sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O que a direita tem a oferecer

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 7 de agosto de 2026

O que a direita tem a oferecer

Sabatina O Antagonista e G4 indica as principais qualidades dos desafiantes de Lula. Duda Teixeira e Rodolfo Borges para a Crusoé:

O Antagonista promoveu com o G4, nesta semana, uma sabatina com os principais candidatos presidenciais da eleição 2026.

O evento marcou o início da campanha eleitoral, após as convenções partidárias que definiram os candidatos, e só não contou com o presidente Lula, que não deve comparecer a eventos do gênero, nem a debates ao longo desta campanha.

A sabatina serviu, portanto, para apresentar e discutir os projetos dos quatro homens que se apresentam como alternativa a um presidente que aumentou para 80% do PIB a dívida pública, com políticas que visam mais à recuperação de sua biografia, após a prisão, do que ao bem do país.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Renan Santos (Missão) e os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás, e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, são todos de direita e concordam em muitas pautas, como o endurecimento do combate ao crime, a responsabilidade fiscal e a contenção do Supremo Tribunal Federal (STF), mas têm personalidades e planos diferentes.

As distinções entre as propostas e as condições para implementá-las estão detalhadas nesta reportagem, baseada no que eles disseram na sabatina, ao dar início à corrida eleitoral.

Zema, de Minas para o Brasil

O empresário e ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema propõe levar sua experiência de dois mandatos no governo do estado para todo o país.

"O compromisso que eu assumo, eu quero lembrar, eu já fiz em Minas. Durante o meu governo em Minas, nós levamos para o estado 530 bilhões de reais de investimentos privados. Isso dá mais de 100 bilhões de dólares. É uma montanha de dinheiro que a maioria dos países do mundo não atraiu. Nesse período de sete anos em que eu fiquei governador de Minas, criamos mais de 1 milhão de empregos formais. O desemprego em Minas é o menor da história. A taxa de pobreza é a menor. Ganhamos participação no PIB do Brasil", disse Zema.

Zema fala em repetir as mesmas medidas que tomou em Minas, mas em outra escala. Entre essas medidas estão as privatizações e a redução da máquina pública.

Questionado sobre a Copasa, a Companhia de Saneamento de Minas Gerais, Zema respondeu: "A Copasa acabou de ser privatizada há 90 dias. Quem acompanha o mercado sabe disso. As estatais em Minas, durante a minha gestão, tiveram uma valorização superior a 300%, tanto Copasa quanto Cemig. E eu vendi participações e privatizei 118 empresas, companhia do lítio, Elibrás, Light. A única empresa que não foi privatizada e será é a Cemig", disse Zema.

Sobre corte de pessoal, Zema tentou fazer um cálculo sobre como seria em escala nacional, mas evitou dar um número.

"Em Minas Gerais, eu fiz algo que acho que nunca aconteceu no Brasil. Me falem de algum governador ou até presidente que reduziu quase 50 mil cargos na máquina pública. Eu fiz isso em Minas. Foram 50 mil cargos que eu reduzi em Minas seriam o equivalente para o Brasil a meio milhão de cargos. Minas Gerais é mais ou menos 10% do Brasil. Só com isso, o Estado de Minas economizou por ano cerca 4 bilhões de reais. A nível Brasil seriam 40 bilhões de reais. Tem muita coisa que dá para fazer", afirmou o mineiro.

Caiado, presidindo pelo exemplo

Ronaldo Caiado tem quase tantos anos de política quanto Renan Santos e Flávio Bolsonaro, ambos na faixa dos 40, têm de idade. Candidato à Presidência da República em 1989, quando tinha 39 anos, o ex-governador de Goiás deixou claro, mais uma vez, que aposta no próprio currículo para acalmar um país partido entre lulismo e bolsonarismo há quase 10 anos.

"Eu quero convocar a todos vocês com a experiência da idade, dos seis mandatos que eu tenho no Congresso Nacional, com dois mandatos como governador do estado. O que eu pretendo fazer é pacificar o Brasil, é dar oportunidade para todos sentarem à mesa, é poder construir um outro momento. Não se governa brigando, não se governa provocando as pessoas. Governo é sentado à mesa de negociação. É assim que eu governei e assim que eu irei governar o Brasil", prometeu o goiano, que fez mais uma vez uma enfática defesa do agronegócio, sua bandeira de vida.

O momento em que Caiado mais cativou a plateia de empresários que acompanhou a sabatina, contudo, foi quando ele falou sobre a segurança pública de Goiás, um dos principais fatores para os seus 88% de aprovação ao deixar o governo neste ano para concorrer ao Palácio do Planalto.

"Qual é o seguro de carga mais barato no país? Goiás. Qual é o seguro de carro mais barato no Brasil? Goiás. Em Goiás, ninguém faz seguro para roubo de carro. Faz para acidente. Onde é que carga valiosa não tem batedor? Chega na divisa de Goiás com Minas, os batedores saem. Entra em Goiás. Chega na Bahia, os batedores entram", disse o ex-governador, relatando que recebeu homenagem do setor supermercadista e das joalherias goianas.

Segundo ele, Goiás é o estado mais seguro do Brasil e "nunca teve um assalto que progredisse lá" durante seu governo. "Pergunte aos empresários, comerciantes o que é a segurança plena instalada no estado. Pergunte o custo para os empresários no meu estado de Goiás. É o menor que tem no Brasil", defendeu, acrescentando que os empresários não precisam andar de carro blindado.

"Uma empresa quebrou lá em Goiás. Soube que elas foram para o Rio de Janeiro, que tem fila de espera hoje, mais de 6 mil carros, para serem blindados", disse Caiado, para o riso da plateia.

O ex-governador também prometeu encaminhar ao Congresso, logo no primeiro dia de governo, propostas de emenda à Constituição (PECs) para as reformas política, administrativa, tributária (com revisão de pontos da reforma atual) e de segurança.

Entre todos os candidatos à Presidência, nenhum fala com mais propriedade do que ele sobre terras raras — Caiado defende a industrialização e processamento local de minerais críticos.

Se seu plano de estabilização der certo — e isso passa pela sua promessa de anistiar os condenados pelos atos de vandalismo no 8 de janeiro de 2023 —, o ex-governador de Goiás calcula que o país conseguirá alcançar uma taxa real de juros de 3% a 4%, longe dos 14% atuais.

Renan, uma novidade de verdade

Com 42 anos, Renan Santos é o mais novo entre os candidatos a presidente. É o que mais arrisca e o que mais traz temas novos para o debate nacional.

Seu plano de governo de 50 páginas é um resumo dos seis fascículos do Livro Amarelo, produzido pelo Movimento Brasil Livre (MBL) com a contribuição de centenas de pessoas, com diversas experiências.

Por isso, Renan, que hoje comanda o partido Missão, fundado no ano passado, traz frescor à política brasileira ao introduzir assuntos que não foram debatidos ou que são deixados de lado porque são impopulares.

Renan não esconde que, caso se torne presidente, fará um ajuste fiscal duro para reduzir os juros da economia. O corte de gastos vai acontecer principalmente com a redução do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o fim dos gastos mínimos com saúde e educação.

"São as reformas fiscais altamente impopulares que vão mudar a trajetória da dívida e assim mudar a trajetória do juros futuro do Brasil. Eu preciso passar a desindexação dos valores previdenciários do BPC que hoje estão vinculados ao aumento do salário mínimo, e eu preciso passar a desvinculação dos gastos de saúde e educação, que são vinculados à receita. São duas coisas que são PEC [Proposta de Emenda Constitucional] e que precisam passar, porque isso mexe com o crescimento completamente descontrolado que a gente tem dos gastos e, por consequência, da dívida", afirmou Renan na sabatina.

O candidato tem plena liberdade para propor mudanças radicais, mesmo que admita que, para conseguir colocá-las em prática, terá de negociar com o Congresso e, se necessário, "dar uma conversada com o Capeta".

Entre as suas propostas está criar um tribunal separado do STF para julgar os parlamentares, urbanizar favelas em parceria com a iniciativa privada (a "desfavelização"), introduzir um código para a imprensa para impedir que sites de fofocas façam propaganda política com verbas públicas, reduzir o número de municípios do Brasil e condicionar as emendas parlamentares a cortes nos gastos obrigatórios.

"O município, especialmente o município com baixa atividade econômica, tornou-se um executor de recursos que vêm do governo federal e executor de emendas do padrinho político do prefeito, que é o deputado que recebe a emenda hoje. O que é um deputado federal? Ele é um gestor de uma série de filiais que ele tem, que são municípios. E eles executam as emendas dele. Fazem o show do Wesley Safadão para se reeleger. Não têm nenhuma obrigação ou compromisso com indicadores de desempenho, os famosos KPIs, que vocês colocam nas empresas para poderem validar se a empresa está funcionando ou não. E aí eles giram esse dinheiro", afirmou Renan.

Para Renan, os prefeitos que aumentarem a atividade econômica devem ser premiados, enquanto os municípios que não conseguem pagar as próprias contas devem se fundir com outros. "O prefeito poderá receber mais emendas, desde que entregue bons indicadores de desempenho facilmente metrificáveis e auditáveis. O maior deles seria o aumento da atividade econômica, percebida com aumento de emprego e redução de pessoas vivendo do assistencialismo", disse o candidato.

