quinta-feira, 4 de junho de 2026

Entre a cruz e o consultório

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 3 de junho de 2026

Entre a cruz e o consultório: psicólogas(os) cristãs(ãos) na disputa pela moralidade pública no Brasil

Por Péricles Andrade* e Helmir Rodrigues**

A disputa pela moralidade pública no Brasil é descrita como uma verdadeira “guerra cultural”, na qual a direita cristã utiliza o “pânico moral” para reagir contra avanços de pautas progressistas ligadas à diversidade e aos direitos reprodutivos. Esse embate centraliza-se na sacralização da família tradicional (heteronormativa) e na oposição ferrenha à chamada “ideologia de gênero”, percebida por esses grupos como uma ameaça existencial à sobrevivência da ordem social cristã. Enquanto movimentos identitários, feministas e LGBTQIAPN+ buscam igualdade de direitos e tratamento isonômico pelo Estado, os setores conservadores atuam como um “contramovimento de resistência”, tentando limitar mudanças nos costumes e preservar a hegemonia das instituições religiosas sobre a vida pública.

Nesse contexto, o Senado Federal voltou a colocar religião e esfera pública no centro do debate político brasileiro com o Projeto de Resolução nº 3/2026, apresentado pelo senador Magno Malta (PL-ES). A proposta cria a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos e busca defender profissionais que alegam sofrer sanções ético-disciplinares por manifestações de fé em redes sociais, espaços públicos ou ambientes religiosos. Esta iniciativa, de caráter suprapartidário e duração indeterminada, visa promover e defender o respeito aos direitos fundamentais no exercício da Psicologia. O fundamento central da proposta reside no artigo 5º da Constituição Federal, que garante a inviolabilidade da liberdade de consciência, de crença e a proteção à objeção de consciência no Brasil.

A proposta fundamenta-se na premissa de que a religiosidade é uma dimensão estruturante da identidade humana e que a laicidade do Estado brasileiro deve ser colaborativa e não hostil à fé, combatendo o que define como uma “falsa neutralidade” ideológica nos conselhos profissionais. Entre seus objetivos principais descritos no Artigo 2º, a Frente busca fiscalizar órgãos reguladores e reagir a sanções institucionais, como notificações, termos de ajustamento de conduta e processos ético-disciplinares, aplicadas a psicólogos(as) por expressarem suas convicções em ambientes públicos ou redes sociais, visando impedir que a ética profissional seja instrumentalizada para restringir garantias constitucionais “inegociáveis”.

A proposição surge como uma resposta do legislativo às normas administrativas e processos ético-disciplinares movidos por conselhos profissionais contra psicólogos(as). Segundo a justificativa do projeto, existe uma preocupante tendência de imposição de uma “neutralidade absoluta” que, na prática, pode ocultar “visões ideológicas secularistas” e restringir “indevidamente” a liberdade de expressão religiosa. Dessa forma, a Frente busca fiscalizar os conselhos de psicologia para evitar que atos infralegais restrinjam direitos fundamentais ou inovem o ordenamento jurídico em desacordo com a supremacia constitucional.

No Brasil, o grupo identificado como “psicólogos cristãos”, por exemplo, defende o direito de oferecer terapias para a “reversão” da homossexualidade, tratando-a como uma “desordem moral” ou um “desvio patológico”. Esses profissionais desafiam o consenso científico contemporâneo, que aboliu sua classificação como patologia, e utilizam estrategicamente a linguagem dos direitos humanos para reivindicar suas “liberdades religiosa e científica”, buscando recolocar a orientação sexual no território do patológico, frequentemente vinculando sua prática a um ativismo político conservador voltado à defesa da “família tradicional”.

Lembramos que o Conselho Federal de Psicologia publicou no final da década de 1990 a Resolução nº 01/1999 para proibir práticas de patologização da homossexualidade e impedir a participação de profissionais em terapias de “reversão” sexual. A resolução também impede pronunciamentos públicos que trate esta orientação como doença ou distúrbio psicológico, tais como nos casos envolvendo as psicólogas Rozangela Justino e Marisa Lobo, que passaram a ocupar espaço no debate público após processos ético-disciplinares movidos pelos conselhos profissionais. As duas defenderam publicamente a legitimidade da chamada “cura gay” e apresentaram os processos como exemplos de “perseguição religiosa” dentro da Psicologia.

Já no ano de 2023, por meio da Resolução nº 07/2023, o Conselho Federal de Psicologia buscou estabelecer normas referentes a atuação profissional da psicologia e seu caráter laico. A referida resolução reafirma o já disposto no Código de Ética da Profissional do Psicólogo (CEPP), de 2005, o qual já ressalta que a prática dos(as) psicólogos(as) é vedado “induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual, ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais” (Alínea b, art. 2º).

Essa Resolução não só reafirma as vedações já dispostos no CEPP, quanto à indução de crenças religiosas no exercício profissional do(a) psicólogo(a), como também traz, por outro lado, a orientação para uma postura na compreensão que a prática profissional da psicologia dar-se-á por observar a dimensão religiosa e da espiritualidade (sem denominar uma ou outra), como aspectos formativos das subjetividades e coletividades. Junto a isso, o documento também amplia tal visão, de modo a atrelar a atuação psi na observância dos contextos históricos, culturais dos povos originários, das comunidades tradicionais, como também no respeito às vivências a-religiosas, agnósticas e ateístas de indivíduos e grupos.

Com isso, podemos perceber que as disposições normativas e legais do Conselho Federal de Psicologia, que se baseiam na Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU) e da Constituição Federal (Brasil, 1988), atuam na defesa de um olhar e postura ampliada sobre as formas de expressão de crenças religiosas e a-religiosas, compreendendo sua importância nos processos de subjetividade dos indivíduos e coletivas, que devem sempre ser levadas em consideração, nos processos de atuação profissional, mas não compactuando com quaisquer que sejam posições que venham a partir de crenças particulares, como único caminho possível para o processo de cuidado psicoterapêutico.

Com o Projeto de Resolução nº 3/2026 temos a ampliação desses embates de oposição entre ciência e religião. Além disso, é inserida uma disputa estratégica que envolve a regulação estatal e a política de gênero na democracia brasileira. Enquanto os conselhos defendem a Psicologia como uma ciência comprometida com a não discriminação, o ativismo a partir da “psicologia cristã” representa uma reação conservadora que tenta legitimar visões de mundo dogmáticas através de argumentos pseudocientíficos. Assim, a controvérsia em torno da “cura gay” revela tensões profundas sobre como o conhecimento especializado e o poder legislativo devem lidar com a diversidade e as convicções religiosas no espaço e na esfera pública.

A atuação da Frente Parlamentar Evangélica no PRS 3/2026 pode ser analisada a partir do conceito de minoritização evangélica elaborado por Joanildo Burity. Segundo Burity (2015), grupos religiosos podem utilizar a posição de “minoria perseguida” como estratégia política mesmo quando possuem presença institucional ampla. Esse mecanismo aparece no projeto quando profissionais que atuam a partir da “psicologia cristão” são apresentados simultaneamente como vítimas de perseguição ideológica e representantes da maioria cristã da população brasileira. Burity e Giumbelli (2020) observam que disputas religiosas contemporâneas passaram a utilizar a linguagem dos direitos e das minorias para justificar reivindicações morais e políticas. No caso do PRS 3/2026, a defesa da liberdade religiosa aparece vinculada à crítica contra órgãos técnicos do Estado e contra normas éticas produzidas pelos conselhos profissionais.

A iniciativa marca uma mudança qualitativa na estratégia da FPE, que avança da representação parlamentar para a fiscalização direta de órgãos reguladores e da máquina estatal. Ao propor o monitoramento de processos ético-disciplinares contra psicólogos(as) por suas manifestações de fé em redes sociais ou espaços públicos, a Frente visa mitigar a autoridade técnica dos conselhos de classe em favor de uma proteção institucional às convicções cristãs. Essa movimentação reflete a tentativa de converter a autoridade moral evangélica em um instrumento jurídico-político capaz de reagir a sanções institucionais que o grupo percebe como “perseguição” ideológica.

Afinal de contas, o projeto insere-se nas disputas pela moralidade pública travada pela FPE, que utiliza pautas de moralidade para combater o que denomina “ideologia de gênero” e avanços progressistas no campo dos direitos humanos. O objetivo central é transformar concepções religiosas particulares em parâmetros normativos universais, utilizando o aparato estatal para sancionar visões de mundo conservadoras como a norma ética da nação. Dessa forma, a Frente Parlamentar Evangélica busca consolidar um projeto de religação moral da sociedade, no qual a defesa da família tradicional e da moral cristã define os contornos legítimos da democracia e da prática profissional da Psicologia no Brasil.

A fundamentação do projeto questiona a “neutralidade absoluta” exigida pelos órgãos reguladores, classificando-a como uma “falsa neutralidade” que ocultaria uma ideologia secularista hostil à fé. A FPE defende uma “laicidade colaborativa”, argumentando que a religiosidade é uma dimensão estruturante da identidade humana e que exigir sua dissociação da prática profissional representaria uma “fragmentação artificial da personalidade”. Assim, a atuação parlamentar visa redefinir a laicidade brasileira como um regime de pluriconfessionalidade (Blancarte, 2011), no qual as convicções religiosas não devem ser deixadas “fora do consultório”, mas sim protegidas como garantias constitucionais “inegociáveis”.

