quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Entrevista com a primeira ministra da Itália, Giorgia Meloni

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 25 de agosto de 2026

Conservadorismo pragmático: o progressista NYT se rende à "fascista" Meloni

Em uma entrevista rara, a política que já foi uma pária reflete sobre sua trajetória, indo do ‘lado desconfortável da história’ à iminência de liderar o governo mais duradouro da Itália no pós-guerra. Roger Cohen, do NYT, para o Estadão:

Giorgia Meloni, filha da extrema-direita, gosta de bater recordes. Acomodando-se numa poltrona em frente a um quadro de festividades rústicas inspirado em Ticiano, ela reflete sobre o segredo do sucesso político que em breve a tornará a primeira-ministra com o mandato mais longo da história da República Italiana.

“Sou uma pessoa que impõe regras a si mesma”, diz ela em uma rara entrevista. “A primeira regra é que nunca digo nada que não penso. Não há como me fazer dizer algo em que não acredito — meu cérebro entra em curto-circuito.”

Ela sorri, como se dissesse que é simples assim, mas é claro que não é. Ela permaneceu uma espécie de enigma, um enigma rigidamente controlado, em sua trajetória desde as raízes pós-fascistas até um lugar crucial na política europeia que ela está transformando.

Meloni optou por se encontrar em um lounge adjacente ao seu escritório em Roma. Ela é gentil ao extremo. Em momentos como esse, é difícil lembrar como ela pode revirar os olhos e lançar olhares fulminantes quando está irritada, como tem acontecido ultimamente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, seu aliado ideológico, e com Pedro Sánchez, o primeiro-ministro espanhol de esquerda, um adversário ideológico.

“Acho que as pessoas percebem a diferença”, diz Meloni, que está no cargo há quase quatro anos, cerca de quatro vezes a média italiana do pós-guerra. “Elas sabem quando algo é inverídico, falso — e acredito que esse seja o maior erro que um político pode cometer.”

A verdade não é exatamente a moeda política da atualidade, mas Meloni sempre seguiu seu próprio caminho. O efeito tem sido transformador. A “melonização”, ou o entorpecimento da história horripilante, entrou para o vocabulário comum.

Isso denota o processo que Meloni agora personifica, o qual permite a um partido pós-fascista, neste caso o seu Irmãos da Itália, livrar-se da ameaça do autoritarismo violento e obter aceitação na corrente principal através do conservadorismo pragmático, ou pelo menos da sua aparência.

“Acho que o que me trouxe até aqui” — ao seu escritório no Palazzo Chigi — “foi a coragem de ficar do lado desconfortável da história”, diz Meloni, falando em italiano. “Optar por ir contra a corrente.”

Coragem é, de longe, a sua palavra favorita.

Com Marine Le Pen, da outrora marginalizada extrema-direita francesa, como uma forte candidata nas eleições presidenciais do próximo ano, e o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) liderando as pesquisas naquele país, o efeito Meloni está prestes a ser testado no cerne da integração europeia do pós-guerra.

Se o fascismo na Itália, seu berço, pode ser apresentado como algo distante, até mesmo irrelevante para o sucesso político, o mesmo talvez possa ser dito do Holocausto na Alemanha e do regime colaboracionista de Vichy na França durante a guerra. Foi o nacionalismo antissemita de Vichy que inspirou o pai de Le Pen a fundar a Frente Nacional, agora renomeada como Reunião Nacional.

Ao que tudo indica, Le Pen terá uma resposta pronta para tranquilizar os eleitores franceses: Basta olhar para a Itália!

“Meloni não é uma líder visionária, mas tornou-se uma estrela global e o emblema da possibilidade de que nacionalistas de extrema-direita possam ser absorvidos”, disse Giovanni Orsina, diretor da Escola de Governo LUISS Guido Carli, em Roma.

Longe de ser um cenário de convulsão, a Itália encontrou estabilidade sob o governo de Meloni, que demonstrou o talento inflamado de um demagogo, ancorado por um realismo frio. A França teve seis governos e o Reino Unido quatro primeiros-ministros desde que ela assumiu o cargo em 2022.

Com a saída do presidente francês Emmanuel Macron no próximo ano, Meloni poderá se tornar a figura central da política europeia, à semelhança do que a ex-chanceler alemã Angela Merkel já foi, num momento em que uma ordem mundial fragmentada atravessa uma transformação profunda e instável.

No entanto, a questão de qual transformação Meloni busca permanece em aberto. Será que ela realmente se tornou uma moderada democrática aos 49 anos? Ou será que ainda reside dentro dela uma neofascista de 19 anos, a militante de rosto angelical que declarou à televisão francesa em 1996 que “Mussolini era um bom político” e que “tudo o que ele fez, fez pela Itália”?

Meloni queria ser a ponte sobre águas turbulentas. Única líder de um governo da União Europeia convidada para a posse de Trump, ela pretendia aproveitar o nacionalismo e a hostilidade à imigração que compartilhavam, além de garantir que a aliança ocidental permanecesse funcional.

Então, no ano passado, quando Trump, num tom de bajulação servil, a chamou de “uma linda jovem”, ela fingiu indiferença. Havia coisas maiores em jogo.

Ainda assim, as provocações jorraram da Casa Branca. A União Europeia foi criada para “prejudicar” os Estados Unidos, declarou Trump. A Groenlândia, um território dinamarquês semiautônomo, deveria ser entregue aos Estados Unidos. Os aliados europeus da OTAN eram covardes, “retendo um pouco de ação” no Afeganistão, onde a Itália perdeu 53 soldados.

“Insultar a Itália depois de termos prestado uma homenagem com sangue no Afeganistão foi uma afronta brutal”, disse Fabio Rampelli, vice-presidente da Câmara Baixa do Parlamento italiano e confidente de longa data de Meloni.

Meloni fez o possível para ignorar a situação. “É evidente que, com Donald Trump, eu acreditava que as coisas seriam mais fáceis, dada a nossa convergência em relação à imigração e à cultura woke”, ela me disse. “Mas as coisas se mostraram bem diferentes.”

Dizer que “caso contrário” seria um eufemismo. Em junho, ela se tornou a primeira de vários líderes europeus insultados a responder duramente a Trump. Como resultado, ela e Trump não se falam há várias semanas, revela ela.

Para ela, a linha vermelha foi cruzada pela primeira vez em abril, quando Trump atacou o Papa Leão XIII, chamando-o de “FRACO no combate ao crime e péssimo para a política externa”. Meloni respondeu que tais declarações eram “inaceitáveis”. Trump retrucou: Ela era “inaceitável”.

Na Itália, muitas coisas podem ser criticadas — a burocracia, um espaguete à carbonara, uma seleção de futebol outrora gloriosa que, pela terceira vez consecutiva, não se classificou para a Copa do Mundo —, mas não o Santo Padre, e certamente não em LETRAS MAIÚSCULAS.

A partir daí, foi ladeira abaixo. Trump divulgou uma história de que Meloni teria “implorado” por uma foto dos dois juntos em junho, na cúpula do G7 na França.

Ela estava furiosa. Ela repreendeu Trump: “A Itália e eu nunca imploramos.”

A fusão deliberada de nação e identidade expressava seu senso de missão para mudar a percepção da Itália, de terra de beleza e ineficiência para terra de intenções sérias.

Os valores que ela compartilhava com Trump foram ofuscados por seu principal objetivo de política externa: superar o status histórico da Itália como a menor das grandes potências e dar à oitava maior economia do mundo peso geopolítico.

“Não gosto da ideia de uma Itália submissa, uma Itália que se vê como inferior às outras”, diz-me ela em nossa entrevista. Seu objetivo, afirma, é alcançar “a maior revolução que pode acontecer nesta nação — uma revolução do orgulho”.

Ela não se arrepende de nada: “Continuo acreditando que a unidade do Ocidente é algo muito importante. Não decido a estratégia italiana com base em minhas relações pessoais.”

Questionada se ela e Trump conversariam após o recesso de verão, ela hesita. “Bem, veremos.”

Em busca de uma causa

Meloni aprendeu desde cedo a rejeitar a passividade. “Cresci com a ideia de que eu não valia nada”, escreve ela em “Eu Sou Giorgia”, sua autobiografia. “Minha reação foi me dedicar com todas as minhas forças a demonstrar o contrário.”

Abandonada ainda bebê pelo pai, que partiu para a Espanha e cuja morte em 2012 a deixou “indiferente”, Meloni enterrou em um “buraco negro” a “dor de não ter sido amada o suficiente”, como ela mesma descreve em seu livro.

Ela se endureceu. Aos 13 anos, decidiu nunca mais ver o pai. Era uma escolha irrevogável, assim como quando, em 2023, terminou o relacionamento com Andrea Giambruno, seu companheiro e pai de sua filha, Ginevra. (Um vídeo e um áudio flagraram o que parecia ser uma investida grosseira dele contra colegas de trabalho. O relacionamento “termina aqui”, escreveu ela na manhã seguinte nas redes sociais.)

O amor de sua mãe, Anna Paratore, que escreveu cerca de 140 romances picantes sob o pseudônimo de Josie Bell, preencheu o vazio. Meloni cresceu com ela e uma irmã mais velha no bairro de Garbatella, em Roma, uma área operária com enclaves de classe média, incluindo aquele em que moravam.

O apartamento no segundo andar de sua juventude fica em um lindo pátio com laranjeiras, pinheiros, nespereiras e ipês. Uma bandeira palestina está pendurada em uma janela; há muitas em Roma. Em uma parede próxima, está rabiscado: “Pense poeticamente. Meloni fora!”

Garbatella pertence à esquerda e sempre pertenceu. Já Meloni, com apenas 15 anos, optou pela direita de raízes fascistas.

