Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 22 de
abril de 2021
Wajngarten: "Houve incompetência e ineficiência"
no ministério da Saúde.
Ex-secretário responsabiliza o Ministério da Saúde pelo
atraso das vacinas e conta que o general Pazuello foi demitido após rumores de
que seria preso. Entrevista à revista Veja:
O publicitário Fabio Wajngarten conheceu Jair Bolsonaro em
2016, num jantar na casa de Meyer Nigri, dono da construtora Tecnisa, em São
Paulo. Na época, o então deputado já estava em plena campanha presidencial,
embora quase ninguém levasse isso muito a sério. Empresário da área de
comunicação, Wajngarten foi imediatamente fisgado pelas propostas do
ex-capitão, que prometia operar grandes transformações no Brasil,
principalmente na área de costumes. Desde então, os dois não se afastaram mais.
Em 2018, o publicitário ciceroneou o candidato em seus primeiros encontros com
proprietários de órgãos de imprensa. Logo depois, quando Bolsonaro sofreu o
atentado à faca, foi ele quem cuidou de boa parte da logística do atendimento
médico. Em 2019, assumiu o comando da Secretaria de Comunicação da Presidência
(Secom). O cargo estratégico, combinado com a sólida relação de confiança
construída com o presidente, franqueou a Wajngarten trânsito livre em alguns
dos gabinetes mais inacessíveis do Palácio do Planalto — aqueles onde se
desenrolam histórias que raramente chegam ao conhecimento do grande público.
Depois de quase dois anos, Wajngarten deixou a Secom, no mês
passado, no ápice da crise sanitária que já matou mais de 380 000 brasileiros.
Oficialmente, sua demissão foi atribuída à necessidade de reconstruir a relação
desgastada do presidente com a imprensa. Mas esse não foi o motivo principal.
Durante meses, o ex-secretário travou um intenso duelo com o ex-ministro da
Saúde Eduardo Pazuello. Wajngarten apontava o general e a equipe dele como
responsáveis diretos pelo atraso da vacinação contra a Covid-19. No auge do
conflito, circularam notícias de que o chefe da Secom estaria se envolvendo em
assuntos do ministério movido por interesses pessoais inconfessos. “Foi a gota
d’água para eu sair”, diz Wajngarten. Na semana passada, o Congresso criou a
CPI que vai investigar se o governo Bolsonaro se omitiu no enfrentamento da
pandemia ou se praticou alguma ação que possa ter agravado o problema — e o ex-secretário
deve ser um dos primeiros convocados a depor sobre isso. Parlamentares
acreditam que ele tem informações valiosas que podem comprometer gente graúda
do governo federal. E ele tem. Em setembro do ano passado, quando a Covid-19 já
tirava a vida de 750 brasileiros por dia, o publicitário soube que a
farmacêutica Pfizer havia encaminhado uma carta ao governo oferecendo 70
milhões de doses de sua vacina, que se encontrava em fase adiantada de testes
nos Estados Unidos. O Ministério da Saúde, porém, não se interessou pela
proposta nem sequer respondeu a carta. Wajngarten levou o caso ao conhecimento
do presidente Bolsonaro, que o autorizou a negociar pessoalmente as bases de um
contrato com a empresa. O secretário se reuniu com diretores da Pfizer, discutiu
cláusulas, conseguiu reduzir preços, obteve compromissos de antecipação da
entrega de volumosos lotes do imunizante, mas o acordo não prosperou.
Estima-se que, se a compra tivesse sido efetivada, a
vacinação no Brasil poderia ter começado em dezembro, ou seja, estaria hoje
numa etapa muito mais adiantada. “Milhares de mortes poderiam ter sido
evitadas”, atesta o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz. Para a
oposição, essa conexão dos fatos é uma prova concreta de que o governo Bolsonaro
foi absolutamente negligente no combate à pandemia e responsável direto pela
imensa tragédia sanitária em que o país se encontra. Em entrevista exclusiva a
VEJA, o ex-secretário confirmou que, em meados do segundo semestre do ano
passado, participou ativamente de esforços para viabilizar a compra da vacina
da Pfizer. Wajngarten guarda e-mails, registros telefônicos, cópias de minutas
do contrato e ainda afirma ter um rol de testemunhas do gabinete presidencial
que podem comprovar tudo que está dizendo. O acordo não teria avançado por
“incompetência” e “ineficiência” dos gestores do Ministério da Saúde comandados
pelo general Eduardo Pazuello, também demitido do cargo no mês passado, depois
de circularem rumores no Planalto sobre um suposto mandado de prisão que seria
expedido contra ele.
