Luiz Felipe Pondé “Houve uma piora na qualificação da elite brasileira .”
Política, economia, educação, cultura, cidadania, justiça social, meio ambiente, liberdade de pensamento e expressão.
Luiz Felipe Pondé “Houve uma piora na qualificação da elite brasileira .”
Artigo compartilhado do site do GABEIRA,de 6 de outubro de 2026
Aconteceu. Independentemente do resultado do segundo turno, o grande fato político é a vitória da direita no Senado, que, desde já, anuncia um ano de crises institucionais com o STF.
Aconteceu, e não creio que se possam culpar apenas os erros de campanha. A performance do governo teve peso. A frente que venceu em 2022 não foi capaz de crescer após as eleições, não soube se expandir para setores ainda não conquistados.
Escrevi alguns artigos mencionando minhas dúvidas aqui e ali. Mas às vezes as críticas são muito mal recebidas, e o velho argumento de que criticar é favorecer o adversário continua sendo dominante.
Para começar, acho que o tratamento judicial dado aos presos do 8 de Janeiro foi rigoroso demais. As sentenças foram muito longas, não houve avaliação individual de culpa.
O bolsonarismo se valeu da ideia de perseguição política e cresceu na condição de vítima. Creio que, em Santa Catarina, num desses discursos de campanha, Lula afirmou ser candidato para manter Bolsonaro na cadeia.
Esses discursos inflamados animam a militância, mas não trazem crescimento na sociedade. Identificar-se tão completamente com as decisões do Supremo não era um bom caminho, mesmo porque, adiante, o STF cairia em desgraça com o caso Master e se transformaria em vilão nacional.
Não pretendo me fixar nesse ponto, mas política de frente é algo distinto do que foi desenvolvido no Brasil. Frente significa trabalho comum e formulação comum. O PT tem uma indiscutível propensão hegemônica. Agrega, distribui cargos, mas quer o monopólio nas questões essenciais, como política externa.
Houve erros de interpretação dos ventos de direita que sopram no mundo. É difícil entendê-los, porque em cada país sopram de um jeito especial. No meu entender, a corrupção tem papel no Brasil. Mas é desconcertante para essa interpretação ver a vitória parcial de Flávio Bolsonaro. Ele tem os mesmos problemas de um político convencional, enriquecendo silenciosamente ao longo de seus mandatos.
O vento que soprou no Senado, de certa forma, atinge a Câmara. No caso específico do Rio de Janeiro, houve muitas baixas entre deputados de esquerda, uma estranha lista dos mais votados e a derrota parcial de quem parecia favorito, Eduardo Paes.
É difícil interpretar esse tsunami depois de um longo fim de semana de trabalho. Precisaremos de mais tempo, flexibilidade e abertura para entender melhor o que se passa no Brasil. Precisamos também de mais tolerância no debate. Não dá para avançar quando se pune o exercício do pensamento com agressões morais.
Detesto enfoques do tipo “bem que avisei”. No meu caso, avisei muito timidamente. Poderia ter feito mais, porque minha vida também estava em jogo. Dediquei anos à legislação ambiental, e ela será a primeira vítima.
Diziam no passado que a esquerda só se une na prisão. Ela tem uma excelente oportunidade de se unir nessa derrota parcial. Os anos que virão, com um Congresso dominado, serão difíceis. Deveríamos superar a arrogância, a lacração e nos tratarmos com a fraternidade dos outros tempos. Sabemos menos que pensamos, podemos menos que imaginamos, não sei mais o que falta para nos aplicarmos uma boa dose de humildade.
Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 1 de outubro de 2026
Vivo e ativo, a melhor vingança: o que aconteceu com Salman Rushdie
Escritor indiano que levou quinze facadas por causa de livro está divulgando documentário sobre o ato bárbaro - e tocando a vida. Vilma Gryzinski:
“Eu sempre me recusei a fazer o papel de vítima”, diz Salman Rushdie numa das várias entrevistas que está dando para divulgar o documentário sobre o atentado que sofreu em 2022, depois de quase quarenta anos da fatwa, ou sentença religiosa, que o transformou em homem marcado para morrer por escrever um livro em que um personagem similar ao profeta Maomé passa por episódios nada canônicos. Num deles, acha que mensagens sibiladas pelo Maligno fazem parte das ordenações divinas que recebe do anjo Gabriel – daí o título do livro condenado, Os Versos Satânicos.
É difícil não vê-lo como vítima, apesar do louvável esforço. Como ele estava dando uma palestra, no interior do Estado de Nova York, o atentado foi filmado, em cenas fortes reproduzidas no documentário. As quinze facadas dadas por Hadi Matar, um jovem xiita libanês que nem era nascido quando a fatwa foi proclamada pelo aiatolá Khomeini, atingiram o escritor indiano (e britânico e americano, suas cidadanias adotadas) na mão direita, no quadril, no abdômen, no peito, no pescoço e no olho direito, que perdeu.
Os óculos com uma lente escura lembram constantemente os interlocutores que Rushdie foi vítima, sim, mas uma vítima que quer ter a última palavra. Qual sua mensagem para A. , como chama o agressor, cujo nome escolheu não pronunciar (a inicial se refere ao apodo Asinino, o adjetivo referente a asno que ele dá a Matar).
A pena de 25 anos a que o agressor foi condenado é justa? “Eu não acredito na pena de morte, mas acho que ele tem que sair de cena por muito tempo. Hoje, ele tem só 28 anos, poderá estar livre aos 50”, disse ele à revista Spectator.
QUINZE MINUTOS DE FAMA
Rushdie virou personagem de si mesmo, escrevendo sobre o período em que passou sob proteção em grau máximo da segurança britânica (Joseph Anton, o pseudônimo que escolheu, tirado de Joseph Conrad e Anton Tchekhov). A convivência com os seguranças foi complicada – o escritor é um homem voluntarioso, arrogante, com temperamento forte. Era de esquerda na época da fatwa e teve que aceitar a proteção imediatamente oferecida por Margaret Thatcher.
Quando se mudou para os Estados Unidos, achou que havia voltado a ter uma vida normal – escrever livros, fazer lançamentos e noites de autógrafos, dar palestras. E, como era seu hábito, namorar e se casar com mulheres lindas – a atual é a poeta negra americana Rachel Eliza Griffiths, que filmou a dolorosa recuperação do marido, em cenas usadas no documentário.