Sua decisão foi motivada por indignação, explica ela. O assassinato, em um intervalo de dois meses em 1992, de Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, dois promotores sicilianos que representavam uma ameaça para a máfia, foi algo insuportável.

“Lembro-me de, num dia quente de julho, estar vendo as imagens na TV”, diz ela, “e pensar que não podemos continuar assim. Basta!”

Borsellino já havia sido próximo do Movimento Social Italiano (MSI), de extrema-direita, fundado em 1946 por ex-membros do partido fascista de Benito Mussolini. O partido marginal se manteve à parte do enorme escândalo de corrupção política que assolava a Itália no início da década de 1990, o que, segundo Meloni, contribuiu para seu apelo.

Ela ligou para a sede da M.S.I. e descobriu que um escritório da sua Frente Jovem ficava “bem ali na esquina”.

Um dia, ela entrou. Na época, a direita pós-fascista não tinha chance de chegar ao poder, e mesmo duas décadas depois, quando ela cofundou o Irmãos da Itália, o partido oscilou em torno de 3% dos votos durante sete anos. Mesmo assim, ela persistiu.

“Não gosto que me digam quais são os meus limites”, diz ela. “Um ‘não’ é uma das coisas que mais me motiva.”

Um momento ‘complexo’

O escritório de Garbatella agora abriga uma filial do partido de Meloni. Lá, encontrei Marco Volponi no comando.

Ele conhece Meloni desde a adolescência. Perguntei-lhe sobre o logotipo do partido do lado de fora, com sua chama tricolor nas cores verde, branca e vermelha da bandeira italiana, um símbolo adotado inicialmente pelo MSI e amplamente visto hoje como representação do espírito fascista ainda latente.

“Não é de Mussolini”, disse-me Volponi, repetindo o discurso oficial. “É a chama do nosso fervor desde 1946 até onde estamos hoje.”

Meloni, de uma geração distante da Segunda Guerra Mundial, denunciou o fascismo, mas não o repudiou completamente, afirmando “nossa oposição a todos os regimes totalitários e autoritários”.

Em seu discurso de posse, ela afirmou que “o pior momento da história italiana” foi quando Mussolini promulgou as leis raciais antissemitas de 1938; milhares de judeus italianos foram, em última instância, enviados para a morte sob a ocupação nazista parcial.

Em nossa entrevista, porém, ela se refere ao período fascista simplesmente como uma época “particularmente complexa”. Tão complexa que suas consequências assombraram sua infância e adolescência.

Durante os “Anos de Chumbo”, do final da década de 1960 até a década de 1980, grupos neofascistas e de extrema esquerda estavam determinados, por diferentes razões, a desestabilizar a República do pós-guerra. Bombardeios, assassinatos e massacres deixaram mais de 400 mortos, incluindo um primeiro-ministro, Aldo Moro, morto em 1978 pelas Brigadas Vermelhas, de esquerda.

Tal era a instabilidade em que Meloni cresceu e que, em várias formas menos violentas, assombrou a Itália por muito tempo. Ela fez da estabilidade seu lema.

Ao introduzir seu partido pós-fascista na corrente principal, Meloni se recusou a dizer que é antifascista, o que para ela parece denotar os grupos de esquerda de sua juventude para os quais, em suas palavras, “matar fascistas não é crime”.

“Conheço o nome e a história de todos os jovens sacrificados no altar do antifascismo”, escreveu ela.

Sobre o terrorismo neofascista, Meloni tem muito menos a dizer. Dois atentados de direita deixaram 102 mortos apenas em Milão e Bolonha. Para ela, a esquerda era a culpada pelos problemas da Itália no pós-guerra, e o período “complexo” em que seu partido se enraizou era melhor deixado de lado.

Ao falar sobre o fascismo italiano, ela diz na entrevista: “Claramente, se olharmos para essa história hoje, é uma coisa. Se a olhássemos estando no meio dela, provavelmente a veríamos de forma diferente, não é?”

O historiador R.J.B. Bosworth, em sua biografia “Mussolini”, escreve que a ditadura de Il Duce “causou a morte prematura de pelo menos um milhão de pessoas”. Elas morreram em campos de extermínio da África à Albânia e Iugoslávia e, não menos importante, na própria Itália.

Mussolini também drenou os pântanos Pontinos, construiu a Estação Central de Milão e, dizem, fez com que os trens chegassem no horário.

Qualquer avaliação moral do governo de Mussolini parece bastante clara. Mas “a Itália nunca acertou as contas com o fascismo”, disse Davide Conti, historiador. “Não houve Nuremberg porque ninguém a queria, e se você processasse fascistas italianos, tinha que recorrer à Resistência, composta em sua maioria por comunistas.”

Meloni se beneficiou dessa oscilação, trilhando um caminho estreito entre o compromisso com a liberdade democrática italiana e uma curiosa ambivalência durante o período de sua perda.

Ela não abriu as portas para a extrema-direita — Silvio Berlusconi, a partir de meados da década de 1990, fez isso como primeiro-ministro durante um total de nove anos à frente de quatro governos. Mas ela era a política ideal para atravessá-las.

Apenas 14 anos depois de entrar no gabinete de Garbatella, ela foi eleita para o Parlamento e se tornou a vice-presidente mais jovem da história da República. Dois anos depois, em 2008, estabeleceu outro recorde, como a ministra mais jovem, aos 31 anos. O terceiro recorde, de longevidade no governo, a aguarda em 4 de setembro.

A extrema-direita sempre foi vista como “perigosa, nostálgica, fascista, racista e xenófoba”, disse Rampelli, que chefiava a seção da Juventude Romana do M.S.I. quando Meloni se juntou ao grupo.

“E eis que surge uma mulher muito jovem, com 1,60 metro de altura, loira e de olhos azuis, sorridente e sarcástica, que não tinha nada a ver com o fascismo — e a partir daquele momento, todas as pessoas que continuaram a nos insultar tornaram-se simplesmente ridículas”, disse ele.

“Talvez eu fosse a pessoa certa na hora certa”, sugere Meloni.

Meloni e a Maré da História

Para entender a ascensão de Meloni, fui a Piombino, na costa da Toscana, uma cidade siderúrgica outrora próspera, cujas ruas agora estão silenciosas. Durante décadas após a Segunda Guerra Mundial, sua indústria siderúrgica empregou mais de 8.000 trabalhadores. Hoje, não mais do que 500 resistem.

Outrora um centro de resistência antifascista, Piombino foi durante muito tempo um bastião da esquerda e dos sindicatos linha-dura. Hoje, o partido de Meloni assumiu o controle.

Francesco Ferrari é o prefeito. Advogado elegante, foi eleito em 2019 como o primeiro prefeito de direita desde 1945 e reeleito há dois anos. A esquerda — com promessas vazias e má gestão — esgotou a paciência dos trabalhadores de Piombino.

Eles se juntaram a uma vasta migração do século XXI, da esquerda para a direita, por toda a Europa, de uma classe trabalhadora revoltada com a globalização e seu custo em empregos, com a imigração descontrolada e com os valores estrangeiros de uma elite urbana liberal.

Uma placa na saída da fábrica, um amontoado fantasmagórico, diz: “Obrigado”, ao lado da imagem de um aperto de mãos. “Obrigado por quê?”, ri Michele Nardini, que trabalhou por 25 anos no alto-forno antes de perder o emprego em 2024. “Eles nos sacanearam.”

Nardini agora recebe US$ 1.250 por mês em auxílio-desemprego. “Fui traído por toda uma classe política”, diz ele enquanto toma um café na praça principal. “Estivemos sob o domínio da esquerda por 70 anos, então agora darei 70 anos à direita!”

Ferrari, o prefeito, está tentando revitalizar a indústria siderúrgica e diversificar a cidade, investindo em piscicultura, turismo e outras atividades adequadas à sua localização à beira-mar, em frente à ilha de Elba.

“Não tenho problema nenhum em pronunciar a palavra fascista, ou mesmo antifascista”, diz Ferrari. Mas certamente, sugere ele, o julgamento dos apoiadores de Piombino comprova a ruptura total do seu partido com os seus antecessores.

Em julho, foi firmado um acordo entre uma empresa ucraniana, uma siderúrgica italiana e as autoridades locais para investir US$ 3,7 bilhões na construção de uma usina de última geração. No entanto, Piombino já fez tantas promessas que não há muito otimismo.

Mirko Lami, ex-dirigente do sindicato de esquerda C.G.I.L., que outrora detinha grande influência, afirma que Meloni não cumpriu suas promessas. Os salários estão “entre os mais baixos da Europa” e “o sistema de saúde está à beira do colapso”.

Ferrari discorda, argumentando que um renascimento urbano começou, e conta uma história sobre o líder de seu partido.

“Era 2020 e Meloni veio nos visitar”, lembrou Ferrari. Na véspera de seu mandato, disse ele, o Partido Democrático, de centro-esquerda, havia aprovado um projeto para expandir um enorme aterro sanitário próximo, onde o lixo fétido apodrecia.

“Dias antes, ela exigiu a documentação sobre o aterro sanitário, detalhes do projeto de ampliação, a natureza do lixo, minhas posições. E quando tivemos reuniões, ela conhecia o dossiê melhor do que eu!”

O projeto foi abandonado. O prefeito sorriu radiante. “Essa é Giorgia Meloni.”

Um círculo íntimo restrito

Quando Meloni assumiu o cargo, Matteo Renzi, ex-primeiro-ministro de centro-esquerda da Itália, decidiu presenteá-la com um anel elegante. Bill Clinton o havia aconselhado que as piores decisões eram resultado de noites mal dormidas.

