sexta-feira, 24 de julho de 2026

Temporada de caça aos mensageiros

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 24 de julho de 2026 

Temporada de caça aos mensageiros

A ameaça de tornar inelegível um senador por ter feito acusações contra ministros do STF expõe uma engrenagem destinada a proteger os integrantes do Supremo e a intimidar seus desafetos. Editorial do Estadão:

O relatório apresentado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) na CPI do Crime Organizado era passível de críticas. Deslocava a comissão de seu objeto original, misturava questões que talvez devessem ser examinadas por outros instrumentos parlamentares e atribuía protagonismo excessivo às suspeitas envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o procurador-geral da República, que resultaram em pedidos de indiciamento por crimes de responsabilidade. O Senado avaliou esse trabalho e o rejeitou por seis votos a quatro. Numa democracia, esse deveria ter sido o desfecho natural da controvérsia.

Não foi. O ministro Gilmar Mendes entrou com representação contra Vieira na Procuradoria-Geral da República (PGR), pedindo que o senador fosse investigado por suposto abuso de autoridade, alegando que Vieira praticou desvio de finalidade ao tentar atingi-lo (junto com os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli) com um pedido de indiciamento por crime de responsabilidade no relatório final da CPI. O procurador-geral, Paulo Gonet, afastou a hipótese de abuso de autoridade, mas surpreendentemente preservou a acusação ao remetê-la à esfera eleitoral, abrindo caminho para uma investigação capaz de atingir a elegibilidade do senador.

Parece claro que o tal relatório do senador Vieira se tornou um problema porque, ao longo da investigação da CPI, que incluiu o escândalo do Banco Master, surgiram elementos que alcançavam integrantes do próprio Supremo: o contrato multimilionário firmado pelo Master com o escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes e as relações econômicas do banco envolvendo negócios do ministro Dias Toffoli.

Dias Toffoli resistiu o quanto pôde como relator do caso Master no STF mesmo com evidências abundantes de suspeição. Gilmar Mendes interrompeu diligências destinadas a esclarecer os vínculos financeiros. A Procuradoria-Geral da República se recusou a investigar os volumosos indícios que alcançavam ministros. Quando a condução passou para o ministro André Mendonça, vieram críticas duras ao colega.

Sempre que a investigação se aproxima de áreas sensíveis para integrantes da Corte, multiplicam-se obstáculos processuais, cautelas extraordinárias e argumentos para conter seu avanço. Foi esse bloqueio que Vieira tentou romper por meio de um relatório parlamentar. Se o instrumento era obviamente inadequado, as perguntas que ele fazia não. A resposta da Justiça, porém, concentrou-se não nas suspeitas que ele levantava, mas na punição a quem ousou formulá-las.

Diante de contratos milionários, conflitos de interesses e fatos que reclamavam esclarecimentos, prevaleceram por parte do STF e da PGR arquivamentos, cautela extrema e baixa disposição para novas diligências. Diante de um relatório rejeitado pelo próprio Senado, a criatividade institucional mostrou-se muito maior. A acusação penal foi abandonada, mas encontrou-se um caminho alternativo para manter a ameaça de punição ao mensageiro.

Essa assimetria evidencia a existência de duas réguas por parte do procurador-geral. A primeira exige um grau quase inalcançável de certeza para que ministros do Supremo sejam enfim investigados. A segunda admite interpretações amplas e soluções processuais inovadoras quando o alvo é quem tenta submetê-los a escrutínio.

Pela Constituição, cabe justamente ao Senado exercer funções de fiscalização sobre ministros do STF. Por mais inadequada e até oportunista que tenha sido, a atuação de Vieira ocorreu no exercício legítimo da atividade parlamentar, sem qualquer traço de ilícito eleitoral e muito menos penal. Se senadores passam a correr riscos por exercer sua função, ainda que de maneira imperfeita, a mensagem aos futuros relatores, presidentes de comissão e demais integrantes da Casa é inequívoca: questionar ministros do STF pode custar caro.

Num Estado de Direito, a resposta a um relatório ruim é rejeitá-lo, desmontá-lo ou ignorá-lo – não transformá-lo em instrumento para intimidar seu autor. Da mesma forma, suspeitas relevantes contra autoridades não devem ser arquivadas antes de serem suficientemente esclarecidas. Mas o que se vê na Justiça é uma engrenagem que serve para proteger ministros do STF e para punir seus críticos e desafetos.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Quem sai aos seus não degenera

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de julho de 2026 

Quem sai aos seus não degenera

Tal como o pai, Flávio Bolsonaro mente sobre urnas eletrônicas diante de diplomatas estrangeiros, provando que o golpismo une uma família que não admite que pode perder eleições. Editorial do Estadão:

O golpismo é a herança que Jair Bolsonaro transmitiu em vida para seu primogênito. Anteontem, diante de diplomatas estrangeiros, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reencenou a farsa da suposta insegurança de nosso sistema eleitoral, uma das práticas que consagraram seu pai como a maior ameaça à democracia brasileira na Nova República.

Durante o encontro em Brasília, que reuniu representantes de mais de 40 países, além de autoridades da União Europeia e da Liga dos Estados Árabes, o candidato à Presidência pediu o envio da “maior quantidade de observadores possível” para as eleições de outubro, afirmando que as urnas eletrônicas usadas no Brasil teriam “a mesma origem” dos equipamentos usados na Venezuela: a empresa Smartmatic, citada em um documento da CIA sobre uma suposta fraude eleitoral ocorrida no país vizinho em 2012. É mentira.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já afirmou por escrito – e categoricamente – que equipamentos ou softwares da Smartmatic, ou de qualquer empresa estrangeira, jamais foram usados em eleições no País. Todo o material foi concebido, produzido e gerido inteiramente pelo TSE, com tecnologia nacional auditável por partidos políticos, especialistas e órgãos de fiscalização do Brasil e do exterior. Jamais foi encontrada evidência de fraude em qualquer das eleições realizadas desde 1996 por meio eletrônico. O Brasil, ao contrário, é referência internacional em rapidez e segurança eleitoral, precisamente em razão dos sistemas de votação e apuração que Flávio, como pastiche do pai, acusa, sem provas, de serem passíveis de violações.

Nada aqui é por acaso. Flávio conhece bem o manual do golpista moderno: lança dúvidas no ar, insinua que forças ocultas estão atuando para melar as eleições, para logo em seguida negar que esteja fazendo qualquer acusação. “Não estou questionando o sistema de votação brasileiro”, disse o senador, explicando que somente, ora vejam, aludia a um relatório da CIA. Não é difícil perceber a malícia. Bolsonaro também jamais assumiu abertamente as suspeitas que adorava espalhar. Para os golpistas, basta semear a dúvida – matéria-prima das teorias da conspiração que animam esses liberticidas.

Flávio é tépido como democrata, mas não deixa de ser lamentável o fato de que um cidadão que pretende liderar a Nação minta com tanto desassombro. O senador chegou a afirmar que Bolsonaro está preso por ter se reunido com embaixadores, em 2022, apenas para expressar “preocupação” com a segurança eleitoral. Convenientemente, o filho omite que a condenação do pai a mais de 27 anos de prisão, em caráter definitivo, decorreu de uma tentativa de golpe de Estado, e não daquela reunião – da qual adveio a inelegibilidade do ex-presidente, por abuso de poder político.

Com intervalo de poucos dias, o discurso golpista de Flávio ecoa o de Donald Trump, de mesmo teor, feito em rede nacional nos EUA, no qual o presidente americano voltou a alegar, mais uma vez sem provas, que a vitória de Joe Biden, em 2020, foi fraudada. Para autoritários como Trump e os Bolsonaros a verdade dos fatos é irrelevante: basta semear a dúvida para deslegitimar, no futuro, um resultado eleitoral desfavorável a eles. Eis o espírito de uma família que, a despeito de ter feito da política eleitoral um bem-sucedido empreendimento comercial, jamais admitirá a possibilidade de perder uma eleição limpa.

O ataque de Flávio às urnas eletrônicas não é deslize. É mais um ato de irresignação com o Estado Democrático de Direito. Lembremos que, em entrevista à Folha de S.Paulo, em junho do ano passado, o senador já havia admitido que um candidato à Presidência apoiado por seu pai teria de, necessariamente, garantir o cumprimento de um eventual indulto a Jair Bolsonaro, “mesmo que” o Supremo Tribunal Federal o considerasse inconstitucional. Indagado sobre a hipótese de ser este, de fato, o destino dado ao indulto pela Corte, Flávio admitiu abertamente o “uso da força”. Precisa mais?

É exasperante que, em 2026, ainda tenhamos de dedicar energia ao desmentido de falácias sobre as urnas eletrônicas. Postulantes à chefia de Estado e de governo deveriam estar debruçados sobre os problemas reais que o Brasil tem de enfrentar. A lisura das eleições nunca foi um deles.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Inocentes em cativeiro

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de julho de 2026 

Inocentes em cativeiro

Hoje, proponho uma reflexão sob o impacto que a leitura do livro de Kylie Moore-Gilbert — “804 DIAS EM CATIVEIRO: A MULHER QUE SOBREVIVEU A UMA PRISÃO IRANIANA”, traduzido e publicado neste mês pelo Clube Ludovico — causou em mim.