O que ele diria a seu quase assassino? “Acho que a melhor vingança é a indiferença. Eu não o perdoo, nem deixo de perdoá-lo. Ele é simplesmente irrelevante. Posso dizer: ok, você teve seus quinze minutos warholianos de fama e agora pode passar o resto da vida na cadeia. Muito obrigado”.
Atribui o atentado à “loucura de um jovem ignorante envenenado pela religião que dá justificativas morais a atos imorais”.
Aos 79 anos, leva uma vida de “felicidade cautelosa”. Fez o documentário para mostrar a luta entre “tudo o que desprezo – fanatismo, preconceito” e “tudo o que amo – arte, amor, imaginação, beleza”.
O embate ainda não terminou.
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Existe fake news do bem? Que Nossa Senhora nos proteja
O que estamos vivendo no país é uma notícia falsa industrialmente produzida na reta final das eleições. Resumo do vídeo de Fernando Schüler para o Estadão:
No comentário desta terça-feira, 29, o colunista Fernando Schüler trata da notícia falsa que aponta que o senador Flávio Bolsonaro (PL), se eleito, pretende retirar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil.
“O que me impressiona é que, há menos de uma semana das eleições, quando a gente deveria estar discutindo questão fiscal, questão das reformas, a questão da produtividade no Brasil, os escândalos, o Banco Master, as investigações que precisam ser feitas, temas ligados à nossa democracia, Supremo Tribunal Federal, enfim, todas as questões que realmente interessam ao país, tanto do ponto de vista econômico, como do ponto de vista da governança do país, a gente está discutindo o quê? Nossa Senhora Aparecida”, destaca ele.
O colunista ressalta não haver nenhuma polêmica sobre o assunto, mas “uma fake news industrialmente produzida”.
“Uma das orientações inclusive veio de dentro de um assessor da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, num grupo privado, dizendo: ‘Olha, esquece os desmentidos, vamos deixar esse assunto rolar. Deixa o assunto rolar, porque está pegando bem pra gente’”, enfatiza.
Para Schüler, há hoje a criação de algo “muito curioso no País, que é uma espécie de fake news do bem”.
“Então, se essa fake news nos interessa, então deixa rolar, deixa acontecer, deixa as pessoas discutirem. Vai que dê um efeito político. Nós estamos na reta final nas eleições. Eleições muito equilibradas. E aí impressiona como milhares de pessoas no Brasil, mesmo sabendo que é uma fake news, mesmo sabendo que é uma mentira, (difundem) ”, diz ele.
Segundo Schüler, há aí “um problema ético básico na sociedade: a incapacidade de muita gente no Brasil de distinguir algo brutalmente simples, aquilo que é de fato uma polêmica, aquilo que é de fato uma divergência legítima da sociedade, daquilo que é pura e simplesmente uma mentira, como é o caso”.
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Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 20 de setembro de 2026
Ao proibir as bets nove dias antes do primeiro turno, Lula fez sua maior aposta. Muitos observadores consideram grandes suas chances de êxito. As pesquisas mostram que a maioria condena apostas on-line. Grande número de mulheres pode decidir o voto a partir dessa medida.
É impossível cravar cientificamente qual será o resultado das eleições de domingo. O universo do futebol foi atingido. Lula fez menção ao Flamengo; a torcida não gostou. Enfim, há muitos fatores a analisar.
Essa avaliação pertence às pesquisas que saem às ruas nesta semana. O mais importante é colocar a questão-chave: por que foram necessários tantos malabarismos às vésperas das eleições? Creio que essa variável é fundamental para analisar o governo nascido de uma frente democrática em 2022. Lula é acossado por um Bolsonaro. Significa que, apesar dos grandes julgamentos e de todas as críticas midiáticas, o bolsonarismo resistiu. Um governo democrático bem-sucedido com uma orientação adequada talvez pudesse reduzir a importância dessa corrente política radical. Não foi o que aconteceu.
O interessante é que as pesquisas revelam que outros candidatos também acossam Lula num hipotético segundo turno. Forte indicação de desejo de mudança. Se as pesquisas revelassem uma situação mais favorável, Lula certamente dispensaria os malabarismos e enfrentaria as eleições com os métodos tradicionais.
É razoável questionar se houve erros no caminho. A Frente Ampla foi realmente uma frente? Ou, apesar do nome, apenas mascarou as pretensões hegemônicas de um partido, que abocanha o essencial e mantém os aliados como funcionários do governo?
Não houve debates no interior da Frente para apresentar alternativas. Isso decorre também do horror às críticas, da tentativa permanente de associar qualquer dissidência ao adversário político, um distante resquício do stalinismo.
Lula percebia as dificuldades do governo, mas tentava superá-las magicamente. Todo ano que terminava era o ano de plantação, segundo ele. Todo ano que começava era o ano da colheita. O mandato termina, e a magia terá de ser repetida no próximo, exceto em caso de compreensão de que é preciso mudar, de que um próximo governo precisa corrigir os erros, reencontrar apoio e reduzir o campo de manobra dos adversários mais radicais.
Pode-se argumentar que o avanço da extrema direita é uma realidade mundial. Mas isso retira a singularidade do caso brasileiro. Ao norte, o problema que estimula o avanço é a imigração; aqui é a corrupção. Para grande parte dos analistas de esquerda, a corrupção é apenas uma nota insignificante no pé de página da História. É um não problema que aflige apenas um pequeno segmento da classe média. O resultado dessa tolerância acabou se refletindo no clima geral do país. Ministros do Supremo entraram na corrida para se tornar bilionários, deputados e senadores esbanjam boa parte do Orçamento com emendas que não controlamos.
Enquanto essas questões não forem resolvidas, o Brasil estará aberto à espera de um oportunista que se apresente como salvador diante de um universo político considerado 100% corrupto. Num novo mandato, será difícil para Lula dobrar a aposta. Terá de refazer o caminho.
