quarta-feira, 22 de julho de 2026

'Um presidente de mãos atadas', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 21 de julho de 2026

Um presidente de mãos atadas
Por Fernando Gabeira (in blog)

Acabou a Copa do Mundo; agora, nosso tema comum é a eleição. É preciso afirmar algo tão inconveniente agora quanto foi dizer que, com aquele time, o Brasil não ia longe, apesar da fanfarra comercial do “rumo ao hexa”.

Depois de muito debate e emoção, o presidente que escolhermos chegará ao poder de mãos quase atadas. Ele simplesmente não terá dinheiro para executar suas promessas. A causa disso é muito simples: o Congresso sequestrou parte do Orçamento. Ele gasta cerca de R$ 61 bilhões por ano só em emendas parlamentares. Sobra pouco para o governo.

Orçamento é um tema muito chato. É uma quantidade abstrata de recursos, que a gente costuma pensar como o dinheiro do governo. No fundo, todos sabemos que governo não tem dinheiro, exceto o que recebe de todos nós. Já temos tanta dor de cabeça com as contas do nosso dia a dia. Por que se preocupar com o que gasta o governo?

Há coisas, no entanto, que precisam ser conhecidas. Nas democracias ocidentais, todo o dinheiro arrecadado com impostos é usado pelos governos eleitos. Deputados e senadores apenas fiscalizam.

No Brasil, o Congresso abocanhou uma grande parte desse dinheiro. O resultado é uma irracionalidade nos gastos. Cada deputado gasta de acordo com suas necessidades eleitorais. Há muita redundância e corrupção.

Os deputados queriam que esse dinheiro que gastam fosse secreto. Daí o surgimento do famoso orçamento secreto, que o STF combate até hoje. Dinheiro público precisa de transparência.

Apesar de muita interferência legal, ainda agora soubemos que R$ 1,3 bilhão foi destinado sem que se soubessem os autores. São emendas de comissão. As comissões são uma réplica dos ministérios: Comissão de Educação, Saúde, Transporte. Por que gastam dinheiro de uma forma diferente dos ministérios? Por que não racionalizar?

O Congresso não abre mão desse poder. O resultado não é só dispersão e irracionalidade. Há coisas do arco da velha, como dizíamos no passado. Foi descoberto agora que pessoas que não são deputados manipulam algumas verbas. Valdemar Costa Neto destinou R$ 119 milhões; Eduardo Cunha, R$ 6 milhões.

A expressão “não deputados” é muito vaga. Não se trata da vizinha aposentada ou de um arcebispo. Ambos não são deputados. Costa Neto e Cunha foram presos, em momentos diferentes, por corrupção.

Por aí, é possível ver a seriedade com que o Congresso trata o Orçamento sequestrado. É tão grande o problema que a PF só consegue investigar alguns casos, pois não tem capacidade de fiscalizar quase 600 pessoas distribuindo ou embolsando dinheiro pelo país. Há casos fantásticos de cidades em que quase todo mundo arrancou os dentes ou fraturou os dedos. O Tribunal de Contas da União chegou a investigar cem casos e encontrou irregularidades em 82 deles.

O país que terá um novo presidente terá de se resignar com a falta de dinheiro. Só nas eleições, os partidos vão gastar R$ 5 bilhões. Os argumentos afirmam que são gastos com a democracia. Na verdade, a parte do leão são gastos antidemocráticos.

Encarar essa realidade ou se resignar? Até o momento, apesar de os jornais noticiarem e a PF trabalhar, existe certa passividade em torno do sangramento contínuo do dinheiro público, isto é, sempre lembrando, do dinheiro do nosso bolso.

De que adianta apenas escolher um candidato a presidente, sem equacionar esse problema?

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

Por que temos homens medíocres?

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 21 de julho de 2026

Por que temos homens medíocres?

No Império, o saber funcionava como uma credencial esperada daqueles que aspiravam aos altos postos. Hoje, essa expectativa tornou-se menos exigente. Dennys Xavier para a Crusoé:

Gosto de imaginar uma sessão do Senado do Império. Sem idealizações românticas ou projeções infantilóides cogitadas para criar ranço ainda maior com os duros tempos em que estamos imersos, sei muito bem que os seus integrantes estavam longe de representar um modelo acabado de virtude.

A escravidão ainda existia, o país lidava com temas complexos, mas… existe uma característica daqueles debates que chama a atenção de qualquer leitor dos anais parlamentares.

Os homens que ocupavam a tribuna pareciam sentir uma obrigação permanente de demonstrar que haviam estudado.

Os discursos de Paulino José Soares de Sousa, o Visconde do Uruguai, de José Antônio Pimenta Bueno, o Marquês de São Vicente, de Zacarias de Góis e Vasconcelos, de Nabuco de Araújo, entre tantos outros, pertencem a uma época em que o debate político ainda caminhava de mãos dadas com o direito, com a história e com a filosofia política.

Não eram homens infalíveis, por óbvio.

Defenderam, aqui e ali, posições que hoje podem virtualmente ser contestadas com boas razões.

Ainda assim, percebiam que a autoridade de uma ideia dependia, em alguma medida, da tradição intelectual capaz de sustentá-la.

A experiência inglesa, o constitucionalismo americano, o direito romano, Montesquieu, Burke, Tocqueville e os autores clássicos apareciam com frequência nas discussões: não como ornamentos retóricos, mas como parte do próprio modo de raciocinar. A burrice ou o apedeutismo não eram vistos como virtude.

Esse ambiente ajuda a compreender a figura de Dom Pedro II.

Seu prestígio como homem de cultura não nasceu de uma lenda construída depois da Proclamação da República.

Os diários do imperador, sua correspondência e o testemunho de contemporâneos revelam um soberano cuja rotina reservava espaço constante para o estudo (eu sei, eu sei… entre “Dilmas”, “Lulas” e “Bolsonaros”, a vontade de chorar em posição fetal se faz sentir).

Interessava-se por astronomia, história, arqueologia, linguística, fotografia e literatura.

Aprendeu diversas línguas ao longo da vida, entre elas o grego e o hebraico, traduziu trechos de autores antigos e manteve diálogo com intelectuais como Louis Pasteur, Ernest Renan e Victor Hugo.

Em suas viagens ao exterior, visitava bibliotecas, museus, observatórios e universidades com uma curiosidade que impressionava até aqueles que não compartilhavam de suas ideias políticas.

Esse tipo de formação produzia impacto emblemático na vida pública. O poder parecia carregar consigo, como segunda natureza, uma expectativa de cultivo intelectual.

Um ministro podia fracassar em suas decisões, um senador podia defender uma causa equivocada, mas existia constrangimento diante da ignorância.

A falta de preparo não costumava ser motivo de ostentação, por assim dizer.

Um líder político daquele tempo talvez não ventilasse a possibilidade de aparecer em público falando em termos chulos, vulgares ou… comendo como uma besta num boteco de esquina qualquer, em meio a restos despencando da boca.

Seria mesmo difícil imaginar algum deles puxando coro de “imbrochável” em evento solene de história da pátria ou falando da densidade de “grelo” em discurso dirigido a membros da nação.

Esperava-se que um homem destinado aos altos cargos tivesse passado muitos anos entre livros, dominasse a língua com precisão e conhecesse algo da longa história das instituições que pretendia governar.

Essa expectativa foi se tornando menos visível ao longo do tempo.

A política brasileira ampliou seu alcance social, incorporou novos grupos e abriu espaços antes inacessíveis, transformação que faz parte da própria história da democracia.

Em paralelo, a cultura humanística perdeu parte do prestígio que possuía entre as elites dirigentes.

Ler os clássicos, estudar história constitucional ou acompanhar os grandes debates filosóficos deixou de ser entendido como requisito natural da vida pública.

A mudança aparece até na forma de falar. Muitos dos discursos parlamentares do século 19 eram longos, por vezes cansativos, mas pressupunham um auditório disposto a acompanhar argumentos desenvolvidos passo a passo.

A vida pública contemporânea recompensa outra habilidade.

A frase curta circula melhor do que a demonstração, o “corte Tramontina”, a resposta imediata com frases feitas vale mais do que a reflexão amadurecida, e a velocidade passou a exercer uma influência que nenhum orador do Império poderia imaginar.

Essa transformação alcança também o ambiente universitário, o jornalismo e os meios de comunicação. Durante muito tempo, ter cultura significava integrar-se a uma tradição de leitura.

Conhecer Homero, Tucídides, Cícero, Santo Agostinho, Shakespeare ou Montesquieu era uma forma de participar de uma conversa iniciada muitos séculos antes. Ninguém acreditava, um tanto ingenuamente, que começava do zero.

A inteligência consistia, entre outras coisas, em reconhecer uma herança e dialogar com ela.

Hoje, bem… para usar um eufemismo… a impressão é diferente.

Muitos homens públicos exibem uma relação distante com os livros, e isso quase nunca desperta constrangimento. Confunde-se frequência nas redes com influência intelectual, exposição permanente com autoridade, convicção virulenta com conhecimento.

A figura do homem cultivado perdeu parte do prestígio simbólico que possuía. Em alguns ambientes, demonstrações de erudição chegam a provocar suspeita, como se o estudo afastasse alguém da realidade concreta do país.

Seria injusto afirmar que desapareceram os homens verdadeiramente cultos.

