sábado, 9 de fevereiro de 2019

Os vendilhões do Congresso, por Carlos José Marques

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Publicado originalmente no site da revista ISTOÉ, em 08/fevereiro/2019

Os vendilhões do Congresso
Por Carlos José Marques

A cena rocambolesca não vai sair tão cedo do imaginário do brasileiro – e é bom que ela apareça repisada à exaustão para, quem sabe, um dia ser totalmente varrida da realidade do Congresso, por absoluta repulsa geral. Renan Calheiros, o alterego do fisiologismo escrachado, um cacique parlamentar de práticas deletérias, que já lhe renderam ao menos 14 ações por improbidade, cinco pedidos de cassação sucessivos, denúncias a dar com o pau, exibiu-se aos berros no Senado tentando fazer valer a sua intolerável artimanha de conluio com os cupinchas de sempre, antigos controladores da Casa. No afã de levar a peleja na marra, bradou impropérios, postergou votação, ameaçou, fez o diabo. Estava ali montado um show de horrores, um espetáculo digno apenas de colegiais secundaristas que se esgoelam até em bafo de figurinhas. De senadora surrupiando pasta da plenária a uma patota que articulava o esquema para melar a eleição, passando por distribuição a rodo de 300 cargos, suborno mesmo, na calada da noite, e apelação ao STF – que, nas mãos do presidente Toffoli, prontamente soltou uma liminar pretensamente redentora das intenções do coronel alagoano -, viu-se de tudo naquela mixórdia. Até mesmo trapaça. Criminosa trapaça, diga-se de passagem, que precisa ser exemplarmente apurada, punindo os responsáveis. Exatos 81 senadores produziram a mágica de encaminhar 82 votos à urna da bancada diretora. Um gaiato(a) aproveitou o pardieiro para fazer mais molecagem. E a sessão sem fim, que entrou sábado adentro, ganhou contornos de odisseia. Onde já se viu? Não se aprendeu nada com a indignação, repetidamente manifestada, até nas urnas, pelos brasileiros? Arruaceiros do legislativo – sim, eles ainda existem, e em bom número – quiseram espinafrar ainda mais a desfigurada imagem congressual. Sob que pretexto? O do controle do sistema para angariar vantagens, ora bolas! Foi sempre assim. Natural para quem passou décadas se lixando para a opinião pública, sem maiores consequências. A cambada de oportunistas, que vive do compadrio, do patrimonialismo e que só entende a representatividade popular como instrumento para proveito próprio, em completo desalinho com o interesse nacional, tenta se virar corriqueiramente na base do suborno, dos achaques, da corrupção sistemática. É da natureza dessa casta. O que se provou ali por esses dias é que os vendilhões do templo continuam na ativa. Vagueiam com o fervor das velhas práticas, não apenas nos bastidores. Exibem-se. Não temem a exposição, vexatória obviamente, das gambiarras que orquestram para tomarem o poder a qualquer custo. Querem se aboletar na cadeira de controle e fazer dela um refúgio inexpugnável, de onde emitem as ordens e traçam, à própria maneira, fora dos cânones republicanos, o destino do País. Renan pensou que a sua pretensa eleição ao comando seria um passeio. Amargou acachapante derrota, nessa que foi a sua quinta candidatura, e arregou da disputa com ares de quem urdia vingança. É bom que alguém avise a ele: Renan, seu tempo tirânico acabou! Hora de perceber, aceitar e recolher as armas. Quem ainda não captou a mudança de ares nos humores da população está fatalmente fadado ao ocaso absoluto e eis um exemplo. A ascensão do neófito Davi Alcolumbre, outro dignitário do chamado baixo clero, não é a certeza de novas e louváveis atuações. Alcolumbre foi ungido na base da opção restante, no lombo de um esquadrão de estreantes que deram um sonoro não à altivez ameaçadora do coronel nordestino. Diversos postulantes azarões, como ele, já tiveram a mesma oportunidade, ocuparam cargos de destaque no universo legislativo com o apoio da maioria e sucumbiram às tentações mesquinhas de manobras condenáveis. Que esse Davi da nova era aprenda com os erros dos antecessores e entenda a razão e a dimensão da coroa que herdou. Quanto a Renan, abatido, deverá se transformar em um espectro dele mesmo. Queira ou não. Típico de vendilhões.

Texto e imagem reproduzidos do site: istoe.com.br

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Senador Alessandro Vieira

Alessandro Vieira: existem problemas gravíssimos no Judiciário nacional

Publicado originalmente no site JLPOLÍTICA, em 06 de Fev de 2019

Alessandro Vieira vê como “bem apresentado” seu “cartão de vista” na 1ª semana de Senado

Coluna Aparte, com Jozailto Lima

Ninguém que analise política com isenção e um mínimo de justiça pode deixar de reconhecer que a estreia do senador Alessandro Vieira, Rede/PPS, na sua primeira semana de Senado, foi marcada por traços positivos.

Alessandro Vieira causou, como diriam os colunistas sociais. Protagonizou, como diria o termozinho xarope da moda dos que usam o feioso adjetivo empoderado, ou o substantivo empoderamento, da mesma casta.

Desde a sexta e o sábado, Alessandro Vieira enfrentou a eleição de Renan Calheiros à Presidência do Senado, foi parar na cabeceira da Mesa da Casa por um bom tempo como escrutinador e ali fez apartes pertinentes. Venceu, ao ver a vitória de Davi Alcolumbre, DEM.

No começo desta semana, apresentou proposta de uma CPI da Toga, tomou um sopapo de titela de um membro do STF numa nota em off numa coluna da Folha de S. Paulo, e promoveu um pisão no pé do governador Belivaldo Chagas, PSD, por, segundo ele, omissão perante os interesses de Sergipe em Brasília.

Sem grandes mesuras, é lícito dizer que a estreia de Alessandro no Senado guarda simetria de surpresa e importância com a sua espantosa votação de mais de 474 mil votos em outubro. Alessandro Vieira não está nem aí para notas como a da Folha e se passa por mais feliz do que um pinto no lixo.

“Acredito que aqui no Senado os testes serão diários. Vamos ser testados todos os dias e, claro, não vamos ganhar todas. Mas entendo que nosso cartão de visita naquela sexta, dia 1º, e no sábado, ficou bem apresentado”, diz ele, em conversa exclusiva com a Coluna Aparte. Vale a leitura.

Aparte - Senador, qual o balanço que o senhor faz dessa sua quase uma semana no Senado?
Alessandro Vieira - Na medida em que a gente conseguiu derrotar a candidatura de Renan Calheiros à Presidência do Senado, eu a considero positiva.

Aparte - Como o senhor mede as suas intervenções no processo?
AV - Acredito que as minhas posições, como um escrutinador, na medida das nossas necessidades de garantir que a eleição transcorresse de forma transparente, foram também positivas. Pudemos atuar de uma forma verdadeiramente transparente e tomamos providências necessárias, juntamente com outros senadores que também são estreantes, como o Capitão Styvenson, do Rio Grande do Norte, a Leila do Vôlei, do Distrito Federal, e a juíza Selma Arruda, do Mato Grosso. Essa turma exerceu um certo protagonismo para garantir que a votação tomasse o rumo certo.

Aparte - O senhor considerou tudo aquilo uma espécie de teste de fogo, tendo oportunidade de peitar figuras experientes, como a do senador Esperidião Amim, do PP, de Santa Catarina?
AV - Sim, e acredito que aqui no Senado os testes serão diários. Vamos ser testados todos os dias e, claro, não vamos ganhar todas. Mas entendo que nosso cartão de vista naquela sexta, dia 1º, e no sábado, ficou bem apresentado.

Aparte - O senhor andou se queixando em áudio de WhatsApp de uma certa ausência do Governo de Sergipe em eventos de interesses gerais do Governo Federal em Brasília. Foram só palavras ao vento ou isso chegou ao governador Belivaldo Chagas?
AV - Chegou, sim. A minha queixa foi relativa ao convite do ministro da Justiça, o Sérgio Moro, para a apresentação do Projeto de Lei Anticrime, que impacta a segurança. Veja: ali o Estado de São Paulo, que tem uma das melhores seguranças do país, estava na primeira fila. Mas Sergipe não.

Aparte – E isso equivale ao quê?
AV - A minha visão é de que, com certeza, Sergipe erra ao estar ausente. Quem tem interesse de resolver seus problemas, se mobiliza, se esforça e participa. Eu acho que existe um espaço para que a gente possa ajudar Sergipe. Mas as pessoas que estão em postos estratégicos precisam ter boa vontade.

Aparte - Em síntese, a que se destina a CPI da Toga que o senhor está articulando no Congresso Nacional na esfera do Poder Judiciário?
AV – O objetivo é o de garantir que a gente possa levar essa transparência e essa força de investigação a um palácio que falta isso no Brasil, que é o Palácio da Justiça. As formas de modernização devem chegar a esse Poder também.

