entre os grupos que trabalham na segurança de um modelo e os que o desenvolvem e precisam colocá-lo no mercado. Os grupos de segurança querem precisamente evitar tragédias, enquanto os outros precisam correr para responder aos investidores, ávidos pelo retorno de seu capital.

No caso dos grandes modelos de IA, houve muita discussão na época do lançamento do GPT-3. O sistema depende da infusão de milhões de dados, colhidos na internet. É difícil filtrá-los. Nos primórdios, as máquinas produziam textos simpáticos aos supremacistas brancos e elogiavam Hitler.

Um famoso artigo de pesquisa intitulado “Sobre os perigos dos papagaios estocásticos: os modelos de linguagem podem ser grandes demais?” foi durante algum tempo referência no debate. Sua coautora, Timnit Gebru, chegou a perder o emprego pela ousadia de denunciar a imaturidade dos sistemas de IA.

No caso do GPT-3, alguns usuários chegaram a denunciar os delírios do modelo. Se alguém perguntasse sobre o problema da Etiópia, a máquina responderia: o problema da Etiópia é a própria Etiópia; a solução é destruir a Etiópia. Durante a semana, me perguntei se as máquinas de aprendizagem do Discord não sofrem da mesma imaturidade, se não foram postas em ação antes de todos os testes de segurança.

Muitos pesquisadores afirmam que esses sistemas aprendem com a prática. É preciso escala, muita prática para que se aperfeiçoem. Mas a pergunta fundamental permanece: quando estão prontos para a comercialização, qual é a margem de segurança adequada?

Creio que a mesma pergunta vale para os carros autônomos. Dependem da análise de milhões de imagens para rodar com segurança. Essas imagens que absorvem são analisadas por milhares de trabalhadores no Quênia e também na Venezuela. Mas qual o momento para afirmar que estão prontas para sair por aí se dirigindo? Houve casos, nos testes, de atropelamentos de alguém empurrando uma bicicleta. Não notaram a imagem.

Essas reflexões não são uma oposição ao desenvolvimento tecnológico. Ele deveria obedecer às necessidades humanas e sociais de segurança. No entanto, obedece à lógica do retorno do capital investido. Às vezes fico pensando que a menina morta é uma vítima desse mecanismo. Espero que as investigações respondam a essa pergunta e transcendam a questão superficial de banir ou não uma plataforma.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

Juliana Dal Piva ENTREVISTA brigadeiro Carlos Baptista Júnior

Entrevista compartilhada do site ICL NOTÍCIAS, de 20 de agosto de 2026

Ex-comandante da Aeronáutica: Escolha de generais para Defesa alimentou trama golpista

Em entrevista ao ICL Notícias, brigadeiro relata bastidores do governo Bolsonaro e critica escolha de militares para a Defesa

Juliana Dal Piva (Colunistas ICL) *

Carlos Baptista Júnior, brigadeiro e ex-comandante da Aeronáutica, se tornou durante o julgamento da tentativa de golpe de Estado, em 2025, testemunha central de como o ex-presidente Jair Bolsonaro planejou permanecer ilegalmente no poder. Em setembro, ele lança “Eu disse não! – Uma trincheira antigolpista”, pela editora Autêntica, obra na qual ele detalha a experiência durante o governo Bolsonaro.

Em entrevista ao ICL Notícias, ele disse que o general Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa, foi “fraco” ao não resistir às pressões do ex-presidente e analisou que a escolha de generais, na ativa ou recém-passados à reserva, para ocupar a liderança do Ministério da Defesa, alimentou a trama golpista. Além disso, Carlos Baptista Júnior reiterou a afirmação de que estava presente quando o general Marco Antonio Freire Gomes, ex-comandante do Exército, disse a Jair Bolsonaro: “Se o senhor fizer isso (seguir com a minuta golpista) vou ter que lhe prender”.

Confira a entrevista:

ICL Notícias — O senhor abriu o livro falando sobre o dia em que foi à Polícia Federal para prestar um depoimento. É uma curiosidade que muitas pessoas tiveram desde o momento em que o depoimento veio à tona: por que só naquele momento?

Brigadeiro Baptista Júnior — Quando passei o comando, no dia 2 de janeiro, mudei para um apartamento de um amigo na Asa Sul. Acompanhei o 8 de janeiro tendo a visão dos helicópteros sobrevoando e, logicamente, pela televisão. Vi que aquilo era algo muito grave e, imediatamente após aquilo muitos desses fatos foram incluídos nos inquéritos que haviam sido abertos em 2019. E então, eu não estava preparado para receber aquela intimação. Mas eu sabia que ia acontecer uma análise de todos esses fatos e que eu certamente estaria envolvido.

O senhor teve vontade de procurar a Polícia Federal ou a Procuradoria-Geral da República antes daquele momento, ou realmente só esperou ser chamado?

Eu esperei ser chamado. Foi quando se abriu a petição 12.100, né? Que estava ligada a um dos inquéritos abertos lá atrás, em 2019.

Mas, enfim, como ex-comandante da Aeronáutica e como cidadão brasileiro, o senhor não teve vontade de denunciar tudo isso antes daquele momento?

Eu já previa que isso ia acontecer. Talvez, por isso, nunca tive a iniciativa de procurar uma autoridade policial para fazer uma denúncia espontânea.

É que surgiu um questionamento sobre o momento em que isso veio à tona, porque as pessoas não o conheciam.  O senhor é uma pessoa discreta. O general Freire Gomes também. Então, quando surgiram os dois depoimentos, o do senhor e o dele, lá em março de 2024 — um ano e pouco depois de todos os eventos —, ficou a dúvida se os senhores falaram só porque foram chamados pela Polícia Federal ou se foi realmente uma responsabilidade assumida com o Estado brasileiro ao revelar tudo aquilo.

Há muita gente que faz julgamentos a partir do seu próprio ponto de vista, da sua percepção. Até hoje temos pessoas que nos acusam de termos prevaricado por não termos dado ordem de prisão ao presidente. Quem diz isso teria que estar lá dentro. É muito difícil, hoje, do ar-condicionado, do fato já resolvido, fazer esse tipo de julgamento, né? Isso passou. A nossa decisão foi tomada e a história evoluiu, como sabemos.

Há algum momento que o senhor destaca ao longo do seu livro em que se sente a evolução da escalada golpista?  Há algum momento que o senhor marca como aquele em que teve certeza de que se tentaria um golpe de Estado?

Hoje eu conheço muito mais do que conhecia naquela época. Mas, pela minha percepção ao vivo dos fatos, o que mais me chamou a atenção foi a participação do presidente. O primeiro fato que me chamou a atenção foi a presença dele no aniversário do Exército, em frente ao Forte Apache — o quartel-general do Exército —, numa manifestação que pedia intervenção militar. O presidente subiu na carroceria de uma viatura para participar da manifestação. Aquilo não foi bom.

Algum tempo depois, quando o general Fernando ainda era ministro da Defesa, houve na Praça dos Três Poderes, uma manifestação contra o STF e outras demandas de parte da população. Eu sempre tomo muito cuidado ao falar da população e do povo, porque muita gente está sequestrando o que é o povo.

E o presidente fez um sobrevoo de helicóptero — era o helicóptero da Força Aérea, camuflado, não o branco dele, com a porta aberta, da foto do dia seguinte. Era ele, com o general Fernando, sobrevoando a manifestação. Posso citar a escolha de um ministro militar após outro no Ministério da Defesa, e o desfile de blindados da Marinha em frente ao Palácio do Planalto.

Hoje, depois de tudo que li, percebo que muitos jornalistas acham que o presidente Bolsonaro já assumiu com um espírito, ou uma estratégia de longo prazo, de permanecer no poder, ganhando ou não as eleições. Eu sempre discordei disso, embora respeite essa visão. Mas foi crescendo, né? O 7 de Setembro na Avenida Paulista… Eu fui lutando para demover essa ideia o tempo todo. Onde vi que realmente existia alguma coisa foi no dia 14 de dezembro, quando a minuta foi apresentada aos três comandantes.

Brigadeiro, o senhor também acha que essa opção de indicar generais para o comando do Ministério da Defesa contribuiu para que esse processo golpista?

O Ministério da Defesa foi criado em 1999, a exemplo de todos os países do mundo, para estabelecer o controle civil sobre a instituição militar. E aqui eu não estou falando de a pessoa ser civil ou militar — apesar disso importar. Nos Estados Unidos, por exemplo, você pode colocar um militar, mas desde que ele esteja há sete anos na reserva, porque tirar um general, um almirante ou um brigadeiro quatro estrelas que estava na reserva até o mês passado e colocá-lo como ministro da Defesa — muito dificilmente ele terá uma visão homogênea das três forças em todos os aspectos: de emprego, de prioridade orçamentária e de visão operacional.

Nos Estados Unidos, a pessoa precisa ficar sete anos na reserva para poder assumir o cargo. Aqui, tivemos Joaquim Silva e Luna, que é muito meu amigo — hoje prefeito de Foz do Iguaçu —, um excelente oficial. Não estou julgando a capacidade de nenhum deles, mas tivemos quatro oficiais-generais do Exército, de quatro estrelas, seguidamente como ministro da Defesa.

Acho que isso não é bom. E acho que vem de uma visão do presidente Bolsonaro: desde a criação do Ministério, ele fez campanha contra, com ataques ao presidente Fernando Henrique. Ele via isso como uma estratégia para tirar os militares das decisões de primeiro e segundo escalão, o que eu discordo completamente.

O senhor relata no livro que se sentiu muito desconfortável na reunião de acompanhamento da apuração do primeiro turno da eleição de 2022 dentro do Ministério da Defesa. E, um pouco antes, também conta que ocorreram inúmeras reuniões ao longo de 2022, sempre com o mesmo tema da questão eleitoral. Ainda que o senhor só tenha tido certeza da tentativa do golpe no dia 14, já sentia, antes disso, que essa mistura entre política e Executivo estava criando esse clima golpista?

Não tenho dúvida. Comento no livro que, principalmente, após 31 de março de 2022, quando o general Braga Netto se desincompatibilizou para ser candidato a vice-presidente na chapa do ex-presidente Jair Bolsonaro e assumiu o general Paulo Sérgio, o tema básico do Ministério da Defesa foi o que forçou as Forças Armadas a se envolverem nesses temas.