Flávio, empurrado por um movimento

Flávio Bolsonaro só concorre à Presidência porque seu pai está preso. Está claro que o senador não se preparou para assumir o Palácio do Planalto, mas Jair Bolsonaro também não estava preparado quando assumiu o país em 2018.

Hoje, o bolsonarismo tem muito mais corpo e quadros do que tinha duas eleições atrás.

Abalado na pré-campanha pelo escândalo do Banco Master, por causa do patrocínio para o filme Dark Horse, Flávio não conseguiu formar uma coligação que tornasse sua candidatura mais robusta, e teve de se contentar com o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice.

Mas o candidato destacou na sabatina que está cercado de aliados de peso, como a senadora Tereza Cristina (PP-MT), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), favorito para se reeleger em São Paulo, e a ex-presidente da Caixa Daniella Marques (Republicanos).

"Em praticamente todos os estados nós estamos com palanques montados. Nós temos 22 palanques já 100% fechados no Brasil. Só para que todos possam ter uma referência, o presidente Bolsonaro tinha, em 2022, apenas 10 estados com os palanques. Nós já temos mais do que o dobro", disse o senador, que estava lidando com as tratativas para decidir seu vice e participou remotamente da sabatina.

Na quarta-feira, 5, Flávio fechou o 23º palanque estadual, em Minas Gerais, com a candidatura de Flávio Roscoe. E a força do PL deve se materializar também no Congresso Nacional.

Antes de ser preso, Bolsonaro falava, ainda em 2025, no projeto de eleger a maioria do Senado e da Câmara. Entre os senadores, que têm a prerrogativa de julgar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), o desafio parece mais palpável. A maioria permitiria governar de uma forma mais confortável que Lula, que passou o governo inteiro tentando reverter derrotas no Supremo.

Questionado na sabatina sobre os atritos com os ministros do STF, especialmente Alexandre de Moraes, que assume a presidência do tribunal em setembro de 2027, Flávio disse que o próximo presidente vai indicar quatro juízes supremos, e falou sobre a possibilidade de impeachment.

"Essa grande anomalia que nós estamos vivendo hoje no nosso país ocorre porque a atual configuração do Senado Federal desvirtuou isso, desequilibrou essa suposta harmonia que deveria haver entre os poderes. Não há freios e contrapesos", criticou o senador.

Caso eleito, a primeira missão auto-imposta do senador será, contudo, anistiar o pai e os condenados do 8 de janeiro, o que deve deflagrar uma crise com o STF antes mesmo que ele consiga ver o primeiro de seus indicados ser empossado no tribunal.

Flávio prometeu também aplicar um "tesouraço" tributário, detalhou seu programa de segurança, "Brasil sem Medo", e se comprometeu a apresentar uma PEC que extingue a possibilidade de reeleição para o cargo de presidente da República. Tudo isso em nome do seu pai.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Susane Vidal inicia um novo capítulo de sua história

Entrevista compartilhada do site do JORNAL DA CIDADE, de 2 de agosto de 2026 

Susane Vidal: da credibilidade no jornalismo ao desafio de representar Sergipe em Brasília

Susane fala sobre a decisão de ingressar na vida pública, o manifesto "O Sergipe que a gente quer começa com respeito", o simbolismo do blazer que marcou sua convenção e a experiência de percorrer os municípios sergipano

Depois de quase três décadas de uma trajetória consolidada no telejornalismo sergipano, Susane Vidal inicia um novo capítulo de sua história. Recém-homologada como candidata a deputada federal pelo Republicanos, ela leva para a política a experiência construída ao longo de anos dedicados à escuta da população. Nesta entrevista ao Caderno Social, Susane fala sobre a decisão de ingressar na vida pública, o manifesto "O Sergipe que a gente quer começa com respeito", o simbolismo do blazer que marcou sua convenção e a experiência de percorrer os municípios sergipanos, entrando nas casas das pessoas para ouvir suas histórias, conhecer de perto sua realidade e compreender, além das estatísticas, os desafios, os sonhos e as expectativas de quem vive Sergipe todos os dias. 

JCSOCIAL - Após quase 30 anos no telejornalismo, você oficializou sua candidatura na convenção do Republicanos. O que a levou a transformar a experiência como jornalista em um projeto de vida pública?

SUSANE VIDAL - Eu sempre digo que não deixei de ouvir as pessoas, apenas mudei o lugar de onde posso agir. Durante quase três décadas no jornalismo, conheci de perto as dores, os desafios e a força do povo sergipano. Em muitos momentos, contei histórias que precisavam de solução. Chegou um momento em que senti que apenas noticiar já não era suficiente. Quero levar essa experiência de escuta, diálogo e compromisso para um espaço onde seja possível construir soluções e representar as pessoas.

JCSOCIAL - O manifesto "O Sergipe que a gente quer começa com respeito" já ultrapassou a marca de cinco mil assinaturas. O que esse apoio representa para você e o que ele revela sobre o momento que Sergipe vive?

SUSANE VIDAL - O manifesto nunca foi sobre mim. Ele nasceu para ouvir as pessoas e entender quais valores elas querem ver na política. O respeito foi o ponto de partida porque acredito que é dele que nascem o diálogo, as boas decisões e a capacidade de unir pessoas em torno de um propósito comum. Cada assinatura tem um rosto, uma conversa e uma história. Mais do que um número, essas mais de cinco mil assinaturas mostram que existe muita gente querendo participar da construção de um Sergipe melhor.

JCSOCIAL - O blazer usado na convenção chamou a atenção por trazer nomes de pessoas que acreditam no manifesto e pelo processo criativo, que você compartilhou nas redes sociais. Como surgiu essa ideia e qual é o simbolismo dessa peça para a sua candidatura?

SUSANE VIDAL - A ideia era mostrar que ninguém constrói um projeto político sozinho. Ele não foi pensado como uma peça de roupa, mas como um símbolo. Ele reúne os nomes das pessoas que acreditaram no manifesto antes mesmo de existir uma campanha. Cada nome representa confiança, incentivo e esperança. Compartilhar o processo de criação nas redes sociais também foi uma forma de mostrar que tudo foi pensado com muito significado, valorizando quem caminhou comigo desde o começo. Eu não visto apenas um blazer, visto a confiança de muitos sergipanos. Digo sempre que ele é o meu manto da confiança.

JCSOCIAL - Desde que deixou a bancada da TV, você tem percorrido o estado e ouvido a população de perto. Quais são as principais demandas e sentimentos que mais têm aparecido nessas conversas?

SUSANE VIDAL - As pessoas querem ser ouvidas de verdade. Elas falam sobre saúde, educação, segurança, geração de emprego e oportunidades para os jovens, mas também falam sobre respeito. Existe um desejo muito grande de voltar a acreditar na política como um instrumento de transformação. Tenho encontrado pessoas que querem participar, apresentar ideias e construir soluções. Essa caminhada só reforçou a convicção de que ninguém conhece melhor os problemas de Sergipe do que quem vive essa realidade todos os dias.

JCSOCIAL - Quem é a Susane que o público conhecia na televisão e quem é a Susane que as pessoas estão descobrindo agora, nas ruas e durante essa caminhada política?

SUSANE VIDAL - A essência é a mesma. Continuo sendo uma pessoa que acredita no diálogo, na responsabilidade e no respeito. Talvez agora as pessoas estejam conhecendo um lado mais pessoal: a professora, a mulher que gosta de conversar, de ouvir histórias e de aprender com as pessoas. A televisão me permitiu entrar na casa dos sergipanos todos os dias. Agora, tenho a oportunidade de entrar pela porta da frente, sentar, ouvir e construir esse caminho junto com elas. Acho que essa é a maior diferença: hoje, além de contar histórias, quero ajudar a escrever novos capítulos para Sergipe.

Texto e imagem reproduzidos do site: jornaldacidade net/jc-social

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Baixarias na Casa Branca

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 4 de agosto de 2026

Baixarias na Casa Branca
Por Fernando Gabeira (in blog)

A gente vive dizendo que o mundo anda estranho. Não pretendo dissecar toda a estranheza do mundo, apenas afirmar que parte dela vem do norte, onde vive o homem mais poderoso do mundo, Donald Trump. Quando não está bombardeando o distante Irã, está insultando os repórteres que cobrem a Casa Branca. É nossa ração quase diária de amargor.

Trump tem problemas cognitivos. Mas talvez essa seja a parte mais amena de seu embate com a imprensa. Está ficando gagá, e sua sobrinha, Mary Trump, psicóloga, acha que é Alzheimer, escorando-se no histórico familiar, com base na doença do avô. É impossível diagnosticar dessa forma, mesmo porque os escorregões de Trump não têm um padrão. Podem ser influenciados pela agenda intensa.

Em maio deste ano, em discurso na Academia da Guarda Costeira, ele tropeçou na palavra strength (força) e teve dificuldades em pronunciar outras palavras. Em julho, durante a Cúpula da Otan, cometeu três erros em dez minutos. O último deles é inesquecível. Referindo-se ao Irã, chamou o país de República Islâmica do Japão. O inventário é longo. Tropeçou nas palavras stock market (mercado de ações), anonymous (anônimo), confundiu nomes de líderes estrangeiros e chamou o TikTok de TicTac.

Claro que isso traz uma discussão permanente sobre seu poder cognitivo. Mas as coisas ficam pesadas mesmo quando os repórteres na Casa Branca fazem perguntas diretas sobre suas incongruências, sobre o caso Epstein, sobre o perdão a criminosos próximos à família. Quase diariamente, Trump chama um repórter de estúpido, de pessoa horrível. Não contente em processar empresas e ameaçar cancelar licenças de emissoras de TV, se esforça por humilhar os outros.

