Mostrando postagens com marcador - LULA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador - LULA. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Entrevista de Lula na Globo

Publicação compartilhada do site BBC NEWS BRASIL, de 27 de agosto de 2026

Entrevista de Lula na Globo: o que disse o candidato à Presidência disse sobre suas propostas

Por Leandro Prazeres

A entrevista com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na TV Globo nesta quinta-feira (27/8) começou com o assunto que paira sobre a campanha de reeleição do petista: as investigações a respeito de supostas irregularidades cometidas por seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha.

Questionado pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos, Lula classificou como "ilações" as acusações que estão circulando contra Lulinha.

"Ali não tem nenhuma acusação. São ilações, ilações, ilações tiradas de telefonemas. Eu conheço isso muito bem porque já vivi isso", afirmou o presidente, referindo-se à Operação Lava-Jato, que o levou à prisão.

O petista prometeu que Lulinha "não será protegido" por ser seu filho.

"Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro. Eu não vou afastar a delegado da Polícia Federal. Eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja beneficiado."

Apesar de afirmar que seu filho terá que provar sua inocência, o presidente disse ter "certeza" que isso será demonstrado.

Lula, que busca um quarto mandato, disse ainda que não fará intervenção na Polícia Federal por conta das investigações contra seu filho.

"Eu não vou afastar delegado da Polícia Federal. Eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja beneficiado (...) portanto, ele tem obrigação de não ter feito erro. Eu estou muito tranquilo como presidente da República. Tudo o que for preciso fazer no âmbito da polícia e da Justiça para apurar [será feito]. Será dada toda e qualquer garantia", disse o petista.

Lulinha é alvo de três inquéritos instaurados pela Polícia Federal (PF) e autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O primeiro investiga se Lulinha tentou favorecer Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", a obter contratos com o Ministério da Saúde para o fornecimento de produtos à base de cannabis medicinal.

O segundo é uma investigação que apura se Lulinha atuou para beneficiar a empresa 3Structure It LTDA para obter contratos junto à Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência (Dataprev), que é uma estatal federal.

O terceiro investiga a suposta atuação conjunta de Lulinha, do ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, e da empresária Roberta Luchsinger para favorecer empresas interessadas em contratos com o Ministério da Saúde. Ela é amiga pessoal da Lulinha e sua família.

Lula também foi questionado sobre as suspeitas sobre a atuação de Luchsinger, que, segundo relatórios da PF divulgados pela imprensa nos últimos dias, teria pago R$ 249 mil em despesas do ex-chefe de gabinete do petista.

"Não é adequado. É totalmente errado. E o Marcola sabe do erro que ele cometeu, porque não é esse o papel do chefe de gabinete. Ele sabe disso. Ele sabe da importância de chefe de gabinete", afirmou Lula.

O presidente disse, no entanto, que acredita na explicação apresentada por Marcola, de que  valor pago por Luchsinger seria fruto de um empréstimo pessoal.

Lula afirmou também ter questionado por que o auxiliar não o procurou ao enfrentar o problema.

"Eu disse para ele: 'Cara, eu sou quase que nem seu pai. Por que que você não falou comigo? Por que você não falou comigo do problema que você estava tendo?'"

Lula disse ainda estar "muito deprimido e muito chateado" com o episódio e afirmou que eventuais erros deverão ser punidos.

"O meu filho sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometeu, vai pagar. O Marcola sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometeu, vai pagar. É assim que funciona."

Lula, César Tralli e Renata Vasconcellos posando para foto no estúdioCrédito,Globo/ Manoella Mello

Trechos de um relatório da PF obtidos pela revista Veja apontam que Roberta e Lulinha trocaram mensagens sobre um encontro entre Roberta e o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa.

O objetivo do encontro, segundo a PF, seria viabilizar a venda de produtos à base de cannabis medicinal.

Marcola entrou no radar das investigações depois que a PF identificou que Luchsinger pagou despesas em nome do ex-chefe de gabinete do presidente. Em nota, Marcola disse que os pagamentos fizeram parte de um empréstimo pessoal feito pela empresária e negou ter praticado qualquer irregularidade.

A defesa de Lulinha também vem negando o envolvimento do filho do presidente em crimes ou condutas indevidas.

Lula descarta privatizar os Correios

Em outro ponto da entrevista, o jornalista César Tralli questionou sobre o prejuízo acumulado dos Correios nos últimos anos, outra empresa estatal do governo federal. Nos últimos quatro anos, esse prejuízo chegou a R$ 15 bilhões.

Lula atribuiu a crise pela qual a empresa passa a mudanças no mercado de entrega de encomendas, com a entrada de companhias privadas, brasileiras e estrangeiras.

"A crise dos Correios é que ele não se adaptou aos novos tempos. Surgiu muita empresa de fazer entrega e os Correios ficaram na mesmice (...) Se for necessário a gente fazer associação com empresas brasileiras ou estrangeiras, nós faremos, porque a gente quer os Correios junto com qualquer outra empresa", afirmou.

Em seguida, Tralli questionou se Lula cogitava a possibilidade de privatizar os Correios, defendida por setores do mercado financeiro e defendida durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Lula, no entanto, rejeitou a ideia.

"O senhor não considera vender [os Correios]?", indagou o jornalista.