O trabalho do general Paulo Sérgio, durante todo o tempo em que foi ministro, foi muito dedicado ao processo eleitoral. Isso certamente não faz parte das atribuições das Forças Armadas, embora elas sempre possam ajudar no processo eleitoral — como o ITA, a Abin ou a área de TI da Polícia Federal ajudavam, e como todos os órgãos dos partidos também ajudavam.

O problema é que houve uma ligação, ou uma condição imposta pelo presidente — essa é a minha percepção, com base no que ele disse — de que só reconheceria o resultado se fosse aprovado pelas Forças Armadas. E aí foge demais do papel institucional das Forças Armadas.

Ao mesmo tempo em que havia essa pressão sobre o relatório das Forças Armadas — quer dizer, na medida em que a conclusão do trabalho feito pelas Forças Armadas era de que não havia nada de errado, mas também se sentiu obrigado a dizer que não podia afirmar que não achou erro nenhum —, o senhor poderia falar um pouco sobre essa pressão que houve para a emissão daquele relatório?

Bem, durante esse período tivemos três presidentes do TSE: primeiro o ministro Fachin, depois Barroso e, por último, Alexandre de Moraes. Os três ministros abriram a possibilidade de as Forças Armadas se aprofundarem no sistema, né? E aí tínhamos, de um lado — e eu nunca vi dolo nisso —, a necessidade de os militares, se fossem participar de algum tipo de fiscalização, se aprofundarem muito rapidamente num sistema que não é simples.

Então o Ministério da Defesa começou a criar demandas para conhecer e, digamos, melhorar ou fechar portas para um possível acesso não autorizado ao sistema. E o TSE, por sua vez, estava espremido pelo tempo. Quando chegou o segundo turno, o relatório não foi feito; depois do primeiro turno, foi cobrado pelo TCU, e o Ministério da Defesa não entregou. Conto no livro que, entre não dar nenhuma informação sobre o primeiro turno e dar todas as informações correndo o risco de ainda haver algum erro, eu achava que existia uma possibilidade intermediária.

Cheguei a sugerir ao ministro da Defesa para fazer algumas audiências públicas. Isso não foi aceito. A comissão estava um pouco reticente em fazer um relatório final do primeiro turno, e assim fomos até o dia nove. Então, se você pegar o período após o segundo turno — desde a primeira reunião com o presidente Bolsonaro, quando ele se manifestou por dois minutos, ali no Alvorada, sobre o segundo turno, até o dia nove, quando o relatório foi entregue —, foi um clima muito tenso, né? Tivemos aquelas apresentações do argentino Fernando Cerimedo e outras tantas descobertas — entre aspas — de fraudes. Isso tudo foi muito cansativo e exigiu bastante trabalho de checagem, e nós checamos: a equipe de fiscalização checou todas as descobertas.

No dia nove, foi apresentado o relatório final dizendo que não havia sido detectado, em todos os processos de fiscalização, qualquer desvio ou imprecisão. No mesmo dia nove, o TSE agradeceu publicamente e ratificou que as Forças Armadas não haviam encontrado nada e que estavam apoiando a lisura do processo.

Quando chega o dia dez — isso é público, foi mencionado no julgamento do STF, e o próprio ministro Paulo Sérgio disse que se arrependia disso — ele envia o que vou chamar de réplica: um documento público ao TSE dizendo que, embora tivessem mandado um relatório no dia anterior afirmando que não encontraram nada, isso não queria dizer que não pudesse ter havido irregularidade. Isso foi muito ruim, e a partir daí o clima ficou bem pior, a partir do dia 11.

O senhor relata desde o primeiro depoimento que deu à PF que, em certo ponto dessas discussões, o general Freire Gomes chegou a dizer ao ex-presidente Jair Bolsonaro algo como “se o senhor continuar assim, eu vou ter que prendê-lo”. Isso também aparece no seu livro. O que o senhor acha que aconteceu para que o próprio general Freire Gomes recuasse dessa afirmação?

Juliana, não é uma frase simples de se esquecer. Como tenho dito, o general é uma pessoa muito polida, de excelente trato, mas ele sabia que era o comandante do Exército, né? As pessoas distorceram a frase que tenho relatado — foi exatamente a frase que escutei.

Não foi voz de prisão, não foi dita em tom de ironia, tampouco em tom de ameaça. Foi dentro de uma conversa institucional da cúpula militar com o presidente, que começava a se exaltar. Acho que a declaração dele na Polícia Federal vai bem nesse sentido. E deixo aqui registrado que, até hoje, eu e o general Freire Gomes somos muito amigos e temos contatos periódicos — isso não abalou nossa amizade.

Estávamos discutindo possibilidades de estados de exceção, como o que foi usado para tirar os caminhões que bloqueavam as estradas. E foi isso, a partir do dia 11: estávamos discutindo a possibilidade de estado de sítio, estado de defesa. E já havíamos colocado para o presidente, naquela mesa, desde o primeiro dia: “Se o senhor tem alguma intenção de decretar um estado de exceção, já está na hora — ou já estamos atrasados — para chamar aqui o vice-presidente, o presidente do Senado, o presidente da Câmara. Este não é um assunto que se discuta apenas com o ministro da Defesa e os comandantes das Forças.

“Cadê o ministro da Justiça? Cadê o Advogado-Geral da União?” Foi dentro desse contexto de discutir uma hipótese que o general disse ao presidente, no depoimento à Polícia Federal, algo como: “Se o senhor fizer isso sem os pressupostos e sem o processo adequado, vou ter que prendê-lo.” Então, acho que é uma frase forte demais para um ouvinte presente esquecer.

O senhor acha que ele sofreu alguma pressão? O senhor próprio sofreu alguma pressão entre o depoimento da PF, em 2024, e o do STF, em 2025?

Bem, vou falar apenas por mim, ok? Eu não sofri qualquer pressão oficial, nem de pessoas envolvidas nas ações penais, certo? Por que o general fez isso, eu não me arriscaria a analisar — essa é uma pergunta que deve ser feita a ele. Mas mantemos uma amizade muito boa até hoje. Quanto aos motivos que levam o general a falar de uma maneira ou de outra, essa é uma percepção que vocês têm — digo vocês porque o próprio ministro Alexandre de Moraes falou isso, ao ouvi-lo lá no STF. Isso não me cabe avaliar.

Vamos falar da mudança de comportamento do general Paulo Sérgio, ex-ministro da Defesa. Ao longo das nossas conversas — já entrevistei o senhor anteriormente, me parece — e também pelos depoimentos, fiquei com a impressão de que havia uma posição próxima, mais ou menos alinhada, entre o senhor, o general Freire Gomes e o general Paulo Sérgio. Mas, em algum momento, isso muda, e resulta na reunião do dia 14, em que o general Paulo Sérgio chega com a minuta golpista. O que pode ter ocorrido?

Coloco no livro que, desde o início, quando nos envolvemos com as comissões de Transparência Eleitoral, éramos um grupo de cinco: os três comandantes, o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Laerte, e o general Paulo Sérgio. Em determinado momento, o general Laerte parou de frequentar essas reuniões. Aquilo me incomodou, embora eu saiba que as atribuições do chefe do Estado-Maior Conjunto são inúmeras. Inicialmente, achei que ele pudesse estar em viagem, mas logo depois vi que não era isso — que ele havia sido dispensado daquele grupo. Levei isso ao general Paulo Sérgio e recebi uma resposta que não me deixou confortável.

Só soube, agora, ao escrever o livro, que a desculpa que o general Paulo Sérgio deu foi que o afastamento dele fora por sugestão ou solicitação dos comandantes de Força. Fiquei muito incomodado. Perguntei ao general Freire Gomes: “Você solicitou o afastamento do Laerte daquelas reuniões?” Ele disse que não. Então não sei qual foi a razão — por que houve essa iniciativa do general Paulo Sérgio de afastá-lo — e isso hoje me deixa com uma dúvida muito grande.

Depois, passo para a reunião de 5 de julho — ele também já falou sobre isso durante seu depoimento no STF, sobre a maneira como se referiu, em voz alta, a “linha de contato” e a “avançar sobre o inimigo”. Acho que foi apenas uma colocação inadequada da parte dele. Acho que ele estava se referindo  às demandas para melhorar o sistema de fiscalização, diante da impossibilidade de o TSE, tão próximo da eleição, colocar em teste todas as urnas que achávamos que poderiam melhorar o processo. E acho que ele se expressou de maneira inadequada, mas eu não achava que aquilo representasse uma vontade dele de dar, ou apoiar, um golpe de Estado.

Poderia representar uma vontade de permanecer no cargo, mas não através do apoio a um golpe. Isso foi evoluindo: percebi o desconforto dele com o desfile de blindados da Marinha;  e em todas as nossas reuniões no Ministério da Defesa. Sua participação foi sempre no sentido de tentar demover o presidente Bolsonaro de fazer algo diferente de deixar o Palácio da Alvorada e entregar o cargo.

Até que chegamos ao 14 de dezembro, e eu lamento essa característica que ele apresentou, um comportamento de dubiedade entre reprovar qualquer ato ilegal do presidente Bolsonaro e, ao mesmo tempo, apresentar para nós uma minuta de golpe, né? E lamento porque acho que ele não era um golpista.

Ele apresentou para nós uma minuta de golpe, com o objetivo, segundo ele — e podemos acreditar ou não —, de tentar uma unanimidade nas Forças Armadas. Mas foi muito grave, por qualquer razão: se tivéssemos dito sim… Então é isso que trago para dentro do livro: essa dubiedade entre o comportamento dele e algumas de suas decisões.

O senhor nunca mais teve contato com ele depois?

É muito difícil falar isso de um ex-companheiro cearense, como eu, sabendo o quanto ele teve que se esforçar para chegar a comandante do Exército e ministro da Defesa, pelos próprios méritos. Mas acho que ele foi fraco na hora de falar para o presidente “pare aqui”. E era simples assim.

E o senhor não teve mais contato com ele depois do governo, ou mesmo ao longo do processo em que ele estava sendo julgado? Nunca mais? Ou teve?

