Ideias & Lideranças
Política, economia, educação, cultura, cidadania, justiça social, meio ambiente, liberdade de pensamento e expressão.
sexta-feira, 30 de outubro de 2026
'Nada é impossível para Lula', por Marcos Cardoso
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
Lula teve o adversário que queria
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 28 de outubro de 2026
Lula teve o adversário que queria
O campo conservador precisa urgentemente libertar-se de Jair Bolsonaro, que elegeu Lula ao ungir Flávio como candidato e interditar o caminho para alternativas muito melhores. Editorial do Estadão:
O responsável pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, contra todas as probabilidades, tem nome e sobrenome: Jair Messias Bolsonaro. Ao ungir seu inexpressivo filho Flávio como candidato a presidente, interditando o caminho para alternativas bem menos impopulares e mais promissoras no campo conservador, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o ex-presidente na prática deu a Lula o fôlego necessário para permanecer no poder, a despeito de fazer um péssimo governo e de não ter nenhum projeto para o País. A direita precisa urgentemente libertar-se de Jair Bolsonaro.
Fiel ao DNA paterno, Flávio não reconheceu a derrota para Lula e chegou a anunciar que pediria a anulação da eleição. Houve “sacanagem”, disse o rapaz, na linguagem de berço com que o clã trata a República. Na peculiar gramática dos Bolsonaros, o eleitor é soberano até escolher o adversário. Quando começou a campanha, Flávio vendeu-se como um “Bolsonaro moderado”, o que é um oxímoro evidente – afinal, os Bolsonaros se fizeram na vida pública graças à imoderação.
Felizmente, contudo, a oposição a Lula não depende de Jair Bolsonaro nem muito menos de Flávio, que em breve ficará desempregado e que terá de prestar contas à Justiça em razão das inúmeras suspeitas de corrupção que pesam contra ele. Vários partidos que se alinharam a Flávio no segundo turno aceitaram imediatamente a vitória de Lula e já se preparam para trabalhar com esse cenário. É assim que funciona numa democracia.
É claro que seria ingênuo imaginar que o bolsonarismo desaparecerá por encanto. O PL, partido dos Bolsonaros, terá no Congresso Nacional uma bancada robusta, formada por 121 deputados e 28 senadores. A força que elege familiares e sustenta governadores não se evapora numa derrota presidencial, mas a derrota de Flávio mostra os limites da vassalagem aos Bolsonaros. A direita precisa disputar os votos de milhões de eleitores conservadores, não entregar suas convicções em troca de uma autorização da família Bolsonaro para existir.
A eleição demonstrou que nem só de antipetismo vive o País. O antibolsonarismo tem força própria, e o clã se esmera em renová-la. Enquanto o PT explora a identificação abusiva entre sua permanência no poder e a sobrevivência da democracia, os Bolsonaros fornecem a ameaça real que torna esse expediente convincente. Em vez de libertar o País do lulopetismo, garantem-lhe sobrevida. Não se vencerá a chantagem petista repetindo o papel que o PT reserva aos adversários.
É nessa encruzilhada que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, fortalecido por sua acachapante reeleição, parece ter entendido seu papel. Ainda que tenha dado todo o apoio a Flávio Bolsonaro na campanha e no dia da eleição, Tarcísio, segundo relatos de bastidores, tentou convencer o candidato derrotado a aceitar o resultado e o desestimulou a pedir a anulação da eleição. Ontem, depois de alguma hesitação, o governador reconheceu a vitória de Lula, marcando posição diversa da de Flávio – que disse ser “impossível” aceitar o resultado.
Para ser a alternativa liberal, conservadora e democrática de que o País precisa, urge recusar esse golpismo bolsonarista de uma vez por todas. Ademais, reconhecer o eleito está longe de significar dar trégua ao governo. O Brasil precisará, e muito, de uma oposição firme, capaz de fiscalizar o Executivo, enfrentar o voluntarismo fiscal e a demagogia petista, defender o equilíbrio entre os Poderes e trabalhar por reformas. A democracia não é propriedade do PT, assim como a direita não é propriedade dos Bolsonaros. Tarcísio e outras lideranças da direita democrática terão de escolher entre construir uma alternativa de poder e administrar a dependência de uma família. A verdadeira “sacanagem”, para usar as palavras chulas de Flávio Bolsonaro, seria condenar o País a mais quatro anos desse cativeiro.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
Após perder pra Lula, parece que Flávio Bolsonaro endoideceu
Artigo publicado originalmente no site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 29 de outubro de 2026
Após perder pra Lula, parece que Flávio Bolsonaro endoideceu
Por Adiberto de Souza
São fortes as suspeitas de que o fujão Flávio Bolsonaro (PL) perdeu o juízo de vez após ter levado uma surra eleitoral do presidente Lula da Silva (PT). Essa conclusão se fundamenta na carta-golpista sem pé nem cabeça que o dito-cujo divulgou após ter fugido na calada da noite para os Estados Unidos. Sem apresentar qualquer prova, o derrotado jura que as eleições foram fraudadas. Pior, se declara o “verdadeiro presidente eleito do país”. As afirmações são tão absurdas que nem mesmo os seus aliados políticos mais próximos concordam com elas. Alguns, inclusive, acham que a derrota abilolou de vez o fujão. Será que o filho do presidiário Jair Bolsonaro acreditou que os políticos de direita, eleitos pelas mesmas urnas que o derrotaram, iriam entrar nessa canoa furada e naufragar junto com ele? Aliás, se não é loucura, é um artifício do energúmeno para escapar das graves acusações que pesam contra ele de evasão de recursos, lavagem de dinheiro e corrupção, pois louco é inimputável no âmbito penal. Seja lá o que for, quem concordar com a carta-golpista de Flávio Bolsonaro tá doido de pedra ou perdeu o juízo para sempre em local incerto e não sabido. Creindeuspai!
