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segunda-feira, 25 de setembro de 2023

'Liderança e o povo', por Valtênio Paes

Publicação compartilhada do site SÓ SERGIPE, de 18 de setembro de 2023 

Liderança e o povo 
Por Valtênio Paes*

Paulo Freire já ensinava que “a educação, qualquer que seja ela, é sempre uma teoria do conhecimento posta em prática”. Esse ensinamento continua atual na família, na escola, nos sindicatos, na política, na igreja. Enfim, nas instituições sociais, a correlação teoria X prática entre líderes e liderados é condição sine qua non para crescimento da boa relação.

O líder sindical apega-se ao discurso dos anos 70-90 do século passado para reclamar que seus sindicalizados não participam, o profissional do magistério afirma que estudantes “não querem nada”, pais reclamam que “não é como antigamente”. Apegam-se literalmente, nestas sentenças monocráticas fundadas na inobservância do contraditório. Não reavaliam táticas, técnicas, mudanças socioeconômicas e tecnológicas. Esquecem que líderes também devem buscar entender os liderados.

Já em 2003 Leonard Boff na sua obra “Ethos Mundial”, publicada pela Sextante, tratava da necessidade “de um consenso mínimo sustentado pela razão cordial”. É dever de líderes das instituições buscarem rotineiramente novos caminhos. Evidente que fundado numa ética balizada pelo coletivo.

Em 2007, James C. Hunter, em sua obra “o Monge e o Executivo”, publicada também pela Sextante, afirmara: “o teste definitivo da liderança é saber se, depois de algum tempo sob o comando do líder, as pessoas saem da experiência, melhores que eram antes”. Se profissionais do magistério, líderes sindicais, políticos e demais profissionais, perceberem que seus liderados em nada evoluíram, é preciso repensar estratégias. Não basta terceirizar a culpa pelo insucesso dos outros na relação líder X liderados. Aliás, conduta muito cômoda porque novos conjunturas e estruturas sociais ensejam pensar e agir conectivamente.

Em recente diálogo com um competente profissional da ciência no ensino, ouvi: “se ele não responder a pergunta pela fórmula que expliquei dou zero na questão”. Replicamos:

– Então se ele chegou à resposta certa por caminhos lógicos diferente do que esperas, o senhor considera a resposta errada? Respondeu que sim.

Ao que parece, este rigor avaliativo enseja a possibilidade de inibir o liderado de produzir o saber por outros cenários. Assim como os gestores eleitos, o representante do judiciário, o líder sindical, profissionais do magistério e tantos outros, são líderes, e como tal, devem refazer suas relações com os respectivos liderados(as) principalmente, neste século XXI, ante constantes mudanças.

Milton Nascimento há décadas, na música “Os bailes da vida”, dissera que “todo artista tem de ir aonde o povo está”. Assim também, a ciência deve estar a serviço do povo, por conseguinte, a escola não deve ficar adstrita aos muros de uma restrita intelectualidade. Afinal o acesso deve ser para todas as pessoas. Monopolizá-lo é exercício de poder antidemocrático.

Neste toar, líderes em instituições, dentre escolas, sindicatos, judiciário, legislativo e executivo, devem cada vez mais, nos seus exercícios, praticar linguagens e condutas acessíveis, portanto, correlacionando teoria e prática. Se assim não procedem, se distanciam cada vez mais dos liderados. Terceirizar a culpa é fuga. As lamentações continuarão, o insucesso também. O líder, como mentor da sabedoria, recebe a imposição de buscar novas alternativas. Ouvir sempre pode ser uma delas, jamais desistir.

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(*) Professor, advogado, especialista em educação, doutor em Ciências Jurídicas, autor de A LDBEN Comentada-Redes Editora, Derecho Educacional en el Mercosur- Editorial Dunken e Diálogos em 1970- J Andrade.

