segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Não há civilização sem contenção moral

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 7 de setembro de 2026

Não há civilização sem contenção moral

Alegria brasileira não passa de signo de falta de civilização. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

Lembro-me de que, nas eleições de 2022, muitos que apoiavam Lula falavam em defesa do projeto civilizador.

Fato era que a figura de Bolsonaro, e seu comportamento vil, parecia sim dar lugar à ideia de que as boas maneiras, o respeito às pessoas que morriam de Covid —"não sou coveiro", lembra?—, o comer com garfo e faca, enfim, Bolsonaro parecia uma ameaça de retrocesso ao neolítico —com todo o respeito ao neolítico.

Mas daí achar que o PT representa um Brasil mais civilizado é outra história. O PT é uma gangue responsável, em grande parte —uma vez que tem estado no poder federal por quase 18 anos—, pela desgraça moral, econômica e política que se abate sobre o país.

O PT não é uma força civilizadora no Brasil, aliás, diga-se de passagem, tampouco é o centrão, a direita, o STF —todos delinquentes. Todos eles se reúnem num grande abraço de afogado. Sugam o país como sanguessugas letais.

Um país em que os líderes, dos três Poderes, se reúnem para ferir a lei, traficar influência e faturar alta grana a favor dos seus não pode não ver um esgarçamento do contrato social. E, quando ocorre esse tipo de fenômeno, torna-se inevitável o crescimento da desconfiança entre os cidadãos.

Esse esgarçamento aparece nos espancamentos que vimos nas últimas semanas. Aparece no modo como motociclistas, ciclistas e motoristas se comportam nas vias públicas. Um monte de gente não respeita nem mais farol vermelho.

Aparece no fato de muita gente ouvir música alta nas suas casas, obrigando os vizinhos a ouvirem a música lixo que essa gente gosta.

Aparece no modo dramático como cada vez mais sentimos que qualquer estabelecimento comercial ou empresa pode ser lavador de dinheiro. Aparece na violência da especulação imobiliária em cidades

como São Paulo, que constroem torres imensas, despejando milhares de carros, destruindo a qualidade do convívio nos bairros. Um grande "foda-se" percorre nossas vidas no Brasil.

A ideia de que nossos líderes deveriam servir de exemplo é letra morta. Durante o período das eleições, como agora, essa gente vem atrás de nós para votarmos neles. Mas, para quem tem mais de dois neurônios, é óbvio que mentem e riem da nossa cara. Lula, ao prometer projetos, deveria responder, afinal, por que, depois de tanto tempo no poder, qual foi a razão de não ter realizado esses "projetos" até agora.

Por outro lado, como confiar num candidato —Flávio Bolsonaro— com zero experiência de gestão pública, erguido à condição de candidato só porque tem o sangue do pai?

Esse critério de indicação de sucessor para o cargo maior da República replica modos de transmissão do poder característicos das máfias. Segundo Joseph Schumpeter, na democracia, o soberano se estabelece por meio de uma competição por votos —conhecida como eleições. Logo, o que importa é ganhar essa competição por votos, o resto é blá-blá-blá.

E, na medida em que essa competição por votos se acirra entre grupos que se odeiam, a tendência é que cada vez mais esses candidatos deem menos bola para "projetos" e discursos racionais. O objetivo único é ganhar a competição por votos e que se foda.

Por outro lado, as pessoas polarizadas e militantes estão na mesma "vibe" que seus candidatos preferidos. Nem candidatos, nem eleitores estão preocupados com a "qualidade dos políticos".

Preocupam-se que os seus políticos vençam e ponham a mão na grana do Estado. Mas, apesar de falarmos de política, a questão é pré-política. O que isso quer dizer? Isso quer dizer que o problema do Brasil é, em grande parte, moral, e a moral é mais difícil de manipular do que a política.

Os costumes, os hábitos, os sentimentos morais, como dizia Adam Smith no século 18, os comportamentos espontâneos entre nós estão em franca desagregação. A cultura brasileira hoje pertence ao "sem noção", a própria alegria brasileira hoje não passa de signo de atraso e falta de civilização. A bandidagem adora gente alegre.

Talvez a dura verdade seja que não há como manter certos cuidados morais básicos quando se é ruidosamente alegre como muitos brasileiros são, e mal educados, que escondem essa má educação sob o manto da alegria festiva.

Assim como há a esquerda festiva, há o mal educado festivo. Não se trata de aliviar a barra dos políticos e ministros corruptos, mas, sim, de dizer que a corrupção brasileira é moral, antes de ser política. Não dá

para ser civilizado e sujar ruas com seus maus hábitos e garrafas de Macallan.

Não há civilização sem contenção moral. Sei, os inteligentinhos vão às raias da loucura com isso, mas que fiquem, hoje, brincando no parquinho.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Marco Antonio Villa ENTREVISTA Ministro Marco Aurélio

 

“O STF está sangrando. Estou perplexo com o que está acontecendo.” (Ministro Marco Aurélio)

domingo, 6 de setembro de 2026

Um apelo ao que resta do Supremo

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 3 de setembro de 2026

Um apelo ao que resta do Supremo

Roga-se aos ministros que ainda colocam a instituição acima de seus interesses pessoais que manifestem sem medo seu horror diante do colapso moral que ameaça o STF. Editorial do Estadão:

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, veio a público na manhã de ontem para dizer que os indícios reunidos pela Polícia Federal (PF) sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro “reclamam o devido encaminhamento institucional” e que, ademais, o cargo de ministro do STF “não confere privilégios, mas impõe deveres”. Fachin também anunciou que, “no tempo devido e sem precipitação”, tomará as medidas cabíveis. É pouco, mas um sinal de que ainda resta vida republicana na Corte.

Não ficou claro qual é o “devido encaminhamento” que Fachin pretende dar ao caso, mas não deveria haver dúvida: o relatório da PF deve ser submetido o quanto antes à deliberação do plenário do STF, em sessão pública e presencial. Se o ministro Fachin fizer a coisa certa, roga-se aos ministros que ainda colocam a instituição acima de seus interesses pessoais que manifestem sem medo seu horror diante do colapso moral que ameaça o STF. Não será fácil, diante da conhecida truculência de alguns ministros, mas o Brasil precisa saber que ainda há genuínos e destemidos republicanos no Supremo.

Diante da extrema gravidade do que está em jogo, não há espaço para outro arranjo clandestino, como aquele a que o plenário se rebaixou para acomodar a evidente suspeição do ministro Dias Toffoli como o primeiro relator do caso Master no STF. Independentemente do parecer pusilânime e suspeito do procurador-geral da República, Paulo Gonet, o relatório da PF documenta, de forma cabal, que Vorcaro tratava Moraes como um funcionário regiamente pago, cobrando-lhe providências, digamos assim, que nem a um advogado se cobra. Não estamos diante de um conjunto de ilações. Como revelou o Estadão, estão documentadas as relações promíscuas entre um investigado pela maior fraude financeira já praticada no País e um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Se Moraes cometeu crimes ao se vender aos interesses comerciais de Vorcaro, só uma investigação técnica e um julgamento justo haverão de concluir. Mas é preciso reiterar com todas as letras: a despeito de sua situação jurídico-penal, Moraes já é um estorvo para o STF. Sua permanência na Corte se tornou o maior problema do Poder Judiciário desde a redemocratização do País. A premente necessidade de seu afastamento – seja voluntário, seja pela via constitucional do impeachment – independe do que um futuro inquérito policial venha a apurar sobre prevaricação, advocacia administrativa, obstrução de justiça e corrupção passiva. A questão é moral antes de tudo. E questões morais têm de ser enfrentadas com coragem e um mínimo senso de decência pessoal.

Este jornal crê que ainda há, no Supremo, quem se preocupe com o papel da Corte como um dos pilares da República. É a essas autoridades que nos dirigimos, pedindo que examinem suas consciências e reconheçam que, ou bem o destino pessoal do sr. Moraes é desassociado do destino da instituição, ou o STF morrerá abraçado a um dos seus por reles corporativismo, quiçá cumplicidade. As consequências dessa segunda opção são imprevisíveis, mas, no limite, não será surpreendente se chegarem à desobediência civil.

Como presidente do STF, Fachin tem o dever de evitar esse desfecho trágico. A crise, no ponto a que chegou, não será debelada com um acerto de contas nos corredores da Corte nem muito menos com covardia. O plenário do STF precisa autorizar que uma investigação sobre a conduta de Moraes seja instaurada – e não só a dele, haja vista a relação que há entre Toffoli e Vorcaro por meio de investimentos do ministro no resort Tayayá – e criar as condições para que o próprio Moraes se afaste do cargo enquanto ela tramita, supondo, é claro, que o ministro tenha respeito por este país e pela instituição que integra.

A sobrevivência moral do STF como o conhecemos desde 1988 depende hoje da capacidade de seus ministros de provar à Nação que sabem o que significa proteger um dos seus e proteger a instituição.

