Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 28
de abril de 2021
Os novos desafios à liberdade de expressão
Artigo de Rogério Passos Severo e Bruno Guedes Santiago para
o Estado da Arte:
A internet e as redes sociais trouxeram quatro desafios à
doutrina clássica da liberdade de expressão: fake news, discurso odiento,
bolhas informacionais e saturação da nossa atenção. Para os três primeiros a
doutrina clássica já tem respostas satisfatórias, uma vez que esses são
desafios novos apenas na forma de apresentação (agora digital). O quarto e
último desafio, no entanto, é substancialmente novo e exige um passo adicional.
Então vamos por partes.
Todos conhecemos a justificação clássica para a liberdade de
expressão magistralmente apresentada por John Stuart Mill em 1859, em seu
ensaio Sobre a liberdade. Os argumentos ali reunidos consolidaram um dos
pilares de todas as democracias contemporâneas, inclusive a nossa (vide os
artigos 5º, incisos IV e IX, e 220º da nossa Constituição). Por estarem
profundamente arraigados em nosso modo de pensar, quase não nos damos conta de
que aí estão. Fazem parte de uma espécie de inconsciente público que
silenciosamente molda o que consideramos intuitivamente aceitável ou
defensável. E nesse nível mais elementar não há quem advogue o abandono desses
valores.
Mas o mar não está para peixe, como todos sabem. Nestas duas
décadas do novo milênio não houve uma única instituição ou ideia clássica que
não tenha sido violentamente sacudida pelas transformações vertiginosas de
nossas tecnologias, pensamentos e modos de viver. Nada parece ter passado
incólume. Em toda parte vemos a versão sombria daquilo que poderia ter sido e
não é. Da seleção brasileira à Igreja Católica, dos ideais igualitaristas ao
moralismo do lava-jatismo, de Heidegger ao Twitter: nenhuma instituição, ideia
ou prática social parece ter tido a sua nudez poupada pelo espírito
apocalíptico de nossa época. Assim também com a liberdade de expressão. Numa
curiosa inversão de valores – aliás, típica de nosso tempo –, numerosos
liberais de outrora hoje silenciam-se sobre o cancelamento de seus adversários
políticos nas redes sociais, quando não o comemoram.
Para ver como essas formas contemporâneas de silenciamento
são incompatíveis com a doutrina clássica da liberdade de expressão, basta
relembrar brevemente os argumentos de Mill: (1) Por mais convictos que
estejamos da verdade de nossas próprias opiniões, sempre podemos estar errados.
Somos falíveis. Além disso, tendemos a valorizar mais os indícios
confirmatórios das opiniões que já temos do que os indícios contrários. Somos
cognitivamente enviesados e apenas o diálogo com pessoas que pensam
diferentemente pode mitigar essa tendência. (2) Mesmo quando estamos com a
verdade, se ninguém nos desafia, não temos como conhecer a nossa própria
correção. A opinião verdadeira que não é submetida ao contraditório não tem
como ser asserida com segurança, pois ninguém tem como saber a priori se aquilo
em que crê é produto da solidez de seu pensamento ou do arraigamento de seus
preconceitos. (3) No mais das vezes, as opiniões que inicialmente sustentamos,
mesmo que largamente verdadeiras, contêm também equívocos e distorções que
apenas o confronto com ideias e opiniões contrárias pode revelar.
Segundo Mill, a liberdade de expressão é sobretudo valiosa quando as formas de silenciamento de opiniões contrárias são produzidas não pela censura estatal, mas pela “tirania da maioria”. Esta é mais eficaz que aquela. Seus efeitos, mais deletérios. Para que os nossos próprios erros possam vir à luz, a opinião minoritária precisa não apenas ser permitida, mas positivamente incentivada, segundo Mill. O instituto da liberdade de expressão, nesse sentido, não consiste num livre mercado de ideias em que as ideias mais fortes batem as mais fracas e as levam à extinção. A extinção das ideias minoritárias é exatamente o que a liberdade de expressão tem por propósito evitar. Há nesse sentido desanalogias importantes entre a ideia de um “mercado de ideias” e a ideia da livre concorrência econômica (a esse respeito, ver o artigo de Jill Gordon).
Tendo isso em mente, seria de se esperar que aquelas pessoas
que tradicionalmente se identificam com a ampliação dos direitos e liberdades
individuais bem como aquelas que vigorosamente defendem os interesses das
minorias se opusessem às novas políticas de restrição das liberdades de
expressão que vêm sendo implementadas na internet. Entretanto, isso não vem
acontecendo. Algumas consideram que os problemas postos pela internet são novos
e exigem uma modificação da doutrina clássica da liberdade de expressão.
