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sábado, 11 de janeiro de 2025

Mujica está morrendo: deixa algumas lições que todos deveriam ouvir.

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10 de janeiro de 2025

Mujica está morrendo: deixa algumas lições que todos deveriam ouvir.

Um raro caso de líder político que quis manter até o fim uma vida simples, quase monástica, e defendeu como poucos a diversidade de opinião. Vilma Gryzinski:

Ele não foi nenhum santo. Mas que vida teve Pepe Mujica, cujo fim está chegando, segundo ele mesmo disse ao dar a última entrevista – tendo pedido que não o procurem mais para falar. Aos 89 anos, com metástase generalizada de um câncer de esôfago, ele não tem mais tratamentos possíveis.

Não está exatamente em paz, mas se conformou. “Quando chegar minha hora de morrer, vou morrer. Simples assim. Até aqui, cheguei”, disse, entre lágrimas, a Pedro Tristant, do site Infobae.

Quando o inevitável acontecer, sua vida extraordinária será exaltada, principalmente pela simplicidade que escolheu durante e depois que foi presidente, uma figura folclórica que chamou atenção até entre quem mal conseguia localizar o Uruguai no mapa. Excêntrico e até com tendência ser o clássico eremita resmungão, ele voltou a morar em seu sítio, com a mulher, um cachorro de três patas e um Fusca.

Tendo sido não só de esquerda, como militante armado dos Tupamaros na época das ditaduras do Cone Sul, ele assaltou bancos e passou treze anos preso, inclusive dentro de um buraco no chão. Fez amizade com uma rã para sobreviver. A mulher, Lucia Topolansky, protagonizou uma fuga espetacular, envolvendo 37 presas.

Dificilmente haveria pessoas com mais razões para alimentar ressentimentos, mas os vícios de esquerda foram absorvidos por Mujica, sem renunciar a suas ideias e também sem se tornar obcecado. Ao contrário, na entrevista de despedida, repetiu um princípio fundamental: “É fácil ter respeito por quem pensa parecido conosco, mas é preciso aprender que o fundamento da democracia é o respeito aos que pensam diferente””.

A VELHA E O VESGO

Tantos dizem isso da boca para fora e passam a vida obcecados com os adversários. Mujica o disse de verdade. Sua tendência a falar exatamente o que pensava criou situações engraçadas, quando comentou a respeito do casal Kirchner, Néstor e Cristina, os vizinhos argentinos, companheiros de esquerdismo: “Esta velha é pior do que o vesgo”.

Nestor Kirchner tinha, realmente, um olhar enviesado. E dá para imaginar a reação da vaidosa Cristina.

Deu a maior confusão. Mujica depois desconversou, disse que não estava falando sobre a Argentina, mas sobre o Brasil – os dois vizinhos enormes entre os quais o Uruguai tem que sobreviver e manter, além de sua identidade, seus interesses. Mas reiterou: “Não vou esclarecer nada”.

O estilo extremamente modesto que Mujica manteve durante e depois da presidência reflete uma filosofia de vida da velha esquerda, sobre os males do consumismo. Em entrevista ao New York Times, parte de sua longa cerimônia de adeus, ele a resumiu: “O Uruguai tem 3,5 milhões de habitantes. Importa 27 milhões de pares de sapato. Para quê?”.

“Você é livre quando escapa à lei da necessidade. Se as necessidades vão se multiplicando, gasta a vida inteira para atendê-las. Nós, humanos, podemos criar necessidades infinitas. O resultado é que o mercado nos domina e fica com todo o tempo de nossa vida”.

“A humanidade precisa trabalhar menos e ter mais tempo livre. Para que tanto lixo? Para que mudar de carro? Mudar de geladeira”.

TAPETE VERMELHO

Parece ingênuo, mas como Pepe Mujica está vivendo até seus últimos dias fiel a essa filosofia, ganha mais respeito do que quem condena ter duas televisões e se regozija nas mordomias do poder.

Quando foi presidente, Mujica continuou morando na própria casa. Não queria ceder aos “resquícios do feudalismo”.

“O tapete vermelho. Os que tocam corneta. E o presidente gosta dos que o adulam”.

“Como gostaria de ser lembrando?”, perguntou o entrevistador.

“Ah, como o que sou, um velho louco”.

O mundo precisa de velhos loucos, figuras raras que aparecem para nos lembrar do que não conseguirmos fazer. Jimmy Carter, cuja cerimônia fúnebre cheia de presidentes se encerrou ontem, foi um raro caso comparável ao de Mujica: voltou a morar na mesma casa simples, na Geórgia, depois de deixar a Casa Branca, e seguiu uma vida frugal.