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A encruzilhada brasileira: o país sem freios e contrapesos

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 5 de setembro de 2026

A encruzilhada brasileira: o país sem freios e contrapesos

Inércia do Congresso e a passividade da PGR são apenas sinais de que nosso sistema de freios e contrapesos foi danificado. Restam-nos, no fundo, as eleições. Fernando Schüler para o Estadão:

A estratégia do ministro Alexandre de Moraes é a mesma de sempre: em vez de explicar alguma coisa, ataca o denunciante. Quando saíram os primeiros diálogos com Vorcaro na mídia, em março, ele ensaiou uma nota sugerindo que aquelas mensagens do dono do Master eram para outras pessoas. Nesta semana, reveladas 52 mensagens entre Vorcaro e uma conta com o seu nome, o ministro não divulgou nota nenhuma. Fez algo mais “ousado”, como escutei de um animado comentarista: acionou o inquérito sobre fake news contra o relator do processo, André Mendonça, com base em um relatório anônimo da “inteligência” da Polícia Federal.

 Inútil perguntar como o relatório foi parar nas mãos do ministro. Ou, ainda, quem pediu para que a atuação do ministro fosse “avaliada” por alguém da Polícia Federal. O relatório acumula uma sucessão de suposições políticas, por vezes um tanto curiosas. Uma delas diz que é um “risco” a indicação de Jorge Messias para o Supremo. Messias estaria muito próximo de André Mendonça e, por isso, teria dificuldades de avaliar os “riscos políticos” do caso Lulinha. Riscos políticos para quem, exatamente, daria para perguntar. Mas é inútil. Messias seria também um risco pela sua proximidade com Mendonça, já que este estaria “agressivamente” tentando mudar a correlação de forças no STF, em detrimento do grupo de ministros que tão valorosamente atuou para salvar nossa democracia. Parece piada, mas está escrito lá. E foi este o relatório usado por Moraes para abrir uma “investigação” contra André Mendonça.

A lógica é perfeitamente conhecida: ninguém pode investigar coisa nenhuma. E, se alguém tentar, sofrerá as consequências. O caso mais notório foi o de Eduardo Tagliaferro. Um peixe pequeno. Era um perito criminal que participou do núcleo de poder. Suas denúncias eram gravíssimas. Entre muitas coisas, o “use sua criatividade” para produzir provas contra alvos determinados. O resultado todos sabemos. Terminou o próprio Tagliaferro convertido em réu, além de nada ter sido investigado. Muita gente aplaudiu. Era politicamente interessante, então ok. Um dia isto será devidamente passado a limpo. Pode demorar, mas vai acontecer.

O truque agora pode funcionar novamente? É evidente que sim. Para começo de conversa, cria-se uma falsa equivalência. Haveria algum “erro processual” de Mendonça comparável à relação fartamente documentada de Moraes com Vorcaro. Alguém já viu este filme? “Erros processuais” para anular casos notórios de corrupção? Ato seguinte, embaralha-se o jogo na opinião pública. Com o País dividido, às vésperas das eleições, é fácil que tudo se converta em um Fla-Flu, em que “quem gosta do Lula fica com o Alexandre de Moraes” e “quem gosta do Flávio fica com o André Mendonça”. O jogo político é real. De fato, o País está dividido neste tema, e quase tudo se define com as eleições. Mas a equivalência é falsa como uma nota de três reais. A única questão real em jogo é se o Supremo decidirá ou não investigar as relações de um de seus ministros com Vorcaro e o escândalo Master. Mais do que isto, está em jogo a própria ideia de que somos uma república e a pergunta sobre se desejamos ou não conviver com um tipo de poder acima de qualquer hipótese de controle ou responsabilização.

Cá entre nós, não foi por acaso que chegamos a esta situação. Ainda esta semana, escutava jornalistas importantes repetindo o mantra de que “tempos de exceção exigiam poderes de exceção”. Insistiam, gaguejando um pouco, que pode ter havido algum exagero nos poderes dados ao ministro para censurar e mandar prender quem lhe desse na telha, com base no infinito Inquérito das Fake News. Na sequência do diálogo, um dos jornalistas emendou: depois que prenderam o Bolsonaro, deveriam ter parado, não é mesmo? Pois é, quem diria, não pararam. Não acho que ninguém vá aprender nada com isso, mas, de qualquer forma, repito a lição: há um preço em aceitar poderes de exceção em uma república. Primeiro, o poder terá o aspecto de alguma virtude. No Brasil, houve gente que realmente acreditou que tudo era feito para salvar a democracia. Depois, o poder será usado para benefício próprio. Para ganhar muito, mas muito dinheiro, além da prerrogativa de eliminar do léxico republicano o conceito de conflito de interesses. Ato seguinte, o mesmo poder será usado para que nada, em nenhuma hipótese, seja investigado. E, por fim, para ameaçar e retirar do jogo quem arriscar alguma oposição.

Chegamos agora a uma encruzilhada. Nosso sistema de freios e contrapesos foi danificado. A inércia do Congresso e a passividade da PGR são apenas sinais disso tudo. Restam-nos, no fundo, as eleições. O novo presidente indicará três ou quatro novos ministros para o STF. E uma nova maioria pode, ou não, se formar no Senado. O próximo presidente governará por quatro anos, mas definirá os rumos do País por muito mais tempo. E é sobre isto, lá no fundo, que a crise desta última semana pode nos ajudar a refletir.

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Que falta faz Paulo Francis!

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 4 de setembro de 2026

Que falta faz Paulo Francis!

A crônica de Paulo Polzonoff para a Gazeta do Povo:

Faz tempo que estou querendo falar de Paulo Francis. Da ausência dele, que era assim uma espécie de superego das elites e de farol para aqueles que aspiravam a alguma coisa que me escapa identificar. Uma glória tola, talvez? Tola como todas as glórias. Uma glória contida pelos pudores de uma santidade intuitiva. Paulo Francis que morreu há trinta anos e cujo nome não significa nada para os jornalistas de hoje. Mesmo os que ostentam o diploma cafonamente emoldurado e pendurado na sala de jantar, onde antes havia uma reprodução da Santa Ceia.

Paulo Francis que aprendi a admirar nas páginas desta Gazeta do Povo. Na época em que a gente sujava as mãos para ler e aprender. Se não me prega peça a memória, recortava a última página do Caderno G. Lia. Entendia pouco, mas fingia que entendia tudo. Guardava numa pasta que foi jogada fora quando me mudei para o Rio, em 2003. Com Paulo Francis aprendi a ler bons autores contemporâneos e a me emocionar com o balé. Com ele também aprendi rudimentos de filosofia e política. Havia um bocado de afetação naquilo, claro. Não nego isso. Mas em Paulo Francis havia um objetivo outro que não a ostentação estéril da cultura. Ou talvez eu esteja viajando na maionese, sei lá.

Cacife

Acho que, aos 48 anos de idade, dá para confessar sem passar tanta vergonha: me tornei jornalista para ser um Paulo Francis. Para provocar, compartilhar impressões, informar sem ser chato. Não, nunca consegui. Nem vou. Mas sigo tentando. Aliás, como me alertou/ofendeu alguém circa 1998, não tenho cacife para ser Paulo Francis. Sei disso. Porque me falta a vocação para a discórdia. Eu que tenho esse olhar estúpido de poeta-sem-soneto. E tem outra coisa que me impede: a elite intelectual de hoje mal sabe o que é e para que serve um superego – que não, não é personagem da Marvel. É, sr. Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, a.k.a Paulo Francis. Chegamos a este ponto.

Paulo Francis que, se fosse vivo hoje em dia, se escandalizaria com a vulgaridade de tudo. Absolutamente tudo. Hahahaha. Imagine Paulo Francis falando de Alexandre de Moraes! Ele, Francis, que seria xingado de isentão e de esteta – o que de fato era. E que falta fazem os bons estetas! De petista por uns; de bolsonarista por outros. Paulo Francis que faz muita falta como intérprete de um mundo que queria mais de si. Que exigia mais de si. Que sonhava e talvez eu esteja exagerando, romantizando tudo. Eu sei. Sei também que talvez Paulo Francis tivesse se transformado num comentarista senil ou num irrelevante cronista de província. O que, pensando bem, é um consolo para o menino imberbe que, aos 18 anos, acreditava ter cacife para ser qualquer coisa diferente do que ele é hoje.

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Abre tudo, Fachin, por Pedro Dórea

 

Abre tudo, Fachin, por Pedro Dória > Ponto de Partida, Canal do Youube, em 2 de set. de 2026  

E hoje eu tenho um pedido ao presidente do Supremo, Edson Fachin: abre tudo. Tudo que a Polícia Federal já sabe sobre Moraes, Flávio, Toffoli e o filho de Lula. Porque faltam trinta dias pra eleição, e o eleitor tem direito de votar sabendo. E, depois da vinheta, uma proposta: a Nova República acabou. Como começar a Quarta sem golpe e sem ditadura.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O Brasil que trabalha e dá certo

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 31 de agosto de 2026

O Brasil que trabalha e dá certo

O Brasil real é a nação de milhões de pessoas que acordam cedo, enfrentam dificuldades, criam empregos, inovam e sustentam suas famílias. Carlos Alberto Di Franco para a Gazeta do Povo:

O negativismo sistemático é uma forma sutil de falsear a realidade. A vida, como uma grande pintura, é feita de luzes e sombras. O jornalismo responsável não pode esconder os problemas, silenciar diante da corrupção nem abandonar sua função fiscalizadora. Mas também não deve apresentar a realidade como um imenso corredor sem portas e sem janelas.

