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quinta-feira, 11 de agosto de 2022

'Saindo de mansinho', por Diogo Mainardi


Artigo publicado originalmente no site O ANTAGONISTA, em 10 de agosto de 2022

Saindo de mansinho
Por Diogo Mainardi

De tempos em tempos, desisto do Brasil. Estou desistindo novamente agora. Além de renunciar às urnas, resolvi renunciar também ao nosso site. A partir de hoje, vou parar de escrever para a imprensa. No caso, O Antagonista e a Crusoé.

O plano é me dedicar a atividades mais gratificantes do ponto de vista intelectual e espiritual. De fato, pretendo passar meus dias deitado no sofá, tirando meleca do nariz. Quanto tempo isso vai durar? O trato é permanecer um ano de folga. Pode ser mais, pode ser menos. A única certeza é que vou me abster de comentar a campanha eleitoral, os debates na TV, o resultado do primeiro turno, a festa do vencedor, os nomes dos ministros, as tentativas de golpe, a compra dos parlamentares. Sinto-me revigorado só de ver essa lista.

É claro que há reciprocidade nisso. Eu desisti do Brasil, o Brasil desistiu de mim. Ninguém está disposto a ler pela trigésima-oitava vez os mesmos comentários sobre os mesmos assuntos. Eu já disse o que tinha a dizer. O afastamento, portanto, é consensual. O Brasil e eu enjoamos um do outro. Vou sair de mansinho e o leitor nem vai notar.

Estupidamente, eu havia prometido me atirar do campanário de São Marcos em caso de segundo turno entre Lula e Jair Bolsonaro. A aposentadoria precoce foi o jeitinho acovardado que arrumei para descumprir a promessa. É uma espécie de terceira via particular. Minha vida vai virar uma Simone Tebet: estreita, tediosa, supérflua e sem brilho, mas longe daquela gentalha fedorenta que há vinte anos embosteia meu dia a dia.

A última vez que desisti do jornalismo – e do Brasil – foi em meados de 2010, antes do estelionato eleitoral de Dilma Rousseff. Fiz as malas, voltei para Veneza, escrevi um livro. Foi a melhor fase da minha vida. Vou tentar replicá-la agora. Sim, tem tudo para dar errado, mas estou pronto para o fracasso: sou Simone Tebet.

Quatro anos depois de desistir do jornalismo – e do Brasil -, desisti de desistir e, juntamente com Mario Sabino, meu amigo fraterno, lancei O Antagonista e a Crusoé. Foi uma aventura e tanto. Fizemos o impeachment e trancamos Lula na cadeia. Denunciamos o bunker de Michel Temer e a sociopatia assassina de Jair Bolsonaro. Chega. É preciso renovar o site. Sem mim. Estou gagá. Já fiz o que podia. Ou mais do que podia.

Quanto ao meu futuro, ele é inexistente: só tenho um presente, cada vez mais curto. Vou cuidar do meu jardim. E da minha sepultura. O epitáfio, esculpido no granito, é dedicado aos leitores que me aturaram até aqui.

Texto reproduzido do site: oantagonista.uol.com.br

sábado, 8 de janeiro de 2022

Acordem, o candidato é Moro.

Publicado originalmente no BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 7 de janeiro de 2022 


Acordem, o candidato é Moro. 


Que me recorde, nunca publiquei texto do Diogo Mainardi aqui, mas estou com ele nesta nota publicada pela Crusoé: 

 

A primeira pergunta a ser respondida sobre 2022 é a seguinte: Jair Bolsonaro vai levar sua candidatura até o fim? Meu palpite é que ele vai pular fora da disputa presidencial. Dou até uma data: junho ou julho. Se o sociopata tiver a certeza de que vai ser derrotado por Lula no segundo turno ou, de maneira ainda mais humilhante, no primeiro, ele desiste. O outro fator que pode persuadi-lo a fugir das urnas é Sergio Moro. Se meu candidato subir uns seis ou sete pontinhos nas pesquisas, o futuro presidiário vai buscar um caminho mais seguro para tentar evitar a cadeia. 