Recentemente, em discurso no jantar dos correspondentes, resolveu virar sua metralhadora verbal contra a repórter Kaitlan Collins, da CNN. Ela seria premiada, e Trump a associou a fake news, dizendo que era uma pessoa que nunca sorria. O que Collins faz com Trump para ele odiá-la? Apenas faz perguntas diretas, ouve todos os insultos e registra tudo com acuidade:

Ao mesmo tempo que Trump se vangloria da grandeza da América, diz que um país civilizado não pode ter a imprensa que os Estados Unidos têm. Fica furioso com perguntas elementares. Um dia diz que os dirigentes iranianos são racionais; no outro diz o contrário e os animaliza. No meio dessas contradições, distribui insultos aos jornalistas que as apontam.

É desolador ver e ouvir tudo isso. Lembra-me um filme de Ingmar Bergman, “Morangos silvestres”, em que um casal pede carona de carro e passa um trecho da estrada brigando. Quando sai do carro, leva consigo todo o astral pesado.

O problema é que a Casa Branca não pode sair do carro. Nem os repórteres, presos a seu dever profissional, podem deixar Trump falando sozinho. Estamos condenados às baixarias, e elas contribuem para a sensação de estranheza do mundo. Sem falar na produção nacional ou mesmo nos algoritmos que adoram uma baixaria.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

A nossa elite é facilmente cooptada: vivemos no neocolonialismo

 

Um projeto de país aqui no Brasil não passa de tique nervoso


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 3 de agosto de 2026

Um projeto de país aqui no Brasil não passa de tique nervoso

Entre nós, a 'vida ética' se fez puro marketing de causa. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

Diante do pânico europeu e americano com a possibilidade de que o mundo melhor, tal como se pensou nas últimas décadas e séculos, venha a ruir, nós, brasileiros, temos uma vantagem adaptativa grande: sempre soubemos que o mundo nunca deu certo porque o Brasil nunca deu certo e nunca dará. Um projeto de país aqui não passa de um tique nervoso, quando não apenas um nicho de mercado, entre outros.

Alguns de nós, principalmente os bonzinhos, bonitinhos e inteligentinhos, fingem que não sabem como nós, brasileiros comuns, que o Brasil nunca deu certo e nunca dará. Protegidos pelos seus lobbies e seus bancos, têm o luxo de se vender como a vanguarda do bem no país.

O Carnaval no Brasil, quanto mais cresce como festa "popular", mais se revela como uma celebração orgiástica do fim do mundo, regada a cachaça, fezes e urina. Pode-se exceder em tudo porque, na verdade, nunca houve Quarta-Feira de Cinzas aqui, já que entre nós a "consciência do pecado" nunca pegou —não há pecado abaixo do Equador, lembra?

Como diz um amigo meu esquisito, se Jesus Cristo viesse ao Brasil, se corromperia e entraria no esquema do Master, apesar de, ao mesmo tempo, posar de crítico da desigualdade e defender a democracia.

Este caráter corrosivo da moral tem sido o eixo dinâmico da nossa cultura. Onde, em terras alheias, se dá, muitas vezes, um combate constante entre Deus e o Diabo, cá, em nossas terras, nem o Diabo consegue cavar raízes, se dele tivermos a imagem de alguma coerência em sua atitude. Cá, a coerência seria uma fraqueza, na melhor das hipóteses, uma farsa barata. A "vida ética", tão decantada na filosofia, cá se faz comportamento não adaptativo. Entre nós, a "vida ética" se fez puro marketing de causa.

Sabe-se muito bem que o patriotismo, ou nacionalismo —que não nos cansem com as diferenças conceituais entre um e outro— é o último reduto dos canalhas.

Em 2022, patriotas eram os que pediam intervenção militar diante da derrota do Bolsonaro. Hoje, o mesmo adjetivo é aplicado àqueles que elegem a soberania nacional como eixo da sua campanha para presidência pela enésima vez —o Lula.

Toda vez que você ouvir alguém falar, com glória, a palavra "soberania" nos tempos vindouros, saiba que você está diante de um mentiroso. Dessa vez, pouco se dirá acerca dessa retórica falsa lulista, afora os bolsonaristas que viram seu máximo valor —a pátria— roubado deles.

Há que se reconhecer que, na boca dos bolsonaristas, este suposto valor sempre soou como a palavra de um bufão. Todavia, o Lula não deve se preocupar, porque para ele sempre se passará pano.

O Brasil desmoraliza qualquer iniciativa supostamente ética em política ou no que quer que seja. Por exemplo, a premissa republicana de que deva existir uma independência entre os três poderes —executivo, legislativo e judiciário— a fim de preservarmos a mecânica dos freios e contrapesos que um oferece aos demais, e vice-versa, se dissolve numa convergência canalha à luz do dia.

O conluio babilônico em Brasília entre os integrantes dos três Poderes é regra geral de comportamento pessoal e institucional. Só os fracos não repetem essa compulsão à corrupção do caráter.

O país pratica o niilismo em escala nacional. Se o Brasil é, de fato, o país do futuro, o é por conta do fracasso humano de se elevar acima das suas concupiscências mais comezinhas.

Até o mito do progresso entre nós se revela ainda mais na sua condição de mito. Se a corrupção de caráter sempre nos devastou, hoje ela se fez um sistema racional de conduta, abarcando instituições responsáveis pela civilização, assim como carreiras profissionais aspiracionais.

A impressão é de que, diferente do rei Midas —que transformava tudo que tocava em ouro, devido ao seu anseio patológico por riqueza—, cá, tudo que a esmagadora maioria daqueles que têm alguma forma de poder toca, transforma-se em nada. Daí o niilismo como inconsciente nacional.

Se um dia se disse que o brasileiro era o homem cordial, hoje o brasileiro se fez homem niilista. Com um sorriso na face, que vai de amargo ao cínico —no sentido do senso comum e não da filosofia grega— seguimos o dia a dia nos defendendo do poder em larga escala.

Se os grandes gregos, como diz o rei Agamemnon na tragédia maravilhosa e tocante de Eurípedes "Ifigênia em Aulis", deveriam invejar os humildes, nascidos entre os obscuros do mundo, porque eles não eram obrigados a enxergar o real tal como ele é; cá só os cegos verão o futuro. No Brasil, há que se preservar as virtudes mais primevas, como a coragem, a humildade e a vergonha.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

O que fazer com a “bomba humana”? Um gigantesco problema europeu

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 3 de agosto de 2026

O que fazer com a “bomba humana”? Um gigantesco problema europeu

Diante da invasão de Ceuta, Giorgia Meloni chegou a suspender o acordo europeu de livre circulação, apenas um esparadrapo numa ferida enorme. Vilma Gryzinski: 

As cenas estarrecedoras continuam a impressionar: ondas e mais ondas de marroquinos só com roupa de banho chegando a nado na ponta de território espanhol no topo do continente africano, uma herança colonial que virou um problema a mais para a enorme encrenca da “bomba humana”, os milhões e milhões de pessoas de países pobres que querem migrar para a Europa. Até a unidade europeia saiu lascada: a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni suspendeu o acordo de livre circulação, uma das conquistas europeias, com a Espanha.

Ela é de direita, mas o problema ultrapassa as fronteiras ideológicas e Meloni recebeu o apoio da Dinamarca, que tem um governo de centro-esquerda, e da Finlândia. Outros não falaram publicamente, mas apoiaram em silêncio. Uma vez em território da União Europeia, como é o caso do enclave espanhol de Ceuta, os migrantes teriam direito de ir para qualquer um dos 29 países que integram o Acordo de Schengen – os ricos ou moderadamente bem resolvidos para onde os pobres e mal resolvidos querem migrar.

É um problema sistêmico, afetando todos os países europeus, embora a questão específica de Ceuta seja fruto de atitudes das autoridades espanholas. Primeiro, a visão esquerdista do governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez, tão condescendente com a imigração clandestina que resolveu regularizar a situação de 500 mil estrangeiros vivendo no país (na prática, o número dobrou, com os pedidos de regularização passando de um milhão).

Segundo, uma decisão completamente absurda do Supremo Tribunal espanhol, estabelecendo que quem chegasse a território nacional pelo mar, sem, portanto, ultrapassar as barreiras físicas em terra, não poderia ser mandado imediatamente de volta. Isso deixou as autoridades policiais de mãos atadas. É nadar e entrar. Embora muitos dos 70 mil migrantes tenham voltado para o Marrocos, uma vez em território espanhol, eles ganham o direito de pedir asilo político e receber assistência em vários níveis.

As leis generosas, uma conquista da civilização ocidental, remetem a um tempo em que os refugiados vinham basicamente do mundo comunista ou ditaduras latino-americanas e eram tratados com grande solidariedade. Não funcionam mais no mundo atual, com literalmente centenas de milhões de pessoas da África ou da Ásia tentando entrar em território europeu para ter uma vida melhor. Nenhum país está preparado para absorver tanta gente, inclusive os que não querem se integrar ao modo de vida europeu, com uma minoria que abraça o fundamentalismo e pratica atentados contra as populações locais. O jovem de origem libanesa que jogou um carro contra a parada gay de Berlim na semana passada e depois saiu esfaqueando pessoas foi o caso mais recente de um tipo de atentado que se tornou tristemente comum.

