sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Entrevista de Lula na Globo

Publicação compartilhada do site BBC NEWS BRASIL, de 27 de agosto de 2026

Entrevista de Lula na Globo: o que disse o candidato à Presidência disse sobre suas propostas

Por Leandro Prazeres

A entrevista com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na TV Globo nesta quinta-feira (27/8) começou com o assunto que paira sobre a campanha de reeleição do petista: as investigações a respeito de supostas irregularidades cometidas por seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha.

Questionado pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos, Lula classificou como "ilações" as acusações que estão circulando contra Lulinha.

"Ali não tem nenhuma acusação. São ilações, ilações, ilações tiradas de telefonemas. Eu conheço isso muito bem porque já vivi isso", afirmou o presidente, referindo-se à Operação Lava-Jato, que o levou à prisão.

O petista prometeu que Lulinha "não será protegido" por ser seu filho.

"Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro. Eu não vou afastar a delegado da Polícia Federal. Eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja beneficiado."

Apesar de afirmar que seu filho terá que provar sua inocência, o presidente disse ter "certeza" que isso será demonstrado.

Lula, que busca um quarto mandato, disse ainda que não fará intervenção na Polícia Federal por conta das investigações contra seu filho.

"Eu não vou afastar delegado da Polícia Federal. Eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja beneficiado (...) portanto, ele tem obrigação de não ter feito erro. Eu estou muito tranquilo como presidente da República. Tudo o que for preciso fazer no âmbito da polícia e da Justiça para apurar [será feito]. Será dada toda e qualquer garantia", disse o petista.

Lulinha é alvo de três inquéritos instaurados pela Polícia Federal (PF) e autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O primeiro investiga se Lulinha tentou favorecer Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", a obter contratos com o Ministério da Saúde para o fornecimento de produtos à base de cannabis medicinal.

O segundo é uma investigação que apura se Lulinha atuou para beneficiar a empresa 3Structure It LTDA para obter contratos junto à Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência (Dataprev), que é uma estatal federal.

O terceiro investiga a suposta atuação conjunta de Lulinha, do ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, e da empresária Roberta Luchsinger para favorecer empresas interessadas em contratos com o Ministério da Saúde. Ela é amiga pessoal da Lulinha e sua família.

Lula também foi questionado sobre as suspeitas sobre a atuação de Luchsinger, que, segundo relatórios da PF divulgados pela imprensa nos últimos dias, teria pago R$ 249 mil em despesas do ex-chefe de gabinete do petista.

"Não é adequado. É totalmente errado. E o Marcola sabe do erro que ele cometeu, porque não é esse o papel do chefe de gabinete. Ele sabe disso. Ele sabe da importância de chefe de gabinete", afirmou Lula.

O presidente disse, no entanto, que acredita na explicação apresentada por Marcola, de que  valor pago por Luchsinger seria fruto de um empréstimo pessoal.

Lula afirmou também ter questionado por que o auxiliar não o procurou ao enfrentar o problema.

"Eu disse para ele: 'Cara, eu sou quase que nem seu pai. Por que que você não falou comigo? Por que você não falou comigo do problema que você estava tendo?'"

Lula disse ainda estar "muito deprimido e muito chateado" com o episódio e afirmou que eventuais erros deverão ser punidos.

"O meu filho sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometeu, vai pagar. O Marcola sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometeu, vai pagar. É assim que funciona."

Lula, César Tralli e Renata Vasconcellos posando para foto no estúdioCrédito,Globo/ Manoella Mello

Trechos de um relatório da PF obtidos pela revista Veja apontam que Roberta e Lulinha trocaram mensagens sobre um encontro entre Roberta e o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa.

O objetivo do encontro, segundo a PF, seria viabilizar a venda de produtos à base de cannabis medicinal.

Marcola entrou no radar das investigações depois que a PF identificou que Luchsinger pagou despesas em nome do ex-chefe de gabinete do presidente. Em nota, Marcola disse que os pagamentos fizeram parte de um empréstimo pessoal feito pela empresária e negou ter praticado qualquer irregularidade.

A defesa de Lulinha também vem negando o envolvimento do filho do presidente em crimes ou condutas indevidas.

Lula descarta privatizar os Correios

Em outro ponto da entrevista, o jornalista César Tralli questionou sobre o prejuízo acumulado dos Correios nos últimos anos, outra empresa estatal do governo federal. Nos últimos quatro anos, esse prejuízo chegou a R$ 15 bilhões.

Lula atribuiu a crise pela qual a empresa passa a mudanças no mercado de entrega de encomendas, com a entrada de companhias privadas, brasileiras e estrangeiras.

"A crise dos Correios é que ele não se adaptou aos novos tempos. Surgiu muita empresa de fazer entrega e os Correios ficaram na mesmice (...) Se for necessário a gente fazer associação com empresas brasileiras ou estrangeiras, nós faremos, porque a gente quer os Correios junto com qualquer outra empresa", afirmou.

Em seguida, Tralli questionou se Lula cogitava a possibilidade de privatizar os Correios, defendida por setores do mercado financeiro e defendida durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Lula, no entanto, rejeitou a ideia.

"O senhor não considera vender [os Correios]?", indagou o jornalista.

"Não considero vender os Correios", disse o petista.

Caso Master e Jaques Wagner

Lula foi questionado sobre as menções ao senador Jaques Wagner (PT-BA) em investigações do caso Banco Master. O presidente respondeu que "tem muita gente nesse país" envolvida no escândalo, mas afirmou acreditar na honestidade do senador petista, que busca a reeleição ao cargo.

Wagner era líder do governo no Senado e se afastou da função após tornar-se alvo de investigações da PF relacionadas ao Master.

Lula tem feito campanha a favor da reeleição de Wagner para o Senado, o que foi questionado na entrevista à TV Globo.

"Até agora, não está provado que o Wagner tem relação com o Banco Master", argumentou o presidente.

"O que eu não posso admitir é aceitar que eu possa fazer política vivendo de ilações todo santo dia."

"Eu tenho consciência que o Wagner é honesto. Se ele cometeu um desvio, vai acontecer com ele o que vai acontecer com qualquer pessoa: vai pagar o preço do erro que cometeu. Eu não sou uma pessoa que mudo de calçada quando encontro o amigo que está sendo acusado de alguma coisa. Não. Até que se prove o contrário, todos são inocentes."

Os jornalistas também questionaram Lula sobre um dos pontos que mais preocupa o eleitor brasileiro segundo pesquisas de opinião pública: segurança pública.

Renata Vasconcellos questionou Lula sobre por quê o PT, que governou Brasil por 17 anos, não conseguiu conter o avanço do crime organizado no país.

Lula começou sua resposta dizendo que a Constituição Federal de 1988 teria retirado poderes do governo federal e atribuiu aos Estados as principais responsabilidades em relação à segurança pública.

Lula prometeu que, caso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) for aprovada pelo Congresso Nacional, ele criará o Ministério da Segurança Pública.

Segundo ele, esta medida irá melhorar a atuação do governo no combate ao crime organizado.

"Na hora que for aprovar a PEC da Segurança Pública, eu crio o Ministério da Segurança Pública. Por que eu vou criar o ministério? Porque, primeiro, eu quero estabelecer qual é a participação de cada ente federado na segurança pública. (Definir) qual vai ser o papel da União, qual vai ter o papel do Estado e qual vai ser o papel do município. Porque aí sim, a gente vai trabalhar muito forte", afirmou.

Lula defendeu que o governo faça investimentos em inteligência e voltou a dizer que encaminhou uma proposta ao governo dos Estados Unidos para o combate ao crime organizado no país.

"Aprovamos uma lei de anti-facção e estamos trabalhando a questão do combate ao crime organizado. Por isso eu fui levar pro (Donald) Trump uma proposta por escrito. Se os EUA quiserem trabalhar junto com o Brasil para combater o narcotráfico, o crime organizado, o Brasil está pronto e preparado (...) o meu desejo é recuperar o território do povo. Aquela rua é do povo do Rio, não é do bandido. A escola é do povo, não é do bandido", disse.

A menção ao governo Trump acontece três meses depois de o governo dos Estados Unidos designar as facções brasileiras Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A medida contrariou o governo Lula que, nos bastidores, defende que esta designação poderia abrir espaço para intervenções militares norte-americanas em território brasileiro.

Dívida pública

A jornalista Renata Vasconcellos questionou o presidente sobre a trajetória da dívida pública em seu governo — a dívida em relação ao PIB subiu 10 pontos percentuais durante o mandato atual do petista, chegando a quase 82%.

"Eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar essa pergunta falando diferente", respondeu Lula. Em seguida, ele defendeu a gestão da sua política econômica, inclusive em mandatos passados e elencou entre suas marcas a realização de superávit primário durante oito anos nos seus dois primeiros governos. É o resultado positivo das contas públicas quando o governo arrecada mais do que gasta, desconsiderando o pagamento dos juros da dívida.

O presidente afirmou que a dívida pública chegou a tamanho percentual do PIB devido aos juros altos e à estagnação do crescimento nos governos anteriores ao seu.

"Você sabe quando é que o PIB voltou a crescer acima de 2%, Renata? Quando eu voltei à Presidência da República. Você se esquece que eu deixei esse país crescendo 7,5% em 2010? E quando eu voltei, ele estava crescendo 1%?", indagou, acrescentando que, comparado a países como Estados Unidos, Japão e Itália, uma dívida de 80% do PIB "não é muito".

Lula afirmou que, neste ano, haverá superávit primário de 0,1%. Perguntado sobre a necessidade de ajustes fiscais e do corte de gastos obrigatórios, o presidente não respondeu diretamente como faria essas mudanças.