“Eu disse: ‘Giorgia, este trabalho é lindo, mas agonizante; por favor, anote todas as noites quantas horas você dorme.’”

Meloni logo jogou o monitor fora. “Ela achou que eu estava tentando controlá-la”, disse Renzi.

“Ela não confia em ninguém”, disse-me Gianfranco Fini, ex-líder do MSI que redefiniu o partido como uma força democrática em 1995 e conduziu Meloni a uma ascensão meteórica. “Ela faz seus próprios cálculos.”

Meloni trabalha em um pequeno grupo que inclui sua irmã mais velha, Arianna, e vários ativistas de extrema-direita que ela conheceu na juventude. Eles ocupam os cargos mais importantes no Senado, em instituições culturais e em outros lugares.

Seu estilo insular enfureceu a esquerda. Renzi, que lidera um pequeno partido de centro-esquerda chamado Italia Viva, causou recentemente alvoroço ao sugerir que “a Família Addams” governava a Itália. Ele está tentando unir a esquerda para derrotar Meloni nas eleições do ano que vem.

Elly Schlein, líder do Partido Democrático, o maior partido de esquerda, citou a irrisória taxa de crescimento econômico da Itália, de 0,5%, uma queda de 8% nos salários reais, algumas das contas de energia mais caras da Europa e hospitais públicos sobrecarregados como prova de uma “oportunidade histórica desperdiçada”.

“A estabilidade pode ser um valor, mas quando se trata de imobilidade, as pessoas não perdoam”, disse-me Schlein sobre Meloni.

A primeira-ministra rebateu em nossa entrevista. Ela enumerou uma longa lista de “parâmetros” — emprego, inflação, desembarque de imigrantes ilegais, gastos com saúde, spreads de mercado. “Digam-me se não estão melhores!”

Esses números de fato apresentaram uma tendência positiva, embora às vezes de forma marginal.

“Mas é possível”, diz ela com seu sarcasmo característico, “que eu não tenha feito nada!”

“O melhor que se pode dizer é que não houve nenhum desastre”, disse Veronica De Romanis, professora de economia da Universidade LUISS Guido Carli, em Roma, observando que 1,2 milhão de italianos estão desempregados, sem estudar ou em formação profissional, e muitos deixaram o país.

O que Meloni trouxe foi disciplina fiscal. Sob a gestão de Giancarlo Giorgetti, um ministro das Finanças respeitado, o déficit orçamentário caiu de 7% para perto do limite de 3% da União Europeia. A dívida da Itália foi reclassificada para um nível superior pela primeira vez em 23 anos.

Para Meloni, que afirmou em 2014 que “somos a favor da saída do euro”, a mudança repentina para alcançar esse objetivo foi marcante.

Ela sabia que a Itália precisava de dinheiro da UE, incluindo cerca de 221 mil milhões de dólares em fundos de recuperação da pandemia, um enorme impulso para a economia.

A seção Colle Oppio do partido Irmãos da Itália, nas ruínas das Termas de Trajano — onde Giorgia Meloni se reunia com seus quadros de direita durante seus anos de formação política —, em Roma, 28 de julho de 2026. Foto: Davide Monteleone/NYT

Assim, como uma boa tecnocrata europeia, do tipo que ela tanto detestava, Meloni alinhou-se à questão do déficit italiano. Como uma boa membro europeia da OTAN, ela apoiou a Ucrânia contra a Rússia.

“Quase tudo é reversível”, disse Salvatore Merlo, editor-adjunto do jornal Il Foglio, que conhece bem Meloni.

‘Eu sou Giorgia’

Se o pai de Meloni lhe deu pouco, ao viver na Espanha, proporcionou-lhe um domínio perfeito do espanhol. Em 7 de outubro de 2021, num discurso de 17 minutos em Madri, ela proferiu, não pela primeira vez, palavras que se tornaram seu hino.

“Yo soy Giorgia! Soy una mujer!” e assim por diante. “Eu sou Giorgia, sou uma mulher, sou mãe, sou italiana, sou cristã. Eles não podem tirar isso de mim! Eles não vão tirar isso de mim!”

“Eles” eram os objetos do desprezo de Meloni: os “bárbaros do Black Lives Matter”, como ela os chamava; a esquerda tentando “transformar a Europa em um estado soviético”; os Verdes “nos levando à falência”; os “monstros” que propõem o uso de útero de substituição.

Perguntei a Meloni por que seu grito de coração repercutiu tanto. “Porque tocou numa corda sensível que milhões de pessoas sentiram”, disse ela. “Sentir-se ameaçado em sua identidade mais autêntica e básica. Deu um slogan fácil para uma rebelião emocional.”

Parte dessa “identidade básica” é ser mulher, diz Meloni, sem explicar como ela está ameaçada. Ela se esquiva quando pergunto se é feminista. Ela tende a se adaptar bem a uma cultura sexista, com uma autodepreciação irônica.

Quando uma foto deepfake dela de lingerie, gerada por inteligência artificial, se espalhou online recentemente, ela a publicou em sua conta do Instagram. Ela a denunciou, de certa forma, comentando que “melhorou muito minha aparência”.

Meloni foi criticada por escolher ser chamada de “il presidente”, no masculino. Ela me disse que acha que as feministas travaram “as batalhas erradas” em questões como cotas de gênero.

“O que me interessa é se tenho a liberdade de me tornar presidente do Conselho de Ministros”, diz ela, usando o nome formal do gabinete italiano e do seu primeiro-ministro. “Isso é igualdade, não ser chamada de ‘la presidenta’”.

Ela defende um caminho igualmente árduo e prático para alcançar o respeito global por sua nação.

A Itália precisava parar de ser “o estepe da França e da Alemanha”, diz ela. Precisava “estar sentada à mesa daqueles que definem os rumos” e precisava de estabilidade — “não um ponto de chegada, mas um ponto de partida”, explica — para alcançar esse objetivo.

A busca de Meloni para reformular a autoimagem da Itália é evidente em pequenos detalhes. Ela quase nunca se refere à “República” ou ao “país” ao falar da Itália, mas sempre à “nação”.

Trata-se de uma mudança marcante em relação às suas antecessoras, concebida para reforçar a ideia de uma comunidade de laços sanguíneos e culturais, com todo o direito a um renovado orgulho nacional.

É claro que uma República é o lar de cidadãos iguais; a nação, tal como entendida por Meloni, tem muito a ver com a ancestralidade italiana. Por essa razão, a imigração tem sido uma questão central e controversa.

Este mês, Meloni liderou um amplo ataque da UE contra Sánchez, o primeiro-ministro espanhol, por supostas políticas de imigração frouxas, após milhares de migrantes terem entrado em Ceuta, o pequeno território espanhol no norte da África.

O confronto demonstrou a influência de Meloni em impulsionar a Europa para a direita, bem como sua capacidade de manipular emoções exacerbadas para alimentar sua base de extrema-direita.

No país, suas políticas de imigração têm sido alvo de intensos protestos.

Ela autorizou discretamente cerca de 450 mil vistos para migrantes trabalharem nos campos e fábricas da Itália e cuidarem da população idosa da Europa. Ela também elaborou um plano de investimento para a África, visando aumentar o incentivo ao desenvolvimento no próprio país em vez de emigrar.

Um plano para enviar requerentes de asilo para a Albânia ainda enfrenta contestações judiciais e se mostrou caro, com resultados insignificantes. Parecia um fiasco até que, em junho, a União Europeia aprovou o “uso” de “centros de retorno” para requerentes de asilo em “países terceiros seguros”.

Isso permitiu que Meloni reivindicasse a vitória na política de imigração europeia.

A pergunta que persiste

Os italianos estão rodeados por vestígios do Império Romano. Sabem que o auge do seu poder foi atingido há muito tempo e conhecem a vaidade da grande ambição. “A Itália repudiará a guerra”, afirma a sua Constituição de 1948.

Um exemplo disso pode ser encontrado no Colle Oppio, uma área atrás do Coliseu que abriga as ruínas das termas do Imperador Trajano, onde Meloni e seu grupo de extrema-direita costumavam se reunir. Para Meloni, ainda adolescente, o local assumiu uma importância quase mística.

“No Colle Oppio aprendi a defender minhas ideias”, diz Meloni. “Tornei-me a pessoa que sou graças aos anos de militância juvenil.”

Guido Crosetto, ministro da Defesa e cofundador, juntamente com Meloni, da organização Irmãos da Itália, afirmou em entrevista no ministério que ela “sacrificou tudo por aquilo que construiu”.

Ao redor dele, estavam pendurados retratos de todos os antigos ministros da Defesa italianos, incluindo Mussolini. Tendo trabalhado na Alemanha por alguns anos, tentei imaginar um equivalente em Berlim. Um retrato de Hitler em exposição! Falhei. Fascismo é uma palavra diferente para alemães e italianos.

Lembrei-me disso em 22 de maio, quando Meloni publicou um elogio no Instagram a Giorgio Almirante, um fascista fervoroso sob o regime de Mussolini e fundador, em 1946, do MSI, o precursor neofascista do seu partido. Sua concepção de política, vivida “com paixão, dignidade e respeito”, perduraria, prometeu ela no 38º aniversário de sua morte, e seria sempre lembrada por uma direita italiana determinada a agir “com coragem”.

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, reúne-se com outros líderes mundiais para uma foto de grupo na cúpula do G7, na terça-feira, 16 de junho de 2026, em Evian-les-Bains, França. Foto: Julia Demaree Nikhinson/AP

Almirante foi um colaborador proeminente de uma revista racista e antissemita, “A Defesa da Raça”, publicada sob o regime de Mussolini. Nela, escreveu: “Nosso racismo deve ser o que corre em nossas veias”. Caso contrário, alertou, a Itália cairia nas mãos “dos mestiços e dos judeus”.