Aparte - Mas o que há de errado com o Poder Judiciário?
AV - Ali existem problemas gravíssimos, como o de pessoas que entram com processos e demoram de três a quatro anos e não têm uma resposta, e de outras que entram e têm resposta em 30 minutos. Embora haja muitas fases que precisam de análises, a diferença de tempo é muito grande. E é preciso apresentar propostas de mudanças nesses pontos de vista subjetivos e processuais para impedir que a justiça se processe lenta.

Aparte – É razoável imaginar que no Judiciário haja negócios não-republicanos com sentenças finais?
AV - Isso é uma coisa que precisa ser apurada, mas o que se tem são casos comprovados pelo país afora de que qualquer tipo de atividade humana está sujeita a esse tipo de problema. O que nós queremos é colaborar para que se chegue à modernização e à transparência de um recanto a que isso não chegou ainda.

Aparte - O senhor não acha que a ação do Poder Judiciário no Brasil, sob a Lava Jato nos últimos 4 a 8 anos, tem uma herança muito positiva para a sociedade?
AV – Acho, sem sombra de dúvidas, e isso se consolida nos tribunais superiores. A justiça em primeira instância tem sido parte muito ativa dessa onda moralizante.

Aparte – O senhor considerou grosseria ou extemporaneidade a comparação feita nesta quarta, 6, na coluna Painel, da Folha, do senhor ao senador Demóstenes Torres por um ministro do STF -  com ele querendo dizer que Demóstenes terminou caindo depois na desgraça da corrupção?
AV - Cada um tem seus parâmetros e paradigmas. Prefiro pensar como Rui Barbosa, segundo quem a pior ditadura que existe é a do Judiciário. É preciso paciência: cada um lida com o que tem.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

E agora?, por Fernando Henrique Cardoso


Publicado originalmente no site Brasil El Pais, em 3 de fevereiro de 2019 

E agora?

É preciso reconstruir os laços de confiança entre a sociedade e o poder, o que requer liderança e ação institucional

Por Fernando Henrique Cardoso 

Fazer campanha é uma coisa, governar é outra. O novo governo mal começou, por isso tenho sido cauteloso ao falar dele. Dei algumas entrevistas na França e participei de discussões. Em um diálogo na Maison de l’Amérique Latine sobre o último livro de AlainTouraine quatro ou cinco ativistas pertencentes a um “coletivo” levantaram uma faixa. Nela se lia: “Lula livre!” e algo sobre os “golpistas”. Como não fui eu quem mandou prender Lula, foi a Justiça, nem jamais participei de golpe algum, vi o “ato” com fleuma. Mas, de ato em ato, se vai formando no subconsciente das pessoas e da mídia a convicção de que houve um golpe no Brasil que destituiu Dilma Rousseff. Estaríamos agora, com a eleição de Bolsonaro, caminhando para o fascismo... As perguntas feitas por alguns jornalistas tinham este pano de fundo. Que o Governo é “de direita” é certo, assumidamente. Que haja fascismo, só com má fé. Os que ouviram na TV Globo as declarações do general Mourão, podem eventualmente discordar, mas nada há de fascismo nelas.

No governo existem tendências autoritárias e gente que vê fantasmas no “globalismo”. Também há pessoas que, contra os supostos males da “ideologia de gênero”, advogam que meninos usem roupas azuis e meninas, cor-de-rosa. Mais grave, existem pessoas do círculo familiar do presidente que parecem ter relações bem próximas com as milícias cariocas. Já houve quem dissesse, e é certo, que a democracia é como uma planta tenra, precisa ser regada todos os dias. Cuidemos, pois, para evitar o pior. Que a essas tendências se oponham outras, abertamente democráticas.

O Governo atual é consequência do medo (da violência que se espraiou), do horror à corrupção política (a Justiça e a mídia mostraram que ela é epidêmica) e da ansiedade pelo “novo”. Que temos culpa no cartório, os do “antigo regime”, é inegável. Se não culpa pessoal, culpa política. Neste caso, de pouco adianta bater no peito.

É preciso reconstruir os laços de confiança entre a sociedade e o poder, o que requer liderança e ação institucional. Não parece que o presidente atual tenha as qualidades para tanto. Mas também as oposições estão em jogo: se simplesmente se opuserem a tudo ou se aderirem acriticamente ao governo, pobre democracia.

O PSDB precisa reconhecer que perdeu feio e analisar o porquê disso, bem como atualizar-se. Será capaz? Não sei. O mundo mudou muito, a própria “social-democracia” é datada. Ela correspondeu ao que de melhor poderia haver nos marcos do capitalismo industrial, ao longo do século 20: a conciliação entre “a lógica do capital” e os valores da liberdade e da igualdade, do ideal democrático. A expressão dessa conciliação foram os Estados do Bem-Estar construídos nos países industriais avançados, nos quais se inspiraram líderes e partidos latino-americanos que chegaram ao poder depois do predomínio do autoritarismo na região.

A resposta aos novos desafios é mais difícil — não só no Brasil e na América Latina, também nos “países centrais” — do que foi a resposta socialdemocrata na época do desenvolvimento capitalista urbano-industrial. Como dar ocupação e renda à maioria da população em economias globalizadas em que o aumento de produtividade dependerá cada vez menos de mão-de-obra não especializada e mais de conhecimentos, habilidades, capacidades de adaptação e invenção que podem ser oferecidos por trabalhadores especializados ou máquinas inteligentes? Mesmo que se possa assegurar uma renda mínima decente a todos, como resolver a questão da ocupação das pessoas marginalizadas do mercado de trabalho? São questões para as quais não existem respostas prontas. Mas tampouco o liberalismo econômico as tem. É ilusão acreditar que o crescimento da economia contemporânea solucionará por si os novos desafios da “inclusão social”.

E nós aqui, vamos empurrar a questão da equidade para debaixo do tapete e rezar para que o ”mercado” resolva tudo? É a tal tipo de visão que os socialdemocratas vão aderir? Ou os setores da sociedade fortemente comprometidos com a democracia, com as liberdades e com ideais de maior igualdade e dignidade humana terão forças para atualizar o ideário e abrir caminhos novos? A ver... É este o enigma que nos espera. Diante dele, xingamentos e conceitos historicamente esvaziados (como o de fascismo) são insuficientes tanto para explicar o que ocorre na sociedade quanto para apontar os rumos do futuro.

Nessa falta de rumos tanto o governo como as oposições estão enredados. Até o momento a agenda governamental é a da campanha: bandido bom é bandido morto; cadeia para os corruptos; adesão a outro pensamento único, o de Trump, e assim por diante. Mas a solução para os problemas da criminalidade, da violência, da corrupção, do lugar do Brasil no mundo não admitem respostas singelas.

É preciso retomar o ritmo positivo da economia, o que depende de equilibrar as contas públicas e assegurar a solvência do Estado. Por isso, entre as múltiplas questões em pauta, a reforma da Previdência prima. Seu andamento depende não apenas de coordenação política no Congresso, uma tarefa complexa, mas também de o Governo definir um rumo claro a seguir e convencer a sociedade de que esta reforma é um passo necessário. Não se põe em marcha tal processo sem uma visão convincente sobre para onde se quer conduzir o país.

Esse desafio é não só do Governo, mas do país. Portanto, as oposições têm papel em seu encaminhamento e solução. Jogar fora a “pauta social” e substitui-la por outra, “econômica”, não nos conduzirá pelo bom caminho. Aderir ao Governo, para obter vantagens políticas repugna ao eleitorado. Mantenhamos nossas crenças, tomemos posições claras, sem adesismo ao Governo nem irresponsabilidade com o país. Sobretudo, imaginemos, critica e criativamente, como atualizar o ideário da socialdemocracia, cujas fronteiras não se limitam ao PSDB.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Um espetáculo grotesco

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Publicado originalmente no site do CINFORM, em 4 de fevereiro de 2019

EDITORIAL: Um espetáculo grotesco

Da Redação
    
Pega! Retire-se! Canalha! Usurpador! Desça e venha buscar! Gritos, empurrões!

Não – caro leitor ou querida leitora – não foi briga de torcida no campo de futebol; não foi briga de cachaceiros na porta do cabaré; tampouco foi intriga de bêbados no bar da esquina.

Essa baixaria foi promovida pelo egrégio colégio de senadores da República, enquanto o palco foi o outrora altivo Congresso Nacional. O objeto que motivou a trama também não foi uma disputa pela puta mais bonita da zona, foi o cargo litúrgico de presidente do Senado, o 4º mais importante na combalida hierarquia do País.

Perplexos, telespectadores demoravam a assimilar exatamente o que ocorria, entre risos cínicos de alguns senadores, que se alternavam com outros sardônicos ou odiosamente retorcidos, gritos aos microfones, dedos em riste pra lá e pra cá… uma verdadeira desgraça.

O que esperar desse nobre colegiado, que consome bilhões de reais do Erário, quando se sabe exatamente o que está em jogo? Daqueles que se digladiam com tanta ferocidade, contam-se nos dedos de uma mão alguns que estejam, de fato, alinhados com os anseios da população espoliada por essa mesma classe política.