Quem é Lula?

Luiz Inácio Lula da Silva tem 80 anos de idade e busca o seu quarto mandato como presidente da República. Ele já presidiu o país por dois mandatos consecutivos, entre 2003 e 2011.

O petista se classifica como um político de esquerda e defende maior participação do Estado na economia, políticas de distribuição de renda e a ampliação de programas sociais.

Na política externa, Lula costuma defender o multilateralismo, parcerias com países fora do eixo Estados Unidos-Europa e a criação de foros como os BRICS, grupo que hoje tem 11 países e que foi fundado por Brasil, Rússia, China e Índia.

Nascido em Garanhuns, no interior de Pernambuco, ele migrou ainda criança com a família para São Paulo, no início dos anos 1950. Foi lá que ele começou a trabalhar como metalúrgico e deu início à sua carreira sindical e política.

Lula ganhou projeção nacional no final da década de 1970, quando presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e liderou greves de trabalhadores da região conhecida como ABC Paulista durante a ditadura militar.

Em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), legenda à qual continua filiado.

Em 1986, ele foi eleito deputado federal por São Paulo e participou da Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela elaboração da Constituição de 1988.

Esta é a sétima vez que Lula disputa as eleições presidenciais. A primeira foi em 1989, quando foi derrotado no segundo turno por Fernando Collor de Mello, que era filiado ao agora extinto Partido da Renovação Nacional (PRN).

Em 1994, ele chegou a liderar pesquisas de intenção de voto durante parte do período eleitoral, mas foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que aproveitou a popularidade pela implantação do Plano Real.

Lula voltou a disputar as eleições em 1998, mas foi derrotado novamente por Fernando Henrique, no primeiro turno.

Em 2002, com um discurso mais voltado ao centro, Lula venceu sua primeira eleição presidencial e passou a governar o país a partir de 2003. Ele foi reeleito em 2006 e deixou o cargo, em 2010, com índices de aprovação acima dos 80%, segundo pesquisas de opinião pública.

Na época, ele usou sua popularidade para apoiar e eleger sua ex-ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), em 2010 e 2014.

Os dois primeiros governos de Lula ficaram marcados pela expansão de programas sociais, como o Bolsa Família, pela adoção de uma política de valorização do salário mínimo e por um período de crescimento econômico impulsionado pelo aumento no consumo interno e pela alta no preço internacional de commodities produzidas pelo Brasil, como soja, carne e minério de ferro.

O período, porém, também foi marcado por denúncias de casos de corrupção. Em 2005, veio à tona o caso conhecido como Mensalão, que apontou para o pagamento de parlamentares da base governista em troca de apoio político no Congresso Nacional.

Lula sempre negou ter conhecimento das irregularidades e não foi denunciado no processo, mas importantes aliados vinculados ao PT foram condenados e levados à prisão. Entre eles estavam o ex-presidente do PT, José Genoíno, o ex-deputado federal João Paulo Cunha, e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.

Anos depois, investigações da Operação Lava Jato atingiram novamente o PT, executivos de grandes empreiteiras e dirigentes de empresas estatais como a Petrobras.

Os investigadores e delatores apontaram a existência de um esquema de pagamento de vantagens indevidas, seja por meio de propina ou por meio de doações eleitorais regulares por empreiteiras em troca de contratos públicos com o governo ou estatais.

Lula foi investigado pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF) por diversos crimes, entre eles lavagem de dinheiro, corrupção e tráfico de influência. Ele sempre negou ter conhecimento sobre o esquema e afirma, até hoje, que as suspeitas levantadas sobre ele eram fruto de perseguição política.

Entre 2017 e 2018, ele foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Suas condenações foram confirmadas em segunda instância. Mesmo assim, em 2018, ele foi lançado como candidato do PT à Presidência da República.

Em abril de 2018, no entanto, ele foi preso e acabou impedido de prosseguir na disputa.

Lula ficou preso por 580 dias, entre abril de 2018 e novembro de 2019, e não pôde disputar a eleição presidencial de 2018.

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as condenações ao concluir que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os casos.

Com isso, Lula recuperou seus direitos políticos, e, em 2022, disputou e venceu, em segundo turno, as eleições para presidente da República, derrotando Jair Bolsonaro (PL), que buscava a reeleição.

O petista recebeu 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Bolsonaro.

Em seu terceiro mandato, ele retomou programas lançados em seus dois primeiros mandatos como Minha Casa, Minha Vida, voltado para habitação.

Durante seu governo, o Congresso também aprovou trechos da reforma tributária e ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda.

Por outro lado, seus adversários criticam o aumento das despesas públicas, a situação das contas federais e o aumento no custo de vida.

Lula, em contrapartida, atribui parte das dificuldades econômicas ao cenário internacional e afirma que seu governo recuperou políticas públicas abandonadas durante a gestão Bolsonaro.

Lula lidera em intenções de voto no primeiro turno, com 39%, considerando os resultados das pesquisas divulgadas até esta quinta-feira (27/8).

A estimativa é do Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, que compila os levantamentos das instituições Datafolha, Quaest, AtlasIntel, MDA, Gerp, entre outros, e calcula uma espécie de média para a intenção de voto de cada candidato.

Depois de Lula, vêm Flávio Bolsonaro, com 34%; Ronaldo Caiado, com 4%; Renan Santos, com 4%; e Pablo Marçal, com 3%. Veja aqui os resultados completos.

*Colaborou Mariana Alvim, da BBC News Brasil em São Paulo

Texto e imagem reproduzidos do site: www bbc com/portuguese

Quem é Augusto Cury?

Publicação compartilhada do site BBC NEWS BRASIL, de 24 de agosto de 2026

Quem é Augusto Cury, escritor que disputa a Presidência nas eleições 2026
Por Pedro Martins

Augusto Cury, de 67 anos, chegou ao primeiro debate presidencial de 2026 como um personagem que destoava dos demais candidatos: um escritor de autoajuda, médico psiquiatra e palestrante que decidiu trocar os livros pelo palanque.

Candidato do Avante, Cury quase nem entrou no estúdio da Band na noite deste domingo (23/8). Diante das ausências do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), ele anunciou que faria um protesto e não participaria.

Pouco depois, no entanto, Cury voltou atrás e entrou no confronto, dizendo que o fez por respeito ao jornalista Fernando Mitre, diretor de jornalismo da Bandeirantes.

No palco, ao lado do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) e de Renan Santos (Missão), Cury criticou a polarização e tentou se apresentar como uma alternativa aos dois grupos políticos que, segundo ele, dominam a disputa.

Um dos momentos que mais chamou atenção ocorreu quando Cury reagiu às críticas de Santos ao eleitorado de Lula, a quem o empresário chamou de "canalha". "Estão rifando o futuro do Brasil, e eu não quero o voto deles", afirmou.

"Olha, Renan, você tem um nível de agressividade que me assombra. As ideias podem ter fundamento, mas a agressividade asfixia a capacidade de as pessoas terem suas próprias opiniões. Nós estamos em uma democracia, e a beleza dela está na divergência", disse Cury.

"Você pode criticar as ideias de Lula, e elas são criticáveis, mas você não pode criticar a pessoa, transformando ela em uma escória humana, quase um lixo. E nem mesmo o eleitor de Lula", acrescentou o candidato do Avante.

Um desejo antigo para 'aumentar a régua do debate'

Cury é um sujeito de predicados superlativos. Considerado o escritor brasileiro mais lido da última década, ele vendeu mais de 30 milhões de livros no país e agora quer estender essa ambição à política.

O escritor contou à BBC News Brasil em abril que se lançar à política é um desejo antigo, mas sua família tinha medo de que ele pudesse se ferir em um ambiente "extremamente agressivo e espinhoso".

Uma década depois, com o amadurecimento de suas filhas, ele contou que teve apoio para se candidatar, com a promessa de que, caso fosse eleito, não buscaria um segundo mandato.

"Não avaliei me candidatar a nenhum outro cargo, seja deputado, seja senador, seja governador, porque não quero fazer carreira política. Meu objetivo é aumentar a régua do debate", afirmou.

"Só acho que o Brasil não pode ser sequestrado por duas famílias — no bom sentido, sem fazer julgamento dessas famílias, mas o Brasil é muito maior do que a família Bolsonaro e a família Lula da Silva."

Com os resultados das pesquisas nacionais divulgadas até a sexta-feira (21/8), antes do debate da Band, a estimativa de intenção de voto em Augusto Cury, no primeiro turno, é de 1%.

A estimativa é do Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, que compila os levantamentos das instituições Datafolha, Quaest, AtlasIntel, MDA, Gerp, entre outros, e calcula uma espécie de média para os dados.

Até a sexta, Lula era quem liderava as pesquisas para o primeiro turno, com 39% das intenções, seguido por Flávio, com 35%, e Caiado, em terceiro lugar, com 5%.

A ideia da equipe de Cury é atrair eleitores que votaram em branco ou nulo — índice que foi de 4,41% em 2022, o menor desde 1994, mas que tem girado em torno de 10% na última década —, além dos que se abstiveram, que somaram 20,9% no último pleito, o maior percentual desde 1998, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.

Em abril, Cury afirmou que rejeita declarar apoio a qualquer candidato em um eventual segundo turno que não o inclua. Ele também evita dizer em quem votou na eleição passada.

Candidato com 'uma mente capitalista e um coração social'

O maior sucesso de Cury nas livrarias, O Vendedor de Sonhos, ilustra a verve narrativa que o tornou conhecido. Na história, que também ganhou o cinema, um psicólogo desiludido tenta tirar a própria vida, mas é impedido por um morador de rua, com quem passa a salvar outras pessoas.