Um relato impressionante de uma vítima da teocracia islâmica instalada no Irã, com todos os requintes de crueldade que são capazes de impor aos seus reais ou supostos inimigos.

Adicionalmente, trouxe um pouco de Sagan… para celebrarmos 30 anos da publicação do icônico “O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela na escuridão".

Espero que apreciem. Dennys Xavier:

O CÉU DO IRÃ

Kylie Moore-Gilbert chegou ao Irã como pesquisadora. Tinha formação acadêmica, conhecia a política do Oriente Médio e participara de uma conferência.

Em setembro de 2018, quando se preparava para deixar o país, foi detida no aeroporto de Teerã pela Guarda Revolucionária. Depois veio a acusação de espionagem, um julgamento conduzido sem garantias minimamente confiáveis e a sentença de dez anos de prisão. Passaria 804 dias entre Evin e Qarchak, enfrentando interrogatórios, isolamento, vigilância e uma forma de violência que procurava alcançar muito mais do que o corpo.

Seu livro, The Uncaged Sky: My 804 Days in an Iranian Prison (agora disponível aos assinantes do Clube Ludovico), carrega no título uma imagem encontrada durante o encarceramento. O céu sobre as prisioneiras continuava aberto, indiferente às grades e aos muros. A frase poderia, quem sabe, soar excessivamente literária em outro contexto, mas adquire força invulgar quando escrita por alguém para quem a simples visão do alto se tornara uma experiência limitada, vigiada, concedida segundo a vontade de carcereiros.

A prisão política tem uma lógica própria. Ela tenta introduzir o poder dentro da consciência do prisioneiro. O regime deseja que sua vítima passe a pensar com as categorias impostas pelo interrogador, que duvide da própria memória, que aceite a culpa inventada e reconheça na autoridade de quem a oprime uma espécie de onipotência.

O isolamento prolongado participa desse método. A pessoa deixa de receber do convívio humano as pequenas confirmações que sustentam a percepção da realidade. Uma voz, um rosto conhecido, uma conversa sem medo, tudo aquilo que parecia banal começa a revelar sua importância.

Kylie resistiu também porque percebeu, com crescente nitidez, o que seus interrogadores pretendiam obter. Não buscavam tão-somente informações.

Queriam colaboração, submissão e utilidade política. Um Estado desse tipo olha para o indivíduo como matéria disponível. Sua biografia pode ser reinterpretada, suas relações pessoais podem ser transformadas em indícios, sua profissão pode servir de pretexto para uma narrativa de conspiração. A verdade perde relevância logo que o poder se vê autorizado a fabricar a versão conveniente dos acontecimentos.

Platão, mutatis mutandis, conhecia esse mecanismo em outra forma. Na Apologia, Sócrates enfrenta uma cidade que não consegue suportar a sua presença sem convertê-la em ameaça. As acusações contra ele resguardam ritualística jurídica, mas nasceram de ressentimentos acumulados, de temores políticos e da irritação provocada por quem fazia perguntas em público. O tribunal desejava uma retratação que preservasse a autoridade dos acusadores. Sócrates recusou esse gesto porquanto compreendia que a vida privada de fidelidade à consciência valia mais do que uma sobrevivência comprada pela renúncia ao próprio caráter.

A experiência de Kylie toca essa antiga questão.

Quanto de nós permanece quando quase todas as escolhas exteriores são retiradas? Viktor Frankl encontrou nos campos de concentração uma resposta difícil, formulada sem a duras penas. Mesmo submetido a condições extremas, o ser humano conserva alguma possibilidade de decidir a atitude que assumirá diante do sofrimento. Essa liberdade interior não elimina a dor, não transforma a vítima em criatura invulnerável e tampouco torna suportável o que é desumano. Ela indica um território que o carrasco procura ocupar, embora não consiga fazê-lo por completo sem alguma participação daquele que sofre.

Kylie não aparece em seu relato como uma personagem imune ao medo. A força do livro depende disso. Surgem a angústia, a exaustão, a raiva, os conflitos com outras prisioneiras, o desgaste provocado pela incerteza e os efeitos de uma rotina organizada para quebrar qualquer senso de continuidade.

Sua resistência não se apresenta como uma serenidade constante. Ela assume formas irregulares, por vezes duras, por vezes desesperadas. Greves de fome, mensagens enviadas clandestinamente, recusas, negociações e pequenas decisões cotidianas preservavam alguma relação com a pessoa que ela havia sido fora da prisão.

O contato com as mulheres iranianas também transforma o centro do relato.

Muitas delas não tinham governos estrangeiros negociando por sua libertação, nem jornais internacionais acompanhando seus processos. Algumas cumpriam penas impostas por crimes políticos; outras estavam presas em circunstâncias atravessadas pela pobreza, pela violência familiar e pela rigidez de uma ordem jurídica que trata a mulher como alguém cuja vida precisa permanecer sob tutela.

Kylie compreende que sua história, embora terrível, estava cercada por uma atenção que não alcançava a maior parte de suas companheiras.

Essa convivência impede que o livro se torne apenas a narrativa de uma estrangeira capturada por um regime hostil. A prisão, concebida naqueles termos, expõe uma sociedade inteira em frangalhos, vivendo os estertores do que há de mais alto no ser humano: alguma dignidade, alguma racionalidade residual, algum senso de justiça. Dentro das celas aparecem as divisões religiosas, as diferenças de classe, os conflitos políticos, a coragem de certas mulheres e a crueldade de outras.

A opressão, não nos enganemos, não produz automaticamente solidariedade. Pessoas submetidas à mesma instituição podem proteger umas às outras, competir por recursos escassos, reproduzir hierarquias ou colaborar com os carcereiros, mercê de suas categorias mentais (por vezes bem exóticas).

A natureza humana continua ali, presente, sem a pureza que os relatos edificantes costumam exigir. Sim, livros como esse mostram um lado nosso que pouco ou nada corrobora a expressão “tratamento humanizado” como algo desejável.

Hayek escreveu sobre a relação entre liberdade e previsibilidade jurídica. Uma sociedade livre depende de regras que limitem o poder e permitam ao indivíduo orientar a própria conduta sem temer que a autoridade transforme qualquer gesto em delito depois de praticado. No caso de Kylie, a lei deixou de funcionar como fronteira do poder. Tornou-se linguagem de legitimação para uma decisão tomada em outra esfera. A acusação de espionagem servia aos interesses do Estado iraniano, e a condenação conferia uma aparência formal ao sequestro político.

Atenção a isso: obediência à formalidade jurídica não necessariamente é aplicação de justiça… nós, brasileiros, deveríamos saber bem disso. A arbitrariedade tem esse gosto pela cerimônia. Regimes autoritários mantêm tribunais, juízes, autos processuais e sentenças porque a violência apresentada como simples violência revela depressa sua nudez. O vocabulário jurídico oferece uma cobertura respeitável. A vítima passa a ser chamada de ré, o cativeiro recebe o nome de pena e a negociação diplomática que decide sua libertação pode ser tratada como cumprimento da justiça.

As palavras permanecem, mas o sentido delas foi esvaziado.

Kylie foi libertada em novembro de 2020, numa troca de prisioneiros.

Sua saída não restituiu os dias perdidos, nem poderia devolver intacta a vida que existia antes da prisão. O retorno envolve outra espécie de trabalho. A pessoa precisa reaprender a habitar espaços abertos, lidar com escolhas comuns, ouvir sons cotidianos sem associá-los à vigilância e aceitar que a liberdade recuperada não apaga a experiência do confinamento.

Talvez por isso o céu do título em inglês permaneça tão presente, ecoando, depois da leitura. Continuava aberto enquanto as mulheres estavam presas, e essa indiferença poderia ser sentida como beleza ou crueldade.

(Lembrei-me, enquanto lia, da célebre “Ponte dos Suspiros”, em Veneza, que costuma despertar uma imaginação romântica que pouco tem a ver com sua verdadeira história. O nome sugere encontros secretos, amantes separados ou promessas sussurradas sobre as águas. Nada disso. Construída no início do século XVII, ela ligava o Palácio Ducal às antigas prisões da República de Veneza. Por aquele corredor fechado passavam os condenados depois do julgamento, conduzidos às celas onde muitos permaneceriam por anos ou de onde sairiam apenas para a execução da pena. Os “suspiros” que deram fama à ponte não pertenciam ao amor, mas à despedida. Pelas pequenas janelas de pedra, protegidas por grossas treliças, o prisioneiro podia lançar um último olhar sobre o mar, sobre a luz que envolvia Veneza e sobre a vida que continuaria do lado de fora. Era um instante breve, suficiente para tornar ainda mais pesado o caminho em direção ao cárcere… ou à pena capital).

A liberdade do mundo exterior existia ao mesmo tempo que o cativeiro.

Depois de 804 dias, Kylie voltou a atravessar portões, mas levou consigo os nomes, os rostos e as histórias das que permaneceram do outro lado.

O livro termina… experiencias assim não terminam como os livros.

