terça-feira, 19 de maio de 2026

'A Direita e seu Longo Deserto', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 19 de maio de 2026 

A Direita e seu Longo Deserto 
Por Fernando Gabeira (In Blog)

Na semana do inferno astral de Flávio Bolsonaro, com opiniões abundantes no ar, meus pensamentos me levaram ao passado, às primeiras eleições que acompanhei. Lembro-me do Brigadeiro Eduardo Gomes e de como era mencionado: brigadeiro, bonito e solteiro.

Desde que me entendo por gente, a direita sempre perdeu eleições para candidatos populares. Por isso tenho visto tantos golpes, fracassados ou não. A redemocratização trouxe novidades. Collor foi uma delas. Passagem meteórica pelo governo. Bolsonaro, em 2018, foi outra. Passagem quase meteórica, pois não se reelegeu.

Em 2018, no auge da luta identitária, Bolsonaro conseguiu algo que a direita tradicional não conseguia ter: um grande eleitorado. Soube encontrar o caminho explorando sentimentos como machismo e homofobia. Nas mesmas circunstâncias, Carlos Lacerda não teria o talento adequado. Mais intelectual, o brilhante polemista teria sido incapaz de encarnar os sentimentos que Bolsonaro mobilizou.

A verdade é que a direita encontrou um caminho mais popular e trabalha com certa sensação de cansaço com os governos do período democrático, expressa também no antipetismo. Apesar de tudo isso, sempre afirmei, em artigos e comentários, que Lula é o favorito. Outro dia, em Nova York, agências americanas também afirmaram o favoritismo de Lula; nem citaram as candidaturas adversárias. Nossas previsões coincidem. Para mim, imerso na realidade brasileira, não é nenhuma vantagem.

A realidade com que trabalho tem orientado meus artigos. Dedico-me, em textos mais longos, a falar de programa de governo, numa esperança de que o ritmo do próximo mandato seja maior. A idade do presidente não é um fator tão importante quanto a possibilidade de buscar um gran finale, pois será seu último mandato.

Movimentos como a transição energética podem ser continuados em velocidade maior. Ela já existe, e o governo trabalha com a realidade das mudanças climáticas.

Uma aceitação maior da revolução digital na prática do governo seria importante para facilitar a vida de cidadãos e empresas. Além do mais, poderia tornar a máquina mais leve e eficaz. Racionalizar a máquina é um ponto importante não só para a reforma administrativa. Isso liberaria mais recursos e ajudaria a reduzir a pressão pelo equilíbrio fiscal.

É preciso fugir da redução de investimentos pela economia de gastos da própria máquina. Uma política fiscal severa e lógica abre uma brecha para o declínio de visões do tipo social-democrata e para a ascensão do populismo de direita. O próprio Lula reconheceu isso com muita lucidez em seu discurso de Barcelona, que, infelizmente, teve pouca repercussão por aqui.

Claro que modernizar a máquina estatal não basta. Será essencial uma reforma política que, entre outras coisas, corrija a aberração de o Congresso usar uma parte considerável do Orçamento.

A vida não será fácil a partir de 2027. Se não forem tomadas medidas audaciosas que revigorem a democracia, em 2030 o cansaço poderá trazer novidades. E não será razoável culpar quem clama por mudanças.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

domingo, 17 de maio de 2026

Quem é quem na direita brasileira: o guia completo

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 17  de maio de 2026

Quem é quem na direita brasileira: o guia completo

A direita brasileira pode ser dividida em pelo menos cinco grupos distintos. Omar Godoy para a Gazeta do Povo:

Na eleição presidencial de 2022, a direita recebeu mais votos do que em qualquer outra eleição da história do país. E perdeu.

Quatro anos depois, esse bloco político chega ao jogo com o mesmo potencial para vencer, porém mais dividido do que gostaria de admitir. Existem vários grupos fáceis de reconhecer — e sem um líder ou projeto capaz de organizar todos eles.

A pergunta já não é se a direita tem votos para ganhar. É como pode parar de desperdiçá-los brigando com ela mesma.

Mas a disputa de 2026 também pode definir o futuro do campo conservador no país.

Cada corrente vê saídas diferentes para os grandes fracassos do Brasil. Da violência fora de controle à economia travada, da infraestrutura precária à diplomacia aliada de ditaduras sanguinárias.

Algumas delas acreditam que a única saída é o confronto direto com o “sistema”. Outras apostam em gestão e pragmatismo. Há quem defenda ampliar o diálogo. E há quem nisso justamente o começo de todos os problemas.

A seguir, organizamos a direita brasileira em cinco grupos relativamente bem definidos. Todos eles, de alguma forma, tentam responder à mesma pergunta: o que fazer com o legado de Jair Bolsonaro — preso, inelegível, e ainda assim a figura de maior influência sobre o campo conservador. As respostas vão da lealdade incondicional a ele (ou a seu principal herdeiro, Flávio Bolsonaro) ou a rejeição absoluta do bolsonarismo.

Nenhuma dessas correntes está completamente certa ou errada. E nenhuma delas parece forte o suficiente para ganhar sozinha.

O bolsonarismo linha-dura

Para esse núcleo do bolsonarismo, o maior risco da direita não é perder para o PT, mas virar uma versão diluída de si mesma. Qualquer tentativa de moderação pode ser lida como um indício de fraqueza.

Hoje, esse grupo prega o apoio incondicional a Flávio Bolsonaro e permanece em estado constante de vigilância contra “traidores”, sejam eles reais ou imaginários.

Principais figuras

Flávio Bolsonaro

Flávio, escolhido candidato à Presidência pelo pai, hoje aparece em empate técnico com Lula em cenários de segundo turno. Ele tenta equilibrar duas necessidades opostas: manter a militância bolsonarista mobilizada, mas sem carregar toda a rejeição associada ao sobrenome Bolsonaro fora dela.

Eduardo Bolsonaro

Com o mandato de deputado federal cassado, o “filho 03” atua a partir dos EUA, onde articula uma pressão internacional sobre o Judiciário brasileiro com aliados ligados ao trumpismo. Mas sua força dentro do Brasil está na base bolsonarista. Eduardo é quem fala “na lata” o que outros pensam duas vezes antes de dizer.

Carlos Bolsonaro

O mais discreto da família, Carlos continua sendo um dos principais estrategistas digitais do grupo. Ele vai concorrer ao Senado por Santa Catarina, estado visto como um terreno mais seguro para o sobrenome Bolsonaro. Sua mudança para o Sul, no entanto, criou conflitos com lideranças do PL catarinense e levou à reorganização de algumas alianças locais.

Kim Paim

O influenciador baiano trabalha como uma espécie de fiscal de conduta dentro do núcleo mais duro do bolsonarismo. Da Austrália, onde vive, ele critica diariamente nomes da direita que acredita terem se afastado, em algum momento, das posições do grupo. Paim talvez não eleja candidatos, mas pode desgastar figuras em atrito com a própria base.

Paulo Figueiredo

Baseado nos EUA, o influenciador defende a tese de que um governo de direita deve ter uma identidade mais definida, e não um perfil técnico — uma crítica direta a Tarcísio de Freitas e a outros nomes do bloco mais voltados à gestão. Figueiredo também trabalha pela aproximação entre o bolsonarismo e a ala conservadora americana ligada a Donald Trump, ao lado de Eduardo Bolsonaro.

Allan dos Santos

Fundador do site Terça Livre, ele completa o núcleo do bolsonarismo “raiz” nos Estados Unidos. Sempre estridente, Allan é um dos nomes que mais contribuem para o ambiente de cobrança interna que marca esse grupo.

Outros nomes: Gustavo Gayer, Mário Frias, Filipe Barros, Gil Diniz.

O bolsonarismo crítico

Esta corrente é formada por figuras que têm em Jair Bolsonaro seu líder maior, mas que ao mesmo tempo são vistas como não-confiáveis pelos integrantes do grupo anterior.

Nesse grupo, a atuação é menos personalista e mais emocional, religiosa e baseada em valores. Há um forte apelo evangélico, com destaque para temas de família e costumes, além de uma presença feminina importante para mobilizar a base.

Algumas de suas lideranças buscam um tom mais moderado, para não se fechar dentro da própria bolha. E o antipetismo é o ponto onde todos se encontram, mas não o que define tudo.

Principais figuras

Nikolas Ferreira

Aos 29 anos, o deputado mineiro já é visto por muitos como um presidenciável natural para 2030, mas a regra de idade o deixa fora desse ciclo — ele só poderia concorrer à Presidência em 2034. Neste ano, o parlamentar deve disputar a reeleição à Câmara.