VAIAS AGRESSIVAS

É claro que a extrema direita explora a enorme questão da imigração irregular, tratando-a como uma ameaça civilizacional, mas todas as pessoas, mesmo as de outras tendências, podem entender a dimensão do problema. Só para lembrar: em um único dia, a população de Ceuta, de 80 mil habitantes, praticamente dobrou de tamanho com a chegada em massa dos marroquinos. O comércio fechou, com medo de saques, e muitos ficaram com medo de sair às ruas lotadas de recém-chegados e transformadas em banheiros a céu aberto.

Houve algumas manifestações de protesto e Pedro Sánchez foi agressivamente vaiado ao chegar para uma visita, aumentando a impressão de que a esquerda tem uma atitude de excessiva condescendência com a migração clandestina. Sem falar nas posições simplesmente abiloladas da extrema esquerda. Uma de suas mais infames manifestações foi a de Irene Montero, líder do partido Podemos que já foi até ministra da Igualdade no governo de Sánchez. Referindo-se à tese da extrema direita de que existe um plano intencional de substituir a população branca da Europa por migrantes do Terceiro Mundo, ela disse que gostaria de ver isso acontecendo, “para varrer os fascistas”.

As versões do Podemos, uma espécie de PSOL da Espanha, são sempre delirantes. Sobre a invasão de Ceuta, o porta-voz do partido, Pablo Hernández, disse que “o eixo Marrocos-Estados Unidos-Israel levou a cabo esta operação”. Ou seja, a culpa ou parte dela, é dos judeus. A abominação se espalhou pelas redes sociais.

Absurdos do tipo não diminuem em uma vírgula o tamanho do problema e acabam ajudando a direita mais radical. Aliás, radical é um adjetivo do passado. A rejeição à migração descontrolada se tornou um tema do debate político central, longe dos extremos. Ajudou na eleição da quase desconhecida Giorgia Meloni e pode ser decisiva na eleição presidencial francesa, no ano que vem. No Reino Unido, o partido Reforma, de Nigel Farage, se transformou numa força política importante por causa das posições contra a migração em massa. Os europeus não querem ver sucessivas ondas humanas chegando a seus países e se isso implicar votar para políticos que antes estavam nas margens do espectro democrático, farão isso. Ceuta ajuda a reforçar esse movimento.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Flávio Bolsonaro: Canal Livre recebe o candidato à Presidência pelo PL

Flávio Bolsonaro: Canal Livre recebe o candidato à Presidência pelo PL

Band Jornalismo

Transmissão ao vivo realizada  em 2 de agosto de 2026 BandTV ao vivo

O Canal Livre deste domingo (2) continua sua série de entrevistas com os candidatos à presidência da República. O programa vai discutir os resultados das últimas pesquisas eleitorais, o impacto das novas tarifas americanas contra o Brasil nas eleições e as negociações para formação das candidaturas. 

O mal-estar criado pelas declarações do presidente argentino Javier Milei na Convenção do PL que aconteceu no último final de semana e as possíveis punições após uso de um vídeo do ex-presidente Jair Bolsonaro criado por inteligência artificial no mesmo evento. O Canal Livre recebe o senador pelo Rio de Janeiro e candidato à presidência da República pelo Partido Liberal, Flávio Bolsonaro.   

Participam como entrevistadores os jornalistas Fernando Mitre, Adriana Araújo e Eduardo Oinegue e o cientista político, Fernando Schüler. A apresentação é de Rodolfo Schneider.

domingo, 2 de agosto de 2026

"A maldição de Pelé", por Fernando Schüler (Estadão)

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 2 de agosto de 2026

A maldição de Pelé

Nos anos 70, jogador sugeriu que o ‘povo’ não teria condições de votar ‘por falta de prática, de educação’ e pela curiosa mania de votar ‘por amizade’ nos candidatos. Fernando Schüler para o Estadão:

Há temas que não se resolvem na vida brasileira. O espaço é curto, mas vou tratar de três deles aqui. Os três lidam com o tema da “governança” brasileira e, por certo, afetam a qualidade de nossa democracia. O primeiro é um velho incômodo brasileiro: a desproporcionalidade do voto. Se você for um cidadão de Roraima, seu voto tem um peso 7,1 vezes maior que o voto de seu primo distante, que vive em São Paulo. Se você morar no Amapá, seu voto pesa perto de 5,3 vezes mais do que o de seu quase vizinho, logo ali no Amazonas. E por aí vamos.

De longe, o Estado mais prejudicado nesta equação é São Paulo. A raiz disso vem do fundo de nossa história republicana, e foi um modelo consolidado à fórceps no Pacote de Abril, em 1977, para proteger a Arena, no regime militar. E depois, curiosamente, consagrado pela nossa democracia, na Constituinte e na lei de 1993. Tudo com direito a uma distorção adicional, na prática mantida pelo Congresso e pelo Supremo, no ano passado, fruto da mudança populacional.

Estados como Pará e Santa Catarina deveriam ter quatro deputados a mais, mesmo dentro das atuais regras. Mas deixamos passar, uma vez mais.

Isto não é uma trivialidade. É uma afronta à regra mais elementar das democracias - uma pessoa, um voto - e ao princípio da igualdade entre os cidadãos, que está na base da Constituição. Além disso, impacta diretamente a alocação de recursos públicos.

Um estudo publicado pelo Ipea mostrou como, entre 1997 e 2010, os Estados sobrerrepresentados no Congresso receberam, em média, 55% mais recursos de emendas parlamentares por habitante do que os Estados sub-representados.

Nos anos recentes, quando parte relevante das emendas passou a ser de execução obrigatória e o volume alocado literalmente explodiu, chegando a perto de R$ 58 bilhões em 2025, é plausível supor que este impacto tenha se tornado mais direto e decisivo para os Estados e para os cidadãos.

A distribuição de recursos não é, porém, o problema mais complicado. O ponto é a possibilidade de alteração artificial do perfil político do Congresso, da composição dos partidos e do impacto nas decisões estratégicas do País.

Muita gente diz que não dá para mudar isto porque haverá “muita gente de São Paulo” na Câmara. E, por aí, haveria um problema. Errado. A representação federativa é função primordial do Senado, e não da Câmara. Há aqui um elemento normativo. Se, de fato, achamos que a representação proporcional faz sentido na democracia, é preciso que isto seja tratado com alguma seriedade.

Uma segunda reforma que deveríamos fazer, e para ontem, é o fim do voto obrigatório. É um tema que toca no coração de nossa cultura política paternalista. Alguns dizem que a culpa é do Pelé, que, em uma entrevista perdida, nos anos 70, sugeriu que o “povo” não teria condições de votar “por falta de prática, de educação”. E pela curiosa mania de votar “por amizade” nos candidatos.

A ideia do Pelé funciona como uma maldição. Muita gente pensava assim antes dele e continua pensando, décadas depois. Perdi a conta de quantas vezes escutei coisas parecidas, ditas de um jeito mais elegante, em seminários e debates, País afora. “Não estamos preparados”, não temos “maturidade”, os mais “pobres” não vão sair de casa, e por aí adiante.

Pois bem, agora vamos votar pela décima vez para presidente. Já votamos algumas dezenas de vezes depois daquela entrevista do Pelé, de modo que já “praticamos” bastante. E desconfio que hoje votamos mais por “inimizade” do que por qualquer coisa, dado o ódio generalizado que observamos no debate público, em especial no mundo digital.

Não importa. O voto é um direito, e não parece razoável imaginar que tenhamos de votar mais dez ou 22 vezes para alguém achar que já estamos maduros para decidir se queremos exercer ou não este direito.

A terceira reforma que deveríamos fazer é eliminar integralmente o dinheiro público das campanhas eleitorais. Dinheiro público, aqui, é um velho e conhecido eufemismo: trata-se de obrigar o cidadão a colocar a mão no bolso e pagar a conta de campanhas eleitorais.

O Brasil, com seu fundão eleitoral, é um dos países que mais colocam dinheiro público em campanhas e políticos. O argumento para isto é um perfeito truque: a ideia de que se está produzindo “igualdade” na disputa política. Na prática, é o contrário. Não apenas os maiores partidos ficam com a maior parte do bolo, como os políticos com mandato e maior destaque ficam com o maior quinhão dentro dos partidos.

É lógico que isto aconteça. E isto desequilibra o jogo político. Além disso, há um efeito perverso do dinheiro sobre a política: gente que vai para a máquina partidária pelo dinheiro, não pela vocação; a atração de políticos pela oferta de recursos para campanhas; o reino do marketing de luxo e seu mundo da fantasia.