Mais tarde na vida, Almirante abraçou a democracia. “Ele nos ensinou algo muito importante em termos de valores”, diz Meloni na entrevista. “Que você pode lutar sua batalha com dignidade mesmo partindo de uma posição inicial muito marginal.”

“Meloni nunca disse ou fez nada fascista”, disse-me Stefano Feltri, editor de uma newsletter do Substack chamada “Appunti” (Notas). “Mas ela não faz parte da Itália antifascista, da cultura da Resistência que produziu nossa Constituição.”

Meloni tentou este ano alterar essa Constituição em um referendo que teria submetido os juízes italianos, há muito vistos com ressentimento pelos líderes de direita como uma força liberal, a um controle político mais rígido.

A derrota esmagadora que ela sofreu em sua proposta legislativa interna mais ambiciosa pareceu ser um indicador de que nem todos os italianos confiam nela para exercer o poder.

“Uma vitória teria levado posteriormente a modificações mais profundas na Constituição, na direção de um executivo mais forte, um sistema mais presidencialista”, disse Conti, a historiadora. “Esse é o objetivo fundamental dela.”

Contudo, não há sinais de que seu apoio esteja diminuindo. Ele se mantém em torno de 27%, ligeiramente acima de seu índice na eleição de 2022. Por ora, uma esquerda dividida não tem uma líder de sua estatura, deixando a eleição do ano que vem em aberto.

Um novo desafio surgiu à sua direita na figura de Roberto Vannacci, um general aposentado cujo novo partido, Futuro Nacional, cresceu rapidamente. “O nazismo certamente teve seus lados negativos, assim como muitos outros períodos históricos”, disse-me ele.

Ele defendeu a “homogeneidade cultural” italiana, declarou que os gays “não são normais” e instou à “remigração” de 500 mil imigrantes indocumentados.

“O erro fundamental de Meloni foi ter se diluído”, disse ele.

Retorno da Direita?

As conquistas de Meloni como primeira-ministra exigiram moderação disciplinada. Mas suas posições anteriores e seu núcleo nacionalista sugerem que, se ela for reeleita no próximo ano e Marine Le Pen chegar ao poder na França, as incertezas em torno do destino da Europa aumentarão. O AfD também poderá um dia governar a Alemanha.

“A memória se desvanece após três gerações”, disse-me Thomas Bagger, embaixador alemão na Itália. “Nem mesmo o Holocausto ressoa como antes, e tampouco o imperativo da integração na Europa.”

O nazismo e o fascismo não estão a regressando, mas o nacionalismo, a xenofobia e a guerra nas suas fronteiras representam um sério desafio para a União Europeia, com Trump e o presidente Vladimir Putin da Rússia querendo também enfraquecê-la ou mesmo desfazê-la.

“Na melhor das hipóteses, Meloni quer uma Europa com pouca intervenção”, disse-me Nathalie Tocci, professora da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, na área da Europa.

O equilíbrio de poder já mudou. Neste verão, vi Meloni ao lado de Macron, seu crítico ocasional, respondendo a perguntas de jornalistas na primeira cúpula franco-italiana desde 2020, realizada em uma suntuosa villa na Côte d’Azur.

“Não acho que esteja em posição de aconselhar os franceses sobre o que é melhor para eles”, disse ela, voltando seu olhar para Macron. “Porque não me esqueço do que me fizeram.”

Quando Meloni foi eleito em outubro de 2022, a França provocou indignação em Roma ao pedir o monitoramento dos “direitos e liberdades” na Itália.

Ali, com um tom de voz incisivo, Meloni lembrava Macron de sua aparente arrogância. Desde então, a Itália dela provou ser mais estável do que a França dele.

Meloni se move hoje com a autoridade de uma líder consolidada. Na recente assembleia geral anual da Confindustria, a associação empresarial mais poderosa da Itália, sua voz se elevou firmemente enquanto dizia aos chefes de indústria reunidos para não terem medo, “porque tempos de incerteza são tempos de coragem, e tempos de coragem são inevitavelmente tmbém tempos de escolha”.

Não sabemos quais escolhas Meloni fará. Mas sabemos o conselho que ela deu à sua filha, Ginevra, que está aprendendo coreano aos 9 anos: “Escolha o caminho mais longo, porque os atalhos são sempre uma ilusão.”

Perguntei a Meloni como o iminente marco no final da sua mais longa trajetória política a afetava.

“Sabe, as pessoas me dizem: ‘Giorgia, você precisa se dar conta de que fez história!’, e tudo o que consigo pensar são nessas crianças que, depois da minha morte, um dia dirão: ‘Meu Deus, hoje à tarde tenho que estudar Giorgia Meloni!’”

O personagem que fez história riu.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Família de Blumenau condenada por 'homeschooling'...


Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 24 de agosto de 2026

Família de Blumenau condenada por 'homeschooling' conta com 13 professores; filho faz duas faculdades

A rotina da família inicia por volta das 6h30 com desjejum e organização da casa. Logo depois, das 8h às 12h, os quatro filhos em idade escolar se dedicam ao estudo das disciplinas previstas para cada etapa de aprendizado, como Português, Matemática, História e Ciências. Cursos extracurriculares, passeios e projetos ocorrem à tarde. Reportagem de Raquel Derevecki para a Gazeta do Povo:

Após ser condenada, em primeira instância, por manter os filhos em educação domiciliar, a família Vieira, de Blumenau (SC), tem chamado atenção pelos resultados educacionais apresentados. À Gazeta do Povo, a mãe Patrícia da Silva Vieira relata que os filhos em idade escolar são acompanhados por 13 professores e mantêm uma rotina que inclui disciplinas regulares, idiomas, música e programação. O primogênito cursa duas graduações simultaneamente, e todos os irmãos somam mais de 300 medalhas no xadrez.

“Isso acontece porque no homeschooling, nosso tempo rende muito mais”, afirma a mãe, ao explicar que, pela experiência da família, o estudo individualizado permite cumprir conteúdos acadêmicos em menos tempo do que ocorreria em uma escola regular. “E a gente prioriza a criança sendo criança, tendo uma vivência natural e saudável”, diz.

Segundo ela, a rotina da família inicia por volta das 6h30 com desjejum e organização da casa. Logo depois, das 8h às 12h, os quatro filhos em idade escolar se dedicam ao estudo das disciplinas previstas para cada etapa de aprendizado, como Português, Matemática, História e Ciências. Cursos extracurriculares, passeios e projetos ocorrem à tarde.

Patrícia informa ainda que o planejamento foca nas necessidades de cada filho. “O José Gabriel, de 6 anos, realiza atividades voltadas à alfabetização, enquanto o Philippe Miguel, de 8, está na fase gramatical”, explica a mãe, que é responsável pelo ensino dos menores.

À medida que crescem, os filhos passam a direcionar parte da formação ao desenvolvimento de habilidades. Thomas, de 13 anos, pediu aos pais cursos de programação de software. Kyara, de 16, se concentra em música e idiomas. Para isso, a família conta com acompanhamento de 13 professores particulares, que atendem um ou mais filhos durante a semana. “Aulas de violino, por exemplo, só eu faço”, afirma a adolescente.

Patrícia aponta que foi a atenção às especificidades de cada filho que fez a família optar, há 13 anos, por esse modelo de ensino. A decisão, segundo ela, foi tomada após a experiência do filho mais velho, Igor Vieira, que ingressou em uma escola pública aos 6 anos, conforme legislação vigente à época, mas já havia sido alfabetizado em casa, no dia a dia com a família.

“Ele sabia ler, escrever com letra cursiva e ver as horas, e os amiguinhos ainda estavam aprendendo letras de fôrma e vogais”, conta a mãe.

“Isso fazia com que eu passasse boa parte das aulas esperando pelos demais, e lembro de sentir desinteresse pelas atividades escolares”, recorda Igor, que estudou na escola regular até os oito anos, frustrado.

“Nosso filho estava perdendo o gosto pela aprendizagem porque lá era somente um passatempo, enquanto em casa tínhamos que ficar aplicando por nossa conta conteúdos que trouxessem desenvolvimento”, relata Patrícia, que iniciou, então, a prática do homeschooling.

Aos 19 anos, Igor cursa duas graduações simultâneas e trabalha como professor

Hoje, Igor está com 19 anos e cursa simultaneamente as graduações de Letras e História. Poliglota, o rapaz também trabalha como professor de idiomas, História, Literatura e xadrez, além de atuar como árbitro nacional da modalidade. Ele dá aulas, inclusive, para os irmãos José e Philippe, de seis e oito anos.

“É uma rotina bastante intensa, mas flexível, e fui acostumado desde cedo a organizar meus próprios horários”, destaca o rapaz, que concluiu oficialmente os ensinos Fundamental e Médio ao ser aprovado nas duas provas do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja).

“E tive bom desempenho”, afirma o estudante universitário, que diz já ter recebido convites para estudar em países como Portugal e Itália. "Ainda não consegui aceitar, mas todos estão de pé", comenta.

Crianças da família amam ler: “Somos uma família leitora”

Segundo Igor, um dos motivos para esse resultado é a prática da leitura, incentivada por seus pais desde cedo. “Sempre li muito em voz alta com meus filhos, então todos gostam”, revela Patrícia, que tem uma biblioteca familiar em casa e leva as crianças quinzenalmente à biblioteca pública de Blumenau. “Somos uma família leitora”.

As crianças, inclusive, chamam atenção pela quantidade de livros que leem. O filho Thomas Raphael, por exemplo, está atualmente com 13 anos, mas já era apaixonado pela prática aos seis, quando leu cerca de 60 livros durante o ano e concluiu a obra "O Pequeno Príncipe" em dois dias.

