Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 4 de
julho de 2021
Os sinais do naufrágio
Coluna de Carlos Brickmann, publicada nos jornais deste domingo:
Houve época, caro leitor, em que no Brasil havia mais
técnicos de futebol do que especialistas em vacinas. Todos eram capazes de
perceber quando um bom time, bem dirigido, bem colocado, tinha entrado em crise
e de repente ninguém mais acertava um passe. Na frase de Vampeta, após uma
temporada ruim no Flamengo, “eles fingem que pagam, nós fingimos que jogamos”.
Note quem cria problemas para Bolsonaro, na propina da
vacina: os mais fiéis bolsonaristas. Luís Miranda, por exemplo, nunca fez
política: era youtuber de sucesso nos EUA. Encantou-se por Bolsonaro, voltou ao
Brasil e se elegeu deputado federal. Mas em poucos anos descobriu como as
coisas funcionam. Seu irmão, servidor público de carreira, tomou uma prensa
para liberar vacinas que ainda não tinham sido aprovadas, pagando antecipado, e
sob ameaça de sofrer represálias se não concordasse. Não concordou e falou com
o irmão, que foi a Bolsonaro. E daí? Nada. Revoltou-se, botou fogo na CPI. E já
pensaram se ele tem a gravação da presidencial conversa?
O general Mourão é a chave da estabilidade do Governo. Sem
que esteja de acordo, Bolsonaro pode até querer, mas golpe é difícil. Se topar,
fica mais fácil o impeachment. Que disse Mourão para, digamos, defender
Bolsonaro? “O Ministério da Saúde sempre foi um lugar onde a corrupção andou lá
dentro, né? Então, eu vejo que isso é responsabilidade dos gestores que têm de
estar atentos a isso o tempo todo”.
Ricardo Barros está sempre atento.
Questão de estilo
Mais Mourão: “Eu nunca soube que alguma coisa estivesse
ocorrendo lá no Ministério da Saúde, né? Acredito que o presidente, quando
tomou conhecimento, acionou o ministro, o Pazuello, para que investigasse o que
estava acontecendo – que seria a mesma reação que eu teria, né?” Não é?
Cadê, cadê?
Por falar em gente do Governo que só atrapalha o Governo,
por onde anda o Onyx Lorenzoni, gauchão bravo, de facão na bombacha, que
ameaçou de perseguição o deputado Luís Miranda? Disse que a Polícia Federal,
por ordem de Bolsonaro, vai investigá-lo – não o caso, mas só os denunciantes.
Disse que ele terá de se haver com o Senhor. E também com o pessoal do Governo.
Em seguida, ocultou a roupa pichada e sumiu. Cadê?
Resumão
Escolha nas ruas de sua cidade um ônibus todo maltratado,
pneus carecas, visivelmente inclinado para um lado, um rangido de ferro por
freada, passageiros saindo irritados e xingando o motorista. É questão de
tempo.
Vacina velha, vencida
O laboratório anglo-sueco AstraZeneca trabalha com o Instituto Karolinska, da Suécia, com o Imperial College de Oxford, Inglaterra, sempre acima de qualquer suspeita. Têm fama de negociantes corretos e sólidos. Não foram eles, portanto, que mandaram 26 mil vacinas fora de validade para o Brasil. Enviaram as vacinas, mas com certeza chegaram a tempo e perderam a validade sabe-se lá por que – talvez algum acerto impossível, né? Eles só vendem direto da empresa para o Governo brasileiro.
O mesmo que, faz alguns meses, deixou encalhados testes de
Covid até que o tempo, implacável, os envelhecesse. Essas vacinas, lemos, não
fazem mal, mas não geram imunidade. Quem as tomou terá de ser novamente
vacinado. A dez dólares a dose, são US$ 260 mil. E esse desperdício é quase
pequeno perto dos US$ 400 milhões envolvidos no pixuleco das vacinas indianas.
Deixa o homem trabalhar
Problemas no Ministério da Saúde, fogo amigo – não esquecer
quem foi o primeiro a designar o filho 03 do presidente, Eduardo, de Bananinha.
Sim, foi o general Mourão, sabe-se lá por que motivo. Há a ameaça permanente de
que Luís Miranda apareça com a gravação de sua reunião com Bolsonaro. E,
faça-se justiça, Bolsonaro não desiste e não para de trabalhar: agora festeja o
que considera a inutilidade da CoronaVac.
Por algum motivo ele tem de ficar alegre, uai! “Abre logo o
jogo. Eu estou aguardando aquele cara de São Paulo falar. Não deu certo essa
vacina dele, infelizmente, no Chile. Aqui no Brasil também parece que está
complicado. Torcemos para que essas notícias não estejam certas, parece que
infelizmente não deu muito certo”.
O nome oculto nessas frases é o do governador João Doria,
que trouxe ao Butantan a vacina chinesa CoronaVac. Só que não é o Butantan que
fornece vacinas ao Chile, são os chineses. E, no Chile, houve alta de
internações, só que basicamente entre não-vacinados. Lá, diz o Governo, falta
vacinar mais.
A volta de Jade
Jade, nossa gata de estimação e analista política, volta de
longa folga. Mas desta vez é para desabafar: está com nojo dessa gentalha que
tenta enriquecer com a doença dos outros. Mil por cento a mais no preço da
vacina, um dólar de pixuleco por dose.
Quem pode garantir que o inexplicável atraso na busca de
vacinas não foi para garantir que haveria gente mais flexível nas ofertas?
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

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