"Não considero vender os Correios", disse o petista.

Caso Master e Jaques Wagner

Lula foi questionado sobre as menções ao senador Jaques Wagner (PT-BA) em investigações do caso Banco Master. O presidente respondeu que "tem muita gente nesse país" envolvida no escândalo, mas afirmou acreditar na honestidade do senador petista, que busca a reeleição ao cargo.

Wagner era líder do governo no Senado e se afastou da função após tornar-se alvo de investigações da PF relacionadas ao Master.

Lula tem feito campanha a favor da reeleição de Wagner para o Senado, o que foi questionado na entrevista à TV Globo.

"Até agora, não está provado que o Wagner tem relação com o Banco Master", argumentou o presidente.

"O que eu não posso admitir é aceitar que eu possa fazer política vivendo de ilações todo santo dia."

"Eu tenho consciência que o Wagner é honesto. Se ele cometeu um desvio, vai acontecer com ele o que vai acontecer com qualquer pessoa: vai pagar o preço do erro que cometeu. Eu não sou uma pessoa que mudo de calçada quando encontro o amigo que está sendo acusado de alguma coisa. Não. Até que se prove o contrário, todos são inocentes."

Os jornalistas também questionaram Lula sobre um dos pontos que mais preocupa o eleitor brasileiro segundo pesquisas de opinião pública: segurança pública.

Renata Vasconcellos questionou Lula sobre por quê o PT, que governou Brasil por 17 anos, não conseguiu conter o avanço do crime organizado no país.

Lula começou sua resposta dizendo que a Constituição Federal de 1988 teria retirado poderes do governo federal e atribuiu aos Estados as principais responsabilidades em relação à segurança pública.

Lula prometeu que, caso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) for aprovada pelo Congresso Nacional, ele criará o Ministério da Segurança Pública.

Segundo ele, esta medida irá melhorar a atuação do governo no combate ao crime organizado.

"Na hora que for aprovar a PEC da Segurança Pública, eu crio o Ministério da Segurança Pública. Por que eu vou criar o ministério? Porque, primeiro, eu quero estabelecer qual é a participação de cada ente federado na segurança pública. (Definir) qual vai ser o papel da União, qual vai ter o papel do Estado e qual vai ser o papel do município. Porque aí sim, a gente vai trabalhar muito forte", afirmou.

Lula defendeu que o governo faça investimentos em inteligência e voltou a dizer que encaminhou uma proposta ao governo dos Estados Unidos para o combate ao crime organizado no país.

"Aprovamos uma lei de anti-facção e estamos trabalhando a questão do combate ao crime organizado. Por isso eu fui levar pro (Donald) Trump uma proposta por escrito. Se os EUA quiserem trabalhar junto com o Brasil para combater o narcotráfico, o crime organizado, o Brasil está pronto e preparado (...) o meu desejo é recuperar o território do povo. Aquela rua é do povo do Rio, não é do bandido. A escola é do povo, não é do bandido", disse.

A menção ao governo Trump acontece três meses depois de o governo dos Estados Unidos designar as facções brasileiras Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A medida contrariou o governo Lula que, nos bastidores, defende que esta designação poderia abrir espaço para intervenções militares norte-americanas em território brasileiro.

Dívida pública

A jornalista Renata Vasconcellos questionou o presidente sobre a trajetória da dívida pública em seu governo — a dívida em relação ao PIB subiu 10 pontos percentuais durante o mandato atual do petista, chegando a quase 82%.

"Eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar essa pergunta falando diferente", respondeu Lula. Em seguida, ele defendeu a gestão da sua política econômica, inclusive em mandatos passados e elencou entre suas marcas a realização de superávit primário durante oito anos nos seus dois primeiros governos. É o resultado positivo das contas públicas quando o governo arrecada mais do que gasta, desconsiderando o pagamento dos juros da dívida.

O presidente afirmou que a dívida pública chegou a tamanho percentual do PIB devido aos juros altos e à estagnação do crescimento nos governos anteriores ao seu.

"Você sabe quando é que o PIB voltou a crescer acima de 2%, Renata? Quando eu voltei à Presidência da República. Você se esquece que eu deixei esse país crescendo 7,5% em 2010? E quando eu voltei, ele estava crescendo 1%?", indagou, acrescentando que, comparado a países como Estados Unidos, Japão e Itália, uma dívida de 80% do PIB "não é muito".

Lula afirmou que, neste ano, haverá superávit primário de 0,1%. Perguntado sobre a necessidade de ajustes fiscais e do corte de gastos obrigatórios, o presidente não respondeu diretamente como faria essas mudanças.

Quem é Lula?

Luiz Inácio Lula da Silva tem 80 anos de idade e busca o seu quarto mandato como presidente da República. Ele já presidiu o país por dois mandatos consecutivos, entre 2003 e 2011.

O petista se classifica como um político de esquerda e defende maior participação do Estado na economia, políticas de distribuição de renda e a ampliação de programas sociais.

Na política externa, Lula costuma defender o multilateralismo, parcerias com países fora do eixo Estados Unidos-Europa e a criação de foros como os BRICS, grupo que hoje tem 11 países e que foi fundado por Brasil, Rússia, China e Índia.