 

William Waack disse na quinta-feira que o pesadelo encarnado por Jair Bolsonaro e Lula só poderá ser derrotado se o candidato da Terceira Via souber oferecer um sonho para o eleitorado. Ele está certo. Antes disso, porém, é preciso escolher um candidato. Sendo ainda mais claro: é preciso acordar para o fato de que só surgiu um nome capaz de enfrentar o duplo pesadelo — o de Sergio Moro. Ele talvez não seja o candidato dos sonhos para uma parte da Terceira Via, mas é o único. Essa é a realidade. 

 

Assim que Moro for escolhido como candidato único da Terceira Via, a campanha vai mudar. A lógica de uma disputa polarizada só funciona quando há equilíbrio entre os dois polos. Esse equilíbrio, que já é praticamente inexistente, considerando a vantagem insuperável de Lula sobre Bolsonaro, deve desaparecer de uma vez por todas, porque uma candidatura mais competitiva de Moro vai acabar atraindo uma fatia do eleitorado bolsonarista. E, sem o pesadelo bolsonarista, o pesadelo lulista também se distancia. 

 

Não sei se alguém já teve essa conversa com Bolsonaro. Suponho que não. Mas o abandono de sua candidatura tem tudo para representar o fato “imponderável” citado por William Waack — uma “mãozinha” do destino, como ele disse. 

 

Isso só vai se realizar, porém, se houver um trabalho conjunto para empurrar a candidatura de Moro, cuja campanha, até agora, foi uma porcaria. Ele precisa de gente. É o que se espera daquela turma que passou o último ano defendendo a Terceira Via. União Brasil, Novo, Cidadania, PSDB e MDB devem se reunir com movimentos sociais, empresários e banqueiros para oferecer uma saída ao país, que já tem um rosto e um nome. Sim, é Sergio Moro. 


Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com 

sexta-feira, 28 de maio de 2021

'Voto em Moro', por Diogo Mainardi

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, 28 de maio de 2021         

Voto em Moro

O único fato incontestável desta coluna é que acordei com uma baita vontade de votar em Sergio Moro. Diogo Mainardi para a revista Crusoé:

Acordei com uma baita vontade de votar em Sergio Moro. Neste momento, ele nem pensa em se candidatar a presidente da República. Está no ostracismo, em Washington, empenhado unicamente em fazer direito o trabalho na empresa que o contratou. Como ele nunca roubou, tem de ralar para se sustentar. Só aparece aqui de duas em duas semanas, com suas colunas na Crusoé.

Eu já disse alguns meses atrás: sou o porta-bandeira do terceiro bloco. Voto em qualquer um dessa turma. Mas ninguém encarna melhor o terceiro bloco do que Sergio Moro. Ele é o que há de mais distante de Lula e de Jair Bolsonaro. É visto como antagonista de ambos — e é temido por ambos. Até o ano passado, ele era a pessoa mais popular do país. Agora mudou: uma imensa fatia do eleitorado, composta por lulistas e bolsonaristas, passou a rejeitá-lo raivosamente. Trata-se de mais um trunfo do qual ele pode dispor: a hostilidade pornográfica de uma gentalha que representa o que temos de pior.

A Lava Jato foi carbonizada por Gilmar Mendes e seus parceiros. Depois da passagem dos incendiários, só restaram cinzas. Uma candidatura de Sergio Moro teria de ser erguida, portanto, com outros pressupostos. Quais? Aqueles de uma sociedade menos bananeira, menos selvagem, menos pervertida, menos corrupta. Duvido que isso possa engajar a maioria do eleitorado, mas o Brasil virou uma disputa entre minorias — e a minoria do bem tem alguma chance, ainda que remota, de derrotar as minorias criminosas que pretendem humilhá-la.

É duro imaginar Sergio Moro num palanque, discursando para seus apoiadores com aquela voz desafinada. Esse é outro ponto que me faz querer votar nele. Ele não tem o menor pendor caudilhesco. Jair Bolsonaro demitiu-o porque ele se recusou a aparelhar a PF. Mas não foi só isso. Sua demissão ocorreu também porque ele contrariou o sociopata durante a epidemia, apoiando ostensivamente as medidas de isolamento social, em parceria com Luiz Henrique Mandetta, que agora pode refazer a dobradinha com ele, na chapa presidencial.

Estou só especulando em voz alta. O único fato incontestável desta coluna é que acordei com uma baita vontade de votar em Sergio Moro.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com