Imagem reproduzida do site da revista Veja e postada pelo
blog,
para simples ilustração do presente artigo
Texto publicado originalmente no Perfil do Facebook de Paulo
Roberto Dantas Brandão, em 19 de agosto de 2020
Aborto e obscurantismo
Por Paulo Roberto Dantas Brandão
No ano 2000 houve uma Conferência do Rotary em Salvador,
onde reuniram-se os rotarianos de Alagoas, Sergipe e Bahia. Foi em comemoração aos 500 anos do
Descobrimento do Brasil, por isso lembro bem o ano. Numa das sessões o tema foi família, e o mais
ilustre dos palestrantes foi o Dr. Elsimar Coutinho, médico ginecologista,
cientista baiano, e a maior autoridade brasileira em fertilização humana. Dr. Elsimar morreu na semana passada, uma
grande perda.
Mas em sua palestra, o debate descambou para o aborto. E o Dr. Elsimar foi categórico: “Eu sou contra o aborto. O aborto não é uma coisa boa. Ninguém chama uma moça e diz vamos ali para
curtir um aborto. Mas eu sou
completamente a favor da descriminalização do aborto”. E passou a elencar uma série de razões para
que acabem com essa tolice, para não dizer desumanidade de tratar o aborto como
crime.
Tal discussão ganhou força com o aborto legal, autorizado
judicialmente, em uma menina de 10 anos que foi estuprada por um tio. Desumanidade e crime é querer que uma menina
de 10 anos leva adiante uma gestação que ela não quer, não tem condições tanto
físicas quanto mentais de levar até o fim e que prejudicará todo o seu
desenvolvimento futuro.
Tanto o código penal quando o Estatuto da Criança e do
Adolescente, o ECA, preveem o aborto em caso de estupro. Qualquer caso de estupro, ainda mais
tratando-se de vulnerável. E ainda prevê
em caso de risco de morte da gestante, ou quando o feto é diagnosticado como
anencéfalo. Portanto, o aborto a que a
garota foi submetida foi legal. Gostem
ou não alguns obscurantistas.
Aprendi com Dr. Elcimar Coutinho que não se deve ser a favor
do aborto, mas a favor da sua descriminalização. Não tenho a competência científica daquele
médico, mas tenho as minhas razões. A
primeira é que a legalização do aborto é uma questão de saúde pública. O aborto existe e é praticado em todo o
país. As filhas de famílias ricas ou de
classe média alta utilizam-se de clínicas no exterior, ou mesmo no Brasil, com
todas as condições sanitárias e toda a assistência.As mulheres pobres submetem-se a curandeiras,
ou tomam um abortivo qualquer comprado por aí.
E o número de mortes é grande, só não é contabilizada. A segunda razão é que vivemos em uma sociedade
cuja filosofia central é o hedonismo, a busca ao prazer. Todo o aparato cultural leva a isso, a busca
ao prazer. Nesse, o apelo maior é do
prazer sexual. Para os homens, uma
gravidez indesejada de sua parceira pode ter poucos reflexos (se o cara for um
irresponsável), mas para as mulheres ficam todo o fardo. Ora, fica-se num contrassenso. Estimula-se a busca ao prazer, mas um grupo
influente, normalmente conduzido por homens reacionários, ou que apresentam
sérios problemas com a sua sexualidade encetam campanhas ruidosas contra o
aborto e obstruem a sua descriminalização.
Uma terceira razão é científica.
Se a sociedade decidir que o feto tem vida consciente desde a sua
concepção, por isso o aborto seria crime, então obrigatoriamente deve-se
repensar a questão da morte encefálica, que tem possibilitado uma série de
transplantes que têm salvado vidas.
Infelizmente essa onda obscurantista que tem assolado o pais
tem nos levado a posições cada vez mais atrasadas. As palavras do presidente da CNBB condenado o
aborto na garota do Espírito Santo só serve para nos levar à idade das trevas. Daqui a pouco vão querer queimar os hereges
em praça pública.
Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão

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