O que salta aos olhos é o interesse de blindar canalhas que vivem de sugar os ativos do Estado, com objetivos escancarados de se perpetuarem no poder, eles próprios e os seus apaniguados.

Nos meandros deste fim de semana tão conturbado, em que até o Supremo foi convocado na madrugada, para somar esforços, esboçou-se um traço de reação, de resistência, ainda que isso não determine mudanças no comportamento do Congresso, mas, pelo menos, renovam-se as esperanças pela troca de velhos e carcomidos nomes, que mais pontuavam nas crônicas policiais do que na lavra da boa política.

Essas hienas escancaram os dentes rindo da virtude e da honra, são seres das trevas, acostumados à lama da corrupção, essa mesma que dizimou mais de 300 vidas em Brumadinho, vítimas que foram, ninguém duvide, primeiramente desses parlamentares furtivos, que camuflam processos, e que fazem isso em troca de milhões desviados da produção, utilizando-os para alimentar a roda da bandidagem que assola o Brasil. Os sinos dobram pelos mortos da barragem, enquanto congressistas fazem a única coisa que fazem bem: brigam por mais poder.

Texto e imagem reproduzidos do site: cinform.com.br

domingo, 3 de fevereiro de 2019

O Que é Ser de Direita, por Stephen Kanitz


Texto publicado originalmente do Blog kanitz, em 02/02/2019

O Que é Ser de Direita
Por Stephen Kanitz

Ser de direita é assumir responsabilidade por si, por sua família, por seus vizinhos e por sua comunidade.

Vou dar um exemplo.

Vinte anos atrás eu paguei o cursinho de um jovem porteiro do meu prédio.

Ele me prometeu devolver um dia, e eu lhe disse para ficar rico, e fazer o mesmo com algum jovem que ele achasse promissor.

“Então eu vou ajudar dois jovens, assim isso vira uma reação em cadeia.”

Vinte anos se passaram, e ele me visitou no Natal trazendo um presente.

Ficara rico, montara um escritório de advocacia bem sucedido, tinha uma carteira de ações como reserva financeira, e não parava de me agradecer por tudo que eu fizera.

“Calma, eu só paguei o seu cursinho, o resto foi você que fez.”

Aí que ele contou o que realmente fez a diferença.

Quando ele me trazia o boleto de pagamento do cursinho, nós conversávamos por alguns minutos, talvez meia hora, e era quando eu lhe dava conselhos de vida.

Jamais comprar a prazo, tenha sempre uma poupança, escolha bem sua esposa, e assim por diante.

Foram essas dicas que ele estava agradecendo, não o dinheiro do cursinho.

E é essa a tragédia da Esquerda no mundo inteiro.

A Esquerda ensina a odiar a Direita.

A destruir as pessoas bem sucedidas da Direita, “morte à burguesia”.

Privando assim os pobres de um contato mais comunitário com as pessoas mais bem sucedidas da sua vizinhança.

Pessoas bem sucedidas adoram ensinar e contar os segredos do sucesso, mas nenhum pobre pergunta.

Nenhum professor de Esquerda ensina a ser bem sucedido, a não ser cobrar “direitos” dos outros.

A Esquerda quer que o pobre só ouça um funcionário público, um professor ou as instruções contidas no manual marxista.

Obviamente eu estou falando da Direita Comunitária, a Direita que pensa nos outros e não somente em si, como a maioria dos Liberais.

A Direita Comunitária é aquela que se incomoda com a pobreza ao lado, com as escolas do bairro, com os pichadores vindos dos bairros vizinhos, com a segurança do bairro, com seus funcionários, como o porteiro do prédio.

Texto reproduzido do blog.kanitz.com.br

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Melhor assim, por J.R. Guzzo


Publicado na edição impressa da EXAME e no Blog Fatos

Melhor assim
Por J.R. Guzzo

A vida de presidente de país subdesenvolvido tem mais espinhos do que rosas, como é bem sabido, e um desses espinhos é o Fórum Econômico Mundial de Davos. Um chefe de governo da Alemanha ou da Austrália, por exemplo, vai lá quando os seus assessores julgam conveniente que ele vá, cumpre em 24 horas, ou menos, o programa definido por eles e volta para casa. Não lhe passa pela cabeça apresentar alguma demonstração concreta da possível utilidade pública de sua viagem aos Alpes da Suíça, e menos ainda ser julgado pelos “resultados” que obteve. Já o chefe de governo de um país tipo Brasil, digamos, tem de “performar”, como gostam de dizer os executivos de hoje em dia. Começa a ser cobrado antes de desembarcar em Davos, e não tem mais sossego até esquecerem do assunto uns dias depois de sua volta à Brasília. Quantos bilhões de dólares em investimentos ele conseguiu atrair para a economia brasileira? “Interagiu” direito com os líderes mundiais que estavam ao seu redor? Foi elogiado pelos sábios das ciências econômicas, políticas e sociais presentes? Já é muito difícil, em condições normais de temperatura e pressão, atender às expectativas da banca examinadora. Se o presidente da República se chama Jair Bolsonaro, então, como é o caso no presente momento da nossa história, aí você já pode esquecer: vai voltar de Davos com um zero no boletim, seja lá o que tenha feito ou deixado de fazer durante sua participação no evento.

Bolsonaro, por tudo o que se disse dessa sua estreia no cenário internacional, não conseguiu acertar uma. Levou para Davos uma comitiva pequena demais, o que, segundo a crítica, mostrou o seu pouco caso com a grandiosidade da conferência. Ficou num hotel excessivamente barato, o que seria um desprestígio para a majestade do Estado brasileiro. Foi almoçar num bandejão do centro da cidade, por 19 francos suíços; foi condenado pela prática de “demagogia barata”. Pior ainda: causou, potencialmente, prejuízos econômicos de valor inestimável para o Brasil, já que deveria ter aproveitado a hora do almoço para levar “grandes investidores”, etc., a algum restaurante de primeira classe e, assim, fechar negócios vitais para o interesse público nacional. Que investidores? Que negócios? Não foram fornecidas informações a respeito. Seu discurso, de oito minutos, foi acusado de ser “muito curto”, sem que os inquisidores especificassem qual seria a duração correta, em sua avaliação, da fala presidencial. Quinze minutos? Vinte? Meia hora?

O conselho de sentença se manifestou particularmente chocado com o que considerou a “superficialidade” das palavras de Bolsonaro. Não esclareceu, em nenhum momento, qual o nível de profundidade que o discurso deveria ter atingido, nem fez qualquer comparação com os discursos dos quatro outros presidentes brasileiros que foram a Davos ─ Fernando Henrique, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer. O que teria qualquer um deles dito de útil, inteligente ou inovador para escapar da reprovação por “superficialidade”? De Fernando Henrique ninguém se lembra mais nada. Lula falou que os “países ricos” deveriam se comportar melhor com os países pobres, ou alguma coisa com esse grau de originalidade. Dilma, na prática, entrou muda e saiu calada ─ o que com certeza foi uma grande sorte para todos, levando-se em conta as coisas prodigiosas que costuma dizer a cada vez que abre a boca para falar em público. Temer revelou que era importante “fazer a reforma da previdência” ─ o que, francamente, não impressionou ninguém pela profundidade. Em suma: nada que se possa aproveitar nestes últimos 25 anos. Mas como Bolsonaro é Bolsonaro, sua participação foi julgada “um fiasco histórico”.

Tomando em consideração isso tudo, a melhor coisa que Bolsonaro fez em Davos foi não ter comparecido à entrevista coletiva à imprensa que estava no programa ─ e na qual só iria receber perguntas com o teor de qualidade mental que se percebe acima. Com uma cirurgia altamente complicada para dali a três dias no Hospital Albert Einstein (tanto que acabaria tendo 7 horas de duração), preferiu repousar um pouco. O público não perdeu absolutamente nada com a sua decisão. O presidente poupou seu tempo e saúde. Melhor assim.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/J. R. Guzzo.

Chega das mesmas caras com as mesmas práticas


Publicado originalmente no site JLPOLÍTICA, em 01 de fevereiro de 2019

Chega das mesmas caras com as mesmas práticas 

Por Alessandro Vieira (Senador).

Os brasileiros deram nas últimas eleições um recado claríssimo para os políticos tradicionais: chega das mesmas caras, com as mesmas práticas, condenando o país ao eterno atraso.

Dezenas de figuras notórias foram ejetadas da vida pública, muitas delas aguardando a próxima visita do camburão da Polícia Federal. No Senado, 47 novos parlamentares foram eleitos, na maior renovação da história.

O primeiro desafio imposto é a eleição do presidente da casa, e os milhões de eleitores que apostaram na esperança da mudança aguardam respostas.
O MDB, partido de maior bancada, por apertada margem de votos, virou as costas para a renovação e apostou no extremo oposto: Renan Calheiros. Presidente do Senado em 4 outras oportunidades, alvo de mais de uma dezena de investigações, parceiro de governos diversos. Não se trata de questionar a pessoa do senador alagoano, mas sim de apontar o paradoxo da sua perenidade em tempos de mudanças.