Em síntese, o PRS 3/2026 evidencia que o debate em torno da liberdade religiosa dos “psicólogos cristãos” ultrapassa os limites corporativos da Psicologia e revela uma disputa mais ampla sobre os sentidos da laicidade, da autoridade científica e da moralidade pública no Brasil contemporâneo. Ao mobilizar a narrativa da perseguição religiosa e reivindicar uma “laicidade colaborativa”, a Frente Parlamentar Evangélica busca ampliar a legitimidade pública de convicções religiosas particulares no interior das instituições técnicas e regulatórias do Estado.

Nesse contexto, a controvérsia sobre a “cura gay”, a atuação dos Conselhos de Psicologia e a defesa da liberdade de expressão religiosa tornam-se elementos centrais de uma “guerra cultural” que disputa não apenas direitos, mas o próprio poder de definir quais são os valores que devem orientam a vida pública brasileira.

O PRS 3/2026 mostra como debates sobre religião e Psicologia passaram a ocupar espaço nas disputas políticas brasileiras recentes. A controvérsia reúne discussões sobre liberdade religiosa, direitos humanos, laicidade estatal e autoridade científica. O conflito não ocorre apenas entre religião e ciência. Ele envolve diferentes projetos sobre o papel das instituições públicas e sobre os critérios utilizados para regular práticas profissionais no Brasil contemporâneo.

Por fim, deixamos algumas questões para reflexão. Quem deve estabelecer os limites entre liberdade religiosa e ética profissional? Até que ponto convicções de fé podem reivindicar reconhecimento normativo em instituições científicas? Estaria a defesa da liberdade religiosa funcionando como ampliação democrática de direitos ou como estratégia de ocupação moral do Estado? E, diante dessas disputas, que tipo de laicidade e democracia está sendo construída no Brasil contemporâneo?

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* Professor Titular do DCS/UFS. Doutor em Sociologia pela UFPE. E-mail: periclesdcs@academico ufs br

** Professor Adjunto do DESL/UFS. Doutor em Psicologia pela UFF. E-mail: helmirdeslufs@gmail com

Referências:

BLANCARTE, Roberto. América Latina: entre pluriconfessionalidad y laicidade. Civitas: Revista de Ciências Sociais, Porto Alegre, v. 11, n. 2, p. 182–206, 2011.

BRASIL. Senado Federal. DOC Avulso inicial da matéria – PRS 3/2026. Institui a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos. Brasília: Senado Federal, 31 mar. 2026.

BRASIL. Senado Federal. Projeto de Resolução do Senado nº 3, de 2026. Institui a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos. Autor: Senador Magno Malta. Brasília: Senado Federal, 2026.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília, DF, 2005.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução nº 001, de 22 de março de 1999. Estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução nº 7, de 06 de abril de 2023. Estabelece normas para o exercício profissional em relação ao caráter laico da prática psicológica.

BURITY, Joanildo A. Políticas de minoritização religiosa e glocalização: notas para um estudo de redes religiosas de ativismo sociopolítico transnacional. Revista Latinoamericana de Estudios sobre Cuerpos, Emociones y Sociedad (RELACES), Córdoba, n. 18, ano 7, p. 19-30, ago./nov. 2015.

BURITY, Joanildo; GIUMBELLI, Emerson. Minorias religiosas: identidade e política em movimento. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, v. 40, n. 1, p. 9-17, 2020.

MACEDO, Cleber Michel Ribeiro de; SÍVORI, Horacio Federico. Repatologizando a homossexualidade: a perspectiva de “psicólogos cristãos” brasileiros no século XXI. Estudos e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 19, n. 1, p. 265-285, 2019.

MACHADO, Maria das Dores Campos. A vertente evangélica do neoconservadorismo brasileiro. In: GUADALUPE, José Luís Pérez; CARRANZA, Brenda (org.). Novo ativismo político no Brasil: os evangélicos do século XXI. Rio de Janeiro: Konrad Adenauer Stiftung, 2020. p. 271-286.

MACHADO, Maria das Dores Campos. O ativismo cristão e as democracias contemporâneas. Rio de Janeiro: Letra e Imagem, 2020.

MACHADO, Maria das Dores Campos. Pânicos morais e a política de costumes no Brasil. São Paulo: Hucitec, 2024.

SOUZA, Naiana Zaiden Rezende. Religião e política: a Frente Parlamentar Evangélica no Congresso Nacional. Goiânia: Cegraf UFG, 2024.

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Texto e imagens reproduzidos do site: www destaquenoticias com br

terça-feira, 2 de junho de 2026

'Uma chance para o Rio', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 2 de junho de 2026

Uma chance para o Rio 
Por Fernando Gabeira (in blog)

Quem mora no Rio e não pensa em se mudar precisa considerar a possibilidade que se abre de abolir a triste tradição de ver os governadores saindo do Palácio Guanabara para a cadeia.

As eleições nos dão uma chance, talvez a única, de nos livrarmos desse tipo de governo. É preciso eleger alguém que compreenda o potencial do Rio e queira também fazer algo decente por um estado que vem sendo saqueado ao longo do tempo.

Não tenho ilusões de que essa mudança possa ser feita da noite para o dia. O último governador conseguiu adaptar alguns setores da administração a sua perspectiva predadora. Isso é demonstrado na sonegação da Refit — até setores do meio ambiente foram cooptados para o crime. É possível que grande parte da administração tenha apodrecido.

É preciso um plano de trabalho cauteloso para avançar nesse campo minado. Caso contrário, haverá colapso. Da mesma forma, não será possível romper com todos na Assembleia Legislativa. É preciso manter contato com alguns para ir se livrando progressivamente da máfia. Do contrário, haverá paralisia.

Nesse ponto específico, a volta por cima depende parcialmente de nós. Temos de escolher bem os deputados, acompanhar o trabalho de quem elegemos. A própria imprensa, na medida em que se concentre nos deputados, poderá ajudar a minoria, com apoio da opinião pública, a evitar barbaridades e avançar alguns projetos indispensáveis.

O grande tema na recuperação é a segurança pública. Para que tenhamos um trabalho de excelência e profissionalismo, será preciso ir além do discurso de matar bandidos. O governador eleito terá de ser capaz de convencer a sociedade de que a segurança pública exige investimentos em salários, equipamento e formação.

O estado tem pouco recurso. Mas a importância da segurança pública no Rio tem dimensão internacional. Brasília precisa ter sensibilidade para o tema que se tornou um delicado item da política externa.

Mesmo antes disso, o sofrimento de milhões de fluminenses, alguns sem gozar a liberdade nas áreas ocupadas pelo crime organizado, já seria motivo mais que razoável para que os governos estadual, federal e municipal se unissem.

A devastação moral, as dívidas crescentes, a captura de setores da administração pelo crime, a insegurança urbana, tudo isso é motivo para que todos os setores vivos e criativos do Rio se unam e tentem uma volta por cima.

Sem a consciência de que temos uma chance e de que é preciso embarcar nela, dificilmente as coisas acontecerão entregues apenas ao domínio da política profissional.

O Rio chegou a este ponto porque grande parte das forças criativas considera que não vale a pena acompanhar esse espetáculo desagradável. Pois nossos olhos, nossa voz, nossa atenção podem ser o veículo adequado para que os políticos realizem pelo menos um trabalho razoável. Não há nada a perder, basta embarcar nessa última chance.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O Brasil real é muito menos polarizado do que imaginamos

Legenda da foto: Líderes da Revolução Federalista, no fim do século 19

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 27 de maio de 2026

O Brasil real é muito menos polarizado do que imaginamos

A política passa a ser organizada em torno dos grupos que mais gritam, ou que mais likes e cliques obtêm, e não necessariamente dos grupos que mais representam. Ricardo Gomes, do Instituto Millenium, para a Gazeta do Povo:

“Vivemos o momento de maior polarização da história”, diz-se nos quatro cantos do país, refletindo uma percepção que se equivoca quanto ao presente e também quanto ao passado.

Em 13 de agosto de 1894, um soldado subiu as escadarias do Palácio de Barro, então sede do governo do Rio Grande do Sul, levando uma caixa de chapéu em suas mãos. A caixa, que seria entregue ao presidente (como se chamava à época o governador) do estado, Júlio de Castilhos, continha nada mais, nada menos que a cabeça de Gumercindo Saraiva, seu maior opositor político.

Eram os dias da Revolução Federalista no sul do Brasil. Depois daquela, lutou-se uma guerra em 1823, e outra em 1824 – eu escrevo do Rio Grande do Sul, onde os conflitos deixaram profundas marcas na memória coletiva. Em 1930, um golpe de Estado levantou o Brasil em armas. Em 1932, a Revolução Constitucionalista, em São Paulo, foi o mais próximo que o Brasil já esteve de uma guerra civil. Em 1962, a Campanha da Legalidade conclamou todos que dispunham de armas a levantarem-se contra o Congresso para impor a posse de João Goulart.

Hoje, nos xingamos no X (o velho Twitter). Os fatos não parecem confirmar a hipótese de nunca termos experimentado uma radicalização política tão exacerbada. O passado foi muito mais polarizado do que pode supor quem não o estudou.