A velha máxima segundo a qual notícia ruim é notícia boa contaminou parte da imprensa. O resultado está diante de nós: manchetes carregadas, análises sombrias e uma sucessão de conteúdos que parecem destinados a castigar diariamente o fígado do leitor. A denúncia, indispensável à democracia, transformou-se, em alguns ambientes, numa espécie de denuncismo profissional.

O problema não está na crítica. Está na obsessão seletiva pelo fracasso. Está na incapacidade de perceber tudo o que nasce, cresce e prospera longe dos gabinetes oficiais e dos corredores do poder. O Brasil real não é apenas o país das crises políticas, das decisões judiciais controversas e dos escândalos administrativos. É também a nação de milhões de pessoas que acordam cedo, enfrentam dificuldades, criam empregos, inovam e sustentam suas famílias. É preciso olhar para elas.

O empreendedorismo brasileiro não é uma construção teórica. É uma realidade concreta, frequentemente nascida da necessidade. Muitos dos nossos empresários começaram com pouco dinheiro, escasso apoio e enormes obstáculos. Não herdaram estruturas prontas. Construíram seu caminho degrau por degrau, acumulando experiência, enfrentando erros e transformando dificuldades em oportunidades.

Empreender exige coragem. Mas coragem não é ausência de medo. É a decisão de seguir adiante apesar dele. O verdadeiro empreendedor não ignora os riscos: procura conhecê-los, administrá-los e vencê-los. Cai, aprende e recomeça. Sabe que nenhum crescimento consistente acontece sem trabalho, disciplina, formação e perseverança.

Um bom exemplo desse Brasil inovador é a Akiyama, empresa nacional fundada em 2005 e especializada em identificação biométrica. Com tecnologia desenvolvida no país, tornou-se referência em um setor estratégico, oferecendo suporte técnico e manutenção em mais de 5 mil municípios, incluindo todas as capitais brasileiras.

A dimensão de sua atuação impressiona. Mais de 140 milhões de brasileiros foram cadastrados por meio de equipamentos e programas fornecidos pela empresa. Em um país continental, garantir identificação segura, confiabilidade dos dados e atendimento técnico em milhares de localidades é uma tarefa de enorme complexidade.

A trajetória da Akiyama revela uma verdade importante: empresas que olham para o futuro não podem viver prisioneiras do retrovisor. Precisam preservar os valores que as fizeram crescer, mas devem estar abertas à renovação. Tradição e inovação não são adversárias. Quando bem combinadas, tornam-se poderosas ferramentas de desenvolvimento.

Outro exemplo inspirador vem de Rondônia. Tony Cozendey nasceu numa família humilde em Alta Floresta do Oeste. Aos 15 anos, mudou-se para Buritis e começou a trabalhar como office boy em uma ótica. Fazia cobranças de bicicleta, percorrendo os bairros da cidade. Depois, aprendeu a ajustar e montar óculos. Aos poucos, passou a atender os clientes e tornou-se vendedor.

Cada tarefa foi uma escola. Tony não desprezou os trabalhos simples nem ficou esperando a oportunidade ideal. Transformou o serviço cotidiano em aprendizado. Observou o funcionamento do negócio, conheceu as necessidades dos consumidores e descobriu um mercado que poderia ser mais bem atendido.

Anos depois, passou a comandar sua própria rede, presente em 14 estados, com mais de 34 unidades e faturamento anual em torno de R$ 20 milhões. O Instituto Visão Solidária, conhecido como IVS, cresceu oferecendo óculos a preços acessíveis, especialmente em cidades das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

A história de Tony mostra que o crescimento profissional raramente ocorre por meio de saltos espetaculares. Ele é construído com pequenas conquistas: aprender uma tarefa, atender bem um cliente, conquistar confiança, assumir novos desafios e não se acomodar. Antes de dirigir uma empresa, é necessário aprender a dirigir a própria vida.

O Brasil precisa valorizar essa cultura do esforço. Precisamos formar jovens que não tenham medo do trabalho, da responsabilidade e do risco. Jovens que compreendam que direitos e deveres caminham juntos e que a realização profissional não nasce apenas do desejo, mas da competência, da constância e do caráter.

A imprensa tem importante papel nessa tarefa. Deve denunciar os abusos, mas também revelar os bons exemplos. Deve fiscalizar o poder, sem ignorar a vida que pulsa fora dele. Deve mostrar o empresário que investe, o trabalhador que se aperfeiçoa, o professor que transforma uma escola, o jovem que abre um negócio e a comunidade que encontra soluções para seus problemas.

As sombras existem e precisam ser mostradas. Mas elas não conseguem apagar as luzes que brilham todos os dias na vida de milhões de brasileiros. Há um Brasil que trabalha, empreende, aprende e cresce. Um país que não aparece sempre nas manchetes, mas que merece ser conhecido.

Como sugeriu Guimarães Rosa, quando parece que nada acontece, pode haver um milagre que não estamos percebendo. Cabe ao bom jornalista abrir os olhos, sair às ruas e contar também os milagres cotidianos do trabalho, da perseverança e da esperança.

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domingo, 30 de agosto de 2026

A ideia é boa, Dr. Cury, mas não vai rolar

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de agosto de 2026

A ideia é boa, Dr. Cury, mas não vai rolar

Revolução digital deu poder para as pessoas, e nada indica que elas farão um uso bem-comportado desse poder. Fernando Schüler para o Estadão:

“Os debates morreram”, me diz um jornalista experiente, dia seguinte daquele debate na Band, em parceria com o Estadão. Na semana, li um ótimo texto, aqui mesmo no Estadão, do Sérgio Denicoli, observando algo na mesma linha: “A lacração matou os debates, e não há caminho de volta”.

As razões são conhecidas. Os candidatos viraram produtos de marketing, e não faz muito sentido debater com uma encenação; o foco dos debates seria “lacrar”. Produzir um bom corte para as redes. E isto, vamos lá, é mais fácil fazer com uma boa cena, ou quem sabe um palavrão, do que dizendo o que vai fazer o problema fiscal. O diagnóstico é este. Mais do que uma época de guerra, vivemos a era da trivialidade. A política como espetáculo. De mau gosto, diga-se de passagem. Mas esta é apenas a minha opinião.

Quem destoou dessa lógica foi Augusto Cury, e não por acaso gerou alguma raiva nos ativistas. “Sua agressividade me assombra”, disse ele para o Renan Santos, como se estivesse em um consultório. E foi além. Disse que a agressividade “asfixia” a capacidade de alguém ter a sua opinião e que “a beleza da democracia está na divergência”.

A reprimenda de Cury soa bem, mas tem um problema. Renan diz o que diz não por um traço psicológico, mas porque a política é um tipo de mercado. Se o eleitor punir quem fala palavrão, os candidatos não vão falar. Se punir quem não for ao debate, eles irão. Se votar em quem disser exatamente o que irá mudar na previdência, eles vão dizer. E se largar de mão quem mentir descaradamente em uma entrevista no horário nobre, eles irão dizer a verdade. Do contrário, nada feito. O apelo do Dr. Cury é bacana e tal. Mas não vai rolar.

A revolução digital deu poder para as pessoas, e nada indica que elas farão um uso bem-comportado desse poder. Na linguagem popularizada por Jason Brenann, houve foi uma conversão em massa de eleitores “hobbits” em “hooligans”. O hobbit sempre foi majoritário, nas democracias liberais. Um mundo comportado, onde a “maioria silenciosa” é devidamente interpretada por um arranjo de instituições intermediárias. Mídia profissional, partidos, sindicatos, organizações civis. Isto não terminou, mas faz parte de um mundo que envelheceu. O novo mundo é algo caótico. Seu personagem central é o ativista digital. Um tipo que lê o mundo via redes sociais, forma sua cabeça em grupos de WhatsApp, odeia quem pensa diferente e se move em um universo de baixíssima empatia. Não é um tipo queridão, em regra, disposto a escutar um bom argumento. O ativista digital prossegue sendo minoria, nas democracias, mas ocupa o centro do palco. Dá o tom, e isto – sejamos realistas – faz parte de um mundo que veio para ficar.

Simpatizo com os apelos de Cury. Também gostaria de um debate bacana, feito de ideias, sem palavrões, mas não acho que isto seja realista. A nova democracia digital tem lá suas vantagens. Ela entregou poder para as pessoas, quebrou o quase monopólio de velhas elites. E é cedo para saber se o saldo final disso tudo será bom ou ruim para nossas democracias.

Por ora, apesar dos fujões, falastrões e de todo o barulho, a conta me parece que anda no azul. James Madison, que era um homem sem ilusões, dizia que a república é, por definição, o espaço da “animadversão”. Do debate duro, por vezes mal-educado. E disse isso em 1800, bem antes da internet. Havia ali uma visão realista da política. Haverá facções e facciosismo, pois as paixões e o desejo de poder residem na alma humana. O que nos resta a fazer é contenção de danos. Melhorar as instituições. Proibir que os juízes façam política, por exemplo. Proibir a censura, sempre seletiva, em nome de um suposto bom-mocismo. Tirar esta montanha de dinheiro público que injetamos nas campanhas, no Brasil, para que os candidatos parem de torrar dinheiro em marketing e enganar as pessoas.