O escritor apresentou a própria candidatura como uma história improvável, movida pela esperança, e disse acreditar que sua experiência estudando a mente humana pode ser usada para enfrentar conflitos, tanto dentro quanto fora do país.

Ele se projeta como uma terceira via, ancorando-se no lema de que tem "uma mente capitalista e um coração social", perfil que, segundo ele, o distanciaria tanto de Lula quanto de Flávio.

"Tenho uma mente liberal, quero um Estado enxuto e eficiente, que acolha as pessoas que estão querendo produzir, mas não têm condições, seja pelos juros altíssimos, seja pela burocracia", afirmou.

"E essa mente capitalista tem que ser acompanhada de um coração social, que valoriza os direitos humanos no mais alto nível, a educação de qualidade, a proteção da mulher."

Ao ser questionado se isso não o colocaria no centro do barômetro ideológico, o escritor rejeitou a ideia e disse que "o centro está no limbo entre ser neutro, estar em cima do muro" e que ele é "contra ser uma pessoa que não tem opinião".

Cury disse ser possível unir a agenda econômica e social e cita como exemplo a proposta de rever o sistema prisional, que, em sua avaliação, faz "com que a sociedade pague duas vezes, porque são de R$ 3 mil a R$ 4 mil gastos por mês com cada prisioneiro e, quando ele retorna à sociedade, reincide no crime e volta ao presídio".

"O Brasil aprisiona muito, ao contrário do que se acredita. Os criminosos devem, sem dúvida, ir às barras da Justiça, mas quem estamos aprisionando? São os criminosos de alta periculosidade ou jovens que não têm como sobreviver e acabam cometendo crimes, vendendo drogas?", questionou.

O escritor reconhece que pautas como essa podem levá-lo a ser ligado à esquerda e, em última análise, a Lula e ao Partido dos Trabalhadores, mas disse ter esperança de que o eleitorado não vá se deixar convencer por essas associações e de que os adversários não vão lançar mão dessa estratégia.

"Isso não é uma pauta da esquerda. As pessoas associam à esquerda, mas é uma pauta suprapartidária, porque também a esquerda não fez nada de grande impacto para mudar a ressocialização e impedir que as prisões se tornem escolas do crime. Essas pautas são sequestradas", disse.

Propostas para o mundo todo

Cury disse que não queria ser uma alternativa a Flávio e Lula somente para as crises brasileiras, mas acreditava ser possível ajudar a solucionar impasses entre líderes mundiais, de Donald Trump a Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky, presidentes dos Estados Unidos, da Rússia e da Ucrânia.

"Se tivesse o privilégio de sentar na cadeira de presidente, nos primeiros dias chamaria vários políticos, como Putin e Zelensky, para conversar, porque sou um especialista em pacificação de conflitos, tenho livros sobre isso", afirmou ele à BBC News Brasil em abril, quando ainda era pré-candidato à Presidência.

"Quem sabe alguém de fora, de um país como o Brasil, que é pacífico, seja mais ouvido. Não apenas este, mas os conflitos na África e em outros países."

Entoando o lema de que tem "uma mente capitalista e um coração social", o escritor disse que, caso seja eleito, espera "inspirar outros atores nas mais diversas nações, seja na Ásia, seja no mundo ocidental", a pôr fim às guerras e resolver desafios como a fome mundial.

"Se gastasse talvez 20% do que se gasta em armas, a equação da fome teria se resolvido. Eu gostaria de chamar o G20, ou quem sabe os quase 200 países que participam da ONU, e meio por cento de todas as importações e exportações do mundo poderiam formar um fundo. Ou por que não de 2% a 3% de toda compra e venda de armas formassem um fundo para resolver a fome mundial?", propôs.

Da autoajuda à política

Nos bastidores, há quem trate a candidatura do escritor como inviável e a associe mais a uma estratégia de marketing para impulsionar os negócios, tanto a venda de livros quanto de cursos.

Seria um movimento benéfico à sua carreira. Afinal, se na década passada Cury se consolidou como o autor nacional mais lido do país, hoje enfrenta forte concorrência de livros de autoajuda que viralizam nas redes sociais e, no mercado de cursos e palestras, concorre com coaches que se criaram não nas livrarias, mas já na internet.

A leitura remete ao movimento de Pablo Marçal (União Brasil), que disputou a Prefeitura paulistana no ano retrasado e agora tenta voltar aos palanques. Ele se anunciou candidato à Presidência pelo Partido Renovador Trabalhista Nacional (PRTB), embora a candidatura ainda deva ser analisada pelo TSE.

Cury, porém, rejeitou essa interpretação e disse que, na prática, a incursão na política pode até prejudicar seus negócios.

"Não pensei muito nisso, mas vários amigos me dizem que vai prejudicar, que vou sair ferido. Mas já tenho muito mais do que mereço, tanto financeiramente quanto socialmente e intelectualmente."

Propostas para o sistema presidencial e o STF

Ao longo da entrevista por videoconferência à BBC News Brasil, concedida em abril de sua casa na região de Ribeirão Preto, no interior paulista, Cury não se furtou a comentar geopolítica global — citou diversos países, seus problemas e possíveis soluções —, mas também detalhou propostas para o Brasil.

A principal delas envolve mudanças na estrutura de poder, com apoio do Congresso. Ele defendeu mudanças no presidencialismo, com a criação do cargo de primeiro-ministro, e no Judiciário, especialmente no Supremo Tribunal Federal (STF), que, em sua avaliação, estaria "sufocando os outros poderes" e precisa "ser preservado de qualquer interferência política".

Ele disse que pretendia articular com o Congresso "o fim da vitaliciedade dos ministros". "Eles ficariam de oito a dez anos. Essa história de entrar com 40 e sair com 75 seria encerrada."

"Além disso, dois terços teriam que vir da magistratura, ou seja, ser juízes de carreira, não mais escolhidos pelo presidente, mas pela própria classe e, quem sabe, até pelo voto público."

Um homem de meia-idade, Augusto Cury está sentado em um ambiente interno com iluminação quente, vestindo um terno azul sobre uma camisa azul mais escura e óculos de armação fina, sorrindo; ao fundo, vê-se uma luminária acesa e móveis de madeira.Crédito,Divulgação

Cury criticou a "espetacularização" da atuação dos ministros da Corte e propôs que seus votos deixem de ser transmitidos ao vivo.

"Por mais que sejamos livres para expressar ideias, toda vez que você está debaixo dos holofotes denotam-se vários gatilhos mentais e você acaba dando respostas que não daria se não estivesse sob os holofotes."

O escritor disse que as mudanças que propõe se baseiam em seus estudos sobre a mente humana e em outro lema de sua campanha, "make humanity great again", ou "torne a humanidade grande novamente", baseado no movimento americano Maga ("Make America Great Again"), encampado por Trump.

"Quando alguém te ofende, te rejeita ou te critica, detona o primeiro copiloto do eu, abre uma janela traumática e, se o volume de tensão é grande, a âncora gera hiperfoco", disse Cury.

"Milhares de arquivos mentais deixam de ser acessados para dar respostas inteligentes. O Homo sapiens se torna Homo bios, instintivo, animal, e comete os maiores erros. Professores, casais e também líderes internacionais têm suas piores atitudes. Dizem palavras que nunca deveriam ser ditas."

Texto e imagem reproduzidos do site: www bbc com/portuguese

Margem Equatorial e Terras Raras, Novos Fronts de Luta

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 28 de agosto de 2026

Margem Equatorial e Terras Raras, Novos Fronts de Luta. 
Por Fernando Gabeira (In Blog).

Oceano e terras raras, o progresso nos empurra para novas dimensões do debate ambiental no Brasil. Do fundo do mar, nas camadas do pré-sal, o País explora a riqueza do petróleo; do fundo do mar, quando o pré-sal se esgotar, o País vai tirá-lo na Margem Equatorial, próxima à foz do Rio Amazonas.

A nova frente de exploração do petróleo é delicada. O Brasil hospedou a COP-30 em Belém com o objetivo de mostrar a importância e a vulnerabilidade da Amazônia. O País se comporta como um líder na transição energética e um interlocutor indispensável nos esforços para combater e mitigar as mudanças climáticas. É uma contradição, portanto, explorar novas fontes de petróleo na Amazônia. Ocorre que a correlação de forças internas aponta irresistivelmente para a realização desse projeto. A única saída é considerar a contradição como não antagônica e levá-la adiante sem que um dos polos seja eliminado. A equação será explorar o petróleo com rigorosos cuidados ambientais. Se depender de políticos do tipo Alcolumbre, os cuidados vão para o espaço. Se depender da opinião internacional, o ideal seria deixar a Amazônia em paz.

Viajei algumas vezes para a região. Inclusive escrevi um texto para o belo livro de fotos de João Farkas, Costa Norte. O objetivo de uma das viagens foi documentar os manguezais da região, os maiores do mundo. Os manguezais são berçários da vida e hospedam uma grande biodiversidade. Lá na região, há árvores de até 30 metros. Vi muitas pessoas saindo do mato, com fieiras de enormes caranguejos. Na pequena cidade de Bragança, próxima do mangue, o cardápio no restaurante é basicamente caranguejo. Numa viagem ao Amapá, cruzei o Estado e visitei Oiapoque, onde há uma inscrição “aqui começa o Brasil”. Oiapoque é o lugar onde a Petrobras construiu um centro de apoio à fauna porque está mais próxima da área de exploração do petróleo. A cidade não tinha saneamento básico nem água corrente em todos os bairros. Vai passar por um grande crescimento, porque milhares se deslocarão para lá em busca de trabalho. Esse processo na Margem Equatorial servirá para colocarmos o oceano na agenda.