O presente, ademais, também não é como pensam os defensores da tese da “maior polarização da história”.

As manchetes dos jornais, os programas políticos, os comentários televisivos e, principalmente, as redes sociais transmitem a sensação de que o Brasil está dividido em dois grandes blocos políticos perfeitamente organizados, em permanente estado de confronto, e capazes de explicar toda a dinâmica nacional.

Mas talvez a característica mais interessante da polarização brasileira seja justamente o fato de que ela parece muito maior no ambiente da comunicação e, portanto, na percepção do grande público, do que na vida cotidiana da maior parte dos brasileiros.

Pesquisa recente da Quaest mostrou que apenas 19% dos brasileiros se identificam como lulistas, enquanto 12% se declaram bolsonaristas. Os números chamam atenção por um motivo simples: eles indicam que aproximadamente dois terços do eleitorado brasileiro não se identificam diretamente com os dois principais polos políticos que florescem no debate nacional.

Isso não significa que Lula e Bolsonaro não sejam as figuras centrais da política brasileira contemporânea. Evidentemente são. Tampouco significa que a polarização seja artificial ou inexistente. Ela existe, influencia eleições, organiza discursos políticos e molda parte importante da dinâmica institucional do país.

Mas talvez ela não ocupe na vida real dos brasileiros comuns o mesmo espaço que ocupa no ambiente da comunicação política.

A polarização domina o debate público porque ela tem enorme capacidade de produzir engajamento. Conflitos geram atenção. Antagonismos geram audiência. Disputas morais e políticas produzem reação emocional imediata. As redes sociais, por sua própria natureza, amplificam esse fenômeno. Elas privilegiam o confronto, a simplificação e a lógica das identidades políticas rígidas.

O algoritmo raramente recompensa moderação, nuance ou complexidade. Ele recompensa intensidade. O resultado é a formação de um ambiente comunicacional em que a polarização parece totalizante, como se todas as relações sociais, institucionais e pessoais do país estivessem permanentemente submetidas ao conflito político nacional.

Mas fora das redes sociais e dos círculos mais agudamente politizados, o Brasil real parece funcionar de forma mais complexa e menos ideológica do que frequentemente se imagina.

A maior parte das pessoas continua organizando sua vida em torno de preocupações muito mais concretas e imediatas: renda, emprego, segurança, custo de vida, saúde, transporte, educação dos filhos, oportunidades econômicas e estabilidade pessoal. A política aparece, muitas vezes, mais como pano de fundo que como elemento central da identidade individual.

Isso ajuda a explicar um fenômeno curioso da política brasileira contemporânea: embora a polarização domine as mídias (tradicionais e sociais), existe simultaneamente um eleitorado enorme, volátil e pouco rígido ideologicamente. Um eleitorado que transita, muda de opinião, vota pragmaticamente e frequentemente não se sente plenamente representado por nenhum dos polos políticos em disputa.

Talvez por isso as eleições brasileiras, apesar da retórica fortemente antagonizada, continuem sendo muito mais disputadas no centro do eleitorado do que nas extremidades mais mobilizadas.

Esse fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Democracias contemporâneas vivem, em maior ou menor grau, uma dissociação entre o ambiente hiperpolitizado das redes e a vida prática das maiorias silenciosas. A comunicação política passa a operar em temperatura máxima permanente, enquanto grande parte da sociedade continua vivendo fora desse estado contínuo de mobilização ideológica.

O problema é que a política institucional frequentemente passa a reagir mais ao ambiente da comunicação do que ao país real. Governos, partidos, lideranças e até instituições acabam capturados pela lógica da polarização permanente, porque é nela que estão as pressões mais visíveis, os grupos mais organizados e os conflitos de maior repercussão pública. E assim o debate político nacional vai gradualmente se tornando mais radicalizado que a própria sociedade que pretende representar.

Talvez resida aí uma das maiores distorções da nossa midiática democracia contemporânea. A política passa a ser organizada em torno dos grupos que mais gritam, ou que mais likes e cliques obtêm, e não necessariamente dos grupos que mais representam.

Enquanto isso, o grande espaço intermediário da sociedade brasileira – menos ideológico, mais pragmático e mais preocupado com problemas concretos – permanece relativamente sub-representado no debate público, embora seja provavelmente ele quem decida a maior parte das eleições nacionais.

A polarização existe. Mas talvez ela diga mais sobre o funcionamento da política contemporânea do que sobre a vida cotidiana da maioria dos brasileiros.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

domingo, 24 de maio de 2026

Procura-se um procurador-geral da República

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 24 de maio de 2026

Procura-se um procurador-geral da República

A denúncia contra vídeos satíricos expõe a atuação seletiva de Gonet: agressivo na hora de defender interesses de ministros, omisso para investigá-los mesmo diante de grossas suspeitas. Editorial do Estadão:

Romeu Zema virou alvo de denúncia criminal junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) por vídeos satíricos com fantoches de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A peça, assinada pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, acusa o ex-governador de Minas de calúnia contra o ministro Gilmar Mendes. Convém parar um instante e absorver a cena: o chefe do Ministério Público mobilizou o aparato penal da República por causa de bonecos de internet.

Zema caricaturou uma decisão questionada pelo próprio presidente do STF, Edson Fachin, e suspeitas amplamente debatidas sobre o caso Banco Master e a atuação dos ministros. Pode-se considerar os vídeos injustos, agressivos, toscos ou demagógicos. O que não se pode fazer, sem violentar o Direito Penal, é fingir que um fantoche equivale a uma acusação formal de crime.

Calúnia exige imputação falsa de fato determinado. Humor político funciona justamente por exagero, compressão e distorção. Desde os panfletos do século 18 até os programas televisivos contemporâneos, a paródia sempre tratou governantes e juízes como personagens ridículos. Em democracias maduras, autoridades toleram isso. Aqui, o procurador-geral resolveu denunciar.

Zema não tem foro privilegiado. Se Mendes se sentiu ofendido, deveria acionar o Ministério Público na primeira instância. Mas o ministro pediu providências ao colega Alexandre de Moraes, que encaminhou o caso à Procuradoria-Geral da República (PGR). E o órgão que deveria funcionar como filtro contra abusos chancelou sua formalização. A peça da PGR se aproxima perigosamente de uma advocacia penal privada da honra de um ministro.

A seletividade fica mais visível quando se observa aquilo que Gonet escolhe não fazer. Mais de uma vez, o próprio Mendes insinuou que o senador Alessandro Vieira teria vínculos com milicianos e o crime organizado. Onde está a denúncia? Onde está o zelo pela honra? A régua muda conforme o sobrenome na capa do processo.

Diante de contratos multimilionários de empresas de Daniel Vorcaro – o banqueiro investigado pela maior fraude no sistema financeiro de que se tem notícia – e o escritório da mulher de Moraes ou a empresa da família de Dias Toffoli, a PGR entrou em estado contemplativo. Quando Toffoli assumiu a relatoria do caso Master, Gonet arquivou pedidos de impedimento que os próprios ministros do STF se viram obrigados a reconhecer – ainda que não formalmente – numa reunião secreta. Mensagens entre Moraes e Vorcaro foram dispensadas como ninharias. Gonet procrastinou a avaliação de um pedido de prisão de Vorcaro quando a Polícia Federal já evidenciava riscos flagrantes de obstrução e intimidação.

A elasticidade muda conforme o alvo. Depois que um ex-assessor de Moraes, Eduardo Tagliaferro, trouxe à tona mensagens e relatos sobre a atuação informal do ministro para perseguir críticos, o foco deslocou-se rapidamente. Em vez de concentrar energia no conteúdo revelado, o aparato persecutório voltou-se contra quem revelou. A Procuradoria investiga o mensageiro com vigor, mas a mensagem foi varrida para debaixo do tapete.

Esse padrão explica por que tantos brasileiros enxergam hoje uma Justiça de castas. Críticas a ministros são equiparadas a “ataques à democracia”. Um entrevero entre Moraes e um cidadão comum em Roma ativou as engrenagens penais da PGR. Uma frase escrita com batom numa estátua gerou pedido de pena superior à aplicada a criminosos violentos. Um Pix de R$ 500 para ajudar a fretar um ônibus com manifestantes rumo a Brasília virou acusação por tentativa de golpe. Já ministros do STF parecem habitar um ecossistema processual muito mais acolhedor, paciente e compreensivo.

O Ministério Público existe para defender a ordem jurídica e fiscalizar o poder, inclusive o poder togado. Uniformidade de critérios, prudência sem covardia, coragem sem abusos, apego rigoroso ao devido processo legal, proporcionalidade e, sobretudo, independência são o que se espera de um bom procurador. Já Paulo Gonet oscila entre dois polos igualmente degradantes para o parquet: o de perseguidor-geral da República e o de prevaricador-geral da República.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 23 de maio de 2026

'Direita, de uma queda foi ao chão', por Fernando Gabeira

Artigo comparilhado do site do GABEIRA, de 22 de maio de 2026

Direita, de uma queda foi ao chão 
Por Fernando Gabeira (in blog) 

Quando baixar a poeira do envolvimento de Flávio Bolsonaro com o dono do Banco Master, muitas perguntas poderão ser respondidas sobre o futuro da direita e, indiretamente, o futuro imediato do próprio País. Ao que parece, as revelações não são um mero incidente de campanha, mas revelam o tamanho do erro de essa corrente de opinião se tornar refém da liderança de Jair Bolsonaro. É um homem limitado para uma tarefa complexa, e o simples fato de ter optado por um caminho dinástico, apresentando o filho como candidato, já é um sinal de estreiteza.