Texto reproduzido do site: www destaquenoticias com br
terça-feira, 27 de outubro de 2026
O Futuro de uma Virada Histórica
Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 27 de outubro de 2026
O Futuro de uma Virada Histórica
Por Fernando Gabeira (In Blog)
Ainda é cedo para muitas conclusões. A extraordinária mobilização popular que tirou Lula de um segundo lugar no primeiro turno e lhe deu mais 10 milhões de votos no segundo certamente não será esquecida.
Um dos primeiros reflexos deve ser no quarto governo Lula. Ele mencionou algumas vezes que governará de forma diferente e ouvirá mais os outros. Essa abertura tem o potencial de enriquecer seu mandato, salvando-o das armadilhas burocráticas. A derrota da direita no segundo turno também serve para alterar seu destino político. Mesmo quando as pesquisas eram desfavoráveis a Lula, elas já revelavam uma variável crescente: crescia o medo entre os eleitores de uma volta da família Bolsonaro.
Se isso for interpretado corretamente, nunca mais teremos um Bolsonaro disputando uma eleição majoritária. A direita poderá se libertar dessa liderança. Isso não significa que ela desaparecerá. Apenas ocupará um lugar mais modesto, compatível com seu nível de radicalidade.
No discurso da vitória, Lula mencionou a questão digital, que teve grande papel na sua vitória. Usará as redes sociais para se comunicar e, possivelmente, todo o governo seguirá seu caminho. Com o tempo, o governo perceberá que o meio digital precisa dominar todas as suas instâncias. Não se trata apenas de melhorar a imagem de governantes. Trata-se principalmente de tornar mais fácil a vida de cidadãos e empresas que necessitam dos serviços públicos.
A adesão da campanha à disputa nas redes sociais mostrou também que houve avanço nesse campo. Isso graças ao trabalho de André Janones, cuja eficácia reconheço, apesar de divergir de seus métodos.
No discurso da vitória, Lula mencionou o sucesso no combate ao desmatamento, sinal de que fortalecerá sua política ambiental. A derrota de Flávio Bolsonaro pelo menos espantou o fantasma de perdermos décadas de trabalho para construir uma das melhores legislações ambientais do planeta.
O perigo ainda existe num Congresso dominado por negacionistas. Mas o antídoto está aí: a união da minoria eleita com boas intenções com a opinião pública mobilizada pode dar uma chance de resistência vitoriosa. Foi assim na lei que, de certa forma, ameaçava privatizar as praias. Nada está totalmente decidido no ano que entra. Haverá luta, mas ela acontecerá num novo contexto.
Lula não falou mais das emendas parlamentares usadas pelo Congresso. Disse apenas que lançaria mão delas para financiar o transporte gratuito aos fins de semana. Sabemos que isso não é fácil. Para atenuar o impacto negativo das emendas, serão necessárias a vigilância da Justiça e forças-tarefas da Polícia Federal. São quase R$ 60 bilhões, indispensáveis para um plano de governo. Quando esse problema será resolvido? A mobilização histórica e a própria eleição se enfraquecem se o governo central não pode usar o Orçamento de forma racional.
Finalmente, o discurso da vitória fala nos data centers que o Brasil poderia atrair. Precisamos de um ou outro. Mas o paraíso dos data centers seria um inferno para os moradores, porque eles usam energia e água em grande quantidade. A resistência a eles é grande tema político nos Estados Unidos.
Tudo isso pode esperar. O governo se prepara neste fim de ano, e o fim das eleições é um alívio. Inclusive para nós que estamos saudosos de novos temas.
Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br
domingo, 25 de outubro de 2026
APURAÇÃO > Segundo Turno das Eleições 2026
sábado, 24 de outubro de 2026
Já houve gente culta na direita
Já houve gente culta na direita
Por Paulo Roberto Dantas Brandão
O maior fdp da história política do Brasil talvez tenha sido Carlos Lacerda. Mas é inegável a sua cultura. Apesar de ser a maior liderança da direita brasileira nas décadas de 1950 a 1960, e ter vivido a pregar golpes e a “lamber os coturnos dos milicos”, com já disse um historiador, Lacerda tinha cultura. Das suas paredes pendiam quadros dos modernistas Chagall e Matisse; fundou uma das maiores editoras do Brasil, a Nova Fronteira; além disso fez a tradução de Julio Cesár de de William Shakespeare publicada em 1965. Dizem que Lacerda, após o suicídio de Vargas, seu principal adversário político, considerava-se o Brutus, disposto a salvar não Roma, mas o Brasil. No jornal Tribuna da Imprensa, de sua propriedade, publicava artigos extremamente bem escritos.
Outro exemplo de direitista de cultura foi o escritor Plinio Salgador, que fundou o Movimento Integralista Brasileiro. Uma emulação tupiniquim do fascismo de Benito Mussolini na Italia. Imitou o uniforme dos integralistas no dos fascistas italianos, mas mudou a Camisa Negra dos partidários de Mussolini pela Camisa Verde, dos integralistas (que passaram a ser chamados Galinhas Verdes). Tentou golpes de estado, mas bateu-se de frente com Getúlio Vargas, na década de 1930, que era politicamente mais sabido do que ele. Mas Plinio Salgado era um escritor consagrado, tendo participado do movimento modernista, na década de 1920. Não deixou de ser um sacana, mas tinha cultura.
Agora diga: qual o mínimo de cultura que têm os Bolsonaros? Perguntem, por favor, se Flavio Bolsonaro sabe quem foi Matisse ou Chagall. Pode ser que, de longe, já ouviu falar de Shakespeare, mas não deve ter a mínimo ideia do que escreveu. Bolsonaro pai, o Jair, tentou, por puro ressentimento, acabar com a cultura no Brasil. O Flavio não é melhor do que ele. Ao contrário, é tão tosco quanto o pai.
