Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 22
de abril de 2021
Sem projeto e sem maioria
Preso a conspirações fantasmagóricas, Bolsonaro aumenta o
número de inimigos. William Waack para o Estadão:
O novo ministro da Defesa é um general que passou os últimos
dois anos pelos gabinetes e corredores do lugar mais estranho do Brasil: o
Palácio do Planalto. É o hábitat de seres vivos que, por sua vez, são dominados
por fantasmas criados por eles mesmos. Por vezes parece efeito da ingestão de algum
bagulho muito doido.
O general discursou com o jeito de quem não sabe qual é a
“punchline” de um texto escrito a muitas mãos. Mas, ao exigir que se “respeite
o projeto escolhido pela maioria”, o novo ministro da Defesa repetiu a confusão
fundamental dos fantasmas que habitam cabeças no palácio. O verdadeiro respeito
devido é à Constituição, à qual tem de estar subordinado qualquer projeto de
qualquer maioria.
Talvez por ter sido assessor do presidente do Judiciário,
seu antecessor no cargo não se arriscou a insinuar em público o que o novo
ministro da Defesa disse de maneira mal disfarçada: que o STF é a causa de
desequilíbrio entre os poderes. De fato, é impossível fugir à constatação da
judicialização da política e da politização do STF, mas o fantasma que falou
pela boca do general abordava outro aspecto.
Reiterava a noção de que o STF não deixa governar pois teria
se aliado a uma fantástica conspiração de corruptos, comunistas, bagunceiros e
perdedores que não querem respeitar o projeto escolhido por uma maioria.
Pode-se debater se o tal projeto escolhido pela maioria consistia em consolidar
o poder do Centrão, explodir a dívida pública, manter a economia estagnada e
transformar o País em pária internacional do ponto de vista da política
ambiental e de saúde pública, mas isso seria ampliar demais o foco.
Os fantasmas do palácio sussurram que os problemas para
governar são sempre causados por outros, apesar da explicação para os evidentes
fracassos do governo ao enfrentar economia e pandemia constar dos textos lidos
por quem passou por boas academias militares. Ali se aprende que não se governa
com eficiência se faltam planejamento, estratégia, definição de objetivos,
rumos e meios – para não falar da incapacidade de liderança e da subordinação
de tudo ao objetivo político da reeleição.
Também não se sabe ao certo se fazia parte do projeto
escolhido pela maioria comprar brigas por toda parte, mas é a ordem que os
ocupantes do palácio parecem ter recebido dos fantasmas. O conflito mais
recente é particularmente perigoso: Bolsonaro foi avisado pessoalmente por um
governador amigo (por quanto tempo ainda?) de que acabou criando 23 opositores
entre os 27 chefes dos Executivos estaduais. É uma massa política que não se
deve negligenciar.
A gota d’água para transformar os últimos governadores
amigos em inimigos foi a “esperteza” de utilizar a ambição por uma cadeira
vitalícia no STF por parte de ocupantes de altíssimos cargos do MPF para
convertê-los à narrativa palaciana de que o governo federal tudo fez no combate
à pandemia. Onde houve desastre foi culpa dos governadores e prefeitos –
portanto CPI e Ministério Público neles – que desviaram verbas e recursos da Saúde
(além de decretar medidas restritivas) em busca de armas na conspiração contra
o projeto escolhido pela maioria.
Neste ponto seria injusto atribuir falta de visão do bem público e do interesse da coletividade exclusivamente a Bolsonaro, dominado ou não por seus fantasmas. Esse desinteresse pelo bem comum já era a característica primordial de forças políticas do Centrão, as que hoje estão no poder. É também a de ministros do STF tomando decisões “exóticas” levando em consideração apenas seus interesses ou simpatias políticas imediatas. Característica agora exibida de forma escancarada pelos integrantes da cúpula do MPF que, esfalfando-se por chegar a cargo no STF, ajudam a desmoralizar a instituição.
Quanto ao “projeto” a ser defendido, qualquer que seja, está
se dissipando junto com a maioria.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

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