Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 29 de janeiro de 2022
O longo e difícil aprendizado da tolerância
Aquilo me soou como uma máquina do tempo. O mundo moderno levou 400 anos para reconhecer os valores da tolerância e da liberdade de expressão. E o fez a duras penas, com base em algumas ideias básicas. A primeira delas diz que ninguém é infalível. Foi o argumento de John Milton ao Parlamento inglês, no século XVII, pedindo o fim da censura de livros. Que ninguém deve se colocar como juiz da verdade e que o melhor a fazer é deixar que as pessoas pensem com a própria cabeça.
Outra ideia vem de John Stuart Mill. Ela diz que a verdade que não é permanentemente posta à prova torna-se apenas um dogma. Eliminada a possibilidade da refutação, da “lógica negativa”, temos apenas o “formulário”. Diz também que nossas interpretações sobre o mundo frequentemente se fazem de meios-tons, misturando o erro e a verdade. Então Risério podia ter razão em muitos de seus argumentos, mesmo que alguém ache sua teoria fundamentalmente equivocada. E a expressão dos divergentes, não seu banimento, é nossa melhor chance de viver em paz, em um mundo diverso.
Essas coisas podem parecer bastante simples, na teoria, mas no mundo real são bem complicadas. Não é fácil aceitar que os outros pensam diferente. E que eventualmente estejam certos, e nós errados, por absurdo que isso possa parecer. E agir assim quando nos ocupamos das coisas mais sagradas. Não se trata de divergir sobre a política de preços da Petrobras ou sobre a lei das ferrovias. Lidamos com os temas que as pessoas percebem como essenciais. Crenças, visões sobre a família, relações de gênero, raça, ou mesmo nossa identidade, como sociedade. Temas sobre os quais estamos destinados a viver em desacordo, para o bem de nossa própria liberdade.
Jean Bodin nos ensinou algo sobre isso, 400 e tantos anos atrás. Escreveu um livro, O Colóquio dos Sete, sobre os Segredos do Sublime, em 1588, contando a história de um debate impossível à época, entre um pensador católico, um judeu, um luterano, um calvinista, um muçulmano, um filosófico naturalista e um cético. Sempre fui fascinado por aquele encontro, imaginado em um tempo no qual hereges não eram banidos do Twitter, mas queimados na fogueira. Um dos primeiros exercícios da imaginação moderna encarando o dilema do pluralismo e sua resposta difícil: a tolerância.
O diálogo enfrenta os temas cruciais: a natureza de Deus, a verdadeira religião, o livre-arbítrio. Diálogo sem concessões, mas amigável. Visões radicalmente distintas postas à mesa, sem exigir renúncia de cada um a suas posições. O que, à primeira vista, surge como apelo ao entendimento se revela, por fim, como celebração do desacordo civilizado. Cada qual lança luz sobre um aspecto da verdade. A completude, ou a harmonia, reside na multiplicidade de vozes e ideias. Diálogo feito de um secreto prazer, anunciando a melhor promessa da modernidade: a possibilidade de divergir sobre as questões essenciais e ainda assim viver juntos.
Seria possível, nos dias de hoje, conceber um encontro como aquele? Talvez trocando o católico e o protestante pelos novos protagonistas da fratura moderna, que migrou da religião para a crença ideológica? Quem sabe envolvendo um liberal, um conservador, um progressista, identitários, à esquerda e à direita, e um cético, como Antonio Risério? A composição da mesa pode ficar por conta da imaginação de cada um. A pergunta é: estamos dispostos a aceitar que ela seja posta?
É interessante como Bodin, à época em que os ventos da liberdade nem sequer eram perceptíveis no Ocidente, soube imaginar a possibilidade de um diálogo que nós, depois de mais de quatro séculos, parecemos não saber. Nós que passamos por tudo, do inferno da Inquisição à tragédia totalitária no século XX. Nós que nos jactamos de saber tanta coisa, que nos orgulhamos de viver na era do conhecimento e da democracia, agora nos dedicamos a banir os divergentes da internet e evitar que eles apresentem suas ideias com liberdade.
Talvez o aprendizado da tolerância seja assim mesmo. Difícil, sempre provisório e fadado a ser feito e refeito a cada nova geração.
Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper
Publicado em VEJA de 2 de fevereiro de 2022, edição nº 2774
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com
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