A irmã Kyara também coordena um clube de literatura online para que meninas de oito a 16 anos desenvolvam o hábito de ler. “Desde que iniciei, já passaram mais de 50 meninas”, afirma a jovem, que publica listas anuais de leitura da família no Instagram. A adolescente também é professora de latim e inglês, dando aulas para os irmãos mais novos e para turmas infantis.

Outro ponto de destaque na rotina da família é o xadrez, pois todas as crianças aprendem a jogar desde cedo e são incentivadas a participar de torneios da modalidade. Segundo o pai, Diego Vieira, as crianças colecionam resultados em competições regionais e nacionais.

“São mais de 300 medalhas que meus filhos ganharam em competições de xadrez representando o município de Blumenau”, disse, em vídeo publicado nas redes sociais.
 
Em 2023, inclusive, os irmãos receberam uma Moção de Aplauso da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) em reconhecimento às conquistas no esporte. O destaque foi feito pela deputada estadual Ana Campagnolo.

Família Vieira foi condenada pela prática do homeschooling

Apesar dos resultados em 13 anos praticando homeschooling, Diego e Patrícia foram sentenciados, em julho, a pagar multa de aproximadamente R$ 65 mil e a matricular as crianças em rede regular de ensino. A decisão foi proferida pelo juiz substituto Willyam Guilherme Sandri Junior Lopes, da Vara de Infância e Juventude de Blumenau, e cabe recurso.

A Gazeta do Povo entrou em contato com a Vara, mas foi informada que as informações do processo são sigilosas e que a instituição não poderia passar informações. Durante a ligação, no entanto, a atendente disse que o juiz substituto que proferiu a sentença não estaria mais atuando no local e que a juíza titular da Vara daria sequência ao processo.

Segundo o advogado Marcelo Matteussi, a família apresentou embargos de declaração ao juízo de primeira instância e aguarda decisão. Caso o recurso não seja acolhido, recorrerá ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC).

Regulamentação da educação domiciliar segue parada no Senado

Atualmente, não há lei federal sobre o homeschooling no Brasil, mas o STF reconheceu, em 2018, que a educação domiciliar é compatível com a Constituição do país e que precisa de regulamentação.
O principal Projeto de Lei a respeito é o PL 1.338/2022, que já foi aprovado na Câmara dos Deputados, em 2022, mas segue parado na Comissão de Educação do Senado. Essa comissão é presidida atualmente pela senadora Tereza Leitão (PT-PE).

Texto e imagens reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A Falha das máquinas na morte da menina

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 18 de agosto de 2026

A Falha das máquinas na morte da menina
Por Fernando Gabeira (In Blog)

A morte da menina de 13 anos numa transmissão ao vivo na plataforma Discord trouxe um grande e importante debate. Apesar de tantas intervenções esclarecedoras, fiquei com muitas dúvidas.

O Discord comunicou ao governo que suas máquinas de aprendizagem detectaram o problema, mas foram incapazes de mensurar sua gravidade e acionar o alarme. Na verdade, quem parece ter acionado o alarme foi a vigilância humana de um núcleo digital da Polícia Civil de São Paulo.

Minha primeira questão: se as máquinas de aprendizagem foram incapazes de acionar o alarme, não seria o caso de voltarem para a escola, aprenderem melhor a lição? Não sei como funcionam, mas, se obedecem à lógica da inteligência artificial, trabalham basicamente com linguagem.

A história da IA mostra que nem sempre as máquinas de aprendizagem estão maduras para uso humano em sua fase inicial. Esse é o tema de um grande debate entre os grupos que trabalham na segurança de um modelo e os que o desenvolvem e precisam colocá-lo no mercado. Os grupos de segurança querem precisamente evitar tragédias, enquanto os outros precisam correr para responder aos investidores, ávidos pelo retorno de seu capital.

No caso dos grandes modelos de IA, houve muita discussão na época do lançamento do GPT-3. O sistema depende da infusão de milhões de dados, colhidos na internet. É difícil filtrá-los. Nos primórdios, as máquinas produziam textos simpáticos aos supremacistas brancos e elogiavam Hitler.

Um famoso artigo de pesquisa intitulado “Sobre os perigos dos papagaios estocásticos: os modelos de linguagem podem ser grandes demais?” foi durante algum tempo referência no debate. Sua coautora, Timnit Gebru, chegou a perder o emprego pela ousadia de denunciar a imaturidade dos sistemas de IA.

No caso do GPT-3, alguns usuários chegaram a denunciar os delírios do modelo. Se alguém perguntasse sobre o problema da Etiópia, a máquina responderia: o problema da Etiópia é a própria Etiópia; a solução é destruir a Etiópia. Durante a semana, me perguntei se as máquinas de aprendizagem do Discord não sofrem da mesma imaturidade, se não foram postas em ação antes de todos os testes de segurança.

Muitos pesquisadores afirmam que esses sistemas aprendem com a prática. É preciso escala, muita prática para que se aperfeiçoem. Mas a pergunta fundamental permanece: quando estão prontos para a comercialização, qual é a margem de segurança adequada?

Creio que a mesma pergunta vale para os carros autônomos. Dependem da análise de milhões de imagens para rodar com segurança. Essas imagens que absorvem são analisadas por milhares de trabalhadores no Quênia e também na Venezuela. Mas qual o momento para afirmar que estão prontas para sair por aí se dirigindo? Houve casos, nos testes, de atropelamentos de alguém empurrando uma bicicleta. Não notaram a imagem.

Essas reflexões não são uma oposição ao desenvolvimento tecnológico. Ele deveria obedecer às necessidades humanas e sociais de segurança. No entanto, obedece à lógica do retorno do capital investido. Às vezes fico pensando que a menina morta é uma vítima desse mecanismo. Espero que as investigações respondam a essa pergunta e transcendam a questão superficial de banir ou não uma plataforma.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br

Juliana Dal Piva ENTREVISTA brigadeiro Carlos Baptista Júnior

Entrevista compartilhada do site ICL NOTÍCIAS, de 20 de agosto de 2026

Ex-comandante da Aeronáutica: Escolha de generais para Defesa alimentou trama golpista

Em entrevista ao ICL Notícias, brigadeiro relata bastidores do governo Bolsonaro e critica escolha de militares para a Defesa

Juliana Dal Piva (Colunistas ICL) *

Carlos Baptista Júnior, brigadeiro e ex-comandante da Aeronáutica, se tornou durante o julgamento da tentativa de golpe de Estado, em 2025, testemunha central de como o ex-presidente Jair Bolsonaro planejou permanecer ilegalmente no poder. Em setembro, ele lança “Eu disse não! – Uma trincheira antigolpista”, pela editora Autêntica, obra na qual ele detalha a experiência durante o governo Bolsonaro.

Em entrevista ao ICL Notícias, ele disse que o general Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa, foi “fraco” ao não resistir às pressões do ex-presidente e analisou que a escolha de generais, na ativa ou recém-passados à reserva, para ocupar a liderança do Ministério da Defesa, alimentou a trama golpista. Além disso, Carlos Baptista Júnior reiterou a afirmação de que estava presente quando o general Marco Antonio Freire Gomes, ex-comandante do Exército, disse a Jair Bolsonaro: “Se o senhor fizer isso (seguir com a minuta golpista) vou ter que lhe prender”.

Confira a entrevista:

ICL Notícias — O senhor abriu o livro falando sobre o dia em que foi à Polícia Federal para prestar um depoimento. É uma curiosidade que muitas pessoas tiveram desde o momento em que o depoimento veio à tona: por que só naquele momento?

Brigadeiro Baptista Júnior — Quando passei o comando, no dia 2 de janeiro, mudei para um apartamento de um amigo na Asa Sul. Acompanhei o 8 de janeiro tendo a visão dos helicópteros sobrevoando e, logicamente, pela televisão. Vi que aquilo era algo muito grave e, imediatamente após aquilo muitos desses fatos foram incluídos nos inquéritos que haviam sido abertos em 2019. E então, eu não estava preparado para receber aquela intimação. Mas eu sabia que ia acontecer uma análise de todos esses fatos e que eu certamente estaria envolvido.

O senhor teve vontade de procurar a Polícia Federal ou a Procuradoria-Geral da República antes daquele momento, ou realmente só esperou ser chamado?

Eu esperei ser chamado. Foi quando se abriu a petição 12.100, né? Que estava ligada a um dos inquéritos abertos lá atrás, em 2019.

Mas, enfim, como ex-comandante da Aeronáutica e como cidadão brasileiro, o senhor não teve vontade de denunciar tudo isso antes daquele momento?

Eu já previa que isso ia acontecer. Talvez, por isso, nunca tive a iniciativa de procurar uma autoridade policial para fazer uma denúncia espontânea.

É que surgiu um questionamento sobre o momento em que isso veio à tona, porque as pessoas não o conheciam.  O senhor é uma pessoa discreta. O general Freire Gomes também. Então, quando surgiram os dois depoimentos, o do senhor e o dele, lá em março de 2024 — um ano e pouco depois de todos os eventos —, ficou a dúvida se os senhores falaram só porque foram chamados pela Polícia Federal ou se foi realmente uma responsabilidade assumida com o Estado brasileiro ao revelar tudo aquilo.

Há muita gente que faz julgamentos a partir do seu próprio ponto de vista, da sua percepção. Até hoje temos pessoas que nos acusam de termos prevaricado por não termos dado ordem de prisão ao presidente. Quem diz isso teria que estar lá dentro. É muito difícil, hoje, do ar-condicionado, do fato já resolvido, fazer esse tipo de julgamento, né? Isso passou. A nossa decisão foi tomada e a história evoluiu, como sabemos.