Estas três reformas têm um ponto em comum: elas colocam o “cidadão comum”, o “eleitor ordinário”, o pagador de impostos, no centro do jogo. Isso a partir de ideias simples. O voto de todos é igual; é você que decide se quer ou não votar. E também se acha que vale ou não apoiar o crowdfunding de um partido ou candidato. No fundo, é um jeito de ir enterrando aquela frase do Pelé, na qual muita gente boa ainda acredita, de que, de alguma forma, somos incapazes para a vida política. Isto não é verdade depois de tanto tempo de vida democrática. O que somos é um País com corporações fortes o suficiente para plantar narrativas e bloquear reformas sistematicamente, a começar pelo próprio sistema político, em benefício próprio. E é isto que precisamos superar.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 31 de julho de 2026

PRESIDENTE LULA - Inteligência Ltda. Podcast 1894

 

ENTREVISTA COM O PRESIDENTE LULA - Inteligência Ltda. Podcast 1894

Canal  YouTube/Inteligência Ltda

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA é o Presidente do Brasil. Ele vai bater um papo com o Vilela sobre sua vida, as lutas políticas e sociais, a possibilidade de ser eleito para um quarto mandato e o que é preciso fazer pra melhorar o Brasil. Já Vilela não conseguiu ser eleito nem pra representante de classe.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Como responder à injustiça dos EUA

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 28 de julho de 2026 

Como responder à injustiça dos EUA
Por Fernando Gabeira (In Blog)

Os Estados Unidos estão sendo injustos com o Brasil. Parte das novas tarifas aplicadas a nossas exportações é baseada em acusações falsas. O país combate o trabalho escravo e reduz o desmatamento. Aqui foi aplicada a lógica do lobo e do cordeiro. Se não somos nós os culpados, então foram os nossos primos.

Num momento como este, muitos falam em retaliação. É uma reação emocionalmente compreensível. Mas, pensando bem, é possível encontrar uma solução melhor. Ela seria um grande projeto de união nacional para que a gente desenvolva capacidade real de retaliar. Você pode chamar isso de soberania, mas não deve confundi-la com os gritos de soberania nos comícios eleitorais.

Na verdade, é algo mais profundo que, em alguns casos, implica décadas de esforço contínuo, independentemente da troca de governos. É preciso, para começar, uma política para incentivar as exportações, que transcenda o puro financiamento. Isso implica maior abertura.

No campo da soberania digital, é preciso um trabalho de décadas. A política chinesa data de 1988 e parte da concepção de que a internet deve ser governada pelo próprio país. É um modelo difícil de replicar porque a China começou por criar uma “Great Firewall”, bloqueando Google, WhatsApp, Instagram, enfim, todas as plataformas.

Não é esse nosso caminho. Muito menos nosso estágio. No momento, o Brasil desenvolve um sistema de mensagens para uso do governo. É um trabalho conjunto da Abin, do Serpro e da Universidade Federal do Ceará. Para pensar em algo amplo, será necessário construir uma infraestrutura de data centers, rede de telecomunicações e criptografia nacional. Isso para mencionar apenas alguns itens essenciais.

Ao contrário da China, um aplicativo nacional teria de atrair os usuários numa competição direta com as redes. Isso depende muito de coerção regulatória. Mas a existência de uma infraestrutura nacional traria um escudo contra boicotes externos. Hoje, se o WhatsApp deixasse de funcionar no Brasil, os prejuízos seriam grandes para a economia do país.

Outro campo em que poderemos retaliar no futuro são os minerais estratégicos. Para isso, precisamos pelo menos mapear os recursos. No momento, americanos em Goiás e australianos em Minas extraem terras-raras. Ainda não há como retaliar. No caso do nióbio, o Brasil é o país dominante. Temos cerca de 90% da produção mundial e aproximadamente 95% das reservas globais. Aí está uma possibilidade que, combinada a outras, daria ao país uma chance de encarar com altivez as injustiças que sofre. No momento, é importante proteger os exportadores atingidos e formular uma política de longo prazo que reduza os impasses no comércio exterior.

A conjuntura é negativa. Os Estados Unidos governam a Venezuela por meio de um vice-rei, Marco Rubio. Arrecadam o dinheiro do petróleo e repassam parte aos ditadores como se fosse a mesada de adolescentes. Os resultados eleitorais recentes no Chile, no Peru e na Colômbia mostram que o continente tende a isolar o Brasil, com aliados de Trump por todos os lados.

Nesse contexto tão especial, seria interessante buscar o maior nível possível de unidade nacional em torno de um projeto de longo alcance. Não temos tempo para bobagens, e as eleições, infelizmente, parecem produzi-las em grande escala.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Por que temas de política externa ganharam importância na América Latina

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de julho de 2026

Por que temas de política externa ganharam importância na América Latina

No Brasil, o assunto mal registrava, mas agora presidentes como Lula e Menem investem pesado e existe também uma batalha geopolítica travada por Trump. Vilma Gryzinski: 

Quem usasse até recentemente a palavra “geopolítica” corria o risco de entediar seus leitores. A realidade e líderes de estilo inflamado como Donald Trump, Lula da Silva e Javier Milei estão provocando um interesse que não existia antes.

O público tem razão em se sentir mobilizado. Quando Donald Trump aumenta as tarifas sobre as exportações brasileiras, até quem dá risada de expressões como imperialismo ianque, ou talvez sequer a tenha ouvido antes, percebe que produtores brasileiros saem prejudicados. O presidente Lula da Silva e seus marqueteiros foram rápidos em captar o potencial propagandístico – e portanto eleitoral – de conceitos normalmente distantes das preocupações diárias dos cidadãos comuns, como soberania.

A ideia de “dar uma lição nos gringos” e defender a autonomia nacional é muito forte. Também é forte rejeitar que um presidente estrangeiro como Javier Milei venha criticar políticos locais. Ninguém nunca erra, pelo menos no curto prazo, apostando em sentimentos nacionalistas.

Milei, com seu estilo de tocar fogo no circo, também quer faturar os seus pontinhos. Entende igualmente muito bem que tem interesse em se tornar o principal interlocutor da direita de Donald Trump na América Latina. Trump já salvou seu governo uma vez (condicionando a ajuda a bons resultados eleitorais, o que de fato aconteceu) e não é impossível que venha a fazer isso de novo.

DORMINDO NO PONTO

O jogo é tão alto que até o normalmente sóbrio Xi Jinping mandou soltar uma nota de apoio ao governo brasileiro. A China e seus investimentos abundantes (mas não gratuitos) são um argumento de enorme peso para cooptar governos latino-americanos para o lado que prefere se afastar dos Estados Unidos.

Donald Trump e, mais especificamente, o Departamento de Estado, enxergam isso muito bem, depois dos vários anos que os Estados Unidos dormiram no ponto e relevaram a crescente influência chinesa na região que haviam se acostumado a ver como seu quintal.

Trump já armou uma frente de direita entre os negligenciados latino-americanos e tem um punhado de países do seu lado. Chama-se, informalmente, Escudo das Américas. Formalmente, é a Coalizão Anticartéis das Américas, destinada teoricamente ao combate ao tráfico de drogas, o flagelo do nosso continente, mas com um escopo mais abrangente – daí a recusa do governo brasileiro até mesmo em aceitar a qualificação dos cartéis como organizações terroristas.

Fazem parte dela Argentina, Bolívia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, República Dominicana, Trinidad e Tobago e, claro, Estados Unidos. Sob nova administração, a Colômbia deve aderir, talvez o Peru também. É uma frente forte, embora diversificada.

Escrevendo no La Nación, o comentarista argentino Carlo Pagni disse que “o filme é muito mais amplo”.

DOUTRINA DONROE

“A princípio, há um jogo de Milei na região que nasce da cabeça do Mago do Kremlin, Santiago Caputo: converter o presidente em um agente de uma política favorável a Trump dentro da América Latina. Esta postura foi adotada pela Chancelaria e tem por objetivo formar uma liga pró-Trump na qual deveria estar uma dezena de países” – exatamente os integrantes do Escudo das Américas. “Estas nações serviriam de apoio ao presidente dos Estados Unidos em sua doutrina Donroe, réplica da doutrina Monroe que consistia no seguinte axioma: ‘A América para os americanos’. Milei serve a esta ideia em seu intuito de formatar a liga, em clara contradição com a China”.

“O resultado eleitoral de outubro no Brasil é crucial nesse jogo. Se Donald Trump quer ter uma plataforma de apoio em sua política contra a China, nação que mostrou grandes avanços na América Latina, tem que conseguir que mude a orientação política no governo brasileiro. Em função desta estratégia, o presidente recebeu Flávio Bolsonaro no Salão Oval. Falta ver se os insultos de Milei a Lula o prejudicam num país muito zeloso de sua autonomia ou o beneficiam. Mark Carney no Canadá, por exemplo, ganhou depois de estar perdendo nas pesquisas graças aos ataques de Donald Trump”.

Lula e marqueteiros obviamente apostam nisso e o presidente demonstra continuamente que quer comprar uma briga que vê como favorável. Hoje sai mais um documento forte do governo americano. O público captou os sinais no ar, trazendo Trump e Milei para um debate eleitoral no qual dificilmente apareceriam. O jogo ficou muito mais interessante do que um bate boca eventual que deixou o relacionamento entre Brasil e Argentina, fundamental para os dois países, no ponto mais baixo desde que o regime militar argentino pagou à seleção do Paru para perder por 6-0 de forma a qualificar os jogadores da casa na Copa de 1978.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Por que temos opções tão questionáveis à Presidência?

 

Boletim da Noite, Apresentação - Professor Marco Antônio Villa.

28 de julho de 2026

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Temporada de caça aos mensageiros

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 24 de julho de 2026 

Temporada de caça aos mensageiros

A ameaça de tornar inelegível um senador por ter feito acusações contra ministros do STF expõe uma engrenagem destinada a proteger os integrantes do Supremo e a intimidar seus desafetos. Editorial do Estadão:

O relatório apresentado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) na CPI do Crime Organizado era passível de críticas. Deslocava a comissão de seu objeto original, misturava questões que talvez devessem ser examinadas por outros instrumentos parlamentares e atribuía protagonismo excessivo às suspeitas envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o procurador-geral da República, que resultaram em pedidos de indiciamento por crimes de responsabilidade. O Senado avaliou esse trabalho e o rejeitou por seis votos a quatro. Numa democracia, esse deveria ter sido o desfecho natural da controvérsia.