No mais, é deixar que os cidadãos decidam. A democracia liberal sempre será uma aposta, em última instância, na capacidade de pessoas adultas tomarem decisões por conta própria. Se quiserem votar no candidato do palavrão, ok. Se quiserem dar uma chance a um psiquiatra bem-educado, ótimo.

Quanto ao debate público, o limite é, e sempre deverá ser, o uso da palavra. Perigoso mesmo não é um país em que alguns candidatos fogem do debate ou falam grosso. Perigoso é um país em que o sujeito dá uma cadeirada no adversário e segue candidato normalmente. Perigoso é um juíz entrar em campo e mudar a regra do jogo, a partir de alguma predileção. Isto é inaceitável porque são formas - toscas ou sofisticadas, não importa - de violência. E como tal, o fim da política. Com o barulho e a algazarra digital, não se preocupem, logo vamos aprender a lidar.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 29 de agosto de 2026

Entrevista de Flávio Bolsonaro na Globo

Publicação compartilhada do site BBC NEWS BRASIL, de 28 de agosto de 2026

Flávio Bolsonaro na Globo: o que disse o candidato à Presidência na entrevista à emissora

Por Mariana Schreiber

O candidato à Presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro, foi o entrevistado desta sexta-feira (28/8) na série da TV Globo com os presidenciáveis.

Questionado sobre sua relação com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, Flávio afirmou que só manteve contatos com o banqueiro para tratar do patrocínio para a realização do filme Dark Horse, em homenagem a seu pai.

Flávio negou que tenha oferecido alguma contrapartida em troca dos R$ 61 milhões que o banco repassou para suposto financiamento do filme.

Pressionado pelos entrevistadores César Tralli e Renata Vasconcellos a apresentar o contrato para o patrocínio e uma planilha detalhada sobre o uso dos recursos no filme, o candidato insistiu que já prestou os esclarecimentos e que se trata de um financiamento privado para realização de uma "obra de arte".

"Eu não fui buscar dinheiro em recursos públicos, e esse foi um patrocínio, na verdade, que não tem nenhuma transferência para Flávio Bolsonaro. É um patrocínio para um filme privado sobre o meu pai".

A campanha de Flávio Bolsonaro sofreu desgaste a partir de maio com a revelação de que o senador manteve conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro cobrando aportes milionários para a produção do filme em homenagem ao seu pai.

Segundo o portal The Intercept Brasil, o banqueiro teria repassado ao menos R$ 61 milhões para a obra no ano passado e Flávio teria feito contatos cobrando a liberação dos valores restantes do acordo de financiamento, que chegaria a R$ 134 milhões.

O senador nega qualquer ilegalidade, mas passou a ter que responder pela proximidade com um dos nomes mais tóxicos da política brasileira — Vorcaro está preso, suspeito de fraudes bilionárias à frente do Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025.

"A única relação que eu tinha com ele era sobre esse filme. Mais nada", insistiu Flávio, ao ser questionado na TV Globo sobre esse encontro.

No momento, a Polícia Federal investiga se os recursos transferidos pelo Banco Master para o filme foram de fato usados na obra ou se foram usados para outras finalidades, como custear a estadia do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Questionado sobre a condenação de seu pai por tentativa de golpe de Estado, Flávio disse que o julgamento do STF foi uma "farsa" e que seu pai foi julgado por seus "inimigos", citando os ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Cristiano Zanin — os três consideraram o ex-presidente culpado, com a ministra Cármen Lúcia.

Flávio também criticou outras decisões do STF, como a recente quebra de sigilo da fonte de um jornalista do Maranhão por Moraes para apurar uma suposta perseguição a Flávio Dino.

"Eu sou o único candidato que pode recolocar as instituições no seu devido lugar para que parte do Supremo volte a cumprir a Constituição", disse ainda, sem explicar como faria isso.

Perguntado sobre ter repetido críticas do seu pai ao sistema eletrônico de votação, o candidato do PL assegurou que vai respeitar o resultado das eleições.

"Quero dizer a todos vocês que vou respeitar o processo eleitoral, vou respeitar o resultado das eleições. Eu estou concorrendo com essas regras. Eu vou ser presidente da República com essas regras", disse.

Flávio fez essa afirmação após os jornalistas da Globo citarem uma declaração sua em julho — quando questionou, diante de diplomatas estrangeiros, a confiabilidade das urnas eletrônicas.

Na ocasião, ele disse que os equipamentos seriam fabricados por uma empresa venezuelana, a Smartmatic, que teria se envolvido em um plano de fraude em seu país de origem.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desmentiu essa acusação, negando que a empresa venezuelana fabrique as urnas usadas no Brasil.

Na entrevista à Globo, Flávio reconheceu ter falado "equivocadamente" sobre a Smartmatic, mas negou ter questionado o processo eleitoral no encontro com diplomatas.

Atuação de Eduardo Bolsonaro nos EUA

Flávio foi questionado também sobre a atuação de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, nos Estados Unidos.

A família Bolsonaro é acusada por Lula e outros críticos de ser responsável pelas retaliações do governo Donald Trump contra o Brasil, após Eduardo articular com autoridades americanas medidas para pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) e tentar impedir a condenação de seu pai por tentativa de golpe de Estado no ano passado, sem sucesso.

Foi nesse contexto que, em julho de 2025, Trump anunciou o primeiro tarifaço contra importações brasileiras e suspendeu vistos de integrantes do STF, além de incluir o ministro Alexandre de Moraes na Lei Magnitsky, que prevê retaliações financeiras.

Os jornalistas citaram o fato de Eduardo ter comemorado publicamente o anúncio do primeiro tarifaço contra o Brasil e questionaram Flávio sobre sua família colocar interesses privados na frente do interesse nacional. O candidato, então, defendeu o irmão.

"Se o Eduardo tivesse colocado seus próprios interesses na frente do Brasil, ele não teria ficado exilado, como está nos Estados Unidos hoje. Ele faz um trabalho lá de conscientização, de mostrar ao mundo o que está acontecendo no Brasil hoje, que está longe de ser uma democracia plena. Ele nunca pediu tarifas para empresas brasileiras", afirmou.

Em maio deste ano, Flávio foi recebido por Trump, ao lado de Eduardo, e se colocou contra novos tarifaços contra o Brasil, mas continuou defendendo retaliações a ministros do Supremo.

Ele diz que os tarifaços contra o Brasil são culpa de Lula, porque o petista não construiu uma boa relação com o governo americano.

Já ao ser perguntado sobre as críticas do governo Trump ao meio de pagamento instantâneo brasileiro, Flávio respondeu que o "Pix é sagrado" e "inegociável".

Dívida pública e salário mínimo

Sem responder diretamente à pergunta dos entrevistadores sobre metas e prazos para a redução da dívida pública e para o ajuste fiscal — duas promessas do candidato —, Flávio Bolsonaro afirmou que o Brasil está à beira de uma "quebradeira generalizada" devido aos gastos públicos, à alta carga tributária, aos juros altos e ao endividamento das famílias.

"Se o Brasil não tiver um ajuste fiscal forte, está fadado aí à falência de todo mundo, uma quebradeira generalizada", disse o candidato do PL, criticando a "gastança" do governo atual.

Flávio Bolsonaro também negou que vá desfazer a política atual de valorização do salário mínimo, contrariando o que disse o senador Rogério Marinho (PL-RN), seu coordenador de campanha.

"Não farei economia com quem ganha salário mínimo. Eu não farei economia com aposentados", afirmou o candidato.

Durante o governo de Jair Bolsonaro, o valor do salário mínimo ficou praticamente congelado — apenas no primeiro ano, 2019, houve um pequeno reajuste acima da inflação.

Relação com miliciano

Flávio Bolsonaro também teve que responder sobre seu vínculo com o miliciano Adriano da Nóbrega, a quem homenageou com a Medalha Tiradentes, em 2005, quando era deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Na ocasião, lembraram os jornalistas da TV Globo, Nóbrega estava preso, acusado de assassinato. Flávio respondeu que Nóbrega foi depois inocentado dessa acusação e solto, pois essa morte teria ocorrido numa troca de tiros durante ação policial.

Ele também argumentou que, na época da homenagem, o então policial militar era um agente respeitado e que não tinha como saber os crimes que ele cometeria depois.

Os jornalistas cobraram então Flávio pelo fato de ter empregado em seu gabinete da Alerj a mãe de Adriano da Nóblega, Raimunda Magalhães, e sua então esposa, Danielle Mendonça da Costa.

As duas foram exoneradas apenas em 2018, quando foi revelado o escândalo da rachadinha, em que Flávio foi acusado de desviar recursos do seu gabinete por meio de servidores fantasmas que devolviam parte do seu salário — o caso acabou paralisado nas Justiça após provas serem anuladas e Flávio sempre negou as acusações.

