Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 12
de agosto de 2021
Perder amigos por causa da política é estupidez
Politizar todos os aspectos da vida é caminho certo para a
infelicidade. E perder amigos por causa de política (e de políticos) é uma das
coisas mais estúpidas que um ser humano pode fazer. Flavio Quintela para a
Gazeta do Povo:
Dois dias atrás eu li o tuíte de um grande amigo, que dizia
“Em poucos anos o brasileiro saiu da total apatia em relação à política direto
para a politização de todas as esferas da vida (e de todos os minutos do dia)”.
Sem sombra de dúvida, um dos tuítes mais verdadeiros que já li nos últimos
tempos.
A politização de tudo é um ladrão de alegrias. Ninguém pode
ser feliz politizando tudo. Primeiramente porque a política, via de regra, não
é fonte de virtude, especialmente no Brasil. Para nós, brasileiros, política
costuma significar sujeira, decepção e imoralidade. Nosso sistema político é um
criadouro de homens públicos maus. E, por ser o meio pelo qual a política se
materializa, ele torna a nossa política em algo cruelmente corrupto.
Quem tem princípios morais sólidos, mas alimenta a alma com
política tende a colher uma espécie de amargura melancólica constante, um sentimento
de injustiça que não desaparece. E quem não tem tanta solidez assim nos
princípios pode sofrer uma corrosão moral, mesmo que de forma lenta e gradual.
Junte-se a esse fenômeno da politização total uma pandemia
mundial e um longo período de isolamento em que perdemos o contato com nossas
pessoas queridas, e o resultado não é nada bom. Antes mesmo que o primeiro
chinês fosse diagnosticado com o coronavírus, no Brasil as amizades se acabavam
por discordâncias em relação ao governo. Há quem diga que não eram amizades
verdadeiras se acabavam por algo tão mundano, mas isso não é verdade. Muita
gente deixou que a politização invadisse os recônditos mais preciosos da alma e
manchasse coisas bonitas como amizade, amor e fraternidade.
Mas, de volta à questão do isolamento, quão mais fácil é
deixar que a posição política de alguém mexa no modo com que enxergamos essa
pessoa quando tudo o que temos à nossa disposição são postagens em redes
sociais. Em vez de enxergarmos um amigo querido, vemos apenas o recorte de suas
opiniões políticas. Tudo de que gostamos naquela pessoa faz parte agora apenas
de nossas memórias, enquanto novas memórias estão sendo construídas baseadas
apenas no que ela pensa sobre o Bolsonaro, o Lula, o STF, o Congresso etc. Um
ano e meio de pandemia depois, e o amigo se transformou em “aquele minion” ou
em “aquele esquerdista”.
Assim, as consequências sociais do isolamento em que vivemos
nesses meses todos se somam às outras sequelas terríveis da pandemia. A
imprensa conta as mortes todos os dias; de vez em quando uma história sobre as
falências e dificuldades econômicas dessa época aparece em algum jornal ou
blog; mas ainda estou para ler um texto lamentando o crescimento da polarização
política como decorrência de nosso isolamento. Talvez esse texto exista, talvez
este seja o primeiro. O fato é que precisamos colocar em prática os remédios
para esse mal.
Recentemente, recebi a visita de amigos queridos. Fazia
quase dois anos que não nos víamos. Por acaso, dois anos em que eu me tornei
cada vez mais crítico ao governo e eles, do lado oposto, cada vez mais críticos
aos que criticam o governo. Em nenhum momento brigamos por meio de WhatsApp ou
redes sociais, mas dava para sentir que havia uma tensão no ar, um desconforto
por conta de nossas opiniões opostas. Bastaram quatro horas juntos para que
tudo isso desaparecesse e todas as memórias gostosas de nossa amizade viessem à
tona. Conseguimos até achar um lugar comum em algumas questões políticas, que
acabaram sendo discutidas perto do final do encontro. Mas, acima de tudo, o que
ficou daquela noite foi a alegria de ver nossos filhos brincando juntos, as
histórias que contamos à mesa, os abraços e a fraternidade.
O encontro pessoal é um bálsamo para a amizade quebrada. É
muito fácil interpretar uma linha escrita no celular de acordo com o que
achamos que a pessoa quis dizer, e isso implica em um fenômeno demasiado ruim
de nossa época: é muito fácil interpretar de forma errada o que alguém quis
dizer numa linha de texto. Textos não têm expressões faciais, não têm
entonação, não têm presença física nenhuma. Mesmo os famigerados áudios de
WhatsApp não traduzem tudo o que uma pessoa tem a dizer para outra. Mas o olho no
olho desvenda tudo e desarma todos.
Enfim, acho que a conclusão dessa reflexão já se mostra um
tanto clara, mas não me custa deixá-la completamente explicitada. Politizar
todos os aspectos da vida é caminho certo para a infelicidade. E perder amigos
por causa de política (e de políticos) é uma das coisas mais estúpidas que um
ser humano pode fazer. Resgate uma amizade com uma visita. Você não se
arrependerá. Seu político favorito certamente cairá no ostracismo daqui a algum
tempo, mas uma boa amizade dura a vida inteira. E, por mais que pareça algo de
um passado longínquo, dê espaço ao contraditório. Ouvir gente com opiniões
diferentes das nossas é um exercício de tolerância, pluralidade e inteligência.
Ser amigo de alguém apesar das divergências é um exercício de amor. Afinal,
amigo se guarda do lado esquerdo do peito, debaixo de sete chaves. Assim falava
a canção.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

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