A sociedade vai cobrar e a história terá o registro do que fizeram os depositários da esperança de renovação em sua primeira batalha.

Da minha parte, no primeiro dia em que piso no Senado Federal na condição de representante do pequeno estado de Sergipe, só cabe fazer exatamente aquilo que esperam os eleitores, exatamente aquilo que afirmei em toda a campanha, exatamente o que fiz em toda a minha vida: lutar para que as coisas mudem de verdade no Brasil.

Não voto em Renan Calheiros. Não voto em ninguém com seu perfil.
Até o último instante estarei buscando apoiar um candidato que possa vencer a disputa e garantir a alternância no comando da casa.
O resultado da eleição saberemos nesta sexta, mas, independentemente dele, sei que cumpri o meu dever.

E a história vai registrar isto.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

A herança de Caim, por Mino Carta


Publicado originalmente no site da revista CARTA CAPITAL, em 28 de janeiro de 2019

A herança de Caim
Por Mino Carta

Segundo a “doutrina Damares”, descendemos do vilão primevo, enquanto Olavo de Carvalho informa que o Sol gira em torno da Terra

E Galileo Galilei disse: “Eppur si muove”. Bertolt Brecht já os escalou na ribalta. Vejo-o voltar-se para a plateia, com expressão matreira para murmurar um trovão manso: “E, no entanto, move-se”. Falava da nossa Terra, processado por heresia pela Inquisição, no melhor estilo de Sérgio Moro, que pretendia o planeta no centro do universo, enquanto o Sol girava ao seu redor.

Pergunto aos meus resignados botões se o guru do presidente Bolsonaro, Olavo de Carvalho, e a ministra Damares percebem a diferença das estações, ao menos entre calor e frio. Ora, ora, respondem, felizmente eles não dispõem de tempo para se interessar por fenômenos desimportantes, têm mais para pensar. Aqui no meu canto, ocorre-me um grego chamado Tales capaz de medir de cabeça a distância entre a Terra e a Lua por ocasião de um eclipse. Constatou então que planeta e satélite não eram planos e errou por muito pouco no seu cálculo, algo em torno de 10 mil quilômetros, uma bagatela diante dos 360 mil apurados com o emprego de instrumentos modernos. Tales, de Mileto, nasceu 624 anos antes de Cristo.

Há quem diga que a vida é um sonho e haver mais mistérios entre o céu e a terra do que possa imaginar a nossa vã filosofia. Figuras como o inspirador presidencial e a ministra abençoada pela visão de Jesus em um pé de goiaba pertencem à categoria dos seres humanos imunes ao contágio da vã filosofia. Verifico que nesta edição Nirlando Beirão das alturas do QI dirige aos leitores umas tantas perguntas a respeito do criacionismo, certamente sugeridas por seu infatigável espírito investigativo e melhor conhecimento das questões ali aventadas.

Não tenho perguntas a acrescentar ao questionário, a não ser uma constatação inevitável. Expulsos do Paraíso Terrestre para ganhar a consciência de sua finitude e, em geral, dos riscos da vida, Adão e Eva põem no mundo um filho bom e outro mau. Este, Caim, mata Abel. Nirlando pergunta: quem foi a mulher para dar continuidade à estirpe? Deu-se, obviamente, o primeiro incesto. Permito-me ir além: descender de Caim não é um trunfo, somos os herdeiros do vilão primevo, integral e absoluto. Aterradora conclusão, embora explique diversos aspectos da natureza humana.

O presidente Bolsonaro diz ter a missão de combater a corrupção e a violência. São legados de Caim. Árdua, imponente, a tarefa a que se propõe o primeiro mandatário. Como de hábito, sou assolado pelas dúvidas, instigadas de saída por uma situação banal. Ando pela rua e observo, pendurados nos postes, cartazes em que se estampa a garantia de que quaisquer infrações de trânsito, até a retirada da carteira de motorista, serão perdoadas desde que o infrator ligue para certo número de telefone. Nunca vi algo similar em países do mundo dito civilizado. O exemplo é aparentemente pequeno, mas persuasivo, da devastação moral provocada por uma doença endêmica. Em política, nenhuma bala é perdida. Não há partido que escape, a começar por aqueles mais habilitados a perpetuar as oligarquias e a servir à casa-grande.

Tanto mais pesada a missão do presidente, a se considerar a tensão criada pelo caso do motorista Queiroz e pelas suspeitas a envolver as famigeradas milícias cariocas. E por falar em violência, colocar armas nas mãos da família brasileira não me soa como a medida mais adequada. Gozo, inclusive, da aprovação até do mundo mineral.

Texto e imagem reproduzidos do site: cartacapital.com.br 

domingo, 27 de janeiro de 2019

Kim Kataguiri, criador do MBL, deputado aos 23

Kim Kataguiri entoa o discurso da austeridade. O fundador do MBL afirmou que, 
como deputado federal, abrirá mão dos auxílios mudança e moradia e doará 20% 
do salário bruto, de quase R$ 34 mil, para instituições 
Foto: Lucas Lacaz Ruiz/Agência O Globo

Publicado originalmente no site da revista ÉPOCA, em 26/01/2019 

Kim Kataguiri, criador do MBL, deputado aos 23 

Às vésperas de assumir uma cadeira na Câmara, Kataguiri diz que esperava “algo melhor” do governo no quesito honestidade

Por Aline Ribeiro

Na véspera de se mudar para Brasília, onde assumirá como segundo deputado federal mais jovem da história, o estudante Kim Kataguiri ensaia o recado que dará ao primeiro integrante do alto escalão do governo com que cruzar nos próximos dias. Será um: “E aí?”. Pausa dramática. Não se trata daquele “e aí” cordial, que demonstra interesse genuíno pelo outro, mas do “e aí” inquisidor, de quem cobra explicações com certa hostilidade. Kataguiri recebeu ÉPOCA na segunda-feira 21, seu último dia de trabalho no escritório do Movimento Brasil Livre (MBL), organização que ajudou a fundar e que acabou por catapultar sua carreira política até o Congresso Nacional. Estava menos preocupado com os preparativos da mudança do que em disparar duras críticas ao clã Bolsonaro, mesmo depois de fazer campanha para o presidente eleito. “Tem tanta besteira acontecendo: é ministro desautorizando Presidente da República, a questão do Flávio (Flávio Bolsonaro, senador eleito e deputado estadual pelo Rio de Janeiro) agora, que é indefensável… Filho do Mourão… Toda semana tem uma coisa nova.”

“Esperava-se algo melhor. Pelo menos no ponto honestidade, pensei que fosse coisa concreta. Pensei que teria bateção de cabeça na questão de articulação política. Ou ainda no que Bolsonaro deixaria ou não o Paulo Guedes fazer, na interlocução com o Congresso… Mas, além desses problemas, ainda tem o mais grave, que é aquele que pensei que não teria problema nenhum.” Kataguiri evita a palavra que tanto combateu nos tempos do PT. Corrupção? “Sim. Não existe justificativa plausível para dizer que (Flávio Bolsonaro) é inocente. Só não falo que é culpado porque vou ser processado e perder.” Está arrependido de ter apoiado Jair Bolsonaro? “Não, porque a alternativa era votar no PT. Mas estou decepcionado.”

Kataguiri disse nunca ter sido grande entusiasta do político Bolsonaro — “pelo histórico dele de votação em relação à corporação militar, por ser contra a reforma da Previdência, por usar o auxílio-moradia” —, mas não mediu esforços nem tempo nas redes sociais para eleger o presidente no segundo turno. Kataguiri não discordou de um item sequer do programa de governo quando Bolsonaro era candidato e, acima de tudo, empenhou-se para que o concorrente Fernando Haddad (PT), discípulo de Luiz Inácio Lula da Silva, não chegasse ao Palácio do Planalto, com ataques para lá de baixos.

Os primeiros dias do novo governo, que prometia passar a limpo a política e extirpar os corruptos de Brasília, não têm sido satisfatórios para apoiadores como Kataguiri. A primeira decepção ocorreu ainda antes da posse, com a revelação das movimentações financeiras atípicas de Fabrício Queiroz, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio — que somaram R$ 7 milhões em três anos, segundo O Globo. Soube-se, em seguida, que um dos cheques de Queiroz, no valor de R$ 24 mil, foi dado à primeira-dama, Michelle — segundo Jair Bolsonaro, para pagamento de uma dívida. A frustração aumentou quando o filho do presidente, em busca de foro privilegiado, conseguiu suspender as investigações no Supremo Tribunal Federal (STF). E, na terça-feira, soube-se que Flávio Bolsonaro empregou em seu gabinete, até novembro passado, a mãe e a mulher de um policial militar suspeito de comandar uma milícia.