Há algum momento que o senhor destaca ao longo do seu livro em que se sente a evolução da escalada golpista?  Há algum momento que o senhor marca como aquele em que teve certeza de que se tentaria um golpe de Estado?

Hoje eu conheço muito mais do que conhecia naquela época. Mas, pela minha percepção ao vivo dos fatos, o que mais me chamou a atenção foi a participação do presidente. O primeiro fato que me chamou a atenção foi a presença dele no aniversário do Exército, em frente ao Forte Apache — o quartel-general do Exército —, numa manifestação que pedia intervenção militar. O presidente subiu na carroceria de uma viatura para participar da manifestação. Aquilo não foi bom.

Algum tempo depois, quando o general Fernando ainda era ministro da Defesa, houve na Praça dos Três Poderes, uma manifestação contra o STF e outras demandas de parte da população. Eu sempre tomo muito cuidado ao falar da população e do povo, porque muita gente está sequestrando o que é o povo.

E o presidente fez um sobrevoo de helicóptero — era o helicóptero da Força Aérea, camuflado, não o branco dele, com a porta aberta, da foto do dia seguinte. Era ele, com o general Fernando, sobrevoando a manifestação. Posso citar a escolha de um ministro militar após outro no Ministério da Defesa, e o desfile de blindados da Marinha em frente ao Palácio do Planalto.

Hoje, depois de tudo que li, percebo que muitos jornalistas acham que o presidente Bolsonaro já assumiu com um espírito, ou uma estratégia de longo prazo, de permanecer no poder, ganhando ou não as eleições. Eu sempre discordei disso, embora respeite essa visão. Mas foi crescendo, né? O 7 de Setembro na Avenida Paulista… Eu fui lutando para demover essa ideia o tempo todo. Onde vi que realmente existia alguma coisa foi no dia 14 de dezembro, quando a minuta foi apresentada aos três comandantes.

Brigadeiro, o senhor também acha que essa opção de indicar generais para o comando do Ministério da Defesa contribuiu para que esse processo golpista?

O Ministério da Defesa foi criado em 1999, a exemplo de todos os países do mundo, para estabelecer o controle civil sobre a instituição militar. E aqui eu não estou falando de a pessoa ser civil ou militar — apesar disso importar. Nos Estados Unidos, por exemplo, você pode colocar um militar, mas desde que ele esteja há sete anos na reserva, porque tirar um general, um almirante ou um brigadeiro quatro estrelas que estava na reserva até o mês passado e colocá-lo como ministro da Defesa — muito dificilmente ele terá uma visão homogênea das três forças em todos os aspectos: de emprego, de prioridade orçamentária e de visão operacional.

Nos Estados Unidos, a pessoa precisa ficar sete anos na reserva para poder assumir o cargo. Aqui, tivemos Joaquim Silva e Luna, que é muito meu amigo — hoje prefeito de Foz do Iguaçu —, um excelente oficial. Não estou julgando a capacidade de nenhum deles, mas tivemos quatro oficiais-generais do Exército, de quatro estrelas, seguidamente como ministro da Defesa.

Acho que isso não é bom. E acho que vem de uma visão do presidente Bolsonaro: desde a criação do Ministério, ele fez campanha contra, com ataques ao presidente Fernando Henrique. Ele via isso como uma estratégia para tirar os militares das decisões de primeiro e segundo escalão, o que eu discordo completamente.

O senhor relata no livro que se sentiu muito desconfortável na reunião de acompanhamento da apuração do primeiro turno da eleição de 2022 dentro do Ministério da Defesa. E, um pouco antes, também conta que ocorreram inúmeras reuniões ao longo de 2022, sempre com o mesmo tema da questão eleitoral. Ainda que o senhor só tenha tido certeza da tentativa do golpe no dia 14, já sentia, antes disso, que essa mistura entre política e Executivo estava criando esse clima golpista?

Não tenho dúvida. Comento no livro que, principalmente, após 31 de março de 2022, quando o general Braga Netto se desincompatibilizou para ser candidato a vice-presidente na chapa do ex-presidente Jair Bolsonaro e assumiu o general Paulo Sérgio, o tema básico do Ministério da Defesa foi o que forçou as Forças Armadas a se envolverem nesses temas.

O trabalho do general Paulo Sérgio, durante todo o tempo em que foi ministro, foi muito dedicado ao processo eleitoral. Isso certamente não faz parte das atribuições das Forças Armadas, embora elas sempre possam ajudar no processo eleitoral — como o ITA, a Abin ou a área de TI da Polícia Federal ajudavam, e como todos os órgãos dos partidos também ajudavam.

O problema é que houve uma ligação, ou uma condição imposta pelo presidente — essa é a minha percepção, com base no que ele disse — de que só reconheceria o resultado se fosse aprovado pelas Forças Armadas. E aí foge demais do papel institucional das Forças Armadas.

Ao mesmo tempo em que havia essa pressão sobre o relatório das Forças Armadas — quer dizer, na medida em que a conclusão do trabalho feito pelas Forças Armadas era de que não havia nada de errado, mas também se sentiu obrigado a dizer que não podia afirmar que não achou erro nenhum —, o senhor poderia falar um pouco sobre essa pressão que houve para a emissão daquele relatório?

Bem, durante esse período tivemos três presidentes do TSE: primeiro o ministro Fachin, depois Barroso e, por último, Alexandre de Moraes. Os três ministros abriram a possibilidade de as Forças Armadas se aprofundarem no sistema, né? E aí tínhamos, de um lado — e eu nunca vi dolo nisso —, a necessidade de os militares, se fossem participar de algum tipo de fiscalização, se aprofundarem muito rapidamente num sistema que não é simples.

Então o Ministério da Defesa começou a criar demandas para conhecer e, digamos, melhorar ou fechar portas para um possível acesso não autorizado ao sistema. E o TSE, por sua vez, estava espremido pelo tempo. Quando chegou o segundo turno, o relatório não foi feito; depois do primeiro turno, foi cobrado pelo TCU, e o Ministério da Defesa não entregou. Conto no livro que, entre não dar nenhuma informação sobre o primeiro turno e dar todas as informações correndo o risco de ainda haver algum erro, eu achava que existia uma possibilidade intermediária.

Cheguei a sugerir ao ministro da Defesa para fazer algumas audiências públicas. Isso não foi aceito. A comissão estava um pouco reticente em fazer um relatório final do primeiro turno, e assim fomos até o dia nove. Então, se você pegar o período após o segundo turno — desde a primeira reunião com o presidente Bolsonaro, quando ele se manifestou por dois minutos, ali no Alvorada, sobre o segundo turno, até o dia nove, quando o relatório foi entregue —, foi um clima muito tenso, né? Tivemos aquelas apresentações do argentino Fernando Cerimedo e outras tantas descobertas — entre aspas — de fraudes. Isso tudo foi muito cansativo e exigiu bastante trabalho de checagem, e nós checamos: a equipe de fiscalização checou todas as descobertas.

No dia nove, foi apresentado o relatório final dizendo que não havia sido detectado, em todos os processos de fiscalização, qualquer desvio ou imprecisão. No mesmo dia nove, o TSE agradeceu publicamente e ratificou que as Forças Armadas não haviam encontrado nada e que estavam apoiando a lisura do processo.

Quando chega o dia dez — isso é público, foi mencionado no julgamento do STF, e o próprio ministro Paulo Sérgio disse que se arrependia disso — ele envia o que vou chamar de réplica: um documento público ao TSE dizendo que, embora tivessem mandado um relatório no dia anterior afirmando que não encontraram nada, isso não queria dizer que não pudesse ter havido irregularidade. Isso foi muito ruim, e a partir daí o clima ficou bem pior, a partir do dia 11.

O senhor relata desde o primeiro depoimento que deu à PF que, em certo ponto dessas discussões, o general Freire Gomes chegou a dizer ao ex-presidente Jair Bolsonaro algo como “se o senhor continuar assim, eu vou ter que prendê-lo”. Isso também aparece no seu livro. O que o senhor acha que aconteceu para que o próprio general Freire Gomes recuasse dessa afirmação?

Juliana, não é uma frase simples de se esquecer. Como tenho dito, o general é uma pessoa muito polida, de excelente trato, mas ele sabia que era o comandante do Exército, né? As pessoas distorceram a frase que tenho relatado — foi exatamente a frase que escutei.

Não foi voz de prisão, não foi dita em tom de ironia, tampouco em tom de ameaça. Foi dentro de uma conversa institucional da cúpula militar com o presidente, que começava a se exaltar. Acho que a declaração dele na Polícia Federal vai bem nesse sentido. E deixo aqui registrado que, até hoje, eu e o general Freire Gomes somos muito amigos e temos contatos periódicos — isso não abalou nossa amizade.

Estávamos discutindo possibilidades de estados de exceção, como o que foi usado para tirar os caminhões que bloqueavam as estradas. E foi isso, a partir do dia 11: estávamos discutindo a possibilidade de estado de sítio, estado de defesa. E já havíamos colocado para o presidente, naquela mesa, desde o primeiro dia: “Se o senhor tem alguma intenção de decretar um estado de exceção, já está na hora — ou já estamos atrasados — para chamar aqui o vice-presidente, o presidente do Senado, o presidente da Câmara. Este não é um assunto que se discuta apenas com o ministro da Defesa e os comandantes das Forças.

“Cadê o ministro da Justiça? Cadê o Advogado-Geral da União?” Foi dentro desse contexto de discutir uma hipótese que o general disse ao presidente, no depoimento à Polícia Federal, algo como: “Se o senhor fizer isso sem os pressupostos e sem o processo adequado, vou ter que prendê-lo.” Então, acho que é uma frase forte demais para um ouvinte presente esquecer.