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The Economist: Brasil vira as costas para o futuro
Falta de um plano sólido para conter a dívida e a corrupção enraizada coloca em risco o crescimento e a estabilidade do País. The Economist, com tradução para o Estadão:
O Brasil é abençoado. Suas reservas comprovadas de petróleo são enormes e continuam crescendo. Dentro de suas fronteiras, o maior rio do mundo, o Amazonas, atravessa sua maior floresta tropical. Mais da metade da eletricidade do Brasil provém de hidrelétricas. Suas terras agrícolas estão entre as mais produtivas do planeta; em breve, o País se tornará o maior exportador de alimentos, ultrapassando os Estados Unidos. Sob seu solo, estão vastas reservas de minerais de terras raras. Seus 220 milhões de habitantes são empreendedores, criativos e diversos.
O enorme potencial do Brasil é evidente há muito tempo. Quando a capital, Brasília, foi construída na década de 1950, suas ruas foram planejadas no formato de um avião, simbolizando um País pronto para decolar. Mas ainda está preso na pista. Ao longo do último meio século, em vez de alçar voo, a economia brasileira estagnou em relação tanto aos seus pares quanto à média de crescimento global. A eleição geral de 4 de outubro oferece pouca esperança de uma reviravolta. A escolha que se apresenta aos brasileiros é sombria.
O atual presidente de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido como Lula, enfrenta Flávio Bolsonaro, o filho mais velho de seu antecessor populista de direita, Jair. Lula está prestes a completar 81 anos, a mesma idade que Joe Biden tinha quando desistiu da candidatura à reeleição em 2024. Ele é democrata e tem boas políticas ambientais. Mas fez muito pouco para impulsionar o crescimento ou conter os gastos. Falhou em promover reformas econômicas, com exceção de uma simplificação do imposto sobre vendas, e chama a disciplina fiscal de “absurda”. Seu governo caminha para terminar o mandato com a maior dívida pública em juros em um quarto de século.
O filho de Bolsonaro, com apenas 45 anos, nega que os humanos estejam causando as mudanças climáticas, questiona a integridade das urnas eletrônicas e insinua que não acatará o resultado caso Lula vença. Ele vem sendo investigado por supostos vínculos com criminosos violentos, o que ele nega. Sua principal proposta é o indulto para seu pai, que em setembro de 2025 foi condenado a 27 anos de prisão por conspiração para um golpe de Estado após perder a reeleição em 2022.
Os dois estão empatados nas pesquisas, com Flávio em ascensão. Nenhum dos dois é considerado confiável para lidar com os dois maiores problemas do Brasil: a corrupção enraizada e a expansão desenfreada dos gastos públicos. Sem um plano sólido para reduzir a dívida pública em relação ao PIB, o risco de uma espiral de juros altos manterá os custos de empréstimo elevados, privando a economia do capital necessário para aumentar a produtividade e o crescimento.
Os gastos governamentais cada vez maiores alimentam a inflação, forçando o Banco Central a manter as taxas de juros elevadas. Reduzir essa dívida e baixar as taxas exigirá cortes profundos nos gastos públicos, dos quais 92% são obrigatórios por lei ou pela Constituição brasileira, absurdamente restritiva.
Na ausência de um crescimento mais robusto, a disputa entre as elites políticas pelo controle dos recursos públicos gera um sentimento de desesperança em muitos brasileiros comuns, o que beneficia os políticos extremistas. A corrupção também mina as instituições que garantem o equilíbrio de poderes no Brasil.
Poucas semanas após a condenação de Jair Bolsonaro, um escândalo conhecido como Banco Master eclodiu e rapidamente envolveu o Supremo Tribunal Federal (STF). As investigações policiais já demonstraram que cinco dos 11 ministros do tribunal tinham ligações com Daniel Vorcaro, o playboy mentor do esquema. Isso alimenta o cinismo popular, facilitando que os brasileiros ignorem a condenação de Bolsonaro por conspiração golpista e apoiem seu filho.
O candidato cujas ideias mais se alinham ao momento atual é Renan Santos, um libertário combativo. Ele quer implementar reformas estruturais profundas e cortes de gastos para transformar o Brasil em uma grande potência. Mas nem ele nem nenhum outro candidato de fora do sistema conseguiu avançar contra as máquinas políticas opostas de Lula e Bolsonaro. O País caminha para uma crise previsível, mas a maior parte da elite política está confortável demais com a situação atual para mudar o rumo.
Assim, o futuro brilhante do Brasil ficará em suspenso por pelo menos mais quatro anos. Não está totalmente morto. Apesar da corrupção e do pensamento fechado de políticos corruptos, muitas das instituições vitais do País ainda funcionam. A Polícia Federal fez um trabalho notável na investigação da fraude de Vorcaro e da tentativa de golpe anterior; a imprensa permanece feroz, independente e relativamente bem financiada; o corpo diplomático é respeitado no mundo todo. Até mesmo o Supremo Tribunal Federal, apesar de suas inúmeras falhas, conseguiu mandar um golpista para a prisão.
O gatilho mais provável para uma crise seria uma forte aceleração no nível da dívida e nos custos de empréstimo, levando a uma piora da economia. Esse é um círculo vicioso, familiar aos brasileiros mais velhos, que poderia levar a quedas no valor do real, mais inflação e uma recessão dolorosa. Talvez só então os brasileiros se voltassem para alguém disposto a defender a ideia impopular de que sacrifícios serão necessários para um futuro em que um país abençoado nunca mais seja condenado a escolher entre dois candidatos tão sombrios.
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Artigo compartilhado do site do GABEEIRA, de 25 de setembro de 2026
A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) abre uma grande oportunidade de reforma do Judiciário. A simples ideia de reforma não é necessariamente uma boa notícia nos dias de hoje. Hungria e Polônia fizeram reformas destinadas a diminuir o poder do Judiciário, assim como a proposta israelense que suscitou muitas manifestações populares de protesto.
A ideia de reforma do Judiciário não significa que temos um sistema petrificado. Ao contrário, o Código de Processo Civil de 2015 foi uma inovação. Da mesma forma a criação do Conselho Nacional de Justiça, em 2004, a criação da súmula vinculante, uma síntese das decisões do STF que orienta todas as instâncias do Judiciário.
No momento, o foco está precisamente no Supremo. Seu ciclo, iniciado com a Constituição de 1988, se encerrou. O que temos diante de nós é uma Corte Suprema que perdeu a credibilidade e não será possível restabelecê-la se continuar como está.