No Brasil, os direitistas, apesar de abjetos, tinham cultura. Os Bolsonaros, pai e filhos, são, além de ignorantes, arrogantes.
Por isso eu não voto, nunca votei e não pretendo votar num Bolsonaro.
Texto e imagem reproduzidos de post do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão
sexta-feira, 23 de outubro de 2026
Algumas Horas para o Futuro
Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 23 de outubro de 2026
Algumas Horas para o Futuro
Por Fernando Gabeira (In Blog)
Faltam apenas algumas horas para a decisão. São duas visões antagônicas. O País será algo muito diferente com a vitória de um ou outro. Nossas vidas serão impactadas. É natural que seja uma semana tensa.
No meu caso, temo pelos anos dedicados à legislação ambiental. Ouço Flávio declarando sobre a Amazônia que os fazendeiros serão livres para fazer o que quiserem em suas terras. O pai dele também pensava assim. Mas é um delírio. Nenhuma terra está fora de uma região, de um país ou do próprio planeta. Se um rio passa em sua propriedade, você não pode nem represá-lo nem contaminá-lo sem prejudicar os que vivem à jusante. Não é possível atear fogo dentro de suas terras sem levar em conta a segurança das terras vizinhas. Quando se vive numa região tão especial como a Amazônia, por lei, não se pode desmatar livremente, apenas 20% da área.
Uma concepção anárquica como a dos Bolsonaros pode não apenas levar a Amazônia a um ponto de não retorno, transformando a floresta numa savana, mas arrasar com o nosso comércio exterior. Todos os acordos comerciais dependem dessa cláusula ambiental. Mesmo os Estados Unidos, liderados por Trump, investigam o Brasil, acusando o País de desmatamento para justificar suas tarifas.
Portanto, as decisões de domingo podem nos levar a diferentes papéis no mundo: interlocutores no combate às mudanças climáticas ou vilões ambientais. De um ponto de vista da política mais ampla, nosso papel no mundo será diferente.
Flávio Bolsonaro propõe um alinhamento com os Estados Unidos. Mas não vai muito adiante. Uma boa relação com os norte-americanos é essencial. Mas é inegável que são dois países diferentes, com interesses específicos. Um exemplo: o Pentágono se prepara para comprar a empresa que explora terras raras em Goiás. Isso acontece num momento em que o Brasil apresenta uma importante restrição ao comércio de terras raras: a exigência de que sejam beneficiadas dentro do território. O projeto que define isso já foi aprovado no Congresso. É preciso ver se é aplicável às explorações de Minaçu, em Goiás, e Poços de Caldas, em Minas.
De qualquer maneira, há uma diferença entre um país totalmente alinhado com os Estados Unidos e um país amigo que concorda em muitos temas, mas mantém sua própria identidade política.
A direita no Brasil cresce na denúncia da corrupção. Mas será que, em caso de sua vitória, emergirá um país mais honesto? O candidato escolhido por ela sofre inúmeras acusações que vão desde rachadinha, passando por compra de mansão e outras situações confusas. Ele tem um perfil mais parecido com um clássico político do Centrão. Como evitar que se comporte como tal, uma vez na Presidência?
A escolha de um outro candidato vai impactar a política cultural. O fato de a maioria dos artistas e acadêmicos apoiar Lula tem sempre uma grande repercussão na cabeça dos Bolsonaros, que passam a antagonizar a ciência e a arte, como se fossem territórios inimigos. Essas diferenças culturais podem trazer situações dramáticas como se viveu na pandemia, e, de uma certa forma, ainda se vive no debate sobre a importância das vacinas.
Finalmente, as concepções de segurança pública são muito divergentes. A maioria aprova as teses mais repressivas da direita. Muito se falou na experiência de El Salvador, como se um país tão pequeno pudesse servir de modelo ao Brasil.
De qualquer forma, embora a retórica seja diferente, a política de segurança pública de Jair Bolsonaro não representou uma mudança qualitativa em relação às outras desenvolvidas no período da redemocratização. Isso revela a dificuldade do tema, a necessidade de compreendê-lo em todas as suas variáveis e encontrar uma política eficaz, algo que não aconteceu ao longo dessas décadas. O problema só se agrava e o próprio sistema penitenciário passou a ser uma complicação a mais, apesar de tanto dinheiro e energia para que fosse parte da solução.
As pessoas chegam às suas escolhas por múltiplos caminhos. Elas se diferem entre as que buscam soluções individuais e as que enfatizam soluções coletivas. Elas frequentam as redes sociais, onde não faltam argumentos, acusações e até mesmo insultos.
A esta altura, apesar do importante debate final, a sorte parece estar lançada. Na segunda-feira, saberemos que país teremos nos próximos quatro anos. Em função disso, teremos de repensar nossos destinos, buscar aqueles que estão em situação semelhante e redesenhar nossa trajetória. O consolo na democracia é que sempre teremos uma nova eleição. A alternância é a grande qualidade do sistema. Essa qualidade jamais poderá ser roubada.
Creio que os candidatos foram submetidos a grandes sessões de perguntas. Mas em todas elas, para início de conversa, deveria ser colocada a questão democrática. “Aceita o resultado das urnas e promete não tentar golpe em caso de ser derrotado?” A sociedade amadureceu, há mudança entre os militares, a conjuntura internacional também ainda é favorável à democracia. Experimentos que pareciam eternos, como na Hungria, onde Viktor Orbán conquistou o Congresso e o Judiciário, acabaram se mostrando frágeis e passageiros.
Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br
quarta-feira, 21 de outubro de 2026
O que Vem Depois de Tanta Emoção
Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 20 de outubro de 2026
O que Vem Depois de Tanta Emoção
Por Fernando Gabeira (In Blog)
Minha menina: o Brasil vive sua última semana de campanha. Só agora, no segundo turno, assume os traços interessantes do passado.