Tive um contato. Fomos receber, de um grupo de oficiais da reserva em Fortaleza, uma homenagem — não sei precisar a data. Encontrei com ele num fim de semana em Fortaleza, e participamos juntos dessa cerimônia, em homenagem a nós dois e a várias outras pessoas. Foi a última vez.

Mas vocês não chegaram a conversar sobre nenhum desses assuntos?

Quando o processo foi aberto, eu nunca mais conversei com nenhum deles.

O senhor ouviu falar que o general Paulo Sérgio estaria arrependido de não ter tentado uma colaboração premiada para resolver sua participação — quer dizer, assumir a parte dele, mas sem arcar com coisas que não seriam exatamente da responsabilidade dele?

Acho que, num inquérito e num processo sobre um fato tão sério, que exige uma resposta imediata de tanta gente, faço uma crítica: por exemplo, participei de todas as oitivas, e nunca ninguém perguntou ao general Paulo Sérgio algo que poderia ter relação com o que você está falando, sobre ele ter se arrependido de não ter feito a delação premiada.

Nenhum advogado do general Paulo Sérgio, nem o Ministério Público ou ministro do STF, fez a ele a pergunta que me parecia que um dos treze deveria fazer: como essa minuta chegou às suas mãos? Quem lhe entregou? Ou seja, nenhuma das partes — nem a acusação, nem a defesa, nem os juízes — perguntou isso. Isso poderia ser um atenuante, por exemplo, porque não acho que aquilo tenha partido dele.

O general Freire Gomes olhou a minuta, leu, e, no depoimento, disse que ela era semelhante à que foi apresentada na reunião do dia 7 de dezembro, da qual eu não participei, e também semelhante à que foi encontrada na casa do Anderson Torres. E jamais perguntaram ao Paulo Sérgio, pelo menos oficialmente, quem lhe entregara aquela minuta. Acho que isso poderia ter sido um atenuante para ele, se ele tivesse querido falar.

O senhor acha que hoje ainda vivemos uma tentativa de golpe de Estado? Como o senhor vê essa interferência dos Estados Unidos? E o senhor teme uma nova escalada golpista neste ano?

Não, não vejo. No mundo ideal, deontológico, do dever-ser, cada país deveria respeitar integralmente os problemas internos dos outros. Logicamente, isso não existe, né? Há a guerra ideológica — hoje tenho muito medo dessas classificações de esquerda ou direita —, mas as guerras ideológicas levam a blocos ideológicos que tentam também dominar áreas fora do seu território nacional.

Então, a participação de políticos brasileiros tentando influenciar eleições, por exemplo, dos países vizinhos, ocorre há muito tempo, né? Em todos os matizes políticos. E isso é indesejável. Posso citar um caso aqui, para não parecer que estou sendo parcial: a tentativa de apoio do presidente Lula nas eleições da Argentina, e também a dos Estados Unidos na própria Argentina — um lado pela direita, outro pela esquerda. No mundo ideal, isso não deveria ser feito, mas, no mundo político como ele é, isso acontece. Já a participação física de pessoas dos Estados Unidos nessas eleições, eu não acredito, e não vejo a menor possibilidade de um movimento golpista para apoiar qualquer coisa.

Acho que deixamos bem claro que as Forças Armadas não vão se envolver nesse tipo de quebra da legalidade. Essa geração, pelo menos, está cada vez mais distante de todo processo golpista e de tantos movimentos da nossa história republicana. E o que tem que acontecer é o que digo no último capítulo do livro: nós somos os vilões e as vítimas do nosso próprio destino. Tudo começa no voto.

Estamos vendo hoje uma campanha eleitoral de dois blocos populistas que sequer colocaram na mesa um plano de governo, né? Estão indo com as bolhas — verdadeiras ou falsas — daqueles que os apoiam ou os repelem. Mas não acho que haverá qualquer interferência além do que já se observa de qualquer país externo aqui, nem dos Estados Unidos.

O senhor acha que esse processo fortaleceu as Forças Armadas?

A curto prazo… Acho que o processo em si, os fatos em si, fortalecem as Forças Armadas. Outra coisa é a percepção das Forças Armadas — ou seja, uma coisa é que, hoje, as Forças Armadas estão mais fortes, mais cientes de suas atribuições constitucionais; os mais novos viram, nas decisões dos três comandos, uma postura legalista, orientada pela Constituição e pelas leis. Outra coisa é a fortaleza das Forças Armadas: isso não está necessariamente se refletindo, a curto prazo, no grau de confiança que a população tem nelas.

A confiabilidade das Forças Armadas tem um pico de alta no início do governo Bolsonaro, e, a partir dali, vem caindo — e agora teve uma leve recuperação. E, a longo prazo, sempre tivemos, em relação às Forças Armadas, uma desconfiança por parte daqueles que tiveram algum tipo de restrição aos governos militares, ao golpe de 64. No início do livro,  não faço essa distinção entre golpe, movimento e revolução — cada um desses nomes serve para não cumprir a lei, e são dados de acordo com as intenções e preferências de cada um. Mas o governo militar, de 64 a 81, trouxe para as Forças Armadas uma desconfiança de parte da população, principalmente da parte mais à esquerda do espectro. O que aconteceu agora foi que não só os revolucionários de esquerda, mas também os reacionários de direita, passaram a culpar as Forças Armadas pelo não golpe, ou por não terem mantido o presidente Bolsonaro no poder.

O que dissemos foi que não haveria uma quebra constitucional — não à manutenção, na Presidência da República, do candidato que perdeu, dentro da regra do jogo estabelecida. E não estou dizendo que não existam ainda muitos crimes eleitorais no Brasil: comunidades pressionadas pela milícia ou pelo narcotráfico, quilombolas, indígenas, áreas mais distantes da fiscalização. Isso não quer dizer, em momento algum, que não aceitar um golpe nos ligue diretamente a qualquer outro governo.

As Forças Armadas não tinham a intenção de dar um recado de que estão ligadas ao governo A, B ou C. O recado foi: dissemos não ao golpe. Mas isso não significa que concordamos com todos os desmandos, com toda a corrupção, com todos os desvios do nosso país. Isso é secular, e temos que encontrar uma maneira de sair disso. No livro, sugiro que comecemos a pensar em sair dos populismos, que são, antes de mais nada, egoístas — não visam o bem comum.

O que levou o senhor a escrever um livro para contar sua história?

Eu sempre tive vontade de escrever um livro, mas nunca havia chegado a faísca — não tinha tocado meu coração, né? Nessas doze horas em que fui muito bem recebido na Polícia Federal, por todos, pelo delegado Fábio — foi um clima de cortesia, mas também, logicamente, um clima de inquérito; aquilo não era uma reunião de amigos, era um clima de inquérito, em que tive que manter a concentração durante quase doze horas, muito já se sabia, tendo em vista a delação do tenente-coronel Cid —, quando terminou, por volta de uma e meia da manhã, dois agentes bem mais novos do que meus filhos, numa conversa mais informal, de cinco ou dez minutos, disseram: “Brigadeiro, o que estamos vendo aqui, o que já sabemos, o que já apuramos, o que o senhor acaba de contar — isso devia ficar como ensinamento para as gerações futuras.”

Aquilo ficou como uma semente no meu coração. Algum tempo depois, assistindo a um programa de televisão, o Andrei Roman, presidente da Atlas Intel, apresentou duas pesquisas que havia feito sobre o tema “golpe de Estado”. A primeira, feita entre 6 e 9 de janeiro de 2023 — lembrando que o 8 de janeiro está no meio desse período —, trouxe números assustadores: 39,7% da população não acreditava que Lula tivesse tido mais votos do que Bolsonaro; 37% achava que, se o presidente Bolsonaro tivesse lançado mão de algum artifício para não passar o governo ao presidente eleito, isso seria aceitável e não seria interpretado, por esses 37%, como um golpe de Estado.

E o terceiro ponto é que, dois anos depois — e aí já estávamos em meio à Ação Penal 2008, que julgou o Núcleo 1, no qual estava o presidente Bolsonaro —, ou seja, já tínhamos conhecimento de muitas coisas que haviam ocorrido, já tínhamos os testemunhos do Ministério Público e da defesa de cada um, uma nova pesquisa mostrou que ainda 30% da nossa população achava que um golpe de Estado seria aceitável. Isso me pareceu muito preocupante, e eu me perguntei o que poderia fazer para discutir isso.

Fico muito contente de ter conseguido chegar ao final desse livro — não é fácil escrever um livro de 240 páginas com responsabilidade, elegância, fatos, provas e análises. É bem mais difícil do que uma agressão feita num grupo de WhatsApp, ou uma análise leviana numa rede social. E a última pergunta que me fazem, sobre isso, é por que lançá-lo no período pré-eleitoral.

Primeiro, porque eu não podia escrever e publicar enquanto estava na ativa. Segundo, porque também era desaconselhado publicar um livro durante o período das ações penais no STF — ficaria muito estranho eu publicar logo depois de ter sido testemunha. E terceiro, porque precisei de tempo para escrever. Não é um livro para defender A ou B, nem para fazer qualquer propaganda eleitoral.

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* Colunista Juliana Dal Piva - Formada pela UFSC com mestrado no CPDOC da FGV-Rio. Foi repórter especial do jornal O Globo e colunista do portal UOL. É apresentadora do podcast "A vida secreta do Jair" e autora do livro "O negócio do Jair: a história proibida do clã Bolsonaro", da editora Zahar, finalista do prêmio Jabuti de 2023.

Texto e imagem reproduzidos do site: iclnoticias com br

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Eleições: o clamor por um projeto

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 17 de agosto de 2026

Eleições: o clamor por um projeto

Em outubro, o eleitor não deve escolher apenas quem administrará o governo por quatro anos. Deve escolher um rumo. Carlos Alberto Di Franco para o Estadão:

O Brasil não carece de recursos naturais, inteligência ou capacidade empreendedora. Carece, sim, de liderança com autoridade moral, consciência histórica e espírito público. As próximas eleições presidenciais não podem ser reduzidas a uma disputa entre pessoas, partidos ou grupos ideológicos. Precisam colocar no centro do debate um projeto sério e ambicioso de país.