Outras pessoas continuam sendo interrogadas em salas parecidas, outras famílias aguardam notícias, outros processos transformam decisões políticas em sentenças judiciais. Estamos completamente imersos naquela realidade, ainda hoje.

Jamais nos esqueçamos.

A memória de Kylie pertence a uma mulher que sobreviveu e conseguiu escrever. Também guarda alguma coisa das mulheres e dos homens cujas vozes alcançam o mundo por fragmentos, bilhetes escondidos, telefonemas interrompidos ou relatos de quem saiu. Quando alcançam.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quarta-feira, 22 de julho de 2026

'Um presidente de mãos atadas', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 21 de julho de 2026

Um presidente de mãos atadas
Por Fernando Gabeira (in blog)

Acabou a Copa do Mundo; agora, nosso tema comum é a eleição. É preciso afirmar algo tão inconveniente agora quanto foi dizer que, com aquele time, o Brasil não ia longe, apesar da fanfarra comercial do “rumo ao hexa”.

Depois de muito debate e emoção, o presidente que escolhermos chegará ao poder de mãos quase atadas. Ele simplesmente não terá dinheiro para executar suas promessas. A causa disso é muito simples: o Congresso sequestrou parte do Orçamento. Ele gasta cerca de R$ 61 bilhões por ano só em emendas parlamentares. Sobra pouco para o governo.

Orçamento é um tema muito chato. É uma quantidade abstrata de recursos, que a gente costuma pensar como o dinheiro do governo. No fundo, todos sabemos que governo não tem dinheiro, exceto o que recebe de todos nós. Já temos tanta dor de cabeça com as contas do nosso dia a dia. Por que se preocupar com o que gasta o governo?

Há coisas, no entanto, que precisam ser conhecidas. Nas democracias ocidentais, todo o dinheiro arrecadado com impostos é usado pelos governos eleitos. Deputados e senadores apenas fiscalizam.

No Brasil, o Congresso abocanhou uma grande parte desse dinheiro. O resultado é uma irracionalidade nos gastos. Cada deputado gasta de acordo com suas necessidades eleitorais. Há muita redundância e corrupção.

Os deputados queriam que esse dinheiro que gastam fosse secreto. Daí o surgimento do famoso orçamento secreto, que o STF combate até hoje. Dinheiro público precisa de transparência.

Apesar de muita interferência legal, ainda agora soubemos que R$ 1,3 bilhão foi destinado sem que se soubessem os autores. São emendas de comissão. As comissões são uma réplica dos ministérios: Comissão de Educação, Saúde, Transporte. Por que gastam dinheiro de uma forma diferente dos ministérios? Por que não racionalizar?

O Congresso não abre mão desse poder. O resultado não é só dispersão e irracionalidade. Há coisas do arco da velha, como dizíamos no passado. Foi descoberto agora que pessoas que não são deputados manipulam algumas verbas. Valdemar Costa Neto destinou R$ 119 milhões; Eduardo Cunha, R$ 6 milhões.

A expressão “não deputados” é muito vaga. Não se trata da vizinha aposentada ou de um arcebispo. Ambos não são deputados. Costa Neto e Cunha foram presos, em momentos diferentes, por corrupção.

Por aí, é possível ver a seriedade com que o Congresso trata o Orçamento sequestrado. É tão grande o problema que a PF só consegue investigar alguns casos, pois não tem capacidade de fiscalizar quase 600 pessoas distribuindo ou embolsando dinheiro pelo país. Há casos fantásticos de cidades em que quase todo mundo arrancou os dentes ou fraturou os dedos. O Tribunal de Contas da União chegou a investigar cem casos e encontrou irregularidades em 82 deles.

O país que terá um novo presidente terá de se resignar com a falta de dinheiro. Só nas eleições, os partidos vão gastar R$ 5 bilhões. Os argumentos afirmam que são gastos com a democracia. Na verdade, a parte do leão são gastos antidemocráticos.

Encarar essa realidade ou se resignar? Até o momento, apesar de os jornais noticiarem e a PF trabalhar, existe certa passividade em torno do sangramento contínuo do dinheiro público, isto é, sempre lembrando, do dinheiro do nosso bolso.

De que adianta apenas escolher um candidato a presidente, sem equacionar esse problema?

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

Por que temos homens medíocres?

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 21 de julho de 2026

Por que temos homens medíocres?

No Império, o saber funcionava como uma credencial esperada daqueles que aspiravam aos altos postos. Hoje, essa expectativa tornou-se menos exigente. Dennys Xavier para a Crusoé:

Gosto de imaginar uma sessão do Senado do Império. Sem idealizações românticas ou projeções infantilóides cogitadas para criar ranço ainda maior com os duros tempos em que estamos imersos, sei muito bem que os seus integrantes estavam longe de representar um modelo acabado de virtude.

A escravidão ainda existia, o país lidava com temas complexos, mas… existe uma característica daqueles debates que chama a atenção de qualquer leitor dos anais parlamentares.

Os homens que ocupavam a tribuna pareciam sentir uma obrigação permanente de demonstrar que haviam estudado.

Os discursos de Paulino José Soares de Sousa, o Visconde do Uruguai, de José Antônio Pimenta Bueno, o Marquês de São Vicente, de Zacarias de Góis e Vasconcelos, de Nabuco de Araújo, entre tantos outros, pertencem a uma época em que o debate político ainda caminhava de mãos dadas com o direito, com a história e com a filosofia política.

Não eram homens infalíveis, por óbvio.

Defenderam, aqui e ali, posições que hoje podem virtualmente ser contestadas com boas razões.

Ainda assim, percebiam que a autoridade de uma ideia dependia, em alguma medida, da tradição intelectual capaz de sustentá-la.

A experiência inglesa, o constitucionalismo americano, o direito romano, Montesquieu, Burke, Tocqueville e os autores clássicos apareciam com frequência nas discussões: não como ornamentos retóricos, mas como parte do próprio modo de raciocinar. A burrice ou o apedeutismo não eram vistos como virtude.

Esse ambiente ajuda a compreender a figura de Dom Pedro II.

Seu prestígio como homem de cultura não nasceu de uma lenda construída depois da Proclamação da República.

Os diários do imperador, sua correspondência e o testemunho de contemporâneos revelam um soberano cuja rotina reservava espaço constante para o estudo (eu sei, eu sei… entre “Dilmas”, “Lulas” e “Bolsonaros”, a vontade de chorar em posição fetal se faz sentir).

Interessava-se por astronomia, história, arqueologia, linguística, fotografia e literatura.

Aprendeu diversas línguas ao longo da vida, entre elas o grego e o hebraico, traduziu trechos de autores antigos e manteve diálogo com intelectuais como Louis Pasteur, Ernest Renan e Victor Hugo.

Em suas viagens ao exterior, visitava bibliotecas, museus, observatórios e universidades com uma curiosidade que impressionava até aqueles que não compartilhavam de suas ideias políticas.

Esse tipo de formação produzia impacto emblemático na vida pública. O poder parecia carregar consigo, como segunda natureza, uma expectativa de cultivo intelectual.

Um ministro podia fracassar em suas decisões, um senador podia defender uma causa equivocada, mas existia constrangimento diante da ignorância.

A falta de preparo não costumava ser motivo de ostentação, por assim dizer.

Um líder político daquele tempo talvez não ventilasse a possibilidade de aparecer em público falando em termos chulos, vulgares ou… comendo como uma besta num boteco de esquina qualquer, em meio a restos despencando da boca.

Seria mesmo difícil imaginar algum deles puxando coro de “imbrochável” em evento solene de história da pátria ou falando da densidade de “grelo” em discurso dirigido a membros da nação.

Esperava-se que um homem destinado aos altos cargos tivesse passado muitos anos entre livros, dominasse a língua com precisão e conhecesse algo da longa história das instituições que pretendia governar.

Essa expectativa foi se tornando menos visível ao longo do tempo.

A política brasileira ampliou seu alcance social, incorporou novos grupos e abriu espaços antes inacessíveis, transformação que faz parte da própria história da democracia.

Em paralelo, a cultura humanística perdeu parte do prestígio que possuía entre as elites dirigentes.

Ler os clássicos, estudar história constitucional ou acompanhar os grandes debates filosóficos deixou de ser entendido como requisito natural da vida pública.

A mudança aparece até na forma de falar. Muitos dos discursos parlamentares do século 19 eram longos, por vezes cansativos, mas pressupunham um auditório disposto a acompanhar argumentos desenvolvidos passo a passo.

A vida pública contemporânea recompensa outra habilidade.

A frase curta circula melhor do que a demonstração, o “corte Tramontina”, a resposta imediata com frases feitas vale mais do que a reflexão amadurecida, e a velocidade passou a exercer uma influência que nenhum orador do Império poderia imaginar.

Essa transformação alcança também o ambiente universitário, o jornalismo e os meios de comunicação. Durante muito tempo, ter cultura significava integrar-se a uma tradição de leitura.

Conhecer Homero, Tucídides, Cícero, Santo Agostinho, Shakespeare ou Montesquieu era uma forma de participar de uma conversa iniciada muitos séculos antes. Ninguém acreditava, um tanto ingenuamente, que começava do zero.