Naturalmente, mudanças devem ser conduzidas por quem vive e estuda o Direito. Mas todos querem dar sua pequena contribuição. No Congresso, existem 84 propostas de mudança no Judiciário, 20 no Senado e 64 na Câmara.
Numa publicação chamada Lexum, acadêmicos defenderam que o STF se transformasse numa corte exclusivamente para tratar de temas constitucionais. E que acabasse essa história de foro privilegiado.
As propostas na Câmara se dedicam, em alguns casos, ao tempo de mandato dos juízes. Em outros, visam a reduzir ou neutralizar as decisões monocráticas, consideradas potencialmente antidemocráticas.
Mas a crise mostrou que há muito mais coisas para discutir. Enquanto se tenta responsabilizar membros do Supremo por sua relação com o Banco Master, é necessário também olhar para a frente, reconhecer que houve muitos erros para que a Corte chegasse ao espetáculo deprimente de terça-feira, 15 de setembro.
Uma das questões a ser levantada é perguntar se a escolha dos juízes do STF tem de ser exclusiva do presidente. Há muitos modelos no mundo e quem sabe algum deles pode atenuar os estragos das escolhas presidenciais num país tão polarizado. Naturalmente, os projetos que vão na direção de um mandato fixo podem ajudar. As mudanças na Corte podem se fazer de forma mais previsível e escalonada. Mas é necessário também exigir a maioria qualificada para aprovar um nome, pois isso força uma negociação mais complexa.
O fato é que, em alguns países, governo e Congresso escolhem uma parte dos juízes e o Judiciário indica uma outra parte.
Mandato fixo, maioria qualificada e indicação não exclusiva do presidente podem trazer ares novos para o Supremo. Mas isso não basta para resolver todos os problemas.
A presença de parentes de ministros advogando sem restrições na Corte Suprema criou uma base para ampliação da renda dos magistrados e os colocou na rota da fortuna. Dificilmente uma organização humana consegue resistir à tentação da riqueza material quando as regras são tão flexíveis. O STF foi derrotado parcialmente pela cobiça.
Um outro fator importante é a promiscuidade entre ministros e empresários com interesses em causas no STF. De modo geral, esse encontro ocorre no exterior, no âmbito de congressos jurídicos ou mesmo políticos para discutir o Brasil. O caso do Banco Master ficou mais popular por causa do uísque Macallan e charutos Cohiba, além das festas musicais. Mas é o modelo de aproximação entre empresários, ministros e gente poderosa, como, por exemplo, o diretor da Polícia Federal ou o procurador-geral da República.
O Supremo tem condições pura e simplesmente de proibir isso. Não precisa de um sofisticado código de ética para evitar essa prática. Basta determinar e segurar o tranco junto com a opinião pública. Nós sabemos que irão resistir ferozmente, mas precisam ser enfrentados. Se podem definir o que fazer e como usar o Supremo para seus interesses pessoais, então não estamos num país democrático. É preciso perder o medo. São ferozes na aparência, mas na verdade apenas se agarram à riqueza material.
É necessário discutir como fazer a transição. Alguns candidatos ao Senado prometem o impeachment de ministros – de modo geral, o ministro que tem posições políticas diferentes das deles. Mas o mecanismo de impeachment não resolve o problema sistêmico colocado pelo fim do ciclo do STF.
O enunciado é simples: com esta Corte sem credibilidade, o País não pode funcionar. Como criar as bases para uma nova Corte? Que erros precisamos evitar para que não aconteça mais isso: ministros ganhando fortuna de banqueiros, ministros contratando mulheres de programa com ajuda de banqueiro, ministro defendendo o código de ética da máfia.
Não dá para levar a sério um país que tem este STF. Como dizia o poeta Affonso Romano, uma coisa é um país, outra um ajuntamento, uma coisa é um país, outra um fingimento.
Estamos diante de uma das mais importantes tarefas deste momento da redemocratização, momento difícil interna e externamente, sobretudo pela onda de autoritarismo que se desenha no horizonte internacional. Não se pode, de forma alguma, perder o apoio popular à democracia. E isso, infelizmente, começa a acontecer.
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Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de setembro de 2026
Olha o que Vorcaro fez com o país a troco de charutos, festinhas e litros de uísque
Vorcaro, diga-se, não precisou desvirtuar ninguém. Perscrutou a realidade política e institucional do país e fez a leitura de que tudo já estava devidamente desvirtuado. O Coringa teve muito mais trabalho. Guilherme Macalossi para a Gazeta do Povo:
Há uma cena emblemática no filme Batman – O Cavaleiro das Trevas, em que o Coringa termina seu serviço de desvirtuamento moral do promotor Harvey Dent. Brutalmente ferido no rosto e lidando com o luto da mulher amada, Dent se permite consumir por outra personalidade, diferente daquela conhecida do homem público sobre o qual repousa a esperança de uma Gotham City mais ordeira.
“Olha o que eu fiz com esta cidade com uns galões de gasolina e algumas balas”, disse o palhaço do crime enquanto lhe entregava uma arma. O filme dirigido por Nolan é, nas suas muitas interpretações possíveis, também uma análise contundente sobre a corrupção do homem.
Daniel Vorcaro nunca foi nada que chegasse a parecer com o Coringa. No filme, o criminoso se intitulava um “agente do caos”. Ou, como diria Alfred, uma daquelas pessoas que “querem ver o mundo pegar fogo”. O banqueiro, ao contrário, nunca desejou o caos. Queria, isto sim, toda a estabilidade que o dinheiro pode comprar. Em vez de agir com balas e galões de gasolina, preferiu charutos e litros de uísque.
Não queimou sua parte da grana, apenas distribuiu uma parcela na forma de favores, de bonificações e de festas, de muitas festas. Furou bolhas ideológicas, desconheceu a polarização, encantou sem pudor. Durante um tempo, foi o melhor amigo de todos. Inclusive no Judiciário.
O celular de Vorcaro é uma versão moderna e tecnológica da Caixa de Pandora. Ao conhecer seu conteúdo, nos deparamos com os demônios que agora colonizam o noticiário e colocam em xeque a reputação do senhorio encastelado no poder.
