sexta-feira, 9 de julho de 2021

'Larápios lá e cá', por Paulo Roberto Dantas Brandão

Foto postada pelo blog, para simples ilustração do presente artigo.

Texto compartilhado de post no Perfil do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão, de 08/07/2021

Larápios lá e cá
Por Paulo Roberto Dantas Brandão

Lá pelo ano de 1976 ou 1977, eu repórter da Gazeta de Sergipe, estava na redação, quando um colega chegou com a notícia que um militar, de nome Argus Lima, estava hospitalizado na Clínica dos Acidentados, por causa de uma batida de carro na BR 101.  Mas Argus Lima era o nome do General de Exército que estava assumindo o comando do IV Exército em Recife.  Pelo cargo, naqueles tempos da chamada Revolução, era o Vice-Rei do Nordeste.  Era coincidência demais.  Fomos à luta, e descobrimos que era o general de fato.  Ele, a mulher e um sargento motorista haviam sofrido um acidente de carro na estrada, numa reta perto da entrada de Capela.  O sargento motorista havia cochilado no volante, e foi atingir uma Kombi na outra faixa da estrada.

Depois de tudo apurado, chegou uma nota do Exército.  Estava proibida a divulgação da notícia.  Por qual razão?  Era o que nos perguntávamos na redação.  Afinal, um general não pode sofrer um acidente de carro?  Será uma desonra para as Forças Armadas?  Era mais um dos absurdos da chamada Revolução? 

Era nada mais nada menos que um arbítrio de quem se considerava melhor que os outros.  O general, cansado do protocolo do alto comando, posto que tinha que requisitar um avião para se apresentar em Recife, pegou a mulher, o motorista, e viajou de carro, sofrendo o acidente.  Era uma transgressão, leve, mas uma transgressão.  O general Argus não queria que seu deslize fosse divulgado.

Publicamos, e o mundo quase caiu sobre nós.

Ontem, quarta-feira, o Senador Aziz, presidente da CPI da Covid, disse que “Os bons das Forças Armadas devem estar envergonhados com algumas pessoas que hoje estão na mídia, porque fazia muito tempo que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do Governo.”

O mundo quase que desabou sobre o senador.  O Ministro da Defesa e os Comandantes das três forças publicaram uma ridícula nota dizendo que sentiam-se ofendidos.  A pergunta é por quê?

Ofendidos devíamos estar nós. Cada vez que é ouvido alguém lá na CPI, surge o nome de um oficial, reformado ou não, fazendo parte de inconfessáveis negociações com vacinas.  Inconformados estamos nós, que com mais de 500 mil mortes vimos oficiais das forças armadas, comandados então por um general da ativa, em um tremendo descaso com a vida dos brasileiros, exatamente no Ministério da Saúde.

Tal qual lá na década de 1970, quando um general estava muito mais preocupado com suas transgressões leves, do que com as torturas e mortes dentro dos quartéis, os generais de hoje se dizem preocupados com a imagem das forças armadas.

Senhores generais: há malandros nas forças armadas, como há nos meios civis.  Faria um bem danado se, ao invés de saírem divulgado notas ridículas, os militares resolvessem se afastar desse desastroso governo, com pendores ditatoriais.

Só para lembrar: na década de 1960, houve em Aracaju um subcomandante do 28 BC que foi acusado de desonestidades, e foi simplesmente afastado do exército.  É assim que se age com os malandros.

Texto reproduzido do Facebook/Paulo Roberto Dantas Brandão.

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