A inteligência consistia, entre outras coisas, em reconhecer uma herança e dialogar com ela.

Hoje, bem… para usar um eufemismo… a impressão é diferente.

Muitos homens públicos exibem uma relação distante com os livros, e isso quase nunca desperta constrangimento. Confunde-se frequência nas redes com influência intelectual, exposição permanente com autoridade, convicção virulenta com conhecimento.

A figura do homem cultivado perdeu parte do prestígio simbólico que possuía. Em alguns ambientes, demonstrações de erudição chegam a provocar suspeita, como se o estudo afastasse alguém da realidade concreta do país.

Seria injusto afirmar que desapareceram os homens verdadeiramente cultos.

O Brasil continua produzindo grandes historiadores, juristas, professores, cientistas e escritores. A diferença ocupa outro lugar.

Durante boa parte do Império, o saber funcionava como uma credencial esperada daqueles que aspiravam aos mais altos postos da nação.

Hoje, essa expectativa tornou-se muito menos exigente. A inteligência continua admirada por alguns (cada vez menos), mas deixou de ocupar o centro do imaginário político brasileiro.

E essa mudança diz bastante sobre o tempo em que vivemos, mesmo quando preferimos não percebê-la.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

O erro de Trump no Irã

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 21 de julho de 2026

O erro de Trump no Irã

A surpresa de Trump expõe uma velha ilusão: a de que basta remover o tirano para libertar o povo. Luciano Trigo para a Gazeta do Povo:

Donald Trump afirmou ter ficado chocado ao ver a multidão de iranianos chorando no funeral do aiatolá Ali Khamenei. Disse que sempre acreditou que a população odiava o líder iraniano. A surpresa revela mais do que uma avaliação equivocada: ela expõe uma velha ilusão, a de que basta remover o tirano para libertar o povo.

A presença de multidões em funerais de líderes autoritários não pode ser interpretada como uma fotografia da alma de uma nação. Em sociedades submetidas a longos períodos de controle político, uma demonstração pública de luto pode reunir convicção religiosa ou ideológica, medo, pressão social, coerção e até oportunismo. Pessoas comparecem porque acreditam, porque temem, porque se identificam com parte da narrativa do regime ou simplesmente porque se acostumaram a viver dentro dele.

Ainda assim, o funeral gigantesco de um homem que, aos olhos do Ocidente, simbolizava décadas de repressão revela um fato frequentemente ignorado: ditaduras não sobrevivem apenas pela força. Com o tempo, elas constroem vínculos emocionais, identidades coletivas e mecanismos de adaptação psicológica.

A ilusão de que basta remover o tirano para desencadear uma revolta popular é sedutora em sua simplicidade: existe um ditador no topo e um povo oprimido embaixo; basta eliminar o primeiro para que o segundo faça o resto. Mas a história quase nunca funciona assim. Sociedades não são máquinas esperando que uma peça seja retirada para voltar ao normal.

A surpresa de Trump ajuda a explicar por que a estratégia americana de eliminar a liderança iraniana não produziu a esperada mobilização popular. Trump parece ter partido da mesma premissa que orientou outras tentativas de mudança de regime patrocinadas pelos Estados Unidos: a de que eliminar a liderança bastaria para abrir caminho para o restabelecimento de uma ordem democrática.

Por exemplo, a deposição de Saddam Hussein eliminou o ditador do Iraque, mas não produziu a democracia estável que os estrategistas previram. Ela resultou em anos de guerra civil, fragmentação política e violência sectária. Derrubar um governo foi muito mais simples do que reconstruir as instituições, as lealdades e a cultura política sobre as quais a nova ordem precisava se apoiar.

A política não é feita apenas de escolhas racionais. O poder religioso iraniano construiu, ao longo de décadas, uma narrativa que combina fé, identidade nacional e soberania, criando uma espécie de escudo emocional contra ameaças externas. Foi justamente por ignorar essa dimensão que a estratégia de Trump fracassou.

A psicologia política ajuda a compreender esse fenômeno. Em Medo à Liberdade, Erich Fromm observou que muitos indivíduos experimentam a liberdade não como conquista, mas como fonte de angústia. Hannah Arendt, por sua vez, mostrou que os regimes totalitários consolidam seu poder não apenas pela coerção, mas também por meio de narrativas que reorganizam a realidade e transformam o poder autoritário em elemento da identidade coletiva.

A história oferece diversos exemplos. Muitos russos ainda preservam uma memória positiva de Stalin, apesar dos milhões de mortos sob seu governo. Muitos chineses continuam vendo Mao Zedong como herói da China moderna, apesar das tragédias do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural. Na Coreia do Norte, uma dinastia construiu uma relação quase religiosa entre poder e identidade nacional.

Às vezes, a morte de um líder enfraquece um regime. Outras vezes, fortalece seus símbolos, alimenta o sentimento de cerco nacional e aproxima ainda mais a população do poder estabelecido.

Derrubar um líder pode eliminar um governante, mas dificilmente elimina, por si só, as crenças, os vínculos e as estruturas que sustentam um regime. O autoritarismo frequentemente se adapta, sobrevive e pode até se fortalecer diante de crises externas. O verdadeiro erro de Trump não foi subestimar a força da ditadura, mas superestimar a rapidez com que uma sociedade abandona o regime sob o qual aprendeu a viver.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 21 de julho de 2026

'Fim de Jogo', por João Spacca

Fim de Jogo. 

"Minha charge de segunda no Meio..." (João Spacca)

Charge compartilhada de post do Facebook/João Spacca

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Não acho que a espécie humana faria qualquer falta ao planeta

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 20 de julho de 2026

Não acho que a espécie humana faria qualquer falta ao planeta

O sapiens parece se revelar suicida nessa recusa de ter filhos e a modernidade fez dos filhos um ônus. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

"A vida é tão terrível que teria sido melhor não ter nascido. Quem tem tanta sorte? Ninguém numa centena de milhares."

Ditado judeu citado pelo filósofo sul-africano David Benatar no seu livro "Better Never to Have Been, The Harm of Coming Into Existence", numa tradução selvagem, "melhor nunca ter existido, o mal de vir à existência" —não conheço tradução em português.

Benatar foi entrevistado nesta Folha segunda-feira passada, dia 13 de julho, sobre o tema do antinatalismo, atitude que ele defende, antes de tudo, por razões ontológicas e éticas, e não políticas, a priori —como é o caso hoje em dia. Aliás, sua posição é próxima do filósofo romeno, radicado na França, Emil Cioran, que considerava ter nascido um "inconveniente", e do filósofo norueguês Peter W. Zapffe, que via a consciência como um mal maior dentro do mal que já era a vida.

Não pretendo discutir a entrevista. Interessa-me a questão em si da proposta de recusa da reprodução humana e a queda da natalidade sustentada já há tempos em regiões mais afluentes da Terra. Nos últimos tempos tem sido comum relacionar a defesa da reprodução humana —tenham filhos!— a figuras políticas do panteão conservador, como faz, aliás, a entrevista citada acima.

De fato, muitos nomes desse panteão como J. D. Vance, Giorgia Meloni, Marine Le Pen, entre outros, defendem a reprodução humana. J. D. Vance chegou mesmo a dizer que os Estados Unidos eram governados por mulheres solitárias que criam gatos ou algo semelhante.

O tema da recusa de reproduzir a espécie humana é, de fato, um gatilho existencial. Primeiro porque, normalmente, o problema é colocado diretamente às mulheres, quando, na verdade, importa tanto a mulheres quanto a homens. Biologicamente falando, ambos são necessários para a reprodução, no mínimo, no nível dos gametas.

De um ponto de vista moderno, o tema dialoga diretamente com a emancipação feminina, o sexo como lazer, o mercado de trabalho e a possibilidade de formação e carreiras de sucesso para as mulheres. Isto é fato inegável: filhos podem atrapalhar a carreira das mulheres. Para o homem, também. A recusa da reprodução por parte de homens jovens se refere muitas vezes ao imperativo existencial "filhos hoje, contencioso amanhã". Este terreno jurídico impacta evidentemente as mulheres também. Nem precisamos lembrar que quem arca com o ônus fisiológico e psicológico da gestação é a mulher.

Muitas mulheres se sentem agredidas pessoalmente quando a recusa de ter filhos é posta em questão, mesmo que sem nenhuma condenação moral a priori. Acompanho esse tema há muito tempo, quando comparava a fertilidade entre mulheres de adesão religiosa estrita e mulheres seculares, sendo as primeiras muito mais férteis.

Devo dizer que filosoficamente não acho que a espécie humana faria qualquer falta ao planeta, portanto, não vejo condenação moral para quem se recusa a ter filhos. A espécie pode muito bem acabar e pronto, o que não significa que esta hipótese não seja em si terrivelmente trágica para a própria espécie. Ao longo do tempo histórico, seria uma catástrofe para quem vivesse esse processo.

Os ditos progressistas não alcançam a questão ontológica em jogo, só querem combater conservadores. Falta aos militantes uma percepção ontológica profunda das coisas, muitas vezes.