É urgente superar o “nós contra eles”, marca registrada de uma polarização paralisante e estéril. A política brasileira transformou adversários em inimigos. De um lado e de outro, multiplicam-se ressentimentos, radicalismos e desqualificações pessoais. Fala-se muito sobre o passado, mas pouco sobre o futuro. Discute-se quem deve ser derrotado, quando o essencial seria definir o que precisa ser construído.

A questão nacional precisa ocupar o cerne do debate eleitoral. Que país queremos ser nos próximos 20 ou 30 anos? Como transformar nossas riquezas em prosperidade compartilhada? Como recuperar a confiança nas instituições? Como oferecer educação de qualidade, empregos dignos e oportunidades reais aos jovens? Como reduzir a pobreza sem alimentar dependências? Como assegurar o equilíbrio ambiental sem condenar regiões inteiras ao atraso?

A desordem crescente da economia global – marcada por rupturas logísticas, conflitos geopolíticos, guerras e disputas por energia, minerais e alimentos – aumentou o valor estratégico das nações dotadas de recursos naturais. É exatamente o caso do Brasil. Somos uma potência ainda adormecida.

Temos uma das maiores reservas de terras agricultáveis do planeta. Cerca de 12% da água doce renovável do mundo está em nosso território. Dispomos de uma matriz energética relativamente limpa, petróleo, gás e vastas reservas de lítio, grafite, níquel, manganês e terras raras. Temos capacidade empresarial, base industrial, agricultura altamente produtiva e um povo criativo, trabalhador e resistente.

Poucos países reúnem tantas condições favoráveis para protagonizar uma nova etapa do crescimento mundial. Num cenário de insegurança alimentar, crise energética e escassez de minerais estratégicos, o Brasil poderia desempenhar um papel decisivo. Somos vistos pelo mundo como um território de oportunidades. Mas continuamos agindo como se estivéssemos condenados à mediocridade.

Nosso desenvolvimento permanece bloqueado por um emaranhado de entraves burocráticos, insegurança jurídica, instabilidade regulatória e decisões contraditórias. Grandes investimentos são adiados. Obras fundamentais levam décadas para sair do papel. Projetos estratégicos são interrompidos por disputas judiciais intermináveis. O resultado é conhecido: empresas recuam, o capital procura outros destinos e milhares de empregos deixam de ser criados.

Não se trata de negar a importância da preservação ambiental, do controle institucional ou da proteção das comunidades. Trata-se de impedir que instrumentos legítimos sejam distorcidos e convertidos em mecanismos de paralisia. Desenvolvimento e responsabilidade ambiental não são inimigos. Países maduros sabem conciliá-los com racionalidade, ciência e segurança jurídica.

O País precisa destravar seu desenvolvimento. Isso exige simplificar regras, reduzir a burocracia sufocante, garantir estabilidade regulatória e oferecer segurança a quem produz e investe. Exige, ainda, combater a corrupção com firmeza e consistência. A corrupção não é só um desvio moral. É um imposto invisível que penaliza sobretudo os mais pobres, encarece obras, distorce prioridades e destrói a confiança nas instituições.

A eleição presidencial deveria oferecer ao eleitor propostas concretas sobre infraestrutura, educação, ciência, tecnologia, segurança pública, equilíbrio fiscal, reforma do Estado e inserção internacional. Os candidatos precisam dizer claramente como pretendem integrar o território, modernizar portos e ferrovias, estimular a indústria, fortalecer o agronegócio, melhorar o ambiente de negócios e preparar os jovens para as novas exigências profissionais.

O Brasil necessita de um presidente desenvolvimentista, mas desenvolvimento não significa irresponsabilidade fiscal, voluntarismo econômico ou distribuição de favores. Desenvolver é criar condições permanentes para que a economia cresça, a iniciativa privada floresça e as oportunidades cheguem a todos. É combinar responsabilidade social, liberdade econômica, estabilidade institucional e planejamento de longo prazo.

O verdadeiro líder sabe que nenhum grande projeto nacional será construído apenas pela direita, pela esquerda ou pelo centro. Será obra de todos os brasileiros de boa vontade. O País é maior do que os partidos, as ideologias e as ambições individuais. A reconstrução nacional exige diálogo, serenidade e capacidade de ouvir. Exige firmeza nas convicções, mas também respeito pelos que pensam de modo diferente.

A política brasileira foi capturada por agendas curtas, personalismos e conflitos permanentes. O debate público empobreceu. A visão estratégica desapareceu. O interesse nacional frequentemente cedeu espaço ao cálculo eleitoral. É preciso romper esse ciclo.

As próximas eleições apresentam uma oportunidade histórica. O eleitor não deve escolher apenas quem administrará o governo por quatro anos. Deve escolher um rumo.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Moendo Trump: diz que não quer disputar a presidência, poucos acreditam


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 20 de agosto de 2026

Moendo Trump: ele diz que não quer disputar a presidência, mas poucos acreditam

Jon Ossoff propõe apenas ser reeleito senador, mas a maneira como malha o presidente está criando novo padrão de disputa pela Casa Branca. Vilma Gryzinski:

Mesmo negando ambições presidenciais, Jon Ossoff, senador pela Geórgia, aparece com quase 6% das preferências entre os democratas – Kamala Harris, por exemplo, tem quase 30%. Mas o fato é que ninguém está falando de Kamala e todo mundo está falando de Ossoff pela forma agressiva como se refere a Donald Trump, um presidente que “nos jogou irresponsavelmente numa guerra que não sabe ganhar nem terminar”.

É uma forma de agir de presidenciável, não de quem quer ficar modestamente no seu pedaço. Sua crítica mais ferina incluiu a secretária mais próxima de Trump, Natalie Harp – e de certa forma abriu as comportas para que jornalões como o New York Times e o Wall Street Journal publicassem reportagens sobre a proximidade excessiva da assistente com o chefe, entre insinuações de que o relacionamento é intenso demais.

A boataria já tinha aumentado depois que se soube que, na manobra diversionista feita para tirar o presidente da Turquia, quando o receio de um ataque iraniano com míssil portátil levou o Serviço Secreto a retirá-lo num caminhão de comida do Air Force One, embarcando-o em outro avião, Natalie foi das poucas pessoas a acompanhar o presidente.

Ossoff disse que Trump não quer efetivamente fazer o serviço de presidente e prefere “construir seu salão de baile e viajar com Natalie no palácio voador aparentemente indefeso presenteado pelo emir do Catar”.

“O senador Jon Ossoff sabia exatamente o que estava fazendo ao mencionar a ‘viagem com Natalie’ do presidente Trump”, comentou Brian Stelter na CNN.

Só as buscas no Google pelo nome da assistente aumentaram 5 000%. O próprio senador ganhou uma exposição que nunca havia tido antes.

GERAÇÃO MILLENNIAL

A tática de Ossoff, nascido Thomas Jonathan, filho de mãe australiana e pai descendente de judeus da Europa Oriental, é se concentrar em ser reeleito senador pela Geórgia, mas ir abrindo um espaço no debate nacional com as críticas incandescentes contra Trump. Ele fala bem, tem boa estampa e passa uma imagem de vigor e juventude. Tem apenas 39 anos. É o primeiro senador da geração millennial.

É difícil imaginar que alguém derrote Kamala Harris, que teve uma boa votação na última eleição presidencial, mesmo sendo derrotada por Trump. Outro nome forte é o da deputada Alexandria Ocasio-Cortez, com cerca de 10% das preferências.

Mas todo mundo sabe que a política é cheia de surpresas e até 2028 muita coisa pode acontecer. Tanto Kamala Harris quanto AOC não têm a agressividade ferina de Jon Ossoff – e o público democrata pode estar exatamente querendo isso, um adversário que vai para a briga.

Intuitivamente, muitos podem achar que ele faria picadinho de JD Vance, hoje o mais provável candidato republicano, com 40% das preferências desse público, contra 18% para o secretário de Estado, Marco Rubio.

Nas circunstâncias atuais, Trump teria dificuldade em fazer o sucessor. Seus índices de aprovação estão caindo persistentemente – na pesquisa mais negativa, a avaliação positiva bateu em 33%.

O eleitorado, evidentemente, quer mudanças.

Jon Ossoff tem a vantagem de ser suficientemente de esquerda para agradar uma boa fatia do eleitorado democrata, mas não tão radical quanto o atual fenômeno político, o dos socialistas democráticos, que pregam a extinção da polícia e das prisões, fechar as bases americanas no exterior e abolir o Senado, entre outras maluquices.

Se o cavalo selado passar pela sua porta, dificilmente dirá não.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Marcelo Tas ENTREVISTA Pedro Martinelli, para o Provoca de 18/08/2026

 

TV Cultura/YouTube apresentam: Programa Provoca, com Marcelo Tas, que entrevista Pedro Martinelli, em 18 de agosto de 2026.

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Marcelo Tas recebe o fotógrafo e fotojornalista Pedro Martinelli para uma conversa sobre fotografia, jornalismo e as transformações provocadas pela tecnologia.

Com décadas de carreira e uma trajetória marcada pelo trabalho na Amazônia, Martinelli relembra experiências que transformaram sua maneira de fotografar e reflete sobre as mudanças no jornalismo. Entre elas, destaca o fim do papel e a redução das equipes de fotografia nos jornais, que, segundo ele, fizeram desaparecer parte do olhar próprio do fotógrafo.

O fotojornalista também comenta como o uso dos celulares e a produção instantânea de imagens modificaram a cobertura dos acontecimentos e questiona o espaço da fotografia no jornalismo atual.

Na conversa, Martinelli ainda conta sobre os dez anos em que viveu em um barco e percorreu a Amazônia, experiência que mudou sua relação com as pessoas fotografadas e o levou a desenvolver uma nova forma de se aproximar dos personagens antes de fazer uma imagem.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

A guerra depois da guerra

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 16 de agosto de 2026

A guerra depois da guerra

Israel luta para reabilitar 26 mil soldados feridos no conflito de múltiplas frentes. Miriam Sanger para a Oeste:

Para muitos soldados, a guerra não termina quando eles deixam o campo de batalha. Esse é o caso de mais de 26 mil militares israelenses feridos desde 7 de outubro de 2023, cuja batalha agora acontece em um novo palco. A reabilitação física e psicológica tornou-se o grande desafio desses combatentes — e também do Estado de Israel. Essa população junta-se a 60 mil feridos em guerras anteriores e exige atenção imediata e acompanhamento pelos próximos meses, anos ou até mesmo por toda a vida. Entre essas mais de 86 mil pessoas, há um contingente já reconhecido de 31 mil que lidam com graus variados de transtorno de estresse pós-traumático — os sintomas desse distúrbio podem surgir meses ou anos depois do evento motivador.