Nikolas virou, sozinho, a maior máquina de comunicação da direita. E, hoje em dia, conseguir alcance nas redes conta tanto quanto ter um partido forte por trás. Ele faz uma política voltada para as redes, que a esquerda ainda não conseguiu compreender direito. Talvez o nome mais influente desse grupo, ele andou batendo boca publicamente com Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e Kim Paim. Entretanto, Nikolas continua apoiando a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Michelle Bolsonaro

Michelle é hoje um dos nomes que mais carrega a ideia de continuidade da herança de Bolsonaro. No entanto, com a definição de Flávio como candidato a presidente pelo PL, ela saiu da disputa e passou a ser cotada para o Senado pelo Distrito Federal.

Mesmo fora da cabeça de chapa, a ex-primeira-dama continua sendo uma das figuras mais fortes do bolsonarismo, especialmente entre evangélicos e mulheres conservadoras. Ela já disse que o seu relacionamento com Eduardo e Carlos Bolsonaro não é dos melhores.

Tarcísio de Freitas

Até pouco tempo, Tarcísio era o presidenciável mais forte da direita. Só deixou de ser quando o entorno de Bolsonaro decidiu que a vaga seria de Flávio.

O governador de São Paulo acabou seguindo o caminho mais seguro: disputar a reeleição e preservar seu capital político para 2030. Governar o estado mais rico do país, longe da guerra de Brasília, pode acabar sendo uma vantagem para ele até lá.

Silas Malafaia

Malafaia não precisa disputar eleição para ter influência sobre ela, ainda que tenha defendido o nome de Michelle como candidata. Mesmo assim, seu apoio (ou rejeição) pode pesar muito mais do que qualquer pesquisa.

Damares Alves

A senadora é mais um símbolo do conservadorismo do que uma candidata para concorrer à Presidência no futuro. Sua rejeição fora da direita não a enfraquece dentro dela. Pelo contrário: principalmente para o eleitorado evangélico feminino, isso funciona como um sinal de autenticidade.

Sergio Moro

Depois de trocar o União Brasil pelo PL, Moro levou seu capital eleitoral anticorrupção para o projeto de Flávio Bolsonaro. Mas o senador, que lidera as pesquisas para o governo do Paraná, aparece como uma figura mais independente nesse grupo.

Rodrigo Constantino

Radicado nos EUA, o comentarista e influenciador defende um conservadorismo mais próximo do liberalismo econômico — posição que muitas vezes o coloca em atrito com setores mais fechados do bolsonarismo.

Outros nomes: Ana Campagnolo, Carol De Toni, Hamilton Mourão.

MBL / Partido Missão

O MBL (Movimento Brasil Livre) ajudou a impulsionar o antipetismo que abriu caminho para Jair Bolsonaro em 2018. O problema é que Bolsonaro acabou ocupando um espaço imaginado pelo próprio movimento.

O Partido Missão, oficializado pelo TSE em 2025, nasceu justamente dessa tentativa de construir uma direita alternativa ao bolsonarismo sem abandonar o antipetismo. Não é pouca coisa: formalizar um partido no Brasil exige 547 mil assinaturas — e o MBL conseguiu.

Mas o Missão de 2026 não é o MBL de 2015. O grupo ainda adota uma linguagem juvenil e “urbana”, porém se afastou do liberalismo econômico original e agora aposta pesado no tema da segurança pública (inspirado nas políticas de Nayib Bukele em El Salvador).

Principais figuras

Renan Santos

Renan é um dos fundadores do MBL e candidato presidencial do Missão. Com um discurso de rejeição frontal tanto a Lula quanto a Bolsonaro, ele vem crescendo entre os eleitores mais novos, mas esbarra num obstáculo básico: grande parte dos brasileiros simplesmente não sabe quem ele é.

Kim Kataguiri

Deputado federal desde os 23 anos, Kim é o principal quadro institucional do grupo. Ele representa a tentativa do Missão de parecer menos um movimento de internet e mais uma força uma política organizada.

Arthur do Val (“Mamãe Falei”)

Arthur teve o mandato de deputado estadual cassado depois do vazamento de áudios com falas suas consideradas controversas sobre mulheres ucranianas, em 2022. Ficou inelegível por oito anos, mas não sumiu. O eterno “Mamãe Falei” segue ativo nas redes e ganhou novos seguidores por vencer debates com opositores no YouTube.

Outros nomes: Guto Zacarias, Amanda Vettorazzo.

O Partido NOVO

O Novo nasceu prometendo ser diferente da velha política: sem dinheiro público, sem coligações e sem políticos com problemas na Justiça. Mas cresceu pouco e decidiu mudar.

A partir de 2018, o partido aceitou recursos públicos, fez alianças, flexibilizou regras internas e se aproximou do bolsonarismo. Ficou eleitoralmente mais competitivo — mas, para os críticos, deixou de lado o que o tornava inovador. A sigla ainda não decidiu se vai lançar candidato próprio à Presidência ou apoiar Flávio Bolsonaro.

Principais nomes

Romeu Zema

O ex-governador de Minas Gerais é o nome mais forte do NOVO nas urnas, e também o que mais ilustra o dilema do partido. Em 2026, ele trocou o perfil de gestor liberal e discreto por um discurso mais próximo do eleitor conservador tradicional, incluindo uma postura mais dura em relação ao STF.

Hoje Zema está cotado tanto para a Presidência pelo NOVO quanto para vice de Flávio Bolsonaro. Disputado pelos dois lados, sem talvez pertencer realmente a nenhum deles, o mineiro é o retrato de um momento de transição — para ele, seu partido e a própria direita brasileira. Na última semana, ele criticou Flávio Bolsonaro sobre sua ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro, o que pode ter reduzido as chances de uma possível aliança entre os dois candidatos.

Deltan Dallagnol

Herói da Lava Jato e pré-candidato ao Senado pelo Paraná, Deltan é um dos símbolos da mudança de rota do NOVO . A legenda, que antes não aceitava nomes com histórico judicial, acabou flexibilizando a regra para recebê-lo, depois da cassação de seu mandato de deputado pelo TSE em 2023.

A decisão dividiu opiniões, mas o que prevaleceu foi a projeção nacional e a trajetória anticorrupção do ex-procurador — que, para seus apoiadores, foi vítima de uma injustiça na perda do cargo.

Marcel van Hattem

O deputado gaúcho é a figura mais combativa do NOVO— e também uma das vozes mais contundentes da direita no geral. Em Brasília, ele aproximou o partido de pautas mais políticas, especialmente nas críticas ao STF.

Ricardo Salles

Ex-ministro de governo Bolsonaro e pré-candidato ao Senado por São Paulo, Salles virou uma das principais apostas da legenda para melhorar seu desempenho nas urnas. Salles não vem da tradição liberal clássica do NOVO, mas tem uma trajetória própria e reforça a abertura do partido para perfis mais variados dentro da direita. Tem batido de frente com o grupo de Eduardo Bolsonaro, a quem ele acusa de ter cedido aos interesses do Centrão.

Outro nomes: Eduardo Girão, Adriana Ventura.

A direita pragmática regional

Aqui aparece um dos dilemas da política brasileira mais recente: nomes que conseguem uma ótima avaliação em suas regiões nem sempre convertem isso em força nacional.

Administrar um estado exige negociação, acordos e entrega de resultados. Mas, nas disputas para presidente, parte dos eleitores tende a dar mais valor para posições firmes e discursos de enfrentamento.

No cenário atual, os principais nomes desse campo se destacam justamente por um conservadorismo moderado e um discurso voltado à gestão. Ainda assim, esses políticos devem ter um papel importante em 2026 — seja como concorrentes ou na formação de alianças no segundo turno (quando os apoios passam a pesar mais do que as próprias candidaturas).

Principais figuras

Ronaldo Caiado

O governador de Goiás é um nome forte do agronegócio e tem bons números para mostrar em uma área sensível: a da segurança pública. Sua candidatura presidencial pelo PSD de Gilberto Kassab parece pequena hoje, mas pode ganhar espaço conforme o cenário se desenrola até outubro (com possíveis desistências, rearranjos e outros fatos novos ao longo da campanha).

Ratinho Junior

O governador do Paraná, com alta aprovação regional, chegou a ser visto como um nome viável para a Presidência pelo mesmo PSD. Ele acabou recuando diante da pressão do bolsonarismo para fechar apoio a Flávio, mas não saiu enfraquecido dessa articulação.

Ratinho está à frente da bancada paranaense, uma das maiores do país, e tem influência em centenas de prefeituras. Esse capital político o mantém como uma peça importante em qualquer composição futura de governo.

Tereza Cristina

Ex-ministra da Agricultura de Bolsonaro, Tereza é uma das provas de que o governo anterior entregou resultados positivos em meio à crise trazida pela pandemia. No Senado, ela tem trânsito entre diferentes campos políticos e é vista como um nome com boa capacidade de articulação. Por isso mesmo, hoje é cotada como possível vice na chapa de Flávio Bolsonaro.

