Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 6 de
agosto de 2021
Bolsonaro e o TSE: uma escalada preocupante.
A menção à não realização de eleições é algo tão grave que
não se deveria tolerar nem mesmo como bravata, muito menos como ameaça real.
Editorial da Gazeta do Povo:
A disputa entre o presidente Jair Bolsonaro e o Poder
Judiciário – mais especificamente, o Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo
Tribunal Federal – ganhou novas dimensões extremamente preocupantes nos últimos
dias. Após mais uma das lives semanais do presidente da República, em que ele
retomou o tema do voto impresso auditável e de supostas fraudes em eleições
anteriores, os ministros do TSE, reunidos na segunda-feira, dia 2, abriram
inquérito administrativo contra Bolsonaro e enviaram notícia-crime ao ministro
Alexandre de Moraes, do STF, solicitando que o presidente seja incluído entre
os alvos do inquérito das fake news – Moraes também é membro da corte
eleitoral, que é presidida por Luís Roberto Barroso, também ministro do
Supremo.
A proposta de inquérito administrativo no TSE partiu do
corregedor-geral da corte, Luís Felipe Salomão, e investigará suposta prática
de abuso de poder político e econômico, uso indevido de meios de comunicação
social, corrupção, fraude e propaganda eleitoral antecipada. Já o pedido
enviado a Moraes – e por ele aceito na quarta-feira, dia 4 – se limita a
mencionar “possível conduta criminosa” da parte do presidente, mas, na decisão
em que acata o pedido da corte eleitoral, Moraes afirma que o comportamento do
presidente poderia configurar crimes de calúnia, difamação, injúria, incitação
ao crime, apologia ao crime ou criminoso, associação criminosa, denunciação
caluniosa, além de crimes eleitorais e contra a segurança nacional.
O inquérito das fake news, como já afirmamos muitas vezes
neste espaço, é uma aberração jurídica criada pelo próprio Supremo, sem
provocação do Ministério Público, sem objeto definido, no qual foi sendo
incluído todo tipo de crítica ao STF e que já levou a uma série de
arbitrariedades, como censura a veículos de comunicação e a prisão de um
deputado, em escancarada violação à norma constitucional. Em princípio, nem
haveria razão para incluir nele as críticas de Bolsonaro à votação eletrônica;
o nexo encontrado por Moraes foi a afirmação de que “quem tirou o Lula da
cadeia e quem o tornou elegível [no caso, os ministros do STF] é quem vai
contar os votos lá no TSE na sala escura” – os três ministros do Supremo que
também integram o TSE (Barroso, Moraes e Edson Fachin) votaram pela anulação
dos processos de Lula em Curitiba, mas apenas Moraes foi favorável à declaração
de suspeição do ex-juiz federal Sergio Moro, com Fachin e Barroso sendo
contrários.
Também é extremamente inconveniente a atuação dos ministros
do STF e do TSE, especialmente Barroso, nas articulações pela derrubada da PEC
do voto impresso, que tramita no Congresso Nacional, bem como as repetidas
declarações dos magistrados sobre o tema, na prática antecipando um possível
voto caso tenham de julgar o tema no futuro. Ainda que prometa acatar a decisão
do Congresso caso o Legislativo aprove o voto impresso, Barroso não perde uma
chance de criticar a proposta, portando-se como agente político quando deveria
manter a neutralidade que se espera de um juiz.
Mas, se os ministros acabam fazendo sua parte para exacerbar
tensões, muito mais o faz o presidente da República. Em vez de simplesmente
defender com argumentos a ideia do voto impresso auditável e mobilizar sua base
aliada no Congresso para aprovar a PEC, Bolsonaro lançou-se em uma perigosa campanha
com o objetivo de colocar em absoluto descrédito o sistema eleitoral
brasileiro, erodindo a confiança popular em um dos pilares da democracia
representativa. O presidente repete incessantemente as acusações de fraude
eleitoral em 2018 – quando, afirma, ele teria vencido já no primeiro, e não no
segundo turno –, mas não é capaz de oferecer as provas do que diz, o que ele
mesmo admitiu na live de quinta-feira passada, quando disse que “não temos
provas, vou deixar bem claro, mas indícios”, que consistiam na repetição de
acusações já respondidas pelo TSE em ocasiões anteriores e na menção a um
inquérito da Polícia Federal sobre uma invasão hacker ao sistema do TSE. Para
completar, Bolsonaro ainda inverteu o ônus da prova, pedindo a seus detratores
que provassem a inviolabilidade do sistema, quando na verdade é quem acusa que
deve trazer as evidências.