Naquele momento, Nóbrega já tinha sido expulso da Polícia Militar em 2014, por atuar na segurança de contraventores do jogo do bicho e, depois, foi acusado de ser miliciano e chefiar o Escritório do Crime, especializado em assassinatos por encomenda.

Após ser denunciado pelo Ministério Público em 2019, foi morto numa operação policial para capturá-lo quando estava foragido na Bahia.

Apesar disso, Flávio insistiu que não sabia dos crimes de Adriano da Nóbrega.

"Na época, ele não era isso. Ele era um policial exemplar que estava preso injustamente. Foi quando eu conheci os familiares dele, a mãe, principalmente, que participava de movimentos de defesa de esposas e mulheres de militares e policiais perseguidos", disse o candidato.

Quem é Flávio Bolsonaro?

Filho mais velho de Jair Bolsonaro, Flávio tem 45 anos. Nasceu em Resende (RJ) e cresceu no Rio de Janeiro, onde se formou em direito pela Universidade Candido Mendes. Evangélico, é casado com a dentista Fernanda Bolsonaro, com quem tem duas filhas.

O candidato do PL se identifica como um político de direita conservador que defende políticas econômicas liberais, cortes de gastos e redução de impostos. Assim como o pai, é a favor da facilitação do acesso a armas. No campo internacional, propõe uma maior aproximação do Brasil com os Estados Unidos, mantendo interlocução com o governo de Donald Trump.

Começou sua carreira política no ano 2000, aos 19 anos, quando foi nomeado para um cargo na Câmara dos Deputados, na função de assistente técnico de gabinete na liderança do PPB, então o partido de Jair Bolsonaro, que já era deputado federal há quase uma década.

Com apoio do pai, disputou sua primeira eleição em 2002, quando tinha apenas 21 anos e conquistou seu primeiro mandato de deputado estadual. Foi reeleito para o cargo três vezes, permanecendo por 16 anos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Sua atuação foi marcada pela agenda da segurança pública. Ao longo do seu mandato, costumava homenagear agentes das forças de segurança com a Medalha Tiradentes, como foi o caso do policial Adriano da Nóbrega, em 2005, depois acusado de atuar como miliciano.

Quando Bolsonaro foi eleito presidente, em 2018, Flávio conquistou seu atual mandato de senador. Pouco depois, em dezembro daquele ano, estourou o escândalo da "rachadinha", em que era suspeito de ter enriquecido ilicitamente com desvio de verba do seu gabinete da Alerj.

Segundo denúncia oferecida depois pelo Ministério Público, 12 funcionários fantasmas teriam devolvido parte dos seus salários para o então deputado estadual por intermédio do seu chefe de gabinete, Fabrício Queiroz, em um esquema que teria movimentado cerca de R$ 4 milhões em valores da época.

Queiroz admitiu ao Ministério Público que recebia parte dos salários dos funcionários, mas disse fazer isso sem anuência de Flávio. Na versão de sua defesa, os recursos eram usados para contratar informalmente outras pessoas para atuar em apoio à atuação parlamentar do então deputado estadual.

Para o filho mais velho de Bolsonaro, as denúncias eram perseguição política para atingir o governo do pai.

"Eu passei 16 anos da minha vida sem ter uma acusação de nada. Bastou o presidente se eleger que começam a aparecer as narrativas", disse Flávio Bolsonaro em abril, ao responder sobre as acusações em entrevista ao podcast Inteligência Ltda.

Flávio chegou a ser denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro pelos crimes de organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. O caso, porém, foi paralisado por decisões judiciais sem que o mérito das acusações fosse julgado, após controvérsias em torno do foro privilegiado do senador e da legalidade das provas.

A forte repercussão inicial do escândalo da rachadinha acabou limitando a projeção de Flávio durante o governo de Jair Bolsonaro. Com o esfriamento do caso, porém, foi escolhido pelo pai para disputar a Presidência da República.

O candidato do PL aparece como o segundo colocado em intenções de voto no primeiro turno, com 34%, considerando os resultados das pesquisas divulgadas até esta quinta-feira (27/8). Lula é o primeiro, com 39%.

A estimativa é do Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, que compila os levantamentos das instituições Datafolha, Quaest, AtlasIntel, MDA, Gerp, entre outros, e calcula uma espécie de média para a intenção de voto de cada candidato.

Depois dos dois primeiros colocados, aparecem Ronaldo Caiado, com 4%; Renan Santos, com 4%; e Pablo Marçal, com 3%...

Texto e imagem reproduzidos do site: www bbc com/portuguese

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Entrevista de Lula na Globo

Publicação compartilhada do site BBC NEWS BRASIL, de 27 de agosto de 2026

Entrevista de Lula na Globo: o que disse o candidato à Presidência disse sobre suas propostas

Por Leandro Prazeres

A entrevista com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na TV Globo nesta quinta-feira (27/8) começou com o assunto que paira sobre a campanha de reeleição do petista: as investigações a respeito de supostas irregularidades cometidas por seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha.

Questionado pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos, Lula classificou como "ilações" as acusações que estão circulando contra Lulinha.

"Ali não tem nenhuma acusação. São ilações, ilações, ilações tiradas de telefonemas. Eu conheço isso muito bem porque já vivi isso", afirmou o presidente, referindo-se à Operação Lava-Jato, que o levou à prisão.

O petista prometeu que Lulinha "não será protegido" por ser seu filho.

"Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro. Eu não vou afastar a delegado da Polícia Federal. Eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja beneficiado."

Apesar de afirmar que seu filho terá que provar sua inocência, o presidente disse ter "certeza" que isso será demonstrado.

Lula, que busca um quarto mandato, disse ainda que não fará intervenção na Polícia Federal por conta das investigações contra seu filho.

"Eu não vou afastar delegado da Polícia Federal. Eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja beneficiado (...) portanto, ele tem obrigação de não ter feito erro. Eu estou muito tranquilo como presidente da República. Tudo o que for preciso fazer no âmbito da polícia e da Justiça para apurar [será feito]. Será dada toda e qualquer garantia", disse o petista.

Lulinha é alvo de três inquéritos instaurados pela Polícia Federal (PF) e autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O primeiro investiga se Lulinha tentou favorecer Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", a obter contratos com o Ministério da Saúde para o fornecimento de produtos à base de cannabis medicinal.

O segundo é uma investigação que apura se Lulinha atuou para beneficiar a empresa 3Structure It LTDA para obter contratos junto à Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência (Dataprev), que é uma estatal federal.

O terceiro investiga a suposta atuação conjunta de Lulinha, do ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, e da empresária Roberta Luchsinger para favorecer empresas interessadas em contratos com o Ministério da Saúde. Ela é amiga pessoal da Lulinha e sua família.

Lula também foi questionado sobre as suspeitas sobre a atuação de Luchsinger, que, segundo relatórios da PF divulgados pela imprensa nos últimos dias, teria pago R$ 249 mil em despesas do ex-chefe de gabinete do petista.

"Não é adequado. É totalmente errado. E o Marcola sabe do erro que ele cometeu, porque não é esse o papel do chefe de gabinete. Ele sabe disso. Ele sabe da importância de chefe de gabinete", afirmou Lula.

O presidente disse, no entanto, que acredita na explicação apresentada por Marcola, de que  valor pago por Luchsinger seria fruto de um empréstimo pessoal.

Lula afirmou também ter questionado por que o auxiliar não o procurou ao enfrentar o problema.

"Eu disse para ele: 'Cara, eu sou quase que nem seu pai. Por que que você não falou comigo? Por que você não falou comigo do problema que você estava tendo?'"

Lula disse ainda estar "muito deprimido e muito chateado" com o episódio e afirmou que eventuais erros deverão ser punidos.

"O meu filho sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometeu, vai pagar. O Marcola sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometeu, vai pagar. É assim que funciona."

Lula, César Tralli e Renata Vasconcellos posando para foto no estúdioCrédito,Globo/ Manoella Mello

Trechos de um relatório da PF obtidos pela revista Veja apontam que Roberta e Lulinha trocaram mensagens sobre um encontro entre Roberta e o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa.

O objetivo do encontro, segundo a PF, seria viabilizar a venda de produtos à base de cannabis medicinal.

Marcola entrou no radar das investigações depois que a PF identificou que Luchsinger pagou despesas em nome do ex-chefe de gabinete do presidente. Em nota, Marcola disse que os pagamentos fizeram parte de um empréstimo pessoal feito pela empresária e negou ter praticado qualquer irregularidade.

A defesa de Lulinha também vem negando o envolvimento do filho do presidente em crimes ou condutas indevidas.

Lula descarta privatizar os Correios

Em outro ponto da entrevista, o jornalista César Tralli questionou sobre o prejuízo acumulado dos Correios nos últimos anos, outra empresa estatal do governo federal. Nos últimos quatro anos, esse prejuízo chegou a R$ 15 bilhões.

Lula atribuiu a crise pela qual a empresa passa a mudanças no mercado de entrega de encomendas, com a entrada de companhias privadas, brasileiras e estrangeiras.

