Publicado originalmente no site do GABEIRA, em 26 de julho
de 2021
MEIA-VOLTA, VOLTA E MEIA, OS MILITARES NO BRASIL
Por Fernando Gabeira (do blog)
Civis que ocuparam o cargo de ministro da Defesa garantem
que as Forças Armadas não embarcam numa aventura golpista. Eles sabem mais do
que eu. No entanto tenho algumas dúvidas.
Não são dúvidas turbinadas pelo preconceito ou pelo
ressentimento. Como jornalista, sempre destaquei ações positivas dos militares;
no Congresso, mantive as melhores relações com assessores parlamentares das
Forças Armadas, entre eles o general Villas Bôas.
Os fatos abalam qualquer certeza. Desde a não punição do
general Pazuello até as recentes notícias sobre ameaças do ministro da Defesa,
o curso dos acontecimentos nos leva à desconfiança. É difícil imaginar como uma
sucessão de pequenas atitudes autoritárias pode conduzir a uma firme decisão
democrática, no dia D e na hora H, como diz Pazuello.
Outro dia, um general ficou bravo comigo porque critiquei
Pazuello por sua audácia ao assumir um cargo para o qual não tinha a mínima
competência. Mencionei sua obediência cega a Bolsonaro, e o general entendeu
minha crítica como uma tentativa de minar o conceito de disciplina dos
militares. E disse que era capaz de matar ou morrer pela pátria.
Na verdade, peço muito menos que matar ou morrer:
simplesmente pensar. Bolsonaro não merece uma obediência cega. Ninguém merece.
O que está em jogo é uma noção de dignidade dos militares, discussão
importante, pois, do seu prestígio, depende parcialmente a consistência da
defesa nacional.
O perigoso esporte de humilhar generais, título do artigo
que provocou a ira dos generais, continua a ser praticado. O general Ramos
soube de sua saída da chefia da Casa Civil pela imprensa e confessou que se
sentiu atropelado por um trem.
O general Mourão é enviado numa missão a Angola para
defender, em nome do Brasil, a política da Igreja Universal do Reino de Deus.
Isso não é política de Estado, e a tarefa não deveria ser aceita por um
general.
Tenho muita tranquilidade em discutir o conceito de
obediência na política. Não acho que seja uma extensão do conceito de
disciplina militar. Nisso, sempre discordarei dos generais da direita, assim
como discordei dos generais da esquerda nos longos debates sobre o chamado
centralismo democrático.
O melhor instrumento que a sociedade tem para tratar da
questão militar que aparece volta e meia é precisamente determinar uma
meia-volta: aprovar o projeto que impede militares da ativa de ocupar cargos
civis no governo. Votar logo essa proposta de voto impresso, decidir
democraticamente se o teremos ou não.
Isso não basta. Concordo com o ex-ministro da Defesa Raul
Jungmann: o Congresso é omisso ao não discutir os grandes temas da defesa
nacional. A omissão dos parlamentares passa aos militares uma sensação de
irresponsabilidade ou mesmo de ignorância em relação à dimensão do tema. Impede
que a variável ambiental tenha a importância estratégica que merece, atrasa uma
solução negociada para o futuro da Amazônia.
A fragilidade da representação política contribui também para que os militares tenham uma visão resignada do Congresso. Nos Anos de Chumbo, seus aliados eram da Arena, partido dos coronéis nordestinos; na eleição indireta à Presidência, o candidato dos militares era Paulo Maluf.
Não me espanta que o governo atual tenha se transformado
numa associação entre militares e o Centrão. A escolha ideológica sempre foi
mais importante que uma sempre anunciada recusa à corrupção.
Durante a Guerra Fria, a ideia de se unir com qualquer um
para evitar o comunismo tinha um poder maior de atração. De lá para cá, a
sociedade brasileira evoluiu, o comunismo fracassou, apesar da sobrevivência
autoritária do PC chinês.
Resistir aos impulsos autoritários de Bolsonaro dará à sociedade
brasileira mais força contra qualquer nova ameaça aos fundamentos da
democracia. O argumento ganha um peso maior se for aceito pelos militares. Ele
é a base real da conciliação.
Artigo publicado no jornal O Globo em 26/07/2021
Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira.com.br

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