Nascido em Garanhuns, no interior de Pernambuco, ele migrou ainda criança com a família para São Paulo, no início dos anos 1950. Foi lá que ele começou a trabalhar como metalúrgico e deu início à sua carreira sindical e política.

Lula ganhou projeção nacional no final da década de 1970, quando presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e liderou greves de trabalhadores da região conhecida como ABC Paulista durante a ditadura militar.

Em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), legenda à qual continua filiado.

Em 1986, ele foi eleito deputado federal por São Paulo e participou da Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela elaboração da Constituição de 1988.

Esta é a sétima vez que Lula disputa as eleições presidenciais. A primeira foi em 1989, quando foi derrotado no segundo turno por Fernando Collor de Mello, que era filiado ao agora extinto Partido da Renovação Nacional (PRN).

Em 1994, ele chegou a liderar pesquisas de intenção de voto durante parte do período eleitoral, mas foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que aproveitou a popularidade pela implantação do Plano Real.

Lula voltou a disputar as eleições em 1998, mas foi derrotado novamente por Fernando Henrique, no primeiro turno.

Em 2002, com um discurso mais voltado ao centro, Lula venceu sua primeira eleição presidencial e passou a governar o país a partir de 2003. Ele foi reeleito em 2006 e deixou o cargo, em 2010, com índices de aprovação acima dos 80%, segundo pesquisas de opinião pública.

Na época, ele usou sua popularidade para apoiar e eleger sua ex-ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), em 2010 e 2014.

Os dois primeiros governos de Lula ficaram marcados pela expansão de programas sociais, como o Bolsa Família, pela adoção de uma política de valorização do salário mínimo e por um período de crescimento econômico impulsionado pelo aumento no consumo interno e pela alta no preço internacional de commodities produzidas pelo Brasil, como soja, carne e minério de ferro.

O período, porém, também foi marcado por denúncias de casos de corrupção. Em 2005, veio à tona o caso conhecido como Mensalão, que apontou para o pagamento de parlamentares da base governista em troca de apoio político no Congresso Nacional.

Lula sempre negou ter conhecimento das irregularidades e não foi denunciado no processo, mas importantes aliados vinculados ao PT foram condenados e levados à prisão. Entre eles estavam o ex-presidente do PT, José Genoíno, o ex-deputado federal João Paulo Cunha, e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.

Anos depois, investigações da Operação Lava Jato atingiram novamente o PT, executivos de grandes empreiteiras e dirigentes de empresas estatais como a Petrobras.

Os investigadores e delatores apontaram a existência de um esquema de pagamento de vantagens indevidas, seja por meio de propina ou por meio de doações eleitorais regulares por empreiteiras em troca de contratos públicos com o governo ou estatais.

Lula foi investigado pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF) por diversos crimes, entre eles lavagem de dinheiro, corrupção e tráfico de influência. Ele sempre negou ter conhecimento sobre o esquema e afirma, até hoje, que as suspeitas levantadas sobre ele eram fruto de perseguição política.

Entre 2017 e 2018, ele foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Suas condenações foram confirmadas em segunda instância. Mesmo assim, em 2018, ele foi lançado como candidato do PT à Presidência da República.

Em abril de 2018, no entanto, ele foi preso e acabou impedido de prosseguir na disputa.

Lula ficou preso por 580 dias, entre abril de 2018 e novembro de 2019, e não pôde disputar a eleição presidencial de 2018.

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as condenações ao concluir que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os casos.

Com isso, Lula recuperou seus direitos políticos, e, em 2022, disputou e venceu, em segundo turno, as eleições para presidente da República, derrotando Jair Bolsonaro (PL), que buscava a reeleição.

O petista recebeu 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Bolsonaro.

Em seu terceiro mandato, ele retomou programas lançados em seus dois primeiros mandatos como Minha Casa, Minha Vida, voltado para habitação.

Durante seu governo, o Congresso também aprovou trechos da reforma tributária e ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda.

Por outro lado, seus adversários criticam o aumento das despesas públicas, a situação das contas federais e o aumento no custo de vida.

Lula, em contrapartida, atribui parte das dificuldades econômicas ao cenário internacional e afirma que seu governo recuperou políticas públicas abandonadas durante a gestão Bolsonaro.

Lula lidera em intenções de voto no primeiro turno, com 39%, considerando os resultados das pesquisas divulgadas até esta quinta-feira (27/8).

A estimativa é do Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, que compila os levantamentos das instituições Datafolha, Quaest, AtlasIntel, MDA, Gerp, entre outros, e calcula uma espécie de média para a intenção de voto de cada candidato.

Depois de Lula, vêm Flávio Bolsonaro, com 34%; Ronaldo Caiado, com 4%; Renan Santos, com 4%; e Pablo Marçal, com 3%. Veja aqui os resultados completos.

*Colaborou Mariana Alvim, da BBC News Brasil em São Paulo

Texto e imagem reproduzidos do site: www bbc com/portuguese

sexta-feira, 31 de julho de 2026

PRESIDENTE LULA - Inteligência Ltda. Podcast 1894

 

ENTREVISTA COM O PRESIDENTE LULA - Inteligência Ltda. Podcast 1894

Canal  YouTube/Inteligência Ltda

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA é o Presidente do Brasil. Ele vai bater um papo com o Vilela sobre sua vida, as lutas políticas e sociais, a possibilidade de ser eleito para um quarto mandato e o que é preciso fazer pra melhorar o Brasil. Já Vilela não conseguiu ser eleito nem pra representante de classe.

sábado, 4 de abril de 2026

Por que a Geração Z não quer saber de Lula e da esquerda?

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 1 de abril de 2026

Por que a Geração Z não quer saber de Lula e da esquerda?

A ironia é que, apesar de dominar a cultura, a academia e a mídia, a esquerda revela uma tremenda desconexão com grande parte da nova geração. José Fucs para o UOL:

Em meio à divulgação das pesquisas mais recentes, que apontaram um empate técnico no segundo turno das eleições de 2026 entre o presidente Lula, provável candidato à reeleição, e Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL, um indicador merece ser avaliado com mais atenção, pelo que revela sobre as novas tendências do eleitorado.

Perdido nas análises sobre o acirramento da disputa, o dado aparece no levantamento AtlasIntel/Bloomberg e mostra a enorme rejeição a Lula entre os integrantes da chamada Geração Z, composta pelos nascidos de 1995 a 2010.

Segundo a pesquisa, divulgada na semana passada, a desaprovação de Lula entre os jovens de 16 a 24 anos —que representam 13% dos eleitores ou 20,5 milhões de pessoas— alcança nada menos que 72%. É o maior índice negativo nesta faixa desde o início do terceiro mandato e supera de longe a média geral, considerando todas as idades, de 53,5%.

Para desconsolo do presidente e do PT, a reprovação atinge a maioria desses jovens em todas as faixas de renda. Ela oscila entre 55%, na faixa até dois salários mínimos, e 80%, na faixa acima de dez salários. A alta desaprovação dos jovens a Lula também independe de gênero. Embora seja mais alta entre os homens, atingindo 78,2%, também é bem superior à media geral entre as mulheres, com 61,4%. Além disso, 48,3% disseram temer mais a reeleição de Lula e apenas 25,6%, a vitória de Flávio Bolsonaro.

O levantamento não é apenas um recorte fora da curva. A pesquisa AtlasIntel reforça resultados semelhantes apontados por sondagens de outros institutos também divulgadas em março. De acordo com uma pesquisa do Ipsos, os jovens da Geração Z no Brasil estão se mostrando bem mais conservadores que seus pais —uma tendência reforçada por um levantamento Quaest, que apontou um recall muito maior para políticos de direita, como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira (PL-MG), do que para qualquer nome da esquerda, entre jovens que se dizem independentes.

Esses resultados representam uma mudança significativa em relação à eleição de 2022, quando o voto dos mais jovens foi decisivo para a vitória de Lula. Não tanto pela adesão à sua agenda e às bandeiras da esquerda, mas principalmente pela rejeição ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A maior evidência disso é que, nas eleições estaduais e para o Congresso, a direita e a centro-direita avançaram.

A ironia é que, apesar de dominar a cultura, a academia e a mídia, a esquerda revela uma tremenda desconexão com grande parte da nova geração. Nas universidades, onde esta faixa etária predomina, a esquerda persegue professores que não rezam pela sua cartilha, impede palestrantes de direita de dar seus recados, toma conta das entidades estudantis e influencia até os currículos dos cursos, apesar da falta de representatividade junto à maior parte dos alunos.

Discurso embolorado

As motivações da guinada política dos jovens ainda carece de estudos mais profundos. Mas já dá para levantar alguns pontos que podem explicar por que a Geração Z se identifica mais com a direita e não quer saber de Lula e da esquerda.

O envelhecimento de Lula tem o seu peso, não tanto pelos seus 80 anos, mas pelo seu discurso embolorado, que se mantém praticamente o mesmo há 50 anos. Em plena era da inteligência artificial, ele continua preso ao passado. Continua pensando de forma analógica, com a cabeça na Guerra Fria, defendendo Cuba, o ditador Nicolás Maduro, o Irã dos aiatolás e o tal do Sul Global —seu maior fetiche geopolítico. Ficou "véi", como diz a galera por aí.

Líder supremo do PT e eterno candidato a presidente, Lula abafou o surgimento de novas lideranças no partido. Com a tentativa de reeleição em 2026, ele completará seu sétimo pleito desde 1989. Só não concorreu em 2010, porque não podia, depois de dois mandatos consecutivos; em 2014, porque sua pupila Dilma Rousseff insistiu na reeleição; e em 2018 porque estava preso e indicou Fernando Haddad, seu fiel escudeiro, chamado de "poste" pelos adversários na época, para representá-lo.

Além de sua resistência em navegar no ambiente digital, Lula e o PT demonstram uma tremenda incapacidade de entender a mentalidade dos mais jovens, os chamados "nativos digitais", que já nasceram e cresceram sob a influência da internet. A rigor, eles não só têm dificuldade para entender suas ideias como rejeitam muitas delas.

Enquanto muitos dos integrantes da Geração Z valorizam a autonomia na vida pessoal e no trabalho e enxergam no empreendedorismo a principal via de ascensão social, Lula e o PT continuam a acreditar que "dignidade" é ter carteira assinada, sindicato forte e estabilidade no emprego. Seguem apegados à velha CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), criada por Getúlio Vargas em 1943, durante o Estado Novo, sob inspiração da Carta del Lavoro, do ditador fascista italiano Benito Mussolini.