Argumenta-se, por exemplo, que a quantidade de fake news, discursos odientos e bolhas
informacionais cresceu exponencialmente nos últimos anos e não teria mais como
ser remediada senão mediante o estabelecimento de limites ao que pode ser dito
publicamente.
Como bem observa a advogada Nadine Strossen, no entanto,
essa é uma crença ingênua. Esses fenômenos não são novos. A história está
repleta de casos de fake news, discursos odientos e bolhas informacionais. No
século vinte, antes da internet, poucos foram os governos e órgãos de imprensa
que não os promoveram em um momento ou outro (sobre isso, ver também o artigo
de Yuval Harari neste jornal). Para esses males, a doutrina clássica da
liberdade de expressão já tem um remédio eficaz, que é o do contradiscurso.
Ainda que frágil, o meio mais eficaz para se combater fake news, discurso de
ódio e bolhas informacionais é exatamente aquele descrito por Mill: a
contraposição e o confronto livre de ideias, pensamentos e argumentos, o
diálogo e a apresentação de razões. Nem sempre a verdade e o bom senso
prevalecem numa discussão livre. Mas o remédio alternativo, que é o da censura
ou do silencialmento social, é bem mais amargo, sobretudo para as minorias
sociais e culturais. Quem decide o que pode ser censurado ou silenciado é
sempre a voz dominante no Estado ou a das maiorias sociais de ocasião (ver
sobre isso o depoimento de Ira Glasser, ex-presidente do American Civil
Liberties Union). É importante considerar o seguinte: todos nós somos capazes
de dizer coisas odientas, falsas e enviesadas ou que assim o parecem aos
outros. Pregar a censura ou o silenciamento social apenas dos outros é, nesse
sentido, uma espécie de húbris, como bem observou o jornalista Glenn Greenwald.
É considerar-se imune à possibilidade de vir a ser censurado e silenciado logo
adiante por sermos já agora suficientemente iluminados para jamais cometermos
falsidades, ofensas ou distorções.
Segundo Mill, não temos como saber a priori se o que nos
parece ofensivo decorre do conteúdo do que está sendo dito ou de nossos
próprios preconceitos. Isso apenas a discussão pode revelar. Algumas ideias
importantes que no passado foram tidas como ofensivas e imorais hoje fazem
parte do nosso bom senso. As reivindicações pelo fim da escravidão e por
direitos iguais para mulheres, defendidas por Mill no século dezenove, por
exemplo, eram naquela época vistas como ofensivas e mesmo odientas pelos
setores mais conservadores da sociedade inglêsa. Em regra, são as ideias e
opiniões das minorias sociais e culturais que são principalmente vistas como
imorais e odientas e portanto mais suscetíveis de silenciamento e censura; são
elas que não conseguem furar a bolha da maioria. E em geral quem aplica a
censura ou promove o silenciamento são os setores mais hegemônicos e
politicamente mais fortes das maiorias sociais, justamente os que menos precisam
desses expedientes tirânicos para verem prevalecer as suas opiniões. Temos aí
três razões básicas para tolerar, no discurso público, a apresentação de ideias
e opiniões que nos pareçam ofensivas ou mesmo odientas: (1) pode ser que
estejamos equivocados ou parcialmente equivocados a respeito delas, (2) não
temos como tomar consciência de nossos próprios enviesamentos senão pelo
confronto sistemático de opiniões contrárias às nossas, (3) a censura ou
silenciamento tende a ser exercida por indivíduos que detêm algum tipo de poder
político e social e desse modo reforçam desnecessariamente uma espécie de
tirania da maioria (da qual podemos fazer parte hoje, mas talvez não amanhã).
(Uma discussão muito rica desses desafios com uma atenção especial à realidade brasileira
pode ser encontrada na bela coletânea organizada pelo professor José Eduardo
Faria, A liberdade de expressão e as novas mídias.)
Passemos agora ao desafio mais difícil, que é aquele posto
pela saturação de nossas atenções. Houve um inegável aumento da liberdade de
expressão com a popularização mundial da internet. Hoje a veiculação de
opiniões é menos filtrada por barreiras de acesso físico e financeiro. Pessoas
em locais distantes podem com mais agilidade e menos recursos se manifestar,
não necessitando para isso de imprensa, correios ou mecanismos institucionais
de apoio e distribuição de informações. Essa democratização do acesso trouxe
consigo um aumento gigantesco da quantidade de opiniões e ideias imediatamente
acessíveis. Hoje não temos apenas discurso e contradiscurso, como no Hyde Park
da época de Mill. Temos uma gigantesca cacofonia de vozes e ruídos, que
dificulta o acesso às razões e contrarrazões coerentes e inteligíveis. É como
se estivéssemos em uma biblioteca grande demais para seres humanos, em que os
livros não estivessem dispostos em uma ordem inteligível.
