Fotografia: DR
Publicado originalmente no site JORNAL DE ANGOLA, em 30 de Julho de 2020
John Lewis: A morte do último herói de Selma
Por Vanessa de Sousa
John Lewis nasceu em 21 de Fevereiro de 1940 e morreu em 17
de Julho de 2020, aos 80 anos, de cancro do pâncreas. Foi preso e espancado
mais de 40 vezes na década de 1960. Vencido pelo cancro, teve, ainda assim, uma
última vitória: uma escola da Virgínia, um estado do Sul dos Estados Unidos,
mudou de nome, deixou de se chamar escola Robert E. Lee, o líder dos
confederados durante a “Guerra da Secessão” (1861-1865), e passou a chamar-se
John Lewis.
A sua entrada na biografia histórica deverá assinalá-lo como
político e activista, um dos grandes defensores dos direitos civis dos negros
norte-americanos - indelevelmente ligado à Voting Rights Act, de 1965 -, da não
violência e companheiro de Martin Luther King Jr.. John Lewis foi eleito para a
Câmara dos Representantes em 1986 e homenageado por Barack Obama, em 2011, com
a mais alta condecoração do país.
A 7 de Março de 1965, aos 25 anos, participou numa primeira
tentativa de marcha de Selma a Montgomery, através da ponte Edmund Pettus, duas
cidades do sul dos Estados Unidos, onde o Ku Klux Klan, com a cumplicidade das
autoridades, impunha regras próprias de segregacionismo e violência. John Lewis
integrava o protesto pacífico, mas logo à entrada da ponte, no lado de Selma,
foi empurrado, derrubado e agredido pela polícia. As imagens da agressão foram
captadas pelas câmaras de televisão e dos fotógrafos presentes, e transformaram
aquele momento, a vida de Lewis e, de uma forma decisiva, a luta pelos direitos
civis dos negros. A história norte-americana regista este dia como um “do-mingo
sangrento”. Alguns dias depois, a 9 de Março, há uma segunda tentativa, mas é
em 16 de Março, que Martim Luther King Jr. lidera a marcha de medo e coragem de
milhares de pessoas do Alabama que atravessaram a ponte de Ed-mund Pettus, de
Selma a Montgomery, onde chegaram a 24 de Março. Em Washington, o Presidente
Lyndon Johnson pressionou o Congresso a aprovar a lei que tornava o registo dos
negros nos cadernos eleitorais menos segregacionista.
John Lewis era o último dos heróis vivos deste movimento
essencial da História recente dos Estados Unidos. As cerimónias fúnebres
iniciaram-se no sábado, dia 25 de Julho, prolongaram-se durante a semana e
terminam hoje. A urna com os restos mortais de John Lewis percorreu vários
estados e repousou por algumas horas em diversas localidades para lhe ser
prestada uma última homenagem. Neste tempo de pandemia a família pediu a todos
os participantes o indispensável uso da máscara. As cerimónias foram
transmitidas em directo de forma a incentivar as pessoas a ficarem em casa e a
partir daí participarem de forma mais segura nas homenagens fúnebres.
Associaram-se aos eventos as principais redes de televisão norte-americanas,
incluindo ABC, CBS, NBC, Fox e CNN, além de inúmeras plataformas digitais.
Cerimónias fúnebres
Durante seis dias, os restos mortais do congressista John
Lewis percorreram três estados - Geórgia, Alabama e Washington. O féretro
passou por lugares marcantes e simbólicos da vida de Lewis, como a ponte Edmund
Pettus, em Selma, ou a Auburn Avenue, em At-lanta, onde a sua história também
se confunde com a de Martin Luther King Jr.
As cerimónias começaram em Selma, Alabama, no sábado, dia 25
de Julho, com um serviço fúnebre designado “The boy from Troy” (a cidade onde
nasceu e onde estudou no seminário da Igreja Baptista) e, à noite, o féretro
repousou na Brown Chapel. No domingo, dia 26, aconteceu um cortejo, entre a
Brown Chapel, com a travessia da Edmund Pettus, até ao capitólio do estado do
Alabama. O caixão de Lewis passoudepois para Washington, onde permaneceu dois
dias - segunda e terça-feira -. com várias homenagens na praça do Capitólio.
Ontem, 29 de Julho, o corpo de Lewis seguiu para Atlanta, onde foi
realizadaoutra cerimónia na praça do Capitólio do estado. Hoje, quinta-feira
(30.07), o funeral, agora privado, acontece na igreja baptista Ebenezer Horizon
e Lewis será, de seguida, enterrado no cemitério South-View de Atlanta.
“A consciência do Congresso”
O democrata da Geórgia, eleito para o Congresso, onde tinha
assento na Câmara dos Representantes, soçobrou aos 80 anos ao cancro do
pâncreas. Em Dezembro de 2019, quando revelou que estava doente, disse que
combateria o cancro com a mesma força com que combateu a injustiça racial e o
direito à liberdade, igualdade e direitos humanos - o outro grande combate da
sua vida.
Segundo o The New York Times, Lewis era o último orador
sobrevivente da marcha de Agosto de 1963, em Washington, pelo emprego e pela
liberdade dos negros, mais conhecida pelo discurso de Martin Luther King Jr. e
do sonho negro norte-americano. John Lewis, apesar de doente, ainda pôde
assistir e congratular-se com as manifestações globais de repúdio da violência
de polícias brancos contra pessoas negras, que ocorreram logo a seguir ao
assassínio, em Maio, do afro-americano George Floyd, que se encontrava sob
custódia da polícia de Minneapolis. Pôde ver como se reagia contra o designado
“racismo sistémico” em muitos países, e, particularmente, nos Estados Unidos.
Ele terá visto estes protestos como a continuação do trabalho de uma vida,
escreveu, ainda, o The New York Times. “Foi muito emocionante ver centenas de
milhares de pessoas saírem para as ruas”, afirmou Lewis em declarações à CBS em
Junho, para acrescentar que o movimento Black Lives Matteré muito mais “massivo
e inclusivo”.
A história pessoal de Lewis é também a história do movimento
pelos direitos civis nos Estados Unidos. Ele está entre os 13 Freedom Riders de
1961 - activistas negros e brancos, homens e mulheres, que desafiaram a
política segregacionista dos estados do Sul que impedia os negros de usarem as
mesmas casasdebanho, hotéis, restaurantes, parques públicos e autocarros ou
lugares nos autocarros dos brancos, a chamada cidadania de segunda classe. Foi
fundador do Comité Coordenador dos Estudantes não-violentos e um dos
organizadores da marcha de Washington que levou aos degraus do Lincoln
Memorial, como principal orador, Martin Luther King Jr. Por tudo isto, foi
espancado, cuspido na cara e queimado com cigarros por multidões de brancos que
agiam protegidos pela complacência das autoridades policias.
Em 7 de Março de 1965, John Lewis liderou uma das mais
marcantes marchas da história contemporânea norte-americana, à cabeça de 600
pessoas que exigiam o direito de voto aos negros. O percurso da marcha passava
por atravessar a ponte Edmund Pettus, em Selma, no Alabama, até Montgomery, a
capital do estado. Lewis foi impedido de atravessar a ponte, à porrada, por
forças policiais fortemente armadas, que usaram gás lacrimogéneo e tubos de
borracha enrolados com arame farpado como chicotes. Lewis foi violentamente
atingido na cabeça, caiu ao chão e quando se levantava voltou a ser atingido.
As imagens desta agressão, a Lewis e tantos outros, envergonharam os Estados
Unidos e levantaram um movimento de apoio que levou o Presidente na altura,
Lyndon B. Johnson, a pressionar o Congresso para a aprovação da Voting Rights
Act (Lei dos Direitos de Voto) - produzida durante a administração de John F.
Kennedy mas adiada -, que entrou em vigor em 6 de Agosto desse mesmo ano e que
permitiu aos negros votarem de forma generalizada, porque derrubou os testes de
alfabetização a que estavam sujeitos quando se registavam para votarem, na
maioria das vezes, uma prática injusta e segregacionista.
Uma vez registados e com direito a voto, os milhões de
negros dos estados do Sul começaram a mudar a política norte-americana. “Mãos
que antes escolheram o algodão, podem agora escolher um Presidente”, era um dos
slogans da campanha presidencial de 1976, que deu a vitória ao democrata Jimmy
Carter, ori-undo da Geórgia, mas um branco. Seria preciso um par de décadas até
um negro chegar à Casa Branca e condecorar John Lewis. Entretanto, os negros
começaram a concorrer, de forma mais massiva, a cargos públicos e John Lewis
chegou ao Capitólio, onde se transformou “na consciência do Congresso”.
Em Dezembro de 2019, quando a Câmara dos Representantes
votava o impeachment a Trump (que não passou no Senado), Lewis voltou a
destacar-se ao afirmar o se-guinte aos seus pares: “Quando vemos algo que não
está certo, que não é justo, não é justo ficarmos calados, temos a obrigação
moral de dizer alguma coisa”. Declarações que culminaram com um: “Temos de
ficar do lado certo da história”.
Em Maio deste ano, quando assistia ao vídeo que dava conta
dos oito minutos mais agonizantes da história recente, quando um polícia branco
esmaga o pescoço de um negro, impedindo-o de respirar, Lewis confessou que “foi
tão doloroso que me fez chorar”. Ele que em Washington, em 1963, e lado a lado
com Martin Luther King Jr., gritou a uma multidão de 200 mil pessoas: “Acorda,
América, acorda! Pois não podemos parar, não vamos e não podemos ser
pacientes”. Lewis tinha 23 anos.
John Lewis foi preso e es-pancando mais de 40 vezes, entre
1960 e 1966. Durante uma acção dos Freedom Rides, em 1961, caiu inconsciente na
sua própria poça de sangue numa estação de autocarros de Greyhound, em
Montgomery, Alabama, só porque quis esperar o autocarro na sala de espera, exclusiva
para os brancos.
Voltou a ser preso mais tarde, em Washington, quando
protestava em frente à Embaixada da África do Sul contra o apartheid ou contra
o genocídio no Darfur, junto da Embaixada do Sudão. No Congresso, opôs-seà
guerra dos falcões no Golfo Pérsico, em 1991. Em 2001, não participou na
cerimónia do “dia da inauguração” (a posse) de George W. Bush, eleito depois da
recontagem da Florida, porque considerou que o Presidente Bush não tinha sido
verdadeiramente eleito. Também não participou na posse de Trump, questionando a
sua legitimidade por causa das evidências de que a Rússia tinha interferido nas
eleições norte-americanas de 2016. O Presidente Trump usou o Twitter para
criticar Lewis. A certa altura Trump escreveu: “All talk, talk, talk — no
action or results. Sad!” (Todos falam, falam, falam - sem acções ou resultados.
Triste!”.
O episódio acentuou ainda mais o distanciamento entre Lewis
e Trump, ao contrário do que tinha acontecido com Obama, que lhe concedeu, em
2011, a Presidential Medal of Freedom (Medalha Presidencial da Liberdade), a
maior distinção do país. Na ocasião Obama afirmou: “Quando os pais ensinarem
aos filhos o que significa coragem, a história de John Lewis estará presente –
a de um americano que sabia que a mudança não podia esperar por outra pessoa ou
por outra hora, a lição de uma vida de feroz urgência, de agora”.
Texto e imagem reproduzidos do site: jornaldeangola.sapo.ao