Modelo ultrapassado

O maior exemplo desse descompasso é a tentativa de regulamentação a fórceps dos aplicativos de mobilidade e entrega. O problema, como mostram as pesquisas, é que para a maioria dos que trabalham nas plataformas esse é um modelo ultrapassado. Eles não estão preocupados com CLT nem com crachá. Valorizam a flexibilidade no horário de trabalho, a liberdade de atender a várias empresas ao mesmo tempo, sem vínculo empregatício, e a meritocracia, que lhes permite prosperar pelo próprio esforço.

Para os mais jovens, que sonham com o CNPJ e querem virar MEI (microempreendedor individual), o que Lula, o PT e a esquerda chamam de "precarização do trabalho" e "uberização" soa mais como uma limitação da liberdade profissional que eles almejam. Os exemplos de sucesso para muitos integrantes dessa turma são os influencers e os vendedores de cursos online que enriqueceram na internet. Neste cenário, o discurso da direita, em defesa da liberdade econômica e da redução de impostos, parece fazer muito mais sentido do que a sanha regulatória do governo Lula.

Não por acaso, conforme o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), o número de MEIs criadas pelos mais jovens está batendo recorde e já representa cerca de 20% de todos os novos micronegócios do país. É sintomática também a proliferação de entidades de apoio ao empreendedorismo e ao microcrédito em favelas e a realização de feiras de empreendedores nas periferias de grandes cidades.

Lula, o PT e a esquerda em geral podem esperar retribuição dos mais jovens às "entregas" do governo, como o Pé de Meia, o programa que oferece compensações financeiras a estudantes do ensino médio de escolas públicas, para estimular a permanência no curso e sua conclusão. De acordo com as pesquisas, no entanto, muitos acreditam que o governo não está fazendo mais do que a obrigação.

"Forma de transgressão"

Ao contrário do que muitos analistas podem imaginar, o fenômeno não é apenas uma osciliação conjuntural, fruto da falta de calibragem nas políticas oficiais ou de um mau humor passageiro. O que os dados das pesquisas AtlasIntel, Ipsos e Quaest mostram não parece ser um desvio estatístico, mas um realinhamento histórico estrutural.

Durante décadas, a juventude foi "sinônimo da rebeldia progressista", nas palavras de Lucas de Aragão, mestre em ciência política e sócio da Arko Advice, empresa de consultoria sediada em Brasília. A percepção geral era de que os jovens se identificavam naturalmente com a esquerda, pelo desejo de "mudar o mundo" e de lutar contra o "sistema" e o "conservadorismo" da sociedade. Pelo jeito, porém, a Geração Z —considerada bem mais pragmática que as suas antecessoras recentes, inclusive os milennials (nascidos entre 1981 e 1996) —está redefinindo suas prioridades.

"A rebeldia mudou de lado", diz Aragão, em artigo publicado no site de notícias Brazil Journal em fevereiro, ao comentar uma pesquisa da AtlasIntel que já apresentava resultados semelhantes à de março. "Houve um tempo em que ser de direita significava defender o establishment. Hoje é o inverso. Para a Geração Z, as instituições que moldam o discurso público (universidades, grandes empresas, imprensa e o próprio governo) falam a gramática do progressismo. Nesse ambiente, adotar posições à direita virou uma forma de transgressão."

Segundo ele, um exemplo emblemático dessa mudança apareceu na eleição para a prefeitura de São Paulo, em 2024. Na zona leste da cidade, que historicamente faz parte do "cinturão" da esquerda, o empresário e influenciador Pablo Marçal, candidato pelo PRTB (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro), foi o mais votado em 14 das 20 zonas eleitorais no primeiro turno. "Não foi um acidente estatístico", afirma. "Ali, uma parcela da juventude trocou a esperança no Estado pela aposta antissistema."

Conflito de valores

Curiosamente, alguns valores relacionados à Geração Z estão em conflito com o receituário dos conservadores e da direita raiz. Aparentemente, seus integrantes —ou boa parte deles— estão desvinculando as questões comportamentais dos limites delineados pelos campos políticos tradicionais.

Ao mesmo tempo em que a Geração Z tem uma visão mais realista do mundo, abraçando a economia de mercado e a meritocracia, e se tornou mais cética em relação às instituições, como apontam as pesquisas, ela não virou necessariamente conservadora nos costumes.

Como diz um estudo da McKinsey, uma das principais empresas internacionais de consultoria, ela não abriu mão de certas pautas comportamentais que a direita tradicional digere com dificuldade, como a defesa radical da diversidade.

Para muitos integrantes da Geração Z, a sustentabilidade não é um papo de "ecochatos", mas uma questão de sobrevivência. Eles preferem empresas que busquem preservar o meio ambiente, mas se mostram preocupados com as políticas ecológicas muito restritivas, que afastam quem vê na tecnologia verde uma oportunidade de negócio e encarecem os combustíveis e os alimentos.

Ao que tudo indica, apesar das diferenças de visão na área de costumes, a direita parece muito mais alinhada com os anseios e o discurso da Geração Z do que Lula e o PT. E não adianta imaginar que é possível resolver o problema de olho no pleito de outubro. Não há marqueteiro, por melhor que seja, que consiga superar isso da noite para o dia —ou em alguns meses. Nem o Sidônio Palmeira, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social e ex-marqueteiro de Lula em 2022.