Assim que as suspeitas contra o senador eleito Flávio Bolsonaro vieram à tona, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, acusou a oposição de criar factoides para forçar um “terceiro turno” da eleição. É a mesma estratégia adotada por Dilma Rousseff, em 2015, quando a direita tentou impedi-la de continuar no poder em decorrência das pedaladas fiscais. Naquele ano, Dilma Rousseff afirmou que a defesa de um “terceiro turno” era uma “ruptura da democracia”. Isso não incomoda Kataguiri? Ao usar o mesmo recurso, o PSL de Bolsonaro não se iguala ao PT? “Nesse sentido, é o mesmo discurso. E tem ainda o discurso, que não sai oficialmente do governo, mas da militância, que diz que a culpa é da Globo. Esse é o discurso do Lula. Não tem movimento mais crítico à imprensa do que a gente. Mas uma coisa é criticar uma matéria enviesada ou uma distorção de fatos. Outra é criticar um relatório que não foi a Globo que fez, mas o Coaf”, disse Kataguiri.

Tão logo fizeram seus primeiros posts sobre as acusações que recaem sobre Flávio Bolsonaro, as redes sociais de Kataguiri e do MBL foram inundadas de críticas dos bolsonaristas incondicionais, aqueles fiéis tanto na alegria quanto na tristeza. É o que o Kataguiri chama de “CUT azul”, a versão à direita da Central Única dos Trabalhadores, entidade ligada ao PT. Ele disse que identificou essa ala mais radical de eleitores já desde a campanha, estava preparado para os ataques e que não pretende deixar de fazer críticas ao governo. Seu movimento teve problemas, inclusive, com um dos filhos do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), considerado o cão de guarda do pai. “Ele chama todo mundo que discorda dele de bumbum guloso.” Bumbum guloso? “É. Gay. Chamou a gente inclusive, publicamente, no Twitter. Várias vezes. Não respondemos nada, pelo amor de Deus. Uma baixaria dessas...”, afirmou Kataguiri.

Eleito pelo DEM com 465.310 votos, Kataguiri fala com a mesma pressa com que conduziu sua trajetória até aqui. Quando se empolga a respeito de um tema, adota um tom professoral, com perguntas retóricas a que ele mesmo responde, na sequência. Abusa da palavra “efetivamente”, que repetiu 11 vezes ao longo de uma hora. Não sai do celular nem durante a entrevista. Por mais de um vez, perdeu o rumo da conversa enquanto respondia a mensagens de WhatsApp — e se desculpou sob a justificativa de que estava “apagando um mini-incêndio”. Prestes a completar 23 anos no próximo dia 28, Kataguiri é um dos rostos de uma juventude que, dizendo-se indignada com a corrupção, saiu às ruas a partir de 2015 para pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Mas não só. Na esteira da ascensão mundial da neodireita, o MBL de Kim Kataguiri — ao lado do Vem pra Rua, Nas Ruas, Revoltados On-line e outros movimentos — abriu caminho para que os ideais do liberalismo econômico e de um forte conservadorismo, adormecidos no Brasil durante os mais de 13 anos de governo petista, florescessem.

 “A gente conseguiu traduzir as pautas de direita, principalmente o liberalismo econômico, para o público comum e transformar isso numa força política efetiva. Nossa tese sempre foi: não adianta ter bons quadros de direita se não tem clima de opinião pública favorável. Não adianta ter ótimos dançarinos de funk se está tocando sertanejo, porque os dançarinos vão parecer ridículos. Fizemos um bom trabalho com a música. Um trabalho que hoje favorece lideranças de direita, para que possam efetivamente levantar, falar, e não ser tachados como defensor de tortura”. Para a vitória do Bolsonaro inclusive? “Com certeza, o ambiente contribui.”

O escritório do MBL fica na Vila Mariana, na Zona Sul de São Paulo, e conserva ares de república estudantil. Sacos de pancada para treinar boxe se espalham pelo quintal. Um violão enfeita o canto de uma das salas. Sobre a mesa, dividem o espaço uma lata de Pepsi vazia e uma de tinta spray, óculos de natação, alguns fios soltos, cartões de visitas e livros jogados, além de uma edição especial da revista Forbes, que estampa Kataguiri na capa entre os dez destaques brasileiros abaixo dos 30 anos. As cadeiras estão distribuídas no entorno sem qualquer lógica, e o banheiro não pode ser tomado como exemplo de limpeza. “Não repara na bagunça” foi a primeira frase que Kataguiri disse ao abrir a porta para a reportagem. Logo ficou claro que não era só um chavão para quebrar o gelo.

No prédio ao lado ao escritório, funciona a redação do portal MBL News, uma tentativa do movimento de se afastar da militância e se aproximar do jornalismo, segundo Kataguiri. Ele percorre o galpão, cujo aluguel diz girar em torno de R$ 4 mil, e apresenta a nova diretoria de YouTube (cinco funcionários), o estúdio de TV com a redação (dez a 12 jornalistas) e a divisão de “memeiros” (uns quatro ou cinco). “É um perfil difícil de achar: pessoa viciada em política e que, ao mesmo tempo, entende de design gráfico. É um cara novo, faz porque gosta. Fica suas 12 ou 13 horas por dia fazendo meme. Ele até recebe, mas é mais o suficiente para viver do que efetivamente uma carreira profissional. Está no centro do baixo custo e alta efetividade de nossa comunicação.” Questionado sobre se não é abuso de mão de obra, ele brincou: “É… Se o Ministério Público do Trabalho vier aqui, vai todo mundo preso”. Kataguiri disse que a operação do MBL é financiada com doações de integrantes e com ganhos com a produção de conteúdo para o YouTube e MBL News.

As habilidades mal pagas dos memeiros estão sendo aproveitadas por um dos ministros de Bolsonaro, Paulo Guedes, da Economia. Apresentado a Kataguiri por um dos fundadores do MBL, Guedes é o principal interlocutor do parlamentar de primeira viagem com o governo. “Falo sempre com ele. Falo direto (sem intermediário) no WhatsApp.” Um dos assuntos em comum é a aprovação da reforma da Previdência, principal promessa de Kataguiri para quando estiver no Congresso. Outro é a dificuldade de comunicação de Guedes, que não costuma usar redes sociais. Nos bastidores, os memeiros do MBL transformam os anúncios do ministro em propaganda palatável à juventude.

Quando Guedes sinalizou cortes de verbas da Caixa para times de futebol, virou meme. Assim como quando afirmou que demitirá funcionários por mau desempenho. “Geralmente, o que tenho falado é que as pequenas coisas são as que melhor repercutem nas redes. O fato de ele usar carro próprio tem símbolo maior do que um corte de R$ 30 milhões na Caixa. Esses dias ele quis saber se o negócio dele pagar seu almoço realmente importava. Lógico que importa, pelo amor de Deus. Isso é maravilhoso para a internet.” Além de Guedes, ele disse conversar, com menos frequência, com os ministros Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e Tereza Cristina (Agricultura), ambos do DEM; com o ministro Osmar Terra (Cidadania), parlamentar do MDB que conheceu durante o impeachment; além de com Onyx Lorenzoni, o primeiro deputado a abrir as portas de seu gabinete em Brasília para o MBL, quando “todo mundo achava que a gente era um monte de moleque maluco”, nos idos de 2016. Kataguiri e outros 20 parlamentares têm agenda com o ministro Sergio Moro, da Justiça, para falar sobre segurança, no próximo dia 30.

Kataguiri nasceu em Salto, no interior de São Paulo, e foi criado em Indaiatuba. Precoce, saiu da casa dos pais, onde morava com as três irmãs mais velhas, aos 14 anos. Foi para a vizinha Limeira cursar processamento de dados no colégio técnico da Universidade de Campinas (Unicamp). Até os 17 anos, não se interessava por política. Foi um professor de História, que certa vez discursou em sala de aula sobre como o Bolsa Família havia tirado o Brasil da pobreza, que o fez dar o primeiro Google sobre o tema. Fez um vídeo contestando o professor, que viralizou. De lá foi estudar economia na Universidade Federal do ABC, em Santo André. A economia o levou até as conferências sobre as escolas Austríaca e de Chicago, onde conheceu pessoalmente uma galera da internet que pensava como ele.

Em 1º de novembro de 2014, o MBL foi fundado por ele, os irmãos Renan e Alexandre Santos e Frederico Rauh. “É até irônico falar isso agora. Mas foi numa ocasião em que o Grupo Abril foi hostilizado por causa de uma capa da revista Veja, que soltou a delação do Youssef (Alberto Youssef, doleiro da Lava Jato ligado ao PT) . A Juventude do PT foi lá para vandalizar. E a gente saiu em defesa da liberdade de imprensa. Dois anos depois, a Veja soltou matéria falando que a gente era um movimento anti-imprensa e disseminador de notícias falsas”, explicou ele e caiu na risada. Irônico mesmo foi a inspiração para o surgimento do MBL, os partidos de esquerda Podemos, da Espanha, e o Syriza, da Grécia. “Em termos de forma, não é? Não vai me comprometer aí.” Kataguiri abandonou a economia e hoje está no terceiro ano de Direito no Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP). Pediu transferência para Brasília.