O Brasil continua produzindo grandes historiadores, juristas, professores, cientistas e escritores. A diferença ocupa outro lugar.

Durante boa parte do Império, o saber funcionava como uma credencial esperada daqueles que aspiravam aos mais altos postos da nação.

Hoje, essa expectativa tornou-se muito menos exigente. A inteligência continua admirada por alguns (cada vez menos), mas deixou de ocupar o centro do imaginário político brasileiro.

E essa mudança diz bastante sobre o tempo em que vivemos, mesmo quando preferimos não percebê-la.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

O erro de Trump no Irã

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 21 de julho de 2026

O erro de Trump no Irã

A surpresa de Trump expõe uma velha ilusão: a de que basta remover o tirano para libertar o povo. Luciano Trigo para a Gazeta do Povo:

Donald Trump afirmou ter ficado chocado ao ver a multidão de iranianos chorando no funeral do aiatolá Ali Khamenei. Disse que sempre acreditou que a população odiava o líder iraniano. A surpresa revela mais do que uma avaliação equivocada: ela expõe uma velha ilusão, a de que basta remover o tirano para libertar o povo.

A presença de multidões em funerais de líderes autoritários não pode ser interpretada como uma fotografia da alma de uma nação. Em sociedades submetidas a longos períodos de controle político, uma demonstração pública de luto pode reunir convicção religiosa ou ideológica, medo, pressão social, coerção e até oportunismo. Pessoas comparecem porque acreditam, porque temem, porque se identificam com parte da narrativa do regime ou simplesmente porque se acostumaram a viver dentro dele.

Ainda assim, o funeral gigantesco de um homem que, aos olhos do Ocidente, simbolizava décadas de repressão revela um fato frequentemente ignorado: ditaduras não sobrevivem apenas pela força. Com o tempo, elas constroem vínculos emocionais, identidades coletivas e mecanismos de adaptação psicológica.

A ilusão de que basta remover o tirano para desencadear uma revolta popular é sedutora em sua simplicidade: existe um ditador no topo e um povo oprimido embaixo; basta eliminar o primeiro para que o segundo faça o resto. Mas a história quase nunca funciona assim. Sociedades não são máquinas esperando que uma peça seja retirada para voltar ao normal.

A surpresa de Trump ajuda a explicar por que a estratégia americana de eliminar a liderança iraniana não produziu a esperada mobilização popular. Trump parece ter partido da mesma premissa que orientou outras tentativas de mudança de regime patrocinadas pelos Estados Unidos: a de que eliminar a liderança bastaria para abrir caminho para o restabelecimento de uma ordem democrática.

Por exemplo, a deposição de Saddam Hussein eliminou o ditador do Iraque, mas não produziu a democracia estável que os estrategistas previram. Ela resultou em anos de guerra civil, fragmentação política e violência sectária. Derrubar um governo foi muito mais simples do que reconstruir as instituições, as lealdades e a cultura política sobre as quais a nova ordem precisava se apoiar.

A política não é feita apenas de escolhas racionais. O poder religioso iraniano construiu, ao longo de décadas, uma narrativa que combina fé, identidade nacional e soberania, criando uma espécie de escudo emocional contra ameaças externas. Foi justamente por ignorar essa dimensão que a estratégia de Trump fracassou.

A psicologia política ajuda a compreender esse fenômeno. Em Medo à Liberdade, Erich Fromm observou que muitos indivíduos experimentam a liberdade não como conquista, mas como fonte de angústia. Hannah Arendt, por sua vez, mostrou que os regimes totalitários consolidam seu poder não apenas pela coerção, mas também por meio de narrativas que reorganizam a realidade e transformam o poder autoritário em elemento da identidade coletiva.

A história oferece diversos exemplos. Muitos russos ainda preservam uma memória positiva de Stalin, apesar dos milhões de mortos sob seu governo. Muitos chineses continuam vendo Mao Zedong como herói da China moderna, apesar das tragédias do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural. Na Coreia do Norte, uma dinastia construiu uma relação quase religiosa entre poder e identidade nacional.

Às vezes, a morte de um líder enfraquece um regime. Outras vezes, fortalece seus símbolos, alimenta o sentimento de cerco nacional e aproxima ainda mais a população do poder estabelecido.

Derrubar um líder pode eliminar um governante, mas dificilmente elimina, por si só, as crenças, os vínculos e as estruturas que sustentam um regime. O autoritarismo frequentemente se adapta, sobrevive e pode até se fortalecer diante de crises externas. O verdadeiro erro de Trump não foi subestimar a força da ditadura, mas superestimar a rapidez com que uma sociedade abandona o regime sob o qual aprendeu a viver.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 21 de julho de 2026

'Fim de Jogo', por João Spacca

Fim de Jogo. 

"Minha charge de segunda no Meio..." (João Spacca)

Charge compartilhada de post do Facebook/João Spacca

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Não acho que a espécie humana faria qualquer falta ao planeta

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 20 de julho de 2026

Não acho que a espécie humana faria qualquer falta ao planeta

O sapiens parece se revelar suicida nessa recusa de ter filhos e a modernidade fez dos filhos um ônus. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

"A vida é tão terrível que teria sido melhor não ter nascido. Quem tem tanta sorte? Ninguém numa centena de milhares."

Ditado judeu citado pelo filósofo sul-africano David Benatar no seu livro "Better Never to Have Been, The Harm of Coming Into Existence", numa tradução selvagem, "melhor nunca ter existido, o mal de vir à existência" —não conheço tradução em português.

Benatar foi entrevistado nesta Folha segunda-feira passada, dia 13 de julho, sobre o tema do antinatalismo, atitude que ele defende, antes de tudo, por razões ontológicas e éticas, e não políticas, a priori —como é o caso hoje em dia. Aliás, sua posição é próxima do filósofo romeno, radicado na França, Emil Cioran, que considerava ter nascido um "inconveniente", e do filósofo norueguês Peter W. Zapffe, que via a consciência como um mal maior dentro do mal que já era a vida.

Não pretendo discutir a entrevista. Interessa-me a questão em si da proposta de recusa da reprodução humana e a queda da natalidade sustentada já há tempos em regiões mais afluentes da Terra. Nos últimos tempos tem sido comum relacionar a defesa da reprodução humana —tenham filhos!— a figuras políticas do panteão conservador, como faz, aliás, a entrevista citada acima.

De fato, muitos nomes desse panteão como J. D. Vance, Giorgia Meloni, Marine Le Pen, entre outros, defendem a reprodução humana. J. D. Vance chegou mesmo a dizer que os Estados Unidos eram governados por mulheres solitárias que criam gatos ou algo semelhante.

O tema da recusa de reproduzir a espécie humana é, de fato, um gatilho existencial. Primeiro porque, normalmente, o problema é colocado diretamente às mulheres, quando, na verdade, importa tanto a mulheres quanto a homens. Biologicamente falando, ambos são necessários para a reprodução, no mínimo, no nível dos gametas.

De um ponto de vista moderno, o tema dialoga diretamente com a emancipação feminina, o sexo como lazer, o mercado de trabalho e a possibilidade de formação e carreiras de sucesso para as mulheres. Isto é fato inegável: filhos podem atrapalhar a carreira das mulheres. Para o homem, também. A recusa da reprodução por parte de homens jovens se refere muitas vezes ao imperativo existencial "filhos hoje, contencioso amanhã". Este terreno jurídico impacta evidentemente as mulheres também. Nem precisamos lembrar que quem arca com o ônus fisiológico e psicológico da gestação é a mulher.

Muitas mulheres se sentem agredidas pessoalmente quando a recusa de ter filhos é posta em questão, mesmo que sem nenhuma condenação moral a priori. Acompanho esse tema há muito tempo, quando comparava a fertilidade entre mulheres de adesão religiosa estrita e mulheres seculares, sendo as primeiras muito mais férteis.

Devo dizer que filosoficamente não acho que a espécie humana faria qualquer falta ao planeta, portanto, não vejo condenação moral para quem se recusa a ter filhos. A espécie pode muito bem acabar e pronto, o que não significa que esta hipótese não seja em si terrivelmente trágica para a própria espécie. Ao longo do tempo histórico, seria uma catástrofe para quem vivesse esse processo.

Os ditos progressistas não alcançam a questão ontológica em jogo, só querem combater conservadores. Falta aos militantes uma percepção ontológica profunda das coisas, muitas vezes.

Filósofos e afins contra a reprodução humana o são normalmente por razões que extrapolam em muito a polarização política. Encabeça a lista o problema do sofrimento intrínseco à condição de ser vivo, como bem aponta Benatar. A vida se alimenta da própria vida, o que, em si, implica um ciclo infernal de violência. O problema não seria só reproduzir gente, seria reproduzir a vida enquanto tal. A reprodução em si seria um ato imoral.

Outro tema é o envelhecimento como destino maldito —independentemente das tentativas risíveis do mercado motivacional de negar este fato— e tudo que daí decorre como perdas, dores, abandono e adoecimento. A injustiça dominante na história, a violência da política neste "imenso mundo de tristeza", como cantou Freddie Mercury.

A suspeita de que a existência enquanto tal seria um drama imoral habita mesmo algumas formas antigas de espiritualidade, como o gnosticismo cristão dos primeiros séculos da era comum.