"A crise dos Correios é que ele não se adaptou aos novos tempos. Surgiu muita empresa de fazer entrega e os Correios ficaram na mesmice (...) Se for necessário a gente fazer associação com empresas brasileiras ou estrangeiras, nós faremos, porque a gente quer os Correios junto com qualquer outra empresa", afirmou.

Em seguida, Tralli questionou se Lula cogitava a possibilidade de privatizar os Correios, defendida por setores do mercado financeiro e defendida durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Lula, no entanto, rejeitou a ideia.

"O senhor não considera vender [os Correios]?", indagou o jornalista.

"Não considero vender os Correios", disse o petista.

Caso Master e Jaques Wagner

Lula foi questionado sobre as menções ao senador Jaques Wagner (PT-BA) em investigações do caso Banco Master. O presidente respondeu que "tem muita gente nesse país" envolvida no escândalo, mas afirmou acreditar na honestidade do senador petista, que busca a reeleição ao cargo.

Wagner era líder do governo no Senado e se afastou da função após tornar-se alvo de investigações da PF relacionadas ao Master.

Lula tem feito campanha a favor da reeleição de Wagner para o Senado, o que foi questionado na entrevista à TV Globo.

"Até agora, não está provado que o Wagner tem relação com o Banco Master", argumentou o presidente.

"O que eu não posso admitir é aceitar que eu possa fazer política vivendo de ilações todo santo dia."

"Eu tenho consciência que o Wagner é honesto. Se ele cometeu um desvio, vai acontecer com ele o que vai acontecer com qualquer pessoa: vai pagar o preço do erro que cometeu. Eu não sou uma pessoa que mudo de calçada quando encontro o amigo que está sendo acusado de alguma coisa. Não. Até que se prove o contrário, todos são inocentes."

Os jornalistas também questionaram Lula sobre um dos pontos que mais preocupa o eleitor brasileiro segundo pesquisas de opinião pública: segurança pública.

Renata Vasconcellos questionou Lula sobre por quê o PT, que governou Brasil por 17 anos, não conseguiu conter o avanço do crime organizado no país.

Lula começou sua resposta dizendo que a Constituição Federal de 1988 teria retirado poderes do governo federal e atribuiu aos Estados as principais responsabilidades em relação à segurança pública.

Lula prometeu que, caso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) for aprovada pelo Congresso Nacional, ele criará o Ministério da Segurança Pública.

Segundo ele, esta medida irá melhorar a atuação do governo no combate ao crime organizado.

"Na hora que for aprovar a PEC da Segurança Pública, eu crio o Ministério da Segurança Pública. Por que eu vou criar o ministério? Porque, primeiro, eu quero estabelecer qual é a participação de cada ente federado na segurança pública. (Definir) qual vai ser o papel da União, qual vai ter o papel do Estado e qual vai ser o papel do município. Porque aí sim, a gente vai trabalhar muito forte", afirmou.

Lula defendeu que o governo faça investimentos em inteligência e voltou a dizer que encaminhou uma proposta ao governo dos Estados Unidos para o combate ao crime organizado no país.

"Aprovamos uma lei de anti-facção e estamos trabalhando a questão do combate ao crime organizado. Por isso eu fui levar pro (Donald) Trump uma proposta por escrito. Se os EUA quiserem trabalhar junto com o Brasil para combater o narcotráfico, o crime organizado, o Brasil está pronto e preparado (...) o meu desejo é recuperar o território do povo. Aquela rua é do povo do Rio, não é do bandido. A escola é do povo, não é do bandido", disse.

A menção ao governo Trump acontece três meses depois de o governo dos Estados Unidos designar as facções brasileiras Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A medida contrariou o governo Lula que, nos bastidores, defende que esta designação poderia abrir espaço para intervenções militares norte-americanas em território brasileiro.

Dívida pública

A jornalista Renata Vasconcellos questionou o presidente sobre a trajetória da dívida pública em seu governo — a dívida em relação ao PIB subiu 10 pontos percentuais durante o mandato atual do petista, chegando a quase 82%.

"Eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar essa pergunta falando diferente", respondeu Lula. Em seguida, ele defendeu a gestão da sua política econômica, inclusive em mandatos passados e elencou entre suas marcas a realização de superávit primário durante oito anos nos seus dois primeiros governos. É o resultado positivo das contas públicas quando o governo arrecada mais do que gasta, desconsiderando o pagamento dos juros da dívida.

O presidente afirmou que a dívida pública chegou a tamanho percentual do PIB devido aos juros altos e à estagnação do crescimento nos governos anteriores ao seu.

"Você sabe quando é que o PIB voltou a crescer acima de 2%, Renata? Quando eu voltei à Presidência da República. Você se esquece que eu deixei esse país crescendo 7,5% em 2010? E quando eu voltei, ele estava crescendo 1%?", indagou, acrescentando que, comparado a países como Estados Unidos, Japão e Itália, uma dívida de 80% do PIB "não é muito".

Lula afirmou que, neste ano, haverá superávit primário de 0,1%. Perguntado sobre a necessidade de ajustes fiscais e do corte de gastos obrigatórios, o presidente não respondeu diretamente como faria essas mudanças.

Quem é Lula?

Luiz Inácio Lula da Silva tem 80 anos de idade e busca o seu quarto mandato como presidente da República. Ele já presidiu o país por dois mandatos consecutivos, entre 2003 e 2011.

O petista se classifica como um político de esquerda e defende maior participação do Estado na economia, políticas de distribuição de renda e a ampliação de programas sociais.

Na política externa, Lula costuma defender o multilateralismo, parcerias com países fora do eixo Estados Unidos-Europa e a criação de foros como os BRICS, grupo que hoje tem 11 países e que foi fundado por Brasil, Rússia, China e Índia.

Nascido em Garanhuns, no interior de Pernambuco, ele migrou ainda criança com a família para São Paulo, no início dos anos 1950. Foi lá que ele começou a trabalhar como metalúrgico e deu início à sua carreira sindical e política.

Lula ganhou projeção nacional no final da década de 1970, quando presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e liderou greves de trabalhadores da região conhecida como ABC Paulista durante a ditadura militar.

Em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), legenda à qual continua filiado.

Em 1986, ele foi eleito deputado federal por São Paulo e participou da Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela elaboração da Constituição de 1988.

Esta é a sétima vez que Lula disputa as eleições presidenciais. A primeira foi em 1989, quando foi derrotado no segundo turno por Fernando Collor de Mello, que era filiado ao agora extinto Partido da Renovação Nacional (PRN).

Em 1994, ele chegou a liderar pesquisas de intenção de voto durante parte do período eleitoral, mas foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que aproveitou a popularidade pela implantação do Plano Real.

Lula voltou a disputar as eleições em 1998, mas foi derrotado novamente por Fernando Henrique, no primeiro turno.

Em 2002, com um discurso mais voltado ao centro, Lula venceu sua primeira eleição presidencial e passou a governar o país a partir de 2003. Ele foi reeleito em 2006 e deixou o cargo, em 2010, com índices de aprovação acima dos 80%, segundo pesquisas de opinião pública.

Na época, ele usou sua popularidade para apoiar e eleger sua ex-ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), em 2010 e 2014.

Os dois primeiros governos de Lula ficaram marcados pela expansão de programas sociais, como o Bolsa Família, pela adoção de uma política de valorização do salário mínimo e por um período de crescimento econômico impulsionado pelo aumento no consumo interno e pela alta no preço internacional de commodities produzidas pelo Brasil, como soja, carne e minério de ferro.

O período, porém, também foi marcado por denúncias de casos de corrupção. Em 2005, veio à tona o caso conhecido como Mensalão, que apontou para o pagamento de parlamentares da base governista em troca de apoio político no Congresso Nacional.

Lula sempre negou ter conhecimento das irregularidades e não foi denunciado no processo, mas importantes aliados vinculados ao PT foram condenados e levados à prisão. Entre eles estavam o ex-presidente do PT, José Genoíno, o ex-deputado federal João Paulo Cunha, e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.

Anos depois, investigações da Operação Lava Jato atingiram novamente o PT, executivos de grandes empreiteiras e dirigentes de empresas estatais como a Petrobras.

Os investigadores e delatores apontaram a existência de um esquema de pagamento de vantagens indevidas, seja por meio de propina ou por meio de doações eleitorais regulares por empreiteiras em troca de contratos públicos com o governo ou estatais.

Lula foi investigado pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF) por diversos crimes, entre eles lavagem de dinheiro, corrupção e tráfico de influência. Ele sempre negou ter conhecimento sobre o esquema e afirma, até hoje, que as suspeitas levantadas sobre ele eram fruto de perseguição política.

Entre 2017 e 2018, ele foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Suas condenações foram confirmadas em segunda instância. Mesmo assim, em 2018, ele foi lançado como candidato do PT à Presidência da República.

Em abril de 2018, no entanto, ele foi preso e acabou impedido de prosseguir na disputa.

Lula ficou preso por 580 dias, entre abril de 2018 e novembro de 2019, e não pôde disputar a eleição presidencial de 2018.

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as condenações ao concluir que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os casos.