O senhor acha que ele sofreu alguma pressão? O senhor próprio sofreu alguma pressão entre o depoimento da PF, em 2024, e o do STF, em 2025?

Bem, vou falar apenas por mim, ok? Eu não sofri qualquer pressão oficial, nem de pessoas envolvidas nas ações penais, certo? Por que o general fez isso, eu não me arriscaria a analisar — essa é uma pergunta que deve ser feita a ele. Mas mantemos uma amizade muito boa até hoje. Quanto aos motivos que levam o general a falar de uma maneira ou de outra, essa é uma percepção que vocês têm — digo vocês porque o próprio ministro Alexandre de Moraes falou isso, ao ouvi-lo lá no STF. Isso não me cabe avaliar.

Vamos falar da mudança de comportamento do general Paulo Sérgio, ex-ministro da Defesa. Ao longo das nossas conversas — já entrevistei o senhor anteriormente, me parece — e também pelos depoimentos, fiquei com a impressão de que havia uma posição próxima, mais ou menos alinhada, entre o senhor, o general Freire Gomes e o general Paulo Sérgio. Mas, em algum momento, isso muda, e resulta na reunião do dia 14, em que o general Paulo Sérgio chega com a minuta golpista. O que pode ter ocorrido?

Coloco no livro que, desde o início, quando nos envolvemos com as comissões de Transparência Eleitoral, éramos um grupo de cinco: os três comandantes, o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Laerte, e o general Paulo Sérgio. Em determinado momento, o general Laerte parou de frequentar essas reuniões. Aquilo me incomodou, embora eu saiba que as atribuições do chefe do Estado-Maior Conjunto são inúmeras. Inicialmente, achei que ele pudesse estar em viagem, mas logo depois vi que não era isso — que ele havia sido dispensado daquele grupo. Levei isso ao general Paulo Sérgio e recebi uma resposta que não me deixou confortável.

Só soube, agora, ao escrever o livro, que a desculpa que o general Paulo Sérgio deu foi que o afastamento dele fora por sugestão ou solicitação dos comandantes de Força. Fiquei muito incomodado. Perguntei ao general Freire Gomes: “Você solicitou o afastamento do Laerte daquelas reuniões?” Ele disse que não. Então não sei qual foi a razão — por que houve essa iniciativa do general Paulo Sérgio de afastá-lo — e isso hoje me deixa com uma dúvida muito grande.

Depois, passo para a reunião de 5 de julho — ele também já falou sobre isso durante seu depoimento no STF, sobre a maneira como se referiu, em voz alta, a “linha de contato” e a “avançar sobre o inimigo”. Acho que foi apenas uma colocação inadequada da parte dele. Acho que ele estava se referindo  às demandas para melhorar o sistema de fiscalização, diante da impossibilidade de o TSE, tão próximo da eleição, colocar em teste todas as urnas que achávamos que poderiam melhorar o processo. E acho que ele se expressou de maneira inadequada, mas eu não achava que aquilo representasse uma vontade dele de dar, ou apoiar, um golpe de Estado.

Poderia representar uma vontade de permanecer no cargo, mas não através do apoio a um golpe. Isso foi evoluindo: percebi o desconforto dele com o desfile de blindados da Marinha;  e em todas as nossas reuniões no Ministério da Defesa. Sua participação foi sempre no sentido de tentar demover o presidente Bolsonaro de fazer algo diferente de deixar o Palácio da Alvorada e entregar o cargo.

Até que chegamos ao 14 de dezembro, e eu lamento essa característica que ele apresentou, um comportamento de dubiedade entre reprovar qualquer ato ilegal do presidente Bolsonaro e, ao mesmo tempo, apresentar para nós uma minuta de golpe, né? E lamento porque acho que ele não era um golpista.

Ele apresentou para nós uma minuta de golpe, com o objetivo, segundo ele — e podemos acreditar ou não —, de tentar uma unanimidade nas Forças Armadas. Mas foi muito grave, por qualquer razão: se tivéssemos dito sim… Então é isso que trago para dentro do livro: essa dubiedade entre o comportamento dele e algumas de suas decisões.

O senhor nunca mais teve contato com ele depois?

É muito difícil falar isso de um ex-companheiro cearense, como eu, sabendo o quanto ele teve que se esforçar para chegar a comandante do Exército e ministro da Defesa, pelos próprios méritos. Mas acho que ele foi fraco na hora de falar para o presidente “pare aqui”. E era simples assim.

E o senhor não teve mais contato com ele depois do governo, ou mesmo ao longo do processo em que ele estava sendo julgado? Nunca mais? Ou teve?

Tive um contato. Fomos receber, de um grupo de oficiais da reserva em Fortaleza, uma homenagem — não sei precisar a data. Encontrei com ele num fim de semana em Fortaleza, e participamos juntos dessa cerimônia, em homenagem a nós dois e a várias outras pessoas. Foi a última vez.

Mas vocês não chegaram a conversar sobre nenhum desses assuntos?

Quando o processo foi aberto, eu nunca mais conversei com nenhum deles.

O senhor ouviu falar que o general Paulo Sérgio estaria arrependido de não ter tentado uma colaboração premiada para resolver sua participação — quer dizer, assumir a parte dele, mas sem arcar com coisas que não seriam exatamente da responsabilidade dele?

Acho que, num inquérito e num processo sobre um fato tão sério, que exige uma resposta imediata de tanta gente, faço uma crítica: por exemplo, participei de todas as oitivas, e nunca ninguém perguntou ao general Paulo Sérgio algo que poderia ter relação com o que você está falando, sobre ele ter se arrependido de não ter feito a delação premiada.

Nenhum advogado do general Paulo Sérgio, nem o Ministério Público ou ministro do STF, fez a ele a pergunta que me parecia que um dos treze deveria fazer: como essa minuta chegou às suas mãos? Quem lhe entregou? Ou seja, nenhuma das partes — nem a acusação, nem a defesa, nem os juízes — perguntou isso. Isso poderia ser um atenuante, por exemplo, porque não acho que aquilo tenha partido dele.

O general Freire Gomes olhou a minuta, leu, e, no depoimento, disse que ela era semelhante à que foi apresentada na reunião do dia 7 de dezembro, da qual eu não participei, e também semelhante à que foi encontrada na casa do Anderson Torres. E jamais perguntaram ao Paulo Sérgio, pelo menos oficialmente, quem lhe entregara aquela minuta. Acho que isso poderia ter sido um atenuante para ele, se ele tivesse querido falar.

O senhor acha que hoje ainda vivemos uma tentativa de golpe de Estado? Como o senhor vê essa interferência dos Estados Unidos? E o senhor teme uma nova escalada golpista neste ano?

Não, não vejo. No mundo ideal, deontológico, do dever-ser, cada país deveria respeitar integralmente os problemas internos dos outros. Logicamente, isso não existe, né? Há a guerra ideológica — hoje tenho muito medo dessas classificações de esquerda ou direita —, mas as guerras ideológicas levam a blocos ideológicos que tentam também dominar áreas fora do seu território nacional.

Então, a participação de políticos brasileiros tentando influenciar eleições, por exemplo, dos países vizinhos, ocorre há muito tempo, né? Em todos os matizes políticos. E isso é indesejável. Posso citar um caso aqui, para não parecer que estou sendo parcial: a tentativa de apoio do presidente Lula nas eleições da Argentina, e também a dos Estados Unidos na própria Argentina — um lado pela direita, outro pela esquerda. No mundo ideal, isso não deveria ser feito, mas, no mundo político como ele é, isso acontece. Já a participação física de pessoas dos Estados Unidos nessas eleições, eu não acredito, e não vejo a menor possibilidade de um movimento golpista para apoiar qualquer coisa.

Acho que deixamos bem claro que as Forças Armadas não vão se envolver nesse tipo de quebra da legalidade. Essa geração, pelo menos, está cada vez mais distante de todo processo golpista e de tantos movimentos da nossa história republicana. E o que tem que acontecer é o que digo no último capítulo do livro: nós somos os vilões e as vítimas do nosso próprio destino. Tudo começa no voto.

Estamos vendo hoje uma campanha eleitoral de dois blocos populistas que sequer colocaram na mesa um plano de governo, né? Estão indo com as bolhas — verdadeiras ou falsas — daqueles que os apoiam ou os repelem. Mas não acho que haverá qualquer interferência além do que já se observa de qualquer país externo aqui, nem dos Estados Unidos.

O senhor acha que esse processo fortaleceu as Forças Armadas?

A curto prazo… Acho que o processo em si, os fatos em si, fortalecem as Forças Armadas. Outra coisa é a percepção das Forças Armadas — ou seja, uma coisa é que, hoje, as Forças Armadas estão mais fortes, mais cientes de suas atribuições constitucionais; os mais novos viram, nas decisões dos três comandos, uma postura legalista, orientada pela Constituição e pelas leis. Outra coisa é a fortaleza das Forças Armadas: isso não está necessariamente se refletindo, a curto prazo, no grau de confiança que a população tem nelas.

A confiabilidade das Forças Armadas tem um pico de alta no início do governo Bolsonaro, e, a partir dali, vem caindo — e agora teve uma leve recuperação. E, a longo prazo, sempre tivemos, em relação às Forças Armadas, uma desconfiança por parte daqueles que tiveram algum tipo de restrição aos governos militares, ao golpe de 64. No início do livro,  não faço essa distinção entre golpe, movimento e revolução — cada um desses nomes serve para não cumprir a lei, e são dados de acordo com as intenções e preferências de cada um. Mas o governo militar, de 64 a 81, trouxe para as Forças Armadas uma desconfiança de parte da população, principalmente da parte mais à esquerda do espectro. O que aconteceu agora foi que não só os revolucionários de esquerda, mas também os reacionários de direita, passaram a culpar as Forças Armadas pelo não golpe, ou por não terem mantido o presidente Bolsonaro no poder.