Segundo o Departamento de Reabilitação do Ministério da Defesa do Governo de Israel, órgão responsável pelo atendimento a militares, a expectativa é de que, até o fim do ano, o número total de feridos de guerra passe dos 90 mil, representando um salto de 40% em relação a três anos atrás. Em 2028, haverá 100 mil soldados em tratamento, metade deles lidando com transtornos psíquicos. Oferecer reabilitação a um contingente deste porte é um desafio tão grande quanto a própria guerra.

Orçamento bilionário

O governo ampliou em 53% o orçamento deste departamento: hoje, ele soma US$ 2,5 bilhões, metade deles direcionada a tratamentos de saúde mental. O sistema já agregou 4 mil novos profissionais às suas equipes médicas desde 2024 e triplicou o número de instituições de atendimento. Ainda assim, o sistema carece de profissionais de reabilitação: atualmente, a proporção é de 750 pacientes para cada especialista.

Uma das peculiaridades da atual guerra é que mais da metade dos feridos tem menos de 30 anos. A Revista Oeste entrevistou o soldado Amit Bar, de 24 anos, para conhecer o impacto dessa realidade. “Muito cedo na vida, nós experimentamos dois extremos. Primeiro, fizemos a escolha consciente de sermos combatentes e de entrarmos em Gaza para lutar por algo maior do que nós mesmos. Mas essa escolha acabou nos levando a uma situação em que já não temos escolha, e agora precisamos conviver com a deficiência pelo resto da vida”, reflete.

Bar fez seu primeiro ingresso em Gaza no dia 1º de novembro de 2023 e foi ferido em 26 de dezembro. Enquanto passava com seu pelotão formado por outros 15 soldados por um beco em Beit Hanoun, terroristas do Hamas detonaram uma enorme carga explosiva, matando dois de seus companheiros e ferindo gravemente os demais. Metade de seu corpo foi soterrada por destroços de um dos prédios destruídos. “Tive certeza de que havia perdido as duas pernas. Por isso, comemorei no hospital quando recobrei a consciência e me contaram que amputaram apenas uma delas”, relembra. Ele passou, até o momento, por 15 cirurgias.

No atual conflito, mais de mil soldados israelenses morreram, 329 deles em um único dia: o fatídico 7 de outubro de 2023.

O dia em que tudo mudou

O Shabat Negro, como é conhecido em Israel o dia 7 de outubro de 2023, transformou a rotina da Organização dos Veteranos Feridos no Serviço Militar, mais conhecida em Israel como Beit Halochem (que quer dizer “casa do combatente”). Ela é a instituição central de reabilitação de soldados e conta com cinco filiais; a sexta será inaugurada em outubro, em Ashdod, no sul do país. De organismo periférico, tornou-se, após o 7 de outubro, um órgão central para centenas de milhares de israelenses. A organização é sustentada por três fontes equivalentes de recursos: o governo, as doações e as mensalidades pagas pelos usuários, que incluem soldados e sua família direta.

O crescimento de sua relevância nacional acompanhou as demais mudanças em torno das Forças Armadas de Israel. O tempo de serviço militar obrigatório foi estendido, assim como o envolvimento de longo prazo de dezenas de milhares de reservistas. O nível de prontidão permanece alto, enquanto Israel luta em várias frentes na guerra mais longa de sua história, fazendo com que a dedicação ao esforço de segurança e a exposição ao perigo deixassem de ser exceção e se tornassem rotina.

O Beit Halochem viu seu público usuário crescer exponencialmente não apenas como resultado da ferocidade da atual guerra, mas também pela evolução das técnicas de atendimento médico realizadas ainda no campo de batalha. “Durante meses, recebemos dezenas e mais dezenas de feridos, dia após dia. Isso também se deve ao avanço da tecnologia dos primeiros socorros, que possibilita salvar a vida de pessoas que não teriam sobrevivido em guerras anteriores, mas seu processo de reabilitação será muito mais complexo e longo”, explica Zivit Kornblau, diretora responsável pelo setor de Fisioterapia de todas as filiais da organização.

“Atendíamos 50 mil pessoas e, em três anos, integramos outras 20 mil. A maior parte delas tem entre 18 e 42 anos. De Gaza e do Líbano chega nossa maior massa crítica. Não são apenas soldados: recebemos também gente do Mossad, do Serviço de Segurança Interno e da polícia”, descreve Moshe Shema, diretor executivo do Beit Halochem.

O papel da organização que dirige, diz ele, vai bem além da reabilitação física. “O objetivo é que encontrem uma comunidade, um lugar onde possam reconstruir a vida com qualidade.” Há uma forte ênfase no esporte como ferramenta de reabilitação, aliado a atividades sociais, terapêuticas e à preparação para os estudos e para a vida profissional.

Sem vergonha, sem julgamento

Quando um visitante chega ao impressionante edifício do Beit Halochem em Tel-Aviv — o primeiro a ser inaugurado, em 1974 —, percebe que ingressou em um universo particular, composto também por cães de assistência, muletas e cadeiras de rodas. Bem perto do lobby do prédio está a entrada para a imponente piscina olímpica, com placas que anunciam o público de cada raia: deficientes, deficientes graves, mulheres, cegos etc. Na frente desta última, há um grande gancho onde o usuário pode prender o seu cão.

Os espaços amplos entre os equipamentos permitem a circulação de cadeiras de rodas e o deslocamento de usuários com deficiência visual. O ambiente é silencioso para respeitar a sensibilidade dos pacientes com transtorno de estresse pós-traumático, e todos os aparelhos foram adaptados para oferecer independência aos usuários em cadeiras de rodas ou com membros amputados. Uma enorme balança permite que os frequentadores se pesem sobre a cadeira de rodas. “Fazer a rotina da academia sozinho é algo que não tem preço”, conta o instrutor Asaf Naon, que há 24 anos trabalha ali. “Em casa, essas pessoas têm apenas quatro paredes. Aqui, elas têm independência, uma comunidade e uma rede de relacionamentos”, descreve.

Rami Pur, de 78 anos, faz parte da antiga geração de frequentadores do local. Na Guerra dos Seis Dias, em 1967, seu tanque foi atingido no sul da Faixa de Gaza, o que o colocou, aos 18 anos, em uma cadeira de rodas. Rami acompanhou a chegada de todas as ondas de feridos da história de Israel — a maior delas havia sido resultado da Guerra do Yom Kipur. Travado em 1973, o conflito contra o Egito, Síria e uma coalizão de países árabes durou apenas 19 dias, mas deixou cerca de 2,7 mil soldados israelenses mortos e quase 9 mil feridos.

Na guerra atual, embora o número de mulheres feridas tenha aumentado em razão de sua maior participação em unidades de combate e forças policiais, veem-se poucas delas na academia. Mas o fato de representarem apenas 8% desse contingente não explica sua ausência naquele espaço. “Elas contam com ambientes próprios para tratamento, pois existem padrões específicos de recuperação do organismo feminino — como, por exemplo, a reabilitação do assoalho pélvico”, explica Zivit, que coordena 165 fisioterapeutas distribuídos por todas as unidades e também por centros menores da organização.

Entre os milhares de jovens atendidos pelo Beit Halochem está Aziz Shukurov, de 23 anos. Ele foi gravemente ferido em Gaza em 25 de janeiro de 2025, quando terroristas explodiram o prédio em que ele se encontrava junto com outros 15 combatentes; cinco morreram e os demais ficaram gravemente feridos. Shukurov sofreu traumatismo craniano e sangramento cerebral, além de ferimentos do pescoço aos pés. Foi mantido em coma por mais de um mês e, depois, permaneceu intubado por outros dois. “Reconstruíram meu crânio com um osso artificial, o qual depois se integrou ao meu próprio osso. Hoje, carrego uma cicatriz de cerca de 24 centímetros na cabeça.”

Um novo protocolo para o tratamento do pós-trauma

Apenas na filial de Tel-Aviv, o Beit Halochem realiza mil sessões de fisioterapia por mês, 1,6 mil de hidroterapia e outras 1,5 mil de terapias complementares. “Em toda a organização, atendemos aproximadamente 14 mil pacientes por ano”, diz Zivit Kornblau. “Eles têm todas as idades e perfis, inclusive veteranos que frequentam nossas casas há décadas e envelheceram conosco.”

Zivit conta que o reconhecimento formal de pacientes com transtorno de estresse pós-traumático é relativamente recente, mas não a convivência com ele dentro dos espaços de reabilitação. “Durante muitos anos, tudo era tratado apenas com fisioterapia e hidroterapia. Aprendemos, na prática, como tratar essas pessoas, como acalmá-las, como conduzir o atendimento e, principalmente, como evitar provocar gatilhos durante as sessões”, descreve.

Hoje há um setor específico para o tratamento da saúde mental no Beit Halochem, mas todos os caminhos da cura se intercruzam no departamento de Zivit. Sua equipe está aperfeiçoando um método que integra todo o conhecimento acumulado tanto no cuidado físico quanto mental em um único modelo de atendimento. “Na minha visão — e na de praticamente todos que trabalham hoje com reabilitação — não existe separação entre corpo e mente. Nossa intenção é estruturar esse conhecimento também como pesquisa científica, para que esse modelo nasça aqui e possa se tornar uma contribuição de nossa organização para o mundo da reabilitação.”

Enquanto esse protocolo é desenvolvido, Israel busca formas de ampliar sua estrutura de atendimento e responder ao desafio que o acompanhará por longos anos. Afinal, é papel do país apoiar as dezenas de milhares de soldados israelenses para os quais a guerra se transformou em um desafio individual e sem prazo para terminar.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

TV 247 ENTREVISTA Simone Tebet

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Uma Defesa Nacional de Portões Fechados

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 14 de agosto de 2026

Uma Defesa Nacional de Portões Fechados 
Por Fernando Gabeira (In Blog)

Falar de defesa nacional como um indivíduo não especialista é um pouco de ousadia. No entanto, é democrático que um tema dessa dimensão possa ser discutido pelo maior número de gente possível.