O antinatalismo é uma das formas mais radicais de pessimismo, por isso não vai bem com pautas progressistas, mais dadas ao otimismo ligeiro com relação à natureza humana. O sapiens parece se revelar suicida nessa recusa de ter filhos e a modernidade fez dos filhos um ônus.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

O presente manipula o passado


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de julho de 2026

O presente manipula o passado

Não é só mais uma aula chata: a História tem importância existencial. Vilma Gryzinski:

 “A História será boa para mim porque eu pretendo escrevê-la”, provocou o gigantesco Winston Churchill — e cumpriu, tendo produzido dezenas de volumes sobre sua trajetória incomparável. A História, no entanto, está fazendo das suas: Churchill hoje é ensinado nas universidades, dominadas pelo pensamento esquerdista mais rasteiro, como representante de todos os males do colonialismo, um líder cruel que não agiu para impedir a grande fome na região indiana de Bengala, com cerca de 3 milhões de mortes. Existem vários argumentos contrários, mas quem está interessado na verdade quando pesa mais a doutrinação? Se alguém ainda usar dinheiro em espécie quando for ao Reino Unido, notará que as notas de 5 libras com a efígie de Churchill estão a caminho da extinção. Animais da fauna local substituirão o legendário primeiro-ministro — e também o matemático Alan Turing e a escritora Jane Austen, um gay e uma mulher, mas não suficientemente woke para os tempos atuais. Todos foram dados como “contenciosos” e representantes de “uma visão retrógrada do Reino Unido que implica um grande risco de divisão e controvérsia”. Depois reclamam quando a extrema direita argumenta que a história britânica está sendo sabotada, num movimento destinado a apagar a identidade nacional.

O passado, sabemos todos, é constantemente reescrito, inclusive por causa da famosa premissa de George Orwell (“Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”). A visão crítica é importantíssima, mas quando se transforma em visão única distorce um debate que deveria nos enriquecer e ajudar a entender não só quem fomos, mas quem queremos ser hoje. Outro exemplo anglo-saxão de como o pensamento woke deforma o debate: os museus históricos americanos hoje são focados nos males de seus personagens mais importantes, não na multiplicidade de fatos, contraditórios, que marca a história americana. A distorção é tal que, mesmo quem não concorda em nada com Donald Trump, deveria admitir a realidade da conclusão de uma comissão que analisou os posicionamentos da Smithsonian Institution, o complexo de museus históricos em Washington, e concluiu que o objetivo parece ser apagar o legado histórico da nação. Exagero conservador? Com aberrações como chamar Cristóvão Colombo de “ladrão” e alegar, falsamente, que Benjamin Franklin fazia experiências com choques elétricos em escravos, fica difícil atribuir tudo a uma intenção doutrinária da direita.

É o mesmo espírito que inspira o deturpado ensino de História no Brasil, onde figuras como dom João VI são apresentadas como personagens grotescos, em lugar de entender o rico momento histórico que as guerras napoleônicas criaram, unindo a distante província dos papagaios aos terremotos políticos na Europa. É possível admirar Churchill e reconhecer seus muitos erros? E até sentir uma saudadezinha da nota de 5 libras? Perfeitamente. Pelo menos num mundo onde a complexidade dos acontecimentos históricos não seja substituída pela pobreza do pensamento reducionista e celebrar a vitória na II Guerra Mundial seja considerado um incentivo a visões nacionalistas, mesmo que isso também pese. Afinal, Churchill deixou ensinado que “a maior lição na vida é saber que até os tolos às vezes estão certos”.

Edição nº 3004 de VEJA

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 18 de julho de 2026

'A Copa do Mundo e as eleições', por Marcos Cardoso

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 9 de julho de 2026

A Copa do Mundo e as eleições
Por Marcos Cardoso*

As paixões afloram e contaminam o ambiente propício às divergências políticas e futebolísticas. É ano de eleição e de Copa do Mundo. E neste exato momento a polarização, essa coisa criada pela extrema-direita bolsonarista e alimentada pela imprensa aferidora de uma suposta simetria entre fulano e sicrano, a polarização aparece com novas roupagens.

Mas será que a copa das seleções influencia no resultado das eleições? Pelo que a história registra, a resposta é não. Vejamos o primeiro título, em 1958. A conquista da na Suécia coincidiu com o auge do governo do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961). O sucesso da Seleção ajudou a consolidar um momento de grande otimismo enquanto JK implementava o Plano de Metas com o lema “Cinquenta anos em cinco” e construía Brasília. Mas quem  foi eleito em 1960 foi Jânio Quadros do PTN. JK era PSD.

Na Copa do Mundo de 1962, o presidente João Goulart (PTB) teve papel ativo no apoio à Seleção Brasileira. Ele intercedeu diplomaticamente junto à FIFA para liberar Garrincha para a final contra a Tchecoslováquia e, após a conquista do bicampeonato no Chile, tornou-se o primeiro presidente a receber uma seleção campeã em Brasília. Mas não terminou o mandato, sofreu um golpe em 1964 e o resto é história.

Em 1970, no auge do futebol brasileiro, o governo não teve influência decisiva no tricampeonato conquistado por Pelé e companhia no México, mas a conquista foi utilizada como propaganda do regime militar. O que, felizmente, não manchou aquela taça. Que foi roubada depois e provavelmente derretida, mas aí é assunto da editoria policial.

Pulemos para 1994, governo de Itamar Franco (sem partido). A partir daqui, Copa e eleição passam a coincidir no mesmo ano. O tetracampeonato do Brasil nos Estados Unidos não deu contribuição decisiva para a eleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). O Plano Real, lançado em 1994 quando era ministro da Fazenda, foi o principal pilar para sua eleição à presidência. Após a conquista da Seleção Brasileira nos Estados Unidos, o presidente Itamar Franco recebeu a delegação no Palácio do Planalto em Brasília e condecorou os jogadores. Mas a volta da delegação brasileira com o “voo da muamba” resultou em mais desgaste político do que benefício eleitoral.

Em 1998, o Brasil perdeu a final contra a França, que jogou em casa, e a tristeza da perda da Copa não atrapalhou em nada a reeleição de FHC, que ganhou no primeiro turno.

Para confirmar que Copa não influencia resultado de eleição, no Japão e Coreia do Sul em 2002, quando o Brasil conquistou o pentacampeonato de forma brilhante, com Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho, e Vampeta dando cambalhota na rampa do Palácio, o candidato palaciano José Serra (PSDB) perdeu para Lula da Silva (PT). O primeiro mandato presidencial que o líder trabalhista conquistou depois de três eleições frustradas.

A Copa de 2006 coincide com a reeleição de Lula. A Seleção Brasileira chegou ao torneio na Alemanha com grande favoritismo, mas foi eliminada pela França nas quartas de final. O início da série de fracassos do Brasil na Copa não impediu o presidente de se reeleger com relativa facilidade, derrotando Geraldo Alckmin (PSDB) no segundo turno com mais de 60% dos votos.

Em 2010, novo fracasso na Copa, na África do Sul, não atrapalhou o projeto de Lula de fazer sua sucessora, Dilma Rousseff (PT), que se elegeu para o primeiro mandato derrotando José Serra no segundo turno. Seleção Brasileira derrotada mais uma vez nas quartas de final, dessa vez pela Holanda.

A tragédia de 2014, quando o Brasil realizou a Copa do Mundo em casa e levou uma surra colossal da Alemanha na semifinal, o sofrível 7 a 1, não impediu a reeleição de Dilma, dessa vez derrotando Aécio Neves (PSDB) por pequena margem de votos no segundo turno. Desde o ano anterior, após os protestos de junho de 2013, a princípio contra os serviços públicos ofertados e que também teve como bandeira a oposição à realização da Copa, a presidenta passou a sofrer uma campanha pesada contra a sua gestão, mas não o suficiente para barrar a chegada ao novo mandato.

Em 2018, no impopular governo de Michel Temer (MDB), o selecionado brasileiro amargou novo vexame, na Copa da Rússia, voltando a se despedir nas quartas de final, dessa vez perdendo para a Bélgica. Mas nada disso impediu a eleição do candidato palaciano Jair Bolsonaro (PSL), derrotando Fernando Haddad (PT) com relativa facilidade no segundo turno.

Já em 2022, pela primeira vez desde que o Brasil se redemocratizou, o presidente da República foi derrotado ao tentar a reeleição. Na Copa do Catar, a primeira realizada no Oriente Médio, o Brasil perdeu uma inacreditável disputa de pênaltis para a Croácia novamente nas quartas de final e o presidente Bolsonaro (agora PL) perdeu uma eleição apertada para o arquirrival Luiz Inácio Lula da Silva. O derrotado tentou de tudo para não largar o poder, inclusive um golpe de estado, acabou condenado e preso.

Será que o último vexame da Seleção Brasileira na Copa da América do Norte vai influenciar no resultado da próxima eleição para presidente da República? A história registra que o futebol jogado na Copa pouco influencia na política, embora a política agora interfira mais do que nunca no futebol.

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Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail com

Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias com br

Chico Pinheiro entrevista Fernando Haddad

 

CHICO PINHEIRO ENTREVISTA - 29/06/26 - FERNANDO HADDAD

Instituto Conhecimento Liberta

Chico Pinheiro entrevista Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda, advogado, mestre em economia, doutor em filosofia e candidato ao governo de São Paulo. Na conversa, Haddad fala da mãe professora, do pai que nunca sentou em um banco de escola, das experiências como ministro de estado, do preconceito contra o Lula e das prioridades para o estado de São Paulo, entre elas a segurança pública.