Texto e imagem reproduzidos do site: sosergipe com br

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Enquanto houver... desigualdade social não haverá democracia plena

Publicação compartilhada do site SÓSERGIPE, de 13 de janeiro de 2020

Enquanto houver privilégios, corrupção e desigualdade social não haverá democracia plena

Valtenio Paes de Oliveira*

Na origem das palavras, privilégio vem do latim privilegium.ii. Vantagem atribuída a uma pessoa e/ou grupo de pessoas em detrimento dos demais;). Já corrupção vem do latim corrumpere, “destruir, estragar”, quebrar, arrebentar”. Parecem diferentes, mas têm semelhanças. A prática da primeira tem base legal. A segunda esconde-se na ilegalidade, porém ambas têm sentidos danosos e corroem o aperfeiçoamento da democracia.

Desde Clístenes (Atenas, 565 a.C. – 492 a.C.), político grego considerado um dos pais da democracia, até o século XXI se busca seu aperfeiçoamento. Nos dias atuais esta forma de governo merece coragem radical para sua adequação à contemporaneidade sob pena de sê-la equiparada a qualquer outra forma de governo. Segundo pesquisa publicada pelo Data- Folha de 05/10/2018, “69% dos brasileiros acreditam que a democracia é sempre melhor do que qualquer outra forma de governo, contra 12% que acham que a ditadura é melhor em certas circunstâncias. Para 13%, tanto faz se o governo é uma democracia ou uma ditadura”. Eis um alerta!

Clístenes, o pai de democracia

Os países no século XXI passam por crises em seus modelos tidos como democráticos. O povo cada vez reage se manifestando pela insatisfação com os estilos atuais de gestão tida como democrática. Tal reação popular resulta em retrocessos ou avanços momentâneos. Veja em 2019 a Bolívia, França, EUA, Inglaterra, Argélia, Irã, Hong Kong, Chile, Haiti, Equador, Venezuela, Argélia, Sudão, Hong Kong, Zimbábue, República Tcheca, Porto Rico, Espanha, França, Iraque, Irã, Líbano, África do Sul, Índia com manifestações populares eclodindo nas ruas, assustando  democráticos à moda antiga. O que está acontecendo? Foi de repente? Quais as causas?

Como consequência do uso de privilégios, da prática da corrupção e de modelos econômicos conservadores, a desigualdade social cresce assustadoramente no Brasil e no planeta. Em alguns países como Abdelaziz Bouteflika na Argélia, Omar al-Bashir, no Iraque, Porto Rico e no Líbano renunciaram a planos de se manter no poder.

Importante analisar outro ingrediente, a crescente desigualdade socioeconômica. O número de milionários no mundo quase dobrou de 2010 para 2019″. As desigualdades persistem”, diz o secretário-geral da ONU. A década termina com uma persistência da concentração de riqueza no mundo”. Má gestão levou a maior desigualdade”, diz presidente do Insper”

A população frustrada, face à desigualdade social, corrupção e privilégios aumenta a desconfiança nas ações dos gestores públicos. Governantes surdos diante dos apelos da sociedade não se propõem a uma ressignificação da gestão abolindo privilégios, extirpando a corrupção e reduzindo a desigualdade.

Aventureiros se elegem com sentimento nacionalista-conservador numa época cada vez mais globalizada nas comunicações e na economia. Em outros países como no Chile, o governo submeteu-se à reformulação da própria constituição. O que era um “modelo” para a América Latina ruiu ante a distância entre ricos e miseráveis. Surge o voto de protesto porque os candidatos não aperfeiçoaram ideias democráticas. O velho estilo da democracia ruiu. Para romper com o voto de protesto o candidato precisa propor novos caminhos contra a corrupção, desigualdade social e privilégios. Senão a ira de muitos eleitores será sempre protestar.

Setenta por cento da população mundial vive em países onde a desigualdade social aumenta. Conforme as Nações Unidas “a desigualdade de renda está em alta, já que os 10% mais ricos da população mundial ganham quase 40% da renda total”. Da mesma fonte, 82% de toda a riqueza criada em 2017 foi para a parcela de 1% mais privilegiada. Para o secretário-geral da ONU, Antônio Guterrez, “as desigualdades persistem”.  262 milhões de crianças não vão ainda para a escola e 10 mil pessoas morrem por dia por falta de acesso à saúde. Nos países ricos, 87% da população tem acesso à internet. Mas nos países mais pobres, a taxa é de apenas 19%.