Esta semana, recebi um artigo que escrevi em O Pasquim criticando, quem diria, o velho Tancredo Neves. Ele havia passado pela Itália e anunciado que na Presidência iria fortalecer a produção bélica no Brasil, que, naquela época, já rendia US$ 3 bilhões em exportações. Minha crítica baseava-se no fato de que o tema era muito restrito ao poder, não havia uma discussão pública sobre o tema. Mas era, também, uma discordância em relação à produção de armas para exportar. O mundo naquele momento parecia rumar para a paz, havia um maior respeito das leis e convenções internacionais.

Mais tarde, como deputado, apresentei projeto proibindo a exportação pelo Brasil das bombas de fragmentação. Havia uma campanha mundial contra elas, inclusive com a participação da princesa Diana. Essas bombas nem sempre explodem, e ficam no terreno como uma ameaça permanente, inclusive contra crianças. O projeto foi rejeitado duas vezes, sempre em nome dos empregos que a produção dessas bombas promove.

As coisas têm mudado e, com elas, mudam também minhas ideias sobre defesa. O ministro José Múcio disse recentemente algo que merece reflexão. Segundo ele, estamos tão mal equipados militarmente que, em caso de invasão americana, seria melhor abrir os portões. Discordo dessa frase, mas tenho um grande carinho pelo ministro, com quem estive na Câmara dos Deputados.

Acho que ainda há tempo de fortalecer a defesa nacional a ponto de dissuadir qualquer tipo de invasão. Naturalmente, isso implica investimentos pesados em algumas áreas que hoje fortalecem a ideia de dissuasão: drones e mísseis. Existe um projeto de construção de mísseis pela indústria brasileira que necessita de uma inversão agora de R$ 400 milhões e, no total, de R$ 1,5 bilhão. Infelizmente, apesar da retórica de Lula também ter mudado, esse dinheiro não aparece. O atraso em projetos desse tipo, creio, acaba dando sentido à frase de José Múcio.

A situação deveria ser completamente distinta. A frase que deveria ser dita é esta: sim, temos condições de nos defender, desde que compreendamos a urgência e a amplitude dessa tarefa.

Creio que países como a Finlândia e a Suécia, vizinhos de Vladimir Putin, já disseram isso há algum tempo, e se preparam cotidianamente para dissuadir. No caso da Suécia, a indústria civil nacional também avalia o que fazer, como atuar em tempo de guerra.

Talvez o presidente Lula ainda não tenha compreendido todos os aspectos dessa grande tarefa, embora já tenha manifestado curiosidade e pedido estudos sobre o tema.

O Congresso passa por cima da discussão sobre defesa nacional como se ela fosse exclusividade dos militares, e aí está o grande equívoco. A defesa nacional depende dos soldados e de uma estrutura profissional. Mas ela precisa ser ajudada por toda a sociedade, o aparato econômico de todas as entidades nacionais. Sem uma liderança efetiva que mobilize a sociedade, dificilmente teríamos algo como a resistência na 2.ª Guerra Mundial, ou mesmo a vitória dos vietnamitas contra os invasores, franceses ou americanos. Essa preparação não tem nada que ver com pânico ou traços de paranoia. Ela precisa ser discreta, bem planejada, de forma que os atores saibam ao menos precisamente o seu lugar. Não há paranoia na Suécia, apenas um trabalho permanente, como têm os japoneses diante de possíveis desastres ambientais.

Arrisco a avançar um pouco no tema, com base na experiência. A defesa da Amazônia, por exemplo, dependerá de mísseis e drones em grande quantidade e de qualidade. No entanto, o Exército tem na Amazônia uma das melhores escolas de guerrilha do mundo. Por que não potencializá-la e formar também moradores da região? Há sempre o medo de que se voltem contra o governo. Mas é preciso administrar os riscos e constituir uma grande força de reserva sob o controle nacional. Se constituirmos uma grande barreira de mísseis e drones, presença nos rios e uma parte da população preparada para a resistência, a vida não será fácil para o invasor.

Tudo isso pode parecer meio delirante, fora da realidade. Mas é preciso discutir. A ideia de que o tema não importa ou mesmo de que é preciso ter apenas as Forças Armadas, sem questionar sua eficácia, na dissuasão não é adequada sobretudo para nossos tempos. E o problema central é que a tomada de consciência tardia pode nos custar muito.

Se a tese de que não vamos abrir os portões é válida, precisamos nos preparar para ela aqui e agora. As eleições são uma oportunidade para questionar não apenas os candidatos à Presidência, como também os que pretendem ocupar o Congresso. Até que ponto podemos contar com eles para que assumam suas responsabilidades e parem de empurrar o tema com a barriga, como se o mundo não tivesse mudado?

Continuaremos tendo a luta pela paz como o fundamento de nossa política externa, mediando, dentro das possibilidades, todos os conflitos para que sejam solucionados com o diálogo. A capacidade de dissuasão não é contraditória com nossa política de paz. Ao contrário, ela é seu complemento ideal.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

sábado, 15 de agosto de 2026

Veja quem são os candidatos ao governo de Sergipe em 2026

Publicação compartilhada do site G1 GLOBO SE., de 6 de agosto de 2026 

Veja quem são os candidatos ao governo de Sergipe em 2026

As candidaturas ainda precisam ser registradas na Justiça Eleitoral até o dia 15 de agosto.

Por g1 SE

Sergipe tem seis candidatos ao governo do estado. Os nomes foram definidos durante o período de convenções partidárias, encerrado nesta quarta-feira (5). São eles:

Dr. Helton Monteiro (PSOL)

Emanuel Cacho (PSDB/Cidadania)

Fábio Mitidieri (PSD)

Ricardo Marques (PL)

Valmir de Francisquinho (Republicanos)

Taty Cristina (Democracia Cristã)

As candidaturas ainda precisam ser registradas na Justiça Eleitoral até o dia 15 de agosto. A campanha eleitoral, com propaganda dos candidatos, começa oficialmente no dia seguinte, em 16 de agosto.

O primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro. Caso seja necessário, o segundo turno será realizado em 25 de outubro.

O médico e presidente licenciado do Sindicato dos Médicos em Sergipe (Sindimed), Helton Monteiro, é o candidato ao governo de Sergipe pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Helton Monteiro também atou no movimento estudantil em Sergipe e é conselheiro estadual de saúde e membro do Conselho Municipal de Aracaju.

O advogado Emanuel Cacho anunciou que vai concorrer ao cargo de governador pela federação PSDB/Cidadania. Cacho foi secretário de Estado da Justiça em Sergipe de 2003 a 2006, quando foi eleito suplente de senador na chapa com Maria do Carmo. Também foi presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas.

O atual governador de Sergipe, Fábio Mitidieri (PSD), vai concorrer à reeleição nas eleições de outubro deste ano. Formado em administração, Fábio já atuou como deputado federal por Sergipe e foi vereador de Aracaju por um mandato. Ele também já foi secretário Municipal de Esportes da capital sergipana e secretário de Estado do Trabalho em Sergipe.

Ricardo Marques foi anunciado como candidato ao governo de Sergipe pelo Partido Liberal (PL) em aliança com o Podemos e o Novo. Ele foi eleito vice-prefeito de Aracaju na chapa com Emília Corrêa em 2024. Marques é jornalista e foi vereador por Aracaju durante um mandado (2021-2024). Recentemente, saiu do partido Cidadania e anunciou a ida ao PL para concorrer nas eleições deste ano.

Valmir de Francisquinho (Republicanos) renunciou ao cargo de prefeito de Itabaiana e foi confirmado para concorrer ao cargo governador de Sergipe nas eleições de outubro deste ano. Valmir foi eleito três vezes prefeito da cidade de Itabaiana nas eleições de 2012, 2016 e 2024. Além de ter sido vereador do município em outros 5 mandatos. Ele estava filiado ao PL, mas anunciou a ida junto ao seu agrupamento para o Republicanos neste ano.

O Partido Democracia Cristã (DC) confirmou, nesta quinta-feira (6), que oficializou a candidatura da jornalista, empresária e palestrante, Taty Cristina, ao governo de Sergipe. O presidente do partido, George William Leandro Barbosa, informou à TV Sergipe, que só vai se manifestar sobre as candidaturas na próxima semana.

O registro do anúncio foi formalizado junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no dia 1º de agosto. Para o cargo de vice-governador, foi indicado o nome de Simeão Barbosa. A legenda também formalizou os nomes de Paulinho da União Tur e de Renatinha para concorrer ao Senado.

Texto e imagens reproduzidos do site: g1 globo com/se

terça-feira, 11 de agosto de 2026

"O Brasil não está só", por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 11 de agosto de 2026

O Brasil não está só 
Por Fernando Gabeira (In Blog)

Um autor argentino que nos visitou recentemente mandou mensagens para os amigos, lamentando os ataques de Milei a autoridades brasileiras. Segundo ele, essas patacoadas não representam grande parte do país.

Não há dúvida de que nem todos na Argentina aprovam a forma como Milei expressa suas posições. Assim como não deve haver dúvida de que os Estados Unidos não apoiam, em sua maioria, as escaramuças diplomáticas que o governo Trump usa contra o Brasil.

Para começar, as próprias tarifas aplicadas ao Brasil e a outros países sofrem grande resistência interna. Vinte e cinco estados americanos entraram na Justiça condenando a decisão de Trump de taxar sob o argumento de que os países não combateram adequadamente o trabalho forçado. Os estados governados por democratas consideram a taxação contrária à lei.

Nas escaramuças diplomáticas, o Brasil não está só. A revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti é apenas uma decisão arbitrária entre muitas que os Estados Unidos vêm tomando.

A França sofre o mesmo tipo de pressão. O embaixador Aurélien Lechevallier não consegue receber o agrément de Trump. A razão: a delegação francesa criticou um voto americano na ONU, contrário à renovação do mandato do alto comissário de Direitos Humanos, Volker Türk. Os Estados Unidos votaram com Rússia, Coreia do Norte e Nicarágua, e os franceses fizeram aquele clássico comentário: quem te viu, quem te vê.