O Brasil está um pouco atrasado em relação à Austrália, por exemplo, na proteção à sua área costeira, ameaçada por inúmeros perigos, inclusive o da pesca predatória internacional. Demos um passo criando o Parque Nacional do Albardão, com um milhão de hectares, no extremo sul do País.

As terras raras são o grande tema econômico do momento. Não são tão raras assim, existem em abundância na China e no Brasil. Chamam-se raras porque, quando foram descobertas em Ytterby, na Suécia, ocorriam em minerais incomuns, difíceis de isolar um dos outros. No momento, americanos exploram as terras raras em Minaçu (Goiás), lugar que se celebrizou pela grande produção de amianto, algo que conseguimos proibir por lei, mas infelizmente ainda sobrevive por meio de artimanhas jurídicas. Empresas australianas estão se preparando para extrair terras raras em Poços de Caldas, Minas Gerais, sob vigilância e oposição de grande parte da cidade.

Vale a pena conhecer a pré-história das terras raras no Brasil. Há um livro da jornalista Tânia Malheiros que descreve a extração de areia monazítica no Brasil no período da 2.ª Guerra. A monazita contém tório, urânio, ilmenita, zirconita e terras raras. O tório e o urânio eram os metais mais procurados pelos americanos. Cientistas escapados do nazismo conseguiam separar os minerais na monazita, e contribuíram para a primeira instalação nuclear no Brasil, em Santo Amaro, bairro de São Paulo. Um dos donos da empresa era o poeta Augusto Frederico Schmidt.

Houve muita discussão nacional sobre a exportação dos minerais e, inclusive, se criou, para variar, uma CPI no Congresso. O governo acabou encampando a Orquiza e passou a tocar o negócio com o nome de Usam Nuclemon, subsidiária da holding Nuclebrás. O livro de Tânia Malheiros conta a história dos trabalhadores atingidos pela radiação. Começaram a trabalhar antes de Hiroshima e Nagasaki, antes do desastre de Goiânia, não tinham consciência do perigo para sua vida.

As terras raras passaram hoje a simbolizar o objeto de desejo da indústria civil e militar. Servem para ímãs, telas de smartphones e TV e também para equipamentos militares. A empresa que extrai terras raras em Goiás está para ser comprada por outra ligada ao Pentágono.

Por outro lado, a regulamentação brasileira foi aprovada na Câmara e adormece no Senado. A exploração está se dando à margem do Rio Tocantins, onde está a represa da Serra da Mesa, maior reservatório brasileiro em volume de água doce. Em Poços de Caldas as terras raras serão exploradas por australianos, sob vigilância crítica. No planalto de Poços de Caldas há uma unidade das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) que abriga entre 12 mil e 15 mil toneladas de resíduos radioativos, além de antigas estruturas de processamento de urânio. A extração de terras raras num lugar já traumatizado, sobretudo em Minas, que conheceu as tragédias de Mariana e Brumadinho, será delicada. Assim como será delicado explorar petróleo na Amazônia. Novos fronts numa luta já tão vasta.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Entrevista com a primeira ministra da Itália, Giorgia Meloni

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 25 de agosto de 2026

Conservadorismo pragmático: o progressista NYT se rende à "fascista" Meloni

Em uma entrevista rara, a política que já foi uma pária reflete sobre sua trajetória, indo do ‘lado desconfortável da história’ à iminência de liderar o governo mais duradouro da Itália no pós-guerra. Roger Cohen, do NYT, para o Estadão:

Giorgia Meloni, filha da extrema-direita, gosta de bater recordes. Acomodando-se numa poltrona em frente a um quadro de festividades rústicas inspirado em Ticiano, ela reflete sobre o segredo do sucesso político que em breve a tornará a primeira-ministra com o mandato mais longo da história da República Italiana.

“Sou uma pessoa que impõe regras a si mesma”, diz ela em uma rara entrevista. “A primeira regra é que nunca digo nada que não penso. Não há como me fazer dizer algo em que não acredito — meu cérebro entra em curto-circuito.”

Ela sorri, como se dissesse que é simples assim, mas é claro que não é. Ela permaneceu uma espécie de enigma, um enigma rigidamente controlado, em sua trajetória desde as raízes pós-fascistas até um lugar crucial na política europeia que ela está transformando.

Meloni optou por se encontrar em um lounge adjacente ao seu escritório em Roma. Ela é gentil ao extremo. Em momentos como esse, é difícil lembrar como ela pode revirar os olhos e lançar olhares fulminantes quando está irritada, como tem acontecido ultimamente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, seu aliado ideológico, e com Pedro Sánchez, o primeiro-ministro espanhol de esquerda, um adversário ideológico.

“Acho que as pessoas percebem a diferença”, diz Meloni, que está no cargo há quase quatro anos, cerca de quatro vezes a média italiana do pós-guerra. “Elas sabem quando algo é inverídico, falso — e acredito que esse seja o maior erro que um político pode cometer.”

A verdade não é exatamente a moeda política da atualidade, mas Meloni sempre seguiu seu próprio caminho. O efeito tem sido transformador. A “melonização”, ou o entorpecimento da história horripilante, entrou para o vocabulário comum.

Isso denota o processo que Meloni agora personifica, o qual permite a um partido pós-fascista, neste caso o seu Irmãos da Itália, livrar-se da ameaça do autoritarismo violento e obter aceitação na corrente principal através do conservadorismo pragmático, ou pelo menos da sua aparência.

“Acho que o que me trouxe até aqui” — ao seu escritório no Palazzo Chigi — “foi a coragem de ficar do lado desconfortável da história”, diz Meloni, falando em italiano. “Optar por ir contra a corrente.”

Coragem é, de longe, a sua palavra favorita.

Com Marine Le Pen, da outrora marginalizada extrema-direita francesa, como uma forte candidata nas eleições presidenciais do próximo ano, e o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) liderando as pesquisas naquele país, o efeito Meloni está prestes a ser testado no cerne da integração europeia do pós-guerra.

Se o fascismo na Itália, seu berço, pode ser apresentado como algo distante, até mesmo irrelevante para o sucesso político, o mesmo talvez possa ser dito do Holocausto na Alemanha e do regime colaboracionista de Vichy na França durante a guerra. Foi o nacionalismo antissemita de Vichy que inspirou o pai de Le Pen a fundar a Frente Nacional, agora renomeada como Reunião Nacional.

Ao que tudo indica, Le Pen terá uma resposta pronta para tranquilizar os eleitores franceses: Basta olhar para a Itália!

“Meloni não é uma líder visionária, mas tornou-se uma estrela global e o emblema da possibilidade de que nacionalistas de extrema-direita possam ser absorvidos”, disse Giovanni Orsina, diretor da Escola de Governo LUISS Guido Carli, em Roma.

Longe de ser um cenário de convulsão, a Itália encontrou estabilidade sob o governo de Meloni, que demonstrou o talento inflamado de um demagogo, ancorado por um realismo frio. A França teve seis governos e o Reino Unido quatro primeiros-ministros desde que ela assumiu o cargo em 2022.

Com a saída do presidente francês Emmanuel Macron no próximo ano, Meloni poderá se tornar a figura central da política europeia, à semelhança do que a ex-chanceler alemã Angela Merkel já foi, num momento em que uma ordem mundial fragmentada atravessa uma transformação profunda e instável.

No entanto, a questão de qual transformação Meloni busca permanece em aberto. Será que ela realmente se tornou uma moderada democrática aos 49 anos? Ou será que ainda reside dentro dela uma neofascista de 19 anos, a militante de rosto angelical que declarou à televisão francesa em 1996 que “Mussolini era um bom político” e que “tudo o que ele fez, fez pela Itália”?

Meloni queria ser a ponte sobre águas turbulentas. Única líder de um governo da União Europeia convidada para a posse de Trump, ela pretendia aproveitar o nacionalismo e a hostilidade à imigração que compartilhavam, além de garantir que a aliança ocidental permanecesse funcional.

Então, no ano passado, quando Trump, num tom de bajulação servil, a chamou de “uma linda jovem”, ela fingiu indiferença. Havia coisas maiores em jogo.

Ainda assim, as provocações jorraram da Casa Branca. A União Europeia foi criada para “prejudicar” os Estados Unidos, declarou Trump. A Groenlândia, um território dinamarquês semiautônomo, deveria ser entregue aos Estados Unidos. Os aliados europeus da OTAN eram covardes, “retendo um pouco de ação” no Afeganistão, onde a Itália perdeu 53 soldados.

“Insultar a Itália depois de termos prestado uma homenagem com sangue no Afeganistão foi uma afronta brutal”, disse Fabio Rampelli, vice-presidente da Câmara Baixa do Parlamento italiano e confidente de longa data de Meloni.

Meloni fez o possível para ignorar a situação. “É evidente que, com Donald Trump, eu acreditava que as coisas seriam mais fáceis, dada a nossa convergência em relação à imigração e à cultura woke”, ela me disse. “Mas as coisas se mostraram bem diferentes.”

Dizer que “caso contrário” seria um eufemismo. Em junho, ela se tornou a primeira de vários líderes europeus insultados a responder duramente a Trump. Como resultado, ela e Trump não se falam há várias semanas, revela ela.