Elite econômica

Conforme   Jamil Chade, colunista do UOL em 31/12/2019 “em 2018, 26 pessoas controlavam o mesmo volume de riqueza que 3,8 bilhões de pessoas que formam a parcela mais pobre do mundo. Metade da população mundial vive com menos de US$ 5,5 ao dia. Até a elite econômica mundial em Davos passou a admitir nesta década que a desigualdade é uma ameaça. Desde 2017 colocara a desigualdade como os maiores riscos para a economia global e alertava que tal concentração levaria à vitória de Donald Trump e a votação do Brexit”. No Brasil temos muitos seguidores. Na Europa, “somente Bélgica, Noruega, Polônia e Suécia conseguiram reduzir a desigualdade”.

A fronteira entre a miséria e luxo é tênue como condomínio particular no Lago Michelle e da favela de Masiphumelele, na Cidade do Cabo (África do Sul) Favela do Jardim Colombo, no bairro do Morumbi, em São Paulo. Em Sergipe tem 42,8% da população em situação de pobreza segundo a Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No Brasil, a proporção de pessoas pobres era de 25,7% da população em 2016 e subiu para 26,5%, em 2017, acentuando-se em 2019. Relatório da Desigualdade Global, da Escola de Economia de Paris afirma que a concentração de renda no Brasil é ainda maior: o 1% mais rico se apropria de 28,3% dos rendimentos brutos totais. Somos o país democrático mais desigual do mundo. É muita miséria para poucos ricos. Urge sensibilidade moral e social dos governantes.

A maioria dos milionários e bilionários não pensa nem age para combater a desigualdade e possivelmente arma guerras para forçar nova correlação de forças enquanto o povo “inocente” esperneia na miséria. O planeta é o maior condomínio que começa ficar pequeno para seus condôminos. Se não houver compartilhamento as ilhas luxo serão cada vez pressionadas.

 Alguns com cargos de 10,20, 30, 40 mil reais mensais e ainda tem o privilégio de carro, motorista, assessor, diárias, auxílio moradia, etc. pagos dos impostos arrancados do povão que vai ao trabalho numa “lata de sardinha” chamada de ônibus recebendo apenas mil reais por mês. É assim nas estatais, no legislativo, executivo e judiciário. Para existir nos dias atuais democracia plena é necessário transparência, fim dos privilégios e rigor imediato na derrota constante da corrupção. Improvável que a população aceite gestor ganhando “oficialmente” milhares de reais por mês. A ira que durava anos para ensejar uma revolta se potencializa hoje em poucos dias. Entre 2013 e 2020 os exemplos confirmam.

Turbilhão de mudanças

O recado da população está acontecendo no Brasil desde 2013. A democracia precisa ser ressignificada. O planeta vive turbilhões de mudanças. A prática da democracia precisa avançar no aperfeiçoamento de seus ideais. Reduzir a desigualdade, abolir privilégios e combater a corrupção com participação direta da comunidade é um bom caminho antes que seja tarde. Antigas fórmulas, antigos discursos, contradições argumentativas, não sobreviverão ante a velocidade da informação e o aumento da miséria.

A história serve de exemplo para se construir o presente. O presente está urgentemente instantâneo. Gestão séria, transparente, compartilhada e sem privilégios das autoridades no exercício da função pública são necessidades históricas para sobrevivência da democracia contemporânea.

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(*) Valtênio Paes de Oliveira é professor, advogado, especialista em educação, doutor em Ciências Jurídicas, autor de A LDBEN Comentada -Redes Editora, Derecho Educacional en el Mercosur- Editorial Dunken e Diálogos em 1970- J Andrade.

