Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10
de maio de 2021
A política do ódio
O que Bolsonaro quer? Alastrar ainda mais a morte, num
contexto de fome e desemprego? Artigo do professor Denis Rosenfield para o
Estadão:
Apostar na moderação do presidente Bolsonaro e sua equipe é
mais arriscado que apostar na loteria. As chances de sucesso são muito menores.
Há uma questão estrutural em jogo, a saber: a política tal como o bolsonarismo
a compreende está baseada na oposição amigo/inimigo, perpetuamente repetida. A
sua ação se volta para a eliminação do outro, qualquer que seja, basta que seja
definido como inimigo. Se é imaginário ou real, é algo secundário, contanto que
a movimentação política se paute por esse parâmetro da ação.
Quem é amigo ou inimigo, isso é igualmente objeto de
definições flutuantes, tudo depende das circunstâncias, dos humores
presidenciais e da instabilidade emocional de sua equipe mais direta de
assessores. Não sem razão, foi ela intitulada de “gabinete do ódio”, tendo em
vista que a destruição a orienta, num tipo de pulsão de morte que por tudo se
propaga. Para que opere, o inimigo deve sempre estar lá, independentemente de
quem ele o seja em determinado momento. Os ex-ministros Gustavo Bebianno e Santos
Cruz, entre outros, mostram a volatilidade daqueles que passam a ser
considerados alguém a ser eliminado, e isso sem nenhuma consideração por
amizades e afinidades passadas.
Acontece, agora, que esse tipo de concepção da política do
ódio está inserida num contexto de morte que se alastra por toda a sociedade,
com a pandemia dizimando vidas, alastrando a doença e piorando as condições
econômicas e sociais. É a política da morte potencializando uma morte pandêmica
que já ganha conotações políticas, porque o atual governo optou por não
combatê-la, menosprezando-a, considerando a covid-19 algo passageiro e
desprezível, uma “gripezinha”. Estamos rumando para meio milhão de mortes, e
não para 2 mil, como alguns de seus “assessores” previam.
Isso se fez por omissões, não compra de vacinas nos momentos
adequados, falta de previsão, inobservância de cuidados sanitários como
isolamento social, uso de máscaras e álcool em gel, além do “receituário” de
“poções mágicas” como cloroquina e assemelhadas, em que foram gastos,
inutilmente, milhões de reais. Só se pode concluir que o Palácio do Planalto
está repleto de pesquisadores e doutores do mais alto gabarito e competência!
Os mortos agradecem...
A CPI, entre outras virtudes, está trazendo novamente todos
esses atos irresponsáveis, diria até criminosos, à tona. Ela reatualiza o que o
governo gostaria que fosse relegado, passado, expondo o desgoverno reinante.
Achar que ela seria apenas repetitiva significa desconsiderar seu efeito
político, contínuo durante toda a sua vigência, podendo estender-se por seis
meses. Ela opera cumulativamente, fazendo a memória coletiva encontrar uma
explicação para o sofrimento dos brasileiros, relembrando a incúria
governamental.
A morte do ator Paulo Gustavo por covid, por exemplo,
termina fortalecendo a CPI e sua repercussão ao estabelecer um nexo causal
entre o seu infortúnio e a irresponsabilidade presidencial. Eis por que as
redes sociais, ao repercutirem o decesso desse notável ator, puseram o próprio
presidente Bolsonaro em xeque. Mas a política do ódio pode ter efeito
bumerangue, quando a sociedade passa a ter consciência do valor da vida, do
diálogo e da pacificação das relações políticas.
A política da morte não se preocupa com incoerências e
contradições. Ao contrário, delas se alimenta, porque a destruição desconhece
limites, incluídos os lógicos, os do cálculo. O presidente Bolsonaro ora diz
uma coisa, ora diz outra, ora avança, ora recua, seguindo apenas suas
estimativas e as de sua família e equipe do que é melhor para eles no cenário
almejado de reeleição. O Brasil, a vida, o bem-estar, a saúde, a educação, o
emprego, a fome não entram em suas considerações. Exigir aqui racionalidade é
pura perda de tempo. Enganam-se os políticos e partidos que os apoiam achando
que poderão corrigir esses “excessos”. Eles são elementos constitutivos de suas
ações. A narrativa do ódio não deixa de ser coerente.
Nesse sentido, o trabalho da CPI já começa a produzir os
seus efeitos. Dentre eles, assinale-se a importância que Bolsonaro e sua
família e equipe lhe estão atribuindo, mesmo que digam que ela nada significa.
O seu próprio dizer negativo mostra a sua valorização. Um dia destes, o
presidente afirmou, no seu cercadinho preferido, onde fanáticos repercutem a
suas falas destrutivas, entre os seus amigos ocasionais, que os opositores da
cloroquina são “canalhas” e a China está conduzindo uma “guerra bacteriológica”
ou algo similar.
Embora tente o contrário, Bolsonaro exibe, aos gritos, a
importância da CPI. Ao reiterar a relevância “médica” da cloroquina, procura
expor os brasileiros ainda mais à doença e à morte, incentivando-a, ao mesmo
tempo que provoca o maior parceiro comercial, sanitário e médico do País, para
que nos retalie. Qual o seu objetivo? Reduzir a importação de vacinas e dos
seus insumos para a produção nacional? Alastrar ainda mais a morte, num
contexto de fome e desemprego?
Texto e imagem reproduzidos do blog; otambosi.blogspot.com

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