Para ela, a linha vermelha foi cruzada pela primeira vez em abril, quando Trump atacou o Papa Leão XIII, chamando-o de “FRACO no combate ao crime e péssimo para a política externa”. Meloni respondeu que tais declarações eram “inaceitáveis”. Trump retrucou: Ela era “inaceitável”.

Na Itália, muitas coisas podem ser criticadas — a burocracia, um espaguete à carbonara, uma seleção de futebol outrora gloriosa que, pela terceira vez consecutiva, não se classificou para a Copa do Mundo —, mas não o Santo Padre, e certamente não em LETRAS MAIÚSCULAS.

A partir daí, foi ladeira abaixo. Trump divulgou uma história de que Meloni teria “implorado” por uma foto dos dois juntos em junho, na cúpula do G7 na França.

Ela estava furiosa. Ela repreendeu Trump: “A Itália e eu nunca imploramos.”

A fusão deliberada de nação e identidade expressava seu senso de missão para mudar a percepção da Itália, de terra de beleza e ineficiência para terra de intenções sérias.

Os valores que ela compartilhava com Trump foram ofuscados por seu principal objetivo de política externa: superar o status histórico da Itália como a menor das grandes potências e dar à oitava maior economia do mundo peso geopolítico.

“Não gosto da ideia de uma Itália submissa, uma Itália que se vê como inferior às outras”, diz-me ela em nossa entrevista. Seu objetivo, afirma, é alcançar “a maior revolução que pode acontecer nesta nação — uma revolução do orgulho”.

Ela não se arrepende de nada: “Continuo acreditando que a unidade do Ocidente é algo muito importante. Não decido a estratégia italiana com base em minhas relações pessoais.”

Questionada se ela e Trump conversariam após o recesso de verão, ela hesita. “Bem, veremos.”

Em busca de uma causa

Meloni aprendeu desde cedo a rejeitar a passividade. “Cresci com a ideia de que eu não valia nada”, escreve ela em “Eu Sou Giorgia”, sua autobiografia. “Minha reação foi me dedicar com todas as minhas forças a demonstrar o contrário.”

Abandonada ainda bebê pelo pai, que partiu para a Espanha e cuja morte em 2012 a deixou “indiferente”, Meloni enterrou em um “buraco negro” a “dor de não ter sido amada o suficiente”, como ela mesma descreve em seu livro.

Ela se endureceu. Aos 13 anos, decidiu nunca mais ver o pai. Era uma escolha irrevogável, assim como quando, em 2023, terminou o relacionamento com Andrea Giambruno, seu companheiro e pai de sua filha, Ginevra. (Um vídeo e um áudio flagraram o que parecia ser uma investida grosseira dele contra colegas de trabalho. O relacionamento “termina aqui”, escreveu ela na manhã seguinte nas redes sociais.)

O amor de sua mãe, Anna Paratore, que escreveu cerca de 140 romances picantes sob o pseudônimo de Josie Bell, preencheu o vazio. Meloni cresceu com ela e uma irmã mais velha no bairro de Garbatella, em Roma, uma área operária com enclaves de classe média, incluindo aquele em que moravam.

O apartamento no segundo andar de sua juventude fica em um lindo pátio com laranjeiras, pinheiros, nespereiras e ipês. Uma bandeira palestina está pendurada em uma janela; há muitas em Roma. Em uma parede próxima, está rabiscado: “Pense poeticamente. Meloni fora!”

Garbatella pertence à esquerda e sempre pertenceu. Já Meloni, com apenas 15 anos, optou pela direita de raízes fascistas.

Sua decisão foi motivada por indignação, explica ela. O assassinato, em um intervalo de dois meses em 1992, de Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, dois promotores sicilianos que representavam uma ameaça para a máfia, foi algo insuportável.

“Lembro-me de, num dia quente de julho, estar vendo as imagens na TV”, diz ela, “e pensar que não podemos continuar assim. Basta!”

Borsellino já havia sido próximo do Movimento Social Italiano (MSI), de extrema-direita, fundado em 1946 por ex-membros do partido fascista de Benito Mussolini. O partido marginal se manteve à parte do enorme escândalo de corrupção política que assolava a Itália no início da década de 1990, o que, segundo Meloni, contribuiu para seu apelo.

Ela ligou para a sede da M.S.I. e descobriu que um escritório da sua Frente Jovem ficava “bem ali na esquina”.

Um dia, ela entrou. Na época, a direita pós-fascista não tinha chance de chegar ao poder, e mesmo duas décadas depois, quando ela cofundou o Irmãos da Itália, o partido oscilou em torno de 3% dos votos durante sete anos. Mesmo assim, ela persistiu.

“Não gosto que me digam quais são os meus limites”, diz ela. “Um ‘não’ é uma das coisas que mais me motiva.”

Um momento ‘complexo’

O escritório de Garbatella agora abriga uma filial do partido de Meloni. Lá, encontrei Marco Volponi no comando.

Ele conhece Meloni desde a adolescência. Perguntei-lhe sobre o logotipo do partido do lado de fora, com sua chama tricolor nas cores verde, branca e vermelha da bandeira italiana, um símbolo adotado inicialmente pelo MSI e amplamente visto hoje como representação do espírito fascista ainda latente.

“Não é de Mussolini”, disse-me Volponi, repetindo o discurso oficial. “É a chama do nosso fervor desde 1946 até onde estamos hoje.”

Meloni, de uma geração distante da Segunda Guerra Mundial, denunciou o fascismo, mas não o repudiou completamente, afirmando “nossa oposição a todos os regimes totalitários e autoritários”.

Em seu discurso de posse, ela afirmou que “o pior momento da história italiana” foi quando Mussolini promulgou as leis raciais antissemitas de 1938; milhares de judeus italianos foram, em última instância, enviados para a morte sob a ocupação nazista parcial.

Em nossa entrevista, porém, ela se refere ao período fascista simplesmente como uma época “particularmente complexa”. Tão complexa que suas consequências assombraram sua infância e adolescência.

Durante os “Anos de Chumbo”, do final da década de 1960 até a década de 1980, grupos neofascistas e de extrema esquerda estavam determinados, por diferentes razões, a desestabilizar a República do pós-guerra. Bombardeios, assassinatos e massacres deixaram mais de 400 mortos, incluindo um primeiro-ministro, Aldo Moro, morto em 1978 pelas Brigadas Vermelhas, de esquerda.

Tal era a instabilidade em que Meloni cresceu e que, em várias formas menos violentas, assombrou a Itália por muito tempo. Ela fez da estabilidade seu lema.

Ao introduzir seu partido pós-fascista na corrente principal, Meloni se recusou a dizer que é antifascista, o que para ela parece denotar os grupos de esquerda de sua juventude para os quais, em suas palavras, “matar fascistas não é crime”.

“Conheço o nome e a história de todos os jovens sacrificados no altar do antifascismo”, escreveu ela.

Sobre o terrorismo neofascista, Meloni tem muito menos a dizer. Dois atentados de direita deixaram 102 mortos apenas em Milão e Bolonha. Para ela, a esquerda era a culpada pelos problemas da Itália no pós-guerra, e o período “complexo” em que seu partido se enraizou era melhor deixado de lado.

Ao falar sobre o fascismo italiano, ela diz na entrevista: “Claramente, se olharmos para essa história hoje, é uma coisa. Se a olhássemos estando no meio dela, provavelmente a veríamos de forma diferente, não é?”

O historiador R.J.B. Bosworth, em sua biografia “Mussolini”, escreve que a ditadura de Il Duce “causou a morte prematura de pelo menos um milhão de pessoas”. Elas morreram em campos de extermínio da África à Albânia e Iugoslávia e, não menos importante, na própria Itália.

Mussolini também drenou os pântanos Pontinos, construiu a Estação Central de Milão e, dizem, fez com que os trens chegassem no horário.

Qualquer avaliação moral do governo de Mussolini parece bastante clara. Mas “a Itália nunca acertou as contas com o fascismo”, disse Davide Conti, historiador. “Não houve Nuremberg porque ninguém a queria, e se você processasse fascistas italianos, tinha que recorrer à Resistência, composta em sua maioria por comunistas.”

Meloni se beneficiou dessa oscilação, trilhando um caminho estreito entre o compromisso com a liberdade democrática italiana e uma curiosa ambivalência durante o período de sua perda.

Ela não abriu as portas para a extrema-direita — Silvio Berlusconi, a partir de meados da década de 1990, fez isso como primeiro-ministro durante um total de nove anos à frente de quatro governos. Mas ela era a política ideal para atravessá-las.

Apenas 14 anos depois de entrar no gabinete de Garbatella, ela foi eleita para o Parlamento e se tornou a vice-presidente mais jovem da história da República. Dois anos depois, em 2008, estabeleceu outro recorde, como a ministra mais jovem, aos 31 anos. O terceiro recorde, de longevidade no governo, a aguarda em 4 de setembro.

A extrema-direita sempre foi vista como “perigosa, nostálgica, fascista, racista e xenófoba”, disse Rampelli, que chefiava a seção da Juventude Romana do M.S.I. quando Meloni se juntou ao grupo.

“E eis que surge uma mulher muito jovem, com 1,60 metro de altura, loira e de olhos azuis, sorridente e sarcástica, que não tinha nada a ver com o fascismo — e a partir daquele momento, todas as pessoas que continuaram a nos insultar tornaram-se simplesmente ridículas”, disse ele.

“Talvez eu fosse a pessoa certa na hora certa”, sugere Meloni.

Meloni e a Maré da História

Para entender a ascensão de Meloni, fui a Piombino, na costa da Toscana, uma cidade siderúrgica outrora próspera, cujas ruas agora estão silenciosas. Durante décadas após a Segunda Guerra Mundial, sua indústria siderúrgica empregou mais de 8.000 trabalhadores. Hoje, não mais do que 500 resistem.