Há gente na rua, gente fazendo o L, dizendo “vamos virar”, manifestações estudantis, shows. Para dizer a verdade, a animação envolve os dois lados. Vi uma espécie de comício em Capelinha, com milhares de pessoas. É uma cidade de Minas na entrada do Vale do Jequitinhonha, onde estive recentemente. Enfim, há luta eleitoral em toda parte.
Acho ótimo que as pessoas façam as campanhas. Os candidatos deveriam agradecer a elas não só por carregarem o piano nesta fase final, em que estão já de língua de fora. O ano que vem será difícil para qualquer vencedor. Os economistas acham que faltará dinheiro, além disso o El Niño vem pesado com seus eventos extremos.
Os últimos dias são interessantes também pelo esforço dos candidatos. O nome da direita acabou, para não perder votos, votando numa pauta de esquerda, o fim da escala 6×1, sem dúvida um avanço civilizatório. O candidato da esquerda afirmou que apoia a redução da maioridade penal, uma pauta clássica da direita. Chamo isso de efeito sertão virando mar, mar virando sertão, verso consagrado de nossa música popular.
O governo tem tido vitórias no Parlamento. O dado mais importante é que o desmatamento na Amazônia caiu ao nível mais baixo da História. Há queimadas por causa da seca e também porque os desmatadores se vestem de incendiários. Faz parte de seu show macabro.
Se um dia fosse escrever a história desta campanha, destacaria a grande quantidade de declarações de voto na internet. Conhecidas ou não, as pessoas traçam ligeiramente sua biografia e concluem dizendo em quem votarão.
Lembra aquele português que fomos visitar no Alentejo? Ele me escreveu dizendo que em seu país costumam eleger um Congresso de direita e um presidente de esquerda, ou vice-versa. Só para equilibrar. Os brasileiros fariam o mesmo? Não sei, aqui é presidencialismo, e não há muito esse tipo de cálculo.
Há muitas encruzilhadas, daqui até 2030. Não sei se verei todas. Espero que essa rígida divisão nacional se atenue com o tempo. A derrota da direita na Hungria mostrou que, mesmo com poderes quase absolutos, Viktor Orbán foi para o espaço. As próximas eleições americanas sugerem que Trump perderá pelo menos uma das duas Casas do Parlamento.
O que não significa caminho tranquilo para a esquerda. Nesta fase, o capitalismo é um cavalo bravo que ninguém consegue cavalgar por muito tempo. Será preciso um longo trabalho de revisão, suportando a dor de saber que não se é dono da verdade e que nem existe resposta científica para o rumo da História.
Não importa o resultado, depois da emoção da reta final, uma grande tarefa nos espera. As multidões nas ruas não podem abandonar a cena política, embora tenham de voltar para suas atividades cotidianas. Elas serão um grande termômetro.
Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br
terça-feira, 13 de outubro de 2026
"Uma eleição On-Line", por Fernando Gabeira
Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 13 de outubro de 2026
Uma eleição On-Line
Por Fernando Gabeira (In Blog)
A eleição não acabou, mas posso dizer que foi uma das mais singulares da História. Assisti a algumas antes e a todas depois da redemocratização. Uma das características de agora é a incontestável hegemonia das redes sociais.
Ouso dizer que essa hegemonia provoca nos eleitores o mesmo efeito que já vemos em nosso cotidiano: um déficit de atenção. Não discutimos tópicos de programas. Saltamos de um tema para outro, e eles se sucedem com rapidez. Nossa Senhora, “Dark Horse”, uma ou outra frase mal colocada pelos adversários. Os problemas deixam de tratar do futuro nacional e se transformam em simples trends.
Isso significa uma perda de conteúdo. Pouco sabemos da política externa do candidato vitorioso no primeiro turno. Claro, sabemos que se alinhará aos Estados Unidos. Mas isso não basta. Um país é diferente de outro, tem interesses específicos. Quem seremos nós, além de aliados dos americanos? Abriremos mão de nossa identidade, nos suicidaremos nos braços do outro?
Acho inadequado o termo pacificação. Não estamos em guerra. Mas uma tentativa, ainda que modesta, de unificar um país dividido poderia ajudar em alguns temas que dependem de um esforço nacional. Estamos diante de um dos mais poderosos El Niños da História. Podemos enfrentá-lo em conflito ou ter algumas concordâncias essenciais para reduzir os estragos.
Antes mesmo do segundo turno, as tendências vingativas aparecem aqui e ali. A expressão “sem anistia” muda de lado com uma incrível facilidade, como se a punição fosse uma das responsabilidades dos vencedores.
O que digo aqui não significa passar pano nos erros do Supremo. Eu mesmo fiz pressão por afirmar, um pouco antes do tempo, que era preciso reformá-lo de ponta a ponta. Os vencedores precisarão saber que o Brasil é um país complexo, que não é qualquer governo que consegue atender às expectativas de nosso povo. Essa história de ficar décadas no poder é uma ilusão. A alternância é a possibilidade mais forte. Olhem os Estados Unidos. Trump está à beira de perder suas primeiras grandes eleições.
Os eleitores de esquerda estão fazendo um extraordinário esforço para virar o jogo. Foram levemente minoritários no primeiro turno. Sua dedicação é algo que aponta também para o futuro. Nem sempre os líderes estiveram à altura de tanta energia positiva. Certamente, depois das eleições, os eleitores se tornarão mais importantes ainda e deverão avaliar sem paixão se a liderança, em caso de vitória ou derrota, não deveria se renovar, entendendo por isso não apenas a atração de jovens, mas uma sacudida nas suas ideias.
A História não acaba com a ascensão da direita. Ela pode se arrastar um pouco, mas o exemplo da Hungria está aí para mostrar como é dinâmico o curso das coisas num país.
Não sei se verei a eleição de 2030. Dentro dos limites, estarei aqui para lembrar como é surpreendente e rica nossa História. O diabo é que também é algo difícil de interpretar, tão rápidas e amplas são suas mudanças.