Entoando o discurso da austeridade, ele disse que abrirá mão dos auxílios mudança e moradia e doará 20% do salário bruto, de quase R$ 34 mil, para instituições. Na capital federal, vai dividir um apartamento com três assessores, cada um pagando R$ 900. Quer ser lembrado no futuro como alguém que ajudou a aprovar a reforma da Previdência. “Estou indo pronto para apanhar, porque o negócio lá vai ser feio”, disse, ao se despedir.


Texto e imagem reproduzidos do site: epoca.globo.com

sábado, 26 de janeiro de 2019

Milton Andrade será o novo coordenador do Fórum Empresarial


Publicado originalmente no site JLPolítica, em 26 de Jan de 2019

Por aclamação, Milton Andrade será o novo coordenador do Fórum

Com posse marcada para 1º der março, Milton foi eleito por aclamação esta semana

Jovem revelação das últimas eleições - se candidatando ao cargo de governador e obtendo 35.111 mil votos -, o advogado e empresário Milton Andrade, PMN, foi eleito por aclamação e será o novo coordenador do Fórum Empresarial de Sergipe, a partir de 1º de março, substituindo a empresária Susana Nascimento.

O Fórum Empresarial é uma instituição bastante significativa para o Estado, ao congregar entidades de vários setores produtivos. Nasceu com a nobre missão de dialogar e elaborar propostas para o desenvolvimento econômico e social de Sergipe. Tudo isso compactua bem com as visões de Milton Andrade.

O jovem empresário têm projetos para Sergipe que soam bem maduros para a idade dele, 31 anos recém-completados, conforme o JLPolítica mostrou aqui em entrevista, no mês de agosto passado.

“Para mim é uma honra ser o mais jovem eleito da história para ser o coordenador do Fórum Empresarial. Sinto-me muito honrado mesmo e, ao mesmo tempo, com muita responsabilidade pela confiança que me foi depositada”, declara.

De acordo com Milton, o atual momento de crise financeira faz aumentar ainda mais sua responsabilidade. “O Fórum serve para ser luz, farol para solucionar os grandes problemas comuns a todos que querem empreender em Sergipe: legislação arcaica, falta de infraestrutura, por exemplo”, explica. 

Milton já tem planos em mente para executar, assim que assumir a instituição.  “Quero atuar, conversar com cada entidade de classe, pensar nos problemas macros. Os problemas micro cada entidade toca, mas os macros devem ser focados pelo Fórum”, informa.

O empresário também promete que lutará para: “atrair novos parceiros, novas empresas para poder desenvolver o nosso Estado. O Fórum Empresarial pode fazer isso tudo”, garante. Esta Coluna deseja boa sorte ao futuro coordenador.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

"Lições do Terror", por Fernando Gabeira


Publicado originalmente no site GABEIRA, em 21.01.2019

Lições do Terror

Por Fernando Gabeira
               
Calor absurdo aqui no interior do Mato Grosso do Sul. Coisas do marxismo internacional. Acabo de ler o livro de Afonso Arinos, graças às longas viagens de avião: 1.780 páginas.

De tantos pedaços da história, discursos internacionais, personalidades, tenho espaço apenas para destacar uma frase da neta de Arinos. A mulher dele disse que ele andava triste. A menina resolveu consolá-lo:

— Vovô, não fique triste, o senhor tem sua casa, seus filhos, a sua bengala…

Livros como o de Arinos e Joaquim Nabuco me reconciliam com o Brasil. Fico orgulhoso de me dedicar ao estudo do país.

Em Fortaleza, vi um homem com um carrinho de pequenas frutas amarelas ao longe e disse: seriguelas. O homem se aproximou e, ao passar por nós, perguntei: que fruta é essa? Seriguelas, respondeu.

Fiquei feliz como um menino que passa na prova. Deveria ser um pouco mais sério porque estava cobrindo precisamente a onda de ataques no Ceará.

Acontece que estou reavaliando um pouco minha noção de jornalismo. Nossa tendência é dramatizar ataques, cortar as imagens de forma que o fogo e a destruição se destaquem.

Quando examino mais de perto, os ataques, na verdade, são feitos em lugares desertos e em altas horas da noite. Um exemplo disso foi a dinamite que apareceu no metrô. Não tinha detonante, seu objetivo era assustar.

Não quero dizer que o tema não seja grave. As cadeias estão superlotadas. As organizações criminosas cresceram muito, não apenas no Ceará. E um grande número de jovens sem emprego ou escola é atraído para as facções.

Há alguns anos li um livro sobre um congresso ligado à ONU cujo tema era diplomacia preventiva — como atuar para evitar conflitos, sobretudo aqueles que realmente podem ser evitados.

Na época, falou-se também rapidamente no jornalismo preventivo. Nos anos 1960, tínhamos cadernos teóricos e talvez me dedicasse a escrever sobre essa nova forma de jornalismo.

Mas, como as tarefas aumentaram, resta-me tentar aplicar a ideia na prática. Os puristas podem objetar: prevenir? O jornalismo não previne, não evita, nem provoca: apenas informa.

Mas é de informação de que se trata. Informar significa também colocar num contexto um pouco mais amplo.

Um pouco de estudo militar mostra que ofensivas são um momento delicado: os atacantes se expõem e costumam sofrer grandes perdas.

Com quase 4 00 pessoas presas, parece que aconteceu com as organizações criminosas do Ceará.

Em Fortaleza, há agora um centro de inteligência para todo o Nordeste. Eu visitei o centro, mas não pude entrar porque precisava de licença especial, essas coisas. Imagino que tenham aproveitado esse momento de ofensiva e muitas prisões para entender um pouco mais das organizações criminosas.

O que torna o problema do Ceará mais sério ainda é o fato de que muitas de suas coordenadas estão presentes em outros estados.

A simples enumeração de ataques, grande parte deles em lugares remotos e escuros, no fundo, é, involuntariamente, o jogo que interessa aos líderes das organizações criminosas.

Eles precisam de um tipo de cobertura para difundir o medo. Mas chega um momento, e isso vale também para o terror político, que é preciso vencer o medo coletivo e encarar a vida com normalidade, mostrar que as coisas seguem, apesar deles.

Artistas locais fizeram uma campanha intitulada Quero Meu Ceará de Volta, evocando todas as coisas boas numa cidade tão simpática como Fortaleza: andar nas ruas, ter cadeiras na frente de casa.

A ideia, creio eu, estava numa direção correta. Mas era preciso mais que isso: era preciso retomar as ruas com firmeza. Isso seria também uma tarefa para políticos. Mas eles andam meio escondidos. Exceto os que têm de tratar diretamente do tema pela responsabilidade de governo, os outros são muito discretos, para usar um termo leve.

De qualquer forma, creio que os episódios do Ceará surgiram e sumiram sem que houvesse uma discussão mais detalhada sobre eles.

Minha impressão é que já é tempo de avaliarmos as relações de jornalismo e terror. Minha sugestão não é, absolutamente, a de omitir episódios atemorizantes.

Em muitos casos, informar com mais profundidade e exatidão pode abrir caminho para que a sociedade compreenda o que se passa e retome as rédeas de seu cotidiano.

Artigo publicado no jornal O Globo em 21/01/2018

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira.com.br

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

(...) Danielle Garcia diz: “Não me candidatei porque não quis"

Danielle afirma que, neste momento, prefere apoiar Emília Corrêa 
e Milton Andrade para o Executivo

Publicado originalmente no site JLPolítica, em 23 de Jan de 2019

“Protagonista” do 2º turno, Danielle Garcia diz: “Não me candidatei porque não quis"

Por Jozailto Lima (Coluna Aparte)

É público e notório que a delegada da Polícia Civil de Sergipe Danielle Garcia foi um dos destaques do segundo turno das eleições passadas. Quem não lembra dela “dando a cara a tapa”, sem medo de possíveis consequências, - hoje ela responde a processo - em áudios e vídeos durante a propaganda eleitoral, apoiando irrestritamente Valadares Filho em sua campanha e acusando os Governos de Jackson Barreto, MDB, e de Belivaldo Chagas, PSD, de possíveis corrupções?

Passadas as eleições, há quem diga que, ao invés de ter gasto o tempo alastrando acusações, Danielle deveria ter sido candidata. “Danielle, por que você não se candidatou?” É a frase que a delegada mais ouve.

“Não me candidatei porque não quis, não faltou convite, assédio de partidos. Mas gosto, amo e adoro ser delegada. Quem pensa que me pune colocando para trabalhar, está perdendo tempo. Meu trabalho é minha distração”, rebate Danielle.

A delegada não tem filiação partidária e assegura que, neste momento, bem como nas eleições passadas, não têm/teve nenhuma intenção de entrar para a política. “A minha exposição não foi baseada em pretensões. É isso que quero que as pessoas entendam. Se fosse, eu teria sido candidata”, afirma.

Mas Danielle sabe bem que o mundo dá voltas rápido demais e seu pensamento daqui a um ou três anos pode ser bem diferente. “(Pode surgir), ah, mas lá em 2020 Danielle candidata”. Veja, neste momento, assim como foi em 2018, eu não tinha nenhuma pretensão”, reforça.