O caso mais grave aconteceu com o embaixador da África do Sul nos Estados Unidos. Ebrahim Rasool fez postagens no X criticando o movimento de supremacia branca. Associou as críticas de Trump à África do Sul, por suposta perseguição aos brancos, à tentativa de enfraquecer um país que luta contra o supremacismo.

Aqui no Brasil, o país examina o agrément para o embaixador de Trump, Daniel Perez. O Brasil se apoia na Convenção de Genebra, e Trump há muito deu um pontapé em todas as regras internacionais. Ele mesmo declarou que se orienta pela própria cabeça, e não por convenções internacionais.

Estamos falando uma língua diferente de Trump. Mas não estamos sós. Neste momento, toda a querela com o governo americano fortalece a campanha de Lula. É razoável que seja usada como trunfo eleitoral.

Mas eleições passam. E Trump continua por lá, possivelmente tentando eleger Vance ou Marco Rubio. É preciso pensar nesse longo prazo e nas inúmeras dimensões preparatórias que ele pede. Soberania transcende a palanques e discursos inflamados.

Neste momento, já é necessário compreender que não estamos sós, ampliar relações comerciais, alianças políticas e contar com mudanças nos Estados Unidos. Por meio de uma simples alteração na correlação de forças nas eleições de novembro, Trump pode perder uma das Casas do Parlamento. E não mais será o mesmo. Não terá paz para isso.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

"Difícil moralidade", por Denis Rosenfield

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10 de agosto de 2026

Difícil moralidade

A sociedade brasileira acha-se, por assim dizer, anestesiada, congelada em termos de ética na política. Artigo do professor Denis Rosenfield para o Estadão:

Há muito tempo, talvez as pessoas nem mais se lembrem, havia um partido que defendia a ética na política, sendo ela uma bandeira ostentada com coragem. Insurgia-se contra os partidos, considerados de direita, que abocavam para si uma parte dos recursos públicos, navegando na ilegalidade e na impunidade. Clamava, com toda a razão, por uma regeneração da política, colocando-se como seu porta-voz e representante. Criou toda uma aura que marcou aquela época e lhe pavimentou o caminho para o poder. Ora, lá chegando, o PT começou a trilhar os passos daqueles que criticava, arriando a bandeira que deixou, assim, de tremular. Hoje, nem disso mais se fala.

Apesar da Lava Jato, que escancarou a corrupção e a imoralidade de Lula e do PT, e talvez por isso tenham os seus atores caído na desgraça, o atual presidente conseguiu assegurar a sua reeleição, com o partido perpetuando-se no poder. O então juiz Sergio Moro fez uma enorme contribuição à história do País, não tendo, apesar disso, sido reconhecido pelos seus enormes acertos. A moralidade, do ponto de vista da estratégia política, tornou-se, então, um instrumento descartável, como se não mais tivesse nenhuma utilidade.

De nada adianta, diante dos assuntos recorrentes de imoralidade, como os mais recentes de seu chefe de Gabinete, Marcola, e de um senador muito próximo a ele, o presidente simplesmente declarar que foi declarado inocente em seu julgamento, como fez de novo recentemente. Age como se tivesse lições a dar. Sabe-se que isso não ocorreu, mas o que houve foi a anulação de seu processo por uma suposta falha processual, a de que teria havido um problema relativo à questão do “juiz natural”. Curioso que tudo isso foi “descoberto” anos depois, apesar do próprio Supremo Tribunal Federal (STF) ter reiterado que essa questão nem se colocava. As provas abundantes do sítio de Atibaia e do apartamento do Guarujá lá estão, embora nem mais se queira falar disso. O “mensalão” e o “petrolão” aí estão para quem quiser pensar. Em todo caso, a narrativa da inocência é uma mera fake news, segundo a linguagem atual.

O filho do presidente, Lulinha o pródigo, enfrenta uma série de acusações, que remetem ao escândalo do INSS e a tráfico de influência, com sua amiga lobista atuando junto ao Palácio do Planalto, em conluio com o “Careca do INSS”, arquiteto e principal operador dessa fraude. Deve ter acreditado que com tal apelido, nada nele colaria. São pessoas idosas que foram prejudicadas e, pasmem, foram ressarcidas com o dinheiro público, dos pagadores de impostos, como se assim Lula tivesse reparado a injustiça cometida. Pagou com os recursos dos outros a fraude de seu próprio governo. Assim, é fácil ser “justo”. Agora, tudo isto explode na sala ao lado de sua própria sala, na chefia do Gabinete, graças a uma pessoa de sua estrita confiança. Ademais, chegou a declarar que se trata apenas de um “empréstimo”! Na campanha, tudo é feito agora para isolar o presidente-candidato, como se a impunidade não fosse a marca de seus governos.

Do outro lado do espectro político, o seu opositor eleitoralmente mais importante nada tem a apresentar no que diz respeito à ética. Neste sentido, para além de sua falta de projeto nacional, escancara-se a mesma ausência de moralidade. No passado, pairam sobre ele ligações com as milícias, a rachadinha que supostamente praticava e a compra mal explicada de uma mansão em Brasília. Trilhando o caminho de seu adversário, também achou que poderia contar com a tolerância ao crime, visto que condenações são demoradas e, quando ocorrem, são suscetíveis de anulações a exemplo da Lava Jato. Foi aí que o passo mais arriscado foi dado, o de suas relações com o “empresário”, hoje preso, Daniel Vorcaro.

Pretender que não houve nenhum problema em pedir dinheiro para um filme sobre o seu pai, estipulado em mais de R$ 120 milhões, tendo recebido em torno da metade disto, significa zombar da inteligência alheia. Justificar que nada sabia desse enorme crime financeiro, cometido por seu banqueiro de estimação, não fica literalmente em pé. Ainda ousou cobrar a outra metade não paga quando os seus crimes e fraudes já tinham se tornado públicos. Isso significa que o Brasil se encontra sem alternativa viável, salvo se alguns dos candidatos do segundo pelotão, Caiado, Renan e Zema, ainda consigam se tornar competitivos.

Note-se que o Brasil está num nível de polarização em que candidatos que não apresentam problemas jurídicos e de moralidade não são reconhecidos como alternativas no sentido estrito. A sociedade brasileira acha-se, por assim dizer, anestesiada, congelada em termos de ética na política. Vive-se uma descrença generalizada na classe política, que mais se preocupa consigo do que com os destinos do País. O Brasil corre um sério risco de enfraquecimento de suas instituições, pois se essas não produzirem adesão, sua existência termina por ser comprometida. A complacência com questões morais por parte dos eleitores pode cobrar o seu preço.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

"Eu, Giorgia": a autobiografia de Meloni antes de chegar ao poder



Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 9 de agosto de 2026

"Eu, Giorgia": a autobiografia de Meloni antes de chegar ao poder

Antes de ser premier, Meloni elogiava Trump e queria aproximação à Rússia (mas antes da Ucrânia). Criticava o "eixo franco-alemão", com quem se tem entendido. O Observador publica excertos de "Eu, Giorgia":

Giorgia Meloni tornou-se primeira-ministra de Itália em 2022 e, desde então, tem feito um percurso muito diferente do que as suas origens pareciam indiciar. Membro dos Fratelli d’Italia (Irmãos de Itália), tem mantido no poder o conservadorismo das suas ideias, mas não adoptou um registo de confrontação face a Bruxelas; depois da invasão da Ucrânia deixou de defender a aproximação à Rússia e as relações com Donald Trump têm tido altos e baixos.

Em 2021, ainda antes de chegar ao poder, Meloni publicou um livro de memórias intitulado “Eu, Georgia”. Nele explanava a sua história de vida e as suas ideias políticas, numa espécie de longa confissão para se dar a conhecer aos italianos. O livro, que chegou agora a Portugal pelas mãos da D. Quixote, dá a conhecer as convicções da mulher que conseguiu liderar um dos governos italianos mais estáveis dos últimos anos. Mas também ilustra como Meloni adaptou algumas das suas propostas ao exercício do poder. O Observador publica excertos da autobiografia em que a primeira-ministra italiana se debruça sobre as suas ideias patrióticas e as suas propostas para a política externa de Itália.

Penso que o único “governo dos melhores” em que a Itália deve ter esperanças é um governo de patriotas. De pessoas tão corajosas e enamoradas desta nação, que não estejam dispostas a trocá-la por nada ou por ninguém. Eis a verdadeira revolução de que precisaria a nossa nação. Eis a missão dos Fratelli d’Italia e, como eu o vejo, de todo o centro-direita.

Porque, no fim de contas, a dinâmica política e histórica daquilo que está a acontecer em Itália é, na realidade, bastante simples se, também aqui, for olhado com distanciamento, como poderia fazer um observador externo. Quando uma nação de dimensão média vive uma fase de fraqueza – e é bem o caso da Itália de 2011 até hoje –, está por força sujeita às ingerências dos Estados vizinhos. Isto cria, no interior dessa nação em dificuldades, um confronto político entre quem reputa que seja melhor colaborar com o vizinho incómodo e pôr-se numa prudente posição de subordinação e quem, pelo contrário, reivindica a plena soberania e independência da nação. Nalguns contextos, esta contraposição degenera em recontros sangrentos, noutros permanece, felizmente, no âmbito da dialética política. Em Itália, este confronto manifesta-se entre quem reivindica “mais Europa” e quem se identifica como patriota. De um lado, quem está convencido, embora até de boa-fé, de que a posição certa da Itália seja a de Estado subalterno a uma UE em mãos do eixo franco-alemão; do outro quem, pelo contrário, reivindica para Itália um papel de igual dignidade à dos outros Estados fundadores da UE. Simplificando: de um lado o Partido Democrático, partido “colaboracionista” das ingerências estrangeiras, do outro os Fratelli d’Italia, o partido dos patriotas. E estou convencida de que será sempre mais nisto que reside a bipolaridade dos próximos anos em Itália. Porque, no fundo, a esquerda, mas não só ela, pensa que os italianos não são capazes de “andar na linha” sozinhos e que, por isso, é preciso uma espécie de acionista oculto com direito de veto sobre as opções nacionais que nos ensine como redimir-nos dos nossos pecados atávicos.