Texto e imagem reproduzidos do site: sosergipe com br

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Deus, pátria e família: do integralismo a Bolsonaro

Legenda da foto: Bolsonaro e Plínio Salgado, chefe dos "galinhas verdes" - (Créditos das fotos: Fabio Rodrigues-Pozzebom/EBC e Wikipedia; Fotomontagem: Rose Garcia)

Artigo compartilhado do site SÓ SERGIPE, de 5 de dezembro de 2022 

Deus, pátria e família: do integralismo a Bolsonaro
Por Valtênio Paes (*)

Na primeira metade do século XX, após a Primeira Guerra Mundial,  surgiram várias ditaduras no planeta. Hitler com o Nazismo na Alemanha (1933-1945), Mussolini com o Fascismo na Itália (1922- 1943), Stalin (1922-1953). Cada um com seu slogan. Tempos depois, Peron na Argentina, Vargas no Brasil com viés social, além do Paraguai, Uruguai etc.  Influenciado pelo fascismo, surgiu no Brasil (1932- 1938) um grupo político denominado integralismo liderado por Plínio Salgado seguido por Gustavo Barroso e Miguel Reale.

Giuseppe Mazzini, um dos líderes da unificação italiana (1848-1871), defendia ideias que foram aprimoradas por Mussolini no século XX. Versão brasileira do fascismo italiano, a ação integralista pregava que toda ação política deveria ser vinculada à fé católica como religião oficial, unidade nacional, corporativismo, combater ao liberalismo e ao socialismo.  Deus, pátria e família era seu lema. Conhecidos como “camisas verdes” e pelos detratores “galinhas verdes” por usarem fardas, os simpatizantes deste movimento político foram desarticulados com criação do Estado Novo liderado por Getúlio Vargas.

A campanha de Bolsonaro retoma lema idêntico agregando ao conservadorismo, preconceito, rejeição da diversidade cultural na sociedade e atacando negros, mulheres, pobres e LGBTQI+. Ataques às instituições, à imprensa livre, defender fechamento do STF foram artifícios ditatoriais presentes em todo ano eleitoral de 2022. Um mês após a derrota nas eleições, seguidores alimentam a tomada do poder contrariando o Estado Democrático do Direito.

Ao reutilizar o lema ‘Deus, pátria e família” tenta unir o religioso, o civismo e conservadorismo familiar para se manter no poder após derrota nas urnas. O presidente procurou adaptar o religioso usando evangélicos em substituição aos católicos preferidos por Plinio Salgado no integralismo.

Desestruturado, derrotado pela democracia eletiva e sob pressão internacional diplomática e militar, passou quase um mês sem ir ao principal local de trabalho. Silenciosamente assiste a grupos de simpatizantes fechando estradas, invadindo locais públicos com armas e tiros. Não percebe que a legitimidade das eleições e a resistência das instituições nacionais e internacionais impedem qualquer tentativa de ditadura neofascista.

No século XXI no mundo ocidental, pessoas buscarem a ilegalidade da força na vã tentativa de golpe político é ferir a democracia como pilar da legitimidade de poder. A evolução é a maior lei existencial da humanidade. Negá-la, impondo o conservadorismo extremado é condenar a população ao atraso medievalista com base em egos inconsequentes.

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(*) Articulista Valtênio Paes de Oliveira é professor, advogado, especialista em educação, doutor em Ciências Jurídicas, autor de A LDBEN Comentada-Redes Editora, Derecho Educacional en el Mercosur- Editorial Dunken e Diálogos em 1970- J Andrade.

Texto e imagens reproduzidos do site: sosergipe.com.br

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

'Mentira, família, escola, sociedade e explosão do ódio', por Valtênio Paes

Legenda da foto: Pinóquio, personagem criado por Carlo Collodi - (Crédito da foto: Pixabay)

SÓ SERGIPE, de 31 de outubro de 2022 

Mentira, família, escola, sociedade e explosão do ódio   
Por Valtênio Paes de Oliveira

Até duas décadas mentir atentava contra a honra e dignidade na vivência humana. Chamar alguém de mentiroso era ofensivo. Mentiroso não tinha crédito na população. Assim se dizia “o que ele fala não se escreve”. Sinceridade era virtude exemplar, lealdade, franqueza, era critério de qualidade pessoal. Muitos ainda assim consideram.

Hoje, com o advento de ferramentas nas redes sociais, mentira passou ser rotina de esconderijo entre pessoas e instituições sociais.

Pessoas de má fé aproveitam-se da mentira para iludirem e manipularem as outras levando vantagens materiais. Falseiam a realidade, deformam a verdade e rotineiramente praticam estelionato argumentativo na política, religião e na família.