Texto e imagem reproduzidos do site gabeira com br
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
O Brasil precisa de estadistas, não de incendiários
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 12 de outubro de 2026
O Brasil precisa de estadistas, não de incendiários
Os Três Poderes da República têm o dever de compreender o recado das urnas: os brasileiros querem seu País de volta. Carlos Alberto Di Franco para o Estadão:
As eleições gerais de 4 de outubro deram recados importantes: o pêndulo moveu-se claramente na direção conservadora. A politização do Supremo Tribunal Federal (STF), estou certo, contribuiu bastante para esse movimento. Lula pagou o preço do desgaste de um estilo de governo personalista e populista. Não teve a grandeza de formar um sucessor.
Agora é preciso pensar no Brasil. O País está cansado da gritaria. A polarização estéril consumiu energias, dividiu famílias, rompeu amizades e sequestrou a agenda nacional. Enquanto os poderosos alimentam suas guerras, o cidadão trabalha, paga impostos e espera respostas que não chegam. É hora de sair desse atoleiro.
Conciliação, tolerância e perdão fazem parte da tradição brasileira. Nossa história registra gestos de pacificação diante de conflitos graves. Juscelino Kubitschek apoiou a anistia a militares que se rebelaram contra seu governo. Compreendeu que a grandeza de um governante se mede também pela capacidade de superar ressentimentos e pensar no destino da nação. É esse espírito público que nos falta. Pacificar exige respeito à lei, compromisso com a verdade e disposição para corrigir abusos. Não há paz duradoura sem justiça. Excessos e desvios de conduta de ministros da Corte Suprema e de outras autoridades da República precisam ser apurados e punidos nos termos da lei. Tampouco há futuro quando a revanche vira programa de governo e a perseguição ao adversário substitui as soluções para o País.
O Estado brasileiro está sufocado por despesas, ineficiência e privilégios. Os serviços públicos decepcionam. A carga tributária castiga quem produz. Aumentar impostos para sustentar uma máquina que custa demais e entrega de menos é uma insanidade. O Brasil precisa de responsabilidade fiscal, reformas e desenvolvimento. E desenvolver exige estabilidade, segurança jurídica e paz.
A disputa política foi rebaixada a um campeonato de paixões. Ideias perderam espaço para slogans. Líderes são venerados como semideuses ou tratados como demônios. A militância cobra obediência, pune a dúvida e transforma divergência em traição. Os extremos se alimentam mutuamente. Cada provocação justifica outra. E o Brasil fica para depois.
Esse mecanismo é perverso. A cada eleição, cresce a hostilidade. A cada crise, reaparece a tentação de eliminar politicamente o outro. O debate público se estreita, a razão recua e a sociedade paga a conta. Perdemos tempo, investimentos e oportunidades. Sobretudo, perdemos a capacidade de construir um horizonte comum.
As redes sociais ampliaram o problema. O insulto circula mais depressa do que o argumento. O radicalismo rende cliques. A gritaria dá audiência. Mas popularidade digital não é espírito público. Um país não se governa com memes, ameaças e frases de efeito. A democracia exige conteúdo, verdade e responsabilidade. Nenhuma nação prospera quando seus cidadãos são estimulados a se enxergar como inimigos.
É preciso desarmar os espíritos. Divergir faz parte da democracia. Intimidar, perseguir e silenciar corroem suas bases. As diferenças são legítimas e necessárias. O que não podemos aceitar é sua conversão em licença para o ódio. O adversário tem direitos. O poder tem limites. Nenhum governante, parlamentar ou magistrado está acima da lei.
O Brasil precisa de um projeto nacional. Educação de qualidade, saúde eficiente, segurança pública, ciência, tecnologia e infraestrutura devem ser prioridades de Estado. O desenvolvimento sustentável da Amazônia precisa integrar essa agenda, com oportunidades para sua população e respeito ao patrimônio ambiental. Nada disso pode continuar refém do calendário eleitoral ou do balcão da barganha política.
Precisamos pensar grande e agir com seriedade. Retomar o desenvolvimento econômico, científico, tecnológico e social, como defende Aldo Rebelo, exige visão de país e afirmação de nossos interesses nacionais. Temos recursos, capacidade produtiva e talento. Falta transformar esse potencial em prosperidade, empregos e oportunidades.
Esse salto depende de planejamento de longo prazo, contas públicas responsáveis e instituições confiáveis. Depende também de líderes capazes de negociar, ouvir e construir convergências. Governar exige firmeza. Mas firmeza não se confunde com truculência. Liderança se revela na capacidade de unir esforços em torno do bem comum. A pacificação exige coragem política. Coragem para conter os próprios excessos, reconhecer a legitimidade do outro e enfrentar os problemas reais. O País precisa virar a página do confronto permanente. Precisa crescer, oferecer perspectivas aos jovens e devolver esperança a quem trabalha.
Os políticos precisam superar a polarização estéril e trabalhar por um grande projeto de país. Os Três Poderes da República têm o dever de compreender o recado das urnas: os brasileiros querem seu País de volta. Não admitem que continue sequestrado por aqueles que fazem da política um instrumento a serviço dos próprios interesses.
O Brasil exige estadistas, não incendiários. Quem vive de alimentar o ódio pode conquistar seguidores. Não construir uma nação.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
domingo, 11 de outubro de 2026
A polarização ‘tóxica’ e a sedução da caricatura
Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10 de outubro de 2026
A polarização ‘tóxica’ e a sedução da caricatura
A política é um terreno limitado, as opções eleitorais são imperfeitas e as questões em jogo são bem mais prosaicas. Deveríamos nos debruçar no pouco tempo que resta para o debate sobre as temáticas econômica e institucional. Fernando Schüler para o Estadão:
“Precisei ser hospitalizada”, diz a influencer digital, horas depois do resultado eleitoral. Devidamente imersa em sua tribo, ela conta ter tido “picos de pressão” e recebido recomendações do médico para se afastar da internet. Sabedoria médica. A maluquice anda nas redes. Os espertalhões do marketing e caçadores de likes sabem disso, e por aí vai a onda algo patética de ódio e fake news que corre solta, em nossa festa da democracia. Nem mesmo gente vetusta e bem-preparada escapa. De um conhecido jurista, leio que a eleição do candidato da oposição jogaria o País em um “precipício”. Em um artigo, leio que é preciso (incrível originalidade) decidir entre a “civilização e a barbárie”. E mesmo de uma autoridade federal leio que tudo se resume a um conflito entre a “honra e a humilhação”.
Há um componente “psicótico” em nossas democracias. A definição foi dada por Peter Coleman, um calmo e erudito professor em Colúmbia, autor de The Way Out, livro de referência no tema da “polarização tóxica”, que aflige a política na era digital. Seu traço mais comum é o que se poderia chamar de “captura da vida pela política”. A política que deixa seu terreno próprio — o debate sobre políticas públicas — e passa a definir a identidade das pessoas. A partir daí, a obsessão, a linguagem hiperbólica. Aquele vizinho antes ameno que passa a excluir os amigos que pensam diferente, ocupa o seu dia com a política, parece mesmo acreditar que ele representa a luz e o “outro”, a escuridão, além de entrar em depressão (ou mesmo ir para o hospital) quando seu candidato toma uma surra nas eleições.
De minha parte, chama a atenção a “tentação do espantalho”. O vezo do sujeito que passa tanto tempo metido com sua própria tribo que passa a ver o adversário como um tipo de monstro moral. Ou simplesmente como “precipício”. O professor Curtis Puryear, da Kellogg School of Management, em uma ampla pesquisa, mostrou que democratas e republicanos superestimam significativamente a proporção de adversários que aprovam comportamentos manifestamente imorais, como pornografia infantil e apropriação indevida de dinheiro. Na prática, tendem a enxergar seus oponentes como uma caricatura. O Brasil de hoje é um perfeito laboratório disso. Ainda por estes dias lia que Lula fecharia as igrejas e que Flávio acabaria com o SUS, o Pix e iria “privatizar as praias”. E isto de gente autoproclamada “civilizada”. Por alguma razão, há quem realmente pense que mentir é desculpável se a causa for virtuosa. Não é. É apenas patético, além de um jogo em que todos saem perdendo.
Nas eleições passadas, tivemos parte da “direita” nesta toada, com a infinita conversa em torno das “urnas eletrônicas”, hoje vencida. Nesta campanha, os ventos mudaram. Já tivemos o “vão tirar Nossa Senhora de padroeira do Brasil”, que deu direito à impagável cena de Lula erguendo a santa e gritando, em um comício, que “enquanto eu for presidente ninguém vai avacalhar com Nossa Senhora!”. Tivemos a conversa sobre a “intervenção externa” nas eleições, com direito a um pedido de “investigação”, pelo governo, a partir de uma matéria de imprensa (e devidamente arquivado). E ainda esta semana assistimos à conversa histriônica em torno da “mudança na Constituição”, em algum momento mencionada pelo candidato da oposição. “É golpe!”, li de um notório jurista, sem saber do que se tratava. Também sem saber, escutamos de um ex-ministro do STF que a democracia “repudia pretensões autocráticas!”, com inescapável ponto de exclamação. No fim, a tal mudança dizia respeito a coisas como reduzir a maioridade penal, terminar com a reeleição e fazer reformas no Judiciário, em geral já em discussão no Congresso. Mesmo o que poderia ser um bom debate, coisa rara em uma campanha, termina na vala comum da caricatura.
O fato é que a política é um terreno limitado, as opções eleitorais são imperfeitas e as questões em jogo são bem mais prosaicas. No terreno econômico, precisamos resolver a questão fiscal e retomar reformas com foco na produtividade. No tema institucional, voltar a fazer valer a letra da lei, encerrar de vez o estado de exceção tropical que criamos no País, ao menos desde o inquérito das fake news. E, de quebra, levar ao Supremo quatro novos ministros que não sejam políticos de carreira e estejam dispostos a fazer cumprir a Constituição. Não é pouca coisa. São temas complicados, mas todos no plano da política. Muito longe da retórica do “precipício”, da birutice dos militantes e pegadinhas do marketing irresponsável. E é sobre eles que deveríamos nos debruçar no pouco tempo que resta para o debate, até as eleições.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Avanço da Direita num Mundo Transformado
Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 9 de outubro de 2026
Avanço da Direita num Mundo Transformado
Por Fernando Gabeira
O problema desse primeiro turno, encerrado com a vitória de Flávio Bolsonaro e uma grande votação da direita no Senado, é o fato de precisarmos de muito tempo para entender, num contexto em que não há tempo, pois o segundo turno já começou. É difícil corrigir em 20 dias erros que se arrastaram por quatro anos. Um deles se refere à amplitude e eficácia da frente democrática, bem-sucedida em 2022. Para ser fiel à proposta, o governo teria de evitar a hegemonia de um só partido e tentar, progressivamente, conquistar setores da sociedade que ainda estavam fora da frente. Não foi isso que aconteceu. A frente foi vista apenas como um instrumento da vitória eleitoral, e não como uma ferramenta que precisa ser aperfeiçoada para confrontar o crescimento da direita, uma realidade internacional.