Enquanto prefere colocar o corpo fora, Danielle, contudo, não nega que é chegada a certos políticos, a exemplo de Emília Corrêa e Milton Andrade. E, se for para apoiar alguém nas próximas eleições, tem agrupamento certo. “Óbvio, tenho as minhas convicções, as coisas que acredito. Acho que o que está exposto aí não me agrada e acho que não vai dar certo”, afirma.

“Gostaria muito que Emília fosse candidata, por exemplo, e, de alguma forma, dar o meu apoio como amiga. Emília é uma pessoa que gosto muito. É amiga. Se fosse candidata a prefeita, eu me colocaria à disposição dela para ir à rua pedir voto, assim como Milton, menino jovem, que tem ideias muito parecidas com as minhas”, relata.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

sábado, 19 de janeiro de 2019

Nem Átila, por J.R. Guzzo


Publicado na edição impressa de VEJA

Nem Átila

Por J.R. Guzzo

É realmente uma canseira, mas não tem outro jeito. A cada vez que você vai escrever ou falar alguma coisa sobre a imprensa no Brasil, é preciso explicar direitinho, se possível com desenho e quadro-negro, que o autor não é ─ repetindo: não é, de jeito nenhum, nem pensem numa coisa dessas ─ contra a liberdade de imprensa. Não está pedindo a volta da censura, mesmo porque seria legalmente impossível. Não quer a formação de uma polícia para fazer o “controle social dos meios de comunicação”. Não está “a favor dos militares e contra os jornalistas”. Não acha, pelo amor de Deus, que é preciso fechar nenhum jornal, revista, rádio, televisão, folheto de grêmio estudantil ou seja o que for. Não lhe passa pela cabeça sugerir aos donos de veículos e aos jornalistas que publiquem isso ou deixem de publicar aquilo; escrevam em grego, se quiserem, e tenham toda a sorte do mundo para encontrar quem leia. Com tudo isso bem esclarecido, então, quem sabe se possa dizer que talvez haja um ou outro probleminha com a imprensa brasileira de hoje. Um deles é que a mídia está começando a revelar sintomas de Alzheimer ou de alguma outra forma de demência ainda mal diagnosticada pela psiquiatria.

É chato lembrar esse tipo de coisa, mas também não adianta fazer de conta que está tudo bem quando dizem para você dia e noite, 100 mil vezes em seguida, que o novo governo brasileiro provou ser o pior que a humanidade já teve desde Átila, o Huno. Não faz nexo. Até Átila precisaria de mais de duas semanas de governo para mostrar toda a sua ruindade ─ e olhem que ele foi acusado de comer carne humana e andava cercado de lobos, em vez de cachorros, sendo que nenhum dos seus lobos era bobo o suficiente para chegar perto do dono quando sentiam que o homem não estava de muito bom humor naquele dia. Além disso, errar em tudo é tão difícil quanto acertar em tudo. Talvez fosse mais racional, então, recuar para uma antiga regra da lógica: as ações devem ser julgadas pelos resultados concretos que obtêm, e não por aquilo que você acha delas. Um governo só pode ser avaliado depois de se constatar se as coisas melhoraram ou pioraram em consequência das decisões que colocou em prática. O número de homicídios, por exemplo ─ aumentou ou diminuiu depois de doze meses? A inflação está em 2% ou em 20%? O desemprego caiu ou subiu? E por aí vamos.

Mas essa lógica não existe no Brasil de hoje. Está tudo errado, 100% errado, porque é assim que decretam os estados de alma dos proprietários dos veículos e dos jornalistas que empregam ─ e não porque mediram algum resultado concreto. Ou seja: ainda não aconteceu, mas o governo já errou. A condenação começou no dia da posse de Bolsonaro e dali até hoje não parou mais. Os jornalistas, denunciou-se já nos primeiros minutos, não receberam instalações à altura da sua importância para a sociedade. Donald Trump não veio. O discurso de estreia foi ruim ─ embora não tivessem publicado uma sílaba de algum discurso presidencial anterior, para que se pudesse fazer uma comparação. Há generais em excesso no governo ─ e qual seria o número ideal de generais no governo? As médias das administrações de Sarney para cá? A média mundial? O que é pior: o general A, B ou C ou os ministros Geddel, Palocci ou Erenice? Há poucos nordestinos. O ministro do Ambiente acha que esgotos, por exemplo, ou coleta de lixo, são problemas ambientais sérios. Conclusão: ele vai abandonar a Amazônia para os destruidores de florestas.

Como o doente que repete sem parar a mesma coisa, não consegue descrever o que vê pela janela, e esquece tudo o que lhe foi demonstrado 1 minuto atrás, a imprensa travou. A prisão do terrorista Cesare Battisti foi uma “derrota” para Bolsonaro; imaginava-se que teria sido uma derrota para Battisti, mas a mídia quer que você ache o contrário. O acesso à armas de fogo para que um cidadão (só aquele que queira), tenha a chance de exercer o direito de legítima defesa antes de ser assassinado, vai desencadear uma onda de homicídios jamais vista na história. Como as armas de fogo são caras, denuncia–se que a medida é “pró-elites”. E se vierem a baixar de preço? Passarão a ser melhores? Quando alguém começa a escrever coisas assim, e faz isso o tempo todo, é porque parou de pensar; o cérebro não está mais ligando Zé com Zé. É um problema. Os leitores, cada vez mais, estão percebendo que a imprensa é inútil. Não só eles. No dia em que o governo descobrir que não precisa mais prestar atenção à mídia, vai ver que está perdendo uma montanha de tempo à toa.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/J. R. Guzzo

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Em Paris, FHC diz que é oposição ao governo Bolsonaro


Publicado originalmente no site MSN, em 15 de janeiro de 2019

Em Paris, FHC diz que é oposição ao governo Bolsonaro

Por Paloma Varón 

Presidente do Brasil entre 1995 e 2002, Fernando Henrique Cardoso, fundador e presidente honorário do PSDB, está em Paris, onde participou do diálogo com o sociólogo e seu ex-professor, Alain Touraine. O ex-presidente concedeu entrevista exclusiva à RFI logo antes de entrar na sala, lotada, para debater com o colega, com quem mantém um diálogo que já dura cinco décadas.

No debate intitulado “Ordem contra a democracia?”, organizado pelo Colégio de Estudos Mundiais, da Fundação Casa das Ciências do Homem (FMSH, na sigla em francês) e que teve lugar na Casa da América Latina, em Paris, os dois sociólogos discutiram a crise dos sistemas democráticos ocidentais. Dando continuidade a este ciclo de debates, a Fundação organiza, no dia 31 de janeiro, também na capital francesa, uma conferência intitulada “Brasil: as raízes da vitória da extrema direita”.

Na entrevista para a RFI, FHC, como é conhecido no Brasil, explica por que, mesmo não tendo votado no presidente Jair Bolsonaro e sendo “oposição”, não apoiou Haddad em outubro de 2018. Fala também da crise da democracia brasileira, do fim de um ciclo iniciado com a Constituição de 1988 e de suas expectativas quanto ao novo governo.

No final do evento, membros do coletivo Alerta França-Brasil, criado em Paris em 2016 por ocasião do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, abriram uma faixa em frente à mesa onde aconteceu o debate e chamaram o ex-presidente de “golpista”. Perguntado se tinha se incomodado com o protesto, Cardoso disse que não, pois “estava acostumado”.

RFI - O que aconteceu com o Brasil?

FHC - Uma transformação muito grande, porque o sistema político tal como ele foi montado por nós mesmos com a Constituição de 1988 chegou ao fim de um ciclo. Houve uma desmoralização da vida política, houve também um processo de corrupção que corroeu bastante o poder no Brasil e um desencantamento do povo. E o povo reagiu elegendo um candidato que era pouco conhecido, mas que aparecia como se fosse uma ruptura com tudo o que tinha sido feito anteriormente. Não acho que isso signifique o fim da democracia – na França muitas pessoas acreditam que foi –, é mais complexo que isso, é um ciclo que chega ao fim. É preciso refazer o sistema político, recriar confiança nas pessoas. Quem vai ser capaz de fazer isso é a questão.

RFI - Mas se não é o fim da democracia, como alguns pregam, é o sinal de uma crise da democracia?

FHC - Bom, as democracias estão em crise em geral. Onde há democracia representativa, mesmo aqui na França, penso que há um certo desencontro entre a vontade das pessoas e a representação delas na vida política. Então neste sentido sim, porque você tem hoje novas formas de comunicação que são fundamentais, que conectam as pessoas com muito mais velocidade, independentemente das instituições sociais e tudo o mais. Então, neste sentido, é uma transformação. Se a gente chamar de crise, é uma crise. No nosso caso, a gente tem um problema mais sério, que é a desmoralização. Não só uma crise de desajuste das regras democráticas na vida social, mas também de corrupção no próprio poder, que ficou visível, gerando repulsa da população. Há risco para a democracia? Sempre há risco para a democracia. Eu acho que era o Sérgio Buarque de Holanda que dizia que a democracia é uma plantinha tênue, que tem que regar todo dia, tem que molhar para poder vicejar, para florescer. Então eu não vou dizer que não haja sempre o perigo de uma tentativa de autoritarismo. Eu já passei por momentos bem difíceis no Brasil e sei como é isso, mas por enquanto temos bastante liberdade na imprensa, na movimentação social. Vamos ver como o governo vai se posicionar. Eu, pessoalmente, tenho discrepâncias grandes com a visão de alguns setores do governo, mas isso faz parte do jogo, às vezes você ganha e às vezes você perde. Quando as pessoas que ganham querem evitar que haja a mudança de governo, que haja eleições, que haja liberdade de imprensa, aí complica. Aí você tem uma crise mais profunda. Nós não chegamos a este ponto, ao meu ver.

