Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 19
de abril de 2021
A hora do jornalismo propositivo
Chegou a hora do jornalismo propositivo. Aquele que não se
limita a mostrar os problemas, mas vai além: aponta alternativas e soluções.
Carlos Alberto di Franco para o Estadão:
A sociedade está cansada do clima de militância que tomou
conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão
perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas,
declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo. Um denominador
comum marca o achismo que invadiu o espaço outrora destinado à informação
qualificada: radicalização e politização.
O jornalismo reclama alguns valores essenciais: amor pela
verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar.
Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje,
mais que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser
resgatados e promovidos.
A democracia reclama um jornalismo vigoroso e independente.
Comprometido com a verdade possível. O jornalismo de qualidade exige cobrir os
fatos. Não as nossas percepções subjetivas. Analisar e explicar a realidade. Não
as nossas preferências, as simpatias que absolvem ou as antipatias que
condenam. Isso faz toda a diferença e é serviço à sociedade.
As redes sociais e o jornalismo cidadão têm contribuído de
forma singular para o processo comunicativo e propiciado novas formas de
participação, de construção da esfera pública, de mobilização da sociedade.
Suscitam debates, geram polêmicas (algumas com forte radicalização) e exercem
pressão. Mas as notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de
alterar os rumos de um país, são fruto não de boatos ou meias-verdades
disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho
investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na
essência dos bons jornais.
Sem jornais a democracia não funciona. O jornalismo não é
antinada. Mas também não é neutro. É um espaço de contraponto. Seu compromisso
não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidarismos. Sua
agenda é, ou deveria ser, determinada por valores perenes: liberdade, dignidade
humana, respeito às minorias, promoção da livre-iniciativa, abertura ao
contraditório. O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos
espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma
opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o
coração da mídia.
Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono.
Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. Mas a reinvenção do
jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer
comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo.
O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais, por exemplo, teve
precedentes que poderiam ter sido evitados, não fosse o distanciamento da
imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas
formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de
isenção informativa e certa dose de intolerância.
Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio
das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo.
Pensemos, por exemplo, na ignominiosa situação do saneamento básico. É preciso
reverter um quadro que agride a dignidade humana, envergonha o Brasil e torna
inviável o futuro de gerações. Não seria uma bela bandeira, uma excelente causa
a ser abraçada pela imprensa? Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do
blá-blá-blá inconsistente do teatro político, das intrigas e da espuma que
brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia,
mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um País que
não pode continuar olhando pelo retrovisor.
Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não
significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador
atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais que isso, confrontar
permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que
frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.
A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que
as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das
comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não.
Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas
paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é
grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.
A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão
aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade.
Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. Não devemos ocultar as
trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A
boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés
ideológico, é uma demanda dos leitores. E, além disso, é uma resposta ética e
editorial aos que pretendem tornar o jornalismo refém da fácil cultura do
negativismo.
Chegou a hora do jornalismo propositivo. Aquele que não se
limita a mostrar os problemas, mas vai além: aponta alternativas e soluções.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário