Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 14 de dezembro de 2021
O mal-entendido da democracia
Nos últimos três anos discutimos exaustivamente sobre os “riscos à democracia” representados por Bolsonaro. Houve teses acadêmicas sobre o “fascismo” no poder; toneladas de papel sobre a iminência de um “golpe”; profusão de manifestos “em defesa da democracia”. Cansei de ler que andávamos como a Alemanha dos anos 30, aguardando o “putsch” final de nosso führer tropical. Gente boa apostou que seria nos comícios do 7 de Setembro. Como nada aconteceu, o tédio da pequena política voltou a reinar. Alguns ainda esperam por algum fiasco como aquele do Capitólio, com malucos de chifres na cabeça tirando selfies sobre as mesas dos deputados. Acho difícil, mas, se acontecer, vai todo mundo em cana.
Ainda na outra semana foi a vez de Lula dar sua contribuição. Em uma entrevista ao El País, lascou a pergunta que já ficou famosa: “Por que a Angela Merkel pode ficar dezesseis anos no poder e o Daniel Ortega não?”. Algo espantada, a jornalista retrucou: “Mas Merkel não mandou prender os adversários”. Seu espanto define bem nossa diferença. Por aqui há muito deixamos de nos impressionar com essas coisas.
Lula diz essas coisas desde sempre, não é mesmo? Dias atrás li um artigo dizendo que o PT era “crítico do socialismo real”, nos anos 80. Podia ser crítico do “stalinismo”, e por certo não dava muita bola para o que se passava atrás da cortina de ferro. Com Cuba sempre foi diferente. Ainda me lembro do embaixador cubano aclamado (e surpreso, imagino), adentrando nos encontros do PT. E do filósofo Cornelius Castoriadis perguntando a uma imensa plateia de esquerda, em uma noite qualquer do fim dos anos 80: “Vocês acham que em Cuba o stalinismo é diferente?”. Continuam achando, ao que parece.
Vale o mesmo para Bolsonaro. Passou a vida defendendo o regime militar e nunca fez segredo de sua admiração pelo coronel Brilhante Ustra. Não recuou de suas posições na campanha de 2018 e foi eleito com 58 milhões de votos. Algum problema? De minha parte, sim. Mas desconfio que para a imensa maioria das pessoas isso não faz a menor diferença. Imaginam que a democracia não exija que um presidente seja, no fundo da alma, um democrata. Basta que se comporte como tal. Bolsonaro pode brincar de general Médici, diante do espelho, e Lula fumar charutos em Havana, nas férias de fim de ano. No mundo real, vale a rédea curta das instituições.
É evidente que as simpatias políticas afetam escolhas de governo. Quando o então chanceler brasileiro Luiz Felipe Lampreia foi a Cuba, em 1998, teve a dignidade de se reunir com Elizardo Sánchez, ex-preso político e ativista de direitos humanos. Nos anos que se seguiram, Lula comparou presos políticos cubanos a presos comuns no Brasil. Bolsonaro fez seu “alinhamento automático” ao governo Trump, com consequências de outra ordem para a política externa brasileira.
O mesmo mal-estar com a democracia vejo nas ações de nosso sistema de Justiça. Em meados do ano passado, um grupo de cidadãos foi banido das redes sociais. Acusação? Espalhar fake news, atentar contra a democracia. Ainda este ano, o TSE desmonetizou contas de ativistas contrários às urnas eletrônicas. E por agora o ministro Alexandre de Moraes proibiu o deputado Daniel Silveira de dar entrevistas. Motivo? O deputado poderia, caso falasse, reiterar suas “opiniões criminosas” contra o Supremo. O.k. Ninguém dá muita bola. Mas vamos reconhecer que é censura prévia, não é mesmo?
O ministro participou de um debate, dias atrás, dizendo que há uma nova direita, sob orientação de “ideólogos americanos”, atuando para desacreditar e “corroer as instituições”. Disse que a Constituição garante liberdade de expressão, mas com uma longa fila de vírgulas. Que ela não se confunde com “desinformação”, nem com “possibilidade de discurso de ódio” ou “ataques à democracia”.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com
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