Outros nomes: Esperidião Amim, Jorginho Mello, ACM Neto

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 16 de maio de 2026

Clã Bolsonaro intoxica a direita

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 16  de maio de 2026

Clã Bolsonaro intoxica a direita

Escândalo de Flávio Bolsonaro mostra como é alto o custo de se manter atado a um clã que intoxica o campo conservador com escândalos, degradação moral e desprezo pela democracia. Editorial do Estadão:

A ruidosa revelação do pedido de dinheiro feito pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro presta dois serviços essenciais ao País: primeiro, como já afirmamos neste espaço, expõe a baixa estatura moral e política do primogênito de Jair Bolsonaro para ser o principal candidato da direita à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva; segundo, serve de advertência definitiva para o campo conservador e insta-o a se afastar da usina de escândalos que é, essencialmente, o bolsonarismo. Já passou da hora de romper a subordinação aos métodos do clã Bolsonaro.

Há anos, parte da direita trata o bolsonarismo como atalho eleitoral inevitável. Alega-se que Bolsonaro conserva votos, mobiliza militância e encarna a rejeição ao lulopetismo. Isso pode explicar a conveniência de curto prazo de políticos que orbitam o ex-presidente, mas não justifica a abdicação moral, programática e institucional de um campo político inteiro.

Quem se prende a Jair Bolsonaro e seus filhos não recebe apenas votos. Recebe também vícios, métodos e passivos. Recebe também a confusão entre público e privado, o culto familiar, a hostilidade às instituições, o desprezo pela liturgia democrática e a incapacidade de distinguir causa pública de negócio particular. O bolsonarismo é tóxico por natureza. Sua toxicidade é o seu próprio modo de existir.

A direita democrática tem diante de si uma oportunidade preciosa, que é permitir ao Brasil se libertar de Lula e suas ideias envelhecidas sem se submeter a Bolsonaro. O governo lulopetista oferece razões de sobra para ser derrotado. É anacrônico, estatizante, aparelhado e incapaz de apresentar uma agenda moderna de crescimento econômico, responsabilidade fiscal e eficiência administrativa. Mas a malaise lulopetista não absolve a direita de seus pecados nem autoriza a entrega do campo conservador a uma família incapaz de atravessar uma semana sem produzir um novo escândalo.

Convém à direita decidir se pretende ser força política adulta ou torcida organizada do ressentimento. Se deseja governar o País, terá de oferecer mais do que antipetismo: compromisso com a Constituição, respeito às instituições, responsabilidade fiscal, defesa da economia de mercado e padrões mínimos de decência. Nada disso floresce à sombra de Jair Bolsonaro e de seu sucessor imediato, Flávio Bolsonaro.

O bolsonarismo tenta vender a fantasia de que qualquer crítica ao clã favorece Lula. É chantagem. O que favorece Lula é a incapacidade da direita de se desintoxicar do bolsonarismo. Enquanto o campo conservador permanecer preso a personagens marcados por golpismo, escândalos e negócios mal explicados, o petismo explorará o medo de alternativa ainda pior. Bolsonaro é, nesse sentido, um seguro de vida para Lula.

A ruína política de Bolsonaro poderia ter sido o ponto de partida para a reconstrução da direita, abrindo espaço para lideranças comprometidas com reformas e moderação. Em vez disso, muitos preferiram ajoelhar-se diante do espólio bolsonarista, como se o patrimônio eleitoral do ex-presidente fosse transmissível por sangue. O resultado é Flávio Bolsonaro – que não tem estatura nem para ser poste do pai golpista, que dirá presidente da República.

Não há futuro respeitável enquanto a direita tratar a família Bolsonaro como destino. O conservadorismo democrático não precisa de herdeiros ungidos por sobrenome. Precisa de partidos sérios, lideranças preparadas, programa consistente e coragem para romper com aquilo que o degrada. A ruptura não será indolor, mas pior é seguir arrastando o peso morto de um movimento que sequestrou a direita e a associou ao que há de mais rebaixado na vida pública. Deve-se perguntar quantos escândalos mais serão necessários para reconhecer essa verdade.

Eis a chance definitiva da direita: assumir seu lugar numa democracia madura, como força reformista, responsável e comprometida com a ordem constitucional, ou continuar servindo de biombo para uma família que transformou o antipetismo em negócio político. Se quiser voltar a merecer a confiança dos brasileiros, precisa romper com o bolsonarismo. Fora disso é tornar-se cúmplice de um desastre.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

'Os Caminhos de Sergipe', por Antonio Samarone

Imagem compartilhada do Facebook/Valmir de Francisquinho e 
postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo.

Artigo compartilhado do site do JORNAL DO DIA SE, de 16 de maio de 2026

Os Caminhos de Sergipe
Por Antonio Samarone *

O historiador Wanderlei Menezes, me cobrou uma explicação: a que se deve essa popularidade de Valmir de Francisquinho?

Convenhamos, talvez não exista uma resposta, ou existam várias.

Ele provocou, releia Maquiavel, vá aos clássicos. Eu fui…

Para Maquiavel, virtù e fortuna são conceitos centrais e complementares para o sucesso político. A virtù é a habilidade, inteligência, astúcia e capacidade de ação do governante, enquanto a fortuna representa a sorte, o acaso ou circunstâncias imprevisíveis. A virtù permite ao político dominar ou adaptar-se à fortuna para manter o poder.

Valmir apreendeu a política na escola itabaianense, onde nada é fácil. A disputa é acirrada. O eleitor precisa ser conquistado, corpo a corpo, porta a porta, olho no olho, até na intimidade. Valmir e o povo se entendem, mesmo em silêncio, com um sorriso, um abraço. Essa é a virtú de Valmir.

Segundo os modernos marqueteiros: isso acabou! A virtú atual é usar bem as redes sociais, memes, fakes, algoritmos. Os políticos tradicionais descem mais fundo: a virtú é dinheiro, para comprar o voto. O resto é conversa fiada.

Sobre a momento político:

Sergipe vive uma carência de grandes líderes. Entre 1982 e 2013, Sergipe foi governado por 4 políticos (João, Albano, Valadares e Déda). Não deixaram herdeiros políticos. Com a morte precoce de Marcelo Déda, abriu-se um vazio, um vácuo político, até agora não preenchido.

O atual grupo político, governa Sergipe há 40 anos. Entraram com Jackson, na Prefeitura do Aracaju, em 1986. Carregavam a bandeira de combate as oligarquias. Tornaram-se oligarquias palacianas. O Estado entrou em decadência.

A eleição se aproxima e eles não têm projetos, nem líderes, nem a confiança do Povo. A política não suporta vácuos. Essa é fortuna (sorte) de Valmir. O cavalo está selado!

Pela primeira vez na história de Sergipe, o projeto político vem do interior. O sucesso na gestão de Itabaiana, credenciou Valmir como um bom gestor. Itabaiana é uma locomotiva econômica bem-sucedida. Os sergipanos enxergam.

Enquanto o estado definha, se apequena, a economia desaba, os serviços públicos não funcionam (os corredores do Hospital João Alves, são uma prova), enquanto o povo corre atrás do carro-pipa, o governo oferece festas (circo).

O economista sênior da UFS, Dr. Ricardo Lacerda, acaba de publicar “A economia de Sergipe no primeiro quarto do século XXI”. A propaganda foi desmontada. Sergipe patina economicamente. Nenhum projeto viável, tudo cosmético. Sergipe afundou.

O doutor Lacerda não é nenhum esquerdista, nem faz oposição ao governo. Pelo contrário, o doutor é assessor palaciano desde o governo Déda. Homem de confiança do poder. Entretanto, o doutor Lacerda é um cientista, não podia falsear a realidade.

Meu amigo Wanderlei, é essa a minha explicação para a popularidade de Valmir.

Se dependesse somente do voto popular, a eleição estava decidida. Contudo, o poder serve a muita gente. Esses, lutarão com todas as forças, lícitas e ilícitas, para não deixarem os mimos e as sinecuras.

Já começaram o vale-tudo. Pegaram uma fala de Valmir, tiraram do contexto, e saíram a bradar aos quatro cantos: Valmir é machista! Valmir não quer mulher em cargos públicos! Valmir odeia as mulheres! Valmir é um feminicida!

O que Valmir disse na entrevista foi que a sua esposa não seria candidata.

Não importa que as mulheres sejam maioria no secretariado de Itabaiana, não importa que a vice seja mulher, não importa que o seu maior apoio, seja a Prefeita do Aracaju, uma mulher.