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sábado, 11 de julho de 2026

O inferno é aqui?


 Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10 de julho de 2026

O inferno é aqui?

Depois do impeachment e da prisão de Lula, da eleição de Trump e da de Bolsonaro, a convivência tornou-se quase impossível. Não há outro assunto além da política – e não estamos falando da grande ciência política ou de uma filosofia social, e sim da política partidária mais rasteira e mesquinha. Flavio Morgenstern para a Gazeta do Povo:

A reportagem “The end of reading is here”, de Rose Horowitch, na revista The Atlantic, varreu o mundo das letras nesta semana. A autora revela que a quantidade de pessoas que leem por prazer na América diminuiu em 43% entre 2004 e 2023. Americanos podem até devorar sentenças, mas não conseguem mais pensar profundamente sobre um texto que seja mais longo do que um post de Instagram. Cerca de 30% dos adultos americanos são incapazes de fazer uma paráfrase ou extrair inferências de um texto com mais de uma página. Em 2017, esse número permanecia abaixo dos 20%.

Os dados são ainda mais alarmantes entre os jovens. No equivalente ao nosso colegial, os jovens que leem foram minguando nas últimas décadas. Entre 1984 e 2025, a quantidade de jovens de 13 anos que alegaram raramente ou nunca ler por diversão passou de 8% para 29%. Quanto menor a idade do jovem, mais ele tende a encarar a leitura como algo ultrapassado e supérfluo – muitas vezes sem nem entender como a prática da leitura pode ser associada a alguma forma de lazer.

Se os americanos precisam enfrentar o vício em celular, os brasileiros precisam enfrentar o vício em celular, o paulofreirismo e um sistema educacional inspirado no fascismo italiano que valoriza qualquer forma de pensamento, exceto o abstrato, lento e profundo. É preciso olhar com cobrança para o Vale do Silício (provavelmente pesquisando pelo… celular) no caso de um país razoavelmente livre como os Estados Unidos, mas também é preciso notar outros fenômenos mais descarados no caso de um país autoritário como o Brasil.

A despeito da briga da ditadura brasileira atual com o Vale do Silício, em um aspecto ambos estão de mãos dadas: no quanto preferem uma população que não lê. Regimes ditatoriais, principalmente as ditaduras contemporâneas, amam que as pessoas estejam entretidas, sem nunca se formarem.

Há um paradoxo comentado por muitos: nunca se leu tanto, mas não se lê literatura, filosofia ou qualquer obra que forme, e não só informe. O paradoxo é apenas aparente: no mundo tecnológico, as pessoas “leem” apenas redes sociais, cujos conteúdos reproduzem a rapidez simplificante do marketing, e o WhatsApp. O que é uma conversa constante, apenas por escrito. Ou seja, nunca passamos tanto tempo hipnotizados por anúncios e jogando conversa fora. Basicamente, uma continuidade mais lucrativa da televisão.

A “economia da atenção” é a dinâmica em que donos de algoritmos lucram muito com o vício das pessoas em redes sociais, quanto mais viciadas e menos conscientes elas estiverem. As vítimas acreditam mesmo que estão “informadas” ao passar o dia lendo redes sociais, com conteúdos determinados por algoritmos.

Nunca pensam que não conseguem mais permanecer cinco minutos diante de um texto sem figuras, anúncios, interações simplificadas (como arrastar para o lado) e alguma forma de vídeo. É o mesmo efeito que criticavam na MTV nos anos 90: imagens passando rapidamente, sem tempo para a reflexão. Algo mais próximo da hipnose do que da meditação.

Um fenômeno curioso se somou a esse comportamento coletivo, que já foi chamado de “McDonaldização da Sociedade” por George Ritzer ainda em 1993. Trata-se da extrema politização da vida.

No Brasil e no mundo, principalmente de 2013 para cá, todas as relações humanas passaram a ser mediadas pela política – quando a política é que deveria ser avaliada pelo quanto possibilita ou atrapalha o nosso convívio. Antes de 2013, era normal termos amigos de esquerda e de direita, e nossas conversas envolverem mais brigas por conta de futebol ou de gosto musical do que por partidos políticos. O comum era termos diversos assuntos.

Depois do impeachment e da prisão de Lula, da eleição de Trump e da de Bolsonaro, a convivência tornou-se quase impossível. Não há outro assunto além da política – e não estamos falando da grande ciência política ou de uma filosofia social, e sim da política partidária mais rasteira e mesquinha.

Os donos do poder tiveram como resposta a esses movimentos medidas cada vez mais autoritárias, mas envernizadas pela palavra “democracia”. A contrarreação das pessoas foi… falar mais de política em redes sociais. Mas falar muito de política em redes sociais, passar a vida falando de política em redes sociais, conversar em bares tendo como assunto o que se falou de política em redes sociais. Há youtubers e instagramers especializados no que as pessoas falam de política em redes sociais, e programas de rádio e TV comentam o que pessoas falaram de política em redes sociais.

Muitos comemoram a dita “politização”, ou seja, as pessoas supostamente teriam “consciência” política hoje por repetirem discursos e comentarem o que outras pessoas falaram sobre deputados e jornalistas. No entanto, a politização é um fenômeno rasteiro que também flerta com a alienação. Passar a vida monotematicamente já não é uma garantia de um futuro louvável. Pior ainda quando essa conversa constante, afastada de livros, não é nada mais do que uma… conversa. Algo muito mais próximo de uma velha fofoqueira do que de um Klemens von Metternich.

Com celulares e sem livros, as pessoas, na prática, estão apenas entretidas. Novamente, a dinâmica panem et circenses. Quanto mais creem que se tornaram perigosas ao poder por falarem de política partidária, mais as pessoas estão voltando à alienação da novela, do futebol e dos programas de besteiras no domingo (todos estão no X e no Instagram 25 horas por dia, com comerciais ainda mais constantes).

Ditadores sempre gostaram de pessoas sem leitura. Claro, sempre se vai citar o caso do Terceiro Reich como uma contraprova, já que aquele austríaco de bigodinho esquisito foi alçado ao poder pelo povo mais culto do globo. Não é bem verdade: apesar de um apoio massivo de professores, as ditaduras da década de 1930 ficaram marcadas pelo uso extensivo do rádio, com intelectuais daqueles idos já reclamando do abandono dos livros pelas pessoas.

O rádio – e, hoje, a internet – permite um discurso robótico, massificado e simplificado. Só vence na era do algoritmo quem sabe repetir tudo de maneira marqueteira, para outras pessoas repetirem ainda mais. As tais “palavras-chave”. Reveja seu youtuber preferido e veja quantas frases de efeito ele vive repetindo. Entre no perfil das pessoas que discutem com você sem que você nunca as tenha visto na vida e note os mesmos discursos, que não preenchem uma linha, xerocados ali. Perceba que, até chegar a esta parte do artigo, você já se viu tentado a largá-lo para checar as redes sociais umas três vezes.

Falar o dia inteiro de notícias e repetir nomes de políticos não é uma ameaça aos políticos e burocratas do outro lado. É o que os ditadores mais querem. É até um afago no ego. Ainda mais com linguagem reducionista e uma massa repetindo roboticamente algo sem consciência. Quem ganha com isso são poucos.

Ditadores têm medo de livros e de pessoas com pensamentos profundos, articulados e criativos. Basta pensar: se você fosse um ditador, teria medo de “pessoas politizadas” repetindo platitudes o dia inteiro em redes, ou de pessoas que estudam quietas livros complexos e sabem articular ideias? Infelizmente, temos apostado no pior para a nossa liberdade.

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terça-feira, 7 de julho de 2026

Para Freud, falta maturidade ao religioso; para Nietzsche, coragem

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 6 de julho de 2026

Para Freud, falta maturidade ao religioso; para Nietzsche, coragem

A conclusão é que, em sendo as religiões sistemas abertos de interpretação —não há limite para a interpretação religiosa dos fatos porque a religião implica teorias absolutamente dissociadas de qualquer teste racional ou empírico—, suas explicações podem devorar os eventos da vida, atribuindo sentido espiritual a tudo. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

As críticas às religiões são largamente conhecidas, inclusive suas matrizes. Segundo Freud, um religioso é infantil e regressivo porque não consegue lidar com o desamparo estrutural da condição humana. Adere a seres imaginários, derivados da expectativa infantil de proteção dos pais, a fim de ser cuidado por esses seres.

Segundo Nietzsche, a crítica se refere à covardia diante da indiferença cósmica e o decorrente ressentimento moral e religioso. Se, para Freud, falta maturidade à pessoa religiosa, para Nietzsche, falta coragem. O abandono cósmico é insuportável, como dizia o escritor grego Nikos Kazantzakis, um leitor aguerrido de Nietzsche.

Segundo Feuerbach, o religioso é um alienado das próprias potências que ele aloca imaginariamente nos deuses —em Cristo, no caso do cristianismo, especificamente. Para o autor, toda teologia é antropologia filosófica.

Segundo Marx, não muito longe do Feuerbach, o religioso é um alienado que outorga ao clero e sua instituição os poderes sobre si mesmo, sua sociedade e sobre o mundo. Mas, para nosso profeta do fim do capitalismo, essa alienação é material, visto que pagamos por ela. Compramos das religiões o ópio que nos deixará incapazes de enfrentar a vida com nossos próprios recursos. Toda religião é um delírio que nos custa dinheiro, em algum momento.