Vivemos anos em que se deturpa tudo em proveito próprio ou alheio. O mitomaníaco está na berlinda. Quem assim procede impõe seu ego e nega o sentimento de humanidade.

Nestas eleições até 15.10.22 ocorrera aumento de mais 1.600 % em denúncias de candidatos contra notícias falsas. Verdades que desqualificam são redirecionadas à outra parte que fica com o ônus dos fatos. “Torne a mentira grande, simplifique-a, continue afirmando-a, e eventualmente todos acreditarão nela”, disse Adolf Hitler.

Tal receita está posta no exercício do cotidiano político brasileiro.  Usar a mentira para conseguir vantagem é prática criminosa porque adultera a verdade.  O tamanho da irresponsabilidade do mitômano (mentiroso compulsivo) é delimitado pelos efeitos malignos do seu ato.

Quem propaga, incorre também na irresponsabilidade. Fazer “cara feia” para o remédio energiza a rejeição da própria cura. É isto que queremos para nossa família, nossa escola, nossa política e nossa população?

A maldade da prática da mentira enseja controvérsias, confrontos, ódio e violência.

Vídeos e mensagens com mentiras explodem instantânea e exponencialmente. Conflitos imprevisíveis acontecem: casais se agridem, filhos e pais se separam, assassinato até em festa de aniversário e polícia é recebida com fuzil e granada. A convivência harmônica está desestabilizada. Cada pessoa cria sua própria verdade ilimitada. Prejudica quem acessa e ainda usa a outra pessoa como instrumento de disseminação.

Julián Fuks colunista do UOL publicou em 22.10.22 exemplo a ser seguido:

“…defesa da união contra a mentira: não podemos tolerar a escandalosa manipulação, não podemos aceitar que a mentira se faça instrumento de um programa retrógrado, intolerante, violento, em tudo contrário à sensibilidade e à sensatez. A mentira é inimiga da literatura, é inimiga da cultura e do pensamento. Vai corroendo toda percepção legítima e todo discernimento, vai abatendo a razão até que só restem ideias confusas e equivocadas. Cabe à literatura, nesses momentos, contrariar seu gosto pela fantasia e se aferrar a uma noção mais imediata da verdade, marcando posição contra a falácia, o engodo, as falsidades míticas …”

A sociedade precisa de valores constantes para que possa evoluir com estabilidade. Institucionalizar a mentira desagrega as relações sociais pela inexistência de confiança mútua. A sinceridade, o correto, o certo, devem permanecer inalterados em qualquer situação. O exercício diário da prudência, do equilíbrio, do diálogo é uma boa receita para defenestrar o caos da mentira e fortalecer a prevalência da verdade real.

Será que basta apenas a justificativa de que hoje os tempos são diferentes? Será que não é possível fazermos limites entre verdade e mentira? Por que nos omitimos?  O basta é necessário para extirpar esta encruzilhada? Qual é nosso papel na sociedade? O que deveremos legar para futuras gerações? Verdades ou mentiras?

Escolas, família e instituições precisam traçar estratégias rigorosas para que a prevalência da verdade continue sendo um valor moral priorizado na humanidade como sempre fora ao longo dos milênios. Urgem ações concatenadas da sociedade para que a submissão da mentira seja efetivada.

Família, escolas e instituições têm muito para contribuírem. Thiago de Melo nos ensina: “o silêncio é campo plantado de verdade que aos poucos se fazem palavras”; já Voltaire afirmara: “as verdades são frutos que apenas devem ser colhidos quando maduros” mesmo porque como nos ensina Gandhi: “as verdades diferentes na aparência são como inúmeras folhas que parecem diferentes e estão na mesma árvore”, a árvore da boa convivência. 

Enfrentar nas instituições, o debate sobre mentira e verdade é maturidade. Por mais difícil que seja, esperançar é preciso sob pena da perda da razão existencial.