No saldo do estrago de sua passagem pelo poder, ficou a exposição das vísceras do Supremo Tribunal Federal (STF), que hoje se obriga, em situação inédita, a discutir a conduta de seus próprios integrantes. A sessão constrangedora da última semana evidenciou uma fratura de credibilidade autoinfligida pela Corte. E não há nada mais danoso à percepção de integridade de uma instituição do que a ruína que vem de dentro dela. E isso serve também para a Procuradoria-Geral da República.
Já se sabia de parte do que veio a público. Por exemplo, a charutada londrina da qual participou Paulo Gonet. A imagem do evento, entretanto, materializou a evidente inadequação, ainda mais se for considerada a função que este cidadão ocupa. E o mesmo serve para o vídeo em que Alexandre de Moraes é flagrado embarcando num jatinho de propriedade do banqueiro. Aqui, com o agravante de, por meio do seu gabinete, ter negado o ocorrido. O desmentido a um magistrado da mais alta instância do Judiciário é sempre um agravante.
Gonet, Moraes, Mendonça, Fux, Nunes Marques, dentre outros, representam a institucionalidade. Evidentemente, têm direito à vida privada, mas a dimensão privada de suas relações é condicionada pela envergadura das atribuições que exercem. Quanto maior a função pública, maior a responsabilidade de evitar relações capazes de suscitar dúvidas sobre independência, imparcialidade ou conflito de interesses.
No Brasil, a função institucional passou muitas vezes a ser tratada apenas como fonte de privilégios e facilidades, quando, na verdade, deveria criar noção de responsabilidade. A toga não é uma licença poética, tampouco um escudo para se resguardar da lei que se alega proteger, mas o peso de uma investidura pública que deveria ser resguardada.
Vorcaro, diga-se, não precisou desvirtuar ninguém. Perscrutou a realidade política e institucional do país e fez a leitura de que tudo já estava devidamente desvirtuado. O Coringa teve muito mais trabalho.
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Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 22 de setembro de 2026
“Uma coisa é um país, outra um ajuntamento.” Os versos do poema “Que país é este?”, de Affonso Romano de Sant’Anna, ecoaram nas redes. Apesar da ressaca cívica, é bom constatar que o querido poeta sobrevive: Uma coisa é um país, outra um fingimento.
As ruas estavam tristes durante a semana. Muita gente reclamava e no final dizia:
— Desculpa o desabafo.
Não dá para queimar etapas. O momento é de raiva. Mas será preciso canalizá-la para alguma coisa. Se ficamos apenas com a raiva, ela pode nos envenenar. Nosso sistema judiciário é uma construção humana. Isso significa que podemos mudá-lo. Podemos considerar que o STF chegou ao fim da linha, encerrou um ciclo. O que fazer para iniciar outro?
Os políticos começam a falar de reforma do Judiciário. Muita gente capaz estuda e vive o Direito. Certamente os especialistas têm muito a dizer sobre um novo desenho. Mas isso não significa que não se possa envolver a sociedade.
Todos temos algo a dizer sobre o assunto. Não precisamos formular um sofisticado código de ética para rejeitar que os padrões de máfia sejam apresentados como modelo. Foi isso que Gilmar Mendes propôs ao afirmar que a máfia não permite que se exponha um colega, mesmo se ele estiver envolvido.
O poeta não se espantaria com uma fala dessas no STF: Há 500 anos caçamos índios e operários, há 500 anos queimamos árvores e hereges, há 500 anos estupramos livros e mulheres, há 500 anos sugamos negras e aluguéis. Mas o tempo passa, mesmo para um país mais lento. A sessão do STF foi vista por milhões de pessoas. Televisões nos bares, rádios nos táxis, estavam todos atentos. A linguagem não era das mais acessíveis. É raro ouvir o verbo desentranhar. Os argumentos também não eram cristalinos. Mas a maioria esmagadora percebeu o que estava por trás daquela encenação: o esforço para evitar que Alexandre de Moraes fosse investigado.
Em consequência desse psicodrama nacional, o país se tornou mais aberto para mudanças no Judiciário e se tornará mais ainda na medida em que o Supremo não consiga superar a crise e mantenha a ética da máfia que parece inspirar seus membros.
Na reunião em que aconselharam Toffoli a deixar a relatoria do caso Master, acabaram elogiando sua atuação. Era uma reunião secreta, apesar de ter vazado. Naquele momento, o estágio era proteger um juiz, apesar das denúncias. Hoje, a proteção de corruptos precisa de um pouco mais de esforço; na verdade, precisa que os ministros deem a cara a tapa. E eles deram, mostrando que estão dispostos a tudo para proteger Moraes.
De agora em diante, não há mais grandes mistérios sobre o STF. Outros ministros também se envolveram com o Banco Master — um homem com dinheiro pode seduzir grande parte da Suprema Corte. Isso aconteceu porque a cobiça já havia dominado o ambiente e não nos demos conta de sua progressão. Parentes advogando, viagens e mordomias no exterior, rodadas de uísque e charuto, alguns se tornaram milionários e se preparavam para ampliar sua riqueza.
Ministros costumam ser inteligentes e letrados. Seus interesses materiais não permitem constatar que um ciclo se fechou. Mas o que resta a uma Corte quando ela perde credibilidade?
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Chico Pinheiro recebe o escritor Marcelo Rubens Paiva, autor de vários livros, entre eles “Ainda estou aqui”, que ganhou o Oscar de melhor filme internacional em 2025. Marcelo fala sobre a ditadura militar que vitimou o seu pai, o deputado federal Rubens Paiva, sobre democracia, política, eleições e o avanço da extrema-direita.
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 20 de setembro de 2026
O mergulho do STF no descrédito
Um tribunal que se move por cálculo político ou blindagem de seus ministros não tem como ser respeitado como o árbitro da vida institucional do País. E isso é terrível para a democracia. Editorial do Estadão:
É triste constatar, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) não consegue mais ser visto como imparcial. É preciso dizer isso sem rodeios, sem a costumeira reverência que outrora um STF composto por ministros de genuína reputação ilibada merecia. O tribunal concebido para ser o árbitro confiável da vida institucional do País tornou-se um degenerado agente político. E o resultado disso é que pouca gente neste país ainda acredita em um STF isento, o que é terrível para a democracia brasileira.
