terça-feira, 1 de novembro de 2022

Bem vinda de volta, sua majestade a Democracia

Crédito da foto: Divulgação/Ricardo Stuckert

Coluna compartilhada do site METRÓPOLE, de 1 de novembro de 2022

Ricardo Noblat Perfil 

Só Lula 

Por Tânia Fusco

Só Lula, seu carisma e sua história teriam força e prestígio para trazer para um centro comum gente de polos opostos

De Guga Noblat

Lula não venceu – nem venceria – sozinho. Mas só ele seria capaz da façanha de reunir frente plural e real a favor da democracia no sentido mais amplo e precioso do termo. A vitória – apertada em números e gigante em significados – ensina, até pra incrédulos, que, à beira do abismo, nada é irreconciliável.

Depois de tanto sufoco, deu bom nas urnas. Bem vinda de volta, sua majestade a Democracia.

Ganhou o Brasil dos brasileiros que compreenderam a ameaça de um segundo governo dos que pretendiam refazer o país segundo sua cartilha de costumes antagônicos aos bons costumes – de respeito às leis e às diversidades todas e, principalmente, de intolerância a distancia social que permite a uns poucos comer à vontade, dormir em cama boa, trabalhar e descansar, estudar e aprender, pensar e sonhar com futuro, enquanto, nas calçadas da sua vizinhança, milhares catam descartes de ossos para aplacar um pouco da fome diária, cotidiana, renitente.

Em 20 anos o Brasil viu envelhecer, morrer, ser sufocada, desmilinguir-se ou desfazer-se grandes lideranças da política nacional. Sem substitutos. Entre outras vitórias, a campanha de Lula tem também o mérito de revelar sangue novo no fundamental cenário da política nacional – Simone Tebet é a mais evidente dessas revelações.

Mais do que menção como uma revelação, Simone merece reconhecimento pelo seu corajoso timing de, derrotada nas urnas, dizer a que veio. Ao fim do primeiro turno, foi clara e contundente: “Eu tenho lado”. Respeitosamente, demarcou tempo de decisão ao seu partido – 48 horas. Não deixou dúvida. Com ou sem seu PMDB, faria parte da Frente de luta contra um ameaçador obscurantismo nunca vivido no país.

Simone entrou pequena e desconhecida no processo eleitoral deste 2022, sai grande, conhecida e respeitada. Participando ou não do governo Lula – e será um desperdício não incluí-la -, está posta como forte nova liderança – feminina e pra além disso – da política nacional.

Hora de tirar o chapéu também pro Geraldo Alckmin e pra Marina Silva. Geraldo tem histórico de respeito e lealdade aos seus pares, como fez com Mario Covas, por exemplo. Mostrou-se parça, resistente até aos narizes tortos das internas do PT, que não foram poucos. Discreto, o futuro morador do Palácio Jaburu, foi relevante na construção da vitória, será também na construção da governabilidade para Lula.

Marina, diferente de Ciro Gomes, deixando rancores de lado, não fez figuração, mas participação efetiva na campanha da Frente-Lula. Retoma seu lugar de respeitosa e venerável figura da esquerda brasileira, fiadora das causas de proteção e boa convivência com a natureza do planeta, que vão para além da defesa do meio ambiente.

Visíveis ou invisíveis, linha de frente ou suporte, a campanha vencedora de Lula foi construída por muitos, tijolo a tijolo, contra a SS nazi do Jair – agressiva, violenta, sem pudores nem limites de grana e de ética. Foi guerra. Como os bons comandantes, Lula cresce na adversidade.

Sobreviventes do terra arrasada promovida na política brasileira pela Lavajato e seus demônios, Lula e seus apoiadores marcaram nesta campanha a importância da luta política no campo democrático.

Política não é religião de prática cega. Política é exercício de achar convergências entre divergentes. Convergências de propósitos e de princípios. Se nem sempre é assim, não significa que não deva ser assim. Sem idealização, a Frente que elegeu Lula foi assim. Juntou brasileiros e seus votos na convergência de propósitos e princípios.

Só Lula, seu carisma e sua história teriam força e prestígio para, com os tais princípios e propósitos, trazer para um centro comum gente de polos opostos. Adversários não são inimigos. Assim, em determinados momentos e circunstâncias históricas, devem estar juntos. Sempre dá certo.

“A política se baseia no fato da pluralidade humana. Deus criou o homem, mas os homens são um produto humano, terreno, um produto da natureza humana”. A definição é de Hannah Arendt, na abertura de um ensaio sobre “O que é a política”. (Passeia sobre diferenças que marcam religião, filosofia, teologia, biologia, zoologia e, claro, política. Leitura boa para os dias de hoje).

Suportando trancos, superando barrancos, o bom senso venceu a eleição mais importante da História da República brasileira. Não é pouco, não foi fácil. O país – ufa! – deve retomar o caminho de consolidar a paz e a democracia – desde 2014, tão atropeladas.

Fazendo política, na seara da política, começamos a refazer o caminho quase desandado da via democrática. Só a via política é capaz de expor coragem, corretas condutas, e revelar lideranças políticas. Simone Tebet, de voz firme e pensamento claro, hoje, espelha isso.

Lula credita a vitória ao povo brasileiro. Promete trabalhar, sem pausas, para levar comida aos pratos dos milhares de brasileiros famintos. Lula conhece de muito perto a indignidade da fome. Passou por ela.

Depois de reunir tantos, de superar barbaridades na sua vida pessoal, de driblar e derrotar demônios, em seu terceiro governo, se só conseguir reduzir a fome e encurtar (um pouco) nossas tenebrosas distâncias sociais, já valeu a luta, o choro, o sufoco. Vencemos!

Ensaios de Golpe.

Sobre caminhoneiros e a chefia da PRF. Dá um Google. Nos idos de 1955/56, milicos rebelados e seus comparsas de sempre fizeram um-de-tudo para impedir a posse de JK. O legalista General Lott, na autoridade moral, prendeu, botou pra correr e desmontou o golpe. Será Xandão o Lott de agora?

Tânia Fusco é jornalista

Texto e imagem reproduzidos do site metropolis.com.br

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