Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de julho de 2026
Inocentes em cativeiro
Hoje, proponho uma reflexão sob o impacto que a leitura do livro de Kylie Moore-Gilbert — “804 DIAS EM CATIVEIRO: A MULHER QUE SOBREVIVEU A UMA PRISÃO IRANIANA”, traduzido e publicado neste mês pelo Clube Ludovico — causou em mim.
Um relato impressionante de uma vítima da teocracia islâmica instalada no Irã, com todos os requintes de crueldade que são capazes de impor aos seus reais ou supostos inimigos.
Adicionalmente, trouxe um pouco de Sagan… para celebrarmos 30 anos da publicação do icônico “O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela na escuridão".
Espero que apreciem. Dennys Xavier:
O CÉU DO IRÃ
Kylie Moore-Gilbert chegou ao Irã como pesquisadora. Tinha formação acadêmica, conhecia a política do Oriente Médio e participara de uma conferência.
Em setembro de 2018, quando se preparava para deixar o país, foi detida no aeroporto de Teerã pela Guarda Revolucionária. Depois veio a acusação de espionagem, um julgamento conduzido sem garantias minimamente confiáveis e a sentença de dez anos de prisão. Passaria 804 dias entre Evin e Qarchak, enfrentando interrogatórios, isolamento, vigilância e uma forma de violência que procurava alcançar muito mais do que o corpo.
Seu livro, The Uncaged Sky: My 804 Days in an Iranian Prison (agora disponível aos assinantes do Clube Ludovico), carrega no título uma imagem encontrada durante o encarceramento. O céu sobre as prisioneiras continuava aberto, indiferente às grades e aos muros. A frase poderia, quem sabe, soar excessivamente literária em outro contexto, mas adquire força invulgar quando escrita por alguém para quem a simples visão do alto se tornara uma experiência limitada, vigiada, concedida segundo a vontade de carcereiros.
A prisão política tem uma lógica própria. Ela tenta introduzir o poder dentro da consciência do prisioneiro. O regime deseja que sua vítima passe a pensar com as categorias impostas pelo interrogador, que duvide da própria memória, que aceite a culpa inventada e reconheça na autoridade de quem a oprime uma espécie de onipotência.
O isolamento prolongado participa desse método. A pessoa deixa de receber do convívio humano as pequenas confirmações que sustentam a percepção da realidade. Uma voz, um rosto conhecido, uma conversa sem medo, tudo aquilo que parecia banal começa a revelar sua importância.
Kylie resistiu também porque percebeu, com crescente nitidez, o que seus interrogadores pretendiam obter. Não buscavam tão-somente informações.
Queriam colaboração, submissão e utilidade política. Um Estado desse tipo olha para o indivíduo como matéria disponível. Sua biografia pode ser reinterpretada, suas relações pessoais podem ser transformadas em indícios, sua profissão pode servir de pretexto para uma narrativa de conspiração. A verdade perde relevância logo que o poder se vê autorizado a fabricar a versão conveniente dos acontecimentos.
Platão, mutatis mutandis, conhecia esse mecanismo em outra forma. Na Apologia, Sócrates enfrenta uma cidade que não consegue suportar a sua presença sem convertê-la em ameaça. As acusações contra ele resguardam ritualística jurídica, mas nasceram de ressentimentos acumulados, de temores políticos e da irritação provocada por quem fazia perguntas em público. O tribunal desejava uma retratação que preservasse a autoridade dos acusadores. Sócrates recusou esse gesto porquanto compreendia que a vida privada de fidelidade à consciência valia mais do que uma sobrevivência comprada pela renúncia ao próprio caráter.
A experiência de Kylie toca essa antiga questão.
Quanto de nós permanece quando quase todas as escolhas exteriores são retiradas? Viktor Frankl encontrou nos campos de concentração uma resposta difícil, formulada sem a duras penas. Mesmo submetido a condições extremas, o ser humano conserva alguma possibilidade de decidir a atitude que assumirá diante do sofrimento. Essa liberdade interior não elimina a dor, não transforma a vítima em criatura invulnerável e tampouco torna suportável o que é desumano. Ela indica um território que o carrasco procura ocupar, embora não consiga fazê-lo por completo sem alguma participação daquele que sofre.
Kylie não aparece em seu relato como uma personagem imune ao medo. A força do livro depende disso. Surgem a angústia, a exaustão, a raiva, os conflitos com outras prisioneiras, o desgaste provocado pela incerteza e os efeitos de uma rotina organizada para quebrar qualquer senso de continuidade.
Sua resistência não se apresenta como uma serenidade constante. Ela assume formas irregulares, por vezes duras, por vezes desesperadas. Greves de fome, mensagens enviadas clandestinamente, recusas, negociações e pequenas decisões cotidianas preservavam alguma relação com a pessoa que ela havia sido fora da prisão.
O contato com as mulheres iranianas também transforma o centro do relato.