A direita brasileira, de um modo geral, não vencia eleições majoritárias, daí o grande número de tentativas de golpe em nossa história contemporânea. No entanto, o processo de redemocratização trouxe algumas novidades: Collor e o próprio Jair Bolsonaro se elegeram – hoje ambos cumprem prisão domiciliar por razões humanitárias.

A vitória de Jair Bolsonaro representou um encontro com o voto popular. No auge das lutas identitárias, ele soube como ninguém usar o desconforto conservador, explorando o lado sombrio do racismo, da homofobia e da misoginia. Líderes como Carlos Lacerda não teriam a mesma desenvoltura, apesar do brilho intelectual. Verdade é que as condições históricas estavam mudadas, mas a direita sempre foi acusada de elitismo. Bolsonaro conseguiu adicionar à clássica agenda da direita a luta contra a corrupção, além de todos os temas de costumes presentes no Brasil moderno. E enfatizou uma visão implacável na segurança pública, uma política do tipo “bandido bom é bandido morto”.

Numa época em que as redes sociais têm hegemonia na propaganda política, Bolsonaro se beneficiou de uma presença agressiva na internet e mobilizou, por sua vez, grupos aguerridos a seu favor. Com todas essas características, principalmente a capacidade de atrair votos, Bolsonaro galvanizou a direita e também o antipetismo. Os candidatos no seu campo que desprezam sua orientação seriam apenas coadjuvantes no processo eleitoral.

Agora que o modelo dinástico com a candidatura do filho está fazendo água, Bolsonaro coloca em risco toda a estratégia de avanço da direita que deveria culminar, ao lado da campanha presidencial, com uma eleição de grande número de senadores. Essa força no Senado seria usada para combater alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), inclusive com impeachment.

Nada autoriza dizer que a direita perderá espaço no Parlamento. Mas um baque na Presidência acaba refletindo nas eleições proporcionais. Muitos candidatos estão revendo seu plano de campanha diante da fragilidade de Flávio expressa nas relações com Vorcaro e suas desculpas inconsistentes. Certos candidatos ao Senado estudam disputar a Câmara. A expectativa vai baixar.

No campo da esquerda, havia um certo cansaço com o governo. O desgaste de Lula por nada disso foi alterado. Mas a primeira pesquisa que surgiu após as revelações mostra uma queda acentuada de Flávio e a manutenção das preferências por Lula. Diante desse quadro, o favoritismo se fortaleceu. Vários candidatos continuam a disputar o papel de opositor, mas dificilmente um deles vai superar a fragmentação.

Diante dessa possível realidade, o caminho é desejar que a política do atual governo mantenha alguns dos seus pontos positivos e, certamente, encontre outros.

A política de transição energética é fundamental para, entre outras coisas, fortalecer o papel do Brasil como um importante interlocutor global no campo do meio ambiente. A hipótese de que se vai lutar contra o desmatamento, explorar de forma sustentável nossos recursos naturais e proteger nossos povos originários pode ser uma boa previsão para o futuro.

Reformas serão necessárias: política, administrativa e judiciária. Muita coisa velha tem de ser superada. E todas essas tensões estarão presentes diante de um Congresso hostil e de grandes dificuldades financeiras em 2027.

Será preciso superar o problema de equilíbrio fiscal. Não tenho a fórmula. Sei que uma política austera dá margem ao desgaste e o avanço do populismo, conforme o próprio Lula admitiu em seu discurso de Barcelona.

Penso que uma reforma administrativa e a adesão do Estado aos instrumentos digitais poderiam tornar a máquina mais leve, a vida das pessoas e empresas mais fácil e, quem sabe, um grande alívio para o peso fiscal. Não podemos deixar de gastar e não podemos gastar. Será preciso discutir com calma como sair desse dilema.

É preciso saber também como será o resultado final das eleições, que tipo de correlação de forças emergirá das urnas, que evolução terá a conjuntura internacional com protagonistas tão imprevisíveis como Donald Trump.

É previsível que todos terão de tentar uma renovação, inclusive os vencedores. Com a velocidade dos fatos, a interdependência global, a nostalgia é proibida: a direita brasileira que o diga.

Texto e imagem reproduzidos do site do gabeira com br

A tentação populista: agenda da mediocridade

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de maio de 2026

A tentação populista: agenda da mediocridade.

Pela lógica que é própria da política e sua estranha racionalidade, mesmo sabendo o caminho a seguir, optamos, sem muito constrangimento, pela agenda da mediocridade. É sobre isto, no fundo, o debate que o País deveria fazer, neste ano triste de 2026. Fernando Schüler para o Estadão:

Há coisas que se repetem a cada quatro anos neste país de memória curta e seletiva. Uma delas é o surto populista. Agora mesmo, vemos o governo distribuindo favores, em um clima febril. Há o “Move Brasil”, com seus mais de R$ 20 bilhões em crédito para compra de caminhões e carros de aplicativo. Há o Desenrola 2.0, o repetitivo programa em que o governo, via medida provisória, usa dinheiro público para beneficiar devedores, no mercado privado, menos de três anos depois de fazer basicamente a mesma coisa, com a mesmíssima retórica. E sem resultado estrutural algum. E há a curiosa reversão da taxa das blusinhas. Coisa que o próprio governo criou, dois anos atrás, e agora volta atrás, sem muita explicação.

O governo anterior também teve o seu surto. Quem não se lembra da PEC Kamikaze, que aumentou o Auxílio Brasil para R$ 600, criou auxílio aos caminhoneiros, distribuiu R$ 1 mil por taxista e dobrou o “vale-gás”? Isso a quatro meses das eleições. Imaginemos se Lula, daqui a um mês, resolvesse aumentar o Bolsa Família para 800 reais. Sejamos honestos. O que a oposição iria achar? Pode-se argumentar que o governo fez isso em um quadro de redução da dívida pública e forte contenção das despesas. A dívida pública chegou a um patamar de 71,7% do PIB e o país fechou o ano com um superávit de 0,5%. Mas as medidas populistas estavam lá, e cada um pode julgar.

O cenário agora é bastante distinto. Nossa dívida bate 80% do PIB e deve subir algo em torno de 10%, ao longo do atual governo. O déficit é crônico, houve um sistemático aumento de impostos e nenhuma reforma crível na estrutura do setor público. Em um estudo recente, os economistas Samuel Pessôa e Fábio Serrano alertam que as vinculações à receita dos pisos da saúde e educação, somados à indexação da seguridade social ao aumento do salário-mínimo no atual governo irão gerar um aumento acumulado de R$ 1,397 trilhão nas despesas federais entre 2027 e 2034. Daria para ir longe nisso.

O descontrole das contas públicas, na verdade, vai muito mais longe e tem um componente estrutural. Passa pela retomada em larga escala dos concursos públicos, pelo déficit das estatais, pela novela dos supersalários, pela inércia na revisão dos incentivos fiscais. Isso e toda a gastança brasileira.

Dias atrás escutei de um bom economista que o termo “gastança” é inadequado, visto que seriam apenas escolhas da sociedade. Ele tem o seu ponto. Quando os políticos torram R$ 5 bilhões em alguns meses de campanha, no fundão eleitoral, ou uma autoridade voa 140 vezes de jatinho em um ano, sem basicamente nenhuma necessidade, estamos diante de uma típica captura do Estado. O Brasil é um parquinho de diversões do rent-seeking, feito à base de retórica fácil e de uma sociedade passiva. E nisso meu amigo economista tem lá sua razão.

O sentido disso tudo é uma espécie de troca intertemporal. No curto prazo, distribuímos isenções e gratuidades; no longo, endividamos o País e adiamos reformas difíceis. O resultado é o País estacionado no que se convencionou chamar de “armadilha da renda média”. Com o detalhe incômodo de que estamos envelhecendo. Nossa população com mais de 60 anos simplesmente vai dobrar, indo de 15% a perto de 30% até 2050. Isso irá pressionar ainda mais o gasto público (para cima) e a produtividade (para baixo). E ninguém parece lá muito preocupado com isso, em Brasília.

Estas coisas deveriam servir de alerta. O País fez reformas importantes, ainda que em um ziguezague nos últimos 30 ou 40 anos. Ainda nos anos noventa abrimos o mercado de telefonia, e os resultados são conhecidos. Fizemos as concessões de aeroportos, que melhoraram a olhos vistos. Ainda recentemente, fizemos o novo marco do saneamento, com um forte aumento dos investimentos. O problema é que logo recuamos. Reformas custam capital político, os resultados demoram a chegar, e boa parte de nosso mundo político carece de qualquer tipo de convicção modernizadora.

Uma hipótese é que, lá no fundo, somos um País confortável para um arquipélago de pequenas elites. Para quem de fato recebe os supersalários, não depende de uma escola ou hospital público, faz 140 viagens de jatinho às custas do contribuinte ou vive do nosso fundão eleitoral, qual seria mesmo a grande urgência brasileira? E qual o problema em compensar estas coisas distribuindo auxílios para os “de baixo”, sob o verniz de uma boa retórica?

