Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 5 de
agosto de 2021
Bolsonaro não reúne mais condições de fazer mudanças
Não há consenso em como lidar com a atração do presidente
pelo abismo. William Waack para o Estadão:
Os personagens políticos que conquistaram o poder, não
importa o método, e por mais tempo lá ficaram, também não importa como, são os
que menos sofreram da doença que acomete Jair Bolsonaro. É o conhecido fenômeno
da autossugestão, pela qual a concepção de mundo do doente vira uma crença
mística tão enraizada a ponto de que nada o convence de que possa estar errado.
Esse diagnóstico é amplamente compartilhado hoje em Brasília
nas mais variadas esferas dos poderes, incluindo a volátil instância dos
caciques políticos do Centrão e passando por quase todos os ministros do STF e
tribunais superiores, além de parte relevante do Alto Comando do Exército. As
divergências surgem quando se trata de definir como lidar com o bravateiro.
Bolsonaro não parece levar em conta fatores reais de poder,
pois acha que foi imbuído de missão divina e apenas o Todo-Poderoso decide.
Talvez essa concepção de mundo ajude a entender o fato de ele não ter
conseguido chegar a dois instrumentos clássicos para qualquer golpe:
organização política de massa e/ou capacidade de exercer violência armada. E
ter perdido (até mesmo entregado) considerável parte do poder de seu cargo para
o Legislativo e o Judiciário.
Assim, para os atores políticos “racionais” nas instâncias
acima mencionadas surge como completamente irracional o contínuo esforço de
Bolsonaro rumo à ruptura institucional, pois o mundo real da relação das forças
de poder indica que disso sairia ele como o principal perdedor. Na verdade, com
sua estatura derretendo em todos os sentidos, já é o grande derrotado, mas não
é assim que ele se vê.
Como lidar, então, com esse personagem que parece movido por
uma inexorável atração pelo abismo? Entre altos oficiais das Forças Armadas
detecta-se o sentimento de que não vão segui-lo na loucura, mas não estão
agindo para impedi-lo. Depois de contínuas afrontas, o Judiciário deu passos
concretos para contê-lo, mas o tempo consumido por inquéritos no TSE e no STF é
muito mais longo do que o tempo da política. E o PGR não acha que cabe a ele
virar a República de pernas para o ar.
Na política, que é a esfera decisiva, dividem-se os caciques
do Centrão entre os que ainda acham possível tutelar Bolsonaro, sobretudo
depois da mudança na Casa Civil, e os que desistiram dessa ambição que ninguém
de fora da família conseguiu realizar. É uma rachadura que por enquanto não se
amplia, pois, no cálculo cínico desses agentes, os poderes conquistados pelo
Centrão não mudam caso “caia a ficha” e Bolsonaro modere o comportamento. E
ficam do mesmo jeito caso o presidente continue desprezando os conselhos que
está recebendo e prossiga piorando a briga com o Judiciário.
No fundo, o que todos estão fazendo é esperar que as coisas
se resolvam por si mesmas. Não existe nos círculos de poder econômico e
político uma disposição clara – nem coordenação nem liderança nem a “massa
crítica” política necessárias – para precipitar qualquer ação de afastamento de
Bolsonaro, por mais que aumente a percepção de que ele está causando severos
danos ao regime democrático, à população e ao País.
É o que torna possível a esse personagem político seguir padecendo nessa evidente agonia interior, trazida por conspirações e fantasmas que alimentam impulsos incontroláveis – e que passou a ser a agonia de todos nós, a agonia das lives patéticas, das frases desconexas no cercadinho de bajuladores, dos raciocínios tortuosos em entrevistas, das mentiras descaradas, da omissão diante dos fatos, da ausência de compaixão, solidariedade, interesse público, projeto de futuro.
A principal agonia talvez seja a de constatar que Bolsonaro
não reúne mais condições de realizar qualquer grande transformação, a não ser
provocar uma tragédia. A boa notícia é que em história nada é inevitável.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

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