Muitas delas não tinham governos estrangeiros negociando por sua libertação, nem jornais internacionais acompanhando seus processos. Algumas cumpriam penas impostas por crimes políticos; outras estavam presas em circunstâncias atravessadas pela pobreza, pela violência familiar e pela rigidez de uma ordem jurídica que trata a mulher como alguém cuja vida precisa permanecer sob tutela.
Kylie compreende que sua história, embora terrível, estava cercada por uma atenção que não alcançava a maior parte de suas companheiras.
Essa convivência impede que o livro se torne apenas a narrativa de uma estrangeira capturada por um regime hostil. A prisão, concebida naqueles termos, expõe uma sociedade inteira em frangalhos, vivendo os estertores do que há de mais alto no ser humano: alguma dignidade, alguma racionalidade residual, algum senso de justiça. Dentro das celas aparecem as divisões religiosas, as diferenças de classe, os conflitos políticos, a coragem de certas mulheres e a crueldade de outras.
A opressão, não nos enganemos, não produz automaticamente solidariedade. Pessoas submetidas à mesma instituição podem proteger umas às outras, competir por recursos escassos, reproduzir hierarquias ou colaborar com os carcereiros, mercê de suas categorias mentais (por vezes bem exóticas).
A natureza humana continua ali, presente, sem a pureza que os relatos edificantes costumam exigir. Sim, livros como esse mostram um lado nosso que pouco ou nada corrobora a expressão “tratamento humanizado” como algo desejável.
Hayek escreveu sobre a relação entre liberdade e previsibilidade jurídica. Uma sociedade livre depende de regras que limitem o poder e permitam ao indivíduo orientar a própria conduta sem temer que a autoridade transforme qualquer gesto em delito depois de praticado. No caso de Kylie, a lei deixou de funcionar como fronteira do poder. Tornou-se linguagem de legitimação para uma decisão tomada em outra esfera. A acusação de espionagem servia aos interesses do Estado iraniano, e a condenação conferia uma aparência formal ao sequestro político.
Atenção a isso: obediência à formalidade jurídica não necessariamente é aplicação de justiça… nós, brasileiros, deveríamos saber bem disso. A arbitrariedade tem esse gosto pela cerimônia. Regimes autoritários mantêm tribunais, juízes, autos processuais e sentenças porque a violência apresentada como simples violência revela depressa sua nudez. O vocabulário jurídico oferece uma cobertura respeitável. A vítima passa a ser chamada de ré, o cativeiro recebe o nome de pena e a negociação diplomática que decide sua libertação pode ser tratada como cumprimento da justiça.
As palavras permanecem, mas o sentido delas foi esvaziado.
Kylie foi libertada em novembro de 2020, numa troca de prisioneiros.
Sua saída não restituiu os dias perdidos, nem poderia devolver intacta a vida que existia antes da prisão. O retorno envolve outra espécie de trabalho. A pessoa precisa reaprender a habitar espaços abertos, lidar com escolhas comuns, ouvir sons cotidianos sem associá-los à vigilância e aceitar que a liberdade recuperada não apaga a experiência do confinamento.
Talvez por isso o céu do título em inglês permaneça tão presente, ecoando, depois da leitura. Continuava aberto enquanto as mulheres estavam presas, e essa indiferença poderia ser sentida como beleza ou crueldade.
(Lembrei-me, enquanto lia, da célebre “Ponte dos Suspiros”, em Veneza, que costuma despertar uma imaginação romântica que pouco tem a ver com sua verdadeira história. O nome sugere encontros secretos, amantes separados ou promessas sussurradas sobre as águas. Nada disso. Construída no início do século XVII, ela ligava o Palácio Ducal às antigas prisões da República de Veneza. Por aquele corredor fechado passavam os condenados depois do julgamento, conduzidos às celas onde muitos permaneceriam por anos ou de onde sairiam apenas para a execução da pena. Os “suspiros” que deram fama à ponte não pertenciam ao amor, mas à despedida. Pelas pequenas janelas de pedra, protegidas por grossas treliças, o prisioneiro podia lançar um último olhar sobre o mar, sobre a luz que envolvia Veneza e sobre a vida que continuaria do lado de fora. Era um instante breve, suficiente para tornar ainda mais pesado o caminho em direção ao cárcere… ou à pena capital).
A liberdade do mundo exterior existia ao mesmo tempo que o cativeiro.
Depois de 804 dias, Kylie voltou a atravessar portões, mas levou consigo os nomes, os rostos e as histórias das que permaneceram do outro lado.
O livro termina… experiencias assim não terminam como os livros.
Outras pessoas continuam sendo interrogadas em salas parecidas, outras famílias aguardam notícias, outros processos transformam decisões políticas em sentenças judiciais. Estamos completamente imersos naquela realidade, ainda hoje.
Jamais nos esqueçamos.
A memória de Kylie pertence a uma mulher que sobreviveu e conseguiu escrever. Também guarda alguma coisa das mulheres e dos homens cujas vozes alcançam o mundo por fragmentos, bilhetes escondidos, telefonemas interrompidos ou relatos de quem saiu. Quando alcançam.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com