Numa era da pós-verdade, o fake tem mais força que os fatos. Não importa, vão botar defeito em Valmir, mesmo conscientes que estão mentindo. As redes sociais são abertas, cada um fala o que quer.

Na política, como na guerra, quem primeiro sofre é a verdade. Quem acha que a elite sergipana será derrotada com facilidade é um tolo.

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* Antonio Samarone, médico sanitarista

Texto reproduzido do site: jornaldodiase com br

Boletim da Manhã Prof. Villa, de 15 de maio de 2026

 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O filme de terror de Flávio Bolsonaro

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 15  de maio de 2026

O filme de terror de Flávio Bolsonaro

O caso da relação de Flávio com Vorcaro expõe a baixa estatura moral do pré-candidato e torna ainda mais urgente que a direita democrática se mobilize para se libertar do bolsonarismo. Editorial do Estadão:

O primeiro teste de estresse da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência terminou mal. A revelação de que o primogênito de Jair Bolsonaro cobrou do banqueiro Daniel Vorcaro dinheiro para alegadamente bancar um filme sobre a trajetória do pai fez mais do que expor o despreparo político do indigitado: escancarou a sua baixa estatura moral, deficiência que o torna absolutamente indigno de ser presidente da República.

Esse episódio torna ainda mais urgente que a direita democrática se empenhe em construir uma alternativa conservadora séria, comprometida com a Constituição e com padrões mínimos de decência, para disputar a Presidência e impedir que o petista Luiz Inácio Lula da Silva ganhe mais quatro anos para arruinar o País. Para isso, a direita não pode seguir a reboque de um desqualificado como Jair Bolsonaro e de seu clã, cuja trajetória política é marcada desde sempre por sua vocação antidemocrática, por sucessivos escândalos, pela confusão deliberada entre público e privado e pela imoralidade.

Graças às conversas reveladas pelo site Intercept Brasil, confirmadas pelo Estadão, essa depravação fica ainda mais explícita. Nelas, constata-se o grau de proximidade entre um senador da República, hoje com a pretensão de governar o Brasil, e um banqueiro que já naquela época era suspeito de ser o protagonista do maior crime já cometido contra o sistema financeiro nacional.

De acordo com os documentos da Polícia Federal (PF) publicados pelo site, Flávio Bolsonaro negociou diretamente com Vorcaro uma quantia equivalente a US$ 24 milhões para a produção de Dark Horse, a tal cinebiografia do ex-presidente, dos quais US$ 10 milhões já teriam sido pagos ao longo de 2025.

Primeiro, Flávio tentou negar. Questionado por jornalistas, disse que se tratava de “mentira”. Depois, quando as provas vieram à luz, o senador teve de reconhecer que pediu mesmo o dinheiro, mas enfatizou que se tratava de uma relação “privada”, sem envolver recursos públicos.

Ora, pouco importa se o dinheiro era privado ou público. O busílis é a origem dos recursos. A fortuna do sr. Vorcaro não advém do seu sucesso empresarial em atividades legais. Segundo a PF, o banqueiro construiu patrimônio por meio de fraudes bancárias, algumas das quais envolvendo fundos de previdência de servidores públicos em diversos Estados e municípios, além do Banco de Brasília (BRB). Em paralelo, Vorcaro construiu uma rede de influência nos Três Poderes, ao que parece a peso de ouro. Tudo isso já era sabido na época da conversa entre os dois.

O problema central aqui, portanto, é outro. Flávio Bolsonaro não pode ser tratado como um cidadão qualquer pedindo ajuda a um financiador qualquer. Era um senador com pretensões presidenciais esperando receber milhões de dólares de um notório escroque, cuja prisão aconteceria no dia seguinte à tal conversa.

Ademais, constrange o tratamento fraterno que Flávio Bolsonaro dispensa a Vorcaro. “Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente”, disse o senador. A frase não deixa margem para dúvidas sobre a relação de proximidade, confiança e eventual “gratidão política”, chamemos assim, envolvidas naquela negociação.

Para piorar, a mambembe explicação do entorno bolsonarista só aprofundou as suspeitas sobre as reais intenções de Flávio Bolsonaro. O produtor do filme, o deputado Mário Frias (PL-SP), afirmou textualmente que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”. Ora, se não havia dinheiro do banqueiro na produção, para onde iria a dinheirama cobrada pelo senador?

Não cabe a este jornal antecipar julgamentos. Mas tampouco se pode condenar quem acredite que a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro envolva suspeitas de lavagem de dinheiro, formação de caixa dois ou enriquecimento ilícito. Um pré-candidato à Presidência envolvido em transações desse jaez tem o dever de dar explicações convincentes ao País, o que Flávio Bolsonaro ainda não fez. Por ora, preferiu mentir, atacar a imprensa e zombar da inteligência alheia.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Susane Vidal, sinalizando entrada na política

Susane Vidal: “agora é seguir. Parar não é opção. 
Retroceder jamais. Tem muita coisa pela frente”

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 15 de Mai de 2026

“O propósito agora é representar o que o sergipano de fato quer”, diz Susane Vidal, sinalizando entrada na política

Por Jozailto Lima * (Coluna Aparte)

“Porque como jornalista a gente tem um limite, né? Agora eu posso fazer mais. Agora eu posso de fato representar o sergipano”. Ao que tudo - e agora até ela mesma indica -, Susane Vidal vai de fato entrar para a política.

Em mais um vídeo publicado em suas redes sociais, dessa vez na noite desta quinta-feira, 14, a jornalista e agora ex-apresentadora do noticioso SE1 anunciou sua saída da TV Sergipe, sua casa por quase 30 anos.

Quem acompanha o perfil da apresentadora nas redes já notou que o tom mais formal e reservado vem dando lugar a vídeos mais desenvoltos e expositivos, mais um alerta da mudança de rumo da jornalista.

“As pessoas se acostumaram a me ver na TV. Eu me acostumei a ver as pessoas através da câmera também”, diz ela reforçando a imagem conhecida pelos sergipanos há décadas.

“Agora eu quero estar realmente dentro da casa das pessoas, não apenas pelo aparelho de TV. Eu quero entrar pela porta da frente. Eu quero conversar e também dar oportunidade às pessoas de me conhecerem”, diz ela.

Filiada ao partido Republicanos desde o mês passado, Susane não dava declarações sobre seu futuro por ainda ter contrato com a emissora afiliada à Rede Globo, que proíbe veementemente a ligação entre jornalismo e políticos.

Agora de saída da TV Sergipe, a jornalista mostra um tom de conversa e sinaliza um “novo jeito” de conhecer as pessoas. “Noticiar apenas já não basta, agora o propósito é justamente fazer algo maior representar esses anseios. O propósito agora é representar o que o Sergipano de fato quer”, diz ela.

“Eu quero conhecer essas pessoas que passaram anos e anos me assistindo. Eu não sou de casa? Permita entrar em sua casa”, diz a jornalista.

O possível cargo de disputa e quando essa pré-candidatura será lançada ainda não foram revelados, mas pode-se dizer que o status de pré-candidata passou de possível para provável.

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* Jozailto Lima - É jornalista há 43 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Acabou, Flávio? | Ponto de Partida, com Pedro Dória

 

Site Intercept revelou que Flávio Bolsonaro negociou R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, pra bancar o filme biográfico do pai. 

E que cobrou cada parcela, por áudio, por WhatsApp. 

Esse é o tipo de coisa que decide eleição...

terça-feira, 12 de maio de 2026

'É melhor não se iludir com a delação de Vorcaro', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 12 de maio de 2026 

É melhor não se iludir com a delação de Vorcaro 
Por Fernando Gabeira (in blog)

Não sou dessas pessoas que o tempo inteiro dizem: “Vai acabar em pizza, vai acabar em pizza.” Mas confesso que estou um pouco cético sobre a delação de Daniel Vorcaro, o homem que iluminaria toda a escuridão da República. Vorcaro não entende a delação como fim de carreira. Faz planos. Para começar, não entregará todo o dinheiro que amealhou. Precisa de recursos para recomeçar adiante. Há muita coisa que não poderá esconder, pois o conjunto de mensagens no celular revela seu movimento financeiro. Mas aquilo que não está a descoberto, ele deve considerar um fundo de sobrevivência para a nova etapa, pois certamente não conta com um longo período de prisão.

Outro ponto vulnerável na delação de Vorcaro são os próprios advogados. Ele é apenas um caso fortuito, e provavelmente muito lucrativo, para os advogados. Mas nada se compara à relação estratégica e permanente que precisam manter com o STF. Quando se trata de apontar as armas para a Corte, faltará pólvora ou, no mínimo, ela estará molhada.