Cada decisão exarada pelos senhores ministros é prontamente lida com desconfiança, sob suspeita de que, de forma sub-reptícia ou mesmo escancarada, atende a algum objetivo político, e não como um exercício imparcial da jurisdição constitucional. De uns anos para cá, tudo o que emana do STF passou a ser percebido por amplos setores da sociedade civil como produto de cálculo político e/ou peça de defesa de interesses particulares de Suas Excelências, ainda que mal traduzidos em linguagem técnica, por vezes claudicante.
Francamente. Um STF que se deixa rebaixar ao rés do chão da maneira degradante a que todos assistimos durante a sessão plenária do dia 15 passado corrompe o patrimônio simbólico do decoro e da imparcialidade, húmus de sua legitimidade.
Não se trata de um juízo apressado deste jornal, tampouco de uma única percepção a partir do espetáculo encenado naquela sessão, que livrou o ministro Alexandre de Moraes, ao menos por ora, de ser investigado pela suposta consultoria que teria prestado ao vigarista Daniel Vorcaro. A desconfiança resulta de um acúmulo de exorbitâncias de alguns ministros do STF ao longo dos últimos anos, que, a pretexto de terem “salvado a democracia”, arvoraram-se em semideuses e, como tais, vandalizaram a Constituição que deveriam defender. É revoltante a sem-cerimônia com que alguns se confundem com partes interessadas em disputas político-eleitorais e entregam-se a festins nababescos nos quais o mais venial dos pecados parece ser o conflito de interesses.
Como se nada disso bastasse, membros do Judiciário – e também do Ministério Público – entendem-se como casta a ser regiamente remunerada ao arrepio do teto fixado na Lei Maior. Às raias da sem-vergonhice, defendem essa condição desabridamente, em afronta aos contribuintes e aos mais comezinhos princípios republicanos. A profusão de penduricalhos que o STF nem finge mais conter aí está para afastar ainda mais a Justiça dos jurisdicionados. Mais uma vez: esse quadro de alheamento ao País é terrível para a democracia, sobretudo no Brasil, que só agora experimenta seu período mais longevo de garantia das liberdades cívicas sob a égide da Constituição de 1988.
Sem um Judiciário respeitável e sem um STF confiável como esteio de sobriedade e segurança jurídica e institucional, não há democracia que resista e, portanto, não há progresso do País. Os ministros da Corte certamente sabem disso, mas precisam deixar de ser cínicos e corporativistas, data maxima venia, e colocar seus interesses particulares à margem de suas atuações como servidores públicos da cúpula do Estado brasileiro.
A imparcialidade é um comando legal, mas é também a força moral do Judiciário. É o que o legitima aos olhos dos cidadãos, pois juízes não são autoridades eleitas. Isso só reforça a imperiosa necessidade de os juízes, sobretudo os ministros do STF, colocarem a mão na consciência e serem ainda mais sóbrios e criteriosos em suas relações e negócios particulares do que quaisquer outros servidores públicos. Hoje, porém, como sequer ansiar por isso? O que estarão pensando os juízes de primeiro grau de todas as comarcas do Brasil ao olharem para o alto e verem ministros do STF se comportando muitas vezes como se empresários, lobistas ou políticos fossem? Que exemplo têm dado Suas Excelências para continuarem sendo dignas do pronome de tratamento?
A ruína da imparcialidade deste STF que aí está é irreversível. Mas a solução virá, goste a Corte ou não. E virá de cima para baixo. Do povo para as instituições que lhe servem. Os representantes eleitos, mais cedo ou mais tarde, implementarão uma reforma do Judiciário e aprovarão o impeachment dos ministros indignos da toga – caso o STF não os afaste por conta própria – para que o Brasil tenha uma corte constitucional digna do nome.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de setembro de 2026
As desculpas de Cármen Lúcia
Ministra e muitos de seus colegas devem desculpas por falharem na única obrigação em que uma Suprema Corte não poderia ter falhado: garantir a vigência das leis e da Constituição. Fernando Schüler para o Estadão:
“Peço desculpas ao povo brasileiro, que talvez tenha esperado de mim uma postura diferente”, disse a ministra Cármen Lúcia, em um dos momentos mais curiosos da sessão do STF. Por um instante, imaginei que a ministra iria emendar algo como “desculpa pelos desvios éticos”, ou quem sabe “pela nossa recusa de investigar qualquer coisa”, ou ainda um “por estes sete anos de inquérito das fake news”. Mas não. As desculpas eram por “não ter ajudado a acalmar as coisas” no Tribunal. A ministra critica a “espetacularização” e produz ela mesma seu pequeno espetáculo. E é incrível que ele funcione.
De um bom comentarista, li que ela teria se solidarizado com o “povo brasileiro em seu sentimento coletivo de vergonha”. Sejamos honestos. Não há o mínimo consenso sobre o que causa “vergonha” na sociedade. 67% dos eleitores de Lula, segundo o PoderData, ainda esta semana, aprovam o ministro Alexandre de Moraes. O mesmo ministro que ainda há pouco era ovacionado em espetáculos musicais, em São Paulo, dito como a “Muralha” de nossa democracia e mesmo, isto em um grande jornal, como o principal responsável pela “libido nacional”.
Isto não é uma trivialidade. No Chile, ainda recentemente, o juiz Diego Simpértigue foi destituído da Suprema Corte por 43 a 0 no Senado por suas relações impróprias com advogados de empresas com interesses na Corte. Rapidamente, se formou um consenso na sociedade chilena de que aquilo era inaceitável, e o sistema de freios e contrapesos – representado pelo Congresso, se pôs em ação. Simpértigue foi destituído em 28 dias. No Brasil, este consenso simplesmente não existe. Não dispomos de um mínimo acordo sobre questões éticas fundamentais na sociedade. Isto explica o esdrúxulo truque da “equivalência” entre as condutas de Moraes e André Mendonça. Truque que divide a sociedade, no calor da polarização política, e serve de álibi perfeito para a infinita procrastinação de qualquer medida ética. Exatamente o que vimos nesta semana.