Outrora um centro de resistência antifascista, Piombino foi durante muito tempo um bastião da esquerda e dos sindicatos linha-dura. Hoje, o partido de Meloni assumiu o controle.

Francesco Ferrari é o prefeito. Advogado elegante, foi eleito em 2019 como o primeiro prefeito de direita desde 1945 e reeleito há dois anos. A esquerda — com promessas vazias e má gestão — esgotou a paciência dos trabalhadores de Piombino.

Eles se juntaram a uma vasta migração do século XXI, da esquerda para a direita, por toda a Europa, de uma classe trabalhadora revoltada com a globalização e seu custo em empregos, com a imigração descontrolada e com os valores estrangeiros de uma elite urbana liberal.

Uma placa na saída da fábrica, um amontoado fantasmagórico, diz: “Obrigado”, ao lado da imagem de um aperto de mãos. “Obrigado por quê?”, ri Michele Nardini, que trabalhou por 25 anos no alto-forno antes de perder o emprego em 2024. “Eles nos sacanearam.”

Nardini agora recebe US$ 1.250 por mês em auxílio-desemprego. “Fui traído por toda uma classe política”, diz ele enquanto toma um café na praça principal. “Estivemos sob o domínio da esquerda por 70 anos, então agora darei 70 anos à direita!”

Ferrari, o prefeito, está tentando revitalizar a indústria siderúrgica e diversificar a cidade, investindo em piscicultura, turismo e outras atividades adequadas à sua localização à beira-mar, em frente à ilha de Elba.

“Não tenho problema nenhum em pronunciar a palavra fascista, ou mesmo antifascista”, diz Ferrari. Mas certamente, sugere ele, o julgamento dos apoiadores de Piombino comprova a ruptura total do seu partido com os seus antecessores.

Em julho, foi firmado um acordo entre uma empresa ucraniana, uma siderúrgica italiana e as autoridades locais para investir US$ 3,7 bilhões na construção de uma usina de última geração. No entanto, Piombino já fez tantas promessas que não há muito otimismo.

Mirko Lami, ex-dirigente do sindicato de esquerda C.G.I.L., que outrora detinha grande influência, afirma que Meloni não cumpriu suas promessas. Os salários estão “entre os mais baixos da Europa” e “o sistema de saúde está à beira do colapso”.

Ferrari discorda, argumentando que um renascimento urbano começou, e conta uma história sobre o líder de seu partido.

“Era 2020 e Meloni veio nos visitar”, lembrou Ferrari. Na véspera de seu mandato, disse ele, o Partido Democrático, de centro-esquerda, havia aprovado um projeto para expandir um enorme aterro sanitário próximo, onde o lixo fétido apodrecia.

“Dias antes, ela exigiu a documentação sobre o aterro sanitário, detalhes do projeto de ampliação, a natureza do lixo, minhas posições. E quando tivemos reuniões, ela conhecia o dossiê melhor do que eu!”

O projeto foi abandonado. O prefeito sorriu radiante. “Essa é Giorgia Meloni.”

Um círculo íntimo restrito

Quando Meloni assumiu o cargo, Matteo Renzi, ex-primeiro-ministro de centro-esquerda da Itália, decidiu presenteá-la com um anel elegante. Bill Clinton o havia aconselhado que as piores decisões eram resultado de noites mal dormidas.

“Eu disse: ‘Giorgia, este trabalho é lindo, mas agonizante; por favor, anote todas as noites quantas horas você dorme.’”

Meloni logo jogou o monitor fora. “Ela achou que eu estava tentando controlá-la”, disse Renzi.

“Ela não confia em ninguém”, disse-me Gianfranco Fini, ex-líder do MSI que redefiniu o partido como uma força democrática em 1995 e conduziu Meloni a uma ascensão meteórica. “Ela faz seus próprios cálculos.”

Meloni trabalha em um pequeno grupo que inclui sua irmã mais velha, Arianna, e vários ativistas de extrema-direita que ela conheceu na juventude. Eles ocupam os cargos mais importantes no Senado, em instituições culturais e em outros lugares.

Seu estilo insular enfureceu a esquerda. Renzi, que lidera um pequeno partido de centro-esquerda chamado Italia Viva, causou recentemente alvoroço ao sugerir que “a Família Addams” governava a Itália. Ele está tentando unir a esquerda para derrotar Meloni nas eleições do ano que vem.

Elly Schlein, líder do Partido Democrático, o maior partido de esquerda, citou a irrisória taxa de crescimento econômico da Itália, de 0,5%, uma queda de 8% nos salários reais, algumas das contas de energia mais caras da Europa e hospitais públicos sobrecarregados como prova de uma “oportunidade histórica desperdiçada”.

“A estabilidade pode ser um valor, mas quando se trata de imobilidade, as pessoas não perdoam”, disse-me Schlein sobre Meloni.

A primeira-ministra rebateu em nossa entrevista. Ela enumerou uma longa lista de “parâmetros” — emprego, inflação, desembarque de imigrantes ilegais, gastos com saúde, spreads de mercado. “Digam-me se não estão melhores!”

Esses números de fato apresentaram uma tendência positiva, embora às vezes de forma marginal.

“Mas é possível”, diz ela com seu sarcasmo característico, “que eu não tenha feito nada!”

“O melhor que se pode dizer é que não houve nenhum desastre”, disse Veronica De Romanis, professora de economia da Universidade LUISS Guido Carli, em Roma, observando que 1,2 milhão de italianos estão desempregados, sem estudar ou em formação profissional, e muitos deixaram o país.

O que Meloni trouxe foi disciplina fiscal. Sob a gestão de Giancarlo Giorgetti, um ministro das Finanças respeitado, o déficit orçamentário caiu de 7% para perto do limite de 3% da União Europeia. A dívida da Itália foi reclassificada para um nível superior pela primeira vez em 23 anos.

Para Meloni, que afirmou em 2014 que “somos a favor da saída do euro”, a mudança repentina para alcançar esse objetivo foi marcante.

Ela sabia que a Itália precisava de dinheiro da UE, incluindo cerca de 221 mil milhões de dólares em fundos de recuperação da pandemia, um enorme impulso para a economia.

A seção Colle Oppio do partido Irmãos da Itália, nas ruínas das Termas de Trajano — onde Giorgia Meloni se reunia com seus quadros de direita durante seus anos de formação política —, em Roma, 28 de julho de 2026. Foto: Davide Monteleone/NYT

Assim, como uma boa tecnocrata europeia, do tipo que ela tanto detestava, Meloni alinhou-se à questão do déficit italiano. Como uma boa membro europeia da OTAN, ela apoiou a Ucrânia contra a Rússia.

“Quase tudo é reversível”, disse Salvatore Merlo, editor-adjunto do jornal Il Foglio, que conhece bem Meloni.

‘Eu sou Giorgia’

Se o pai de Meloni lhe deu pouco, ao viver na Espanha, proporcionou-lhe um domínio perfeito do espanhol. Em 7 de outubro de 2021, num discurso de 17 minutos em Madri, ela proferiu, não pela primeira vez, palavras que se tornaram seu hino.

“Yo soy Giorgia! Soy una mujer!” e assim por diante. “Eu sou Giorgia, sou uma mulher, sou mãe, sou italiana, sou cristã. Eles não podem tirar isso de mim! Eles não vão tirar isso de mim!”

“Eles” eram os objetos do desprezo de Meloni: os “bárbaros do Black Lives Matter”, como ela os chamava; a esquerda tentando “transformar a Europa em um estado soviético”; os Verdes “nos levando à falência”; os “monstros” que propõem o uso de útero de substituição.

Perguntei a Meloni por que seu grito de coração repercutiu tanto. “Porque tocou numa corda sensível que milhões de pessoas sentiram”, disse ela. “Sentir-se ameaçado em sua identidade mais autêntica e básica. Deu um slogan fácil para uma rebelião emocional.”

Parte dessa “identidade básica” é ser mulher, diz Meloni, sem explicar como ela está ameaçada. Ela se esquiva quando pergunto se é feminista. Ela tende a se adaptar bem a uma cultura sexista, com uma autodepreciação irônica.

Quando uma foto deepfake dela de lingerie, gerada por inteligência artificial, se espalhou online recentemente, ela a publicou em sua conta do Instagram. Ela a denunciou, de certa forma, comentando que “melhorou muito minha aparência”.

Meloni foi criticada por escolher ser chamada de “il presidente”, no masculino. Ela me disse que acha que as feministas travaram “as batalhas erradas” em questões como cotas de gênero.

“O que me interessa é se tenho a liberdade de me tornar presidente do Conselho de Ministros”, diz ela, usando o nome formal do gabinete italiano e do seu primeiro-ministro. “Isso é igualdade, não ser chamada de ‘la presidenta’”.

Ela defende um caminho igualmente árduo e prático para alcançar o respeito global por sua nação.

A Itália precisava parar de ser “o estepe da França e da Alemanha”, diz ela. Precisava “estar sentada à mesa daqueles que definem os rumos” e precisava de estabilidade — “não um ponto de chegada, mas um ponto de partida”, explica — para alcançar esse objetivo.

A busca de Meloni para reformular a autoimagem da Itália é evidente em pequenos detalhes. Ela quase nunca se refere à “República” ou ao “país” ao falar da Itália, mas sempre à “nação”.