Segundo Epicuro, o mote da adesão aos deuses é o medo deles. Tememos o poder deles sobre nossas vidas, sejam vidas terrenas e históricas, sejam vidas depois da morte. Ao afirmar seu atomismo materialista, Epicuro nos livrava do terror dos deuses para com a vida após a morte, já que a alma seria puro ar que saia pela boca no último suspiro, portanto, mortal.

Quem sabe, se perdêssemos o medo dos deuses, perceberíamos que nada de ruim nos aconteceria —de ruim digo, algo diferente do que sempre nos acomete. O medo seria o afeto religioso por excelência.

Com Spinoza, aprendemos a suspeitar do caráter político das religiões —que o Marx, "doutor em Epicuro", herdou como parte de sua crítica às religiões. Se para Freud era o desamparo, para o Nietzsche a indiferença cósmica, para o Feuerbach e Marx era alienação, para Spinoza, era uma forma de política do medo.

Segundo alguns darwinistas, as religiões são traços evolucionários que se caracterizam por delírios imaginários organizados objetivamente e que foram adaptativos desde sempre. Seja para temermos os deuses maus, seja para pedirmos ajuda para os bons, as religiões nada mais seriam do que um polegar opositor metafísico.

Segundo o antropólogo Clifford Geertz, as religiões são "apenas" sistemas culturais de sentido como quaisquer outros. Humano, demasiado humano.

Entretanto, tais críticas em nada arranharam, até hoje, a fé e a adesão da maior parte dos seres humanos a sistemas religiosos dos mais variados tipos.

Apesar da reconhecida validade de todas essas análises, pessoalmente, sinto que a crítica freudiana é a mais letal e aponta para um elemento complicador, principalmente nos tipos de adesão mais radical a sistemas religiosos. Esse complicador é o vínculo entre a vida psicológica enquanto tal e a dita vida espiritual.

Onde ficaria a fronteira entre eventos estritamente psicológicos ou psicopatológicos e eventos de ordem espiritual-religiosa? Se você tem uma adesão dura a alguma religião que explicaria transtornos de comportamento a partir de uma semântica espiritual-religiosa, a fronteira, seguramente, poderia ficar borrada.

Se a adesão a sistemas religiosos significa, como pensava Freud, algum tipo de regressão psíquica a estágios mais "primitivos" —no sentido psicanalítico, ou seja, mais próximos da infância psíquica—, na lida com o desamparo e suas consequências, tais como medo, insegurança, sentimento de abandono, estresse material grave, doenças, ou mesmo algum tipo de dependência absoluta tardia, a tendência seria que esta adesão religiosa se caracterizasse por ser inatingível aos esforços da razão.

A conclusão é que, em sendo as religiões sistemas abertos de interpretação —não há limite para a interpretação religiosa dos fatos porque a religião implica teorias absolutamente dissociadas de qualquer teste racional ou empírico—, suas explicações podem devorar os eventos da vida, atribuindo sentido espiritual a tudo.

A crítica de Marx tem aqui também seu lugar. Qualquer serviço espiritual, principalmente se envolve atos de magia, custa dinheiro, muito dinheiro. Quando as religiões assumem as explicações para os sofrimentos psíquicos, as religiões vendem sua falsa cura para nós, os infelizes.

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sábado, 4 de julho de 2026

A insustentável leveza das autocracias

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 4 de julho de 2026

A insustentável leveza das autocracias

Países que não têm uma Constituição respeitada e em que a violência e o tráfico de drogas tenham rédea solta dificilmente se reconstituem de forma ordeira. Artigo do professor Bolívar Lamounier para o Estadão:

Donald Trump não é o primeiro nem será o último autocrata empenhado em dominar o mundo.

Desde a Antiguidade, incontáveis construtores de impérios, geralmente agindo com extrema violência, tiveram tal ambição. De Alexandre o Grande (século 4 a. C.) a Átila (século V d.C.), o “rei dos hunos”, a quem é atribuída a frase “a erva não voltará a crescer onde minha cavalaria houver passado”, a estirpe é extensa. A diferença entre Donald Trump e os “bárbaros” da Antiguidade não reside, pois, só na diplomacia do “murro na mesa”, nem na riqueza e outros traços do presidente norte-americano. Reside, desde logo, no fato de haver encontrado um adversário feito sob medida, o Irã. A teocracia iraniana não é um caudilho individual, mas é um Estado. Teerã pleiteia, com uma mão, o controle exclusivo sobre Ormuz, uma estreita passagem de mar por onde transita 20% do petróleo de que o mundo necessita e, com a outra, uma enorme capacidade bélica, inclusive uma formidável quantidade de urânio enriquecido quase até o ponto necessário para fabricar armas nucleares. Entre Teerã e Trump, para onde vão as simpatias? Escolha difícil, não? Assim, Trump retém um nível de apoio e consegue aliados políticos (assunto tratado abaixo) que dificilmente obteria sem o confronto com os aiatolás, que, no fim das contas, lhe é benéfico.

Mas, claro, a história não termina aqui. Trump é também aliado de unha e carne das outras duas superpotências econômicas e militares – a Rússia de Vladimir Putin e a China de Xi Jinping. Somados, esses três países detêm ogivas nucleares suficientes para destruir nosso planeta centenas de vezes.

Com essa troica pairando sobre nossas cabeças, chega a ser um milagre que um certo grau de democracia ainda seja possível; a razão principal é que um estado de guerra permanente privaria os três protagonistas principais de uma grande parte dos recursos naturais, notadamente alimentos, sem os quais a situação doméstica dos três seria muito mais difícil. A China, por exemplo, mesmo despendendo cifras estonteantes só para manter o terror policial sobre seus cidadãos, não teria como pôr, diariamente, seis refeições na mesa de cada família.

O pano de fundo acima exposto explica em grande parte o vai e vem entre caudilhismos e aspirações democráticas que, bem ou mal, continuamente se repete em toda a América Latina. Assim como há lideranças querendo se afastar de amigos externos que só conhecem a diplomacia do “murro na mesa”, outras há que não se sustentariam sem o ácido carinho que as grandes potências militares lhes prodigalizam. Aqui temos um troca-troca verdadeiramente trágico: um domínio territorial barato para os Trump da vida e um ganho de poder e sobrevivência para autocratas menores de idade que de outra forma pagariam caro pelo comezinho ato de disputar eleições.

Aqui mesmo, em nossa vizinhança, estamos vendo se configurar uma situação como a que acima descrevi. Falo das recentes eleições no Peru e na Colômbia.

O problema, em ambos os países, vai muito além de divergências constitucionais ou ideológicas. Em ambos os casos, um passado de espessa violência. No Peru, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Fujimori, disputou a Presidência pela quarta vez e venceu, após uma longa e conturbada apuração, com 50,13% dos votos. Num país que teve oito presidentes em dez anos, essa vantagem não soa como um bom augúrio. Ela tem feito gestos de conciliação e convergência – a única coisa sensata que poderia fazer –, mas a questão é se sua atitude e eventual habilidade conseguirão sobrestar o DNA incrustado em seu passado de ódios.

Na Colômbia, o antinomia esquerda vs. direita ressurgiu muito mais carregada, e pelas mesmas razões: guerrilha, tráfico de drogas e uma relação odienta entre setores da elite. Inicialmente, o favorito à sucessão do presidente Gustavo Petro era o alto dirigente comunista Iván Cepeda. Mas uma reviravolta absolutamente inesperada pôs à frente Abelardo de la Espriella – descrito pelo Estadão (1/6, p. A9) como representante da “direita populista”. Ainda o Estadão, ibidem: “De 47 anos, é um advogado e empresário milionário que entrou para a política para impedir que a Colômbia seja ‘destruída’ pela esquerda. Ele é admirador do americano Donald Trump e do argentino Javier Milei (...). Vestido com ternos impecáveis e, recentemente, com colete à prova de balas (...), antes de disputar a presidência vivia na cidade italiana de Florença. Promovia seus negócios de rum e vinho, viajava em jatos particulares e cantava ópera”. Sua plataforma, conhecida na América Latina, foi propor “(...) uma aliança militar com EUA e Israel, a construção de megapresídios e medidas para incentivar o porte de armas”. E conclui: “Em meu governo, bandido que não se submeter à Justiça será abatido”.

Os acordes variam, mas a melodia é a mesma. Países que não têm uma Constituição respeitada e em que a violência e o tráfico de drogas tenham rédea solta dificilmente se reconstituem de forma ordeira. Quase ninguém acreditava, mas essa é também a história dos EUA na era Trump.

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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Políticos de direita precisam ser mais cultos

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de junho de 2026

Políticos de direita precisam ser mais cultos

Mais do que tudo: políticos precisam ter cultura que não seja meramente política. Precisam ter estantes de literatura e filosofia lidas. Precisam ter referências e exemplos de pessoas que venceram com poucos meios. Flavio Morgenstern para a Gazeta do Povo:

A onda de 2018 ficou marcada pelo fenômeno dos “deputags”: deputados eleitos no esteio de Bolsonaro que, chegando à Câmara, tornaram-se um número, não sabendo exatamente o que fazer. A maioria apelou para um expediente, no mínimo, pouco produtivo: pagar seus assessores para passar o dia inteiro criando “cards” e posts em redes sociais com notícias – não raro, plagiando descaradamente e sem créditos os veículos de jornalismo “de direita”, ou não alinhados ao regime.