As cisões internas e o espetáculo de maus-modos de seus integrantes não são o problema do Supremo, como sugere a ministra. Se fosse isto, um bom curso de boas maneiras resolveria o problema. O problema central é o STF ter se convertido, ele mesmo, em um poder destituído de limites. Na prática, fora do sistema de freios e contrapesos da República. Foi assim quando, há dez anos, o País assistiu à Constituição ser “relativizada”, com a manutenção dos direitos políticos da presidente destituída, no impeachment. Foi assim em 2019, quando se criou o inquérito sobre fake news com base em um artigo do regimento da Corte falando em infrações cometidas na “sede” do Tribunal; foi assim quando a própria ministra mandou pelos ares a vedação à censura prévia, apoiando em 2022, a proibição do lançamento daquele documentário irrelevante sobre o atentado ao ex-presidente. Depois disso, vivemos nosso longo transe de exceção. As pessoas sem foro julgadas no Supremo, a censura prévia em larga escala, a quebra da imunidade parlamentar. E mesmo, de modo particularmente ridículo, do sigilo de fonte, por estas semanas. Definitivamente, o problema do Supremo está longe de ser o bate-boca, as referências à máfia, a enrolação sobre o tal “código de ética” e mesmo a procrastinação de um pedido de vistas sem sentido e igualmente bem “dramatizado”, de Flávio Dino.
O fato é que há um longo caminho à frente. O fórum Brasil Adiante, organizado pelo Estadão, identificou questões muito simples que nossas instituições – se tivessem alguma coragem – poderiam enfrentar. Uma delas é disciplinar as decisões monocráticas. A imagem da guerra de decisões entre os ministros, em direções opostas, à revelia de qualquer decisão colegiada, que deveria funcionar como regra na Corte. Isto vem de longe e tem ajudando a converter o Congresso em um poder algo irrelevante. Poder que aprova a lei da “dosimetria” e, ato seguinte, observa inerte esta mesma lei simplesmente ir para uma gaveta, por tempo indeterminado, por uma simples decisão monocrática no Supremo.
Não acho que a ministra ou muitos de seus colegas devam desculpas pela “intranquilidade” no País na última semana. Mas pela lógica de exceção criada no Brasil nos últimos anos. Não porque geraram algum “mal-estar cívico” na sociedade, mas porque falharam na única obrigação em que uma Suprema Corte não poderia ter falhado, que é garantir a vigência das leis e da Constituição.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de setembro de 2026
O STF exporta impunidade
Há três anos, Toffoli anulou monocraticamente as abundantes provas de corrupção da Odebrecht, e a decisão segue sem ir a plenário, com impacto em processos em diversos países. Editorial do Estadão:
Trinta organizações anticorrupção de 21 países pediram à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que cobre do Supremo Tribunal Federal (STF) uma resposta definitiva sobre as provas obtidas a partir do acordo de leniência firmado com a Odebrecht no âmbito da Lava Jato. Faz três anos que o ministro Dias Toffoli anulou monocraticamente as provas, e o caso ainda não foi levado a plenário para validação. Como resultado, recursos contra a decisão não foram julgados, com impacto nas condenações de envolvidos no propinoduto da Odebrecht em diversos países. É o Brasil exportando impunidade, por meio da irresponsabilidade de seu principal tribunal.
Como se sabe, a empreiteira, que subornou incontáveis políticos no Brasil, infectou países mundo afora com sua engenharia de propinas. Depois, o Brasil os ajudou a rastrear o dinheiro, fornecendo provas e cooperação. Agora, decisões tomadas em Brasília percorrem a mesma rota, invalidando essas provas, abortando a cooperação e oferecendo a corruptos no exterior munição para derrubar processos que o País ajudou a construir.
A Lava Jato revelou crimes reais, mas para isso cometeu irregularidades reais, que vulneraram condenações e precisavam ser sanadas. Mas Dias Toffoli, relator no STF de pedidos envolvendo provas da Odebrecht, foi muito além: com base em provas produzidas ilegalmente, a partir da ação de um hacker, o ministro acusou o juiz Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato de conluio, falou em “armação” contra o líder petista Luiz Inácio Lula da Silva e atribuiu à operação o uso de “tortura psicológica”, um “pau de arara do século 21”, para obter provas. O revisionismo se alastrou sobre pessoas, processos e evidências cada vez mais alheios aos supostos vícios. A lógica da contaminação fez terra arrasada de casos com confissões e colaborações homologadas pelo próprio STF, acompanhadas por advogados muito bem remunerados.
Garantias processuais valem mesmo para réus confessos, mas o vício de uma prova não envenena por mágica as demais. Para descartá-las, o tribunal precisa mostrar como o defeito chegou até elas. Pertencer ao universo da Lava Jato não basta para estabelecer essa ligação.
Os danos derivados desse entendimento são extensos. Tome-se o caso do ex-gerente da Petrobras Roberto Gonçalves, que foi condenado a mais de 17 anos por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Em 2024, a Segunda Turma do STF manteve sua condenação, inclusive com voto de Toffoli. Em 2025, o mesmo Toffoli anulou os atos do processo. Gonçalves foi solto e recebeu de volta R$ 26,5 milhões que haviam sido repatriados da Suíça.
A onda atravessou fronteiras. Em 2024, Toffoli declarou inválidas provas produzidas no Brasil e usadas no processo contra o ex-presidente panamenho Ricardo Martinelli. Outros países mostraram que as chicanas brasileiras encontram limites. No Peru, a decisão afetou o processo do ex-presidente Ollanta Humala, mas ele foi posteriormente condenado. No Equador, Toffoli invalidou provas usadas contra o ex-vice-presidente Jorge Glas. A Justiça local preservou sua condenação, apoiada também em confissões, testemunhos, perícias e documentos obtidos por outras vias. Se a prova independe do Judiciário brasileiro, os criminosos podem ser alcançados pelo braço da Justiça; caso contrário, não.
Em resumo, as engrenagens políticas brasileiras ajudaram a exportar corrupção; as engrenagens judiciais estão ajudando a exportar impunidade.
As irregularidades da Lava Jato precisavam ser resolvidas, não transformadas em salvo-conduto. E o custo dessa erosão da capacidade de responsabilizar os poderosos está longe de ficar relegado ao passado ou ao exterior. O escândalo do Banco Master voltou a testar a capacidade do Estado de investigar gente graúda e expôs relações promíscuas que chegam ao seio do próprio Supremo. É justamente nele que continua sendo acalentada a anomalia de uma decisão individual de alcance geral que há três anos produz efeitos, inclusive no exterior. Outros países talvez consigam preservar seus processos das nulidades fabricadas em Brasília. O vexame é terem de fazê-lo.