Filósofos e afins contra a reprodução humana o são normalmente por razões que extrapolam em muito a polarização política. Encabeça a lista o problema do sofrimento intrínseco à condição de ser vivo, como bem aponta Benatar. A vida se alimenta da própria vida, o que, em si, implica um ciclo infernal de violência. O problema não seria só reproduzir gente, seria reproduzir a vida enquanto tal. A reprodução em si seria um ato imoral.

Outro tema é o envelhecimento como destino maldito —independentemente das tentativas risíveis do mercado motivacional de negar este fato— e tudo que daí decorre como perdas, dores, abandono e adoecimento. A injustiça dominante na história, a violência da política neste "imenso mundo de tristeza", como cantou Freddie Mercury.

A suspeita de que a existência enquanto tal seria um drama imoral habita mesmo algumas formas antigas de espiritualidade, como o gnosticismo cristão dos primeiros séculos da era comum.

O antinatalismo é uma das formas mais radicais de pessimismo, por isso não vai bem com pautas progressistas, mais dadas ao otimismo ligeiro com relação à natureza humana. O sapiens parece se revelar suicida nessa recusa de ter filhos e a modernidade fez dos filhos um ônus.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

O presente manipula o passado


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19 de julho de 2026

O presente manipula o passado

Não é só mais uma aula chata: a História tem importância existencial. Vilma Gryzinski:

 “A História será boa para mim porque eu pretendo escrevê-la”, provocou o gigantesco Winston Churchill — e cumpriu, tendo produzido dezenas de volumes sobre sua trajetória incomparável. A História, no entanto, está fazendo das suas: Churchill hoje é ensinado nas universidades, dominadas pelo pensamento esquerdista mais rasteiro, como representante de todos os males do colonialismo, um líder cruel que não agiu para impedir a grande fome na região indiana de Bengala, com cerca de 3 milhões de mortes. Existem vários argumentos contrários, mas quem está interessado na verdade quando pesa mais a doutrinação? Se alguém ainda usar dinheiro em espécie quando for ao Reino Unido, notará que as notas de 5 libras com a efígie de Churchill estão a caminho da extinção. Animais da fauna local substituirão o legendário primeiro-ministro — e também o matemático Alan Turing e a escritora Jane Austen, um gay e uma mulher, mas não suficientemente woke para os tempos atuais. Todos foram dados como “contenciosos” e representantes de “uma visão retrógrada do Reino Unido que implica um grande risco de divisão e controvérsia”. Depois reclamam quando a extrema direita argumenta que a história britânica está sendo sabotada, num movimento destinado a apagar a identidade nacional.

O passado, sabemos todos, é constantemente reescrito, inclusive por causa da famosa premissa de George Orwell (“Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”). A visão crítica é importantíssima, mas quando se transforma em visão única distorce um debate que deveria nos enriquecer e ajudar a entender não só quem fomos, mas quem queremos ser hoje. Outro exemplo anglo-saxão de como o pensamento woke deforma o debate: os museus históricos americanos hoje são focados nos males de seus personagens mais importantes, não na multiplicidade de fatos, contraditórios, que marca a história americana. A distorção é tal que, mesmo quem não concorda em nada com Donald Trump, deveria admitir a realidade da conclusão de uma comissão que analisou os posicionamentos da Smithsonian Institution, o complexo de museus históricos em Washington, e concluiu que o objetivo parece ser apagar o legado histórico da nação. Exagero conservador? Com aberrações como chamar Cristóvão Colombo de “ladrão” e alegar, falsamente, que Benjamin Franklin fazia experiências com choques elétricos em escravos, fica difícil atribuir tudo a uma intenção doutrinária da direita.

É o mesmo espírito que inspira o deturpado ensino de História no Brasil, onde figuras como dom João VI são apresentadas como personagens grotescos, em lugar de entender o rico momento histórico que as guerras napoleônicas criaram, unindo a distante província dos papagaios aos terremotos políticos na Europa. É possível admirar Churchill e reconhecer seus muitos erros? E até sentir uma saudadezinha da nota de 5 libras? Perfeitamente. Pelo menos num mundo onde a complexidade dos acontecimentos históricos não seja substituída pela pobreza do pensamento reducionista e celebrar a vitória na II Guerra Mundial seja considerado um incentivo a visões nacionalistas, mesmo que isso também pese. Afinal, Churchill deixou ensinado que “a maior lição na vida é saber que até os tolos às vezes estão certos”.

Edição nº 3004 de VEJA

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sábado, 18 de julho de 2026

'A Copa do Mundo e as eleições', por Marcos Cardoso

Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 9 de julho de 2026

A Copa do Mundo e as eleições
Por Marcos Cardoso*

As paixões afloram e contaminam o ambiente propício às divergências políticas e futebolísticas. É ano de eleição e de Copa do Mundo. E neste exato momento a polarização, essa coisa criada pela extrema-direita bolsonarista e alimentada pela imprensa aferidora de uma suposta simetria entre fulano e sicrano, a polarização aparece com novas roupagens.

Mas será que a copa das seleções influencia no resultado das eleições? Pelo que a história registra, a resposta é não. Vejamos o primeiro título, em 1958. A conquista da na Suécia coincidiu com o auge do governo do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961). O sucesso da Seleção ajudou a consolidar um momento de grande otimismo enquanto JK implementava o Plano de Metas com o lema “Cinquenta anos em cinco” e construía Brasília. Mas quem  foi eleito em 1960 foi Jânio Quadros do PTN. JK era PSD.

Na Copa do Mundo de 1962, o presidente João Goulart (PTB) teve papel ativo no apoio à Seleção Brasileira. Ele intercedeu diplomaticamente junto à FIFA para liberar Garrincha para a final contra a Tchecoslováquia e, após a conquista do bicampeonato no Chile, tornou-se o primeiro presidente a receber uma seleção campeã em Brasília. Mas não terminou o mandato, sofreu um golpe em 1964 e o resto é história.

Em 1970, no auge do futebol brasileiro, o governo não teve influência decisiva no tricampeonato conquistado por Pelé e companhia no México, mas a conquista foi utilizada como propaganda do regime militar. O que, felizmente, não manchou aquela taça. Que foi roubada depois e provavelmente derretida, mas aí é assunto da editoria policial.

Pulemos para 1994, governo de Itamar Franco (sem partido). A partir daqui, Copa e eleição passam a coincidir no mesmo ano. O tetracampeonato do Brasil nos Estados Unidos não deu contribuição decisiva para a eleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). O Plano Real, lançado em 1994 quando era ministro da Fazenda, foi o principal pilar para sua eleição à presidência. Após a conquista da Seleção Brasileira nos Estados Unidos, o presidente Itamar Franco recebeu a delegação no Palácio do Planalto em Brasília e condecorou os jogadores. Mas a volta da delegação brasileira com o “voo da muamba” resultou em mais desgaste político do que benefício eleitoral.

Em 1998, o Brasil perdeu a final contra a França, que jogou em casa, e a tristeza da perda da Copa não atrapalhou em nada a reeleição de FHC, que ganhou no primeiro turno.

Para confirmar que Copa não influencia resultado de eleição, no Japão e Coreia do Sul em 2002, quando o Brasil conquistou o pentacampeonato de forma brilhante, com Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho, e Vampeta dando cambalhota na rampa do Palácio, o candidato palaciano José Serra (PSDB) perdeu para Lula da Silva (PT). O primeiro mandato presidencial que o líder trabalhista conquistou depois de três eleições frustradas.

A Copa de 2006 coincide com a reeleição de Lula. A Seleção Brasileira chegou ao torneio na Alemanha com grande favoritismo, mas foi eliminada pela França nas quartas de final. O início da série de fracassos do Brasil na Copa não impediu o presidente de se reeleger com relativa facilidade, derrotando Geraldo Alckmin (PSDB) no segundo turno com mais de 60% dos votos.

Em 2010, novo fracasso na Copa, na África do Sul, não atrapalhou o projeto de Lula de fazer sua sucessora, Dilma Rousseff (PT), que se elegeu para o primeiro mandato derrotando José Serra no segundo turno. Seleção Brasileira derrotada mais uma vez nas quartas de final, dessa vez pela Holanda.

A tragédia de 2014, quando o Brasil realizou a Copa do Mundo em casa e levou uma surra colossal da Alemanha na semifinal, o sofrível 7 a 1, não impediu a reeleição de Dilma, dessa vez derrotando Aécio Neves (PSDB) por pequena margem de votos no segundo turno. Desde o ano anterior, após os protestos de junho de 2013, a princípio contra os serviços públicos ofertados e que também teve como bandeira a oposição à realização da Copa, a presidenta passou a sofrer uma campanha pesada contra a sua gestão, mas não o suficiente para barrar a chegada ao novo mandato.

Em 2018, no impopular governo de Michel Temer (MDB), o selecionado brasileiro amargou novo vexame, na Copa da Rússia, voltando a se despedir nas quartas de final, dessa vez perdendo para a Bélgica. Mas nada disso impediu a eleição do candidato palaciano Jair Bolsonaro (PSL), derrotando Fernando Haddad (PT) com relativa facilidade no segundo turno.