Não foi. O ministro Gilmar Mendes entrou com representação contra Vieira na Procuradoria-Geral da República (PGR), pedindo que o senador fosse investigado por suposto abuso de autoridade, alegando que Vieira praticou desvio de finalidade ao tentar atingi-lo (junto com os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli) com um pedido de indiciamento por crime de responsabilidade no relatório final da CPI. O procurador-geral, Paulo Gonet, afastou a hipótese de abuso de autoridade, mas surpreendentemente preservou a acusação ao remetê-la à esfera eleitoral, abrindo caminho para uma investigação capaz de atingir a elegibilidade do senador.

Parece claro que o tal relatório do senador Vieira se tornou um problema porque, ao longo da investigação da CPI, que incluiu o escândalo do Banco Master, surgiram elementos que alcançavam integrantes do próprio Supremo: o contrato multimilionário firmado pelo Master com o escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes e as relações econômicas do banco envolvendo negócios do ministro Dias Toffoli.

Dias Toffoli resistiu o quanto pôde como relator do caso Master no STF mesmo com evidências abundantes de suspeição. Gilmar Mendes interrompeu diligências destinadas a esclarecer os vínculos financeiros. A Procuradoria-Geral da República se recusou a investigar os volumosos indícios que alcançavam ministros. Quando a condução passou para o ministro André Mendonça, vieram críticas duras ao colega.

Sempre que a investigação se aproxima de áreas sensíveis para integrantes da Corte, multiplicam-se obstáculos processuais, cautelas extraordinárias e argumentos para conter seu avanço. Foi esse bloqueio que Vieira tentou romper por meio de um relatório parlamentar. Se o instrumento era obviamente inadequado, as perguntas que ele fazia não. A resposta da Justiça, porém, concentrou-se não nas suspeitas que ele levantava, mas na punição a quem ousou formulá-las.

Diante de contratos milionários, conflitos de interesses e fatos que reclamavam esclarecimentos, prevaleceram por parte do STF e da PGR arquivamentos, cautela extrema e baixa disposição para novas diligências. Diante de um relatório rejeitado pelo próprio Senado, a criatividade institucional mostrou-se muito maior. A acusação penal foi abandonada, mas encontrou-se um caminho alternativo para manter a ameaça de punição ao mensageiro.

Essa assimetria evidencia a existência de duas réguas por parte do procurador-geral. A primeira exige um grau quase inalcançável de certeza para que ministros do Supremo sejam enfim investigados. A segunda admite interpretações amplas e soluções processuais inovadoras quando o alvo é quem tenta submetê-los a escrutínio.

Pela Constituição, cabe justamente ao Senado exercer funções de fiscalização sobre ministros do STF. Por mais inadequada e até oportunista que tenha sido, a atuação de Vieira ocorreu no exercício legítimo da atividade parlamentar, sem qualquer traço de ilícito eleitoral e muito menos penal. Se senadores passam a correr riscos por exercer sua função, ainda que de maneira imperfeita, a mensagem aos futuros relatores, presidentes de comissão e demais integrantes da Casa é inequívoca: questionar ministros do STF pode custar caro.

Num Estado de Direito, a resposta a um relatório ruim é rejeitá-lo, desmontá-lo ou ignorá-lo – não transformá-lo em instrumento para intimidar seu autor. Da mesma forma, suspeitas relevantes contra autoridades não devem ser arquivadas antes de serem suficientemente esclarecidas. Mas o que se vê na Justiça é uma engrenagem que serve para proteger ministros do STF e para punir seus críticos e desafetos.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Quem sai aos seus não degenera

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de julho de 2026 

Quem sai aos seus não degenera

Tal como o pai, Flávio Bolsonaro mente sobre urnas eletrônicas diante de diplomatas estrangeiros, provando que o golpismo une uma família que não admite que pode perder eleições. Editorial do Estadão:

O golpismo é a herança que Jair Bolsonaro transmitiu em vida para seu primogênito. Anteontem, diante de diplomatas estrangeiros, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reencenou a farsa da suposta insegurança de nosso sistema eleitoral, uma das práticas que consagraram seu pai como a maior ameaça à democracia brasileira na Nova República.

Durante o encontro em Brasília, que reuniu representantes de mais de 40 países, além de autoridades da União Europeia e da Liga dos Estados Árabes, o candidato à Presidência pediu o envio da “maior quantidade de observadores possível” para as eleições de outubro, afirmando que as urnas eletrônicas usadas no Brasil teriam “a mesma origem” dos equipamentos usados na Venezuela: a empresa Smartmatic, citada em um documento da CIA sobre uma suposta fraude eleitoral ocorrida no país vizinho em 2012. É mentira.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já afirmou por escrito – e categoricamente – que equipamentos ou softwares da Smartmatic, ou de qualquer empresa estrangeira, jamais foram usados em eleições no País. Todo o material foi concebido, produzido e gerido inteiramente pelo TSE, com tecnologia nacional auditável por partidos políticos, especialistas e órgãos de fiscalização do Brasil e do exterior. Jamais foi encontrada evidência de fraude em qualquer das eleições realizadas desde 1996 por meio eletrônico. O Brasil, ao contrário, é referência internacional em rapidez e segurança eleitoral, precisamente em razão dos sistemas de votação e apuração que Flávio, como pastiche do pai, acusa, sem provas, de serem passíveis de violações.

Nada aqui é por acaso. Flávio conhece bem o manual do golpista moderno: lança dúvidas no ar, insinua que forças ocultas estão atuando para melar as eleições, para logo em seguida negar que esteja fazendo qualquer acusação. “Não estou questionando o sistema de votação brasileiro”, disse o senador, explicando que somente, ora vejam, aludia a um relatório da CIA. Não é difícil perceber a malícia. Bolsonaro também jamais assumiu abertamente as suspeitas que adorava espalhar. Para os golpistas, basta semear a dúvida – matéria-prima das teorias da conspiração que animam esses liberticidas.

Flávio é tépido como democrata, mas não deixa de ser lamentável o fato de que um cidadão que pretende liderar a Nação minta com tanto desassombro. O senador chegou a afirmar que Bolsonaro está preso por ter se reunido com embaixadores, em 2022, apenas para expressar “preocupação” com a segurança eleitoral. Convenientemente, o filho omite que a condenação do pai a mais de 27 anos de prisão, em caráter definitivo, decorreu de uma tentativa de golpe de Estado, e não daquela reunião – da qual adveio a inelegibilidade do ex-presidente, por abuso de poder político.

Com intervalo de poucos dias, o discurso golpista de Flávio ecoa o de Donald Trump, de mesmo teor, feito em rede nacional nos EUA, no qual o presidente americano voltou a alegar, mais uma vez sem provas, que a vitória de Joe Biden, em 2020, foi fraudada. Para autoritários como Trump e os Bolsonaros a verdade dos fatos é irrelevante: basta semear a dúvida para deslegitimar, no futuro, um resultado eleitoral desfavorável a eles. Eis o espírito de uma família que, a despeito de ter feito da política eleitoral um bem-sucedido empreendimento comercial, jamais admitirá a possibilidade de perder uma eleição limpa.

O ataque de Flávio às urnas eletrônicas não é deslize. É mais um ato de irresignação com o Estado Democrático de Direito. Lembremos que, em entrevista à Folha de S.Paulo, em junho do ano passado, o senador já havia admitido que um candidato à Presidência apoiado por seu pai teria de, necessariamente, garantir o cumprimento de um eventual indulto a Jair Bolsonaro, “mesmo que” o Supremo Tribunal Federal o considerasse inconstitucional. Indagado sobre a hipótese de ser este, de fato, o destino dado ao indulto pela Corte, Flávio admitiu abertamente o “uso da força”. Precisa mais?

É exasperante que, em 2026, ainda tenhamos de dedicar energia ao desmentido de falácias sobre as urnas eletrônicas. Postulantes à chefia de Estado e de governo deveriam estar debruçados sobre os problemas reais que o Brasil tem de enfrentar. A lisura das eleições nunca foi um deles.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Inocentes em cativeiro

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de julho de 2026 

Inocentes em cativeiro

Hoje, proponho uma reflexão sob o impacto que a leitura do livro de Kylie Moore-Gilbert — “804 DIAS EM CATIVEIRO: A MULHER QUE SOBREVIVEU A UMA PRISÃO IRANIANA”, traduzido e publicado neste mês pelo Clube Ludovico — causou em mim.

Um relato impressionante de uma vítima da teocracia islâmica instalada no Irã, com todos os requintes de crueldade que são capazes de impor aos seus reais ou supostos inimigos.

Adicionalmente, trouxe um pouco de Sagan… para celebrarmos 30 anos da publicação do icônico “O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela na escuridão".

Espero que apreciem. Dennys Xavier:

O CÉU DO IRÃ

Kylie Moore-Gilbert chegou ao Irã como pesquisadora. Tinha formação acadêmica, conhecia a política do Oriente Médio e participara de uma conferência.