Detesto a expressão “acochambrar”. Para coisas feias, palavras feias. Na semana passada, um ministro do TSE, aliado de Alexandre de Moraes, Floriano Marques, encontrou-se com o advogado de Vorcaro num hotel de Brasília. O encontro se deu um dia depois da apresentação da proposta de delação. O ministro admite que conversou superficialmente sobre a delação e comentou:

— Puxa vida, que coisa!

Ninguém pode provar que a conversa não foi superficial. Marques foi indicado por Lula, por sugestão de Moraes. São colegas na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Por uma tentativa de conhecer a delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, o general Braga Netto foi para o espaço. O advogado de Vorcaro sabe disso. Por coincidência, Braga Netto também é seu cliente. O ministro e o advogado são amigos. Quem não é amigo, conhecido, camarada? “Meu caro, que prazer, vamos tomar algo para combater essa secura de Brasília.”

A Polícia Federal trabalha firme e com competência. Mas será difícil romper esse cipoal de relações e favores. No caso do senador Ciro Nogueira, houve indícios, casa, mesada, cartão e um ato de ofício: a emenda apresentada por Ciro, subindo de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a garantia de ressarcimento aos credores de um banco quebrado. Vorcaro saudou essa emenda nas conversas com a namorada. Possivelmente, outros amigos de Vorcaro na política terão dado bandeira e cairão também. Mas o núcleo mais duro, que envolve ministros do Supremo, talvez não seja tocado.

Quem quer brigar com o Supremo? A qualquer momento, nosso destino pode estar nas mãos deles. Se julgam e condenam, apelar para quem? Você fica com a corda no pescoço, com a espada na cabeça e com uma parte da esquerda jurando que você é de extrema direita.

No entanto será preciso reclamar. O caso Master não pode dar em pizza. Haja farinha, molho de tomate e orégano para cobrir 8 milhões de quilômetros quadrados. Mas é preciso não ter grandes ilusões. O Brasil não é fácil.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

segunda-feira, 11 de maio de 2026

O preço de um senador

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10  de maio de 2026

O preço de um senador

PF descobre relação financeira entre Vorcaro e Ciro Nogueira e pode esvaziar delação do banqueiro. Wilson Lima para a Crusoé:

A operação da Polícia Federal (PF) desta quinta, 7, mostrou quanto custa um senador da República. E o valor não é dos mais modestos.

Mensagens interceptadas pela PF, e que resultaram na quinta fase da Operação Compliance Zero, revelaram que Daniel Vorcaro pagava entre 300 mil e 500 mil reais mensais para o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e um dos principais expoentes do Centrão, para que o banqueiro tivesse algum tipo de interlocução no Congresso.

Na fase anterior, a PF já havia mostrado quanto custa o dono de um banco público.

Para comprar o presidente do BRB, Paul Henrique Costa, foram seis apartamentos de luxo, avaliados em 140 milhões de reais.

Segundo as investigações, Ciro Nogueira apresentou uma emenda à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) de autonomia do Banco Central que aumentava o valor do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de 250 mil reais para 1 milhão de reais.

A emenda — mais precisamente um jabuti no jargão do Congresso Nacional, já que o texto versava sobre algo que não tinha a menor relação com a proposta originária — beneficiava diretamente o banco de Daniel Vorcaro e foi elaborada pela assessoria do banqueiro, de acordo com a PF.

Ainda segundo os investigadores, o tal jabuti foi entregue na casa de Ciro Nogueira em um envelope. Ou seja: um jabuti delivery.

Depois de receber o texto em casa, Ciro protocolou a emenda na PEC e, conforme a PF, teria atuado para que ela fosse aprovada.

A própria justificativa da proposta chama a atenção porque reafirma o discurso do próprio Vorcaro na época.

O senador afirmou, no ato da apresentação da emenda, que ela tinha como objetivo acabar com “o monopólio dos serviços para as instituições mais tradicionais e maiores”.

Exatamente a mesma ladainha contada por Vorcaro ao presidente Lula quando os dois tiveram, em 4 de dezembro de 2024, um encontro intermediado pelo ex-ministro Guido Mantega.

Em troca da defesa do Master no Congresso, Ciro, de acordo com a PF, teve despesas pessoais custeadas pelo banqueiro e ainda recebeu uma mesada que começou em 300 mil reais e pode ter chegado a 500 mil reais.

Ciro Nogueira Comércio de Motocicletas

O esquema chama a atenção por ser absolutamente infantil e mambembe. Algo inacreditável.

Segundo a PF, os recursos eram pagos a Ciro por meio da BRGD S.A., empresa que tinha Oscar Vorcaro, tio de Daniel Vorcaro, como diretor. Os repasses foram feitos para a CNLF Empreendimentos Imobiliários, empresa controlada por Ciro.

A CNLF — exatamente as iniciais do senador, Ciro Nogueira Lima Filho — não tinha empregados e funcionava, no papel, no mesmo endereço de uma loja de venda de motos no Piauí: a Ciro Nogueira Comércio de Motocicletas LTDA. Um amadorismo que choca.

Em 30 de junho do ano passado, o próprio Vorcaro questiona sobre os pagamentos a Ciro Nogueira e fala sobre atrasos nos repasses. “Cara eu no meio dessa guerra atrasou dois meses ciro?”, escreveu o banqueiro ao seu primo, Felipe, apontado como um de seus operadores financeiros.

“Vou ver se dou um jeito aqui.. Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?”, responde Felipe a Vorcaro.

Segundo a PF, para dar fins de legalidade aos repasses, eles recorreram a uma negociação com participação nos lucros de um grupo econômico controlado por Vorcaro, mais especificamente a Green Investimentos.

Para conseguir fazer isso, conforme as investigações da Polícia Federal, a CNLF teria adquirido um terço da participação da Green Investimentos. O administrador do fundo atribuía um valor de 43,5 milhões de reais em todas as ações da Green. A empresa ligada a Ciro adquiriu 30% delas.

Em teoria, elas valeriam algo em torno de 13 milhões de reais, mas o grupo do parlamentar conseguiu comprá-las pela bagatela de 1 milhão de reais.

“Considerando que os 30% atribuídos à empresa ligada ao senador Ciro Nogueira corresponderiam, proporcionalmente, ao montante de aproximadamente 720 mil reais, verifica-se que, em um único exercício, tal valor se aproxima do montante integral supostamente investido, indicando que, em curto espaço de tempo, o investimento inicial estaria praticamente recuperado”, afirma a Polícia Federal na representação contra Nogueira.

Park Hyatt

A mesada foi apenas um dos absurdos flagrados pela Polícia Federal. Além disso, Vorcaro destinou um cartão de crédito para o parlamentar, deixou um imóvel para uso do presidente do PP e ainda custeou hospedagens, para ele e uma acompanhante, no Park Hyatt, um dos hotéis mais caros de Nova York, nas proximidades do Central Park.

A diária lá custa módicos 10 mil reais em um quarto econômico. Os mais caros podem chegar a 130 mil reais.

“Só uma pergunta rápida… eh pros meninos continuarem pagando conta dos restaurantes do Ciro/Flávia até Sábado?”, disse, em mensagem, Léo Serrano, uma das pessoas que intermediavam as operações de Vorcaro. “Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths”, respondeu o banqueiro, conforme a PF, em referência a uma das ilhas mais sofisticadas e exclusivas do Caribe.

Kakay

A defesa de Ciro Nogueira nega qualquer ilegalidade nas ações de Ciro. Para o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, a falta de decoro está na falta de investigação da PF, não nas ações do parlamentar.

“A defesa pondera que medidas investigativas graves e invasivas tomadas com base em mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros, podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade, tema que deverá ser enfrentado tecnicamente pelas Cortes Superiores muito em breve”, declarou ele.

Delação premiada

Investigadores da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR) também passaram a fazer ponderações sobre Vorcaro. Mais especificamente, sobre a proposta de delação premiada apresentada pelo banqueiro nesta semana.

Vorcaro entregou sua proposta na quarta-feira e esperava concluir a negociação em dois meses. O problema é que o banqueiro omitiu, logo na largada, suas relações com Ciro Nogueira e o pagamento da mesada ao parlamentar.

A proposta que já não empolgava os agentes agora pode morrer no nascedouro.

Conforme investigadores ouvidos por Crusoé, a suspeita é que Vorcaro tenha “selecionado” seus delatados ou as histórias que gostaria de contar.

A má notícia para o banqueiro é que a PF parece estar anos-luz à frente dele e, ao avanço de cada fase das investigações, a contribuição de Vorcaro tem se tornado menos útil para os policiais.

Por essa razão, após a operação desta semana, alguns agentes passaram a defender que Vorcaro volte para a Penitenciária da Papuda e encerre, de vez, as tratativas para a formalização de um acordo de delação.