Já em 2022, pela primeira vez desde que o Brasil se redemocratizou, o presidente da República foi derrotado ao tentar a reeleição. Na Copa do Catar, a primeira realizada no Oriente Médio, o Brasil perdeu uma inacreditável disputa de pênaltis para a Croácia novamente nas quartas de final e o presidente Bolsonaro (agora PL) perdeu uma eleição apertada para o arquirrival Luiz Inácio Lula da Silva. O derrotado tentou de tudo para não largar o poder, inclusive um golpe de estado, acabou condenado e preso.

Será que o último vexame da Seleção Brasileira na Copa da América do Norte vai influenciar no resultado da próxima eleição para presidente da República? A história registra que o futebol jogado na Copa pouco influencia na política, embora a política agora interfira mais do que nunca no futebol.

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Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail com

Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias com br

Chico Pinheiro entrevista Fernando Haddad

 

CHICO PINHEIRO ENTREVISTA - 29/06/26 - FERNANDO HADDAD

Instituto Conhecimento Liberta

Chico Pinheiro entrevista Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda, advogado, mestre em economia, doutor em filosofia e candidato ao governo de São Paulo. Na conversa, Haddad fala da mãe professora, do pai que nunca sentou em um banco de escola, das experiências como ministro de estado, do preconceito contra o Lula e das prioridades para o estado de São Paulo, entre elas a segurança pública.

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sábado, 11 de julho de 2026

O inferno é aqui?


 Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10 de julho de 2026

O inferno é aqui?

Depois do impeachment e da prisão de Lula, da eleição de Trump e da de Bolsonaro, a convivência tornou-se quase impossível. Não há outro assunto além da política – e não estamos falando da grande ciência política ou de uma filosofia social, e sim da política partidária mais rasteira e mesquinha. Flavio Morgenstern para a Gazeta do Povo:

A reportagem “The end of reading is here”, de Rose Horowitch, na revista The Atlantic, varreu o mundo das letras nesta semana. A autora revela que a quantidade de pessoas que leem por prazer na América diminuiu em 43% entre 2004 e 2023. Americanos podem até devorar sentenças, mas não conseguem mais pensar profundamente sobre um texto que seja mais longo do que um post de Instagram. Cerca de 30% dos adultos americanos são incapazes de fazer uma paráfrase ou extrair inferências de um texto com mais de uma página. Em 2017, esse número permanecia abaixo dos 20%.

Os dados são ainda mais alarmantes entre os jovens. No equivalente ao nosso colegial, os jovens que leem foram minguando nas últimas décadas. Entre 1984 e 2025, a quantidade de jovens de 13 anos que alegaram raramente ou nunca ler por diversão passou de 8% para 29%. Quanto menor a idade do jovem, mais ele tende a encarar a leitura como algo ultrapassado e supérfluo – muitas vezes sem nem entender como a prática da leitura pode ser associada a alguma forma de lazer.

Se os americanos precisam enfrentar o vício em celular, os brasileiros precisam enfrentar o vício em celular, o paulofreirismo e um sistema educacional inspirado no fascismo italiano que valoriza qualquer forma de pensamento, exceto o abstrato, lento e profundo. É preciso olhar com cobrança para o Vale do Silício (provavelmente pesquisando pelo… celular) no caso de um país razoavelmente livre como os Estados Unidos, mas também é preciso notar outros fenômenos mais descarados no caso de um país autoritário como o Brasil.

A despeito da briga da ditadura brasileira atual com o Vale do Silício, em um aspecto ambos estão de mãos dadas: no quanto preferem uma população que não lê. Regimes ditatoriais, principalmente as ditaduras contemporâneas, amam que as pessoas estejam entretidas, sem nunca se formarem.

Há um paradoxo comentado por muitos: nunca se leu tanto, mas não se lê literatura, filosofia ou qualquer obra que forme, e não só informe. O paradoxo é apenas aparente: no mundo tecnológico, as pessoas “leem” apenas redes sociais, cujos conteúdos reproduzem a rapidez simplificante do marketing, e o WhatsApp. O que é uma conversa constante, apenas por escrito. Ou seja, nunca passamos tanto tempo hipnotizados por anúncios e jogando conversa fora. Basicamente, uma continuidade mais lucrativa da televisão.

A “economia da atenção” é a dinâmica em que donos de algoritmos lucram muito com o vício das pessoas em redes sociais, quanto mais viciadas e menos conscientes elas estiverem. As vítimas acreditam mesmo que estão “informadas” ao passar o dia lendo redes sociais, com conteúdos determinados por algoritmos.

Nunca pensam que não conseguem mais permanecer cinco minutos diante de um texto sem figuras, anúncios, interações simplificadas (como arrastar para o lado) e alguma forma de vídeo. É o mesmo efeito que criticavam na MTV nos anos 90: imagens passando rapidamente, sem tempo para a reflexão. Algo mais próximo da hipnose do que da meditação.

Um fenômeno curioso se somou a esse comportamento coletivo, que já foi chamado de “McDonaldização da Sociedade” por George Ritzer ainda em 1993. Trata-se da extrema politização da vida.

No Brasil e no mundo, principalmente de 2013 para cá, todas as relações humanas passaram a ser mediadas pela política – quando a política é que deveria ser avaliada pelo quanto possibilita ou atrapalha o nosso convívio. Antes de 2013, era normal termos amigos de esquerda e de direita, e nossas conversas envolverem mais brigas por conta de futebol ou de gosto musical do que por partidos políticos. O comum era termos diversos assuntos.

Depois do impeachment e da prisão de Lula, da eleição de Trump e da de Bolsonaro, a convivência tornou-se quase impossível. Não há outro assunto além da política – e não estamos falando da grande ciência política ou de uma filosofia social, e sim da política partidária mais rasteira e mesquinha.

Os donos do poder tiveram como resposta a esses movimentos medidas cada vez mais autoritárias, mas envernizadas pela palavra “democracia”. A contrarreação das pessoas foi… falar mais de política em redes sociais. Mas falar muito de política em redes sociais, passar a vida falando de política em redes sociais, conversar em bares tendo como assunto o que se falou de política em redes sociais. Há youtubers e instagramers especializados no que as pessoas falam de política em redes sociais, e programas de rádio e TV comentam o que pessoas falaram de política em redes sociais.

Muitos comemoram a dita “politização”, ou seja, as pessoas supostamente teriam “consciência” política hoje por repetirem discursos e comentarem o que outras pessoas falaram sobre deputados e jornalistas. No entanto, a politização é um fenômeno rasteiro que também flerta com a alienação. Passar a vida monotematicamente já não é uma garantia de um futuro louvável. Pior ainda quando essa conversa constante, afastada de livros, não é nada mais do que uma… conversa. Algo muito mais próximo de uma velha fofoqueira do que de um Klemens von Metternich.

Com celulares e sem livros, as pessoas, na prática, estão apenas entretidas. Novamente, a dinâmica panem et circenses. Quanto mais creem que se tornaram perigosas ao poder por falarem de política partidária, mais as pessoas estão voltando à alienação da novela, do futebol e dos programas de besteiras no domingo (todos estão no X e no Instagram 25 horas por dia, com comerciais ainda mais constantes).

Ditadores sempre gostaram de pessoas sem leitura. Claro, sempre se vai citar o caso do Terceiro Reich como uma contraprova, já que aquele austríaco de bigodinho esquisito foi alçado ao poder pelo povo mais culto do globo. Não é bem verdade: apesar de um apoio massivo de professores, as ditaduras da década de 1930 ficaram marcadas pelo uso extensivo do rádio, com intelectuais daqueles idos já reclamando do abandono dos livros pelas pessoas.

O rádio – e, hoje, a internet – permite um discurso robótico, massificado e simplificado. Só vence na era do algoritmo quem sabe repetir tudo de maneira marqueteira, para outras pessoas repetirem ainda mais. As tais “palavras-chave”. Reveja seu youtuber preferido e veja quantas frases de efeito ele vive repetindo. Entre no perfil das pessoas que discutem com você sem que você nunca as tenha visto na vida e note os mesmos discursos, que não preenchem uma linha, xerocados ali. Perceba que, até chegar a esta parte do artigo, você já se viu tentado a largá-lo para checar as redes sociais umas três vezes.

Falar o dia inteiro de notícias e repetir nomes de políticos não é uma ameaça aos políticos e burocratas do outro lado. É o que os ditadores mais querem. É até um afago no ego. Ainda mais com linguagem reducionista e uma massa repetindo roboticamente algo sem consciência. Quem ganha com isso são poucos.

Ditadores têm medo de livros e de pessoas com pensamentos profundos, articulados e criativos. Basta pensar: se você fosse um ditador, teria medo de “pessoas politizadas” repetindo platitudes o dia inteiro em redes, ou de pessoas que estudam quietas livros complexos e sabem articular ideias? Infelizmente, temos apostado no pior para a nossa liberdade.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 7 de julho de 2026

Para Freud, falta maturidade ao religioso; para Nietzsche, coragem

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 6 de julho de 2026

Para Freud, falta maturidade ao religioso; para Nietzsche, coragem

A conclusão é que, em sendo as religiões sistemas abertos de interpretação —não há limite para a interpretação religiosa dos fatos porque a religião implica teorias absolutamente dissociadas de qualquer teste racional ou empírico—, suas explicações podem devorar os eventos da vida, atribuindo sentido espiritual a tudo. Luiz Felipe Pondé para a FSP:

As críticas às religiões são largamente conhecidas, inclusive suas matrizes. Segundo Freud, um religioso é infantil e regressivo porque não consegue lidar com o desamparo estrutural da condição humana. Adere a seres imaginários, derivados da expectativa infantil de proteção dos pais, a fim de ser cuidado por esses seres.