Em setembro de 2018, quando se preparava para deixar o país, foi detida no aeroporto de Teerã pela Guarda Revolucionária. Depois veio a acusação de espionagem, um julgamento conduzido sem garantias minimamente confiáveis e a sentença de dez anos de prisão. Passaria 804 dias entre Evin e Qarchak, enfrentando interrogatórios, isolamento, vigilância e uma forma de violência que procurava alcançar muito mais do que o corpo.

Seu livro, The Uncaged Sky: My 804 Days in an Iranian Prison (agora disponível aos assinantes do Clube Ludovico), carrega no título uma imagem encontrada durante o encarceramento. O céu sobre as prisioneiras continuava aberto, indiferente às grades e aos muros. A frase poderia, quem sabe, soar excessivamente literária em outro contexto, mas adquire força invulgar quando escrita por alguém para quem a simples visão do alto se tornara uma experiência limitada, vigiada, concedida segundo a vontade de carcereiros.

A prisão política tem uma lógica própria. Ela tenta introduzir o poder dentro da consciência do prisioneiro. O regime deseja que sua vítima passe a pensar com as categorias impostas pelo interrogador, que duvide da própria memória, que aceite a culpa inventada e reconheça na autoridade de quem a oprime uma espécie de onipotência.

O isolamento prolongado participa desse método. A pessoa deixa de receber do convívio humano as pequenas confirmações que sustentam a percepção da realidade. Uma voz, um rosto conhecido, uma conversa sem medo, tudo aquilo que parecia banal começa a revelar sua importância.

Kylie resistiu também porque percebeu, com crescente nitidez, o que seus interrogadores pretendiam obter. Não buscavam tão-somente informações.

Queriam colaboração, submissão e utilidade política. Um Estado desse tipo olha para o indivíduo como matéria disponível. Sua biografia pode ser reinterpretada, suas relações pessoais podem ser transformadas em indícios, sua profissão pode servir de pretexto para uma narrativa de conspiração. A verdade perde relevância logo que o poder se vê autorizado a fabricar a versão conveniente dos acontecimentos.

Platão, mutatis mutandis, conhecia esse mecanismo em outra forma. Na Apologia, Sócrates enfrenta uma cidade que não consegue suportar a sua presença sem convertê-la em ameaça. As acusações contra ele resguardam ritualística jurídica, mas nasceram de ressentimentos acumulados, de temores políticos e da irritação provocada por quem fazia perguntas em público. O tribunal desejava uma retratação que preservasse a autoridade dos acusadores. Sócrates recusou esse gesto porquanto compreendia que a vida privada de fidelidade à consciência valia mais do que uma sobrevivência comprada pela renúncia ao próprio caráter.

A experiência de Kylie toca essa antiga questão.

Quanto de nós permanece quando quase todas as escolhas exteriores são retiradas? Viktor Frankl encontrou nos campos de concentração uma resposta difícil, formulada sem a duras penas. Mesmo submetido a condições extremas, o ser humano conserva alguma possibilidade de decidir a atitude que assumirá diante do sofrimento. Essa liberdade interior não elimina a dor, não transforma a vítima em criatura invulnerável e tampouco torna suportável o que é desumano. Ela indica um território que o carrasco procura ocupar, embora não consiga fazê-lo por completo sem alguma participação daquele que sofre.

Kylie não aparece em seu relato como uma personagem imune ao medo. A força do livro depende disso. Surgem a angústia, a exaustão, a raiva, os conflitos com outras prisioneiras, o desgaste provocado pela incerteza e os efeitos de uma rotina organizada para quebrar qualquer senso de continuidade.

Sua resistência não se apresenta como uma serenidade constante. Ela assume formas irregulares, por vezes duras, por vezes desesperadas. Greves de fome, mensagens enviadas clandestinamente, recusas, negociações e pequenas decisões cotidianas preservavam alguma relação com a pessoa que ela havia sido fora da prisão.

O contato com as mulheres iranianas também transforma o centro do relato.

Muitas delas não tinham governos estrangeiros negociando por sua libertação, nem jornais internacionais acompanhando seus processos. Algumas cumpriam penas impostas por crimes políticos; outras estavam presas em circunstâncias atravessadas pela pobreza, pela violência familiar e pela rigidez de uma ordem jurídica que trata a mulher como alguém cuja vida precisa permanecer sob tutela.

Kylie compreende que sua história, embora terrível, estava cercada por uma atenção que não alcançava a maior parte de suas companheiras.

Essa convivência impede que o livro se torne apenas a narrativa de uma estrangeira capturada por um regime hostil. A prisão, concebida naqueles termos, expõe uma sociedade inteira em frangalhos, vivendo os estertores do que há de mais alto no ser humano: alguma dignidade, alguma racionalidade residual, algum senso de justiça. Dentro das celas aparecem as divisões religiosas, as diferenças de classe, os conflitos políticos, a coragem de certas mulheres e a crueldade de outras.

A opressão, não nos enganemos, não produz automaticamente solidariedade. Pessoas submetidas à mesma instituição podem proteger umas às outras, competir por recursos escassos, reproduzir hierarquias ou colaborar com os carcereiros, mercê de suas categorias mentais (por vezes bem exóticas).

A natureza humana continua ali, presente, sem a pureza que os relatos edificantes costumam exigir. Sim, livros como esse mostram um lado nosso que pouco ou nada corrobora a expressão “tratamento humanizado” como algo desejável.

Hayek escreveu sobre a relação entre liberdade e previsibilidade jurídica. Uma sociedade livre depende de regras que limitem o poder e permitam ao indivíduo orientar a própria conduta sem temer que a autoridade transforme qualquer gesto em delito depois de praticado. No caso de Kylie, a lei deixou de funcionar como fronteira do poder. Tornou-se linguagem de legitimação para uma decisão tomada em outra esfera. A acusação de espionagem servia aos interesses do Estado iraniano, e a condenação conferia uma aparência formal ao sequestro político.

Atenção a isso: obediência à formalidade jurídica não necessariamente é aplicação de justiça… nós, brasileiros, deveríamos saber bem disso. A arbitrariedade tem esse gosto pela cerimônia. Regimes autoritários mantêm tribunais, juízes, autos processuais e sentenças porque a violência apresentada como simples violência revela depressa sua nudez. O vocabulário jurídico oferece uma cobertura respeitável. A vítima passa a ser chamada de ré, o cativeiro recebe o nome de pena e a negociação diplomática que decide sua libertação pode ser tratada como cumprimento da justiça.

As palavras permanecem, mas o sentido delas foi esvaziado.

Kylie foi libertada em novembro de 2020, numa troca de prisioneiros.

Sua saída não restituiu os dias perdidos, nem poderia devolver intacta a vida que existia antes da prisão. O retorno envolve outra espécie de trabalho. A pessoa precisa reaprender a habitar espaços abertos, lidar com escolhas comuns, ouvir sons cotidianos sem associá-los à vigilância e aceitar que a liberdade recuperada não apaga a experiência do confinamento.

Talvez por isso o céu do título em inglês permaneça tão presente, ecoando, depois da leitura. Continuava aberto enquanto as mulheres estavam presas, e essa indiferença poderia ser sentida como beleza ou crueldade.

(Lembrei-me, enquanto lia, da célebre “Ponte dos Suspiros”, em Veneza, que costuma despertar uma imaginação romântica que pouco tem a ver com sua verdadeira história. O nome sugere encontros secretos, amantes separados ou promessas sussurradas sobre as águas. Nada disso. Construída no início do século XVII, ela ligava o Palácio Ducal às antigas prisões da República de Veneza. Por aquele corredor fechado passavam os condenados depois do julgamento, conduzidos às celas onde muitos permaneceriam por anos ou de onde sairiam apenas para a execução da pena. Os “suspiros” que deram fama à ponte não pertenciam ao amor, mas à despedida. Pelas pequenas janelas de pedra, protegidas por grossas treliças, o prisioneiro podia lançar um último olhar sobre o mar, sobre a luz que envolvia Veneza e sobre a vida que continuaria do lado de fora. Era um instante breve, suficiente para tornar ainda mais pesado o caminho em direção ao cárcere… ou à pena capital).

A liberdade do mundo exterior existia ao mesmo tempo que o cativeiro.

Depois de 804 dias, Kylie voltou a atravessar portões, mas levou consigo os nomes, os rostos e as histórias das que permaneceram do outro lado.

O livro termina… experiencias assim não terminam como os livros.

Outras pessoas continuam sendo interrogadas em salas parecidas, outras famílias aguardam notícias, outros processos transformam decisões políticas em sentenças judiciais. Estamos completamente imersos naquela realidade, ainda hoje.

Jamais nos esqueçamos.

A memória de Kylie pertence a uma mulher que sobreviveu e conseguiu escrever. Também guarda alguma coisa das mulheres e dos homens cujas vozes alcançam o mundo por fragmentos, bilhetes escondidos, telefonemas interrompidos ou relatos de quem saiu. Quando alcançam.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quarta-feira, 22 de julho de 2026

'Um presidente de mãos atadas', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 21 de julho de 2026

Um presidente de mãos atadas
Por Fernando Gabeira (in blog)

Acabou a Copa do Mundo; agora, nosso tema comum é a eleição. É preciso afirmar algo tão inconveniente agora quanto foi dizer que, com aquele time, o Brasil não ia longe, apesar da fanfarra comercial do “rumo ao hexa”.