O divórcio da juventude com Lula e o PT não parece ser, enfim, um desentendimento passageiro que uma peça publicitária bem feita ou um novo auxílio financeiro possa resolver. É um problema sério de conteúdo e não de forma, que se choca com princípios incrustados na esquerda desde sempre e que promete pautar não apenas as eleições de 2026 como também as seguintes, mudando a configuração política do país.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Ninguém tinha ilusões sobre ninguém no jantar entre Lula e empresários

Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, 29 de setembro de 2022

Ninguém tinha ilusões sobre ninguém no jantar entre Lula e empresários

O aperto de mão útil foi fartamente ilustrado no jantar de terça-feira que reuniu Lula e nomes de peso de todos os setores relevantes da economia, incluindo o agroindustrial. William Waack:

Voto útil é quando o eleitor opta por quem não gosta, mas acha que é melhor do que prorrogar uma situação intolerável. O aperto de mão útil é quando o empresário, o banqueiro ou o produtor rural tinham esperanças frustradas com Bolsonaro e detestam Lula, mas não veem outro jeito senão se acertar com ele, diante do reiterado favoritismo nas pesquisas.

O PT aparentemente conquistou os dois, faltando horas para o primeiro turno. Porém, não é possível prever nesta quinta-feira se o voto útil leva Lula a liquidar a fatura no próximo domingo. Esse voto já foi captado pelos levantamentos mais recentes, como o derretimento de Ciro. Ocorre que as pesquisas não conseguem calcular o fator decisivo para determinar se a corrida presidencial acaba domingo: é a taxa de abstenção, maior no eleitorado mais fiel a Lula.

O aperto de mão útil foi fartamente ilustrado no jantar de terça-feira que reuniu Lula e nomes de peso de todos os setores relevantes da economia, incluindo o agroindustrial. O saudoso dramaturgo Ariano Suassuna teria aplicado ao encontro, que teve mais de cem pessoas, uma de suas frases inesquecíveis sobre a cordialidade brasileira: “Faz parte da nossa boa educação falar mal das pessoas só pelas costas”.

“Encontrei o Lula de sempre”, disse mais de um participante, com óbvio sentido duplo. Ou seja, no jantar ninguém tinha ilusões sobre ninguém. Lula menos ainda, pois começou a carreira de sindicalista negociando com a geração anterior dos representantes do capital, especialmente indústria. Era a longínqua época na qual Lula tinha tirado o macacão enquanto empresários nunca tiravam a gravata, e o peso da indústria no PIB era o dobro do de hoje.

O que mudou também sobretudo nos últimos anos é a diminuição dos poderes do chefe do Executivo, que Lula não parece ter percebido. Na economia, o desaparecimento de “capitães” cuja voz era ouvida e seguida por segmentos inteiros. E ficou muito mais complexa a atividade empresarial de lutar por seus interesses (ou evitar maiores danos) via apoio a parlamentares. Os fundos eleitoral e Partidário e o orçamento secreto fazem deputados pedir menos dinheiro ao setor privado.

De lá para cá o que não mudou (talvez só piorou) é o fato de estratégias de sobrevivência empresarial dependerem em parte relevante de bom relacionamento com o governante de plantão. É o resultado direto do ambiente de negócios no Brasil, moldado por insegurança jurídica e peso do Estado e seus órgãos mais diversos. Que faz às vezes do aperto de mãos útil um simbólico beija-mão.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Lula calado é um poeta

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 5 de maio de 2022

Lula calado é um poeta

Líder petista parece que tem uma cota de besteiras para dizer até a eleição. Não é à toa que o principal foco de crises de sua campanha seja a área de comunicação. Editorial do Estadão:

A julgar por suas declarações nas últimas semanas, parece que o ex-presidente Lula da Silva tem uma cota de besteiras para dizer até a eleição. É impressionante. Não é à toa que o principal foco de crises em seu comitê de campanha seja a área de comunicação.

Muito distante daquele líder político dotado de um acurado tino eleitoral, atributo que é reconhecido até por seus adversários, o Lula de 2022 nem parece ser alguém que precisa, mais uma vez, conquistar eleitores fora da tradicional órbita de atração do lulopetismo para confirmar seu favoritismo na disputa pela Presidência da República. O que o líder petista anda dizendo tem chocado até aliados históricos. Tanto é assim que próceres do PT e “marqueteiros” preparam o discurso que Lula deverá ler no ato de lançamento de sua pré-candidatura, no próximo sábado, tal é o receio quanto aos danos que a incontinência verbal do ex-presidente pode causar.

O mais recente desatino de Lula, dito em entrevista à revista Time, foi atribuir ao presidente da Ucrânia, Volodmir Zelensky, uma parcela da responsabilidade pela invasão de seu país por tropas russas. “Ele (Zelensky) quis a guerra. Se ele não quisesse a guerra, teria negociado um pouco mais”, disse Lula à Time, como se houvesse espaço para uma negociação de boa-fé com quem se senta à mesa armado até os dentes. Lula trata como simétricas as posições da vítima e do agressor, o autocrata russo Vladimir Putin, um despautério que não tem o respaldo de nenhum líder democrático no mundo.