O que dissemos foi que não haveria uma quebra constitucional — não à manutenção, na Presidência da República, do candidato que perdeu, dentro da regra do jogo estabelecida. E não estou dizendo que não existam ainda muitos crimes eleitorais no Brasil: comunidades pressionadas pela milícia ou pelo narcotráfico, quilombolas, indígenas, áreas mais distantes da fiscalização. Isso não quer dizer, em momento algum, que não aceitar um golpe nos ligue diretamente a qualquer outro governo.

As Forças Armadas não tinham a intenção de dar um recado de que estão ligadas ao governo A, B ou C. O recado foi: dissemos não ao golpe. Mas isso não significa que concordamos com todos os desmandos, com toda a corrupção, com todos os desvios do nosso país. Isso é secular, e temos que encontrar uma maneira de sair disso. No livro, sugiro que comecemos a pensar em sair dos populismos, que são, antes de mais nada, egoístas — não visam o bem comum.

O que levou o senhor a escrever um livro para contar sua história?

Eu sempre tive vontade de escrever um livro, mas nunca havia chegado a faísca — não tinha tocado meu coração, né? Nessas doze horas em que fui muito bem recebido na Polícia Federal, por todos, pelo delegado Fábio — foi um clima de cortesia, mas também, logicamente, um clima de inquérito; aquilo não era uma reunião de amigos, era um clima de inquérito, em que tive que manter a concentração durante quase doze horas, muito já se sabia, tendo em vista a delação do tenente-coronel Cid —, quando terminou, por volta de uma e meia da manhã, dois agentes bem mais novos do que meus filhos, numa conversa mais informal, de cinco ou dez minutos, disseram: “Brigadeiro, o que estamos vendo aqui, o que já sabemos, o que já apuramos, o que o senhor acaba de contar — isso devia ficar como ensinamento para as gerações futuras.”

Aquilo ficou como uma semente no meu coração. Algum tempo depois, assistindo a um programa de televisão, o Andrei Roman, presidente da Atlas Intel, apresentou duas pesquisas que havia feito sobre o tema “golpe de Estado”. A primeira, feita entre 6 e 9 de janeiro de 2023 — lembrando que o 8 de janeiro está no meio desse período —, trouxe números assustadores: 39,7% da população não acreditava que Lula tivesse tido mais votos do que Bolsonaro; 37% achava que, se o presidente Bolsonaro tivesse lançado mão de algum artifício para não passar o governo ao presidente eleito, isso seria aceitável e não seria interpretado, por esses 37%, como um golpe de Estado.

E o terceiro ponto é que, dois anos depois — e aí já estávamos em meio à Ação Penal 2008, que julgou o Núcleo 1, no qual estava o presidente Bolsonaro —, ou seja, já tínhamos conhecimento de muitas coisas que haviam ocorrido, já tínhamos os testemunhos do Ministério Público e da defesa de cada um, uma nova pesquisa mostrou que ainda 30% da nossa população achava que um golpe de Estado seria aceitável. Isso me pareceu muito preocupante, e eu me perguntei o que poderia fazer para discutir isso.

Fico muito contente de ter conseguido chegar ao final desse livro — não é fácil escrever um livro de 240 páginas com responsabilidade, elegância, fatos, provas e análises. É bem mais difícil do que uma agressão feita num grupo de WhatsApp, ou uma análise leviana numa rede social. E a última pergunta que me fazem, sobre isso, é por que lançá-lo no período pré-eleitoral.

Primeiro, porque eu não podia escrever e publicar enquanto estava na ativa. Segundo, porque também era desaconselhado publicar um livro durante o período das ações penais no STF — ficaria muito estranho eu publicar logo depois de ter sido testemunha. E terceiro, porque precisei de tempo para escrever. Não é um livro para defender A ou B, nem para fazer qualquer propaganda eleitoral.

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* Colunista Juliana Dal Piva - Formada pela UFSC com mestrado no CPDOC da FGV-Rio. Foi repórter especial do jornal O Globo e colunista do portal UOL. É apresentadora do podcast "A vida secreta do Jair" e autora do livro "O negócio do Jair: a história proibida do clã Bolsonaro", da editora Zahar, finalista do prêmio Jabuti de 2023.

Texto e imagem reproduzidos do site: iclnoticias com br

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Eleições: o clamor por um projeto

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 17 de agosto de 2026

Eleições: o clamor por um projeto

Em outubro, o eleitor não deve escolher apenas quem administrará o governo por quatro anos. Deve escolher um rumo. Carlos Alberto Di Franco para o Estadão:

O Brasil não carece de recursos naturais, inteligência ou capacidade empreendedora. Carece, sim, de liderança com autoridade moral, consciência histórica e espírito público. As próximas eleições presidenciais não podem ser reduzidas a uma disputa entre pessoas, partidos ou grupos ideológicos. Precisam colocar no centro do debate um projeto sério e ambicioso de país.

É urgente superar o “nós contra eles”, marca registrada de uma polarização paralisante e estéril. A política brasileira transformou adversários em inimigos. De um lado e de outro, multiplicam-se ressentimentos, radicalismos e desqualificações pessoais. Fala-se muito sobre o passado, mas pouco sobre o futuro. Discute-se quem deve ser derrotado, quando o essencial seria definir o que precisa ser construído.

A questão nacional precisa ocupar o cerne do debate eleitoral. Que país queremos ser nos próximos 20 ou 30 anos? Como transformar nossas riquezas em prosperidade compartilhada? Como recuperar a confiança nas instituições? Como oferecer educação de qualidade, empregos dignos e oportunidades reais aos jovens? Como reduzir a pobreza sem alimentar dependências? Como assegurar o equilíbrio ambiental sem condenar regiões inteiras ao atraso?

A desordem crescente da economia global – marcada por rupturas logísticas, conflitos geopolíticos, guerras e disputas por energia, minerais e alimentos – aumentou o valor estratégico das nações dotadas de recursos naturais. É exatamente o caso do Brasil. Somos uma potência ainda adormecida.

Temos uma das maiores reservas de terras agricultáveis do planeta. Cerca de 12% da água doce renovável do mundo está em nosso território. Dispomos de uma matriz energética relativamente limpa, petróleo, gás e vastas reservas de lítio, grafite, níquel, manganês e terras raras. Temos capacidade empresarial, base industrial, agricultura altamente produtiva e um povo criativo, trabalhador e resistente.

Poucos países reúnem tantas condições favoráveis para protagonizar uma nova etapa do crescimento mundial. Num cenário de insegurança alimentar, crise energética e escassez de minerais estratégicos, o Brasil poderia desempenhar um papel decisivo. Somos vistos pelo mundo como um território de oportunidades. Mas continuamos agindo como se estivéssemos condenados à mediocridade.

Nosso desenvolvimento permanece bloqueado por um emaranhado de entraves burocráticos, insegurança jurídica, instabilidade regulatória e decisões contraditórias. Grandes investimentos são adiados. Obras fundamentais levam décadas para sair do papel. Projetos estratégicos são interrompidos por disputas judiciais intermináveis. O resultado é conhecido: empresas recuam, o capital procura outros destinos e milhares de empregos deixam de ser criados.

Não se trata de negar a importância da preservação ambiental, do controle institucional ou da proteção das comunidades. Trata-se de impedir que instrumentos legítimos sejam distorcidos e convertidos em mecanismos de paralisia. Desenvolvimento e responsabilidade ambiental não são inimigos. Países maduros sabem conciliá-los com racionalidade, ciência e segurança jurídica.

O País precisa destravar seu desenvolvimento. Isso exige simplificar regras, reduzir a burocracia sufocante, garantir estabilidade regulatória e oferecer segurança a quem produz e investe. Exige, ainda, combater a corrupção com firmeza e consistência. A corrupção não é só um desvio moral. É um imposto invisível que penaliza sobretudo os mais pobres, encarece obras, distorce prioridades e destrói a confiança nas instituições.

A eleição presidencial deveria oferecer ao eleitor propostas concretas sobre infraestrutura, educação, ciência, tecnologia, segurança pública, equilíbrio fiscal, reforma do Estado e inserção internacional. Os candidatos precisam dizer claramente como pretendem integrar o território, modernizar portos e ferrovias, estimular a indústria, fortalecer o agronegócio, melhorar o ambiente de negócios e preparar os jovens para as novas exigências profissionais.

O Brasil necessita de um presidente desenvolvimentista, mas desenvolvimento não significa irresponsabilidade fiscal, voluntarismo econômico ou distribuição de favores. Desenvolver é criar condições permanentes para que a economia cresça, a iniciativa privada floresça e as oportunidades cheguem a todos. É combinar responsabilidade social, liberdade econômica, estabilidade institucional e planejamento de longo prazo.

O verdadeiro líder sabe que nenhum grande projeto nacional será construído apenas pela direita, pela esquerda ou pelo centro. Será obra de todos os brasileiros de boa vontade. O País é maior do que os partidos, as ideologias e as ambições individuais. A reconstrução nacional exige diálogo, serenidade e capacidade de ouvir. Exige firmeza nas convicções, mas também respeito pelos que pensam de modo diferente.

A política brasileira foi capturada por agendas curtas, personalismos e conflitos permanentes. O debate público empobreceu. A visão estratégica desapareceu. O interesse nacional frequentemente cedeu espaço ao cálculo eleitoral. É preciso romper esse ciclo.

As próximas eleições apresentam uma oportunidade histórica. O eleitor não deve escolher apenas quem administrará o governo por quatro anos. Deve escolher um rumo.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com