Dificilmente num primeiro momento podemos avaliar o impacto que a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) teve na campanha eleitoral. Para medi-lo, talvez seja necessário começar pelo julgamento dos envolvidos no 8 de Janeiro. Os juízes foram muito severos em suas penas, além disso, por falta de estrutura, não se avaliou adequadamente a participação individual de cada manifestante. A severidade de uma determinada sentença não é algo extraordinário. Pode ocorrer aqui e ali, sobretudo pelo fato de que os juízes não analisam em detalhes as consequências políticas de suas decisões. O problema é que os políticos do governo se identificaram com as decisões judiciais e as aprovaram sem reservas. Isso contribuiu não para inibir a direita, ao contrário, foi um estímulo para uma campanha denunciando injustiças e perseguição política. Em pouco tempo, o Supremo, com o qual o governo se identificou, entra numa grande crise de credibilidade. O mesmo juiz que se destacou no rigor da repressão é apontado como cúmplice de Daniel Vorcaro, a partir do contrato de R$ 131 milhões que o escritório de sua família tinha com o Banco Master.
Para quem era de oposição e denunciava o ministro Alexandre de Moraes por sua severidade e algumas injustiças, tornou-se fácil estabelecer uma ligação entre governo e STF. Algumas decisões atabalhoadas dos ministros a favor de Lula nas eleições, como no caso do debate cancelado, podem ter contribuído para que grande parte dos eleitores identificasse uma instituição impopular com o governo. Essa hipótese é fortalecida pela grande vitória da direita no Senado. Muitos candidatos vitoriosos prometiam votar o impeachment de ministros. Parece que grande parte do eleitorado comprou a ideia de que era necessário mudar o governo.
Uma das grandes questões da política atual no Brasil é esta: se o bolsonarismo foi derrotado em 2022, apesar de ter o governo nas mãos, por que, em vez de perder substância, continuou crescendo a ponto de realizar sem problemas sua estratégia de ganhar o Senado?
Estava tudo tão claramente exposto e, no entanto, foi impossível de evitar. Há dois caminhos de análise: avaliar a força de um movimento internacional de crescimento da direita, mas também examinar os erros da frente que começou com uma amplitude e foi se estreitando. Em termos de distribuição de cargos, houve uma tentativa de ampliação. E isso sempre funciona, pois há muita gente querendo cargos. Mas em termos de intercâmbio político, de troca de ideias, de tentativa de crescimento, inclusive para cima dos eleitores de Bolsonaro, pouco foi feito.
A ideia sempre foi a de delimitar o bolsonarismo e atacá-lo, numa falsa suposição de que milhões de eleitores são de extrema direita. Talvez não tenha sido a melhor. Um dos fatores que influenciam as posições políticas é a lacração ou o desprezo pelo adversário.
Num livro lançado agora no Brasil, o sociólogo François Dubet destaca a importância do desprezo, da humilhação e da falta de reconhecimento no crescimento do populismo e na crise da democracia. Muitas pessoas não compreendem isso e, ao começar o segundo turno, tornam-se agressivas contra quem não votou com elas. Todas as pessoas que são ofendidas por causa de suas opções políticas acabam se enraizando e dificilmente consideram a possibilidade de mudar de ideia.
Para obter um resultado um pouco melhor, teria sido importante voltar à vitória de 2022 e avaliar os erros de interpretação. O primeiro deles foi considerar a frente democrática apenas como uma bandeira de campanha, e não como um instrumento de aperfeiçoamento constante.
O segundo deles é mais difícil de conter, pois é um esporte popular: insultar o adversário político, renunciar à ideia de convencê-lo. É muito comum nas redes o insulto ao “pobre de direita”, por exemplo. Isso sem contar as milhares de lacrações do politicamente correto. É importante que as pessoas reconheçam que estamos diante de uma forte onda internacional. Para fazer frente a ela, é preciso estudo, pesquisa, humildade, uma tentativa de compreender o outro.
Fatores como demonstração de artistas ricos e bonitos a favor de uma candidatura talvez não tenham mais o peso do início do processo de democratização. Existem forças políticas capazes de moldar identidades, alimentar ressentimentos.
No seu pequeno livro, François Dubet lança a ideia de que em nossos tempos nem sempre as desigualdades são vividas como injustiça material, mas como uma humilhação simbólica. São ainda tímidas as tentativas de entender o que se passa, mas algumas coisas mais urgentes precisam ser discutidas agora.
Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
Viva o povo brasileiro?
Viva o povo brasileiro?
O que se passa com o povo brasileiro? Deixou-se manipular pela desinformação, pelo populismo, pela demagogia, pelo extremismo, ou foi mesmo interferência externa? Jaime Nogueira Pinto para o Observador:
Foi Trump. Foi Netanyahu. Foi a grande internacional da extrema-direita. Só pode ter sido interferência externa. De outra maneira não se explicam os resultados no Brasil. O que se passa com essa outra metade, inesperadamente maioritária, do povo brasileiro, que parece já não ter como referência a imprensa de referência que tanto se esforçou para lhe indicar o caminho do bem? Deixou-se manipular, evidentemente. Cedeu à desinformação, ao populismo, à demagogia, ao extremismo alheio e “votou mal.”
Escrevi aqui, há duas semanas, sobre os casos de corrupção e abuso de poder no Supremo Tribunal Federal, mais próprios de uma pequena república cleptocrática das antigas do que de uma nação como o Brasil. E sublinhei o quase silêncio dos media portugueses sobre o grosso dessa corrupção, inequivocamente ligado aos partidários e amigos do Presidente incumbente. Aparentemente, para bem do povo e da democracia, achou-se melhor falar só do dinheiro que Flávio Bolsonaro, alinhado com o mal, pedira ao corruptor Vorcaro para o filme Dark Horse sobre o seu pai, Jair, e silenciar as avenças milionárias, as viagens em jactos, os hotéis de luxo, as garotas de programa, as mensagens e os favores trocados entre o grande corruptor e os seus amigos e clientes do Supremo Tribunal, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, alinhados com o bem. É que o povo, na sua simplicidade e ignorância, na sua bondade intrínseca, tinha de ser guiado, conduzido, endoutrinado por quem sabia o que era melhor para ele.