De modo que concordo com Edmar Bacha: somos o País da “mediocridade evitável”. Algo na linha: conhecemos qual é a agenda e como fazer. Mas por alguma razão, hesitamos. Pela lógica que é própria da política e sua estranha racionalidade, mesmo sabendo o caminho a seguir, optamos, sem muito constrangimento, pela agenda da mediocridade. É sobre isto, no fundo, o debate que o País deveria fazer, neste ano triste de 2026.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 19 de maio de 2026

'A Direita e seu Longo Deserto', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 19 de maio de 2026 

A Direita e seu Longo Deserto 
Por Fernando Gabeira (In Blog)

Na semana do inferno astral de Flávio Bolsonaro, com opiniões abundantes no ar, meus pensamentos me levaram ao passado, às primeiras eleições que acompanhei. Lembro-me do Brigadeiro Eduardo Gomes e de como era mencionado: brigadeiro, bonito e solteiro.

Desde que me entendo por gente, a direita sempre perdeu eleições para candidatos populares. Por isso tenho visto tantos golpes, fracassados ou não. A redemocratização trouxe novidades. Collor foi uma delas. Passagem meteórica pelo governo. Bolsonaro, em 2018, foi outra. Passagem quase meteórica, pois não se reelegeu.

Em 2018, no auge da luta identitária, Bolsonaro conseguiu algo que a direita tradicional não conseguia ter: um grande eleitorado. Soube encontrar o caminho explorando sentimentos como machismo e homofobia. Nas mesmas circunstâncias, Carlos Lacerda não teria o talento adequado. Mais intelectual, o brilhante polemista teria sido incapaz de encarnar os sentimentos que Bolsonaro mobilizou.

A verdade é que a direita encontrou um caminho mais popular e trabalha com certa sensação de cansaço com os governos do período democrático, expressa também no antipetismo. Apesar de tudo isso, sempre afirmei, em artigos e comentários, que Lula é o favorito. Outro dia, em Nova York, agências americanas também afirmaram o favoritismo de Lula; nem citaram as candidaturas adversárias. Nossas previsões coincidem. Para mim, imerso na realidade brasileira, não é nenhuma vantagem.

A realidade com que trabalho tem orientado meus artigos. Dedico-me, em textos mais longos, a falar de programa de governo, numa esperança de que o ritmo do próximo mandato seja maior. A idade do presidente não é um fator tão importante quanto a possibilidade de buscar um gran finale, pois será seu último mandato.

Movimentos como a transição energética podem ser continuados em velocidade maior. Ela já existe, e o governo trabalha com a realidade das mudanças climáticas.

Uma aceitação maior da revolução digital na prática do governo seria importante para facilitar a vida de cidadãos e empresas. Além do mais, poderia tornar a máquina mais leve e eficaz. Racionalizar a máquina é um ponto importante não só para a reforma administrativa. Isso liberaria mais recursos e ajudaria a reduzir a pressão pelo equilíbrio fiscal.

É preciso fugir da redução de investimentos pela economia de gastos da própria máquina. Uma política fiscal severa e lógica abre uma brecha para o declínio de visões do tipo social-democrata e para a ascensão do populismo de direita. O próprio Lula reconheceu isso com muita lucidez em seu discurso de Barcelona, que, infelizmente, teve pouca repercussão por aqui.

Claro que modernizar a máquina estatal não basta. Será essencial uma reforma política que, entre outras coisas, corrija a aberração de o Congresso usar uma parte considerável do Orçamento.

A vida não será fácil a partir de 2027. Se não forem tomadas medidas audaciosas que revigorem a democracia, em 2030 o cansaço poderá trazer novidades. E não será razoável culpar quem clama por mudanças.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

domingo, 17 de maio de 2026

Quem é quem na direita brasileira: o guia completo

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 17  de maio de 2026

Quem é quem na direita brasileira: o guia completo

A direita brasileira pode ser dividida em pelo menos cinco grupos distintos. Omar Godoy para a Gazeta do Povo:

Na eleição presidencial de 2022, a direita recebeu mais votos do que em qualquer outra eleição da história do país. E perdeu.

Quatro anos depois, esse bloco político chega ao jogo com o mesmo potencial para vencer, porém mais dividido do que gostaria de admitir. Existem vários grupos fáceis de reconhecer — e sem um líder ou projeto capaz de organizar todos eles.

A pergunta já não é se a direita tem votos para ganhar. É como pode parar de desperdiçá-los brigando com ela mesma.

Mas a disputa de 2026 também pode definir o futuro do campo conservador no país.

Cada corrente vê saídas diferentes para os grandes fracassos do Brasil. Da violência fora de controle à economia travada, da infraestrutura precária à diplomacia aliada de ditaduras sanguinárias.

Algumas delas acreditam que a única saída é o confronto direto com o “sistema”. Outras apostam em gestão e pragmatismo. Há quem defenda ampliar o diálogo. E há quem nisso justamente o começo de todos os problemas.

A seguir, organizamos a direita brasileira em cinco grupos relativamente bem definidos. Todos eles, de alguma forma, tentam responder à mesma pergunta: o que fazer com o legado de Jair Bolsonaro — preso, inelegível, e ainda assim a figura de maior influência sobre o campo conservador. As respostas vão da lealdade incondicional a ele (ou a seu principal herdeiro, Flávio Bolsonaro) ou a rejeição absoluta do bolsonarismo.

Nenhuma dessas correntes está completamente certa ou errada. E nenhuma delas parece forte o suficiente para ganhar sozinha.

O bolsonarismo linha-dura

Para esse núcleo do bolsonarismo, o maior risco da direita não é perder para o PT, mas virar uma versão diluída de si mesma. Qualquer tentativa de moderação pode ser lida como um indício de fraqueza.

Hoje, esse grupo prega o apoio incondicional a Flávio Bolsonaro e permanece em estado constante de vigilância contra “traidores”, sejam eles reais ou imaginários.

Principais figuras

Flávio Bolsonaro

Flávio, escolhido candidato à Presidência pelo pai, hoje aparece em empate técnico com Lula em cenários de segundo turno. Ele tenta equilibrar duas necessidades opostas: manter a militância bolsonarista mobilizada, mas sem carregar toda a rejeição associada ao sobrenome Bolsonaro fora dela.

Eduardo Bolsonaro

Com o mandato de deputado federal cassado, o “filho 03” atua a partir dos EUA, onde articula uma pressão internacional sobre o Judiciário brasileiro com aliados ligados ao trumpismo. Mas sua força dentro do Brasil está na base bolsonarista. Eduardo é quem fala “na lata” o que outros pensam duas vezes antes de dizer.

Carlos Bolsonaro

O mais discreto da família, Carlos continua sendo um dos principais estrategistas digitais do grupo. Ele vai concorrer ao Senado por Santa Catarina, estado visto como um terreno mais seguro para o sobrenome Bolsonaro. Sua mudança para o Sul, no entanto, criou conflitos com lideranças do PL catarinense e levou à reorganização de algumas alianças locais.

Kim Paim

O influenciador baiano trabalha como uma espécie de fiscal de conduta dentro do núcleo mais duro do bolsonarismo. Da Austrália, onde vive, ele critica diariamente nomes da direita que acredita terem se afastado, em algum momento, das posições do grupo. Paim talvez não eleja candidatos, mas pode desgastar figuras em atrito com a própria base.

Paulo Figueiredo

Baseado nos EUA, o influenciador defende a tese de que um governo de direita deve ter uma identidade mais definida, e não um perfil técnico — uma crítica direta a Tarcísio de Freitas e a outros nomes do bloco mais voltados à gestão. Figueiredo também trabalha pela aproximação entre o bolsonarismo e a ala conservadora americana ligada a Donald Trump, ao lado de Eduardo Bolsonaro.

Allan dos Santos

Fundador do site Terça Livre, ele completa o núcleo do bolsonarismo “raiz” nos Estados Unidos. Sempre estridente, Allan é um dos nomes que mais contribuem para o ambiente de cobrança interna que marca esse grupo.

Outros nomes: Gustavo Gayer, Mário Frias, Filipe Barros, Gil Diniz.

O bolsonarismo crítico

Esta corrente é formada por figuras que têm em Jair Bolsonaro seu líder maior, mas que ao mesmo tempo são vistas como não-confiáveis pelos integrantes do grupo anterior.

Nesse grupo, a atuação é menos personalista e mais emocional, religiosa e baseada em valores. Há um forte apelo evangélico, com destaque para temas de família e costumes, além de uma presença feminina importante para mobilizar a base.

Algumas de suas lideranças buscam um tom mais moderado, para não se fechar dentro da própria bolha. E o antipetismo é o ponto onde todos se encontram, mas não o que define tudo.

Principais figuras

Nikolas Ferreira

Aos 29 anos, o deputado mineiro já é visto por muitos como um presidenciável natural para 2030, mas a regra de idade o deixa fora desse ciclo — ele só poderia concorrer à Presidência em 2034. Neste ano, o parlamentar deve disputar a reeleição à Câmara.