Texto e imagem reproduzidos do site: sosergipe.com.br

domingo, 9 de janeiro de 2022

Confronto político de fanáticos religiosos contraria a espiritualidade

Legenda da Imagem: Estamos vivenciando abusos de alguns evangélicos e católicos que não praticam espiritualidade (Crédito da Imagem: berearepreciso.blogspot.com)

 

Publicado originalmente no site SÓ SERGIPE, em 29 de novembro de 2021    


Confronto político de fanáticos religiosos contraria a espiritualidade 


Por Valtênio Paes (*) 


A partidarização de religiosos nas eleições brasileiras vem acirrando a relação entre alguns católicos e protestantes; e mais, especificamente, entre católicos e evangélicos. Como queiram. O presidente da república diz que indicará para o Supremo Tribunal Federal (STF) um ministro “terrivelmente evangélico”. Atente-se que o advérbio provém da palavra terrível, que tem como sinônimos:  pavoroso, medonho, horrendo. O pastor Sérgio Von Helder, da Universal do Reino de Deus, chutara imagem católica em 12 de outubro de 1995. O parlamentar Frederico D’Ávila,  do PSL-SP, chama o papa e bispos de pedófilos em 14 de outubro de 2021,  porque o bispo defendera que “pátria amada não é pátria armada”, e completara, “seja uma pátria sem ódio, uma república sem mentira e fake news. Católicos retrucam, e a judicialização se estabelece. 


Restauracionismo, Anabaptistas, Protestantismo, Anglicanismo, Católicas Romana e Ortodoxa, Nestorianismo, todas são cristãs. Por que o confronto? Com certeza não é a verdadeira religião, mas o interesse para acessar o poder político que está prevalecendo nestes fatos. Josias de Souza em sua coluna do UOL, de 24 de novembro, fala da “fachada religiosa” da ex-deputada Flordelis e desperta o eleitor para não ser enganado por pessoas que “misturam temas caros, como religião e família, com política.” Emissoras de rádio e TV, às vezes, servem de base para tais ações. 


Estamos vivenciando abusos de alguns evangélicos e católicos. Não praticam espiritualidade. Na verdade, usam instituições religiosas para promoção política pessoal. Invocam Deus para assumir cargos públicos. Acham pouco e estimulam o confronto de inocentes fiéis. Não podemos retornar ao período medieval ou à perseguição religiosa de séculos passados. 


Na Idade Média, as Cruzadas e guerras religiosas, dentre tantas, mataram milhares de pessoas usando o discurso religioso para controlar o poder. Hoje não cabe mais tanto retrocesso apesar de setores do mundo árabe e o Taleban medievalizarem costumes em pleno século XXI. Tais fatos ensejam conflitos e confrontos que contradizem a essência de princípios religiosos. 


Por que interesseiros sem embasamento filosófico ou teológico se arvoram em iludir fiéis e se apoderaram de cada voto para chegarem ao poder político, tentando dividir o país? Se Deus é um Só para todos, qual a razão de buscar o privilégio? Usar a religião para empoderar-se na política partidária é manipular a boa-fé de fiéis inocentes. 


Se Jesus, Buda, Confúcio, Moises, se encontrassem num mesmo momento histórico, com certeza, não discutiriam quem estaria certo, mas respeitariam os ensinamentos de cada um. De igual modo, do encontro de Maomé, Lutero, Gandhi, Alan Kardec a Dalai Lama não seria diferente por suas respectivas sabedorias e lideranças. Para quem pratica a verdadeira religiosidade, estudar o evangelismo reduz o ódio competitivo para crescer na espiritualidade. 


“O propósito da religião é controlar a si, não criticar os outros. O que estou fazendo em relação à minha raiva, ao meu apego, meu ódio, meu orgulho e à minha inveja? Isso é que precisamos nos perguntar no dia a dia,” disse o Dalai Lama. Religiosos que partidarizam a fé precisam optar entre as duas profissões. 

  

(*) Valtênio Paes de Oliveira é professor, advogado, especialista em educação, doutor em Ciências Jurídicas, autor de A LDBEN Comentada -Redes Editora, Derecho Educacional en el Mercosur- Editorial Dunken e Diálogos em 1970- J Andrade. 


Texto e imagem reproduzidos do site: sosergipe.com.br