Segundo Nietzsche, a crítica se refere à covardia diante da indiferença cósmica e o decorrente ressentimento moral e religioso. Se, para Freud, falta maturidade à pessoa religiosa, para Nietzsche, falta coragem. O abandono cósmico é insuportável, como dizia o escritor grego Nikos Kazantzakis, um leitor aguerrido de Nietzsche.

Segundo Feuerbach, o religioso é um alienado das próprias potências que ele aloca imaginariamente nos deuses —em Cristo, no caso do cristianismo, especificamente. Para o autor, toda teologia é antropologia filosófica.

Segundo Marx, não muito longe do Feuerbach, o religioso é um alienado que outorga ao clero e sua instituição os poderes sobre si mesmo, sua sociedade e sobre o mundo. Mas, para nosso profeta do fim do capitalismo, essa alienação é material, visto que pagamos por ela. Compramos das religiões o ópio que nos deixará incapazes de enfrentar a vida com nossos próprios recursos. Toda religião é um delírio que nos custa dinheiro, em algum momento.

Segundo Epicuro, o mote da adesão aos deuses é o medo deles. Tememos o poder deles sobre nossas vidas, sejam vidas terrenas e históricas, sejam vidas depois da morte. Ao afirmar seu atomismo materialista, Epicuro nos livrava do terror dos deuses para com a vida após a morte, já que a alma seria puro ar que saia pela boca no último suspiro, portanto, mortal.

Quem sabe, se perdêssemos o medo dos deuses, perceberíamos que nada de ruim nos aconteceria —de ruim digo, algo diferente do que sempre nos acomete. O medo seria o afeto religioso por excelência.

Com Spinoza, aprendemos a suspeitar do caráter político das religiões —que o Marx, "doutor em Epicuro", herdou como parte de sua crítica às religiões. Se para Freud era o desamparo, para o Nietzsche a indiferença cósmica, para o Feuerbach e Marx era alienação, para Spinoza, era uma forma de política do medo.

Segundo alguns darwinistas, as religiões são traços evolucionários que se caracterizam por delírios imaginários organizados objetivamente e que foram adaptativos desde sempre. Seja para temermos os deuses maus, seja para pedirmos ajuda para os bons, as religiões nada mais seriam do que um polegar opositor metafísico.

Segundo o antropólogo Clifford Geertz, as religiões são "apenas" sistemas culturais de sentido como quaisquer outros. Humano, demasiado humano.

Entretanto, tais críticas em nada arranharam, até hoje, a fé e a adesão da maior parte dos seres humanos a sistemas religiosos dos mais variados tipos.

Apesar da reconhecida validade de todas essas análises, pessoalmente, sinto que a crítica freudiana é a mais letal e aponta para um elemento complicador, principalmente nos tipos de adesão mais radical a sistemas religiosos. Esse complicador é o vínculo entre a vida psicológica enquanto tal e a dita vida espiritual.

Onde ficaria a fronteira entre eventos estritamente psicológicos ou psicopatológicos e eventos de ordem espiritual-religiosa? Se você tem uma adesão dura a alguma religião que explicaria transtornos de comportamento a partir de uma semântica espiritual-religiosa, a fronteira, seguramente, poderia ficar borrada.

Se a adesão a sistemas religiosos significa, como pensava Freud, algum tipo de regressão psíquica a estágios mais "primitivos" —no sentido psicanalítico, ou seja, mais próximos da infância psíquica—, na lida com o desamparo e suas consequências, tais como medo, insegurança, sentimento de abandono, estresse material grave, doenças, ou mesmo algum tipo de dependência absoluta tardia, a tendência seria que esta adesão religiosa se caracterizasse por ser inatingível aos esforços da razão.

A conclusão é que, em sendo as religiões sistemas abertos de interpretação —não há limite para a interpretação religiosa dos fatos porque a religião implica teorias absolutamente dissociadas de qualquer teste racional ou empírico—, suas explicações podem devorar os eventos da vida, atribuindo sentido espiritual a tudo.

A crítica de Marx tem aqui também seu lugar. Qualquer serviço espiritual, principalmente se envolve atos de magia, custa dinheiro, muito dinheiro. Quando as religiões assumem as explicações para os sofrimentos psíquicos, as religiões vendem sua falsa cura para nós, os infelizes.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 4 de julho de 2026

A insustentável leveza das autocracias

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 4 de julho de 2026

A insustentável leveza das autocracias

Países que não têm uma Constituição respeitada e em que a violência e o tráfico de drogas tenham rédea solta dificilmente se reconstituem de forma ordeira. Artigo do professor Bolívar Lamounier para o Estadão:

Donald Trump não é o primeiro nem será o último autocrata empenhado em dominar o mundo.

Desde a Antiguidade, incontáveis construtores de impérios, geralmente agindo com extrema violência, tiveram tal ambição. De Alexandre o Grande (século 4 a. C.) a Átila (século V d.C.), o “rei dos hunos”, a quem é atribuída a frase “a erva não voltará a crescer onde minha cavalaria houver passado”, a estirpe é extensa. A diferença entre Donald Trump e os “bárbaros” da Antiguidade não reside, pois, só na diplomacia do “murro na mesa”, nem na riqueza e outros traços do presidente norte-americano. Reside, desde logo, no fato de haver encontrado um adversário feito sob medida, o Irã. A teocracia iraniana não é um caudilho individual, mas é um Estado. Teerã pleiteia, com uma mão, o controle exclusivo sobre Ormuz, uma estreita passagem de mar por onde transita 20% do petróleo de que o mundo necessita e, com a outra, uma enorme capacidade bélica, inclusive uma formidável quantidade de urânio enriquecido quase até o ponto necessário para fabricar armas nucleares. Entre Teerã e Trump, para onde vão as simpatias? Escolha difícil, não? Assim, Trump retém um nível de apoio e consegue aliados políticos (assunto tratado abaixo) que dificilmente obteria sem o confronto com os aiatolás, que, no fim das contas, lhe é benéfico.

Mas, claro, a história não termina aqui. Trump é também aliado de unha e carne das outras duas superpotências econômicas e militares – a Rússia de Vladimir Putin e a China de Xi Jinping. Somados, esses três países detêm ogivas nucleares suficientes para destruir nosso planeta centenas de vezes.

Com essa troica pairando sobre nossas cabeças, chega a ser um milagre que um certo grau de democracia ainda seja possível; a razão principal é que um estado de guerra permanente privaria os três protagonistas principais de uma grande parte dos recursos naturais, notadamente alimentos, sem os quais a situação doméstica dos três seria muito mais difícil. A China, por exemplo, mesmo despendendo cifras estonteantes só para manter o terror policial sobre seus cidadãos, não teria como pôr, diariamente, seis refeições na mesa de cada família.

O pano de fundo acima exposto explica em grande parte o vai e vem entre caudilhismos e aspirações democráticas que, bem ou mal, continuamente se repete em toda a América Latina. Assim como há lideranças querendo se afastar de amigos externos que só conhecem a diplomacia do “murro na mesa”, outras há que não se sustentariam sem o ácido carinho que as grandes potências militares lhes prodigalizam. Aqui temos um troca-troca verdadeiramente trágico: um domínio territorial barato para os Trump da vida e um ganho de poder e sobrevivência para autocratas menores de idade que de outra forma pagariam caro pelo comezinho ato de disputar eleições.

Aqui mesmo, em nossa vizinhança, estamos vendo se configurar uma situação como a que acima descrevi. Falo das recentes eleições no Peru e na Colômbia.

O problema, em ambos os países, vai muito além de divergências constitucionais ou ideológicas. Em ambos os casos, um passado de espessa violência. No Peru, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Fujimori, disputou a Presidência pela quarta vez e venceu, após uma longa e conturbada apuração, com 50,13% dos votos. Num país que teve oito presidentes em dez anos, essa vantagem não soa como um bom augúrio. Ela tem feito gestos de conciliação e convergência – a única coisa sensata que poderia fazer –, mas a questão é se sua atitude e eventual habilidade conseguirão sobrestar o DNA incrustado em seu passado de ódios.

Na Colômbia, o antinomia esquerda vs. direita ressurgiu muito mais carregada, e pelas mesmas razões: guerrilha, tráfico de drogas e uma relação odienta entre setores da elite. Inicialmente, o favorito à sucessão do presidente Gustavo Petro era o alto dirigente comunista Iván Cepeda. Mas uma reviravolta absolutamente inesperada pôs à frente Abelardo de la Espriella – descrito pelo Estadão (1/6, p. A9) como representante da “direita populista”. Ainda o Estadão, ibidem: “De 47 anos, é um advogado e empresário milionário que entrou para a política para impedir que a Colômbia seja ‘destruída’ pela esquerda. Ele é admirador do americano Donald Trump e do argentino Javier Milei (...). Vestido com ternos impecáveis e, recentemente, com colete à prova de balas (...), antes de disputar a presidência vivia na cidade italiana de Florença. Promovia seus negócios de rum e vinho, viajava em jatos particulares e cantava ópera”. Sua plataforma, conhecida na América Latina, foi propor “(...) uma aliança militar com EUA e Israel, a construção de megapresídios e medidas para incentivar o porte de armas”. E conclui: “Em meu governo, bandido que não se submeter à Justiça será abatido”.

