Florestan Fernandes em conferência no Museu de Belas Artes (1964)
Publicado originalmente no site MUNDO EDUCAÇÃO
Florestan Fernandes
Florestan Fernandes foi um sociólogo e político brasileiro.
Sua biografia foi marcada por ser um dos primeiros sociólogos de destaque
formados pelo primeiro curso superior de Sociologia do Brasil, fundado em 1933,
na Fundação Escola Superior de Sociologia e Política de São Paulo (FESSP),
órgão que pertence, desde 1934, à Universidade de São Paulo (USP).
Florestan Fernandes lecionou sociologia na USP, foi exilado
durante a ditadura militar brasileira e, após seu retorno ao Brasil e a
redemocratização da política brasileira, foi eleito deputado federal, cumprindo
dois mandatos.
Biografia de Florestan Fernandes
Florestan Fernandes nasceu em 1920, na cidade de São Paulo.
Filho único de mãe solteira, Florestan foi criado em cortiços da capital
paulista com a ajuda de sua madrinha, Hermínia Bresser. Ela era patroa de sua
mãe, que trabalhava como empregada doméstica. Foi na casa de Hermínia Bresser
que Florestan conheceu os livros e percebeu a importância do estudo. A sua
origem pobre despertou-o para a importância de analisar-se a disparidade de
classes sociais presente no Brasil.
Ainda cursando o primário (que hoje corresponde à primeira
fase do Ensino Fundamental), Fernandes teve que largar os estudos para
trabalhar e complementar a renda familiar (que era composta apenas pela renda
de sua mãe). Foi engraxate, trabalhou em uma padaria e em um restaurante.
No entanto, o jovem pensador jamais abandonou o gosto pelo
estudo e pelos livros. Seu retorno aos estudos formais deu-se em 1937, quando
tinha 17 anos. Ele fez um curso de educação básica acelerada, parecido com o
que chamamos hoje de supletivo, ficando apto a concorrer a uma vaga no Ensino
Superior.
Aos 21 anos de idade, Florestan Fernandes ingressou no curso
de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, obtendo título de bacharel em
1943 e de licenciado em 1944. Seguindo a carreira acadêmica, o sociólogo cursou
seu mestrado em Antropologia, também pela USP. Nesse momento, ele iniciou uma
intensa pesquisa etnográfica que resultou na dissertação A organização social
dos Tupinambá, defendida em 1947.
Antes da conclusão de seu mestrado, o sociólogo tornou-se
assistente de ensino de seu orientador na USP, o professor Fernando Azevedo.
Também nessa época iniciou sua a atuação política, quando filiou-se ao Partido
Socialista Revolucionário (PSR), extinto partido de esquerda brasileiro. No ano
de 1951, Florestan Fernandes concluiu e defendeu sua tese de doutorado,
intitulada A função social da guerra na sociedade Tupinambá.
No ano de 1953, com a saída do sociólogo francês Roger
Bastide da USP, Florestan Fernandes ocupou seu lugar ingressando como professor
titular na instituição. Destacando-se como um brilhante acadêmico, em 1964,
Fernandes defendeu sua tese de livre docência, que mais tarde se tornaria o
célebre livro A inserção do negro na sociedade de classes. Percebe-se aqui uma
mudança de visão sociológica e de objeto de estudo, que mudou do índio
tupinambá para a questão étnico-racial no capitalismo.
Por conta da atuação política em um partido de esquerda por
meio da militância pelos desfavorecidos e da atuação docente, Florestan
Fernandes foi preso em 1964, quando estourou o golpe provocado pelos militares.
Em 1969, poucos meses após a promulgação do Ato
Institucional número 5 (o AI-5) — tal medida derrubava os direitos civis e
constitucionais e permitia a prisão sem flagrante ou prévia investigação,
inviabilizava o habeas corpus e permitia a cassação de mandatos políticos,
entre outras atrocidades —, Fernandes foi preso novamente, destituído de seu
cargo na USP e mandado para o exílio, retornando somente em 1972.
No período de exílio, o sociólogo viveu e lecionou nos
Estados Unidos e no Canadá, o que alavancou a sua carreira também fora do
Brasil, tanto o é que, em 1977, ele lecionou como professor convidado na
tradicional Universidade de Yale. Também nesse ano, regressando novamente ao
Brasil, Fernandes tornou-se professor titular da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP).
Em 1979, Fernandes ofereceu um curso de férias na Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, seu antigo ambiente de
trabalho. O que era para ser um simples curso sobre a experiência do sociólogo
em Cuba, tornou-se uma visão bastante singular sobre o socialismo que mesclava
as interpretações clássica e moderna do marxismo.