Trata-se de uma mudança marcante em relação às suas antecessoras, concebida para reforçar a ideia de uma comunidade de laços sanguíneos e culturais, com todo o direito a um renovado orgulho nacional.

É claro que uma República é o lar de cidadãos iguais; a nação, tal como entendida por Meloni, tem muito a ver com a ancestralidade italiana. Por essa razão, a imigração tem sido uma questão central e controversa.

Este mês, Meloni liderou um amplo ataque da UE contra Sánchez, o primeiro-ministro espanhol, por supostas políticas de imigração frouxas, após milhares de migrantes terem entrado em Ceuta, o pequeno território espanhol no norte da África.

O confronto demonstrou a influência de Meloni em impulsionar a Europa para a direita, bem como sua capacidade de manipular emoções exacerbadas para alimentar sua base de extrema-direita.

No país, suas políticas de imigração têm sido alvo de intensos protestos.

Ela autorizou discretamente cerca de 450 mil vistos para migrantes trabalharem nos campos e fábricas da Itália e cuidarem da população idosa da Europa. Ela também elaborou um plano de investimento para a África, visando aumentar o incentivo ao desenvolvimento no próprio país em vez de emigrar.

Um plano para enviar requerentes de asilo para a Albânia ainda enfrenta contestações judiciais e se mostrou caro, com resultados insignificantes. Parecia um fiasco até que, em junho, a União Europeia aprovou o “uso” de “centros de retorno” para requerentes de asilo em “países terceiros seguros”.

Isso permitiu que Meloni reivindicasse a vitória na política de imigração europeia.

A pergunta que persiste

Os italianos estão rodeados por vestígios do Império Romano. Sabem que o auge do seu poder foi atingido há muito tempo e conhecem a vaidade da grande ambição. “A Itália repudiará a guerra”, afirma a sua Constituição de 1948.

Um exemplo disso pode ser encontrado no Colle Oppio, uma área atrás do Coliseu que abriga as ruínas das termas do Imperador Trajano, onde Meloni e seu grupo de extrema-direita costumavam se reunir. Para Meloni, ainda adolescente, o local assumiu uma importância quase mística.

“No Colle Oppio aprendi a defender minhas ideias”, diz Meloni. “Tornei-me a pessoa que sou graças aos anos de militância juvenil.”

Guido Crosetto, ministro da Defesa e cofundador, juntamente com Meloni, da organização Irmãos da Itália, afirmou em entrevista no ministério que ela “sacrificou tudo por aquilo que construiu”.

Ao redor dele, estavam pendurados retratos de todos os antigos ministros da Defesa italianos, incluindo Mussolini. Tendo trabalhado na Alemanha por alguns anos, tentei imaginar um equivalente em Berlim. Um retrato de Hitler em exposição! Falhei. Fascismo é uma palavra diferente para alemães e italianos.

Lembrei-me disso em 22 de maio, quando Meloni publicou um elogio no Instagram a Giorgio Almirante, um fascista fervoroso sob o regime de Mussolini e fundador, em 1946, do MSI, o precursor neofascista do seu partido. Sua concepção de política, vivida “com paixão, dignidade e respeito”, perduraria, prometeu ela no 38º aniversário de sua morte, e seria sempre lembrada por uma direita italiana determinada a agir “com coragem”.

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, reúne-se com outros líderes mundiais para uma foto de grupo na cúpula do G7, na terça-feira, 16 de junho de 2026, em Evian-les-Bains, França. Foto: Julia Demaree Nikhinson/AP

Almirante foi um colaborador proeminente de uma revista racista e antissemita, “A Defesa da Raça”, publicada sob o regime de Mussolini. Nela, escreveu: “Nosso racismo deve ser o que corre em nossas veias”. Caso contrário, alertou, a Itália cairia nas mãos “dos mestiços e dos judeus”.

Mais tarde na vida, Almirante abraçou a democracia. “Ele nos ensinou algo muito importante em termos de valores”, diz Meloni na entrevista. “Que você pode lutar sua batalha com dignidade mesmo partindo de uma posição inicial muito marginal.”

“Meloni nunca disse ou fez nada fascista”, disse-me Stefano Feltri, editor de uma newsletter do Substack chamada “Appunti” (Notas). “Mas ela não faz parte da Itália antifascista, da cultura da Resistência que produziu nossa Constituição.”

Meloni tentou este ano alterar essa Constituição em um referendo que teria submetido os juízes italianos, há muito vistos com ressentimento pelos líderes de direita como uma força liberal, a um controle político mais rígido.

A derrota esmagadora que ela sofreu em sua proposta legislativa interna mais ambiciosa pareceu ser um indicador de que nem todos os italianos confiam nela para exercer o poder.

“Uma vitória teria levado posteriormente a modificações mais profundas na Constituição, na direção de um executivo mais forte, um sistema mais presidencialista”, disse Conti, a historiadora. “Esse é o objetivo fundamental dela.”

Contudo, não há sinais de que seu apoio esteja diminuindo. Ele se mantém em torno de 27%, ligeiramente acima de seu índice na eleição de 2022. Por ora, uma esquerda dividida não tem uma líder de sua estatura, deixando a eleição do ano que vem em aberto.

Um novo desafio surgiu à sua direita na figura de Roberto Vannacci, um general aposentado cujo novo partido, Futuro Nacional, cresceu rapidamente. “O nazismo certamente teve seus lados negativos, assim como muitos outros períodos históricos”, disse-me ele.

Ele defendeu a “homogeneidade cultural” italiana, declarou que os gays “não são normais” e instou à “remigração” de 500 mil imigrantes indocumentados.

“O erro fundamental de Meloni foi ter se diluído”, disse ele.

Retorno da Direita?

As conquistas de Meloni como primeira-ministra exigiram moderação disciplinada. Mas suas posições anteriores e seu núcleo nacionalista sugerem que, se ela for reeleita no próximo ano e Marine Le Pen chegar ao poder na França, as incertezas em torno do destino da Europa aumentarão. O AfD também poderá um dia governar a Alemanha.

“A memória se desvanece após três gerações”, disse-me Thomas Bagger, embaixador alemão na Itália. “Nem mesmo o Holocausto ressoa como antes, e tampouco o imperativo da integração na Europa.”

O nazismo e o fascismo não estão a regressando, mas o nacionalismo, a xenofobia e a guerra nas suas fronteiras representam um sério desafio para a União Europeia, com Trump e o presidente Vladimir Putin da Rússia querendo também enfraquecê-la ou mesmo desfazê-la.

“Na melhor das hipóteses, Meloni quer uma Europa com pouca intervenção”, disse-me Nathalie Tocci, professora da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, na área da Europa.

O equilíbrio de poder já mudou. Neste verão, vi Meloni ao lado de Macron, seu crítico ocasional, respondendo a perguntas de jornalistas na primeira cúpula franco-italiana desde 2020, realizada em uma suntuosa villa na Côte d’Azur.

“Não acho que esteja em posição de aconselhar os franceses sobre o que é melhor para eles”, disse ela, voltando seu olhar para Macron. “Porque não me esqueço do que me fizeram.”

Quando Meloni foi eleito em outubro de 2022, a França provocou indignação em Roma ao pedir o monitoramento dos “direitos e liberdades” na Itália.

Ali, com um tom de voz incisivo, Meloni lembrava Macron de sua aparente arrogância. Desde então, a Itália dela provou ser mais estável do que a França dele.

Meloni se move hoje com a autoridade de uma líder consolidada. Na recente assembleia geral anual da Confindustria, a associação empresarial mais poderosa da Itália, sua voz se elevou firmemente enquanto dizia aos chefes de indústria reunidos para não terem medo, “porque tempos de incerteza são tempos de coragem, e tempos de coragem são inevitavelmente tmbém tempos de escolha”.

Não sabemos quais escolhas Meloni fará. Mas sabemos o conselho que ela deu à sua filha, Ginevra, que está aprendendo coreano aos 9 anos: “Escolha o caminho mais longo, porque os atalhos são sempre uma ilusão.”

Perguntei a Meloni como o iminente marco no final da sua mais longa trajetória política a afetava.

“Sabe, as pessoas me dizem: ‘Giorgia, você precisa se dar conta de que fez história!’, e tudo o que consigo pensar são nessas crianças que, depois da minha morte, um dia dirão: ‘Meu Deus, hoje à tarde tenho que estudar Giorgia Meloni!’”

O personagem que fez história riu.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Família de Blumenau condenada por 'homeschooling'...


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 24 de agosto de 2026

Família de Blumenau condenada por 'homeschooling' conta com 13 professores; filho faz duas faculdades

A rotina da família inicia por volta das 6h30 com desjejum e organização da casa. Logo depois, das 8h às 12h, os quatro filhos em idade escolar se dedicam ao estudo das disciplinas previstas para cada etapa de aprendizado, como Português, Matemática, História e Ciências. Cursos extracurriculares, passeios e projetos ocorrem à tarde. Reportagem de Raquel Derevecki para a Gazeta do Povo:

Após ser condenada, em primeira instância, por manter os filhos em educação domiciliar, a família Vieira, de Blumenau (SC), tem chamado atenção pelos resultados educacionais apresentados. À Gazeta do Povo, a mãe Patrícia da Silva Vieira relata que os filhos em idade escolar são acompanhados por 13 professores e mantêm uma rotina que inclui disciplinas regulares, idiomas, música e programação. O primogênito cursa duas graduações simultaneamente, e todos os irmãos somam mais de 300 medalhas no xadrez.

“Isso acontece porque no homeschooling, nosso tempo rende muito mais”, afirma a mãe, ao explicar que, pela experiência da família, o estudo individualizado permite cumprir conteúdos acadêmicos em menos tempo do que ocorreria em uma escola regular. “E a gente prioriza a criança sendo criança, tendo uma vivência natural e saudável”, diz.

