Publicado originalmente no site do JORNAL DO DIA se, em 20 de abril de 2022
Por Rian Santos*
O escândalo é uma verdadeira força motriz, capaz de mobilizar paixão e repulsa em proporção idêntica. Will Smith dá um tabefe na fuça de Chris Rock durante a cerimônia do Oscar. Ato contínuo, apoiadores e detratores de um e outro se enfrentam com a disposição de gladiadores romanos nas redes sociais, o mundo desaba.
De proveito pouco, bofetada e debates acalorados dão em nada, além de eventuais perdas e ganhos de natureza pecuniária, fatura remetida aos personagens sob os holofotes. Isso porque os grandes patrocinadores andam muito sensíveis ao humor errático do consumidor médio, o tal do populacho.
Muito barulho por nada. O muque de Will Smith, o ânus tatuado de Anitta, a mímica nazista de um desqualificado qualquer são produtos de um mercado de idéias francamente exausto. Quando um presidente eleito fala a 220 milhões de brasileiros com palavrões, murros na mesa, passagens bíblicas, convém atentar para a fadiga.
Não há pensamento novo na praça. Samarone escreve pertinente artigo sobre o lapso de razão entre colegas médicos filiados ao bolsonarismo e faz breve menção a suposta simpatia antissemita de Jung, uma controvérsia histórica. De tudo o que foi posto à mesa, no entanto, o cantor e compositor Nino Karvan subtrai o dado polêmico, a fim de promover uma verdadeira cruzada em desagravo à memória do psicanalista suíço. A julgar pelo tempo gasto no Instagram, faz dias que o amigo não trata de outro assunto.
E eu com isso? Eu, nada! De minha parte, lamento apenas que diferenças tão pequenas, irmãs da irrelevância, sirvam de pretexto para novos desgastes, novas fraturas exposta. Enquanto isso, o atraso avança sobre a cova de Jung, repouse ele no Paraíso ou no Inferno.
* riansantos@jornaldodiase.com.br
Texto e imagem reproduzidos do site: jornaldodiase.com.br

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