Bancada Master

A suspeita da PF é que Ciro Nogueira, com sua influência, possa ter ajudado Vorcaro a obter outras vantagens no Congresso que vão além da apresentação de uma emenda a uma PEC.

Uma ala da PF suspeita que parte do pagamento de até 500 mil a Nogueira possa ter sido direcionado a outros integrantes do Centrão e isso, por consequência, teria garantido o custeio de alguns integrantes da Bancada Master no Congresso.

As investigações sobre o elo político do esquema Master estão apenas no início. E, pelo visto, os órgãos policiais não dependem mais da boa vontade de Vorcaro. Uma má notícia para o banqueiro; uma boa notícia para o Brasil.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Vorcaro, o grande sociólogo

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10  de maio de 2026

Vorcaro, o grande sociólogo

Quem sabe Vorcaro seja a parte menor disso tudo; o que deveria nos preocupar é o largo estamento de poder que permitiu sua ascensão. Fernando Schüler para o Estadão:

“Saiu exatamente como mandei”, teria dito Vorcaro, animado, quando viu publicada a “emenda Master”, apresentada por Ciro Nogueira no Congresso e que aumentaria o limite do FGC para um milhão de reais. É difícil exagerar na gravidade de um fato como este. Um senador faz, a pedido de um banco, uma proposta inteiramente estapafúrdia, com potencial de ferir gravemente o sistema de crédito no país. A revelação não é lá uma grande novidade, mas nos leva a uma constatação bastante constrangedora: Vorcaro não é apenas um banqueiro fraudador, mas um fenômeno sociológico. Seus tentáculos alcançaram os três Poderes da República, com relativo sucesso. E isto não é pouca coisa.

Os fatos são conhecidos. Além do braço legislativo, há o Banco Central. Um diretor com mandato, em uma instituição federal independente, além de um chefe de supervisão bancária. Na esfera do Executivo, havia um ex-ministro fazendo “aproximações”. Chegando, sem maiores dificuldades, a encontros fora da agenda com o presidente da República. No Supremo, impressiona a incrível proximidade. Os charutos, as viagens, o whisky Macallan, os voos de jatinho, a compra das ações, a contratação de familiares. Tudo que, por alguma razão, vamos considerando “aceitável”, à medida que o tempo vai passando, a roda da política vai girando e a indignação difusa vai ganhando certo ar de cansaço.

Não acho que Vorcaro tenha lido nenhum de nossos clássicos, mas parece ter compreendido bastante bem nossa velha tradição patrimonialista. Percebeu a zona cinzenta em que o público e o privado se encontram. O reino dos eventos de luxo, mundo afora, reunindo políticos, ministros e empresários. Espaços em que se pode fazer “aproximações” e tudo se resolve, entre um jantar e outro, porque isto faz parte do “jogo”, como um dia escutei de um animado figurão.

Quem sabe Vorcaro tenha sido uma versão algo grotesca de nosso “homem cordial”. O tipo que sabe que o poder é vulnerável. Sabe que a “frieza da regra” não é exatamente o nosso forte. E que o melhor é apostar na “pessoalidade”. No seu caso, uma pessoalidade paga a preço de ouro, envolvendo festas em Trancoso, contratos milionários e noites de charme em Campos do Jordão. Seu erro, sabe-se lá, talvez tenha sido confiar demais em sua própria rede de poder. Sua frase-síntese, pendurada no ar: “E aí, conseguiu bloquear?”. Um dia, quem sabe, vamos entender o que aquilo significa, exatamente. Talvez ele tenha alimentado expectativas além da conta. Confiado que aquela proximidade adquirida pudesse desbloquear alguma coisa na estrutura do poder. Mas acabou no xilindró. Ou quem sabe tudo isso ainda será devidamente “resolvido”, como manda nossa boa tradição, no tempo certo.

O processo como um todo se aproxima do momento crítico. Se fizer uma delação “controlada”, dizendo não muito mais do que os investigadores já sabem, é possível que ela seja descartada. Mas, se fizer uma delação completa, que atinja o núcleo do poder, a pergunta é simples: isto seria aceito?

O ex-ministro Pedro Parente escreveu um ótimo artigo, por estes dias, observando como muita gente boa e “respeitável”, país afora, topou atuar junto com Vorcaro. Vender CDBs a 130%, prestar serviços de “consultoria jurídica e institucional” para um banco fraudulento, sem fazer perguntas inconvenientes. Parente diz esperar que nossas autoridades tratem com rigor dos “vilões”. De minha parte, sou menos otimista. Como já escrevi algumas vezes, há um sistema de poder bem estruturado em Brasília. E sua essência é a possibilidade de fazer exatamente o que não deveria ser feito em uma República: o uso do poder para ajustar a regra do jogo.

Ainda esta semana, escutava um ministro influente sugerindo, sem muito constrangimento, que um certo “nós” já havia definido que é preciso dois terços de votos, no Senado, para abrir um processo de impeachment contra ministros do Supremo. É só ler a regra geral estabelecida no art. 47 da Constituição, e a legislação pertinente, para saber que o quórum exigido é de maioria simples. E que dois terços é para uma eventual condenação. É só um detalhe. Como quase tudo, é só um detalhe. Nossos donos do poder fazem isso pela razão simples de que podem fazer. Porque têm apoio no mundo jurídico e intelectual. Porque alimentamos uma visão seletiva sobre a ética pública. E por aí vamos levando.

De todo modo, é preciso prestar atenção. Vorcaro não deixa de ser, por curioso que pareça, o peixe pequeno de toda esta história. O teste real é se a ampla esfera de poder em que ele ancorou sua ascensão meteórica, no coração de nossa república patrimonialista, sairá ou não intacta disso tudo. É esta, lá no fundo, a pergunta que devemos nos fazer.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 9 de maio de 2026

'O Prelúdio de uma Grande Campanha', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 8 de maio de 2026 

O Prelúdio de uma Grande Campanha 
Por Fernando Gabeira (In Blog)

A campanha mal começou, mas recebo constantemente mensagens de amigos sobre o futuro imediato. Não sei se têm muitos votos, sei apenas que são exigentes e esperam muito do futuro presidente. Acham que sem uma reforma política e institucional, não vale a pena a vitória. Só o eleito, com a legitimidade dos votos, poderia liderar algo assim no Brasil. Pensam numa reforma dos Três Poderes. O Executivo precisa ser responsabilizado, o Legislativo precisa se livrar do fisiologismo medular e perder o controle do Orçamento, que usa como quer. O Judiciário está tão carente de reformas que as ideias estão surgindo do interior da instituição.

Será que algum candidato vai colocar a reforma política-institucional no topo de sua agenda? É uma agenda que pode ser confundida com uma crítica ao sistema, mas, na verdade, pode renová-lo como esperam tantos, apesar de parecer antisistema.

Algumas pessoas que ouço acham que está na hora de aproveitar a revolução digital e digitalizar o serviço público com o objetivo de melhorar a vida do cidadão. Não se trata de modernização pela tecnologia apenas, mas orientar o Estado para uma nova relação com a sociedade: menos burocracia e maior entrega.

Há também os que pregam um equilíbrio fiscal sem ambiguidades. Acham que isso não é um dogma liberal, mas a condição básica para qualquer política de longo prazo. O problema aqui é mais delicado. O fracasso da social-democracia é atribuído exatamente às tentativas drásticas de ajuste fiscal que geram espaço para o populismo de direita.

Lula abordou esse tema com muita sinceridade no discurso de Barcelona. Não tenho saída para isso, mas creio que é preciso, pelo menos, qualificar os gastos. Desde minha passagem pela Câmara, era evidente que a máquina estatal poderia economizar sem prejuízo da eficácia.

Um dos pontos mais defendidos numa visão econômica é a necessidade de colocar a produtividade como prioridade nacional, para fazer o Brasil crescer de forma sustentada. E solucionar mais facilmente problemas como a árdua escala de trabalho.

Um consenso é o peso dos trabalhadores por conta própria, que operam como empreendedores. Não podem ser enquadrados pelas categorias do passado e precisam de políticas de proteção desvinculadas do modelo clássico de emprego. Precisam de uma formalização progressiva e flexível.

Outro consenso, pelo menos entre os que não idolatram o petróleo, é sobre a necessidade da transição energética. Isso está sendo encaminhado no governo atual. A continuidade dos esforços poderia inspirar uma reindustrialização verde, assim como a exportação de energia limpa.

Essas são demandas de pessoas mais intelectualizadas. Suas aspirações se encontram num ponto com grande parte de pessoas simples: segurança pública. Nunca o tema ocupou tanto destaque na agenda nacional. Nunca foi o topo da lista de assuntos que um presidente do Brasil discutiu com um presidente dos EUA.