Nikolas virou, sozinho, a maior máquina de comunicação da direita. E, hoje em dia, conseguir alcance nas redes conta tanto quanto ter um partido forte por trás. Ele faz uma política voltada para as redes, que a esquerda ainda não conseguiu compreender direito. Talvez o nome mais influente desse grupo, ele andou batendo boca publicamente com Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e Kim Paim. Entretanto, Nikolas continua apoiando a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Michelle Bolsonaro

Michelle é hoje um dos nomes que mais carrega a ideia de continuidade da herança de Bolsonaro. No entanto, com a definição de Flávio como candidato a presidente pelo PL, ela saiu da disputa e passou a ser cotada para o Senado pelo Distrito Federal.

Mesmo fora da cabeça de chapa, a ex-primeira-dama continua sendo uma das figuras mais fortes do bolsonarismo, especialmente entre evangélicos e mulheres conservadoras. Ela já disse que o seu relacionamento com Eduardo e Carlos Bolsonaro não é dos melhores.

Tarcísio de Freitas

Até pouco tempo, Tarcísio era o presidenciável mais forte da direita. Só deixou de ser quando o entorno de Bolsonaro decidiu que a vaga seria de Flávio.

O governador de São Paulo acabou seguindo o caminho mais seguro: disputar a reeleição e preservar seu capital político para 2030. Governar o estado mais rico do país, longe da guerra de Brasília, pode acabar sendo uma vantagem para ele até lá.

Silas Malafaia

Malafaia não precisa disputar eleição para ter influência sobre ela, ainda que tenha defendido o nome de Michelle como candidata. Mesmo assim, seu apoio (ou rejeição) pode pesar muito mais do que qualquer pesquisa.

Damares Alves

A senadora é mais um símbolo do conservadorismo do que uma candidata para concorrer à Presidência no futuro. Sua rejeição fora da direita não a enfraquece dentro dela. Pelo contrário: principalmente para o eleitorado evangélico feminino, isso funciona como um sinal de autenticidade.

Sergio Moro

Depois de trocar o União Brasil pelo PL, Moro levou seu capital eleitoral anticorrupção para o projeto de Flávio Bolsonaro. Mas o senador, que lidera as pesquisas para o governo do Paraná, aparece como uma figura mais independente nesse grupo.

Rodrigo Constantino

Radicado nos EUA, o comentarista e influenciador defende um conservadorismo mais próximo do liberalismo econômico — posição que muitas vezes o coloca em atrito com setores mais fechados do bolsonarismo.

Outros nomes: Ana Campagnolo, Carol De Toni, Hamilton Mourão.

MBL / Partido Missão

O MBL (Movimento Brasil Livre) ajudou a impulsionar o antipetismo que abriu caminho para Jair Bolsonaro em 2018. O problema é que Bolsonaro acabou ocupando um espaço imaginado pelo próprio movimento.

O Partido Missão, oficializado pelo TSE em 2025, nasceu justamente dessa tentativa de construir uma direita alternativa ao bolsonarismo sem abandonar o antipetismo. Não é pouca coisa: formalizar um partido no Brasil exige 547 mil assinaturas — e o MBL conseguiu.

Mas o Missão de 2026 não é o MBL de 2015. O grupo ainda adota uma linguagem juvenil e “urbana”, porém se afastou do liberalismo econômico original e agora aposta pesado no tema da segurança pública (inspirado nas políticas de Nayib Bukele em El Salvador).

Principais figuras

Renan Santos

Renan é um dos fundadores do MBL e candidato presidencial do Missão. Com um discurso de rejeição frontal tanto a Lula quanto a Bolsonaro, ele vem crescendo entre os eleitores mais novos, mas esbarra num obstáculo básico: grande parte dos brasileiros simplesmente não sabe quem ele é.

Kim Kataguiri

Deputado federal desde os 23 anos, Kim é o principal quadro institucional do grupo. Ele representa a tentativa do Missão de parecer menos um movimento de internet e mais uma força uma política organizada.

Arthur do Val (“Mamãe Falei”)

Arthur teve o mandato de deputado estadual cassado depois do vazamento de áudios com falas suas consideradas controversas sobre mulheres ucranianas, em 2022. Ficou inelegível por oito anos, mas não sumiu. O eterno “Mamãe Falei” segue ativo nas redes e ganhou novos seguidores por vencer debates com opositores no YouTube.

Outros nomes: Guto Zacarias, Amanda Vettorazzo.

O Partido NOVO

O Novo nasceu prometendo ser diferente da velha política: sem dinheiro público, sem coligações e sem políticos com problemas na Justiça. Mas cresceu pouco e decidiu mudar.

A partir de 2018, o partido aceitou recursos públicos, fez alianças, flexibilizou regras internas e se aproximou do bolsonarismo. Ficou eleitoralmente mais competitivo — mas, para os críticos, deixou de lado o que o tornava inovador. A sigla ainda não decidiu se vai lançar candidato próprio à Presidência ou apoiar Flávio Bolsonaro.

Principais nomes

Romeu Zema

O ex-governador de Minas Gerais é o nome mais forte do NOVO nas urnas, e também o que mais ilustra o dilema do partido. Em 2026, ele trocou o perfil de gestor liberal e discreto por um discurso mais próximo do eleitor conservador tradicional, incluindo uma postura mais dura em relação ao STF.

Hoje Zema está cotado tanto para a Presidência pelo NOVO quanto para vice de Flávio Bolsonaro. Disputado pelos dois lados, sem talvez pertencer realmente a nenhum deles, o mineiro é o retrato de um momento de transição — para ele, seu partido e a própria direita brasileira. Na última semana, ele criticou Flávio Bolsonaro sobre sua ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro, o que pode ter reduzido as chances de uma possível aliança entre os dois candidatos.

Deltan Dallagnol

Herói da Lava Jato e pré-candidato ao Senado pelo Paraná, Deltan é um dos símbolos da mudança de rota do NOVO . A legenda, que antes não aceitava nomes com histórico judicial, acabou flexibilizando a regra para recebê-lo, depois da cassação de seu mandato de deputado pelo TSE em 2023.

A decisão dividiu opiniões, mas o que prevaleceu foi a projeção nacional e a trajetória anticorrupção do ex-procurador — que, para seus apoiadores, foi vítima de uma injustiça na perda do cargo.

Marcel van Hattem

O deputado gaúcho é a figura mais combativa do NOVO— e também uma das vozes mais contundentes da direita no geral. Em Brasília, ele aproximou o partido de pautas mais políticas, especialmente nas críticas ao STF.

Ricardo Salles

Ex-ministro de governo Bolsonaro e pré-candidato ao Senado por São Paulo, Salles virou uma das principais apostas da legenda para melhorar seu desempenho nas urnas. Salles não vem da tradição liberal clássica do NOVO, mas tem uma trajetória própria e reforça a abertura do partido para perfis mais variados dentro da direita. Tem batido de frente com o grupo de Eduardo Bolsonaro, a quem ele acusa de ter cedido aos interesses do Centrão.

Outro nomes: Eduardo Girão, Adriana Ventura.

A direita pragmática regional

Aqui aparece um dos dilemas da política brasileira mais recente: nomes que conseguem uma ótima avaliação em suas regiões nem sempre convertem isso em força nacional.

Administrar um estado exige negociação, acordos e entrega de resultados. Mas, nas disputas para presidente, parte dos eleitores tende a dar mais valor para posições firmes e discursos de enfrentamento.

No cenário atual, os principais nomes desse campo se destacam justamente por um conservadorismo moderado e um discurso voltado à gestão. Ainda assim, esses políticos devem ter um papel importante em 2026 — seja como concorrentes ou na formação de alianças no segundo turno (quando os apoios passam a pesar mais do que as próprias candidaturas).

Principais figuras

Ronaldo Caiado

O governador de Goiás é um nome forte do agronegócio e tem bons números para mostrar em uma área sensível: a da segurança pública. Sua candidatura presidencial pelo PSD de Gilberto Kassab parece pequena hoje, mas pode ganhar espaço conforme o cenário se desenrola até outubro (com possíveis desistências, rearranjos e outros fatos novos ao longo da campanha).

Ratinho Junior

O governador do Paraná, com alta aprovação regional, chegou a ser visto como um nome viável para a Presidência pelo mesmo PSD. Ele acabou recuando diante da pressão do bolsonarismo para fechar apoio a Flávio, mas não saiu enfraquecido dessa articulação.

Ratinho está à frente da bancada paranaense, uma das maiores do país, e tem influência em centenas de prefeituras. Esse capital político o mantém como uma peça importante em qualquer composição futura de governo.

Tereza Cristina

Ex-ministra da Agricultura de Bolsonaro, Tereza é uma das provas de que o governo anterior entregou resultados positivos em meio à crise trazida pela pandemia. No Senado, ela tem trânsito entre diferentes campos políticos e é vista como um nome com boa capacidade de articulação. Por isso mesmo, hoje é cotada como possível vice na chapa de Flávio Bolsonaro.

Outros nomes: Esperidião Amim, Jorginho Mello, ACM Neto

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 16 de maio de 2026

Clã Bolsonaro intoxica a direita

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 16  de maio de 2026

Clã Bolsonaro intoxica a direita

Escândalo de Flávio Bolsonaro mostra como é alto o custo de se manter atado a um clã que intoxica o campo conservador com escândalos, degradação moral e desprezo pela democracia. Editorial do Estadão:

A ruidosa revelação do pedido de dinheiro feito pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro presta dois serviços essenciais ao País: primeiro, como já afirmamos neste espaço, expõe a baixa estatura moral e política do primogênito de Jair Bolsonaro para ser o principal candidato da direita à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva; segundo, serve de advertência definitiva para o campo conservador e insta-o a se afastar da usina de escândalos que é, essencialmente, o bolsonarismo. Já passou da hora de romper a subordinação aos métodos do clã Bolsonaro.