RFI - Em uma entrevista recente, o senhor falou que, se este governo for de extrema direita, seria oposição. Ainda existe esta dúvida se é ou não um governo de extrema direita?

FHC- Não, não tenho dúvidas. Eu seria oposição de qualquer maneira, eu não votei nele. E eu não votei nesse porque tinha um outro candidato [em quem votar], de um outro partido, e também porque eu não concordo com as ideias que ele expressou durante a campanha. Agora isso não me leva a dizer que o governo vá ser um governo que quebre as regras democráticas, isso é outra coisa. Eu discordo da orientação política e acho que o que eu tentei dizer foi o seguinte: na eleição, não houve uma votação de escolha entre esquerda e direita, entre democracia e ditadura. Isso não estava em jogo. O que estava em jogo era esta irritação da população com a corrupção e pela existência de uma violência espraiada no país. Eles queriam ordem. Foi mais em função de simbolizar a ordem e não estar vinculado a processos corruptivos que levou Bolsonaro à eleição. O que não quer dizer que o governo não tenha dentro dele elementos de direita. Tem.

RFI – E de extrema direita?

FHC – De extrema direita. Com visão bastante reacionária, em alguns setores. Agora, isso vai prevalecer? Aí depende, depende do jogo da sociedade, depende da resistência do Parlamento, da imprensa, não é tão simples assim. As pessoas quando ganham, não fazem tudo o que querem. Eu fui presidente eu não fiz tudo o que eu queria. Não se consegue, a sociedade existe. Então eu acho que a oposição precisa sempre existir. Na democracia, é necessário que exista oposição. Agora oposição, ao meu ver, o que não pode é ser destrutiva, no sentido de dizer que tudo o que vai ser feito pelo governo é errado porque vem do governo. Eu não sei, o que fizer errado eu sou contra. O que não tiver errado, por que eu vou ficar contra? Eu digo errado no sentido do bem-estar do povo, do crescimento da economia, da manutenção das regras democráticas. Se houver e quando houver atentado quanto a estas questões, eu acho que quem está na condição deve protestar, deve reagir.

RFI – O senhor acabou de dizer que não votou em Bolsonaro. Por que não declarou voto ou apoiou a Haddad, num momento tão decisivo da História do Brasil?

FHC – Isso é outra coisa, porque eu nunca estive de acordo também com as posições do PT, que levaram à situação, a este descalabro em que nós estamos. Eu me dou com o Haddad, pessoalmente, e não tenho nada contra ele, pelo contrário. Agora, ele botou uma máscara de Lula. Bom, o Lula fez coisas positivas, sem dúvida, mas ao mesmo tempo é responsável pelas transformações negativas ocorridas na vida política brasileira. Então há momentos em que a gente tem que ter noção de que “pô, eu não tô nem cá, nem lá”, não é a minha escolha, eu não sou obrigado a optar. Se houvesse o risco de quebra da democracia, aí sim. Depende da avaliação. Eu avaliei que não, que nós temos capacidade de resistência. Não vi nestes termos. Eu sei que muitas pessoas do PT dizem: “É o fascismo”. Mas eles não conhecem a História. Não tem fascismo, assim como não tem comunismo. Os dois lados têm esta visão um pouco antiquada. Então eu não sou obrigado a fazer uma escolha, eu não estou escolhendo entre a liberdade e a ditadura, entre o fascismo... Bom, também entre o fascismo e o comunismo fica difícil fazer uma escolha.

RFI – Esta questão se deve ao fato de que aqui na França eles estão acostumados a ver os partidos tradicionais fazerem uma frente republicana contra a extrema direita cada vez que ela chega ao segundo turno de uma eleição. E, poucos dias antes do segundo turno no Brasil, eu fui à Assembleia Nacional francesa e falei com deputados de diversos partidos e tendências que não entendiam por que não houve isso no Brasil.

FHC – Eu sei, eu conheço bem a vida francesa. Mas não houve também nenhum esforço, o PT nunca se mostrou aberto neste sentido, então é difícil encontrar razões [para apoiar]. Fizeram tantas coisas erradas, será que o meu voto vai fortalecer estas coisas erradas? Mas também não vou votar naquele em quem eu não acredito. Eu não vi como uma situação de que o novo governo é uma ameaça à democracia. Neste caso, teria de se fazer uma frente democrática. Mas não foi posto assim lá. Foi posto depois ou na hora do desespero da campanha final. Mas não é o que estava em jogo, eram outras questões que estavam em jogo. Talvez eu esteja equivocado, vamos ver daqui a pouco. Se eu estiver é ruim, porque aí vamos ter de lutar pela liberdade. Eu já lutei outras vezes, eu não teria nenhuma dificuldade, ainda mais agora, a esta altura da vida, eu digo o que eu penso. Eu não achei que valesse a pena comprometer minha posição de pensamento por uma candidatura que se dizia progressista, mas que tem em si as marcas do desastre que houve no Brasil: a estagnação da economia, pauperização, não intencionada, mas como consequência de muitos malfeitos e muita corrupção. A corrupção não era pessoal só, mas das instituições, o que é mais grave.

RFI - Esta corrupção das instituições já não existia antes? Não é um caso crônico do Brasil?

FHC - Não, aí é que está a diferença. Você pode dizer que sempre houve corrupção, sempre haverá, aí é outra coisa. Não é isso não: é a organização da corrupção como base do poder. É outra coisa, muito mais grave. Não é corrupção de A, de B ou de C que é má-conduta pessoal, que está errado, mas além disso você tem aqui a corrupção de um sistema que passava pela utilização de empresas públicas para financiar empresas privadas que financiavam partidos de maneira sistemática. Isso é algo muito contra a democracia, contra a liberdade. E eu não posso escolher este lado contra o outro.

RFI - Qual a sua opinião em relação à Operação Lava Jato, o senhor a apoiou?

FHC – Eu sempre apoiei, mesmo se há exageros. Vou dar um exemplo: um governador do meu partido, do estado de Minas Gerais, foi condenado a 21 anos. O que ele fez? Ele eu não sei se fez, mas algumas pessoas que trabalhavam com ele fizeram um contrato com o governo, que na verdade era para usar dinheiro para a campanha dele. Foi condenado a 21 anos, é um exagero. Como é que você resolve isso? Apelando. Porque a Justiça funciona. Você não pode dizer que há uma perseguição política no Brasil. Há muita gente na política que está sendo condenado, por acusações de corrupção, de mau uso do dinheiro público. Você pode discutir isso na Justiça, pode discutir se a pena é correta. Os juízes da Lava Jato são da primeira instância, depois você recorre à segunda instância e ainda tem o Supremo Tribunal Federal. Então, se todas instâncias dizem que é culpado, o que que eu vou fazer? Ou eu acredito que a Justiça e a democracia existem ou eu faço o quê?

RFI – Voltando ao governo Bolsonaro, já estamos no 14º dia de seu governo, qual a sua avaliação destes primeiros dias? O senhor acha que o fato de o Brasil ter eleito um presidente de extrema direita vai afetar negativamente a imagem do país no exterior e particularmente na França?

FHC – Vamos começar por aí. Afeta. É claro que afeta. A percepção do resto do mundo e particularmente na França é negativa. O governo começou complicado, com a recusa do pacto de imigração, dizer que vai sair da convenção sobre o clima, são posições difíceis de imaginar que o mundo aceite com aplausos. Dentro do governo, tem setores ultraliberais, na parte econômica, setores que são culturalmente atrasados, reacionários, e setores que são fora do mundo, “démodé”.

RFI – E como fazer com que isso funcione? Para que eles se entendam para governar?

FHC – Este é o ponto, é difícil ver. Você vê que, no começo do governo, estão dando muitas cabeçadas, um diz uma coisa, o outro diz outra coisa e tal. Eu sou prudente, eu fui presidente, eu sei que é difícil, não gosto de jogar pedra toda hora e às vezes no começo as pessoas custam a se ajeitar. Mas aí é mais do que isso, são setores muito desencontrados. Eu sou brasileiro em primeiro lugar; o meu partido, para mim, vem depois. Eu quero o bem-estar do povo e tenho uma visão de mundo. Acredito na humanidade, acho que tem valores universais, direitos humanos, essa coisa toda, então eu torço para que não façam erros, não torço para que errem. Deixa ver o que vai acontecer. Mas que estão dando cabeçada, estão.

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