Ou seja, os deputados, muito bem pagos, agiram (e muitos seguem agindo) imitando jornalistas – mal e porcamente. Era um festival de “Urgente!” tão repetitivo que destruiu o conceito de “urgente” na língua portuguesa – hoje, significa “deputado tentando chamar a atenção – boceje e pule para o próximo post”.

Quase nunca apontavam o que estavam fazendo em relação ao absurdo que noticiavam. Era uma mensagem esquizofrênica passada ao público: urgências urgentes a serem lidas com toda a urgência, seguidas de festas, encontros, recepções sorridentes. Ninguém parecia mais desconectado do próprio Estado de exceção do que, justamente, os deputados colocados lá para combatê-lo, observando os intestinos do poder de dentro.

A maior parte dos deputados foi tratada como o que eram de fato: números. Nada muito além de “temos tantos votos para passar tal pauta”. Raros da onda de 2018 (com seu refluxo em 2022) foram muito além da numerologia. Fato é que estamos em minoria. O problema é o pouco, ou praticamente nada, feito para reverter este quadro ominoso. Reclamar que não podemos fazer nada para o próprio eleitorado é assegurar que continuaremos sem poder fazer nada. Pior ainda é revelar que os políticos do nosso lado não fazem muito além de votar “sim” ou “não”, sem nada para mudar o quadro.

Antes que se diga que nada se pode fazer além de cumprir ordens (quando não torrar tempo e envidar esforços em tretas inúteis em público), a primeira coisa que políticos tinham de fazer é se tornarem mais cultos. Mais inteligentes.

Basta lembrar que o próprio PT foi minoria reiteradas vezes. Lembra aquele mote “Conheça teu inimigo”? Então, pare de tratá-lo como uma frase pronta repetida por quem tem QI 83 e trate-a como uma divisa. Estude biografias e história recente e antiga. Aprenda.

Quem sabe o que José Dirceu fez para conquistar uma hegemonia que lhe favorecesse? Sabe a frase “tomar o poder, que é diferente de ganhar eleições”? Então, estude o mesmo método, em vez de só pensar na frase e, no segundo seguinte, pensar em uma bobagem anódina a postar em redes sociais. Há mais poder fora do cargo do que dentro.

José Dirceu segue a estratégia de Ernesto Laclau, conquistando espaço em territórios fora da política, que confluam para que a sociedade inteira acabe lhe favorecendo (não é a mesma coisa que gramscismo, de que vocês só ouviram falar e não sabem o nome de um livro). Já ouviram falar?

Para os burocratas e operadores do Direito, temos de lembrar como José Genoino (aquele que, quando foi preso, amarrou uma toalha de mesa no pescoço e foi para o camburão imitando um super-herói balançando a capa) era um especialista no regimento interno da Câmara. Sabia a hora de passar um projeto, sabia a hora de retirar algo de pauta, sabia engabelar os presidentes da Câmara – um Efraim Morais ou um João Paulo Cunha comiam na mão de Genoino, enquanto Hugo Motta (vá lá que colocado no poder com apoio de agentes do sistema travestidos de “direitistas”) é plenipotenciário, mesmo com um Vorcaro fungando no cangote.

Quantas vezes fomos absurdamente prejudicados só por manobras com o regimento da Câmara? Só para ficar em um exemplo, foi Eduardo Girão que propôs uma CPI do 8 de Janeiro, enquanto a esquerda dizia que não precisava, deixa disso, já sabemos de tudo, para que investigar? O tema ficou mofando na mesa de Davi Alcolumbre por meses, enquanto o governo tentava retirar assinaturas, até conseguir uma CPMI (ou seja, incluindo também o Senado, onde o governo tinha maioria).

Só quando conseguiu a relatoria e a presidência (a mudança de partido de Randolfe Rodrigues da Rede para o PT “coincidentemente” ajudou bastante a numerologia), aí, sim, petistas e esquerdistas-satélites defenderam a CPMI com unhas e dentes: é urgente, a democracia depende dessa CPMI, quem não apoia são apenas os fascistóides do bolsonarismo.

Resultado: foi a partir da CPMI que houve a prisão de Mauro Cid, depois comutada pela prisão de Filipe Martins e Jair Bolsonaro, com o colóquio flácido para acalentar bovinos de “golpe de Estado”, enquanto as imagens do Ministério da Justiça, antes tratadas como uma “ameaça” a Bolsonaro, foram apagadas e nunca mais ninguém falou sobre o assunto.

Quais dos nossos parlamentares são ases no regimento da Câmara e do Senado?

Há também o fator da própria cultura. Um certo estudante tão aplicado quanto problemático da Rússia czarista, um certo Vladimir Lenin, passou em primeiro lugar na faculdade de Direito de Moscou, mesmo seu irmão mais velho tendo realizado um atentado contra o czar. A própria universidade percebeu que precisava daquele quadro. Mesmo no único regime que, no século XIX, poderia associar realmente monarquia a alguma forma de governo mais autoritária e, mesmo exilado na Suíça, Lenin conseguiu criar uma revolução, apear o czar, desmantelar um regime extremamente focado em religião e criar o totalitarismo mais ateu do mundo.

Sorte? Reclamou bastante nas redes sociais que não podia fazer nada porque não tinha a maioria? Lenin escreveu muitos ensaios que viraram o livreto “O que fazer?”, revelando em detalhes como reverter uma situação que parecia nem sequer possuir os meios que temos hoje (na época, a Rússia nem parlamento, a Duma, ainda possuía). Se perguntar a 99% dos nossos parlamentares sobre Lenin, aposto uma figurinha brilhante do Harry Kane que vão citar a frase “Acuse-os do que você é”, que Lenin nunca disse e tem zero a ver com o seu estilo.

Mas as leituras remontam muito ao passado. Temos políticos que leem Maquiavel? (Você quer enfrentar a ditadura do STF sem ler Maquiavel? Quero dizer, sério que você quer fazer isso, parceiro?!) Que tal uma biografia e um estudo retórico sobre os discursos de Churchill? Estudo, palavra engraçada… vamos tentar imaginar políticos que tenham um caderno. Que se apliquem a aprender, em vez de se autojustificar em sua falta de meios e ações. Que tal Platão e Aristóteles? São muito ultrapassados quando temos tanta porcaria para comentar, até notícias que não afetam em nada o mandato do postador de “urgente” do momento?

A literatura, até mais do que a história, está prenha de exemplos de grandes pessoas que enfrentaram grandes totalitarismos e fizeram a diferença. E há exemplos óbvios, como Aleksandr Soljenítsyn (não só em “Arquipélago Gulag”) ou Vacláv Havel. É com as grandes histórias, produzindo um grande efeito estético (a tal da “narrativa”, que a direita infelizmente trata como sinônimo de “mentira”, sendo que deveria ser especialista em narrar), que podemos mudar nossa situação, em vez de apenas nos lamentar.

Infelizmente, vemos políticos utilizando muito mal o seu tempo livre. Seus recursos lhes permitem estudar bem mais do que umas duas horas por semana – sem barulho, sem festa, sem evento, sem jantar, sem fotos. E isto é quase nada perto do que faziam Bill Clinton (que se gabava de ler quatro livros por semana enquanto era presidente), Theodore Roosevelt ou qualquer monarca europeu do século XIX.

Difícil? O difícil é largar comportamentos repetitivos e deixar o celular de castigo por duas horas. Cultura é barata, faz um efeito gigantesco. E o melhor de tudo: é um dos raros vícios que vale a pena alimentar.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 30 de junho de 2026

Reflexos da Copa no Jogo Eleitoral

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 30 de junho de 2026 

Reflexos da Copa no Jogo Eleitoral
Por Fernando Gabeira (In Blog)

Na Copa do Mundo, esquecemos as eleições. No processo eleitoral, esquecemos a Copa. Talvez não sejam tão rigidamente separadas, tão estanques. Há dois temas que podem uni-las, laços tênues, mas que não podem ser esquecidos.

O primeiro já abordei: a necessidade de um esforço nacional para recuperar o prestígio do futebol brasileiro. Recebi algumas sugestões sobre o tema, e uma delas me pareceu interessante. As escolinhas de futebol não são supervisionadas. De modo geral, funcionam na base da experiência de um antigo jogador. Na Alemanha, trabalham com métodos, equipamentos, teoria de formação. Nada contra a criatividade, o talento espontâneo dos brasileiros. Preparação e criatividade podem coexistir, uma fortalecendo a outra.

Reconheço que, nesse tema, o papel de um governo não é tão decisivo. Mas um candidato poderia ter algum programa para o esporte nacional, com o destaque que o futebol merece. Uma forma de subestimar nosso esporte é entregá-lo de novo a um deputado qualquer do Centrão.

O segundo tema são as apostas on-line. Elas dominaram a cobertura da Copa e aumentarão sua importância em nosso cotidiano. As pesquisas já mostram que sacudiram os lares brasileiros, trazendo muita tristeza e desolação. Há dados, ainda, sobre um grande número de estudantes que deixou de tentar um curso superior porque torrou seu dinheiro nas apostas.

Pesquisadores afirmam que os efeitos são tão amplos que não conhecem toda a sua extensão. Isso significa uma limitação para as políticas públicas. Elas precisam do maior número possível de dados. No entanto, os candidatos podem dizer algo, sem demagogia.