Há anos, parte da direita trata o bolsonarismo como atalho eleitoral inevitável. Alega-se que Bolsonaro conserva votos, mobiliza militância e encarna a rejeição ao lulopetismo. Isso pode explicar a conveniência de curto prazo de políticos que orbitam o ex-presidente, mas não justifica a abdicação moral, programática e institucional de um campo político inteiro.

Quem se prende a Jair Bolsonaro e seus filhos não recebe apenas votos. Recebe também vícios, métodos e passivos. Recebe também a confusão entre público e privado, o culto familiar, a hostilidade às instituições, o desprezo pela liturgia democrática e a incapacidade de distinguir causa pública de negócio particular. O bolsonarismo é tóxico por natureza. Sua toxicidade é o seu próprio modo de existir.

A direita democrática tem diante de si uma oportunidade preciosa, que é permitir ao Brasil se libertar de Lula e suas ideias envelhecidas sem se submeter a Bolsonaro. O governo lulopetista oferece razões de sobra para ser derrotado. É anacrônico, estatizante, aparelhado e incapaz de apresentar uma agenda moderna de crescimento econômico, responsabilidade fiscal e eficiência administrativa. Mas a malaise lulopetista não absolve a direita de seus pecados nem autoriza a entrega do campo conservador a uma família incapaz de atravessar uma semana sem produzir um novo escândalo.

Convém à direita decidir se pretende ser força política adulta ou torcida organizada do ressentimento. Se deseja governar o País, terá de oferecer mais do que antipetismo: compromisso com a Constituição, respeito às instituições, responsabilidade fiscal, defesa da economia de mercado e padrões mínimos de decência. Nada disso floresce à sombra de Jair Bolsonaro e de seu sucessor imediato, Flávio Bolsonaro.

O bolsonarismo tenta vender a fantasia de que qualquer crítica ao clã favorece Lula. É chantagem. O que favorece Lula é a incapacidade da direita de se desintoxicar do bolsonarismo. Enquanto o campo conservador permanecer preso a personagens marcados por golpismo, escândalos e negócios mal explicados, o petismo explorará o medo de alternativa ainda pior. Bolsonaro é, nesse sentido, um seguro de vida para Lula.

A ruína política de Bolsonaro poderia ter sido o ponto de partida para a reconstrução da direita, abrindo espaço para lideranças comprometidas com reformas e moderação. Em vez disso, muitos preferiram ajoelhar-se diante do espólio bolsonarista, como se o patrimônio eleitoral do ex-presidente fosse transmissível por sangue. O resultado é Flávio Bolsonaro – que não tem estatura nem para ser poste do pai golpista, que dirá presidente da República.

Não há futuro respeitável enquanto a direita tratar a família Bolsonaro como destino. O conservadorismo democrático não precisa de herdeiros ungidos por sobrenome. Precisa de partidos sérios, lideranças preparadas, programa consistente e coragem para romper com aquilo que o degrada. A ruptura não será indolor, mas pior é seguir arrastando o peso morto de um movimento que sequestrou a direita e a associou ao que há de mais rebaixado na vida pública. Deve-se perguntar quantos escândalos mais serão necessários para reconhecer essa verdade.

Eis a chance definitiva da direita: assumir seu lugar numa democracia madura, como força reformista, responsável e comprometida com a ordem constitucional, ou continuar servindo de biombo para uma família que transformou o antipetismo em negócio político. Se quiser voltar a merecer a confiança dos brasileiros, precisa romper com o bolsonarismo. Fora disso é tornar-se cúmplice de um desastre.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

'Os Caminhos de Sergipe', por Antonio Samarone

Imagem compartilhada do Facebook/Valmir de Francisquinho e 
postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo.

Artigo compartilhado do site do JORNAL DO DIA SE, de 16 de maio de 2026

Os Caminhos de Sergipe
Por Antonio Samarone *

O historiador Wanderlei Menezes, me cobrou uma explicação: a que se deve essa popularidade de Valmir de Francisquinho?

Convenhamos, talvez não exista uma resposta, ou existam várias.

Ele provocou, releia Maquiavel, vá aos clássicos. Eu fui…

Para Maquiavel, virtù e fortuna são conceitos centrais e complementares para o sucesso político. A virtù é a habilidade, inteligência, astúcia e capacidade de ação do governante, enquanto a fortuna representa a sorte, o acaso ou circunstâncias imprevisíveis. A virtù permite ao político dominar ou adaptar-se à fortuna para manter o poder.

Valmir apreendeu a política na escola itabaianense, onde nada é fácil. A disputa é acirrada. O eleitor precisa ser conquistado, corpo a corpo, porta a porta, olho no olho, até na intimidade. Valmir e o povo se entendem, mesmo em silêncio, com um sorriso, um abraço. Essa é a virtú de Valmir.

Segundo os modernos marqueteiros: isso acabou! A virtú atual é usar bem as redes sociais, memes, fakes, algoritmos. Os políticos tradicionais descem mais fundo: a virtú é dinheiro, para comprar o voto. O resto é conversa fiada.

Sobre a momento político:

Sergipe vive uma carência de grandes líderes. Entre 1982 e 2013, Sergipe foi governado por 4 políticos (João, Albano, Valadares e Déda). Não deixaram herdeiros políticos. Com a morte precoce de Marcelo Déda, abriu-se um vazio, um vácuo político, até agora não preenchido.

O atual grupo político, governa Sergipe há 40 anos. Entraram com Jackson, na Prefeitura do Aracaju, em 1986. Carregavam a bandeira de combate as oligarquias. Tornaram-se oligarquias palacianas. O Estado entrou em decadência.

A eleição se aproxima e eles não têm projetos, nem líderes, nem a confiança do Povo. A política não suporta vácuos. Essa é fortuna (sorte) de Valmir. O cavalo está selado!

Pela primeira vez na história de Sergipe, o projeto político vem do interior. O sucesso na gestão de Itabaiana, credenciou Valmir como um bom gestor. Itabaiana é uma locomotiva econômica bem-sucedida. Os sergipanos enxergam.

Enquanto o estado definha, se apequena, a economia desaba, os serviços públicos não funcionam (os corredores do Hospital João Alves, são uma prova), enquanto o povo corre atrás do carro-pipa, o governo oferece festas (circo).

O economista sênior da UFS, Dr. Ricardo Lacerda, acaba de publicar “A economia de Sergipe no primeiro quarto do século XXI”. A propaganda foi desmontada. Sergipe patina economicamente. Nenhum projeto viável, tudo cosmético. Sergipe afundou.

O doutor Lacerda não é nenhum esquerdista, nem faz oposição ao governo. Pelo contrário, o doutor é assessor palaciano desde o governo Déda. Homem de confiança do poder. Entretanto, o doutor Lacerda é um cientista, não podia falsear a realidade.

Meu amigo Wanderlei, é essa a minha explicação para a popularidade de Valmir.

Se dependesse somente do voto popular, a eleição estava decidida. Contudo, o poder serve a muita gente. Esses, lutarão com todas as forças, lícitas e ilícitas, para não deixarem os mimos e as sinecuras.

Já começaram o vale-tudo. Pegaram uma fala de Valmir, tiraram do contexto, e saíram a bradar aos quatro cantos: Valmir é machista! Valmir não quer mulher em cargos públicos! Valmir odeia as mulheres! Valmir é um feminicida!

O que Valmir disse na entrevista foi que a sua esposa não seria candidata.

Não importa que as mulheres sejam maioria no secretariado de Itabaiana, não importa que a vice seja mulher, não importa que o seu maior apoio, seja a Prefeita do Aracaju, uma mulher.

Numa era da pós-verdade, o fake tem mais força que os fatos. Não importa, vão botar defeito em Valmir, mesmo conscientes que estão mentindo. As redes sociais são abertas, cada um fala o que quer.

Na política, como na guerra, quem primeiro sofre é a verdade. Quem acha que a elite sergipana será derrotada com facilidade é um tolo.

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* Antonio Samarone, médico sanitarista

Texto reproduzido do site: jornaldodiase com br

Boletim da Manhã Prof. Villa, de 15 de maio de 2026

 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O filme de terror de Flávio Bolsonaro

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 15  de maio de 2026

O filme de terror de Flávio Bolsonaro

O caso da relação de Flávio com Vorcaro expõe a baixa estatura moral do pré-candidato e torna ainda mais urgente que a direita democrática se mobilize para se libertar do bolsonarismo. Editorial do Estadão:

O primeiro teste de estresse da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência terminou mal. A revelação de que o primogênito de Jair Bolsonaro cobrou do banqueiro Daniel Vorcaro dinheiro para alegadamente bancar um filme sobre a trajetória do pai fez mais do que expor o despreparo político do indigitado: escancarou a sua baixa estatura moral, deficiência que o torna absolutamente indigno de ser presidente da República.