É possível discordar e até detestar as ideias de Carter ou Mujica, mas não deixar de admirá-los por ter resistido às tentações do poder, do “mercado” ou seja como quiserem chamar. Coisa de velhos loucos.

Teexto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

"Sou um velho que está lutando contra a morte..." (Mujica)

Legenda da foto: Neste sábado (19 de outubro de 2024), em discurso no comício da Frente Ampla na Praça 1º de Maio, em Montevidéu, Mujica fez o público chorar - (Crédito da foto: Divulgação)

REGISTRO DE NOTÍCIA publicada em 20/10/2024

Compartilhada do site: Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) | 20 de outubro de 2024 

DESPEDIDA DE MUJICA

‘Sou um velho que está lutando contra a morte, absolutamente convencido e consciente’

Ex-presidente disse que confia os destinos do país nas mãos do candidato da Frente Ampla, Yamandú Orsi

Eugênio Bortolon

A democracia, o mundo sem ódio e a honestidade política devem muito ao ex-presidente uruguaio, José Pepe Mujica, 89 anos. Em cada manifestação, palavras emocionantes e clamor por um mundo melhor. Neste sábado (19), em discurso no comício da Frente Ampla na Praça 1º de Maio, em Montevidéu, ele fez o público chorar. Crianças, jovens, casais, idosos não suportaram a dor quando ele afirmou que está “lutando contra a morte” e fazer um gesto de despedida aos apoiadores, militantes e eleitores. Mujica enfrenta um câncer no esôfago, que o tem levado seguidamente ao hospital para tratamento.

“É a primeira vez nos últimos 40 anos que não participo de uma campanha eleitoral. E eu faço isso porque estou lutando contra a morte. Porque estou no final da partida, absolutamente convencido e consciente”, disse. Líder histórico do Movimento de Participação Popular (MPP), partido que compõe a Frente Ampla que disputará a presidência do Uruguai no dia 27 de outubro, Mujica saudou o candidato Yamandú Orsi e afirmou que ele é a esperança para “os novos tempos”.

 Apesar da sua condição de saúde, afirmou que não poderia ficar de fora do evento e apontou o futuro com novas lideranças. “Sou um velho, sou um velho que está muito, muito perto de onde não se volta. Mas eu sou feliz porque vocês estão aqui, porque quando meus braços se forem, haverá milhares de braços substituindo-os na luta, e toda a minha vida eu disse que os melhores líderes são aqueles que saem de uma equipe que os supera com vantagem”, garantiu. “E hoje estão vocês, está Yamandú, está Pacha (candidata a vice). Há milhares e outros que esperam e outros braços jovens, porque a luta continua por um mundo melhor”, complementou.

 Mujica afirmou que só segue vivo graças aos cuidados de sua esposa, Lucía Topolansky, da sua médica e de seus companheiros de partido. Ele, que presidiu o Uruguai de 2010 a 2015, defendeu a necessidade de um governo que "abra o coração e a cabeça com todos do país".

“Até sempre! Dou meu coração a vocês. Muito obrigado. Tenho que agradecer à vida, porque quando esses braços se forem, haverá milhões de braços. Obrigado por existirem. Até sempre”, declarou.

Texto e imagem reproduzidos do site: www brasildefators com br

Ideias de José Pepe Mujica


quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Ex-presidente uruguaio José ‘Pepe’ Mujica formaliza renúncia ao Senado...


Publicado originalmente no site do jornal EL PAÍS BRASIL, em 20 de outubro de 2020

Ex-presidente uruguaio José ‘Pepe’ Mujica formaliza renúncia ao Senado e se retira da política

Pandemia precipitou decisão do ex-líder, de 85 anos, que sofre de doença autoimune

Por Federico Rivas Molina

O ex-presidente uruguaio (2010-2015) José Pepe Mujica formalizou nesta terça-feira a renúncia à sua cadeira no Senado e, com isso, retirou-se definitivamente da política ativa. A renúncia de um dos líderes mais importantes da esquerda latino-americana foi precipitada pela pandemia de covid-19, porque o ex-presidente, de 85 anos, sofre de uma doença autoimune. “Esta situação me obriga, com grande pesar por minha profunda vocação política, a solicitar que se tramite minha renúncia à cadeira que os cidadãos me concederam”, escreveu Mujica em uma carta lida nesta terça-feira em sessão extraordinária do Senado. “A pandemia me expulsou”, acrescentou. “Na vida, há uma hora para chegar e uma hora para partir”, assinalou o ex-presidente sobre sua renúncia ao Senado, algo que já havia antecipado meses atrás e reiterado no dia das eleições municipais realizadas em 27 de setembro.