Lula, que não sabe o que é uma guerra, ainda teve o desplante de censurar o comportamento de Zelensky, dando a entender que seu passado como ator o faria buscar mais os holofotes do que a diplomacia. “O comportamento dele é um pouco esquisito, porque parece que ele faz parte de um espetáculo. Ele aparece na televisão de manhã, de tarde e de noite (...) como se estivesse em campanha. Ele deveria estar mais preocupado com a mesa de negociação.”

A incrível insensibilidade de Lula em relação ao líder de um país que tem de confortar seus concidadãos em meio às agruras de uma guerra só perde para seu cinismo – afinal, se alguém busca os holofotes todo o tempo e transforma cada gesto seu em peça de campanha, este é, inequivocamente, Lula da Silva.

Chega a ser embaraçoso para alguém que se arvora em líder de uma notável “frente ampla” pela democracia e contra o autoritarismo no Brasil dar amparo a um evidente ato de violência injustificada perpetrado contra um país soberano, sobretudo em entrevista à imprensa estrangeira. Ao fim e ao cabo, Lula se junta ao presidente Jair Bolsonaro na condescendência com que trata os crimes de guerra cometidos por Putin contra o povo ucraniano.

Em relação aos temas domésticos, Lula também não tem poupado esforços para chocar – ou ao menos constranger – apoiadores e afugentar eleitores mais moderados. Semana sim e outra também, o ex-presidente tem dito, entre outras bobagens, que é preciso “abrasileirar o preço da gasolina”, como se a política de preços da Petrobras não estivesse fundamentalmente ligada às oscilações do mercado internacional, assim como o milho, a soja e outras commodities.

Há poucos dias, em outra fala desastrada, Lula deu a entender que policiais não seriam “gente” ao dizer que Bolsonaro “não gosta de gente, gosta de policiais”. O petista se desculpou com a categoria logo em seguida.

Em outro aceno a seu público cativo, Lula prometeu, novamente, revogar a reforma trabalhista, a despeito dos dados que atestam a importância da medida, aprovada no governo de Michel Temer, para a redução do desemprego. Isso o fez levar sermão de ninguém menos que Paulinho da Força (Solidariedade). “Esquece essa história de reforma trabalhista. Ganha a eleição que eu resolvo com o (deputado) Marcelo Ramos na Câmara em dois meses”, disse o notório líder da Força Sindical ao petista.

Nessa toada, o País ainda haverá de sentir saudades de Dilma Rousseff e sua “saudação à mandioca”. Malgrado o desastre de seu governo, ainda era possível achar graça nas bobagens de Dilma. Com Lula, não há graça nenhuma.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Se 65 milhões de brasileiros cogitam mesmo votar em Lula...

Publicado originalmente no BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, 14 de janeiro de 2022 


Se 65 milhões de brasileiros cogitam mesmo votar em Lula, onde foi que erramos? 

 
Se de fato 66 milhões de brasileiros pensam em entronar Lula novamente, é porque, nas últimas duas décadas, não conseguimos, apesar de todos os textos e debates e memes e documentários e cultos e decisões judiciais, criar uma sociedade baseada em valores como a honestidade, a autonomia e o autossacrifício. Paulo Polzonoff para a Gazeta do Povo: 

'Só poderei entender o outro se a mim mesmo entender'(Gustavo Corção) 


No texto que escrevi sobre a preocupação presidencial com o possível avanço de uma onda vermelha sobre o Brasil, convidei os leitores a uma conversa. Quem chegou ao quarto parágrafo leu o convite para puxar uma cadeira e participar do bate-papo, talvez até tomando uma cervejinha gelada. Nem todos, contudo, reagiram bem ao convite. Houve quem entrasse chutando a mesa e as cadeiras cuidadosamente dispostas e esbravejando: “Você está errado! Eu tenho razão!”. 

 

Mas não aprendo. E, se não aprendo, é porque não quero aprender. Sei que há muita gente viciada em estar com a razão, mas não me vejo como traficante de certezas. Pelo contrário, se é para viciar as pessoas em algo, que seja na dúvida. Refletir dá uma barato que nem te conto! 


Por isso, e a despeito de um ou outro malcriado, insisto no convite: chega mais. Puxe uma cadeira. Não, não essa. Essa é muito dura. Ô, Dani, onde é que tá aquela almofada? Não, não a verde; a amarela. O amigo aqui tá precisando. Melhor assim? Maravilha! Não liga, a Catota é desse jeito mesmo. Logo ela se acostuma com você. Ah, já,  o café fica pronto. Vai querer? Daqueles bem fortes. Também tem cerveja na geladeira. Prefere uísque? É pra já! Quantas pedras de gelo? Seja sempre bem-vindo à nossa conversa diária. 


Pesquisas eleitorais 

 

Este texto se baseia nos dados de uma recente pesquisa eleitoral. E, sim, eu sei que as pesquisas eleitorais, não é de hoje, sofrem uma grave crise de credibilidade. Sucessivamente, os números das pesquisas insistem em contrariar a realidade que apreendemos intuitivamente. Acontece comigo também. Olho para os lados e não vejo 45% dos familiares e amigos afirmando que votarão em Lula. Por consequência, dou um passo atrás e digo para mim mesmo que, sei não, algo de estranho está estranho. 