Como se não bastasse, Bolsonaro tem continuado a insinuar a
possibilidade de não haver eleições em 2022 se elas não forem “limpas” – e,
neste caso, quem definiria a lisura do processo seria o próprio presidente da
República, a depender de haver o voto impresso auditável ou não. Mesmo que se
queira colocar essa afirmação na conta do “estilo” de Bolsonaro, a menção à não
realização de eleições é algo tão grave que não se deveria tolerar nem mesmo
como bravata, muito menos como ameaça real – como já afirmamos, se um
presidente de esquerda trabalhasse para bloquear a realização de eleições, a
sociedade se levantaria com toda a razão e teria todos os motivos para apear
tal mandatário do poder, dado o explícito crime de responsabilidade cometido.
E, mais recentemente, o presidente deu um passo adicional ao
admitir que pode ignorar a Constituição em uma retaliação contra ministros do
Supremo. “[O inquérito das fake news] Está dentro das quatro linhas da
Constituição? Não está. Então o antídoto para isso também não é dentro das
quatro linhas da Constituição”, afirmou na quarta-feira à rádio Jovem Pan.
Nesta quinta-feira, ele voltou ao tema: “A hora dele [Moraes] vai chegar porque
está jogando fora das quatro linhas da Constituição há muito tempo. Eu não
pretendo sair das quatro linhas para questionar essas autoridades. Mas acredito
que esse momento está chegando”. Mesmo abrandando um pouco a afirmação do dia
anterior, o presidente segue admitindo publicamente a possibilidade de violar a
Constituição, ainda que para se defender de algo percebido como um abuso. É
algo de extrema gravidade, a promessa do “vale tudo” antidemocrático. A
Constituição – que o presidente da República jura manter, defender e cumprir –
é marco do qual jamais podemos nos afastar, e prevê, sim, soluções
institucionais para impasses entre poderes, que exigem senso de
responsabilidade daqueles encarregados de perceber os reais abusos e aplicar os
remédios legais.
Em vez de um debate honesto sobre como aperfeiçoar o modelo
atual, temos, de um lado, uma corte eleitoral que demonstra horror à discussão,
limitando-se a afirmar a segurança do sistema usado hoje; e, de outro lado, um
presidente que se empenha em semear a desconfiança do eleitor – e a retórica
vem funcionando, pois, em recente pesquisa CNT/MDA, 18,9% dos entrevistados
disseram não confiar na urna eletrônica, e outros 15,8% disseram ter “confiança
baixa”. E a baixa confiança da população nos instrumentos democráticos deixa a
porta aberta para aventuras autoritárias e soluções de força que deveriam
permanecer no passado.
Executivo e Judiciário, cada um a seu modo, cada um com
intensidade diferente, seguem esticando a corda, mas não há dúvidas de que a
responsabilidade maior cabe ao presidente da República, que acusa sem provar,
demonstra pouca disposição em seguir as regras eleitorais caso elas não lhe
agradem e já admite explicitamente a possibilidade de agir ao arrepio da
Constituição. Nenhuma ruptura institucional se dá subitamente: elas sempre são
precedidas por uma escalada de hostilidades e provocações, em muito semelhantes
às escaramuças destes dias entre Bolsonaro, Barroso e Moraes. Ainda há tempo de
evitar o ponto a partir do qual não há mais retorno, mas parece haver poucos
bombeiros em Brasília neste momento. Nada de bom pode vir dessa disputa na
qual, vença quem vencer, os perdedores serão a democracia e a sociedade
brasileira.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário