Ulysses Guimarães na promulgação da Constituição; discurso histórico
exaltava que 'traidor da Carta era um traidor da pátria'
Direito de imagem - CÉLIO AZEVEDO
Publicado originalmente no site BBC NEWS BRASIL, em 5 de outubro de 2018
'Temos ódio e nojo à ditadura': os 30 anos do discurso
histórico que promulgou a Constituição do Brasil
Paula Adamo Idoeta - @paulaidoeta
Da BBC News Brasil em São Paulo
"Hoje, 5 de outubro de 1988, no que tange à
Constituição, a nação mudou", dizia sob aplausos Ulysses Guimarães,
presidente da Assembleia Nacional Constituinte, em uma sessão solene e histórica
do Congresso quando se promulgou a Carta que rege o Brasil atualmente.
O discurso de Ulysses passaria a ser considerado um dos mais
marcantes da história recente brasileira, com uma forte defesa da Constituição
que acabava de nascer e um forte rechaço da ditadura da qual o país se
despedia.
"A ideia era de que se inaugurava uma nova época do
Brasil, deixando o velho para trás. Era um momento de muita expectativa,
sobretudo popular - as propostas da população à Assembleia Constituinte haviam
chegado às milhares", explica Francisco Carlos Teixeira da Silva,
professor de História da UFRJ e que foi próximo de Ulysses Guimarães, a quem
ajudou na redação de um dos artigos constitucionais.
"Foi sem dúvida um discurso histórico, embora Ulysses
não tenha elaborado uma visão crítica adequada da Constituição", agrega o
historiador Daniel Aarão Reis, autor de diversos livros sobre história recente
do país.
A BBC News Brasil analisa alguns dos pontos mais importantes
do discurso, seu contexto histórico e a relação com o conturbado momento
político atual do país.
'Traidor da Constituição é traidor da pátria'
A partir de 15h50 daquele 5 de outubro de 1988, os
brasileiros passavam a ter uma nova Constituição, com novos direitos, depois de
cerca de um ano e meio de discussões sobre o texto na Assembleia Constituinte.
"Declaro promulgada. O documento da liberdade, da
dignidade, da democracia, da justiça social do Brasil. Que Deus nos ajude para
que isso se cumpra!", disse Ulysses pouco antes de os constituintes - que
a partir de então passariam a exercer função de congressistas - jurarem
"manter, defender, cumprir a Constituição, observar as leis, promover o
bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a
independência do Brasil".
Ulysses Guimarães com a Constituição de 1988; momento era de
grande otimismo e envolvimento popular com a promulgação
do texto, que trouxe leque de direitos civis
do texto, que trouxe leque de direitos civis
Direito de imagem - CÉLIO AZEVEDO
Em seu discurso, Ulysses advertiu que a recém-promulgada
Carta não era "perfeita".
"Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim.
Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca", declarou o presidente da
assembleia. "Traidor da Constituição é traidor da pátria. (...) Temos ódio
à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace
homens e nações. Principalmente na América Latina."
'Representativo e oxigenado sopro de gente'
Ulysses prossegue elogiando a participação dos brasileiros
na elaboração da Carta, citando "122 emendas populares, algumas com mais
de 1 milhão de assinaturas, que foram apresentadas, publicadas, distribuídas,
relatadas e votadas no longo caminho das subcomissões até a reta final".
"Há, portanto, representativo e oxigenado sopro de
gente, de rua, de praça, de favela, de fábrica, de trabalhadores, de
cozinheiras, de menores carentes, de índios, de posseiros, de empresários, de
estudantes, de aposentados, de servidores civis e militares, atestando a
contemporaneidade e autenticidade social do texto que ora passa a
vigorar."
Para Teixeira da Silva, a esperança daquele momento estava
intimamente ligada ao envolvimento da população com a formulação do texto e com
as garantias de direitos que a "Constituição cidadã" passava a determinar.
"A ideia de direitos inalienáveis é muito importante na
Constituição", diz ele. "A Lei Maria da Penha, a união civil
homossexual, a liberdade plena de imprensa são coisas que jamais poderiam ser
pensadas na ditadura."
Aarão Reis reitera a ideia de que "havia uma atmosfera
de otimismo que permeava o país". "Muitos chamam a década de 1980 de
perdida, mas foi um período de muitas vitórias, conquista de liberdade e
conquista de participação, com a própria Constituição, que nunca tínhamos tido
na história republicana", diz o historiador.
Para analistas, Ulysses pode ter falhado em fazer uma
análise crítica da Carta e do momento político
' Direito de imagem - LULA MARQUES
'A pretexto de salvá-la, a tiranizam
No discurso, Ulysses fazia um alerta aos políticos e legisladores brasileiros, para que honrem suas obrigações e rejeitem a corrupção, sob o perigo de esta empurrar o país ao autoritarismo.
"A vida pública brasileira será também fiscalizada
pelos cidadãos. Do presidente da República ao prefeito, do senador ao vereador.
A moral é o cerne da pátria. A corrupção é o cupim da República. República suja
pela corrupção impune tomba nas mãos de demagogos que, a pretexto de salvá-la,
a tiranizam", disse.
"Não roubar, não deixar roubar, por na cadeia quem
roube, eis o primeiro mandamento da moral pública. Não é a Constituição
perfeita. (...) Mas será útil, pioneira, desbravadora, será a luz ainda que de
lamparina na noite dos desgraçados."
O historiador Aarão Reis opina, porém, que Ulysses parece
ter sobrevalorizado aspectos positivos da Constituição "e elaborado de
forma pouco crítica o legado da ditadura" mantido na Carta.
"Apesar de ser inovadora nos direitos civis, a
Constituição ao mesmo tempo incorpora legados do período ditatorial",
afirma. "Por exemplo, a centralização do Poder Executivo, a tutela das
Forças Armadas, a utilização de Medidas Provisórias e o modelo econômico
consagrado pela ditadura."
Teixeira da Silva afirma que, já à época, havia a sensação
de que a Constituição nascia sob algumas "amarras" - o historiador é
especialmente crítico aos mecanismos que permitiram, por exemplo, que
candidatos a deputado com alta votação "puxassem" ao Congresso
políticos eleitoralmente inexpressivos do mesmo partido. E foi naquela época,
também, que começaram a se formar forças que seriam determinantes na vida
político-partidária do país nas décadas seguintes, até os dias atuais.
"É interessante notar que, logo depois (da
promulgação), Ulysses Guimarães foi derrotado nas eleições de 1989. Isso
ilumina um pouco o processo da época, quando se formou o chamado 'Centrão'
(bloco de partidos que mais tarde seriam acusados de fisiologismo), que ajudou
a eleger uma figura que nada tinha a ver com a Constituição de 1988 (em
referência a Fernando Collor)", diz o historiador.
"Acabou se gerando uma sensação muito grande (na
população) de 'vocês não me representam' e a irrupção de outsiders que recusam
a democracia."
Anseio de mudança
Todo o discurso de Ulysses era permeado por menções ao
anseio de mudança da população.
"Termino com as palavras com que comecei esta fala: a
nação quer mudar. A nação deve mudar. A nação vai mudar. A Constituição
pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à
mudança", concluiu o texto.
Para Teixeira da Silva, o problema é a Constituição
"não ter sido cumprida até o fim", ou seja, ter falhado nos
mecanismos de representação popular. "O ideal seria apanhar o discurso do
Dr. Ulysses e colocá-lo todo em prática", opina.
Para Aarão Reis, o próprio Ulysses personifica o caráter
"híbrido" daquele momento e da Constituição: "O grande campeão
da redemocratização havia sido um homem da ditadura em seu início (ele apoiara
o golpe de de 1964 e logo depois mudara à oposição), quando ainda se achava que
seria uma retomada rápida de poder (pelos militares) para combater o comunismo
e a corrupção e que logo depois se daria lugar às eleições."
Texto e imagens reproduzidos do site: bbc.com/portuguese/brasil