 

“Como assim um candidato ex-presidiário que não pode nem ir no barzinho da esquina bebericar sua cachacinha pode estar 20 pontos percentuais à frente do candidato e atual presidente que ainda atrai razoáveis multidões por onde passa?”, você e eu nos perguntamos. E, para essa e tantas outras perguntas, não tenho uma resposta. A lógica me faz crer que os institutos de pesquisa não teriam interesse em fraudar esse tipo de resultado. Afinal, o bem mais valioso para um instituto de pesquisa é, em teoria, sua credibilidade. Se ninguém acredita nas pesquisas de opinião, para que elas servem? 


Feitas essas ressalvas necessárias (mas sempre insuficientes), o fato é que uma pesquisa recente mostra que Lula teria 45% dos votos dos brasileiros. Numa conta rápida, levando em consideração que o Brasil tem 147 milhões de pessoas aptas a votar, isso equivaleria a 66 milhões de eleitores. Arredondemos para 65, só para o título ficar bonitinho. Este é o número de brasileiros, nossos concidadãos, pessoas com as quais dividimos o escritório, o transporte público e o restaurante, e que, em teoria, a julgar pelos números de uma pesquisa, estariam dispostas a votar num ex-presidente que já passou 580 dias numa prisão de luxo. 


As condenações pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro posteriormente foram malandramente anuladas pelos “guardiões da Constituição”. O que não quer dizer, em hipótese alguma, que Lula tenha sido inocentado. 


Ignorância tão profunda que nos escapa 

 

Dito isso, chegou a hora daquele momento que incomoda tanta gente: o de olhar para dentro. A fim de tentar entender onde foi que erramos, enquanto sociedade, a ponto de termos entre nós 65 milhões de semelhantes que no mínimo cogitam votar em Lula – o que significa devolver o poder a um grupo político caracterizado pela corrupção, autoritarismo e mentira. 

 

O que leva um caminhoneiro, por exemplo, a dizer que prefere a corrupção do PT a um governo “que cobra um preço desses pelo diesel”? O que leva um intelectual todo racional, iluminista e ateuzão a depositar todas as suas esperanças (fé) em Lula? O que leva jornalistas – olá, colegas! – a defenderem um partido que despreza a liberdade de expressão? O que leva um cristão a cogitar votar numa facção que já se mostrou antirreligiosa e que, pior, se baseia numa ideologia que tem como base a força, e não a misericórdia? 

 

De todos os exemplos citados, os únicos que fazem algum sentido são o dos intelectuais e o dos jornalistas – grupos tradicionalmente cooptados pelo espírito coletivista que insiste em nos assombrar, mesmo depois de todas as tragédias totalitárias do século XX. Aliás, faz sentido que todas as pessoas que de alguma forma sucumbiram à tentação da engenharia social (incluindo aí médicos, arquitetos e escritores) vejam até com naturalidade a ideia de votar em Lula. Afinal, eles agem movidos pela ambição de um dia construir uma nova Torre de Babel. 

 

Quanto aos demais exemplos e outros tantos que não me ocorrem, resta a dúvida: agem movidos por ignorância ou por uma má-fé disfarçada de “jeitinho brasileiro”? Ora, quem me lê com as devidas frequência & atenção sabe que prefiro sempre pressupor ignorância a cogitar que alguém aja de forma deliberadamente mal-intencionada. 


É ela, a ignorância, o que leva uma pessoa honesta a não enxergar a relação entre a crise e, por exemplo, o intervencionismo econômico. É a ignorância o que faz certas pessoas darem de ombros para a liberdade, considerando-a um valor menor. É a ignorância, inclusive a ignorância de si mesmo (daí a frase de Gustavo Corção lá no alto), que impede alguns de entenderem que o outro às vezes age movido por sentimentos mesquinhos, como a inveja e a vaidade, mesmo que de sua boca saiam palavras a exaltar “o bem comum”. 


Honestidade, autonomia, autossacrifício 


Se há, portanto, algo de verdadeiro na pesquisa, e se de fato 66 milhões de brasileiros pensam em entronar Lula novamente, é porque, nas últimas duas décadas, não conseguimos, apesar de todos os textos e debates e memes e documentários e cultos e decisões judiciais, criar uma sociedade baseada em valores como a honestidade, a autonomia e o autossacrifício. Pelo contrário, fomentamos essa ignorância que agora nos ameaça com a volta de Lula, exaltando a preguiça sobre a honestidade, a dependência sobre a autonomia e os prazeres sobre o autossacrifício. 


Mas me diga: ainda tá bom esse uísque? Não quer mais gelo, não? Acho que vou cortar um salaminho pra gente. Xi, olha que sujeirada! Limpa logo isso, cara. Se a Dani vir vai ficar furiosa! Ah, meu Deus, aí vem ela. Disfarça, disfarça. Oi, amor, tudo bem? Não, não. Eu tava me levantando agora mesmo pra cortar um salaminho pra gente. A Catota? Não tenho a menor ideia de onde essa gata se enfiou. Mas onde é que estávamos mesmo? Ah, sim. Eu falava dos brasileiros que, de acordo com uma pesquisa aí, cogitam votar em Lula. Em Lula! Não dá mesmo pra acreditar numa coisa dessas. 


Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com