Homem banha crianças em uma favela do Rio de Janeiro
Publicado originalmente no site do jornal EL PAÍS BRASIL, em 20 de julho de 2020
Uma elite sem modos e sem atitude
Desembargador que humilhou guarda é só mais um personagem
deste Brasil expondo sua falsa superioridade que reproduz o país
patrimonialista e de indigência moral
Por Carla Jiménez
Os últimos dias têm sido um festival de arrogância de homens
públicos e brasileiros abastados expondo publicamente seu pedantismo diante de
pessoas em suposta posição de desvantagem na escala econômica. O mais recente,
o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira, chamando de
“analfabeto” um guarda que cobrou dele o uso da máscara enquanto ele caminhava
na orla de Santos, é de cair o queixo. Siqueira rasgou uma multa que recebeu e
a jogou em cima do guarda municipal que o abordava. O desembargador ainda ligou
para um superior para reforçar a ameaça, como mostram as imagens do vídeo que
tomou as redes sociais neste final de semana.
Tornar-se alvo de repúdio de parte dos brasileiros não faz
corar nenhum integrante desse topo da pirâmide, que só alcançou status por
dinheiro, mas são deploráveis em termos de valores. Alguns entregam seu apego a
uma etiqueta de opressão, descolados de um mundo que avança em outro sentido.
Dias atrás circulou a imagem de um casal reclamando com um fiscal no Rio que
cobrava que fossem embora de um bar pelas restrições impostas pela pandemia.
Quando o fiscal chamou o rapaz de “cidadão”, a mulher reagiu dizendo: “cidadão
não, engenheiro civil”. Também o secretário executivo do Ministério da Saúde,
Elcio Franco Filho, mostrou sua hostilidade com quem não pode se defender ao
dar ao vivo uma bronca gratuita num garçom que entrou sem querer na visão da
câmera que filmava a live da qual participava Franco Filho.
Um pouco antes, foi a vez de um empresário no condomínio de
luxo Alphaville apelar em alto e bom som para a baixaria quando foi abordado
por um policial, chamado pela mulher do empresário. “Você é um bosta, você é um
merda de um PM que ganha mil reais por mês. Eu ganho 300.000 por mês. Eu quero
que você se... , seu lixo!”, vociferava ele na frente da mulher — e da filha.
Este, ao menos acabou algemado, e pediu desculpas publicamente pelo show de
horrores que promoveu. Mas estava sendo detido por violência doméstica. Quem é
o lixo aqui?
Essa falsa superioridade presente em uma parte da elite mata
de verdade. É a mesma que fecha os olhos para a pobreza e a violência policial
que executa negros na periferia, colocando o Brasil como um dos campeões em
crueldade. É a mesma que despreza o filho da empregada sozinho no elevador,
como Sarí Corte Real, mulher do prefeito de Tamandaré. Miguel, filho de Mirtes
que passeava os cachorros de Sarí enquanto a patroa fazia as unhas, caiu do
alto do prédio e morreu.
Não se pode generalizar a elite brasileira com esses
exemplos rastaquera. Há muita gente no topo da pirâmide querendo
verdadeiramente dar sua contribuição para garantir um país mais decente. Um PIB
que se preocupa com educação dos mais vulneráveis, com o meio ambiente e com o
avanço democrático do Brasil. Que não se prestaria, seguramente, a se tornar uma
caricatura dos “você sabe com quem está falando?” como o desembargador
Siqueira. Mas ainda são poucos os que se erguem com veemência contra injustiças
no país que os enriquece. Neste momento, é inacreditável que atores globais,
assim como a socióloga Neca Setúbal, tenham de interceder junto ao governador
João Doria Jr. para que ele receba movimentos sociais negros que querem ser
ouvidos para falar da violência policial das periferias em São Paulo que subiu
vertiginosamente.
São poucos os que dão a cara para bater. Num Brasil à flor
da pele neste momento tão trágico como o da pandemia, não faltam aqueles que
continuam repetindo à exaustão a cantilena do liberalismo econômico como meio
de melhorar a vida dos pobres, como sugeriu em entrevista à Folha de S. Paulo
Henrique Bredda, da gestora Alaska. Diz Bredda que fica “com o pé atrás” quando
ouve falar em desigualdade no Brasil.
Faltaram brios também aos empresários mais poderosos do
Brasil diante da “boiada” que está passando na Amazônia. Foram fracos em não se
posicionar diante dos ataques à floresta nestes últimos tempos. Foi preciso que
fundos estrangeiros trilionários ameaçassem retaliar o Brasil para que fossem
bater à porta do general Hamilton Mourão com um manifesto contra o
desmatamento. Uma carta assinada inclusive pela Vale, cuja atuação em desprezo
ao meio ambiente e aos trabalhadores do grupo deixou sequelas profundas em
Minas Gerais.
O desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira fala
ao telefone
com o secretário da Segurança de Santos, Sérgio Del Bél, enquanto é
autuado.
No ano passado, o empresário Blairo Maggi, maior exportador
de soja, foi um dos poucos a falar publicamente e chamar a atenção para o risco
que o Brasil corria diante dos incêndios na Amazônia. Mostrava o perigo para o
agronegócio diante da gestão. “O Brasil tinha subido no muro e passado a perna
para descer do outro lado, agora fomos empurrados de volta e para bem longe do
muro. Não veja como crítica feroz, mas sim como um alerta”, avisou Maggi.
A lista de desconfortos só cresce. Quanto os bancos se
empenharam para que houvesse crédito a empresas neste momento de pandemia?
Dados do IBGE revelam que somente 12,7% das empresas tiveram acesso ao crédito
emergencial do Governo destinado ao pagamento de salários. O recurso, anunciado
em março, estaria disponível através dos bancos. Falhou o Governo em repassar?
Quantas vozes se insurgiram contra esse quadro? Não por acaso mais de 700.000
empresas já fecharam em definitivo por causa da pandemia.
A elite brasileira precisa se envergonhar da sua
cumplicidade com um Brasil perverso. Em outros países, milionários estão
fazendo campanha para aumentar os próprios impostos, contribuindo com
movimentos por justiça social. O silêncio dos que detêm dinheiro e poder
permitiu que o país se tornasse pária no exterior. Nada mais constrangedor do
que ter a chance de evoluir, e calar. Tenham modos, tenham coragem para deixar
que o Brasil tenha orgulho de si mesmo.
Texto e imagens reproduzidos do site: brasil.elpais.com