Com isso, Lula recuperou seus direitos políticos, e, em 2022, disputou e venceu, em segundo turno, as eleições para presidente da República, derrotando Jair Bolsonaro (PL), que buscava a reeleição.

O petista recebeu 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Bolsonaro.

Em seu terceiro mandato, ele retomou programas lançados em seus dois primeiros mandatos como Minha Casa, Minha Vida, voltado para habitação.

Durante seu governo, o Congresso também aprovou trechos da reforma tributária e ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda.

Por outro lado, seus adversários criticam o aumento das despesas públicas, a situação das contas federais e o aumento no custo de vida.

Lula, em contrapartida, atribui parte das dificuldades econômicas ao cenário internacional e afirma que seu governo recuperou políticas públicas abandonadas durante a gestão Bolsonaro.

Lula lidera em intenções de voto no primeiro turno, com 39%, considerando os resultados das pesquisas divulgadas até esta quinta-feira (27/8).

A estimativa é do Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, que compila os levantamentos das instituições Datafolha, Quaest, AtlasIntel, MDA, Gerp, entre outros, e calcula uma espécie de média para a intenção de voto de cada candidato.

Depois de Lula, vêm Flávio Bolsonaro, com 34%; Ronaldo Caiado, com 4%; Renan Santos, com 4%; e Pablo Marçal, com 3%. Veja aqui os resultados completos.

*Colaborou Mariana Alvim, da BBC News Brasil em São Paulo

Texto e imagem reproduzidos do site: www bbc com/portuguese

Quem é Augusto Cury?

Publicação compartilhada do site BBC NEWS BRASIL, de 24 de agosto de 2026

Quem é Augusto Cury, escritor que disputa a Presidência nas eleições 2026
Por Pedro Martins

Augusto Cury, de 67 anos, chegou ao primeiro debate presidencial de 2026 como um personagem que destoava dos demais candidatos: um escritor de autoajuda, médico psiquiatra e palestrante que decidiu trocar os livros pelo palanque.

Candidato do Avante, Cury quase nem entrou no estúdio da Band na noite deste domingo (23/8). Diante das ausências do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), ele anunciou que faria um protesto e não participaria.

Pouco depois, no entanto, Cury voltou atrás e entrou no confronto, dizendo que o fez por respeito ao jornalista Fernando Mitre, diretor de jornalismo da Bandeirantes.

No palco, ao lado do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) e de Renan Santos (Missão), Cury criticou a polarização e tentou se apresentar como uma alternativa aos dois grupos políticos que, segundo ele, dominam a disputa.

Um dos momentos que mais chamou atenção ocorreu quando Cury reagiu às críticas de Santos ao eleitorado de Lula, a quem o empresário chamou de "canalha". "Estão rifando o futuro do Brasil, e eu não quero o voto deles", afirmou.

"Olha, Renan, você tem um nível de agressividade que me assombra. As ideias podem ter fundamento, mas a agressividade asfixia a capacidade de as pessoas terem suas próprias opiniões. Nós estamos em uma democracia, e a beleza dela está na divergência", disse Cury.

"Você pode criticar as ideias de Lula, e elas são criticáveis, mas você não pode criticar a pessoa, transformando ela em uma escória humana, quase um lixo. E nem mesmo o eleitor de Lula", acrescentou o candidato do Avante.

Um desejo antigo para 'aumentar a régua do debate'

Cury é um sujeito de predicados superlativos. Considerado o escritor brasileiro mais lido da última década, ele vendeu mais de 30 milhões de livros no país e agora quer estender essa ambição à política.

O escritor contou à BBC News Brasil em abril que se lançar à política é um desejo antigo, mas sua família tinha medo de que ele pudesse se ferir em um ambiente "extremamente agressivo e espinhoso".

Uma década depois, com o amadurecimento de suas filhas, ele contou que teve apoio para se candidatar, com a promessa de que, caso fosse eleito, não buscaria um segundo mandato.

"Não avaliei me candidatar a nenhum outro cargo, seja deputado, seja senador, seja governador, porque não quero fazer carreira política. Meu objetivo é aumentar a régua do debate", afirmou.

"Só acho que o Brasil não pode ser sequestrado por duas famílias — no bom sentido, sem fazer julgamento dessas famílias, mas o Brasil é muito maior do que a família Bolsonaro e a família Lula da Silva."

Com os resultados das pesquisas nacionais divulgadas até a sexta-feira (21/8), antes do debate da Band, a estimativa de intenção de voto em Augusto Cury, no primeiro turno, é de 1%.

A estimativa é do Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, que compila os levantamentos das instituições Datafolha, Quaest, AtlasIntel, MDA, Gerp, entre outros, e calcula uma espécie de média para os dados.

Até a sexta, Lula era quem liderava as pesquisas para o primeiro turno, com 39% das intenções, seguido por Flávio, com 35%, e Caiado, em terceiro lugar, com 5%.

A ideia da equipe de Cury é atrair eleitores que votaram em branco ou nulo — índice que foi de 4,41% em 2022, o menor desde 1994, mas que tem girado em torno de 10% na última década —, além dos que se abstiveram, que somaram 20,9% no último pleito, o maior percentual desde 1998, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.

Em abril, Cury afirmou que rejeita declarar apoio a qualquer candidato em um eventual segundo turno que não o inclua. Ele também evita dizer em quem votou na eleição passada.

Candidato com 'uma mente capitalista e um coração social'

O maior sucesso de Cury nas livrarias, O Vendedor de Sonhos, ilustra a verve narrativa que o tornou conhecido. Na história, que também ganhou o cinema, um psicólogo desiludido tenta tirar a própria vida, mas é impedido por um morador de rua, com quem passa a salvar outras pessoas.

O escritor apresentou a própria candidatura como uma história improvável, movida pela esperança, e disse acreditar que sua experiência estudando a mente humana pode ser usada para enfrentar conflitos, tanto dentro quanto fora do país.

Ele se projeta como uma terceira via, ancorando-se no lema de que tem "uma mente capitalista e um coração social", perfil que, segundo ele, o distanciaria tanto de Lula quanto de Flávio.

"Tenho uma mente liberal, quero um Estado enxuto e eficiente, que acolha as pessoas que estão querendo produzir, mas não têm condições, seja pelos juros altíssimos, seja pela burocracia", afirmou.

"E essa mente capitalista tem que ser acompanhada de um coração social, que valoriza os direitos humanos no mais alto nível, a educação de qualidade, a proteção da mulher."

Ao ser questionado se isso não o colocaria no centro do barômetro ideológico, o escritor rejeitou a ideia e disse que "o centro está no limbo entre ser neutro, estar em cima do muro" e que ele é "contra ser uma pessoa que não tem opinião".

Cury disse ser possível unir a agenda econômica e social e cita como exemplo a proposta de rever o sistema prisional, que, em sua avaliação, faz "com que a sociedade pague duas vezes, porque são de R$ 3 mil a R$ 4 mil gastos por mês com cada prisioneiro e, quando ele retorna à sociedade, reincide no crime e volta ao presídio".

"O Brasil aprisiona muito, ao contrário do que se acredita. Os criminosos devem, sem dúvida, ir às barras da Justiça, mas quem estamos aprisionando? São os criminosos de alta periculosidade ou jovens que não têm como sobreviver e acabam cometendo crimes, vendendo drogas?", questionou.

O escritor reconhece que pautas como essa podem levá-lo a ser ligado à esquerda e, em última análise, a Lula e ao Partido dos Trabalhadores, mas disse ter esperança de que o eleitorado não vá se deixar convencer por essas associações e de que os adversários não vão lançar mão dessa estratégia.

"Isso não é uma pauta da esquerda. As pessoas associam à esquerda, mas é uma pauta suprapartidária, porque também a esquerda não fez nada de grande impacto para mudar a ressocialização e impedir que as prisões se tornem escolas do crime. Essas pautas são sequestradas", disse.

Propostas para o mundo todo

Cury disse que não queria ser uma alternativa a Flávio e Lula somente para as crises brasileiras, mas acreditava ser possível ajudar a solucionar impasses entre líderes mundiais, de Donald Trump a Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky, presidentes dos Estados Unidos, da Rússia e da Ucrânia.

"Se tivesse o privilégio de sentar na cadeira de presidente, nos primeiros dias chamaria vários políticos, como Putin e Zelensky, para conversar, porque sou um especialista em pacificação de conflitos, tenho livros sobre isso", afirmou ele à BBC News Brasil em abril, quando ainda era pré-candidato à Presidência.

"Quem sabe alguém de fora, de um país como o Brasil, que é pacífico, seja mais ouvido. Não apenas este, mas os conflitos na África e em outros países."

Entoando o lema de que tem "uma mente capitalista e um coração social", o escritor disse que, caso seja eleito, espera "inspirar outros atores nas mais diversas nações, seja na Ásia, seja no mundo ocidental", a pôr fim às guerras e resolver desafios como a fome mundial.

"Se gastasse talvez 20% do que se gasta em armas, a equação da fome teria se resolvido. Eu gostaria de chamar o G20, ou quem sabe os quase 200 países que participam da ONU, e meio por cento de todas as importações e exportações do mundo poderiam formar um fundo. Ou por que não de 2% a 3% de toda compra e venda de armas formassem um fundo para resolver a fome mundial?", propôs.