Na década de 1980, o sociólogo filiou-se ao recém-nascido
Partido dos Trabalhadores (PT), sendo eleito deputado federal constituinte em
1986 e deputado federal em 1990, permanecendo na Câmara dos Deputados até o fim
de seu segundo mandato, em 1994. Desde 1989, o sociólogo escreveu para uma
coluna semanal no jornal Folha de São Paulo, falando sobre política, educação,
sociologia e as questões sociais do Brasil.
Seus mandatos na Câmara dos Deputados ficaram marcados pelo
trabalho em prol da educação pública, gratuita e de qualidade, e pela defesa do
direito das populações marginalizadas e da redução das desigualdades sociais.
A importância de Florestan Fernandes na defesa da educação
pública e na dos direitos pode ser medida por sua participação na elaboração da
Constituição Federal de 1988 como deputado constituinte e por sua participação
na elaboração da lei 9394/96, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Brasileira (LDB).
Em 1994, Fernandes enfrentava problemas de saúde
relacionados ao seu fígado. Em 1995, o sociólogo precisou ser internado por
complicações do seu quadro de saúde e passou por um transplante de fígado, aos
75 anos de idade, que, infelizmente, terminou com o seu falecimento, no dia 10
de agosto de 1995.
Veja também: Direitos humanos: conjunto de direitos básicos
do cidadão
A questão racial
Embora os primeiros trabalhos de Florestan Fernandes versem
sobre problemas específicos das aldeias Tupinambá, afinal eram voltados para os
estudos antropológicos, o grande marco de sua obra está em sua tese de livre
docência, publicada em forma de livro, A inserção do negro na sociedade de
classes. Apesar da mudança de recorte, Fernandes não deixou de ver o índio,
como um não branco, sendo excluído no cenário capitalista de sua época.
A escravidão no Brasil é a origem da exclusão dos negros em
nossa sociedade
A obra madura de Florestan Fernandes, como um todo, enxerga
uma intersecção entre classe social e cor, ou seja, enxerga que a população
mais pobre, marginalizada e excluída é, em geral, a população não branca.
O sociólogo foi bem preciso ao derrubar o que se chamou de
mito da democracia racial, ideia extraída da obra de outro sociólogo, Gilberto
Freyre, que via uma relação cordial entre senhores e escravos no Brasil
Colonial e via uma relação diferente entre negros e brancos brasileiros no
século XX, em relação a outros países, como os Estados Unidos. Fernandes, por
sua vez, enxergou que a população negra era a mais atingida pela desigualdade
social e que a raiz disso se encontrava no capitalismo.
Desigualdade social
A questão da desigualdade social é central na obra e na
militância de Florestan Fernandes. Inclusive, sua atuação como parlamentar foi
voltada para a redução da desigualdade social no Brasil.
O sociólogo viveu na periferia quando criança, morando em
guetos de São Paulo. Desde sua infância, quando trabalhava para ajudar a sua
mãe, Fernandes percebeu que os empregos e a renda das pessoas das periferias
eram drasticamente inferiores e que havia um tratamento diferente dado ao povo
desses lugares.
Será que o aluno que estuda em uma escola rural como essa
tem as mesmas
chances de enquadrar-se na sociedade como quem estuda em uma escola de elite?
chances de enquadrar-se na sociedade como quem estuda em uma escola de elite?
Fernandes percebeu a quase imperiosa impossibilidade de
haver uma ascensão social das pessoas negras no sistema capitalista. Ele
percebeu, em sequência, que se o capitalismo promove justamente a desigualdade
social, a população negra no Brasil sempre estaria na margem da sociedade, se
considera-se a manutenção do sistema capitalista. Nesse sentido, é necessária
uma tomada de posição em relação ao capitalismo para que haja um sistema
realmente democrático de maior igualdade social.
Democracia
Florestan Fernandes era um defensor convicto da democracia.
Muitos opositores no campo político tentavam desqualificar o sociólogo enquanto
democrata por sua posição política socialista. No entanto, ao analisar-se sua
vida e obra, percebe-se que o que ele defendia era a democracia como
reconhecimento dos direitos de todos os cidadãos.
Na visão de Fernandes, a democracia brasileira não era
completa, pois não chegava à periferia, às camadas mais pobres da população.
Uma democracia efetiva seria aquela que levasse a todos o direito à
alimentação, à moradia e à educação.
Acesse também: Conhecimento: entenda melhor esse conceito e
sua importância
Educação
A educação é a peça-chave para promover-se uma verdadeira
democracia no Brasil, que reduza as desigualdades sociais e permita uma relação
mais democrática para a nação como um todo. Defensor da educação, Fernandes
lutou enquanto político para promover um sistema que garantisse escolas laicas,
públicas, gratuitas e de qualidade para todos os jovens do Brasil.
Publicado por: Francisco Porfírio
Texto e imagens reproduzidos do site: mundoeducacao.uol.com.br