Segundo ela, a rotina da família inicia por volta das 6h30 com desjejum e organização da casa. Logo depois, das 8h às 12h, os quatro filhos em idade escolar se dedicam ao estudo das disciplinas previstas para cada etapa de aprendizado, como Português, Matemática, História e Ciências. Cursos extracurriculares, passeios e projetos ocorrem à tarde.

Patrícia informa ainda que o planejamento foca nas necessidades de cada filho. “O José Gabriel, de 6 anos, realiza atividades voltadas à alfabetização, enquanto o Philippe Miguel, de 8, está na fase gramatical”, explica a mãe, que é responsável pelo ensino dos menores.

À medida que crescem, os filhos passam a direcionar parte da formação ao desenvolvimento de habilidades. Thomas, de 13 anos, pediu aos pais cursos de programação de software. Kyara, de 16, se concentra em música e idiomas. Para isso, a família conta com acompanhamento de 13 professores particulares, que atendem um ou mais filhos durante a semana. “Aulas de violino, por exemplo, só eu faço”, afirma a adolescente.

Patrícia aponta que foi a atenção às especificidades de cada filho que fez a família optar, há 13 anos, por esse modelo de ensino. A decisão, segundo ela, foi tomada após a experiência do filho mais velho, Igor Vieira, que ingressou em uma escola pública aos 6 anos, conforme legislação vigente à época, mas já havia sido alfabetizado em casa, no dia a dia com a família.

“Ele sabia ler, escrever com letra cursiva e ver as horas, e os amiguinhos ainda estavam aprendendo letras de fôrma e vogais”, conta a mãe.

“Isso fazia com que eu passasse boa parte das aulas esperando pelos demais, e lembro de sentir desinteresse pelas atividades escolares”, recorda Igor, que estudou na escola regular até os oito anos, frustrado.

“Nosso filho estava perdendo o gosto pela aprendizagem porque lá era somente um passatempo, enquanto em casa tínhamos que ficar aplicando por nossa conta conteúdos que trouxessem desenvolvimento”, relata Patrícia, que iniciou, então, a prática do homeschooling.

Aos 19 anos, Igor cursa duas graduações simultâneas e trabalha como professor

Hoje, Igor está com 19 anos e cursa simultaneamente as graduações de Letras e História. Poliglota, o rapaz também trabalha como professor de idiomas, História, Literatura e xadrez, além de atuar como árbitro nacional da modalidade. Ele dá aulas, inclusive, para os irmãos José e Philippe, de seis e oito anos.

“É uma rotina bastante intensa, mas flexível, e fui acostumado desde cedo a organizar meus próprios horários”, destaca o rapaz, que concluiu oficialmente os ensinos Fundamental e Médio ao ser aprovado nas duas provas do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja).

“E tive bom desempenho”, afirma o estudante universitário, que diz já ter recebido convites para estudar em países como Portugal e Itália. "Ainda não consegui aceitar, mas todos estão de pé", comenta.

Crianças da família amam ler: “Somos uma família leitora”

Segundo Igor, um dos motivos para esse resultado é a prática da leitura, incentivada por seus pais desde cedo. “Sempre li muito em voz alta com meus filhos, então todos gostam”, revela Patrícia, que tem uma biblioteca familiar em casa e leva as crianças quinzenalmente à biblioteca pública de Blumenau. “Somos uma família leitora”.

As crianças, inclusive, chamam atenção pela quantidade de livros que leem. O filho Thomas Raphael, por exemplo, está atualmente com 13 anos, mas já era apaixonado pela prática aos seis, quando leu cerca de 60 livros durante o ano e concluiu a obra "O Pequeno Príncipe" em dois dias.

A irmã Kyara também coordena um clube de literatura online para que meninas de oito a 16 anos desenvolvam o hábito de ler. “Desde que iniciei, já passaram mais de 50 meninas”, afirma a jovem, que publica listas anuais de leitura da família no Instagram. A adolescente também é professora de latim e inglês, dando aulas para os irmãos mais novos e para turmas infantis.

Outro ponto de destaque na rotina da família é o xadrez, pois todas as crianças aprendem a jogar desde cedo e são incentivadas a participar de torneios da modalidade. Segundo o pai, Diego Vieira, as crianças colecionam resultados em competições regionais e nacionais.

“São mais de 300 medalhas que meus filhos ganharam em competições de xadrez representando o município de Blumenau”, disse, em vídeo publicado nas redes sociais.
 
Em 2023, inclusive, os irmãos receberam uma Moção de Aplauso da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) em reconhecimento às conquistas no esporte. O destaque foi feito pela deputada estadual Ana Campagnolo.

Família Vieira foi condenada pela prática do homeschooling

Apesar dos resultados em 13 anos praticando homeschooling, Diego e Patrícia foram sentenciados, em julho, a pagar multa de aproximadamente R$ 65 mil e a matricular as crianças em rede regular de ensino. A decisão foi proferida pelo juiz substituto Willyam Guilherme Sandri Junior Lopes, da Vara de Infância e Juventude de Blumenau, e cabe recurso.

A Gazeta do Povo entrou em contato com a Vara, mas foi informada que as informações do processo são sigilosas e que a instituição não poderia passar informações. Durante a ligação, no entanto, a atendente disse que o juiz substituto que proferiu a sentença não estaria mais atuando no local e que a juíza titular da Vara daria sequência ao processo.

Segundo o advogado Marcelo Matteussi, a família apresentou embargos de declaração ao juízo de primeira instância e aguarda decisão. Caso o recurso não seja acolhido, recorrerá ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC).

Regulamentação da educação domiciliar segue parada no Senado

Atualmente, não há lei federal sobre o homeschooling no Brasil, mas o STF reconheceu, em 2018, que a educação domiciliar é compatível com a Constituição do país e que precisa de regulamentação.
O principal Projeto de Lei a respeito é o PL 1.338/2022, que já foi aprovado na Câmara dos Deputados, em 2022, mas segue parado na Comissão de Educação do Senado. Essa comissão é presidida atualmente pela senadora Tereza Leitão (PT-PE).

Texto e imagens reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A Falha das máquinas na morte da menina

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 18 de agosto de 2026

A Falha das máquinas na morte da menina
Por Fernando Gabeira (In Blog)

A morte da menina de 13 anos numa transmissão ao vivo na plataforma Discord trouxe um grande e importante debate. Apesar de tantas intervenções esclarecedoras, fiquei com muitas dúvidas.

O Discord comunicou ao governo que suas máquinas de aprendizagem detectaram o problema, mas foram incapazes de mensurar sua gravidade e acionar o alarme. Na verdade, quem parece ter acionado o alarme foi a vigilância humana de um núcleo digital da Polícia Civil de São Paulo.

Minha primeira questão: se as máquinas de aprendizagem foram incapazes de acionar o alarme, não seria o caso de voltarem para a escola, aprenderem melhor a lição? Não sei como funcionam, mas, se obedecem à lógica da inteligência artificial, trabalham basicamente com linguagem.

A história da IA mostra que nem sempre as máquinas de aprendizagem estão maduras para uso humano em sua fase inicial. Esse é o tema de um grande debate entre os grupos que trabalham na segurança de um modelo e os que o desenvolvem e precisam colocá-lo no mercado. Os grupos de segurança querem precisamente evitar tragédias, enquanto os outros precisam correr para responder aos investidores, ávidos pelo retorno de seu capital.

No caso dos grandes modelos de IA, houve muita discussão na época do lançamento do GPT-3. O sistema depende da infusão de milhões de dados, colhidos na internet. É difícil filtrá-los. Nos primórdios, as máquinas produziam textos simpáticos aos supremacistas brancos e elogiavam Hitler.

Um famoso artigo de pesquisa intitulado “Sobre os perigos dos papagaios estocásticos: os modelos de linguagem podem ser grandes demais?” foi durante algum tempo referência no debate. Sua coautora, Timnit Gebru, chegou a perder o emprego pela ousadia de denunciar a imaturidade dos sistemas de IA.

No caso do GPT-3, alguns usuários chegaram a denunciar os delírios do modelo. Se alguém perguntasse sobre o problema da Etiópia, a máquina responderia: o problema da Etiópia é a própria Etiópia; a solução é destruir a Etiópia. Durante a semana, me perguntei se as máquinas de aprendizagem do Discord não sofrem da mesma imaturidade, se não foram postas em ação antes de todos os testes de segurança.

Muitos pesquisadores afirmam que esses sistemas aprendem com a prática. É preciso escala, muita prática para que se aperfeiçoem. Mas a pergunta fundamental permanece: quando estão prontos para a comercialização, qual é a margem de segurança adequada?

Creio que a mesma pergunta vale para os carros autônomos. Dependem da análise de milhões de imagens para rodar com segurança. Essas imagens que absorvem são analisadas por milhares de trabalhadores no Quênia e também na Venezuela. Mas qual o momento para afirmar que estão prontas para sair por aí se dirigindo? Houve casos, nos testes, de atropelamentos de alguém empurrando uma bicicleta. Não notaram a imagem.

Essas reflexões não são uma oposição ao desenvolvimento tecnológico. Ele deveria obedecer às necessidades humanas e sociais de segurança. No entanto, obedece à lógica do retorno do capital investido. Às vezes fico pensando que a menina morta é uma vítima desse mecanismo. Espero que as investigações respondam a essa pergunta e transcendam a questão superficial de banir ou não uma plataforma.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br