O problema é como isso se desdobra em política pública com eficácia. Alguns instrumentos legais, como a Lei Antifacção e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública foram pensados para enfocar o problema.

A campanha já apresenta um grande problema conceitual. Há quem queira definir as facções criminosas como grupos terroristas. Isso entra em choque com a legislação brasileira, que vê terrorismo em quem pratica a violência com objetivos políticos, e não apenas para auferir lucros como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

A classificação de terrorismo poderia abrir caminho para uma intervenção norte-americana. Aqui está também uma grande diferença nas principais campanhas. Há uma visão de soberania nacional que não tolera a ideia de uma intervenção estrangeira. Há uma visão deslumbrada com Trump e os EUA que parece não se importar com isso.

Aí está uma questão interessante ressaltada pelo tarifaço. As pessoas no Brasil têm noção de soberania nacional e apoiam políticas que a defendam, sem bravatas, com maturidade. Isso são apenas algumas impressões que recolhi nessa fase inicial da campanha, quando ainda não houve debates ou mesmo entrevistas mais longas sobre a posição dos candidatos.

Por enquanto, o quadro está ocupado com pesquisas e algumas escaramuças. Mas esses amigos que trocam ideias sobre a campanha vão se sentir vitoriosos se a população se puser a pensar sobre o País, quando um homem simples puder ter sua posição sobre o Supremo. Seus ministros devem ter mandatos ou ficam até se aposentarem? Esse é um problema, por exemplo, que ainda não chegou à população. O Congresso tem direito de usar uma parte tão grande do Orçamento se não governa o País?

Quem conseguir disseminar todas as questões já fez a campanha à sua maneira, sem necessariamente pedir votos na esquina.

O problema agora é recolher todas as dúvidas, num País imenso e cheio de problemas e esperanças. Depois, veremos os candidatos percorrendo a imensidão, respondendo às questões e possivelmente trazendo novas.

A campanha será um curso intensivo para quem quer conhecer o País.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

terça-feira, 5 de maio de 2026

DOMINGUEIRA > Por Narciso Machado

Legenda da foto: Fabio Mitidieri e Valmir de Francisquinho

Publicação compartilhada do site FAN F1, de 3 de maio de 2026 

Opinião não é crime: entre Mitidieri e Valmir, eu fico com a realidade

Domingueira, por Narcizo Machado

Permitam-me trazer este texto cem por cento em primeira pessoa para refletir sobre algo grave que sempre permeou o trabalho da imprensa, mas que tem uma gravidade maior nos tempos atuais e que, por trás, resguarda o viés do desrespeito à liberdade de expressão.

Na semana passada, no auge da crise com a Iguá e diante do suposto boicote, lancei mão da opinião de que o fato isolado não apagava os problemas anteriores. A oposição se deleitou e compartilhou.

Dias depois, trago a revelação de que, no processo criminal que envolve o caso do matadouro contra Valmir, há o depoimento de um suposto laranja que recebeu quase R$ 100 mil em depósitos e não reconhece a compra de um terreno registrado em cartório.

Oposição e situação contrariadas em uma mesma semana.

E qual é a minha visão sobre o pleito atual?

Vejo Fábio Mitidieri como um bom governador. Não temos o Sergipe dos sonhos, mas temos, nos últimos quatro anos, avanços em todas as áreas. Os dados oficiais não desmentem essa constatação.

E a Iguá? Uma empresa que prometeu solução em cinco anos. Fato é que temos problemas pontuais, mas as soluções estruturais só virão no médio prazo. E a oposição, fazendo seu papel, cria o discurso do caos.

E na oposição, não tem o que elogiar? Claro que tem. Já disse e repito, mesmo com alguns só lendo e ouvindo o que querem: Valmir é o maior líder popular da história recente da política sergipana.

Francisquinho fez dois grandes governos em Itabaiana. O atual, do qual já se afastou, não teve grandes resultados. E ainda devemos pôr na conta dele o governo do aliado Adailton Souza, pois ele influía bastante.

E Ricardo Marques? Apesar da tímida pré-campanha, Ricardo é um exímio comunicador e pode dar trabalho com sua nova roupagem bolsonarista. Como vereador de oposição, foi um grande parlamentar e tem seu fã-clube na sociedade.

Uma constatação não anula a outra.

E qual é o motivo desta análise? É que já sofri, neste ano de 2026, duas provocações incômodas e, o pior, vindas de amigos. Ambas em locais públicos e feitas para gerar constrangimento. Tudo porque discordam das minhas opiniões e querem me enquadrar em suas visões de mundo.

Isso revela, repito, uma ausência de respeito pela liberdade de expressão. Ter opinião não é crime e nem me faz melhor ou pior que nenhum cidadão. O cidadão que me lê, ouve e segue nas redes sociais pode discordar de mim, exercendo seu direito inviolável, só não pode me agredir motivado pela divergência.

Essa é uma Domingueira de desabafo e apelo. Eu digo e escrevo sobre o que acredito. Peço apenas respeito.

Quem tenta calar a opinião não quer construir a verdade. Quer impor versão. E isso, definitivamente, não é jornalismo nem democracia.

Texto e imagens reproduzidos do site: fanf1 com br

domingo, 3 de maio de 2026

A derrota de um sistema de poder


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 2  de maio de 2026

A derrota de um sistema de poder

Depois de indicar seu advogado pessoal e um correligionário político, Lula tentou emplacar alguém cuja carreira foi essencialmente produzida pela fidelidade ao partido e a seus governos. Fernando Schüler para o Estadão:

“Foi a vitória da baixa política”, leio em um artigo, sobre a rejeição de Messias, para o STF. Achei curioso. Quem sabe a “alta política” teria sido repetir a crônica de 130 anos de “carimbos”, por parte do Senado, às indicações para o Supremo, vindas do executivo. Em outra notícia, leio que um grupo de “juristas” cogitava recorrer ao Supremo por “desvio de finalidade”. Achei graça, naquilo, mas me pareceu plausível.

Desvio de finalidade já justificou impedir Lula de assumir um ministério, no governo Dilma. E um ex-presidente conceder um indulto para um deputado condenado por “delito de opinião”. Isso e um bocado de esquisitices. Em um País que se especializou em relativizar direitos e reescrever a lei, a partir do próprio judiciário, não me surpreenderia com mais esta bizarrice.

A rejeição da indicação de Messias traz uma novidade em nossa história republicana: o Legislativo pode decidir com autonomia, na contramão do Executivo. Pode resistir ao peso da liberação de emendas e das posições no governo. Não há grande virtude, nisso. Há apenas instituições cumprindo o seu papel. Exercendo poder, funcionando dentro da regra.

Como disse o próprio Messias, em sua fala sóbria e ponderada, depois do resultado, há dias de vitória e há dias de derrota. Talvez tenhamos esquecido disso, nos últimos 130 anos de mando do governo sobre o parlamento. E é positivo para nossa república que todos saibam que as coisas possam seguir um rumo diferente.

A rejeição de Messias sugere um outro aspecto: é a derrota de um perfil de indicações, para o Supremo. De um político experiente escutei a frase síntese: o Supremo não é assessoria da presidência.

Depois de indicar seu advogado pessoal e um correligionário político, Lula tentou emplacar alguém cuja carreira foi essencialmente produzida pela fidelidade ao partido e a seus governos. Nenhum problema com isso. Pode ser uma ótima carreira. Mas inadequada a uma Suprema Corte, cuja virtude essencial é precisamente a independência e a imparcialidade, não o alinhamento político. É a fidelidade à lei e à Constituição, e não a uma fé, a um governo ou ideologia.

Por fim, há o tema existencial brasileiro. Na última semana, a PGR arquivou uma ação por homofobia contra um ministro do Supremo. E o fez porque considerou a fala (reconhecida como homofóbica pelo próprio ministro), como sem maior relevância. E porque ele havia se desculpado, depois. Curioso, isso. Significa que, a partir de agora, se alguém fizer uma fala homofóbica ou racista, e no dia seguinte pedir desculpas, estará tudo bem? Ou vale só neste caso? Ou não somos exatamente iguais, perante a lei? Ou quem sabe a lei, criada pelo próprio Supremo, é só de brincadeirinha, aplicada segundo a “interpretação” do momento?

O que temos aí é uma minúscula cereja do bolo. O fato é que o estado de direito foi quebrado, no Brasil, exatamente porque fomos cedendo, ao longo do tempo, a uma estranha hierarquia: a interpretação à frente do texto. A norma aplicada segundo a cor, a posição, o “lado”, o contexto.

É o mesmo caso com a imunidade parlamentar. O que faz um deputado processado, por denunciar um caso de abuso de poder da tribuna da Câmara? O que faz um pastor, sem foro convertido em réu no Supremo, por chamar um punhado de autoridades de “covardes”. E o que faz uma Advocacia Geral da União mandando uma carta a uma jornalista para que apague um tuite com uma crítica a um projeto de lei em discussão, no Congresso?