Os acordes variam, mas a melodia é a mesma. Países que não têm uma Constituição respeitada e em que a violência e o tráfico de drogas tenham rédea solta dificilmente se reconstituem de forma ordeira. Quase ninguém acreditava, mas essa é também a história dos EUA na era Trump.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Políticos de direita precisam ser mais cultos

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de junho de 2026

Políticos de direita precisam ser mais cultos

Mais do que tudo: políticos precisam ter cultura que não seja meramente política. Precisam ter estantes de literatura e filosofia lidas. Precisam ter referências e exemplos de pessoas que venceram com poucos meios. Flavio Morgenstern para a Gazeta do Povo:

A onda de 2018 ficou marcada pelo fenômeno dos “deputags”: deputados eleitos no esteio de Bolsonaro que, chegando à Câmara, tornaram-se um número, não sabendo exatamente o que fazer. A maioria apelou para um expediente, no mínimo, pouco produtivo: pagar seus assessores para passar o dia inteiro criando “cards” e posts em redes sociais com notícias – não raro, plagiando descaradamente e sem créditos os veículos de jornalismo “de direita”, ou não alinhados ao regime.

Ou seja, os deputados, muito bem pagos, agiram (e muitos seguem agindo) imitando jornalistas – mal e porcamente. Era um festival de “Urgente!” tão repetitivo que destruiu o conceito de “urgente” na língua portuguesa – hoje, significa “deputado tentando chamar a atenção – boceje e pule para o próximo post”.

Quase nunca apontavam o que estavam fazendo em relação ao absurdo que noticiavam. Era uma mensagem esquizofrênica passada ao público: urgências urgentes a serem lidas com toda a urgência, seguidas de festas, encontros, recepções sorridentes. Ninguém parecia mais desconectado do próprio Estado de exceção do que, justamente, os deputados colocados lá para combatê-lo, observando os intestinos do poder de dentro.

A maior parte dos deputados foi tratada como o que eram de fato: números. Nada muito além de “temos tantos votos para passar tal pauta”. Raros da onda de 2018 (com seu refluxo em 2022) foram muito além da numerologia. Fato é que estamos em minoria. O problema é o pouco, ou praticamente nada, feito para reverter este quadro ominoso. Reclamar que não podemos fazer nada para o próprio eleitorado é assegurar que continuaremos sem poder fazer nada. Pior ainda é revelar que os políticos do nosso lado não fazem muito além de votar “sim” ou “não”, sem nada para mudar o quadro.

Antes que se diga que nada se pode fazer além de cumprir ordens (quando não torrar tempo e envidar esforços em tretas inúteis em público), a primeira coisa que políticos tinham de fazer é se tornarem mais cultos. Mais inteligentes.

Basta lembrar que o próprio PT foi minoria reiteradas vezes. Lembra aquele mote “Conheça teu inimigo”? Então, pare de tratá-lo como uma frase pronta repetida por quem tem QI 83 e trate-a como uma divisa. Estude biografias e história recente e antiga. Aprenda.

Quem sabe o que José Dirceu fez para conquistar uma hegemonia que lhe favorecesse? Sabe a frase “tomar o poder, que é diferente de ganhar eleições”? Então, estude o mesmo método, em vez de só pensar na frase e, no segundo seguinte, pensar em uma bobagem anódina a postar em redes sociais. Há mais poder fora do cargo do que dentro.

José Dirceu segue a estratégia de Ernesto Laclau, conquistando espaço em territórios fora da política, que confluam para que a sociedade inteira acabe lhe favorecendo (não é a mesma coisa que gramscismo, de que vocês só ouviram falar e não sabem o nome de um livro). Já ouviram falar?

Para os burocratas e operadores do Direito, temos de lembrar como José Genoino (aquele que, quando foi preso, amarrou uma toalha de mesa no pescoço e foi para o camburão imitando um super-herói balançando a capa) era um especialista no regimento interno da Câmara. Sabia a hora de passar um projeto, sabia a hora de retirar algo de pauta, sabia engabelar os presidentes da Câmara – um Efraim Morais ou um João Paulo Cunha comiam na mão de Genoino, enquanto Hugo Motta (vá lá que colocado no poder com apoio de agentes do sistema travestidos de “direitistas”) é plenipotenciário, mesmo com um Vorcaro fungando no cangote.

Quantas vezes fomos absurdamente prejudicados só por manobras com o regimento da Câmara? Só para ficar em um exemplo, foi Eduardo Girão que propôs uma CPI do 8 de Janeiro, enquanto a esquerda dizia que não precisava, deixa disso, já sabemos de tudo, para que investigar? O tema ficou mofando na mesa de Davi Alcolumbre por meses, enquanto o governo tentava retirar assinaturas, até conseguir uma CPMI (ou seja, incluindo também o Senado, onde o governo tinha maioria).

Só quando conseguiu a relatoria e a presidência (a mudança de partido de Randolfe Rodrigues da Rede para o PT “coincidentemente” ajudou bastante a numerologia), aí, sim, petistas e esquerdistas-satélites defenderam a CPMI com unhas e dentes: é urgente, a democracia depende dessa CPMI, quem não apoia são apenas os fascistóides do bolsonarismo.

Resultado: foi a partir da CPMI que houve a prisão de Mauro Cid, depois comutada pela prisão de Filipe Martins e Jair Bolsonaro, com o colóquio flácido para acalentar bovinos de “golpe de Estado”, enquanto as imagens do Ministério da Justiça, antes tratadas como uma “ameaça” a Bolsonaro, foram apagadas e nunca mais ninguém falou sobre o assunto.

Quais dos nossos parlamentares são ases no regimento da Câmara e do Senado?

Há também o fator da própria cultura. Um certo estudante tão aplicado quanto problemático da Rússia czarista, um certo Vladimir Lenin, passou em primeiro lugar na faculdade de Direito de Moscou, mesmo seu irmão mais velho tendo realizado um atentado contra o czar. A própria universidade percebeu que precisava daquele quadro. Mesmo no único regime que, no século XIX, poderia associar realmente monarquia a alguma forma de governo mais autoritária e, mesmo exilado na Suíça, Lenin conseguiu criar uma revolução, apear o czar, desmantelar um regime extremamente focado em religião e criar o totalitarismo mais ateu do mundo.

Sorte? Reclamou bastante nas redes sociais que não podia fazer nada porque não tinha a maioria? Lenin escreveu muitos ensaios que viraram o livreto “O que fazer?”, revelando em detalhes como reverter uma situação que parecia nem sequer possuir os meios que temos hoje (na época, a Rússia nem parlamento, a Duma, ainda possuía). Se perguntar a 99% dos nossos parlamentares sobre Lenin, aposto uma figurinha brilhante do Harry Kane que vão citar a frase “Acuse-os do que você é”, que Lenin nunca disse e tem zero a ver com o seu estilo.

Mas as leituras remontam muito ao passado. Temos políticos que leem Maquiavel? (Você quer enfrentar a ditadura do STF sem ler Maquiavel? Quero dizer, sério que você quer fazer isso, parceiro?!) Que tal uma biografia e um estudo retórico sobre os discursos de Churchill? Estudo, palavra engraçada… vamos tentar imaginar políticos que tenham um caderno. Que se apliquem a aprender, em vez de se autojustificar em sua falta de meios e ações. Que tal Platão e Aristóteles? São muito ultrapassados quando temos tanta porcaria para comentar, até notícias que não afetam em nada o mandato do postador de “urgente” do momento?

A literatura, até mais do que a história, está prenha de exemplos de grandes pessoas que enfrentaram grandes totalitarismos e fizeram a diferença. E há exemplos óbvios, como Aleksandr Soljenítsyn (não só em “Arquipélago Gulag”) ou Vacláv Havel. É com as grandes histórias, produzindo um grande efeito estético (a tal da “narrativa”, que a direita infelizmente trata como sinônimo de “mentira”, sendo que deveria ser especialista em narrar), que podemos mudar nossa situação, em vez de apenas nos lamentar.

Infelizmente, vemos políticos utilizando muito mal o seu tempo livre. Seus recursos lhes permitem estudar bem mais do que umas duas horas por semana – sem barulho, sem festa, sem evento, sem jantar, sem fotos. E isto é quase nada perto do que faziam Bill Clinton (que se gabava de ler quatro livros por semana enquanto era presidente), Theodore Roosevelt ou qualquer monarca europeu do século XIX.

Difícil? O difícil é largar comportamentos repetitivos e deixar o celular de castigo por duas horas. Cultura é barata, faz um efeito gigantesco. E o melhor de tudo: é um dos raros vícios que vale a pena alimentar.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com