Da autoajuda à política

Nos bastidores, há quem trate a candidatura do escritor como inviável e a associe mais a uma estratégia de marketing para impulsionar os negócios, tanto a venda de livros quanto de cursos.

Seria um movimento benéfico à sua carreira. Afinal, se na década passada Cury se consolidou como o autor nacional mais lido do país, hoje enfrenta forte concorrência de livros de autoajuda que viralizam nas redes sociais e, no mercado de cursos e palestras, concorre com coaches que se criaram não nas livrarias, mas já na internet.

A leitura remete ao movimento de Pablo Marçal (União Brasil), que disputou a Prefeitura paulistana no ano retrasado e agora tenta voltar aos palanques. Ele se anunciou candidato à Presidência pelo Partido Renovador Trabalhista Nacional (PRTB), embora a candidatura ainda deva ser analisada pelo TSE.

Cury, porém, rejeitou essa interpretação e disse que, na prática, a incursão na política pode até prejudicar seus negócios.

"Não pensei muito nisso, mas vários amigos me dizem que vai prejudicar, que vou sair ferido. Mas já tenho muito mais do que mereço, tanto financeiramente quanto socialmente e intelectualmente."

Propostas para o sistema presidencial e o STF

Ao longo da entrevista por videoconferência à BBC News Brasil, concedida em abril de sua casa na região de Ribeirão Preto, no interior paulista, Cury não se furtou a comentar geopolítica global — citou diversos países, seus problemas e possíveis soluções —, mas também detalhou propostas para o Brasil.

A principal delas envolve mudanças na estrutura de poder, com apoio do Congresso. Ele defendeu mudanças no presidencialismo, com a criação do cargo de primeiro-ministro, e no Judiciário, especialmente no Supremo Tribunal Federal (STF), que, em sua avaliação, estaria "sufocando os outros poderes" e precisa "ser preservado de qualquer interferência política".

Ele disse que pretendia articular com o Congresso "o fim da vitaliciedade dos ministros". "Eles ficariam de oito a dez anos. Essa história de entrar com 40 e sair com 75 seria encerrada."

"Além disso, dois terços teriam que vir da magistratura, ou seja, ser juízes de carreira, não mais escolhidos pelo presidente, mas pela própria classe e, quem sabe, até pelo voto público."

Um homem de meia-idade, Augusto Cury está sentado em um ambiente interno com iluminação quente, vestindo um terno azul sobre uma camisa azul mais escura e óculos de armação fina, sorrindo; ao fundo, vê-se uma luminária acesa e móveis de madeira.Crédito,Divulgação

Cury criticou a "espetacularização" da atuação dos ministros da Corte e propôs que seus votos deixem de ser transmitidos ao vivo.

"Por mais que sejamos livres para expressar ideias, toda vez que você está debaixo dos holofotes denotam-se vários gatilhos mentais e você acaba dando respostas que não daria se não estivesse sob os holofotes."

O escritor disse que as mudanças que propõe se baseiam em seus estudos sobre a mente humana e em outro lema de sua campanha, "make humanity great again", ou "torne a humanidade grande novamente", baseado no movimento americano Maga ("Make America Great Again"), encampado por Trump.

"Quando alguém te ofende, te rejeita ou te critica, detona o primeiro copiloto do eu, abre uma janela traumática e, se o volume de tensão é grande, a âncora gera hiperfoco", disse Cury.

"Milhares de arquivos mentais deixam de ser acessados para dar respostas inteligentes. O Homo sapiens se torna Homo bios, instintivo, animal, e comete os maiores erros. Professores, casais e também líderes internacionais têm suas piores atitudes. Dizem palavras que nunca deveriam ser ditas."

Texto e imagem reproduzidos do site: www bbc com/portuguese

Margem Equatorial e Terras Raras, Novos Fronts de Luta

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 28 de agosto de 2026

Margem Equatorial e Terras Raras, Novos Fronts de Luta. 
Por Fernando Gabeira (In Blog).

Oceano e terras raras, o progresso nos empurra para novas dimensões do debate ambiental no Brasil. Do fundo do mar, nas camadas do pré-sal, o País explora a riqueza do petróleo; do fundo do mar, quando o pré-sal se esgotar, o País vai tirá-lo na Margem Equatorial, próxima à foz do Rio Amazonas.

A nova frente de exploração do petróleo é delicada. O Brasil hospedou a COP-30 em Belém com o objetivo de mostrar a importância e a vulnerabilidade da Amazônia. O País se comporta como um líder na transição energética e um interlocutor indispensável nos esforços para combater e mitigar as mudanças climáticas. É uma contradição, portanto, explorar novas fontes de petróleo na Amazônia. Ocorre que a correlação de forças internas aponta irresistivelmente para a realização desse projeto. A única saída é considerar a contradição como não antagônica e levá-la adiante sem que um dos polos seja eliminado. A equação será explorar o petróleo com rigorosos cuidados ambientais. Se depender de políticos do tipo Alcolumbre, os cuidados vão para o espaço. Se depender da opinião internacional, o ideal seria deixar a Amazônia em paz.

Viajei algumas vezes para a região. Inclusive escrevi um texto para o belo livro de fotos de João Farkas, Costa Norte. O objetivo de uma das viagens foi documentar os manguezais da região, os maiores do mundo. Os manguezais são berçários da vida e hospedam uma grande biodiversidade. Lá na região, há árvores de até 30 metros. Vi muitas pessoas saindo do mato, com fieiras de enormes caranguejos. Na pequena cidade de Bragança, próxima do mangue, o cardápio no restaurante é basicamente caranguejo. Numa viagem ao Amapá, cruzei o Estado e visitei Oiapoque, onde há uma inscrição “aqui começa o Brasil”. Oiapoque é o lugar onde a Petrobras construiu um centro de apoio à fauna porque está mais próxima da área de exploração do petróleo. A cidade não tinha saneamento básico nem água corrente em todos os bairros. Vai passar por um grande crescimento, porque milhares se deslocarão para lá em busca de trabalho. Esse processo na Margem Equatorial servirá para colocarmos o oceano na agenda.

O Brasil está um pouco atrasado em relação à Austrália, por exemplo, na proteção à sua área costeira, ameaçada por inúmeros perigos, inclusive o da pesca predatória internacional. Demos um passo criando o Parque Nacional do Albardão, com um milhão de hectares, no extremo sul do País.

As terras raras são o grande tema econômico do momento. Não são tão raras assim, existem em abundância na China e no Brasil. Chamam-se raras porque, quando foram descobertas em Ytterby, na Suécia, ocorriam em minerais incomuns, difíceis de isolar um dos outros. No momento, americanos exploram as terras raras em Minaçu (Goiás), lugar que se celebrizou pela grande produção de amianto, algo que conseguimos proibir por lei, mas infelizmente ainda sobrevive por meio de artimanhas jurídicas. Empresas australianas estão se preparando para extrair terras raras em Poços de Caldas, Minas Gerais, sob vigilância e oposição de grande parte da cidade.

Vale a pena conhecer a pré-história das terras raras no Brasil. Há um livro da jornalista Tânia Malheiros que descreve a extração de areia monazítica no Brasil no período da 2.ª Guerra. A monazita contém tório, urânio, ilmenita, zirconita e terras raras. O tório e o urânio eram os metais mais procurados pelos americanos. Cientistas escapados do nazismo conseguiam separar os minerais na monazita, e contribuíram para a primeira instalação nuclear no Brasil, em Santo Amaro, bairro de São Paulo. Um dos donos da empresa era o poeta Augusto Frederico Schmidt.

Houve muita discussão nacional sobre a exportação dos minerais e, inclusive, se criou, para variar, uma CPI no Congresso. O governo acabou encampando a Orquiza e passou a tocar o negócio com o nome de Usam Nuclemon, subsidiária da holding Nuclebrás. O livro de Tânia Malheiros conta a história dos trabalhadores atingidos pela radiação. Começaram a trabalhar antes de Hiroshima e Nagasaki, antes do desastre de Goiânia, não tinham consciência do perigo para sua vida.

As terras raras passaram hoje a simbolizar o objeto de desejo da indústria civil e militar. Servem para ímãs, telas de smartphones e TV e também para equipamentos militares. A empresa que extrai terras raras em Goiás está para ser comprada por outra ligada ao Pentágono.

Por outro lado, a regulamentação brasileira foi aprovada na Câmara e adormece no Senado. A exploração está se dando à margem do Rio Tocantins, onde está a represa da Serra da Mesa, maior reservatório brasileiro em volume de água doce. Em Poços de Caldas as terras raras serão exploradas por australianos, sob vigilância crítica. No planalto de Poços de Caldas há uma unidade das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) que abriga entre 12 mil e 15 mil toneladas de resíduos radioativos, além de antigas estruturas de processamento de urânio. A extração de terras raras num lugar já traumatizado, sobretudo em Minas, que conheceu as tragédias de Mariana e Brumadinho, será delicada. Assim como será delicado explorar petróleo na Amazônia. Novos fronts numa luta já tão vasta.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br