As instituições de ensino e os veículos de imprensa
tradicionais efetivamente filtram informações e desse modo tornam inteligíveis
e manejáveis as opiniões em confronto. Do modo como a internet está funcionando
hoje, os únicos filtros usados são os dos algoritmos de Google, Facebook e
Twitter, que são especificamente desenhados para prender a atenção dos
internautas, independente da qualidade dos conteúdos sugeridos. Desse modo, se
as extravagâncias de Trump ou Bolsonaro prendem a nossa atenção, serão deles as
recomendações promovidas de vídeos e leituras, independente do que dizem. O
famigerado Alex Jones, por exemplo, foi sugerido aos internautas do YouTube
alguns bilhões de vezes, antes de ser cancelado. Se tivesse de passar pelos
filtros tradicionais da imprensa e das universidades, jamais teria saído de seu
quase anonimato. O problema, portanto, não está no fato de ele ter tido a
possibilidade de se expressar livremente, mas no fato de ter sido ativamente
promovido bilhões de vezes para milhões de pessoas. Foi o filtro informacional
do YouTube e o monopólio da distribuição de informações digitais por apenas
três grandes empresas que produziu esse fenômeno.
Esse problema específico não tem como ser resolvido pela
ampliação das liberdades de expressão. Por isso, algumas pessoas vêm insistindo
para que as empresas da internet (sobretudo as três maiores: Google, Facebook e
Twitter) imponham elas próprias algum tipo de silenciamento (“moderação” é o
eufemismo mais usado) às opiniões consideradas enganosas ou odientas. Isso
aconteceu no início deste ano com Trump no Twitter e com o canal bolsonarista
Terça Livre no YouTube (que pertence à Google). Mas enganam-se aqueles que vêm
nesse fenômeno apenas o merecido silenciamento de embusteiros de direita. Um
dos primeiros sites a sofrer as consequências da política de moderação do
Google foi a plataforma trotskista World Socialist Web Site. Ao lado de
diversos outro sites de esquerda, eles viram seu tráfego na internet cair
drasticamente nos últimos meses, o que os levou a denunciar as práticas do
Google como antidemocráticas (ver aqui e aqui). Desse modo, voltamos ao
problema do critério de seleção do que merece ser filtrado e ao problema de
quem deve ter o poder para escolher esse critério. Então, se aceitamos a
censura ou a moderação de conteúdos, corremos sempre o risco de sermos nós
próprios os silenciados mais adiante.
Uma das poucas vozes a se pronunciar sobre esse problema
específico tem sido a de Matt Stoller, autor do livro Goliath. Stoller sustenta
que a raiz dessa questão situa-se não no excesso de opiniões, mas no
concentração absoluta do fluxo de informações em algumas poucas empresas. Com
apenas três grandes firmas dominando quase todo o mercado digital, os filtros
de informação implementados por cada uma delas têm impactos enormes e tendem a
se assemelhar, efetivamente impedindo a livre circulação de ideias.
Aparentemente qualquer um pode se expressar livremente, mas apenas uns poucos
são promovidos pelos algoritmos.
Stoller defende (ver aqui) que essas empresas sejam
divididas e que leis sejam implementadas para impedir que apenas umas poucas
dominem o mercado das plataformas digitais. Na sua opinião, se tivéssemos uma
pluralidade de mecanismos de filtragem de informações, poderíamos contornar o
problema da cacofonia de vozes sem prejuízo à liberdade de expressão. Num
ambiente informacional onde diversas plataformas competissem entre si, nenhuma
conseguiria ter o domínio e a influência que têm hoje as três grandes. É o que
vemos atualmente no mercado de empresas de podcasts, por exemplo, que é bem
mais aberto que o das redes sociais. Cada uma dessas empresas de podcasts, usa
seus próprios filtros e tem critérios diferentes para a divulgação das
gravações nelas postados, de tal modo que as vozes particulares silenciadas em
uma podem livremente se manifestar em outras. Mas como todas essas empresas de
podcasts usam filtros e o número de empresas é grande mas não gigantesco, temos
um conjunto humanamente manejável de alternativas informacionais. Portanto,
evita-se o problema da cacofonia sem abrir mão da liberdade de expressão.
Essencialmente, essa solução apontada por Stoller é a mesma já empregada no
passado para impedir os monopólios nos veículos de imprensa tradicionais
(jornais e televisão). Do mesmo modo que a liberdade de imprensa beneficia-se
com a pluralidade de empresas jornalísticas, na internet a liberdade de
expressão beneficiar-se-ia com a diversificação de plataformas digitais.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

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