Na mesma medida em que critica o Ministério da Saúde, porém,
Wajngarten poupa o presidente da República. Afirma que Bolsonaro sempre se
preocupou com todos os lados da crise, especialmente na parte que se refere aos
mais pobres, e sempre disse que compraria as vacinas quando elas fossem
aprovadas pelos órgãos sanitários. O problema do presidente, segundo ele, são
assessores que lhe repassariam informações erradas e distorcidas. Para o
ex-secretário de Comunicação do Planalto, a pandemia pode ter impactos nas
eleições de 2022. A seguir os principais trechos da entrevista.
O que o secretário de Comunicação tinha a ver com compra de
vacinas? Fui procurado por um dono de veículo de comunicação que me disse que a
Pfizer havia enviado uma carta ao governo oferecendo as vacinas contra a Covid.
Na carta, a empresa falava do avanço de suas pesquisas, dos contratos que já
havia assinado com o governo americano e com a Europa para a venda de vacinas e
oferecia ao Brasil prioridade no fornecimento, a partir do instante em que o
imunizante fosse aprovado pelos órgãos sanitários. Liguei para a sede e me
apresentei. No mesmo dia, o CEO da empresa me retornou. Foi uma conversa
surpreendente. Ele relatou o que havia acontecido — ou melhor, o que não havia
acontecido. O Ministério da Saúde nem sequer havia respondido à carta. Sou
filho de médico e sei o que representa a tradição da Pfizer, sei quanto a
vacinação é importante e também como isso poderia implodir ou incensar a imagem
do presidente da República.
E o que o senhor fez? Me coloquei à disposição para negociar
com a empresa, antevendo o que estava para acontecer: o presidente seria
atacado e responsabilizado pelas mortes. A vacina da Pfizer era a mais
promissora, com altos índices de eficácia, segundo os estudos. Precisávamos da
maior quantidade de vacinas no menor tempo possível. E dinheiro nunca faltou.
Então, eu abri as portas do Palácio do Planalto. Convidei os diretores da
empresa a vir a Brasília. Fizemos várias reuniões. Fui o primeiro a ver a caixa
que armazenava as vacinas a menos 70 graus. Eu também levei a caixa para o
presidente Bolsonaro ver. Expliquei que aquilo não era um bicho de sete
cabeças, como alguns técnicos pintavam.
E por que as negociações não avançaram? As negociações
avançaram muito. Os diretores da Pfizer foram impecáveis. Se comprometeram a
antecipar entregas, aumentar os volumes e toparam até mesmo reduzir o preço da
unidade, que ficaria abaixo dos 10 dólares. Só para se ter uma ideia, Israel
pagou 30 dólares para receber as vacinas primeiro. Nada é mais caro do que uma
vida. Infelizmente, as coisas travavam no Ministério da Saúde.
Travavam por quê? Existiam as três famosas cláusulas
leoninas do contrato. A primeira delas, o foro para a solução de conflitos. A
Pfizer queria uma câmara arbitral de Nova York. A segunda era a isenção de
responsabilização e indenização. E a terceira era a edição de uma medida
provisória em que o Brasil garantisse com ativos potenciais danos financeiros.
Essas foram as cláusulas que dificultaram a negociação no ano passado. Houve
várias reuniões para discutir e tentar superar esses obstáculos. Cheguei a convidar
o Filipe Martins, assessor internacional do Planalto, para participar de uma
dessas reuniões com os diretores da empresa, ouvir as coisas que eram ditas, as
dificuldades que eles relatavam. Havia excesso de burocracia e pessoas
despreparadas cuidando dessa questão.
O senhor está se referindo ao ministro Eduardo Pazuello?
Nunca troquei mais do que um boa-tarde com o ministro. Seria leviano da minha
parte falar dele.
E o que o presidente dizia sobre essas negociações? O
presidente sempre disse que compraria todas as vacinas, desde que aprovadas
pela Anvisa. Aliás, quando liguei para o CEO da Pfizer, eu estava no gabinete
do presidente. Estávamos nós dois e o ministro Paulo Guedes, que conversou com
o dirigente. Foi o primeiro contato entre a Pfizer e o alto escalão do governo.
Guedes ouviu os argumentos da empresa e, depois, disse que “esse era o
caminho”. Se o contrato com a Pfizer tivesse sido assinado em setembro,
outubro, as primeiras doses da vacina teriam chegado no fim do ano passado.
Volto a insistir: se o presidente autorizou, seus principais
auxiliares concordaram e o acordo não aconteceu, o que explica isso?
Incompetência e ineficiência. Quando você tem um laboratório americano com
cinco escritórios de advocacia apoiando uma negociação que envolve cifras
milionárias e do outro lado um time pequeno, tímido, sem experiência, é isso
que acontece.
O senhor está se referindo ao ex-ministro Eduardo Pazuello?
Estou me referindo à equipe que gerenciava o Ministério da Saúde nesse período.
Não era temerário comprar uma vacina que nem sequer havia
sido aprovada pelos órgãos sanitários? É verdade que a vacina ainda não estava
aprovada pela Anvisa. Mas o Ministério da Saúde podia ter deixado as vacinas
encomendadas, armazenadas. Os Estados Unidos compraram dezenas de milhões de
doses da Pfizer. Europa e Israel também. Resultado: eles tiveram prioridade na
entrega, estão vacinando seus cidadãos primeiro, salvando vidas que poderiam
ter sido salvas aqui também.
Não caberia ao presidente da República ter conduzido esse
processo? O presidente Bolsonaro está totalmente eximido de qualquer
responsabilidade nesse sentido. Se as coisas não aconteceram, não foi por culpa
do Planalto. Ele era abastecido com informações erradas, não sei se por dolo,
incompetência ou as duas coisas. Diziam que a pandemia estava em declínio e que
o número de mortes diminuiria muito até o fim do ano.
Então a responsabilidade é toda do Ministério da Saúde? Não
me cabe apontar o dedo. Me cabe reportar o que o Palácio fez através da minha
pessoa, que anteviu o risco da falta de vacina. Falei com a República inteira a
respeito disso — com o presidente do Supremo Tribunal Federal, com o presidente
do Congresso, com o procurador-geral da República, com o ministro Gilmar
Mendes… Fiz uma peregrinação por todos os poderes. Havia uma sinergia absoluta
na mesma direção.
É fato que o governo temia que a Justiça decretasse a prisão
de Pazuello? Ouvi que havia essa possibilidade. Não sei se era fato ou
especulação. Isso foi em fevereiro, dias antes da demissão do ministro da
Saúde.
Na época em que o senhor deixou o governo, houve rumores de
que sua saída se deu, entre outras razões, por causa de choques com o ministro
da Saúde. Eu lutei muito para que a melhor vacina naquele momento chegasse aos
brasileiros no menor tempo possível. Porém, pessoas ligadas ao então ministro
da Saúde começaram a plantar notícias de que eu estaria tentando ajudar a
Pfizer por interesses pessoais. Foi a gota d’água para eu decidir sair do
governo. Eu contraí Covid, até hoje sofro com as sequelas da doença, três dos
meus melhores amigos foram intubados, dois se salvaram e um faleceu. Eu
precisava de mais motivos para tentar acelerar a compra de vacinas?
O Congresso acaba de criar uma CPI para apurar a
responsabilidade por mortes ou se houve inoperância durante a pandemia. O
governo não pode ser acusado de inoperância. Eu era o secretário de Comunicação
do governo. É minha obrigação reportar o que o Planalto fez através da minha
pessoa. Antevi os riscos da falta de vacina e mobilizei com o aval do
presidente vários setores da sociedade. Já me acusaram até de não ter feito
campanha publicitária para divulgar a importância da vacina. Como eu ia fazer
campanha de vacinação se não tinha vacina. Se fizesse, seria propaganda enganosa.
Estou tranquilo, se necessário, posso esclarecer tudo isso à CPI.
A pandemia pode fragilizar o projeto de reeleição do
presidente? Você tem duas questões fundamentais para responder a essa dúvida:
primeiro, o enlutado esquece a morte de seu ente querido? Dois, a família do
enlutado credita ao governo do presidente Bolsonaro a morte de seu ente
querido. Se a segunda resposta for não, o presidente segue firme rumo à
reeleição.
E qual é a sua impressão? Eu ainda estou estudando isso. A
máxima do presidente que eu sempre ouvi desde o início da pandemia é a das duas
ondas. Era preciso cuidar tanto da saúde quanto da economia. O governo acertou
na mosca na onda da economia. O presidente foi muito assertivo no auxílio
emergencial. Todo mundo sabe que o governo executou o maior programa de ajuda
já realizado na história do Brasil. Agora, se a resposta à segunda pergunta for
sim, ou seja, se as pessoas creditarem ao presidente a responsabilidade pelas
mortes durante a pandemia, isso pode impactar na reeleição em 2022.
Publicado em VEJA de 28 de abril de 2021, edição nº 2735
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

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