Esse episódio torna ainda mais urgente que a direita democrática se empenhe em construir uma alternativa conservadora séria, comprometida com a Constituição e com padrões mínimos de decência, para disputar a Presidência e impedir que o petista Luiz Inácio Lula da Silva ganhe mais quatro anos para arruinar o País. Para isso, a direita não pode seguir a reboque de um desqualificado como Jair Bolsonaro e de seu clã, cuja trajetória política é marcada desde sempre por sua vocação antidemocrática, por sucessivos escândalos, pela confusão deliberada entre público e privado e pela imoralidade.

Graças às conversas reveladas pelo site Intercept Brasil, confirmadas pelo Estadão, essa depravação fica ainda mais explícita. Nelas, constata-se o grau de proximidade entre um senador da República, hoje com a pretensão de governar o Brasil, e um banqueiro que já naquela época era suspeito de ser o protagonista do maior crime já cometido contra o sistema financeiro nacional.

De acordo com os documentos da Polícia Federal (PF) publicados pelo site, Flávio Bolsonaro negociou diretamente com Vorcaro uma quantia equivalente a US$ 24 milhões para a produção de Dark Horse, a tal cinebiografia do ex-presidente, dos quais US$ 10 milhões já teriam sido pagos ao longo de 2025.

Primeiro, Flávio tentou negar. Questionado por jornalistas, disse que se tratava de “mentira”. Depois, quando as provas vieram à luz, o senador teve de reconhecer que pediu mesmo o dinheiro, mas enfatizou que se tratava de uma relação “privada”, sem envolver recursos públicos.

Ora, pouco importa se o dinheiro era privado ou público. O busílis é a origem dos recursos. A fortuna do sr. Vorcaro não advém do seu sucesso empresarial em atividades legais. Segundo a PF, o banqueiro construiu patrimônio por meio de fraudes bancárias, algumas das quais envolvendo fundos de previdência de servidores públicos em diversos Estados e municípios, além do Banco de Brasília (BRB). Em paralelo, Vorcaro construiu uma rede de influência nos Três Poderes, ao que parece a peso de ouro. Tudo isso já era sabido na época da conversa entre os dois.

O problema central aqui, portanto, é outro. Flávio Bolsonaro não pode ser tratado como um cidadão qualquer pedindo ajuda a um financiador qualquer. Era um senador com pretensões presidenciais esperando receber milhões de dólares de um notório escroque, cuja prisão aconteceria no dia seguinte à tal conversa.

Ademais, constrange o tratamento fraterno que Flávio Bolsonaro dispensa a Vorcaro. “Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente”, disse o senador. A frase não deixa margem para dúvidas sobre a relação de proximidade, confiança e eventual “gratidão política”, chamemos assim, envolvidas naquela negociação.

Para piorar, a mambembe explicação do entorno bolsonarista só aprofundou as suspeitas sobre as reais intenções de Flávio Bolsonaro. O produtor do filme, o deputado Mário Frias (PL-SP), afirmou textualmente que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”. Ora, se não havia dinheiro do banqueiro na produção, para onde iria a dinheirama cobrada pelo senador?

Não cabe a este jornal antecipar julgamentos. Mas tampouco se pode condenar quem acredite que a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro envolva suspeitas de lavagem de dinheiro, formação de caixa dois ou enriquecimento ilícito. Um pré-candidato à Presidência envolvido em transações desse jaez tem o dever de dar explicações convincentes ao País, o que Flávio Bolsonaro ainda não fez. Por ora, preferiu mentir, atacar a imprensa e zombar da inteligência alheia.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Susane Vidal, sinalizando entrada na política

Susane Vidal: “agora é seguir. Parar não é opção. 
Retroceder jamais. Tem muita coisa pela frente”

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 15 de Mai de 2026

“O propósito agora é representar o que o sergipano de fato quer”, diz Susane Vidal, sinalizando entrada na política

Por Jozailto Lima * (Coluna Aparte)

“Porque como jornalista a gente tem um limite, né? Agora eu posso fazer mais. Agora eu posso de fato representar o sergipano”. Ao que tudo - e agora até ela mesma indica -, Susane Vidal vai de fato entrar para a política.

Em mais um vídeo publicado em suas redes sociais, dessa vez na noite desta quinta-feira, 14, a jornalista e agora ex-apresentadora do noticioso SE1 anunciou sua saída da TV Sergipe, sua casa por quase 30 anos.

Quem acompanha o perfil da apresentadora nas redes já notou que o tom mais formal e reservado vem dando lugar a vídeos mais desenvoltos e expositivos, mais um alerta da mudança de rumo da jornalista.

“As pessoas se acostumaram a me ver na TV. Eu me acostumei a ver as pessoas através da câmera também”, diz ela reforçando a imagem conhecida pelos sergipanos há décadas.

“Agora eu quero estar realmente dentro da casa das pessoas, não apenas pelo aparelho de TV. Eu quero entrar pela porta da frente. Eu quero conversar e também dar oportunidade às pessoas de me conhecerem”, diz ela.

Filiada ao partido Republicanos desde o mês passado, Susane não dava declarações sobre seu futuro por ainda ter contrato com a emissora afiliada à Rede Globo, que proíbe veementemente a ligação entre jornalismo e políticos.

Agora de saída da TV Sergipe, a jornalista mostra um tom de conversa e sinaliza um “novo jeito” de conhecer as pessoas. “Noticiar apenas já não basta, agora o propósito é justamente fazer algo maior representar esses anseios. O propósito agora é representar o que o Sergipano de fato quer”, diz ela.

“Eu quero conhecer essas pessoas que passaram anos e anos me assistindo. Eu não sou de casa? Permita entrar em sua casa”, diz a jornalista.

O possível cargo de disputa e quando essa pré-candidatura será lançada ainda não foram revelados, mas pode-se dizer que o status de pré-candidata passou de possível para provável.

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* Jozailto Lima - É jornalista há 43 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Acabou, Flávio? | Ponto de Partida, com Pedro Dória

 

Site Intercept revelou que Flávio Bolsonaro negociou R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, pra bancar o filme biográfico do pai. 

E que cobrou cada parcela, por áudio, por WhatsApp. 

Esse é o tipo de coisa que decide eleição...

terça-feira, 12 de maio de 2026

'É melhor não se iludir com a delação de Vorcaro', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 12 de maio de 2026 

É melhor não se iludir com a delação de Vorcaro 
Por Fernando Gabeira (in blog)

Não sou dessas pessoas que o tempo inteiro dizem: “Vai acabar em pizza, vai acabar em pizza.” Mas confesso que estou um pouco cético sobre a delação de Daniel Vorcaro, o homem que iluminaria toda a escuridão da República. Vorcaro não entende a delação como fim de carreira. Faz planos. Para começar, não entregará todo o dinheiro que amealhou. Precisa de recursos para recomeçar adiante. Há muita coisa que não poderá esconder, pois o conjunto de mensagens no celular revela seu movimento financeiro. Mas aquilo que não está a descoberto, ele deve considerar um fundo de sobrevivência para a nova etapa, pois certamente não conta com um longo período de prisão.

Outro ponto vulnerável na delação de Vorcaro são os próprios advogados. Ele é apenas um caso fortuito, e provavelmente muito lucrativo, para os advogados. Mas nada se compara à relação estratégica e permanente que precisam manter com o STF. Quando se trata de apontar as armas para a Corte, faltará pólvora ou, no mínimo, ela estará molhada.

Detesto a expressão “acochambrar”. Para coisas feias, palavras feias. Na semana passada, um ministro do TSE, aliado de Alexandre de Moraes, Floriano Marques, encontrou-se com o advogado de Vorcaro num hotel de Brasília. O encontro se deu um dia depois da apresentação da proposta de delação. O ministro admite que conversou superficialmente sobre a delação e comentou:

— Puxa vida, que coisa!

Ninguém pode provar que a conversa não foi superficial. Marques foi indicado por Lula, por sugestão de Moraes. São colegas na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Por uma tentativa de conhecer a delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, o general Braga Netto foi para o espaço. O advogado de Vorcaro sabe disso. Por coincidência, Braga Netto também é seu cliente. O ministro e o advogado são amigos. Quem não é amigo, conhecido, camarada? “Meu caro, que prazer, vamos tomar algo para combater essa secura de Brasília.”

A Polícia Federal trabalha firme e com competência. Mas será difícil romper esse cipoal de relações e favores. No caso do senador Ciro Nogueira, houve indícios, casa, mesada, cartão e um ato de ofício: a emenda apresentada por Ciro, subindo de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a garantia de ressarcimento aos credores de um banco quebrado. Vorcaro saudou essa emenda nas conversas com a namorada. Possivelmente, outros amigos de Vorcaro na política terão dado bandeira e cairão também. Mas o núcleo mais duro, que envolve ministros do Supremo, talvez não seja tocado.

Quem quer brigar com o Supremo? A qualquer momento, nosso destino pode estar nas mãos deles. Se julgam e condenam, apelar para quem? Você fica com a corda no pescoço, com a espada na cabeça e com uma parte da esquerda jurando que você é de extrema direita.

No entanto será preciso reclamar. O caso Master não pode dar em pizza. Haja farinha, molho de tomate e orégano para cobrir 8 milhões de quilômetros quadrados. Mas é preciso não ter grandes ilusões. O Brasil não é fácil.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br