A questão das bets impõe um problema desafiador. Grande parte dos políticos mais lúcidos prefere, em muitos temas, a liberação à repressão. No entanto, sabe também que liberar traz consequências. Uma política madura nesse campo significa um estudo profundo do que pode acontecer e um esforço para atenuar o impacto. A questão está em aberto.

Foi liberado o jogo on-line, e ele domina o universo do futebol, financiando quase tudo ao seu redor. O problema agora é avaliar o impacto seriamente e apresentar as políticas públicas que possam atenuá-lo. Sabendo, como sei, que uma só cabeça não vislumbra um programa nacional, não só os problemas da Copa entram nessa equação. O cotidiano traz questões mais dolorosas.

Na feira do fim de semana, uma moradora de Rio das Pedras, comunidade na Zona Sudoeste do Rio, me disse estar horrorizada, pois foram achados 20 corpos num lugar bem perto de sua casa. Ela sai às 5 da manhã para evitar tiroteios. Ao nosso lado, um homem que mora noutra comunidade, a Muzema, disse que o Comando Vermelho assumiu a área, e a vida não está fácil.

Fui para casa pensando que estamos cercados por um clima de guerra, perguntando o que a política pode fazer para acabar com o sofrimento de milhões de pessoas. Os candidatos falarão disso; alguns querem que os americanos bombardeiem barcos na Baía de Guanabara. Há bastante loucura no ar. No entanto, a grande tarefa continua a nos desafiar com sua relativa simplicidade: expulsar traficantes e milicianos, instalar os serviços normais do governo.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br/blog

sexta-feira, 26 de junho de 2026

O espetáculo de Gilmar Mendes no Roda Viva

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 25 de junho de 2026

O espetáculo de Gilmar Mendes no Roda Viva

Gilmar Mendes reuniu, ao longo de sua trajetória, um imperioso poder institucional. E fica evidente que, no crepúsculo de sua passagem pela Corte, decidiu atuar enfatizando menos o seu enorme repertório jurídico e mais a sua faceta política. Guilherme Macalossi para a Gazeta do Povo:

Qual é o pronome de tratamento que se deve usar para um “animador cultural”? É importante saber para designar corretamente Gilmar Mendes. Foi assim, afinal, que o ministro do Supremo Tribunal Federal se definiu na espetaculosa entrevista que concedeu ao programa Roda Viva. “Eu me entendo quase que como um animador cultural”, disse ao ser questionado por Mônica Bergamo sobre o trabalho de André Mendonça na relatoria do caso Master.

Mais tarde, na CNN Brasil, Thais Herédia especulou sobre as razões do Ministro conceder a entrevista. “Na comunicação, quando a pessoa resolve dar uma entrevista, ainda mais uma autoridade, a primeira coisa que você pergunta é o seguinte: tá, mas qual é o objetivo? O que você quer com essa entrevista?”. Vou tentar responder à colega.

Mendes parece ter gostado dessa titulação informal de decano. Dela tirou uma licença para falar em nome da Corte, como se fosse o único a ter uma procuração para representar o “seu espírito”, se é que se pode usar tal termo nesse contexto. E o fez no rastro de silêncio deixado por Edson Fachin, um presidente fraco, vacilante e pouco consistente da defesa de suas próprias pautas, como o já malfadado “código de ética do STF”.

Ao longo dos últimos dois meses, Gilmar Mendes concedeu uma coleção de entrevistas. Tantas que é um desafio até catalogar o que disse em cada uma. Na primeira leva de seu press tour, parecia querer rebater as críticas que eram feitas ao trabalho do STF. Agora, nessa manifestação na TV Cultura, o que fez foi o contrário: atacou seus pares.

O primeiro, e principal alvo de Mendes, foi André Mendonça, com quem teve uma altercação pública recente. Criticou sua atuação na relatoria do Master. “André Mendonça disse que tinha recebido um advogado fazendo proposta de delação seletiva. Aqui já há uma impropriedade, porque a lei não permite que o relator participe da delação. O acordo é entre o MP ou a PF com o delator. Aqui já há um erro crasso”, disse. Questionado sobre o receio de que a investigação do Master seja alvo de alguma nulidade, futura, Mendes tergiversou. Mas foi enfático o suficiente para traçar em linhas bem evidentes de que isso pode sim acontecer. E o fez estabelecendo um paralelo da investigação sobre Vorcaro com a operação Lava Jato.

Indicado em 2002 para o Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes reuniu, ao longo de sua trajetória, um imperioso poder institucional. E fica evidente que, no crepúsculo de sua passagem pela Corte, decidiu atuar enfatizando menos o seu enorme repertório jurídico e mais a sua faceta política, que vem se ressaltando desde o caso do Mensalão. O jurista e constitucionalista renomado deu lado ao “animador cultural”, ao “ombudsman do STF, à eminência parda da República. Enquanto dava a entrevista ao Roda Viva, Mendes rodava sua cadeira, talvez imaginado que pairava sobre o Brasil, e também sobre o bem e o mal.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O desanimador cultural Gilmar Mendes

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de junho de 2026

O desanimador cultural Gilmar Mendes

Decano do STF disse que se entende atualmente "quase que como um animador cultural", mas sua atuação política é o contrário disso. Rodolfo Borges para O Antagonista:

O decano do Supremo Tribunal Federal (STF) deu mais uma longa entrevista na noite de segunda-feira, 23, desta vez ao programa Roda Viva, na tentativa de defender condutas indefensáveis.

Gilmar Mendes (foto) repete há semanas insinuações nem sempre sutis contra aqueles que ousam apontar atitudes impróprias de ministros do STF, e acrescentou a elas mais recentemente críticas abertas à Operação Compliance Zero, que ameaça afetar ao menos dois de seus colegas de tribunal.

O alvo mais novo do decano do Supremo é o ministro André Mendonça, relator do caso do Banco Master, que defendeu a Compliance Zero das suspeitas semeadas por Gilmar. O decano do STF comparou a investigação à Operação Lava Jato, que ele tem orgulho de ter combatido.

Questionado sobre o incômodo manifestado em relação a essas duas operações e o silêncio acerca do julgamento da trama golpista, tão criticado por tanta gente, Gilmar se fez de desentendido.

O decano do STF disse que não participou do processo sobre a tentativa de golpe de Estado, tocado pela Primeira Turma, e que acompanhou as críticas aos seus supostos abusos pela imprensa.

“Erro crasso”

Gilmar apontou, durante a entrevista, um “erro crasso” de Mendonça ao ouvir de um advogado — e negar — uma proposta de delação “seletiva”, como descreveu o relator do caso no julgamento em que a Segunda Turma decidiu manter, contra a vontade do decano do Supremo, as prisões preventivas do pai e de um primo do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Mais uma vez chama a atenção a rigidez do ministro com a conduta de um colega e a leniência diante de decisões bem mais problemáticas de outro.

O ministro Dias Toffoli sustentou por mais de três meses uma desgovernada relatoria do caso Master, apesar de ser sócio oculto de uma empresa que fez negócios com o grupo de Vorcaro no resort Tayayá, no Paraná.

Antes de se declarar impedido para julgar o caso, Toffoli impôs sigilo máximo às investigações, determinou acareação entre investigador e investigado e selecionou os peritos que poderiam participar da investigação, voltando atrás sempre que as decisões pegavam mal.

Desanimador

O contraste entre aquilo que incomoda e aquilo que, apesar de ser muito mais problemático, não incomoda Gilmar sugere que o ministro não está exatamente preocupado com o tal do Estado democrático de direito ao fazer suas críticas públicas àquilo que aponta como errado.

Questionado sobre a dificuldade de se fechar um acordo de delação que poderia envolver ministros do STF, o decano concordou que a probabilidade de ele ser firmado é pequena e disse ter dúvidas de se o “o ‘plea bargain’ vai se dar bem nos trópicos”, porque nós “não temos doutrina”.

O ministro disse ainda que “a gente vale, muitas vezes, menos pelo que faz, e mais pelo que a gente evita que se faça”, e que seu “papel, às vezes, é de evitar que se façam determinadas coisas”.

Gilmar criticou mais uma vez o código de ética encampado pelo presidente do STF, Edson Fachin, defendeu sua interferência na Lei do Impeachment e advogou a favor da “soberania digital” do Brasil contra a influência das big techs, tão temidas pelos ministros do Supremo.

Questionado sobre as críticas que faz à Compliance Zero e as comparações desabonadoras com a Lava Jato, o decano do STF afetou humildade e disse que se entende atualmente, após 24 anos de STF, “quase que como um animador cultural”. É desanimador.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

A ameaça do islamismo radical na Europa

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de junho de 2026

A ameaça do islamismo radical na Europa

Na Europa, à arrogância de recusar como possível tudo o que foge das nossas categorias intelectuais, segue-se a fraqueza de ser incapaz de combater uma das maiores ameaças. João Marques de Almeida para o Observador:

Após os ataques do 11 de Setembro de 2001, analisei a Al-Qaeda e percebi rapidamente que as ameaças terroristas aos Estados Unidos e à Europa tinham anos. Mas no ocidente ninguém levou a sério. A Al-Qaeda foi desvalorizada como “um grupo de fanáticos medievais.”