“O ódio é fogo como o amor, mas o amor cria e o ódio nos destrói”, disse Mujica em seu breve discurso durante uma sessão extraordinária da Câmara Alta, na qual também renunciou o ex-presidente (1985-1990 e 1995-2000) Julio María Sanguinetti. “Eu tenho minha boa quantidade de defeitos, sou passional, mas no meu jardim faz décadas que não cultivo o ódio, porque aprendi uma dura lição que a vida me impôs, que o ódio acaba idiotizando, ele nos faz perder objetividade”, acrescentou.

Depois dos discursos de despedida dos senadores de esquerda e de direita, Mujica pediu a palavra para agradecer o quanto haviam sido “elogiosos” em relação a ele. “Vencer na vida não é ganhar, é levantar e recomeçar toda vez que caímos”, disse.

O agora ex-senador, cuja cadeira na Câmara Alta será ocupada por Alejandro Sánchez, também da Frente Ampla, referiu-se à nova era que lhe coube viver, dominada pela tecnologia, e negou que pense em algum sucessor ― já que muitos apontam Sánchez e Yamandú Orsi, governador de Canelones, como seus ‘filhos políticos’. “Em política não há sucessão, há causas. Todos passamos, algumas causas sobrevivem e têm de ser transformadas, e a única coisa permanente é a mudança. A biologia impõe mudanças, mas também precisa existir a atitude de dar oportunidade às novas gerações”, assinalou.

Em uma entrevista prévia à imprensa uruguaia, esclareceu que sua saída foi provocada pela pandemia. “Eu nem planejava ir [ao Senado], ia enviar um papelzinho, mas a vice-presidenta me ligou e... não sei, ela queria que houvesse um pouco de glamour. E eu lhe disse: ‘Está bem, vou’ ― terei de dizer alguma coisa. Mas estou saindo do Senado porque esse coronavírus me botou para fora. Porque tenho 85 anos, quase 86, tenho uma doença imunológica, uma doença bem estranha, que não é qualquer doença, é dessas que os médicos ficam analisando e você percebe que não sabem porcaria nenhuma. E não posso nem me vacinar. Adoro a política, mas adoro mais esticar a vida o quanto puder”, disse, com o mate na mão e o estilo descontraído que o caracterizam.

José Mujica nasceu em Montevidéu em 1935 e entrou em 1964 no grupo guerrilheiro Movimento de Libertação Nacional―Tupamaros. A ditadura militar o manteve preso por um total de 15 anos, incluindo um período de 12 anos seguidos que terminou em 1985. Foi um dos chamados “reféns” do regime militar, presos políticos que seriam executados caso seu grupo retomasse a luta armada. Seus anos de isolamento na prisão foram retratados em 2018 no filme Uma Noite de 12 Anos.

Em 1985, com o retorno à democracia, Mujica foi beneficiado por uma anistia geral decretada para pacificar ao país. Voltou então à política ativa. Passou pelo Senado, foi ministro da Agricultura e, finalmente, presidente do Uruguai de 2010 a 2015. Nunca deixou de viver em sua casa de campo nem perdeu seu estilo cordial, seu jeito claro e direto de falar e seus costumes humildes. Hoje, Pepe Mujica é a voz mais respeitada da esquerda latino-americana.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

terça-feira, 31 de julho de 2018

José Alberto “Pepe” Mujica, ex-presidente do Uruguai

José Mujica (Foto: Divulgação)

Publicado originalmente no site da revista Planeta, em 28/06/2018

Líder austero

“Se você não tem muitos bens, não precisa trabalhar toda a vida como um escravo para sustentá-los e, portanto, tem mais tempo para si mesmo”

Num mundo em que os mandatários dos países, mesmo depois de deixarem o poder, mantêm um estilo de vida luxuoso, vale a pena prestar atenção em José Alberto “Pepe” Mujica, ex-presidente do Uruguai. Esse ex-tupamaro de quase 83 anos, que comandou seu país entre 2010 e 2015, sempre se pautou por um padrão modesto de existência. Mesmo durante o mandato, ele continuou a morar com a mulher – a atual vice-presidente do Uruguai, Lucía Topolansky – em sua chácara na zona rural de Montevidéu, onde se fixaram há décadas e cultivam flores.

Quando presidente, ele doava quase 90% do salário ao seu partido e a um fundo de construção de moradias. O que sobrava, pouco menos de R$ 3.000,00, bastava para ele se manter, já que, como disse certa vez, “por sorte, por enquanto tenho minha esposa, que banca as despesas”. O patrimônio do casal, nos tempos de presidência, eram dois Fuscas 1987 e três tratores, além da chácara. “Se tenho poucas coisas, preciso de pouco para sustentá-las”, ensina Mujica. “Se aspirarmos, nesta humanidade, a consumir como a média americana, seriam necessários três planetas para podermos viver.”

Texto e imagem reproduzidos do site: revistaplaneta.com.br