Depois de muito debate e emoção, o presidente que escolhermos chegará ao poder de mãos quase atadas. Ele simplesmente não terá dinheiro para executar suas promessas. A causa disso é muito simples: o Congresso sequestrou parte do Orçamento. Ele gasta cerca de R$ 61 bilhões por ano só em emendas parlamentares. Sobra pouco para o governo.

Orçamento é um tema muito chato. É uma quantidade abstrata de recursos, que a gente costuma pensar como o dinheiro do governo. No fundo, todos sabemos que governo não tem dinheiro, exceto o que recebe de todos nós. Já temos tanta dor de cabeça com as contas do nosso dia a dia. Por que se preocupar com o que gasta o governo?

Há coisas, no entanto, que precisam ser conhecidas. Nas democracias ocidentais, todo o dinheiro arrecadado com impostos é usado pelos governos eleitos. Deputados e senadores apenas fiscalizam.

No Brasil, o Congresso abocanhou uma grande parte desse dinheiro. O resultado é uma irracionalidade nos gastos. Cada deputado gasta de acordo com suas necessidades eleitorais. Há muita redundância e corrupção.

Os deputados queriam que esse dinheiro que gastam fosse secreto. Daí o surgimento do famoso orçamento secreto, que o STF combate até hoje. Dinheiro público precisa de transparência.

Apesar de muita interferência legal, ainda agora soubemos que R$ 1,3 bilhão foi destinado sem que se soubessem os autores. São emendas de comissão. As comissões são uma réplica dos ministérios: Comissão de Educação, Saúde, Transporte. Por que gastam dinheiro de uma forma diferente dos ministérios? Por que não racionalizar?

O Congresso não abre mão desse poder. O resultado não é só dispersão e irracionalidade. Há coisas do arco da velha, como dizíamos no passado. Foi descoberto agora que pessoas que não são deputados manipulam algumas verbas. Valdemar Costa Neto destinou R$ 119 milhões; Eduardo Cunha, R$ 6 milhões.

A expressão “não deputados” é muito vaga. Não se trata da vizinha aposentada ou de um arcebispo. Ambos não são deputados. Costa Neto e Cunha foram presos, em momentos diferentes, por corrupção.

Por aí, é possível ver a seriedade com que o Congresso trata o Orçamento sequestrado. É tão grande o problema que a PF só consegue investigar alguns casos, pois não tem capacidade de fiscalizar quase 600 pessoas distribuindo ou embolsando dinheiro pelo país. Há casos fantásticos de cidades em que quase todo mundo arrancou os dentes ou fraturou os dedos. O Tribunal de Contas da União chegou a investigar cem casos e encontrou irregularidades em 82 deles.

O país que terá um novo presidente terá de se resignar com a falta de dinheiro. Só nas eleições, os partidos vão gastar R$ 5 bilhões. Os argumentos afirmam que são gastos com a democracia. Na verdade, a parte do leão são gastos antidemocráticos.

Encarar essa realidade ou se resignar? Até o momento, apesar de os jornais noticiarem e a PF trabalhar, existe certa passividade em torno do sangramento contínuo do dinheiro público, isto é, sempre lembrando, do dinheiro do nosso bolso.

De que adianta apenas escolher um candidato a presidente, sem equacionar esse problema?

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

Por que temos homens medíocres?

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 21 de julho de 2026

Por que temos homens medíocres?

No Império, o saber funcionava como uma credencial esperada daqueles que aspiravam aos altos postos. Hoje, essa expectativa tornou-se menos exigente. Dennys Xavier para a Crusoé:

Gosto de imaginar uma sessão do Senado do Império. Sem idealizações românticas ou projeções infantilóides cogitadas para criar ranço ainda maior com os duros tempos em que estamos imersos, sei muito bem que os seus integrantes estavam longe de representar um modelo acabado de virtude.

A escravidão ainda existia, o país lidava com temas complexos, mas… existe uma característica daqueles debates que chama a atenção de qualquer leitor dos anais parlamentares.

Os homens que ocupavam a tribuna pareciam sentir uma obrigação permanente de demonstrar que haviam estudado.

Os discursos de Paulino José Soares de Sousa, o Visconde do Uruguai, de José Antônio Pimenta Bueno, o Marquês de São Vicente, de Zacarias de Góis e Vasconcelos, de Nabuco de Araújo, entre tantos outros, pertencem a uma época em que o debate político ainda caminhava de mãos dadas com o direito, com a história e com a filosofia política.

Não eram homens infalíveis, por óbvio.

Defenderam, aqui e ali, posições que hoje podem virtualmente ser contestadas com boas razões.

Ainda assim, percebiam que a autoridade de uma ideia dependia, em alguma medida, da tradição intelectual capaz de sustentá-la.

A experiência inglesa, o constitucionalismo americano, o direito romano, Montesquieu, Burke, Tocqueville e os autores clássicos apareciam com frequência nas discussões: não como ornamentos retóricos, mas como parte do próprio modo de raciocinar. A burrice ou o apedeutismo não eram vistos como virtude.

Esse ambiente ajuda a compreender a figura de Dom Pedro II.

Seu prestígio como homem de cultura não nasceu de uma lenda construída depois da Proclamação da República.

Os diários do imperador, sua correspondência e o testemunho de contemporâneos revelam um soberano cuja rotina reservava espaço constante para o estudo (eu sei, eu sei… entre “Dilmas”, “Lulas” e “Bolsonaros”, a vontade de chorar em posição fetal se faz sentir).

Interessava-se por astronomia, história, arqueologia, linguística, fotografia e literatura.

Aprendeu diversas línguas ao longo da vida, entre elas o grego e o hebraico, traduziu trechos de autores antigos e manteve diálogo com intelectuais como Louis Pasteur, Ernest Renan e Victor Hugo.

Em suas viagens ao exterior, visitava bibliotecas, museus, observatórios e universidades com uma curiosidade que impressionava até aqueles que não compartilhavam de suas ideias políticas.

Esse tipo de formação produzia impacto emblemático na vida pública. O poder parecia carregar consigo, como segunda natureza, uma expectativa de cultivo intelectual.

Um ministro podia fracassar em suas decisões, um senador podia defender uma causa equivocada, mas existia constrangimento diante da ignorância.

A falta de preparo não costumava ser motivo de ostentação, por assim dizer.

Um líder político daquele tempo talvez não ventilasse a possibilidade de aparecer em público falando em termos chulos, vulgares ou… comendo como uma besta num boteco de esquina qualquer, em meio a restos despencando da boca.

Seria mesmo difícil imaginar algum deles puxando coro de “imbrochável” em evento solene de história da pátria ou falando da densidade de “grelo” em discurso dirigido a membros da nação.

Esperava-se que um homem destinado aos altos cargos tivesse passado muitos anos entre livros, dominasse a língua com precisão e conhecesse algo da longa história das instituições que pretendia governar.

Essa expectativa foi se tornando menos visível ao longo do tempo.

A política brasileira ampliou seu alcance social, incorporou novos grupos e abriu espaços antes inacessíveis, transformação que faz parte da própria história da democracia.

Em paralelo, a cultura humanística perdeu parte do prestígio que possuía entre as elites dirigentes.

Ler os clássicos, estudar história constitucional ou acompanhar os grandes debates filosóficos deixou de ser entendido como requisito natural da vida pública.

A mudança aparece até na forma de falar. Muitos dos discursos parlamentares do século 19 eram longos, por vezes cansativos, mas pressupunham um auditório disposto a acompanhar argumentos desenvolvidos passo a passo.

A vida pública contemporânea recompensa outra habilidade.

A frase curta circula melhor do que a demonstração, o “corte Tramontina”, a resposta imediata com frases feitas vale mais do que a reflexão amadurecida, e a velocidade passou a exercer uma influência que nenhum orador do Império poderia imaginar.

Essa transformação alcança também o ambiente universitário, o jornalismo e os meios de comunicação. Durante muito tempo, ter cultura significava integrar-se a uma tradição de leitura.

Conhecer Homero, Tucídides, Cícero, Santo Agostinho, Shakespeare ou Montesquieu era uma forma de participar de uma conversa iniciada muitos séculos antes. Ninguém acreditava, um tanto ingenuamente, que começava do zero.

A inteligência consistia, entre outras coisas, em reconhecer uma herança e dialogar com ela.

Hoje, bem… para usar um eufemismo… a impressão é diferente.

Muitos homens públicos exibem uma relação distante com os livros, e isso quase nunca desperta constrangimento. Confunde-se frequência nas redes com influência intelectual, exposição permanente com autoridade, convicção virulenta com conhecimento.

A figura do homem cultivado perdeu parte do prestígio simbólico que possuía. Em alguns ambientes, demonstrações de erudição chegam a provocar suspeita, como se o estudo afastasse alguém da realidade concreta do país.

Seria injusto afirmar que desapareceram os homens verdadeiramente cultos.

O Brasil continua produzindo grandes historiadores, juristas, professores, cientistas e escritores. A diferença ocupa outro lugar.

Durante boa parte do Império, o saber funcionava como uma credencial esperada daqueles que aspiravam aos mais altos postos da nação.

Hoje, essa expectativa tornou-se muito menos exigente. A inteligência continua admirada por alguns (cada vez menos), mas deixou de ocupar o centro do imaginário político brasileiro.

E essa mudança diz bastante sobre o tempo em que vivemos, mesmo quando preferimos não percebê-la.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com