Em 2022, depois da agressão militar da Rússia, também se observou rapidamente que Putin havia defendido durante anos a conquista da Ucrânia. Foi igualmente desvalorizado como defendendo “ideias bélicas do século XIX” que não se aplicavam à “Europa do século XXI.”

Estes dois exemplos mostram uma arrogância extrema por parte dos europeus: os não-ocidentais que não pensam como nós, não são levados a sério. Muitos europeus têm a mesma atitude perante o islamismo radical, que cresce na Europa a uma velocidade impressionante.

Existem muitos estudos e relatórios de governos europeus sobre o crescimento e a ameaça do islamismo radical, há livros publicados sobre o assunto, mas mesmo assim o tema tornou-se um tabu na maioria das discussões na Europa. Devíamos levá-lo muito a sério. O objectivo final do islamismo radical na Europa é converter os países europeus ao islamismo. Já sei que muitos leitores estão a reagir como se reagiu à Al Qaeda ou às ameaças de Putin. Mas não sou eu que o escrevo. São os líderes do islamismo radical na Europa, e em particular da Irmandade Muçulmana.

Observo bem o que se passa no Reino Unido. Há uma estratégia clara para radicalizar imigrantes muçulmanos, especialmente de segunda geração. Esses esforços começaram com a ida de Imãs radicais para as mesquitas britânicas. A maioria desses Imãs foi expulsa do Egipto, da Arábia Saudita e do Paquistão. Ou seja, países muçulmanos expulsaram líderes religiosos para defender as suas populações do radicalismo islâmico, os quais vieram promover as mesmas ideias para o Reino Unido e outros países europeus. Mas os governos britânicos permitiram a radicalização de muitos jovens muçulmanos no Reino Unido. Muitas mesquitas continuam a ser centros de radicalização islâmica.

Simultaneamente, em nome da defesa contra o racismo e contra a Islamofobia, tornou-se proibido defender certas posições contra o islamismo radical no Reino Unido (não deixa de ser irónico, dado o profundo racismo dos islâmicos radicais). Hoje, a liberdade de expressão está sob ameaça no Reino Unido. Pior, os oficiais da polícia britânica vivem em pânico de serem acusados de racistas, e deixaram de garantir a segurança dos britânicos em muitas localidades do país. Hoje, a polícia britânica tem instruções para dar mais importância a discursos de Islamofobia do que a prosseguir crimes cometidos por islâmicos radicais.

A estratégia de radicalização de populações muçulmanas é bem pensada, executada e financiada de fora do Reino Unido. Há três fontes principais de financiamento: a Irmandade Muçulmana, muitas vezes através da Turquia, o Paquistão e o Irão. As autoridades britânicas, para evitar confrontos diplomáticos, pouco fazem para travar estes financiamentos.

O sucesso da radicalização islâmica no Reino Unido já tem implicações políticas. No poder local, há municípios onde os radicais islâmicos fazem parte das maiorias políticas, com consequências graves para a educação, a segurança e a igualdade de géneros (por exemplo, nas escolas). Aliás, os locais que mais praticam a discriminação entre homens e mulheres no Reino Unido são as mesquitas e os centros islâmicos. Os trabalhistas e os verdes sabem muito bem disso, mas nada dizem, e atacam quem o diz. É assim que a liberdade política começa a morrer.

A política externa britânica no Médio Oriente, particularmente em relação a Israel e ao Irão, também já está altamente condicionada pela presença de islamistas radicais no seu território.

Há um ponto central: não se pode confundir islamismo radical com o Islão ou a religião muçulmana. Aliás, os muçulmanos são as primeiras vítimas da radicalização islâmica. Ouçam os depoimentos de raparigas britânicas muçulmanas que se revoltaram contra os casamentos forçados pelas suas famílias. Do mesmo modo, os responsáveis políticos de muitos países árabes afirmam claramente que o islamismo radical deve ser combatido e que hoje é um problema maior na Europa. Por exemplo, os Emirados Árabes Unidos deixaram de dar bolsas para estudar nas universidades britânicas para os seus jovens não regressarem ao país radicalizados. Para combater o islamismo radical, os países europeus devem cooperar com países árabes e muçulmanos.

Na Europa, à arrogância de recusar como possível tudo o que foge das nossas categorias intelectuais, segue-se a fraqueza de ser incapaz de combater uma das maiores ameaças aos valores, à liberdade, à segurança e até à democracia na Europa. O islamismo radical é o terceiro grande movimento totalitário que a Europa livre enfrenta, depois do comunismo soviético e do nazismo.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 23 de junho de 2026

André Mendonça está enfrentando o sistema...


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de junho de 2026

André Mendonça está enfrentando o sistema. Como acabaram outros juízes antes dele?

Alguns juízes pagaram com a vida; outros, com a carreira; apenas alguns poucos conseguiram reverter a perseguição. Adriano Gianturco para a Gazeta do Povo:

O ministro do STF André Mendonça está com segurança reforçada e arriscando a vida. Mendonça é relator do caso Banco Master e está enfrentando, sozinho: Daniel Vorcaro; a turma de Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli; todos os políticos envolvidos; sicários; e até infiltrados da e na Polícia Federal.

Nos últimos dias, viralizaram vídeos de seu voto no julgamento que manteve presos o pai e o primo de Vorcaro. Mendonça revelou o que as investigações estão mostrando: milícias e sicários com orçamento mensal de R$ 1 milhão, fuzis, munições etc. Falou sobre ameaças, acenou com o perigo de ser assassinado, e ainda discutiu com Gilmar Mendes. Em resposta, o Ministério da Justiça, sob diretiva de Lula, retirou os agentes da PF cedidos a vários órgãos – inclusive os delegados que estavam no gabinete de Mendonça.

Essa combinação – juiz isolado, sob pressão, enfrentando interesses poderosos e até colegas – tem vários paralelos no Brasil e fora dele.

Nos anos 1990, na Itália, Giovanni Falcone e Paolo Borsellino foram os juízes que lideraram o “pool antimáfia” e organizaram o Maxiprocesso, que condenou 338 mafiosos sicilianos com penas de 2.665 anos, com prisão perpétua para 19 chefes. A resposta da máfia foi o assassinato de ambos.

Em 1998, o juiz espanhol Baltasar Garzón ficou mundialmente famoso por mandar prender o ex-ditador chileno Augusto Pinochet em Londres, com base no princípio da jurisdição universal. Antes disso, ele já tinha investigado os GAL, grupo paramilitar usado pelo próprio governo socialista espanhol contra o ETA – o escândalo contribuiu para a queda do governo de Felipe González. Mas o desfecho de sua carreira foi duro: ele tentou investigar crimes da ditadura franquista e foi processado; depois, foi condenado por ter autorizado escutas ilegais em um caso de corrupção, o “caso Gürtel”; por fim, acabou inabilitado da magistratura por 11 anos, encerrando de fato sua carreira como juiz.

Na França, a juíza Eva Joly investigou um caso político-financeiro de desvio de verba envolvendo a petrolífera estatal Elf. O presidente da Corte Constitucional estava envolvido e teve de se demitir. A juíza foi ameaçada e, certo dia, encontrou na porta uma lista com nomes de juízes assassinados. Recebeu proteção policial, mas, após o suicídio do ex-marido em meio ao processo, deixou a França, dizendo que não queria dar tempo para ninguém se vingar. Foi trabalhar na Noruega, onde havia nascido, e só retornou à França anos depois.

No Paquistão, o presidente da Suprema Corte Iftikhar Chaudhry questionou o duplo papel de presidente e chefe do Exército de Pervez Musharraf. Em março de 2007, Musharraf tentou afastá-lo do cargo, mas um movimento de advogados o defendeu e um painel de 13 juízes da Suprema Corte o reintegrou por unanimidade. Musharraf tentou de novo em novembro do mesmo ano, demitindo-o junto com outros juízes sob estado de emergência, mas acabou cedendo à pressão de protestos e o reintegrou.

Na Polônia, o juiz Igor Tuleya se tornou símbolo de resistência às reformas do partido governista PiS, que ampliavam o controle político sobre o Judiciário. Foi alvo de processo disciplinar por ter permitido que a imprensa acompanhasse um julgamento politicamente sensível, e foi suspenso. Ficou mais de dois anos afastado, mas, no fim, a Suprema Corte da Polônia o considerou inocente. A Corte Europeia de Direitos Humanos reconheceu múltiplas violações no processo contra ele.

No Brasil, Sergio Moro foi símbolo do “juiz contra o sistema” durante a Lava Jato. Mas, em 2021, o STF declarou sua suspeição, uma decisão que anulou todos os seus atos nos processos contra Lula e abriu caminho para a anulação de várias outras condenações da Lava Jato. Deltan Dallagnol, que não era juiz, mas procurador e líder da força-tarefa do Ministério Público Federal, foi alvo de vários processos disciplinares no Conselho Nacional do Ministério Público e teve seu mandato de deputado federal cassado após decisão do TSE.

Os desfechos variam: alguns juízes pagaram com a vida (Falcone e Borsellino); outros, com a carreira (Garzón e Joly, além do ex-procurador Dallagnol); apenas alguns poucos conseguiram reverter a perseguição por meio da mobilização popular ou de cortes internacionais (Chaudhry e Tuleya).

Não é uma questão técnica: se Mendonça quiser vencer, precisa de aliados e de apoio popular, midiático, político e internacional. Combater a corrupção e abusos de poder não é para Rambos: ninguém consegue vencer sozinho.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com