Se observarmos com algum cuidado, é este o mesmíssimo significado da aprovação final da “dosimetria”, no Congresso. Ou alguém acha que há amparo legal para condenar aquele senhor de 70 anos, do interior de Santa Catarina, a 14 anos de prisão, por um PIX de 500 reais? Ou acha bacana atirar pela janela o princípio da instância devida, julgando pessoas sem Foro no Supremo, sem direito a recurso, à revelia de tudo que reza nosso estado de direito?

O fato é que a tudo isso fomos assistindo um tanto quanto “bestializados”, nos anos recentes. E agora houve uma reação. Uma derrota não do governo, mas de um sistema de poder. De um modo de lidar com os direitos e garantias individuais, no Brasil.

A melhor resposta que o Supremo pode dar a esta reação é encerrar os “inquéritos” e retomar a normalidade institucional, no País. Retomar a vigência da regra do jogo, que todos decidimos, e da qual jamais deveríamos ter nos afastado, neste triste Brasil dos últimos anos.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Decisão histórica: plenário do Senado rejeita 'Bessias' no STF

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29  de abril de 2026

Decisão histórica: plenário do Senado rejeita 'Bessias' no STF.

Desde a criação do STF, há 135 anos, apenas cinco nomes foram barrados pelo Senado, todos em 1894, durante o governo de Floriano Peixoto. Camila Abrão para a Gazeta do Povo:

O plenário do Senado rejeitou nesta quarta-feira (29) a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF), em uma derrota histórica ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Messias recebeu 34 votos favoráveis e 42 contrários.

Eram necessários no mínimo 41 votos favoráveis entre os 81 senadores. Desde a criação do STF, há 135 anos, apenas cinco nomes foram barrados pelo Senado, todos em 1894, durante o governo de Floriano Peixoto.

Messias é o primeiro indicado a ser rejeitado após a aprovação da Constituição de 1988. Agora, Lula deve escolher outra pessoa para ocupar a mesma vaga. O novo indicado deverá ser submetido ao aval dos senadores.

Mais cedo, o AGU foi aprovado pela Comissão de Constiuição e Justiça (CCJ) por 16 votos favoráveis e 11 contrários.

No início da sessão, o senador Weverton Rocha (PDT-MA), relator da indicação, disse ter sido perguntado se o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), estaria atuando contra a indicação de Messias.

“Não há de se falar em boicote, pois Vossa Excelência deu total abertura para que o processo andasse, sem nenhum tipo de interferência”, defendeu Weverton. Alcolumbre disse que evitaria comentar as alegações para focar em sua atuação institucional no comando da sessão.

Na sabatina, Messias foi confrontado pelos senadores da oposição sobre temas como aborto e liberdade de expressão. Ele fez acenos ao Congresso, defendendo a separação dos poderes e a prerrogativa do Legislativo. Também disse que o STF não pode atuar como uma espécie de “Procon da política”, mas também “não pode ser omisso”.

Lula tentou driblar resistência de Alcolumbre a Jorge Messias

Lula indicou Jorge Messias para ocupar a vaga do ministro Luís Roberto Barroso, que antecipou sua aposentadoria, em 20 de novembro de 2025. No mesmo dia, a decisão foi formalizada no Diário Oficial da União (DOU).

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), defendia a indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), ao STF. Além de preferir outro candidato, Alcolumbre reclamou de não ter sido avisado da decisão do petista.

"Tomei conhecimento pela imprensa da decisão do governo. Estabeleci um diálogo com os senadores para organizar [a sabatina e a votação], pois temos um período curto", disse o senador em 1º de dezembro de 2025.

A sabatina foi marcada para o dia 10 daquele mês. Em retaliação, o chefe do Legislativo colocou em votação uma “pauta-bomba” para o governo.

Diante da resistência, Lula driblou Alcolumbre e decidiu não enviar a mensagem oficial com o nome de Messias ao Senado, passo necessário para dar continuidade ao processo de indicação.

O senador cancelou a sabatina, acusando o governo de "grave omissão". A mensagem só foi encaminhada à Casa Alta no dia 1º de abril, quatro meses após o anúncio da indicação.

"Ministério da Verdade"

Sob o comando de Messias, a AGU criou a Procuradoria Nacional da União de Defesa da Democracia, o chamado "Ministério da Verdade", devido à sua atuação na remoção de conteúdos digitais. Juristas ouvidos pela Gazeta do Povo consideram que o órgão é utilizado como um instrumento de censura que ameaça a liberdade de expressão no Brasil.

Eles apontam que a AGU tem ampliado o uso de notificações extrajudiciais para remover conteúdos sem a necessidade de uma ordem judicial pública, o que ocorre sem processo direto contra o autor e sem chance de contraditório.

“Sem transparência, o usuário nem sequer sabe contra quem litigar, a agência foge da accountability política, e a plataforma se camufla atrás da própria moderação. É a forma mais sofisticada de censura no século 21, exatamente aquela que o artigo 19 do Marco Civil da Internet, antes de ser desfigurado pelo STF, existia para impedir", disse o advogado Leonardo Corrêa, presidente da Lexum.

Evangélico, Messias contou com o apoio de Mendonça no périplo

Em novembro, Messias deu início ao “beija-mão”, a campanha que todos os indicados à Corte fazem junto aos senadores. O ministro André Mendonça foi o primeiro integrante do STF a declarar apoio publicamente ao indicado de Lula.

Os dois são evangélicos e já comandaram a AGU. Mendonça é pastor auxiliar na Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo. Já o indicado de Lula é membro da Igreja Batista Cristã de Brasília.

Em uma carta ao Senado, Messias destacou sua origem cristã e afirmou que atuará com “imparcialidade” e “guiado” por valores, como fé, família e trabalho, se fosse aprovado.

Além disso, Mendonça também enfrentou a resistência de Alcolumbre quando teve o nome escolhido. Em 2021, o senador era presidente da CCJ e defendia a escolha do então procurador-geral da República, Augusto Aras, para a Corte. À época, Alcolumbre levou mais de quatro meses para marcar a sabatina.

Quem é Jorge Messias?

Há dez anos, Jorge Messias ficou conhecido nacionalmente como “Bessias” ao ser mencionado em conversa interceptada pela Operação Lava Jato entre a então presidente e Lula. A gravação foi divulgada em março de 2016.

Na ocasião, Dilma pediu a Messias, seu subchefe para Assuntos Jurídicos da Presidência, que levasse a Lula, então alvo da Lava Jato, o termo de posse como ministro da Casa Civil para uso “em caso de necessidade”. O episódio foi considerado como uma tentativa de garantir foro privilegiado a Lula.

Messias é graduado em Direito pela Faculdade de Direito do Recife (UFPE), mestre em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional pela Universidade de Brasília - UnB (2018) e doutor pela mesma universidade (2023), onde lecionou como professor visitante.

Procurador da Fazenda Nacional desde 2007, já foi subchefe para Assuntos Jurídicos da Presidência, secretário de Regulação e Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação e consultor jurídico dos ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação. Ele é casado e tem dois filhos.

Quem são os ministros do STF, quem os indicou e quando eles devem se aposentar

A idade limite para exercer a função de ministro do STF é 75 anos, quando ocorre a aposentadoria compulsória. Contudo, os integrantes da Corte podem antecipar a aposentadoria, como aconteceu com Barroso. Veja abaixo a idade atual dos ministros, o ano da posse e quando eles devem se aposentar:

Luiz Fux (73 anos): Indicado pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Tomou posse em 2011. Deve se aposentar em 2028;

Cármen Lúcia (72 anos): Indicada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tomou posse em 2006. Deve se aposentar em 2029;

Gilmar Mendes (70 anos): Indicado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Tomou posse em 2002. Deve se aposentar em 2030;

Edson Fachin (68 anos): Indicado pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Tomou posse em 2015. Deve se aposentar em 2033;

Dias Toffoli (58 anos): Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tomou posse em 2009. Deve se aposentar em 2042;

Alexandre de Moraes (57 anos): Indicado pelo ex-presidente Michel Temer (MDB). Tomou posse em 2017. Deve se aposentar em 2043;

Flávio Dino (57 anos): Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tomou posse em 2024. Deve se aposentar em 2043;

Nunes Marques (53 anos): Indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Tomou posse em 2020. Deve se aposentar em 2047;

André Mendonça (53 anos): Indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Tomou posse em 2021. Deve se aposentar em 2047;

Cristiano Zanin (50 anos): Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tomou posse em 2023. Deve se aposentar em 2050.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com