E eu não estou de acordo. Creio que os nossos vizinhos são por demais ciosos em ocupar-se dos seus interesses nacionais para nos dar uma ajuda sincera, e não viciada pelo seu egoísmo, nas nossas dificuldades. Creio que os únicos que podem tirar Itália da sua situação difícil somos nós, italianos, com um pouco de renovada coragem e amor-próprio.

"Há uma América profunda representada por setenta e cinco milhões de eleitores que votaram em Donald Trump e que não podem ser ignorados como se fossem todos uns exaltados com os cornos e a pele de bisonte. Muitos dos seus argumentos são também os nossos"

Reconstituir a relação entre o povo e o Estado é a tarefa histórica que nos cabe. É preciso um movimento de patriotas que interpretem autenticamente o espírito da nação, que defendam os seus interesses culturais, estratégicos e económicos. E, numa nação dividida e fragmentada, o dever dos patriotas é antes de mais o de recoser as muitas feridas que herdámos. Recordo que as teses fundadoras da Alleanza Nazionale afirmavam com coragem que era necessário recompor uma memória histórica partilhada que superasse as grandes fraturas da história italiana recente. E, todavia, isso hoje já não chega: um movimento de patriotas deve ter sobretudo uma visão de longo prazo, defender a identidade italiana como casa segura onde criar os nossos filhos e dar-lhes um futuro de serenidade, segurança, justiça e prosperidade. A pessoa individual está demasiado sozinha neste grande mundo, e o mundo inteiro é demasiado vasto e maravilhosamente rico de diversidade para nos servir de morada. O “cidadão do mundo” não é senão aquele que, incorrendo na ilusão de que pode fazer do mundo inteiro a sua casa, descobre a certa altura ser um “sem-abrigo”. Por isso temos ainda necessidade de pátrias. Sobretudo na nossa época.

(…)

Ocuparmo-nos de política externa significa para mim, em primeiro lugar, promover e proteger os nossos interesses nacionais. Para muitos outros quer dizer, pelo contrário, armar-se em fãs desta ou daquela potência económica. Nós, dos Fratelli d’Italia, não somos “filo” de nada e de ninguém, os fios quem os tem são as marionetas. Nós olhamos sempre para todas as questões de política externa na perspetiva de Itália. E eu tive oportunidade de verificar que essa nossa característica é muito apreciada no estrangeiro, muito mais do que a de quem se arma em cheerleader com pompons coloridos, crachás e camisolas, tipo a nossa esquerda com Obama, Macron, Merkel ou Biden. Vem-me à memória um aforismo de um rei espartano citado por Plutarco: “Falando com um estrangeiro que se gabava de ser considerado pelos seus concidadãos um filoespartano, disse-lhe o rei: ‘Seria melhor para ti gozar fama de patriota do que de filoespartano.'” Em síntese, portemo-nos como patriotas e seremos tratados com respeito, portemo-nos como lacaios e seremos tratados como lacaios.

"Devemos cuidar das nossas relações com a Rússia para evitar entregá-la com armas e bagagens a um eixo com a China. Seria devastador para os interesses europeus e ocidentais. É verdade que para o querer é preciso sermos dois, e também Moscovo tem de dar sérios passos em frente em relação à comunidade internacional"

Durante demasiado tempo a política italiana centrou-se só sobre factos nacionais. Subavaliou a importância de influir sobre aquilo que acontece fora das nossas fronteiras para mudar os destinos da nossa pátria.

Sempre me atraíram os povos briosos e orgulhosos do seu passado e da sua cultura. Também por esse motivo fascina-me o patriotismo dos norte-americanos e o seu apego visceral à bandeira nacional. Já não é questão de ser pró ou anti-EUA, mas de reconhecer que Europa e Estados Unidos estão irmanados por um laço indissolúvel e devem procurar juntamente vencer os desafios do futuro. É verdade que a América é complexa, e para nós não será sempre fácil confrontar-nos com a de Biden, que, bem depressa, já deu provas de como é desestabilizadora uma visão ideológica dos supostos “direitos humanos”, usados um pouco aqui e um pouco acolá para atacar novos inimigos. Mas há uma América profunda representada por setenta e cinco milhões de eleitores que votaram em Donald Trump e que não podem ser ignorados como se fossem todos uns exaltados com os cornos e a pele de bisonte. Muitos dos seus argumentos são também os nossos. Com essa América profunda nós, conservadores europeus, continuaremos a relacionar-nos de modo cada vez mais estável e profícuo.

Esta aliança servirá em primeiro lugar para conter a ascensão da China e o seu expansionismo. Pequim parece já não ter limites. Os seus interesses vão das matérias-primas africanas e da América Latina às infraestruturas estratégicas europeias, como portos e ferrovias. Em fundo está a Belt and Road Initiative, a chamada “nova rota da seda”, anunciada com grande pompa pelo presidente Xi Jinping. Uma iniciativa colossal que envolve sessenta e oito Estados no mundo inteiro. Estou convencida de que foi um gravíssimo erro permitir a deslocalização em massa de inteiros setores produtivos europeus para a China, mas que será ainda pior perseverar em querer lidar em pé de igualdade com uma potência que não joga com as nossas regras.

Exatamente por esta razão devemos cuidar das nossas relações com a Rússia para evitar entregá-la com armas e bagagens a um eixo com a China. Seria devastador para os interesses europeus e ocidentais. É verdade que para o querer é preciso sermos dois, e também Moscovo tem de dar sérios passos em frente em relação à comunidade internacional. Recordo muitas vezes com um sorriso quando Berlusconi vinha ao Atreju contar-nos os momentos em que, como presidente do Conselho, se tinha arranjado para evitar a guerra entre a Rússia e a Geórgia. Não sei se foi efetivamente assim, mas lembro-me bem do que foi alcunhado de “espírito de Pratica di Mare”, quando às portas de Roma se realizou uma cimeira da NATO alargada à Rússia, num espírito de cooperação cordial e positivo. Esses tempos vão bem longe, mas a Rússia é parte do nosso sistema de valores europeus, defende a identidade cristã e combate o fundamentalismo islâmico. Deve fazê-lo em paz com as nações vizinhas, e os Estados europeus que confinam com o grande urso russo devem poder olhar o futuro com serenidade, sem o temor de ver voltar a agressiva política imperial de Moscovo. Precisamos de um equilíbrio que assegure uma paz secular, definitiva, entre a Europa e a Rússia, e isto não se obterá com a política míope da contraposição musculada tão cara a Obama, primeiro, e agora a Biden. Se conseguirmos fazê-lo com inteligência, Ocidente e Rússia serão ambos mais fortes e seguros. E o dragão chinês estará um pouco mais só.

(…)

Ao sul das nossas costas encontra-se o grande continente esquecido, África, de que já falei. Com afeto, ainda primeiro do que com respeito. Como se sabe, o combate às causas profundas da emigração depende estreitamente e diretamente da sua estabilidade e do seu desenvolvimento económico. Enquanto não restituirmos a esses povos a estabilidade política e a soberania económica, estarão expostos a turbulências de toda a espécie e à fúria das milícias islamistas.

É assim porque o fundamentalismo islâmico é outra praga do nosso tempo. A derrota militar do Estado Islâmico na Síria e no Iraque não o debelou para sempre. Vive nas células terroristas adormecidas na Europa, nas milícias do Boko Haram, do Al-Shabab e muitas outras em África, na pregação de imãs perigosíssimos em todo o mundo e em muitas nações ocidentais. Penso nos cristãos perseguidos no mundo inteiro, que são muitas vezes esquecidos por uma Europa que parece já não ter alma, onde o relativismo cultural põe tudo e todos no mesmo plano. Da Ásia ao Médio Oriente, passando por países como o Egito e a Nigéria, o Congo e a Somália, até às notícias horríveis das crianças decapitadas em Moçambique. Milhares de pessoas arriscam a vida todos os dias pelo simples facto de professarem uma fé. Não podemos olhar para o lado e temos de usar todas as formas de pressão a fim de que deixe de acontecer. Penso em todas as mulheres que lutam contra o obscurantismo do islamismo salafita que as quer submissas. Também neste caso não podemos fazer de conta que nada se passa, e não é por acaso que os Fratelli d’Italia continuam a travar tais batalhas, com Daniela Santanchè à cabeça. Sobretudo quando isto acontece não apenas em países como a Arábia Saudita, mas também em Londres ou em Paris, em Bruxelas ou em Berlim, onde bairros inteiros são governados segundo a lei do Alcorão.

(…)

De resto, muitas das batalhas que conduzo garantem-me inimigos poderosos e perigosos. Mas eu, do alto da minha diminuta estatura, tenho algumas vantagens. Primeiro, não tenho medo de nada e de ninguém, e a única coisa que me apavora, como terão ficado a saber por estas páginas, é desiludir-me a mim própria e desiludir quem acredita em mim. Segundo, não sou chantageável, porque não faço coisas das quais tenha de envergonhar-me e não aceito ajuda de quem possa pedir-me alguma coisa em troca. Terceiro, não estou sozinha e, em geral, quem decidiu acompanhar-me nesta batalha é muito parecido comigo. Quarto, e último, sempre fui subavaliada, e essa, no fim de contas, é uma grande sorte.

É certo que é possível que um dia as coisas mudem. Muito provavelmente, se houvesse de chegar a poder mudar coisas que demasiada gente quer que fiquem na mesma, descobrirei então quão verdadeiramente determinados podem ser certos poderes. Tive isso em conta e decidi alinhar na mesma no campo de batalha. Como na Idade Média fazia quem combatia na primeira fila sabendo que podia ser o primeiro a cair, ferido por um dardo, ou como fazia quem na Grande Guerra avançava rezando a Deus para que os canhões o falhassem. Hoje já não se usam dardos nem canhões, os métodos de atingir-nos são muito mais sub-reptícios e sofisticados. Também tive isso em conta, mas não desertarei. É a guerra do nosso tempo e eu sou um soldado.

Texto e imagens reproduzidos do blog: otambosi blogspot com