quinta-feira, 20 de agosto de 2020

"Aborto e obscurantismo", por Paulo Roberto Dantas Brandão

Imagem reproduzida do site da revista Veja e postada pelo blog,
para simples ilustração do presente artigo

Texto publicado originalmente no Perfil do Facebook de Paulo Roberto Dantas Brandão, em 19 de agosto de 2020

Aborto e obscurantismo
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

No ano 2000 houve uma Conferência do Rotary em Salvador, onde reuniram-se os rotarianos de Alagoas, Sergipe e Bahia.  Foi em comemoração aos 500 anos do Descobrimento do Brasil, por isso lembro bem o ano.  Numa das sessões o tema foi família, e o mais ilustre dos palestrantes foi o Dr. Elsimar Coutinho, médico ginecologista, cientista baiano, e a maior autoridade brasileira em fertilização humana.  Dr. Elsimar morreu na semana passada, uma grande perda.

Mas em sua palestra, o debate descambou para o aborto.  E o Dr. Elsimar foi categórico:  “Eu sou contra o aborto.  O aborto não é uma coisa boa.  Ninguém chama uma moça e diz vamos ali para curtir um aborto.  Mas eu sou completamente a favor da descriminalização do aborto”.   E passou a elencar uma série de razões para que acabem com essa tolice, para não dizer desumanidade de tratar o aborto como crime.

Tal discussão ganhou força com o aborto legal, autorizado judicialmente, em uma menina de 10 anos que foi estuprada por um tio.  Desumanidade e crime é querer que uma menina de 10 anos leva adiante uma gestação que ela não quer, não tem condições tanto físicas quanto mentais de levar até o fim e que prejudicará todo o seu desenvolvimento futuro.

Tanto o código penal quando o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, preveem o aborto em caso de estupro.  Qualquer caso de estupro, ainda mais tratando-se de vulnerável.  E ainda prevê em caso de risco de morte da gestante, ou quando o feto é diagnosticado como anencéfalo.  Portanto, o aborto a que a garota foi submetida foi legal.  Gostem ou não alguns obscurantistas.

Aprendi com Dr. Elcimar Coutinho que não se deve ser a favor do aborto, mas a favor da sua descriminalização.  Não tenho a competência científica daquele médico, mas tenho as minhas razões.  A primeira é que a legalização do aborto é uma questão de saúde pública.  O aborto existe e é praticado em todo o país.  As filhas de famílias ricas ou de classe média alta utilizam-se de clínicas no exterior, ou mesmo no Brasil, com todas as condições sanitárias e toda a assistência.As mulheres pobres submetem-se a curandeiras, ou tomam um abortivo qualquer comprado por aí.  E o número de mortes é grande, só não é contabilizada.  A segunda razão é que vivemos em uma sociedade cuja filosofia central é o hedonismo, a busca ao prazer.  Todo o aparato cultural leva a isso, a busca ao prazer.  Nesse, o apelo maior é do prazer sexual.  Para os homens, uma gravidez indesejada de sua parceira pode ter poucos reflexos (se o cara for um irresponsável), mas para as mulheres ficam todo o fardo.  Ora, fica-se num contrassenso.  Estimula-se a busca ao prazer, mas um grupo influente, normalmente conduzido por homens reacionários, ou que apresentam sérios problemas com a sua sexualidade encetam campanhas ruidosas contra o aborto e obstruem a sua descriminalização.  Uma terceira razão é científica.  Se a sociedade decidir que o feto tem vida consciente desde a sua concepção, por isso o aborto seria crime, então obrigatoriamente deve-se repensar a questão da morte encefálica, que tem possibilitado uma série de transplantes que têm salvado vidas.

Infelizmente essa onda obscurantista que tem assolado o pais tem nos levado a posições cada vez mais atrasadas.  As palavras do presidente da CNBB condenado o aborto na garota do Espírito Santo só serve para nos levar à idade das trevas.  Daqui a pouco vão querer queimar os hereges em praça pública.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

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