Porém no Domingo, 4 de Outubro, para profunda tristeza e incredulidade de muito pivot, comentador e entrevistado de rua escolhido ao acaso entre os apoiantes de Lula, houve uma fatia inesperadamente maioritária do povo brasileiro que se mostrou pouco dócil aos apelos dos seus melhores, surda aos papões e aos polígrafos agitados, indiferente até à possível reencarnação do próprio Hitler nos trópicos que se adivinha – ou mais atenta à realidade do que se esperava. Porque além de, ao contrário do proclamado pelas sondagens, Bolsonaro ter ficado à frente de Lula por 47/45, a direita e o centro-direita tiveram uma vitória esmagadora nas eleições para o Congresso e vitórias significativas nos governadores eleitos – culminando na eleição para governador do Paraná, à primeira volta, de Sérgio Moro, do Partido Liberal, protagonista do Lava Jacto que condenou Lula à cadeia e ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de Jair Bolsonaro.
Os números
Nas presidenciais, Flávio Bolsonaro teve mais 2 200 000 votos que Lula da Silva. No Senado, que renovava 2/3 dos seus 81 lugares, o Partido Liberal de Bolsonaro passou de 15 para 28 senadores, quase duplicando a sua representação. O Partido dos Trabalhadores tem 9. Os números, além de consolidarem a importância do “bolsonarismo” no legislativo, tornam possível o saneamento dos juízes (ou “ministros”) do Supremo Tribunal Federal que incorreram em “irregularidades”, já que muitos dos senadores eleitos na vaga direitista fizeram da promessa de impeachement dos juízes corruptos o seu cavalo de batalha. E se para a interdição dos juízes prevaricadores são precisos 54 senadores, são já pelo menos 49 os que a defendem.
A corrupção dos seus aliados na Corte Suprema saiu cara ao “incumbente” do Planalto que, à última hora, ainda tentou dissociar-se do “bando dos Quatro”, disparando para o ar banalidades moralistas, tais como “ninguém se pode tornar ministro do Supremo Tribunal Federal para enriquecer”, enquanto exaltava a luta de Moraes (o que mais enriquecera…) “em defesa da Democracia”.
Quando o povo “ameaça a Democracia”
Agora que se estipulou que a Direita desapareceu e só existe a Ultra-Direita, a Esquerda e os centristas que vêem o chão a fugir-lhes debaixo dos pés não conseguem resolver a equação que os acompanha desde os tempos em que os autoritarismos vigoravam nos países do Sul da Europa e na América Latina. Se para combater os autoritarismos e as ditaduras militares conservadoras todos – até os comunistas, estalinistas, maoistas, polpotistas ou trotskistas, partidários de Repúblicas Democráticas ou Socialistas mais opressivas e assassinas do que os regimes que combatiam – reivindicavam eleições livres, porque a democracia era boa, o povo era bom e a maioria era sagrada, o que fazer agora contra a “ultra-direita”, quando o povo, a maioria, escolhia “mal”, ou escolhia precisamente a “ultra-direita”?
A hipótese de, em épocas de descontentamento, decadência, crise e tensão, os cidadãos, os eleitores, que constituem o povo soberano, poderem usar o voto, a sua fracção de soberania, mais contra do que a favor, parece não se pôr. Sobretudo se é contra quem está no poder e o representa; contra quem proclama que o país “não é quintal de ninguém” enquanto faz do país o seu quintal privativo.
Desde o fim da Guerra Fria que o poder no Ocidente, no mundo euroamericano, tem sido exercido por aquilo a que podemos chamar “o centrão”, através de uma burocracia considerada “apolítica” e “tecnocrática”, mas que, por convicção ou cedência útil, se foi regendo pelos valores culturais e sociais de uma esquerda “esclarecida”, “progressista”, hedonista, elitista e radical. Esse conjunto de elites, todas globalistas, apostou na desindustrialização e na progressiva abolição das fronteiras, rumo a uma grande comunidade, a um grande mercado, abrangendo generosamente toda a humanidade, mas onde essas mesmas elites e as suas “razões práticas” se moviam com maior destreza e proveito. Com isto gerou-se no Ocidente um mundo de extremas desigualdades económicas, em que as classes trabalhadoras foram marginalizadas e as classes médias empobreceram.
Entretanto, nesse mesmo mundo euroamericano, o revisionismo da Escola de Frankfurt e os “marxismos imaginários” de que falava Raymond Aron, multiplicados até à alucinação, tornaram-se o catecismo dos pequenos e médios intelectuais das universidades e da comunicação social dos dois lados do Atlântico, largamente subsidiados por uma burguesia discreta, centrista, civilizada. E quando os eleitores, privados de outros instrumentos – a Academia, a Comunicação Social – reagem pelo voto, e reagem contra, então o povo deixa de ser sábio e soberano para passar a ser manipulado, a maioria deixa de ser sagrada para passar a ser fraudulenta ou pasto de “interferência externa” e a Democracia passa a estar “sob ameaça”.
O Brasil, o país mais importante da América do Sul, já esboçara uma reacção deste tipo com Jair Bolsonaro, vencido em 2022 por uma coligação da esquerda pêtista e parte substancial do Centrão. A gestão governamental de Lula, o apetite do seu filho, Lulinha, por “dinheiro vivo”, juntamente com os escândalos no Supremo Tribunal, levaram aos resultados de 4 de Outubro.
Mas o país está dividido e ainda há uma segunda volta. Pode ser que, apesar de o “arrastão bolsonarista” da primeira volta já ter causado sérios “danos à Democracia” por via eleitoral, o povo ainda queira “salvar a Democracia”, votando Lula. Só assim, devidamente alinhado com o bem, o bom povo, o dócil povo, poderá voltar a ser “sábio e soberano”.
Infelizmente para os que assim o desejam, tudo indica que não, que, no dia 25, o povo brasileiro ainda vá dar sinais de vida.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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