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Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 16 de setembro de 2026
STF: não há mais espaço para mágicas políticas
A crise do Supremo indica algo muito além de qualquer feitiçaria de gabinete em Brasília. William Waack:
Era autêntica a exasperação de Gilmar Mendes quando chamou de “aprendizes de feiticeiros” seus adversários dentro do STF. Em relação aos quais exibe o pior dos desprezos por parte de alguém que se julga o Grande Feiticeiro, que é o desprezo intelectual. Como assim malandrinhos com ficha corrida, crentes analfabetos em direito e fraquinhos sem pulso se atrevem nas artes da feitiçaria política?
O problema para o Mago é quando acaba virando um mágico de festinha infantil. Com truques previsíveis que funcionam apenas em ambientes restritos. Foi o que aconteceu na sessão extraordinária marcada para decidir o que fazer diante dos fatos que a Polícia Federal extraiu do celular de um vigarista implicando o colega de quadrunvirato Alexandre de Moraes.
O grupo viu como única chance de sobrevivência impedir qualquer decisão. Conseguiu o que queria a um preço altíssimo, que é o agravamento da crise de legitimidade do STF, a fusão dessa crise com uma eleição que o quarteto tenta, mas não consegue até aqui decidir a favor de Lula e, o mais grave de tudo, contribuir para um cenário no qual surgem palavras como anomia e desobediência civil.
A crise do Supremo indica algo muito além de qualquer feitiçaria de gabinete em Brasília. Estamos provavelmente vivendo o fim de um ciclo longo na política brasileira, iniciado no período entre redemocratização e a proclamação da Constituição de 1988. A implosão do STF é ao mesmo tempo causa e consequência de um Executivo débil, um Congresso atomizado e de baixíssima representatividade e com os Três Poderes brigando entre si por migalhas de orçamento.
Ao contrário do que aconteceu na saída do regime militar, não há lideranças capazes de algo remotamente parecido com o significado da palavra espanhola “concertación”, que é conduzir forças opostas a algum tipo de convergência pelo bem comum. Começa pelo próprio Supremo, onde o que havia de “feiticeiros” acabou num grupo de ilusionistas que se acham capazes de convencer o público a não ver o que está vendo.
Ou seja, o STF passou a simbolizar o que as pessoas enxergam de errado, como apropriação das instituições de Estado em benefício próprio, incluindo corrupção. Nem se trata de julgar se essa percepção é “justa” ou “correta”, mas de constatar um fato político e de raízes sociais de enorme alcance e gravidade, pois não há convívio social possível sem um Judiciário forte e com legitimidade.
Fim de um ciclo histórico significa assumir que alguma outra coisa virá, mas não se consegue vislumbrar neste momento exatamente o que. Nem se a sucessão de um modelo evidentemente esgotado por algum outro ocorrerá de forma ordeira. Exatamente o contrário do que pretendem feiticeiros dominados pela arrogância de achar que conduzem os fatos.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 15 de setembro de 2026
Hoje não passa de um dia perdido no tempo. Mas pode se tornar uma data histórica, um 15 do 9 nos arquivos nacionais. Tudo depende do que acontecer no Supremo Tribunal Federal (STF).
A hipótese inicial é iniciar uma investigação a respeito das ligações do ministro Alexandre de Moraes com o Banco Master. O material já é conhecido, passa por um contrato de R$ 130 milhões entre Vorcaro e a família Moraes e mais de 50 mensagens trocadas pelo banqueiro com o ministro às vésperas da prisão.
Outros ministros, como Dias Tofolli, também estão envolvidos. Mas o pedido de investigação é específico sobre Moraes. E há outro sobre André Mendonça.
Podemos esperar muita confusão, troca de acusações, manobras dispersivas, dessas que eletrizam a imprensa, mas não levam a lugar algum. Se acontecer alguma coisa hoje, será apenas um começo. Os problemas do STF não se esgotam no comportamento de Moraes, mas demandam uma reforma profunda na instituição.
Pelo menos dois problemas precisam ser resolvidos. Um deles é a politização exacerbada da Corte. Os candidatos, em caso de vitória, já contam com a possibilidade de indicar quatro amigos fiéis nos próximos quatro anos e, com isso, asseguram a hegemonia sobre a Corte, matando a demora aos poucos. O que esperamos deles é uma discussão séria sobre o mecanismo de indicação de ministros.
O outro problema da Corte, bem diagnosticado por um jornal alemão, é a cobiça. É o desejo de ampliar a economia pessoal por meio dos ganhos familiares, que, legalmente, podem advogar junto ao STF. Entram nesse pacote as viagens internacionais patrocinadas por empresas milionárias com interesses em processos em julgamento.
A Constituição define as condições de escolha de um ministro. Nem sempre foram levadas em conta por um Senado relapso. Se tudo se encerrar apenas com uma investigação sobre Moraes, o serviço estará incompleto.
Quando surgiram as denúncias, cheguei a defender o fim do Supremo tal como existe hoje. Para variar, apanhei, e houve gente que defendia até a prisão para uma proposta tão audaciosa.
Mas a denúncia foi esquecida e, felizmente, também se esqueceram de mim. Com a nova revelação das mensagens, aconteceu o que meu amigo Marinho Calestino chamava “a volta do retorno”.
De novo, se deram conta da gravidade do problema. Mesmo Tofolli, que andava meio escondido, voltou à cena, pois a polícia desconfia de que guarda R$ 34 milhões nas Ilhas Virgens, fruto de uma negociação com Vorcaro. Quando a PF fez um relatório sobre Tofolli, o documento foi classificado como lixo pelos ministros. Apenas tiraram a relatoria do caso Master das mãos dele, que continuam livres para sentenças estapafúrdias em benefício de grandes empresas.
Hoje, portanto, é um dia em que podemos começar a limpar tudo o que varremos para debaixo do tapete. A opinião pública nacional foi despertada. A repercussão nos jornais estrangeiros também não é nada favorável à imagem do Brasil.
Aparentemente, estamos diante de um processo irreversível. Não subestimo a capacidade nacional de empurrar com a barriga. Mas os ventos internacionais soprando para a extrema direita nos convidam a cuidar da nossa democracia, antes que seja tarde demais.
Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br